quinta-feira, maio 03, 2007

DESAFIO: O declínio e a queda

Nestes últimos dias tenho pensado muito no declínio e queda de Portugal.
Vou deixar três exemplos de como vários autores já tinha percebido tudo há muito tempo:


Lido recentemente no blog Braganza Mothers:

"Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não."

Jorge de Sena "A Portugal"



Lido recentemente em vários blogs:

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro [.]

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. [.]

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;

Dois partidos [.] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, [.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896


A que junto daqui:

"Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade."

Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)


DESAFIO:
Nem sempre foi assim ou estaremos todos muitos enganados? O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha? O que aconteceu à nação empreendedora que com mérito, coragem, saber e visão desbravou caminho pelos mares nunca dantes navegados, uma proeza semelhante às actuais viagens no espaço? O que aconteceu depois dos Descobrimentos que nos reduziu à medíocridade, à mesquinhez, à emigração, à subserviência?
Deixo aqui o desafio a toda a gente que tenha um blog dizer de sua opinião. Explicar o que aconteceu. Historiadores, cultos, incultos, gente com neurónios ou sem eles, é indiferente. Quero saber porque é que Portugal está a implodir.
Façam o vosso texto e avisem-me. Apontem-me para textos já escritos. EU QUERO SABER ISTO!


Eu começo. Os Descobrimentos foram a grande glória e o começo do fim. Como Roma e todos os grandes impérios, é no seu auge que se deve procurar as origens do declínio. As riquezas conquistadas serviram para comprar à Europa os produtos de subsistência em vez de os produzir, num movimento que, aprendi na escola, ficou conhecido por "política de transporte". Transporte do ouro de cá para lá. Regozijo do lado de lá, lazer e preguiça do lado de cá. Portugal tornou-se vaidoso e tolo, tão vaidoso e tolo que D. Sebastião decide empreender a primeira cruzada do pato-bravismo (o puto era uma espécie de street racer viciado em tuning de armaduras) com a consequente perda da independência.
Não culpo os espanhóis. Fizeram o que qualquer nação com juízo faria: aproveitar-se de uma nação que perdera o tino. E não se pode culpar os espanhóis eternamente. Já passou muita água debaixo da ponte, meus amigos.
A partir da recuperação da independência, as únicas criaturas que deixaram obra feita foram ditadores mais ou menos sanguinários. Marquês de Pombal e Salazar. Eis quem conseguiu pôr "isto" nos eixos se bem que pela força e sem democracia. Entretanto, lá fora, inventava-se o parlamento, e a monarquia constitucional, e fazia-se a revolução industrial, e rebentavam os sindicatos, e morria-se por uma causa se fosse preciso. Portugal dormia, nem sempre à sombra da bananeira. Muitas vezes ao frio. Mas dormia.
Porque dorme Portugal, é a pergunta? Onde começou este rastilho de corrupção e mau cheiro do qual o Brasil é a nossa vergonhosa obra prima? Entretanto a Europa cresceu. A Espanha cresceu. Até países de Leste nos passaram à frente. Portugal definha e envergonha-se. O que quer que tenha acontecido foi ditado após a ocupação espanhola pós sebastianista e nunca mais se recuperou a Pátria. No estrangeiro, os portugueses brilham tanto ou mais do que os nativos mas não têm hipóteses na sua terra. Que pátria é esta que desdenha o seu melhor e escolhe para a governar o seu pior, quer seja democraticamente ou através de um ditador?
Quando e porque é que começou? Porque é que não se fala do assunto? Ao descobrir a origem, o momento chave em que tudo se transformou naquilo que os autores citados dizem, estamos mais perto da cura.

Fica o DESAFIO.
Precisam-se respostas.

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5 Comentários:

Blogger Goldmundo disse...

Um dos meus temas favoritos :p

OK, gotika. Mas tem de ser mais logo, que isto requer tempo.

Uma coisa só: cuidado com as imagens do Marquês e de Salazar (não por acaso, os dois de quem se disse mais asneiras nos "Grandes Portugueses").

4/5/07 13:34  
Blogger Goldmundo disse...

Bem, tantas coisas para dizer. Vai ter de ser aos bocadinhos.

"O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha?"

Bem, não houve uma "nação determinada". No séc. XII, e nos anteriores desde que os romanos colapsaram, a questão era essencialmente militar. Coragem individual, espírito guerreiro, talvez fé e honra, que são as duas coisas que fazem com que sobreviver a todo o custo possa não ser sempre a opção a seguir. A inteligência é necessária, mas é a inteligência do lobo ou a do falcão. Ao povo, pedia-se que fosse povo: trabalhar nos campos, ter filhos, viver e esperar.

Quando surge aquilo a que agora chamamos capitalismo, ou comércio (em larga escala) as coisas tornam-se diferentes, muito diferentes. A honra do comerciante é diferente da honra do rei: trata-se de pagar a tempo e horas, de entregar a mercadoria a tempo e horas. Trata-se de cumprir contratos e não de cumprir regras morais. E aí aconteceu (não só a nós, também aos espanhóis) algo de dramático. Navegámos, e expulsámos os turcos da Índia, e uma vez um soldado português enfrentou sozinho, num bote, 22 navios de guerra do Sultão. Mas a certa altura isso não bastava.

- O D. Afonso Henriques não era "periférico" de coisa nenhuma. Quanto mais longe estivessem o Papa e o Rei de França e o Imperador menos gente ele tinha que o chateasse. Mas o comerciante de Lisboa no tempo dos Descobrimentos tem desvantagem (acesso ao crédito, acesso a mercados de matéria-primas, etc) face aos do centro-europa.

- A expulsão dos judeus (forçada por Espanha) não ajudou.

(to be continued)

4/5/07 19:16  
Blogger Silvia disse...

é sempre *desafiante* ler posts destes no teu blogue.

Amanhã.

5/5/07 00:22  
Blogger Red disse...

Das mil faces a mais discreta
Que sem ser gente, era Pessoa
Escreveu o sonho do poeta
De um portugal de fé incerta

O trono do 5º império
E o berço do mistério
Que seriam de certo
Fruto de um tempo aberto

O que o poeta não sabia
Mas eu vou-lhe contar um dia
Que passados 100 anos de História
Não se avista uma glória.

Maldito sejas poeta
Maldito sejas Pessoa e gente
Maldito sejas por seres crente
Num pais que anda doente

5/5/07 16:34  
Blogger gotika disse...

Goldmundo, estava à espera do resto.
Não interessa tanto como começa a nação mas mais o "milagre" de ter sobrevivido independente por tanto tempo.
Não chegaste ao fim, ficaste pelo meio da meada, mas não é pelo capitalismo que se explica o miserável declínio em que o país entrou após os descobrimentos. Dizes bem, também os espanhóis, e os ingleses e holandeses, andaram pelos mesmos mares. Muitos países europeus tiveram colónias no novo mundo. E isso não os afundou. Então, o que nos afundou a nós? Se não fosse a Europa éramos mais uma Roménia.

9/5/07 01:50  

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