terça-feira, 26 de março de 2013

Gotika: arquivos Abril 2004

abril 19, 2004

Um filme: “Os Dias do Fim” (End of Days), de 1999 + “Aracnofobia”



Já aqui falei deste filme, especialmente por comparação com os efeitos especiais de ”Stigmata”. Sim, “Stigmata” é posterior (2001) e alimentou-se bem das explosões em 3D, das igrejas a arder, da cenografia católica e até de um bocadinho do argumento de “Os Dias do Fim”. Gosto destes filmes que tratam do diabólico porque todos os filmes sobre o Diabo acabam por ser filmes sobre Deus, sobre a Fé.
“Os Dias do Fim” explora bem toda uma mitologia cinematográfica que terá um dos seus esplendores em “Rosemary’s Baby” de Roman Polansky (aliás, repare-se na semelhança do argumento: a jovem inocente que é escolhida por uma seita de adoradores do Diabo para ser a mãe do filho de Satanás) outro em “The Omen” - penso que traduzido para português como “O Anticristo” - em 1976 (que revelava já o nascimento e crescimento de um rapazinho diabólico chamado Damien e as sequelas em que Damien, filho do Diabo, o Anticristo, tenta levar o mundo à destruição através da fundação de um partido político-religioso que faria o nazismo parecer inocente) e, claro, os três episódios de “O Exorcista”.
“The End of Days” é mais uma continuação de toda essa cinematografia pré-apocalíptica que vai beber às fontes da Revelação onde a Bíblia a deixou. É claro que é um filme do seu tempo - mais acção do que pensamento - e bastante adaptado ao herói Arnold Schwarzenegger. Desta vez, não tão poderoso como é costume apresentá-lo, Schwarzenegger é um ex-polícia que trabalha em segurança privada depois do assassinato da mulher e filha, um homem amargurado, alcoólico e suicida. Envolvido na investigação do desaparecimento de um banqueiro de Wall Street, chega até Christine, a jovem inocente escolhida para gerar o filho do Diabo. Esta tentativa diabólica de fazer um filho humano repetir-se-ia todos os anos acabados em 999 (o inverso de 666). Logo, 1999 era o ano em que mais uma vez pairava sobre as nossas cabeças a ameaça do fim do mundo. O Diabo é muito bem interpretado por Gabriel Byrne - como eu já não via desde Robert de Niro a comer o ovo perante um perplexo Mickey Rourke em “Angel Heart”: “O ovo é o símbolo da alma” (olha o que eu faço às almas...)
Na sua simplicidade de fast food, a cena da tentação de Jericho (Schwarzenegger) está mesmo assim muito bem conseguida. Nada como o terror do “Exorcista I” e “Exorcista III”, mas um Diabo de fato e sobretudo de marca, um smoking cigarette man à “Ficheiros Secretos”, oferecendo, enfim, “Diga-me o que quer e eu dou-lhe”. A tentação na sua essência mais pura, como foi apresentada a Cristo no Deserto. Por um preço, mais ou menos alto, mas por isso é que a tentação se chama tentação.
Aliás, muito longe disto tudo mas tão bom que se torna incontornável, fica aqui também a referência à “Última Tentação de Cristo”, de Scorcese.
De volta aos “Dias do Fim”, é interessante como o ambiente em torno de Christine é luxuosamente opressivo, recordando novamente “Rosemary’s Baby”, e como todos os que a rodeiam se revelam adoradores do Diabo. Até os polícias. E naquela mobilização de adoradores satânicos, cheira-nos ao “Príncipe das Trevas”, de Carpenter.
Um argumento tão bem construído a partir destas referências de sucesso não podia ser completamente mau, mas também não podia ser completamente bom. Desmontando as peças do puzzle, apetece pedir a alguém na RTP que volta a passar os filmes que citei - e eu sei que eles os têm! - como “The Omen” e “Rosemary’s Baby”, sim, principalmente os mais antigos. Porque não pela madrugada dentro? Sempre era uma alternativa às “Vidas Reais” da TVI.
Isto agora não tem nada a ver com o filme mas se eu vi os clássicos dos anos 40 e 50, por exemplo, com o Fred Astaire e a Ginger Rogers, foi porque os passaram há muitos anos, era eu miúda, durante as férias do Natal e da Páscoa, à tarde. Nem toda a gente tem cabo. *suspiro* Isso sim, era serviço público, divulgar o cinema com um sentido de História. (Fui uma criança privilegiada, já percebi.)
De regresso aos “Dias do Fim”, afinal nem Schwarzenegger derrota o Diabo impunemente... O sacrifício repete-se.
E o fim foi roubado ao “Exorcista I”. Só para que conste. Mas, enfim, filmes destes servem para entreter... quando se acabar a leitura de Anne Rice.

Atenção: sortudos que têm o canal Premium, vai passar “A Rainha dos Malditos” na terça feira, dia 20, às 20 horas. Agora não digam que não avisei. Ando a ver se cravo a alguém que me grave o filme, finalmente, porque EU mereço! (Não duvidam que mereça, pois não?)


E já agora, comenta-se também o “Aracnofobia”

Hoje estava previsto na TVI passar o filme “A Praia”, ao qual eu também tenho feito alusões contínuas sem ainda ter escrito uma análise mais aprofundada, mas em vez disso estão a dar - neste preciso momento e pela milionésima vez - o “Aracnofobia”.
Bem, tendo visto a coisa umas 10 vezes, posso passar sem a décima primeira para vos contar a história. Então é assim: primeiro aparecem muitas aranhas, depois aparecem ainda mais aranhas, e muitas muitas muitas mais aranhas e ainda mais aranhas. O Jeff Daniels é um ganda pão. Gostava de ser o aranhão que lhe trepa pelas pernas acima.
Está feita a crítica.

Publicado por _gotika_ em 02:30 AM | Comentários: (6)


abril 25, 2004

Novo coven

Os góticos de Lisboa podem estar contentes.
Depois de uns meses ao abandono das ruas dispersas, já temos um espaço novo, diferente de tudo o que tivemos até aqui mas talvez o melhor até agora.
Não vou dizer qual o estilo da arquitectura do sítio para não sair asneira, mas é de facto a arquitectura original. Parece feito de propósito.
Obviamente não vou revelar o nome ou morada do local. Já aqui disse que não gosto de ver curiosos no meu espaço. As roupas, o (mau) comportamento, a maneira de dançar... São incomodativos. Não quero de modo algum que o gótico fique "na moda".

Aos frequentadores do sítio quero deixar uma mensagem que, afinal, pode ser estendida a toda a gente: Nunca dêem o que têm como garantido. Aproveitem-no como se fosse o último dia. Dêem valor ao que têm enquanto o têm porque nunca se sabe quando o vamos perder.
Carpe diem. E acima de tudo, a noite.

Sobre a palavra "coven": Ainda não me consegui lembrar do sinónimo em português para "coven", termo que expressa a ideia de "companhia" e é habitualmente aplicada aos grupos de praticantes de qualquer tipo de religião oculta.

Publicado por _gotika_ em 08:33 PM | Comentários: (15)

1 comentário:

Fashion Faux Pas disse...

Esperava algo do Rosemary's Baby que não obtive. O meu pai foi ver esse filme ao cinema estava a minha mãe grávida, anos mais tarde era eu já moça feita e partilhando com ele do gosto por filmes de terror, enquanto viamos o The Omen, confessou-me que o seu preferido era esse mesmo Rosemary's Baby porque o viu numa latura em que aquilo mexeu muito com ele - católico profundo de convicções mas não practicante começou logo a imaginar o que seria ser o pai no papel do filho do diabo... Os Dias Do Fim tem o Ahhhnold, que eu confesso marcou a minha adolescência ao ponto de eu fazer questão de ver tudo o que ele fazia, e tem Mr. Byrne, que dispensa palavras - o facto de dizer Mr. Byrne, diz tudo *sigh*. Gosto do filme, tal como gostei do Stygmata, mas... é o que é, já não há filmes de terror. Já se falarmos no John Carpenter, e nesse filme de culto que é O Principe das Trevas, fui vê-lo ao cinema no dia da estreia, tinha 15 anitos, eu mais a minha amiga metaleira acompanhadas das minhas amigas do bairro e da minha irmã, da irmã dela, enfim, um bando de pitas malucas as quais convencemos a porem-se de pé connosco e a aplaudirem mal o Alice Cooper aparecesse em cena. Foi um momento impagavel de lindo, mas acho que já o tinha referido por aqui... também cresci a ver filmes dos bons tempos de Hollywood dos anos 30, 40 e 50. Hoje em dia quase ninguém grama esses filmes, e eu ainda assim todos os natais me ponho a ver a Judy a cantar "Have yourself a merry little xmas"...