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domingo, 7 de junho de 2026

Talamasca: The Secret Order (2025)


A Talamasca é uma organização secreta e milenar que estuda o sobrenatural, nomeadamente as bruxas e vampiros do universo de Anne Rice. A Talamasca sempre foi fascinante, mas descobrir a sua verdadeira origem, nos últimos livros das Vampire Chronicles, tornou-a ainda mais interessante. (Um nome apenas: Gremt)
Fiquei muito entusiasmada quando descobri esta outra série criada a partir dos livros da autora. A Talamasca é uma organização que vamos conhecendo ao longo das Vampire Chonicles e Mayfair Witches e, ao contrário destas, não tem nenhum livro que lhe seja dedicado. Isto permite uma liberdade criativa única. Os argumentistas podem desenvolver personagens dos livros ou, pelo contrário, criar personagens e histórias completamente novas.
Foi o que aconteceu neste caso. Guy Anatole, um jovem advogado com poderes telepáticos, é abordado por Helen, uma operacional da Talamasca, para que se junte à organização. Guy não tem qualquer motivo para fazê-lo até perceber que a sua mãe, que ele julgava morta, era na verdade uma agente da Talamasca que por alguma razão teve de fugir e esconder-se. Guy aceita a missão na tentativa de encontrar a mãe, o que o leva à sede da Talamasca em Londres, onde o vampiro Jasper usurpou o poder. Jasper e Helen andam à procura do misterioso 752, que poderá ser um livro, ou um microfilme, ou um artefacto completamente diferente, que reúne todo o conhecimento que a organização compilou durante séculos.
Jasper também tem estado a criar uma espécie de vampiros "imperfeitos", mais "zombificados" e acéfalos, que Anne Rice introduziu no primeiro livro, "Entrevista Com o Vampiro". Anne Rice desinteressou-se deste tipo de vampiro, aparentemente, porque nunca mais o retomou, e se calhar fez muito bem porque os temas das Vampire Chronicles são mais profundos do que isto, mas o facto é que estes monstros resultam muito bem na televisão.
Do que sei, sem ter lido as Mayfair Witches, e do que vi nas críticas, são todos personagens novos (excepto dois, que só entram em curtas passagens, que também aparecem em "Interview With The Vampire"). O subplot de Helen recorda vagamente o enredo das gémeas e de Jesse Reeves em "The Queen of the Damned", mas apenas como paralelismo. A série desenrola-se como uma história de espionagem/policial, sem que isso interfira com o aspecto sobrenatural das personagens. E gostei, gostei muito, mesmo sem conhecer os personagens de lado nenhum.
Fiquei sinceramente chocada e perplexa quando soube que a série foi cancelada após apenas a primeira temporada. De todo o universo de Anne Rice adaptado pela AMC, "Talamasca: The Secret Order" era a série que tinha mais potencial de desenvolvimento. Como disse, a Talamasca é uma organização que estuda o sobrenatural há mais de mil anos. Os personagens podiam ser novos ou conhecidos, ou uma mistura de ambos, interagindo igualmente com os imortais dos livros ou outros que viessem a ser apresentados, incluindo até flashbacks a outros séculos. Só o manancial de criaturas e fenómenos sobrenaturais que podiam ser abordados é inesgotável. Basta pensar que a Talamasca é uma mistura de X-Files com os Homens de Letras de "Sobrenatural", mas com todo um requinte académico e britânico, e que os próprios membros da Talamasca incluem vampiros, espíritos, bruxas, telepatas e outros mortais com poderes especiais. Acresce a isto que a Talamasca tem casas-mãe em várias partes do mundo, o que até daria panos de fundo diversificados e internacionais se fosse esse o objectivo.
Não sei o que aconteceu, se "Talamasca: The Secret Order" não teve audiência suficiente ou se a AMC estava com problemas de orçamento e preferiu investir nas Vampire Chronicles ou nas Mayfair Witches. Não encontro nenhuma razão para cancelar esta série, fosse com um enredo derivado da primeira temporada ou adoptando um formato de antologia nas seguintes. Com uma organização como a Talamasca, até o monstro-da-semana resultava (embora eu, muito pessoalmente, esteja farta desse formato e não o recomende). A questão é que não faltavam histórias, opções e personagens. E nem sequer estou a falar de Gremt, mas adorava tê-lo visto.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Anne Rice, Vampire Chronicles, Mayfair Witches, vampiros, bruxas, sociedades secretas, espionagem, policial, sobrenatural, terror


domingo, 29 de março de 2026

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?) [segunda temporada]


Gostei mais da segunda temporada de "Interview With The Vampire" e vou dizer porquê. Se a primeira temporada parecia outra adaptação do livro ponto por ponto, só que um século mais tarde e com personagens ligeiramente diferentes, na segunda já se percebe que é toda uma adaptação das Vampires Chronicles, incluindo "The Vampire Lestat", "The Vampire Armand", e até livros posteriores como "Merrick" ou "The Queen of the Damned". Assim já se compreende que tenham sido tomadas bastantes liberdades de modo a tornar o fluir da narrativa mais adequado a uma série de televisão, mas questiono algumas escolhas que deturpam e desvirtuam o original.
A começar pela própria natureza dos vampiros. Não consigo aceitar a opção de sexualizar os vampiros como se isto fosse um Young Adult qualquer, quando aquilo que sempre distinguiu os vampiros de Anne Rice foi a sua existência transcendente e "fora da natureza", o que é um aspecto importante e distintivo deste universo vampírico. Igualmente importante é a questão de abdicar do prazer sexual em troca da vida imortal, o que é compensado pelo êxtase superior do sangue, inimaginável para nós humanos. Isto é tão importante que Marius pergunta explicitamente a Armand, antes de o transformar, se está disposto a viver sem o prazer carnal. Não há sexo entre os vampiros, e humanizá-los é banalizá-los. Se calhar é preciso ter lido os livros para compreender a relevância deste ponto no original, mas tenho a certeza de que também funcionaria na série tal como funcionou no filme. Até já ouvi a teoria de que Anne Rice não incluiu homossexualidade explícita para não ser censurada. Balelas. "Entrevista Com o Vampiro" foi publicado em 1976, um livro para adultos, e Anne Rice sempre incluiu o sexo que quis. Aliás, basta ler os livros.
Quanto à adaptação em geral, na segunda temporada algumas coisas são fiéis ao original, outras não, e algumas até me confundiram e tive de ir consultar o enredo dos livros para tirar as dúvidas. Por exemplo, não me lembrava dos diários de Claudia, e com razão, porque só aparecem em "Merrick". Foi uma boa opção inclui-los no contexto da entrevista com Daniel Molloy.
Por outro lado, Louis e Claudia fazem a viagem pela Europa que foi excluída do filme. Depois de atacarem Lestat, Louis e Claudia vão em busca de outros vampiros que lhes ensinem o que Lestat lhes escondeu, e começam precisamente pelas terras da Roménia e arredores, onde há mitos de vampiros. Não me lembro muito bem do que aconteceu no livro porque é quase uma nota de rodapé, mas efectivamente encontraram um tipo de vampiros "imperfeitos" e monstruosos. Isto não foi muito importante no livro, mas na série a viagem acontece durante a Segunda Guerra Mundial, o que fornece logo um pano de fundo bastante mais interessante. 
Quase se pode considerar que a série é uma espécie de história alternativa com os mesmos personagens, ou, em alguns casos, personagens inspirados nos originais.
Por falar nisso...

Lestat
Sam Reid é o melhor Lestat até ao momento. E não é fácil interpretar Lestat, um personagem complexo que tanto seduz como intimida. Tom Cruise conseguiu capturar o aspecto frívolo e narcisista que Louis descrevia, Stuart Townsend fez um bom trabalho como rock star, mas Sam Reid consegue de tal modo encarnar a totalidade do personagem que até arrepia vê-lo no écran. A presença felina de um leão. Encantador, fluido, letal, convencido, poderoso, atormentado, vulnerável, Lestat é tudo isto e mais. Pergunto-me se Sam Reid leu os livros todos ou de que outro modo se preparou, e queria mesmo saber e fazer-lhe a pergunta.
Quanto a Louis, e alguns fãs que me perdoem se preferiam um Louis menos macambúzio, o verdadeiro Louis foi mesmo encarnado por Brad Pitt e contra factos não há argumentos. Nesta segunda temporada também temos o incêndio no Teatro dos Vampiros, mas nada bate a imagem icónica de Brad Pitt entre as chamas.

Louis / Armand / Lestat
Louis e Armand fazem um casal muito fofinho e adorável, mas nunca aconteceu. Depois do Teatro dos Vampiros, Louis e Armand realmente fogem juntos e são companheiros por umas décadas, e acabou. Algumas décadas, em anos de vampiro, é o equivalente a um ano ou dois, se tanto. Se a relação foi mais do que amizade, e é tão irrelevante que nem me lembro, não teve qualquer importância. Louis e Armand estavam ambos fragilizados e a precisar de um ombro amigo. Não me lembro de Armand alguma vez ter expressado paixão assolapada por Louis, e Louis sempre esteve noutra (noutro) e nunca deixou de estar. Nos últimos livros, Louis está efectivamente a viver na casa de Armand em Nova Iorque, mas com isto quero dizer "abancar" e não "viver juntos", aliás, como outros vampiros da intimidade de Armand que também lá moram por ser mais prático. Lestat tinha regressado a New Orleans, e, se bem me lembro, Louis não queria voltar a viver lá, precisamente por causa das memórias de Claudia, embora estivessem ambos de boas relações.
Por falar em Lestat, se alguma vez Lestat e Armand foram amantes teria sido "uma por piedade" da parte de Lestat. Este é um dos conflitos mais relevantes das Vampires Chronicles e central à motivação que levou aos acontecimentos de "Entrevista". Armand conheceu Lestat no século XVIII e ficou muito impressionado, talvez até apaixonado, ou pelo menos apaixonado pelo ideal de liberdade que Lestat representava, mas Lestat não correspondeu. Armand, por despeito, e talvez ciúme de Louis e Claudia, faz o que faz para atingir Lestat. Por seu lado, Lestat sempre escondeu a existência dos vampiros europeus de Louis e Claudia precisamente para os proteger. Só sabemos isto nos livros posteriores a "Entrevista".
Nos livros, Lestat chama a Armand "a harpia", o que é bastante revelador. A série mostra um pouco desta faceta "harpia" de um dos personagens mais perigosos e maquiavélicos das Vampires Chronicles, mas nada que se compare aos livros. Até acho o Armand da série bastante simpático, alguém que age por amor e com quem é fácil empatizar.
Aqui, Armand é na verdade Arun, de Nova Deli (ele diz Deli e não conheço outra), mas nos livros Armand é Andrei, de Kiev. Isto pode não ser relevante se a série preferir não abordar os traumas religiosos de Armand como devoto da Igreja Ortodoxa. Aliás, foi esta cultura cristã que o levou a defender as ideias medievais de que o coven Children of Darkness, o seu clã antes do Teatro dos Vampiros, tinha por missão divina servir a Deus praticando o caminho do Diabo.
De certa forma, compreendo que fazer de Louis e Armand um casal que só se desfaz no fim da entrevista com Molloy, levando Louis a regressar a Lestat, é uma opção narrativa como qualquer outra que funcione num contexto de série. Nos livros, tudo isto demorou séculos. Mas o que vemos na série não é a história original, e, em certos pontos importantes, na minha opinião, afasta-se demasiado dela e perde muito ao fazer isso. Ninguém vai ficar a conhecer a história e a compreender os livros a partir desta série, nem lá perto.

Teatro dos Vampiros e Claudia
E por falar em Teatro dos Vampiros, tinha muitas dúvidas de que isto resultasse num pós-guerra do século XX, mas a série conseguiu mostrar um teatro entre o burlesco e o avant-garde, e o facto é que fiquei convencida. O actor Ben Daniels (a quem eu já conhecia de "O Exorcista", série) faz um papelão como Santiago e vende aquilo tudo.
Já quanto a Claudia, continuo não convencida. Tal como referi na critica à primeira temporada, não faz sentido que o argumento de Armand e dos outros vampiros seja "demasiado nova para existir por conta própria". Aqui Claudia tem 14 anos e o próprio Armand foi transformado algures antes dos 17, motivo pelo qual lhe chamam "o querubim eterno" (e motivo pelo qual Antonio Banderas foi um erro de casting). O argumento não colhe. Podiam ter explorado melhor o conflito precedente que expus acima, mas aqui a série andou completamente a patinar. Afinal, Armand queria ficar com Louis ou estava-se nas tintas se ele fosse condenado à morte? Porque se queria ficar com Louis, Armand, a harpia, o mestre manipulador, teria traído o coven todo antes que o coven pensasse em traí-lo. Não se manipula Armand; Armand é que manipula tudo e todos. A série não está a fazer justiça ao personagem.

Akasha
E aqui está outro mau exemplo de manobrar a história para a "comprimir". A certa altura, na série, Armand e Louis vão os dois matar Lestat. Isto nunca aconteceu. Lestat diz-lhes que não lhe podem tocar porque ele tem o sangue de Akasha. Isto muito menos. Eles sabem que ele tem o sangue de Akasha. Estavam lá os três e quase morreram todos. E Akasha nunca mais é mencionada nem explicada, ainda por cima, a Rainha dos Malditos que tem dois livros, um filme, uma das melhores bandas sonoras jamais realizadas, e milhares de pessoas pelo mundo inteiro a porem o seu nome aos animais de estimação. E Akasha é assim tão vilmente descartada numa cena que nunca aconteceu nem tinha razão para acontecer. Mais um momento em que a série andou a patinar.
Se Lestat já tinha o sangue de Akasha na altura, isso significa que ela já tinha despertado, ou talvez Lestat tivesse sido levado ao Santuário por alguém como Marius? Isto é importante porque ter conhecimento acerca de Akasha (que Lestat não tinha na altura) altera a dinâmica das Vampire Chronicles. Será que ainda vamos ver Akasha despertar (como no filme), ou será que vão transformá-la numa personagem completamente diferente para nos trocar as voltas? E as gémeas? Confesso, neste caso gostava que as gémeas tivessem uma história diferente porque nunca fui grande fã delas nos livros. Mas aquela história no Egipto, isso é para manter! Duvido que mantenham porque é muito chocante. E já agora também podiam dar mais profundidade a Akasha. Sempre achei que aquela motivação de vilã de "matar os homens todos menos Lestat e ser adorada como rainha do Céu" era muito fraquinha. Aliás, "A Rainha dos Malditos", apesar de ter tanta acção, é um dos livros mais fraquinhos da saga. Ora aqui está um caso em que a série me podia agradar e surpreender se desse mais tridimensionalidade às personagens.

Anne Rice só houve uma
Apesar de tudo, não estou completamente pessimista para a terceira temporada. A série teve boas ideias, como o hobbie de fotografia de Louis (se ele desistiria tão facilmente é que já não acredito) ou a presença de um agente da Talamasca. Eu não esperava um agente da Talamasca, mas quando Daniel Molloy pergunta "a que agência é que você pertence, é demasiado pálido para ser Mossad", cheguei logo lá. Isto é ser uma ultra-fã ou, como dizem os miúdos agora, uma nerd. Este agente da Talamasca é Raglan James, e não vou dizer mais nada por causa dos spoilers. Eu queria ver isto, queria mesmo ver isto, embora eu própria concorde que o livro em causa não pode ser adaptado sem modificações.
Se a segunda temporada foi melhor, em abrangência e tom, será que a terceira acerta? Também não estou assim tão optimista. As histórias de Anne Rice são o chamado "character driven", histórias conduzidas pela personalidade da personagem e não ao contrário, e quanto mais alteram as personagens mais riscos correm de criar inconsistências com o original se não partirem para uma história completamente alternativa (o que foi o problema no caso de Claudia, que ficou mal vendido). Criar uma boa história alternativa com estas personagens não é impossível, mas não é para toda a gente. Façam o fan fic que quiserem, mas façam-no bem, e sim, esta série é completamente fan fic. Como disse aqui de outra série, ou vai ser muito bom ou vai ser muito mau. A culpa não vai ser do original.
Por último, regresso a Santiago para sublinhar uma coisa que a série fez bem. Para quem nunca leu os livros, reparem em como Santiago e Armand oferecem a morte como uma tentação sedutora. A vítima deixa de o ser e entrega-se voluntariamente à ideia de que uma morte consciente, uma morte suave e sem dor, é melhor do que uma vida de sofrimento. Os vampiros não fazem isto com hipnose mas com factos e filosofia. E naquele momento o visado rende-se e deseja a morte, e foi esta perspectiva sombria, mas lúcida, que fascinou milhões de fãs das Vampire Chronicles. Não é para toda a gente, mas a série conseguiu transmitir isto.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, mas eu vi duas

PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, Anne Rice, Vampire Chronicles, Interview With The Vampire, The Vampire Lestat, The Vampire Armand, etc

 

domingo, 12 de outubro de 2025

Fevre Dream, de George R. R. Martin (1982)


Fiquei muito curiosa ao saber que George R. R. Martin tinha escrito uma história de vampiros. Já que não vou pegar de todo em "Guerra dos Tronos", foi também uma oportunidade de conhecer o estilo do autor.
No Mississípi, antes da Guerra da Secessão, Abner Marsh é um armador à beira da falência a quem o misterioso Joshua York faz uma proposta duvidosa: construir o barco mais rápido e mais luxuoso do rio. Em contrapartida, Joshua York quer ser o capitão e não quer responder a muitas perguntas. Abner Marsh é um homem de meia-idade que perdeu muitos barcos no Mississípi. A tentação de voltar a ter um barco majestoso que vença corridas é irrecusável, e é assim que aparece o Fevre Dream, barco baptizado a partir de um afluente do grande rio (o Fevre, que não é erro ortográfico mas que custa muito a escrever desta maneira).
Ia a um terço do livro quando me apercebi de que ainda não sabia qual era a história. Em contrapartida, nunca pensei ler tanta coisa sobre barcos, sobre partes de barcos como as pás e os conveses, sobre corridas de barcos, sobre o negócio dos barcos, sobre a pintura dos barcos, sobre a velocidade dos barcos. Isto só não foi inteiramente chato porque vamos tendo cenas de um clã de vampiros liderados por Damon Julian (Olá "Diários do Vampiro"!), ainda não relacionadas com o argumento principal, em que os vampiros fazem vampiragens sangrentas. A história propriamente dita só começa a meio do livro, quando percebemos que Joshua York aperfeiçoou uma bebida de álcool e sangue que elimina a necessidade de matar (um pouco o conceito de "True Blood") e deseja fazer do Fevre Dream um local de paz e harmonia entre vampiros e humanos, ideia que Damon Julian abomina veementemente por uma questão de princípio.
Vou já ao ponto, os vampiros são Riceanos. Depois de Anne Rice, é difícil fugir à influência. As cenas entre vampiros pareceram-me muito familiares e "confortáveis" por causa disso. Damon Julian lembrou-me Armand, calculista e frio, nos dias do Théâtre des Vampires. Logo, senti-me em casa. Tirando esta semelhança aparente, estes vampiros de George R. R. Martin são maniqueístas, não são o poço de profundidade dos vampiros de Anne Rice. Joshua York é o vampiro bom, Damon Julian é o vampiro mau. O conflito é Homem vs Homem (leia-se vampiro contra vampiro), enquanto que o conflito em Anne Rice é Homem vs Ele Próprio. O tema de "Fevre Dream" é a luta do Bem contra o Mal, não existe a introspecção existencial que encontramos em Anne Rice. Não estou a dizer que devesse existir, estou apenas a apontar as diferenças.
Outro detalhe que achei muito interessante neste universo é que os vampiros não são transformados, são nascidos de pai e mãe vampiros de uma forma mais ou menos "tradicional". Achei muito interessante porque aqui Martin afasta-se do género do Terror clássico em que os vampiros são criados por meios sobrenaturais e aproxima-se do terreno da Fantasia com a invenção de uma nova espécie. De igual modo, e apesar de possuírem a lendária auto-regeneração, a capacidade de hipnotizar e uma força sobre-humana, estes vampiros também podem ser mortos de maneiras normais (embora sejam difíceis de matar).
Mas o protagonista da história é mesmo Abner Marsh, a quem eu descreveria como um paz-de-alma e boa pessoa, que de repente se vê no meio de uma guerra de vampiros. Abner Marsh não é exactamente o tipo de personagem que me cative, especialmente no primeiro terço do livro em que só se fala de barcos. Ficou tudo muito mais interessante quando comecei a imaginar George R. R. Martin neste papel. É que assenta como uma luva. Lá para os dois terços do livro é impossível não torcer por ele, mas demorou-me a estabelecer empatia.
Como disse acima, "Fevre Dream" pode não ter a profundidade psicológica de Anne Rice, mas apreciei a componente filosófica que também se encontra nas Vampire Chronicles. Damon Julian, o vampiro mau, faz paralelismos entre o vampirismo e a escravatura: como é que acusam os vampiros de cometerem crimes quando os próprios seres humanos se exploram uns aos outros? E pergunta a Abner Marsh, um grande comilão: qual é a diferença entre os seres humanos e o gado? Perguntou a essa vaca que acabou de comer se ela concordava em ser comida? Devo dizer que não deixo de compreender a posição de Damon Julian, e este foi o momento mais moralmente cinzento do livro, que de novo me remeteu a Anne Rice.
Aconselho "Fevre Dream" a todos os amantes de vampiros, uma história de escolhas e coragem e de vampiros tendencialmente Riceanos. É preciso é ultrapassar um terço do livro sobre barcos e o Mississípi, e descrições de barcos e do Mississípi. Mas, por outro lado, para quem quiser conhecer melhor este Mississípi desaparecido, também é aqui.


domingo, 8 de dezembro de 2024

Mayfair Witches (2023 - ?)

 

Apesar de ser uma completa fanática das Vampire Chronicles de Anne Rice, nunca consegui interessar-me o suficiente pelo universo das Mayfair Witches e nunca li nenhum livro da saga. Dito isto, não consigo avaliar até que ponto esta série respeita ou não o original, excepto por alguns pormenores.
Em “Mayfair Witches”, Rowan, uma cirurgiã em ascensão na carreira, começa a desenvolver dons letais que não sabe controlar: matar alguém só com o poder da mente. Rowan pede ajuda à mãe adoptiva, doente com cancro, que lhe assegura (falsamente) que ela não tem poderes nenhuns e que é tudo imaginação. Após a morte da mãe, Rowan está mais determinada do que nunca a encontrar os pais biológicos mas esbarra com barreiras inultrapassáveis. Cada vez mais perdida e perplexa, e depois de já ter matado um homem e três corvos sem querer, Rowan é finalmente abordada por um agente da Talamasca, Ciprien Grieve, que lhe explica que ela é descendente das bruxas Mayfair de New Orleans. Rowan e Ciprien vão a New Orleans mesmo a tempo de Rowan conhecer a mãe verdadeira, Deirdre, que é assassinada em circunstâncias misteriosas. Rowan descobre que não é apenas descendente mas a herdeira da família, e que as Mayfair têm uma estranha ligação a um ser chamado Lasher, mais demónio do que outra coisa, que parece ser a fonte dos seus poderes mas que as mantém sob o seu controlo. Com a morte de Deirde, Lasher quer apossar-se de Rowan, mas Rowan não foi criada como Mayfair e fará tudo para se livrar dele.
À medida que acompanhamos as descobertas de Rowan, vemos também as passagens relevantes da vida da sua mãe, Deirdre, e de Suzanne, uma curandeira da Escócia do séc. XVII que parece ter sido a primeira das bruxas Mayfair.
(Falando em Deirdre, Annabeth Gish continua a brilhar em papéis discretos e secundários como brilhou em "The Fall of the House of Usher", "Midnight Mass", "The Haunting of Hill House" e "The X-Files".)
A certa altura nas Vampire Chronicles, Anne Rice começa a fazer um cruzamento entre os dois universos. Em “Blood Canticle”, Lestat apaixona-se por Rowan, uma cirurgiã da família das Mayfair, e inclusivamente decide torná-la vampira mais tarde (mas nunca aconteceu até ao penúltimo livro da saga). Claro que pensei que a Rowan da série pudesse ser a mesma, e não me lembro dos pormenores nem vou fazer a batota de pesquisar, mas uma coisa garanto: esta Rowan não é a mesma Rowan. Até que ponto é que a Rowan das Mayfair Witches é a mesma das Vampire Chronicles também não imagino. (Nem estava à espera de ver Lestat nesta série, mas se ele aparecesse também não fazia mal nenhum, quanto mais Lestat melhor.)
Tendo tudo isto em conta, devo dizer que gostei muito da série. É verdade que não li os livros das Mayfair, mas o que li sobre elas nas Vampire Chronicles pareceu-me tão estranho, mas mesmo tão… estapafúrdio, que perdi qualquer vontade de investigar mais. Tinha um certo receio quanto a estes elementos estapafúrdios (que também existem nas Vampire Chronicles, admito) mas a série simplesmente os descartou e fez muito bem. Desta forma a vida das Mayfair desenrolou-se de forma mais realista, à parte a magia, e interessante. Gostei principalmente do ambiente e costumes de New Orleans, a fazer justiça ao universo geral de Anne Rice, e adorei a Talamasca. A Talamasca, uma organização de investigadores do sobrenatural comum às duas séries, é tudo o que eu tinha imaginado e se calhar até mais um bocadinho.
Não me importava nada de ver o cruzamento dos dois universos mas, considerando as atrocidades que fizeram ao original de “Interview With The Vampire”, até tenho medo de sugerir.

PS: Já depois de escrever este artigo li uma crítica à série de alguém que conhece os livros a fundo. A pessoa disse de “Mayfair Witches” as cobras e lagartos que eu disse de “Interview With The Vampire”: história original destruída, adaptação inferior. Fica o aviso.


ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Anne Rice, Lives of the Mayfair Witches, Vampire Chronicles, bruxas, sobrenatural, Interview With The Vampire (série de televisão)

domingo, 25 de agosto de 2024

Danse Macabre, de Stephen King

“Danse Macabre” é um livro não ficcional de Stephen King em que o autor se propõe a fazer uma análise da literatura, cinema e televisão no âmbito do terror entre os anos 50 e 80, à mistura com alguns episódios auto-biográficos e bastantes citações das obras mais emblemáticas. Obviamente, como o próprio reconhece, não seria possível incluir tudo sem produzir uma enciclopédia, pelo que muitas das escolhas do autor são forçosamente subjectivas. Concordo com a maioria, não concordo com algumas, mas teria de ser mesmo assim. Como seria de esperar, King escreve de um ponto de vista americano, com referências americanas, e confesso que nunca tinha ouvido falar de alguns comics dos anos 30, 40 e 50 que ele menciona (nem teria como ouvir). Muitas vezes King tem de ir ainda mais atrás, aos séculos XIX, XVIII e antes, para puxar o fio condutor de obras como “Frankenstein”, “Drácula” e precursores mais antigos.
Nunca pensei que o livro fosse tão extenso. Para analisar “Danse Macabre” era preciso escrever outro livro, por isso não vou sequer tentar resumir. Pelo contrário, vou acrescentar!
“Danse Macabre” foi publicado em 1981. Desconheço se Stephen King actualizou os seus pontos de vista com um “Danse Macabre II” (e eu gostava de ler isso), mas o período analisado é dos anos 50 aos 80. Daí até 2024 muita coisa mudou. Por exemplo, as pessoas tornaram-se tão fanáticas por gatos que no remake de “Pet Sematary” o gato é quase a personagem principal (na minha opinião é mesmo a personagem principal e gostava de saber o que Stephen King pensa disto.)
Mas regressando a “Danse Macabre”, Stephen King preconiza a existência de alguns arquétipos do terror a que ele chama O Vampiro, O Lobisomem (mesmo o lobisomem que usa o “pêlo” por dentro, como em “Psycho”), O Fantasma, A Coisa Sem Nome e O Lugar Maldito (The Bad Place). Na opinião dele, o zombie e o vampiro são apenas um só arquétipo porque ambos se alimentam dos vivos. Ora, do meu lugar de espectadora em 2024 não posso concordar. Talvez tenha sido assim até aos anos 80 mas actualmente o vampiro e o zombie são personagens bastante diferentes. O vampiro, hoje em dia, é uma estrela de rock, um símbolo sexual de juventude e beleza eterna, um bad boy carismático e magnético. (Na verdade, sempre foi, desde que Lucy e Mina correram para os braços do Conde, mas talvez seja uma coisa tão feminina que escapou a Stephen King?...) “Danse Macabre” foi publicado antes da explosão dos vampiros de Anne Rice com o filme “Entrevista Com o Vampiro”. Aliás, é significativo que Stephen King não tenha sequer destacado “Interview With The Vampire” como referência, embora o livro seja mencionado no Apêndice. Já nem falo das filas de adolescentes aos gritinhos em cada estreia de “Twilight”, nem dos posters de Robert Pattinson no quarto… (Acreditem, tive de ir pesquisar o nome do actor.) “The Hunger”, com Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon, é igualmente de 1983. Este não é o mesmo vampiro dos filmes Hammer.
Por sua vez, o desgraçado do zombie (e afins) lá se vai arrastando, mas ganhou um protagonismo que já vai em duas décadas com o fenómeno “The Walking Dead”, e também já não é o mesmo zombie de George A. Romero. O zombie dos anos 2000 é quase um adereço em histórias pós-apocalípticas, em distopias em que o verdadeiro inimigo são os outros sobreviventes, onde impera a lei do mais forte e a violência extrema, curiosamente servidas à primeira geração que sabe que não vai ter uma vida tão boa como a dos pais antes deles. São outras as preocupações sociológicas, como as preocupações com a energia e a guerra nuclear dos anos 50 e 60 que Stephen King não deixa de identificar e que produziram toda uma série de filmes de insectos gigantes, por exemplo, e que até deram motivo ao clássico “The Night of The Living Dead” de Romero (1968).
Mas eu não quero mesmo escrever o livro e fico por aqui. Notei uma tendência extremamente exagerada na maneira em que Stephen King tenta explicar que o autor de terror não é um gajo psicologicamente transtornado, psicopata ou imoral, como lhe parece quando lhe perguntam infinitamente se não se importa de “viver dos medos dos outros”. Se calhar tem razão em ser tão defensivo. A pergunta parece-me incompreensível mas deve ser uma provocação americana. Afinal, ninguém é obrigado a ler ou ver terror, tal como ninguém é obrigado a ler ou ver erotismo. Mas é interessantíssimo que a imprensa americana lhe pergunte isto (e a outros autores do mesmo género) a ponto de o irritar.
Aconselho “Danse Macabre” a todos os amantes de terror e, principalmente, a todos os autores do mesmo ofício. O livro é longo mas não parece, está muito bem escrito e nunca aborrece.


domingo, 7 de julho de 2024

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?)

Toda a gente que lê este blog há alguns anos sabe que sou uma FANÁTICA das Vampire Chronicles. Li todos os livros pelo menos duas vezes (excepto o último), vi os dois filmes várias vezes. Há cerca de 15 anos que ouvi falar na produção de “Interview With The Vampire” numa série televisiva e não podia ter ficado mais entusiasmada: finalmente íamos ver a história COMPLETA, com todos os PORMENORES dos livros que fascinaram milhões de fãs em todo o mundo. Falo dos verdadeiros fãs, não daquelas pessoas que viram um filme ou dois e não sabem mais nada da história.
Da mesma forma, não podia ter ficado mais decepcionada, abismada, irritada com a série de que falo aqui e que pode ser tudo menos “Entrevista Com o Vampiro”. Isto não é uma adaptação, isto é fan fic. O que me leva a maior desapontamento ainda com Anne Rice, que sendo produtora executiva teve forçosamente de aprovar todas as alterações. Para quem não sabe, Anne Rice sempre foi contra toda a produção de fan fic (ficção escrita por fãs) do seu trabalho, alegando que deturpavam a história. Mas aparentemente se há dinheiro envolvido já não existe “deturpação”.
O outro problema é: porquê? Porque é que se criou todo um enredo alternativo às Vampire Chronicles quando o original é tão bom e nunca foi adaptado como só uma série de televisão permitiria? Porque é que se quis desiludir milhares de fãs com uma história inferior que atenta contra os elementos mais importantes do original?

Louis de Pointe du Lac
A história começa em 1910. (Porquê, mãezinha, porquê? Porque é que tivemos de perder todo o encanto do século XIX, o século do vampiro?)
Aqui, Louis de Pointe du Lac é crioulo e um proxeneta (dono de bares, casas de prostituição e actividades ilegais em geral). Um Louis crioulo podia ser uma boa ideia, mas a própria questão da raça (incluída por motivos de “diversidade”, algo que nunca teve qualquer relevância no original) coloca contradições gritantes. É Louis quem nos diz que as ruas mal-afamadas de New Orleans eram o único lugar onde um negro podia ser alguém. Por outro lado, o pai dele era dono de uma plantação de açúcar (como no original) que faliu. A família de Louis (mãe, irmã e irmão) é negra e rica. E o pai? Seria branco? Poder-se-á sequer imaginar historicamente que uma família negra pudesse ser dona de uma plantação na Louisiana da altura? * É Louis quem nos diz: não. Então como é que é possível? Mais valia terem retirado completamente a parte da plantação e as coisas faziam mais sentido: Louis de Pointe du Lac, proxeneta, ponto final. (O verdadeiro Louis de Pointe du Lac deve andar às voltas no caixão. Nunca tal criatura sombria e depressiva podia alguma vez estar ligado a negócios de prazer. Aliás, foi esse desprazer com a vida que atraiu Lestat.)
* No segundo visionamento, notei que Louis diz isto sobre a plantação: “Capital acumulado de plantações de açúcar e o sangue de homens que se pareciam com meu bisavô, mas não tinham a sua posição”. Então, a plantação passou para descendentes de escravos? Considerando que seria possível, mesmo assim não invalida a contradição: “as ruas mal-afamadas de New Orleans eram o único lugar onde um negro podia ser alguém”.
Peço desculpa, eu disse que a história começa em 1910. Referia-me ao ano em que Louis conhece Lestat. A série começa nos nossos dias, num dos anos da pandemia, quando Louis, agora instalado no Dubai, convida o jornalista veterano Daniel Molloy para lhe dar uma segunda entrevista 50 anos depois da primeira. Daniel Molloy, que no original também foi transformado em vampiro, está muito mais velho e cínico e sofre de Parkinson. (Esta alteração, por exemplo, não me incomoda muito porque Daniel Molloy nunca foi importante para a história em geral.) Louis, ao que parece, quer corrigir o que disse há 50 anos porque também está mais velho e… mais sábio? Porque mudou de ideias? Porque quer comer Daniel Molloy depois da entrevista? Eu também não sei. A certa altura ambos queimam as gravações em cassete da primeira entrevista, o que não podia ser mais simbólico do que estão a fazer ao trabalho de Anne Rice (com o consentimento da própria). Então este Louis (recuso-me a considerá-lo o “verdadeiro”) começa a contar a história de como era libertino e de como se assumiu como homossexual quando fez sexo com um homem (Lestat). Ui! Isto é mesmo pôr no lixo todos os livros das Vampire Chronicles e deitar-lhes fogo.
Os vampiros de Anne Rice não fazem sexo. O que não quer dizer que não se envolvam em actividades sexuais, mas o êxtase está todo no sangue. Isto não é uma nota de rodapé e não é um pormenor, faz parte da identidade do vampiro de Anne Rice: a imortalidade vem com o preço da perda do prazer sexual, mas o êxtase do sangue supera-o sobremaneira.
Em certos casos, nas Chronicles, alguns vampiros envolvem-se em actividades sexuais com outros vampiros e mortais, o que é sempre representado como uma união profunda, rara, de amor platónico e transcendente, de uma tentativa de voltar a sentir vida. Por exemplo, Lestat e Rowan em “Blood Canticle”. (E sim, temos muitos pormenores bastante explícitos de como estas relações ocorrem, do princípio ao fim. Anne Rice nunca foi exactamente uma púdica.) Transformar isto no mais comezinho da experiência humana é retirar aos vampiros de Anne Rice tudo o que os torna seres únicos e fascinantes, para sempre afastados da humanidade perdida mas nostálgicos por ela, imortais mas amaldiçoados pelo peso da eternidade.
Aliás, a homossexualidade nunca foi escondida nas Chronicles, bem pelo contrário. Muitos vampiros, entre eles Lestat e Marius, assumem-se como bissexuais com todas as letras. Mas Louis nunca o fez e nada nos deu a entender que a sua relação com Lestat não fosse puramente platónica (até ao momento em que Louis o começou a odiar, isto é). A série põe Lestat e Louis a dormirem no mesmo caixão como qualquer casal gay. Isto sim, é fan fic da pior, como certos desenhos que circulam online e que quase me fazem dar razão a Anne Rice quanto à imaginação púbere dos fãs.

Lestat de Lioncourt
Falando no diabo, Lestat é a única personagem que escapa mais ou menos incólume às abominações do enredo. Sam Reid, o actor, consegue personificar o demónio de cabelos loiros como toda a gente o conhece, apesar de o quererem remeter ao papel de marido rabugento que não tem sexo em casa e vai ter com uma amante quando Louis não lhe liga. Isto também é problemático. Lestat nunca se envolve com uma qualquer só pelo sexo. Como no caso de Rowan, o que o atrai a alguns humanos que ele considera extraordinários é um profundo respeito, fascínio e admiração em que o vampiro dá prazer em troca de sangue (ou, no caso contrário, acontecem coisas desagradáveis como em “The Tale of The Body Thief”). Geralmente a amada ou amado são transformados em vampiros também. Não me parece que ele tenha esse respeito imenso pela cantora com que se envolve nesta série.

Claudia
Claudia não é a criança-vampiro de causar pesadelos. É uma miúda de 14 anos, mais ou menos a idade de Armand quando foi transformado. No entanto, com a chegada de Claudia a série começa finalmente a assemelhar-se à dinâmica do original, pelo menos durante uns episódios. Quando a primeira temporada termina, Claudia ainda está viva e o mundo está em plena Segunda Guerra Mundial. Já não são tempos de um Théâtre des Vampires, uma das melhores passagens do livro e do filme. Isto significará que Claudia não morre de todo, o que foi o momento mais dramático e o ponto de não retorno entre Louis e Lestat, já para não falar em Armand? Por outro lado, nesta versão, Armand já não teria razões para destruir Claudia por ser “contra as regras, demasiado nova e dependente para ser um vampiro”. Esta Claudia é bastante auto-suficiente e passa bem por adulta com o vestuário e a maquilhagem apropriada. Aliás, a certa altura ela zanga-se com os “pais” e foge de casa. Nas suas peripécias, conhece outro vampiro de quem se torna amiga e que, tudo dá a entender, a viola de seguida. NÃO! Vampiros não violam vampiros (nem sequer humanos). Primeiro, NÃO CONSEGUEM e não têm prazer sexual. Segundo, a única coisa que lhes interessa noutro vampiro é talvez a amizade, a partilha de um sangue mais potente (como em “Queen of The Damned”), ou a aniquilação do outro por causa do “território de caça”. Obviamente esta gente não leu as Vampire Chonicles e Anne Rice concordou em destruir toda a obra de uma vida. É triste.
Sinceramente, não sei o que estou a ver mas não é “Entrevista Com o Vampiro” de certeza. Pelo menos falaram em Nicholas e Magnus, muito de passagem. Foi pena não terem seguido os livros. Eu teria querido ver o Lestat humano preso na torre, o jovem actor Lestat, e todos os vampiros e vampiras que existiram muito antes de Louis aparecer em cena. O que não queria nada ver era esta abominação. Estou a torcer para que a segunda temporada leve com uma estaca no coração e não apareça à luz do dia. Os verdadeiros fãs fazem melhor em ver o filme do Tom Cruise e do Brad Pitt outra vez.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: NUNCA!

PARA QUEM NÃO GOSTA DE: Anne Rice, The Vampire Chronicles, O Vampiro Lestat, o Vampiro Armand, etc, etc


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Morreu Anne Rice

Anne Rice numa sessão de autógrafos em 1995


Anne Rice faleceu no sábado, 11 de Dezembro, aos 80 anos. A autora não resistiu a complicações depois de uma trombose.
Se a quantidade significa alguma coisa, Anne Rice é uma das minhas autoras preferidas. Nunca li tantos livros de nenhum outro escritor.
A sua ausência vai ser sentida. Espero que Anne Rice tenha conseguido completar a série “Christ the Lord” para publicação póstuma, mas este é apenas o meu sincero desejo.


domingo, 24 de janeiro de 2021

Christ the Lord The Road to Cana, de Anne Rice

Tanto a dizer! Como já tinha referido ao fazer a crítica ao primeiro livro desta série, “Christ The Lord Out Of Egypt”, fui daquelas que estremeceu de medo ao saber que Anne Rice estava a escrever a vida de Jesus. E em primeira pessoa, para ser ainda mais controverso.
Este segundo livro veio tranquilizar-me completamente de que Anne Rice adoptou uma postura respeitosa e reverente, recontando os episódios bíblicos da perspectiva de Yeshua como alguém que lá esteve e os viveu. Nada é esquecido, mas tudo é desenvolvido de maneira que nos surpreende como se nem conhecêssemos a história.
O livro começa não com a última mas com a primeira tentação de Cristo: uma rapariga. Yeshua é agora um homem de trinta anos, carpinteiro de profissão, tal como o pai José e os irmãos adoptivos, de mãos calejadas do trabalho árduo a lixar tábuas e assentar chãos em casas mais ricas do que aquela onde mora a sua família em Nazaré. Yeshua tem um sonho com Avigail, a rapariga, sua parente afastada que o ama. Mas Yeshua afasta o sonho com a conclusão: talvez isto não seja algo para o filho de Deus conhecer.
Nesta altura Yeshua ainda não compreende qual é exactamente o seu propósito divino (especificamente, aquilo que tem de fazer), mas sabe que o tem e sabe quem é.
Anne Rice descreve a vida prosaica de Jesus e da sua família alargada, uma família normal da Palestina ocupada por Roma, mas é quando explora personagens extraordinários que a escrita de Anne Rice brilha. Nenhum personagem poderia ser mais extraordinário do que Jesus, Deus encarnado para alguns, apenas divino para outros. Anne Rice transmite-nos esta dimensão divina em Yeshua mas faz-nos ao mesmo tempo empatizar com o homem. Yeshua é acima de tudo um homem bom, um homem decente, a quem não queremos que aconteça mal nenhum.
Quando chegamos à parte de João Batista no Jordão, a minha vontade era gritar à personagem: não vás! Se vais, é o princípio do teu fim! Fica em Nazaré, casa com a Avigail, esquece lá os pecados do mundo que não são culpa tua. Sê feliz porque mereces.
E aqui eu estaria a falar como o Tentador, o que não é nada bom para a minha pessoa.
Por falar em Tentador, mais uma vez o ponto alto do livro é quando este aparece para tentar Jesus após os quarenta dias no deserto. Anne Rice tem experiência a escrever do ponto de vista de diabos, mas nunca fica claro se Memnoch é o diabo ou apenas um diabo. Aqui, sem dúvida nenhuma, é mesmo o Diabo, Lúcifer, Satanás, o tentador do Jardim do Éden. Lúcifer aparece a Jesus fisicamente igual a ele, mas vestido como um rei. Tal como no primeiro livro, existe em Lúcifer um misto de curiosidade, medo e inveja, mas também atracção, que o torna muito complexo. (Este Lúcifer recordou-me o vampiro Armand no seu primeiro encontro com Louis e Lestat. Ou melhor, e mais certo, o vampiro Armand é que terá sido inspirado na ideia que Anne Rice faz do Diabo, o que é completamente natural tendo em conta a personagem.)
Lúcifer não está ali para antagonizar Yeshua nem para o levar a desistir. Lúcifer pensa que Yeshua vai liderar um exército contra Roma e, sendo o Príncipe deste mundo (está na Bíblia), oferece a sua ajuda. Yeshua rejeita-o, é claro, e Lúcifer tem um ataque de cólera:
“Vais amaldiçoar o dia em que me recusaste! Não vais conseguir fazer isto sem mim! Vais morrer numa cruz romana.”
Lúcifer estava enganado quanto ao propósito do homem cujo nascimento esteve rodeado de “maravilhas e sinais”, mas ao dizer isto Lúcifer não está a fazer uma ameaça. Está a deixar um aviso.
O livro termina na altura em que Yeshua já assumiu o seu papel divino e começa a chamar a si os apóstolos. Jesus diz a Pedro: “Segue-me e far-te-ei um pescador de homens”. Mateus diz a Yeshua: “José contou-me os prodígios e sinais que aconteceram quando nasceste. Se me deres permissão, gostava de os escrever”. E escreveu. Gostei muito que o jovem rico a quem Jesus diz “se queres vir comigo, abandona as tuas riquezas e segue-me” não fosse um estranho qualquer como no episódio bíblico. Aqui ainda tem mais peso. E surpreendeu-me o casamento de Canaã, as bodas de outra personagem que nunca me passaria pela cabeça. Não vou revelar para não estragar a surpresa.
Gostei do surgimento da verdadeira Maria de Magdala, possessa, de quem Jesus expulsa os demónios. (Ao contrário do mito popular, Maria Madalena não era prostituta. O mito decorreu da confusão com outra Maria que também seguia Jesus.) É tudo tão bem encadeado que os episódios bíblicos ganham vida sem nunca perderem solenidade. Anne Rice está a superar-se com esta obra.
Ou melhor, estava. Agora que eu estava a gostar mesmo muito da sua interpretação da vida de Cristo, e decidida a ler o resto até ao fim, Anne Rice já anunciou que não vai continuar a série, originalmente planeada para quatro livros, devido à potencial controvérsia que os livros seguintes poderiam gerar.
Compreendo perfeitamente a posição da autora. Qualquer interpretação da vida de Cristo é polémica. Este mesmo livro, onde eu pessoalmente não encontrei nada de desrespeitoso, pode ser encarado como blasfemo por algum fundamentalista só porque Yeshua pensou (e nada mais fez senão pensar) no que seria uma vida normal com Avigail. Noutros tempos, escrever (e ler) um livro destes era caso para sermos queimados vivos na fogueira. Por isso compreendo perfeitamente a posição de Anne Rice de estar farta de lançar pérolas a porcos. Tenho esperança de que ela tenha continuado a série, nem que seja em segredo, para ser publicada postumamente quando já ninguém a puder chatear. É triste, em pleno século XXI, que fundamentalismos religiosos continuem a obstruir a criação artística a ponto de levarem um autor a perder a paciência e a deixar de escrever.
Recomendo muito os dois livros existentes. Lamento não termos os seguintes.



domingo, 22 de março de 2020

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2 / Amanhecer - Parte 2 (2012)


[contém spoilers; revela o fim]

Quinto e último episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e Bella-a-rapariga-que-nasceu-para-ser-vampira (diz ela). Este foi o melhor dos filmes Twilight e não apenas pela razão mais óbvia: acabou! Estou livre! Adeus!
Não, “Breaking Dawn Part 2” surpreendeu-me porque pela primeira vez desde que vejo os filmes desta série não achei uma autêntica seca, e teve uma batalha e tudo… isto é, mais ou menos. Mas para não estragar nada, e se ainda houver uma alminha que não conheça o final, é melhor parar de ler JÁ e voltar a esta crítica depois de ler/ver o fim. Não digam que não avisei.
Mas agora sem ironia, este foi realmente o meu filme preferido da série, e tudo por causa dos Vulturi. Os Vulturi é que deram vida (e morte) a esta seca toda.
Mas antes disso, tudo aquilo em que me enganei na crítica anterior:
Julguei que o ponto alto desta segunda parte de “Breaking Dawn” fosse o momento em que Bella teria de explicar ao pai o crescimento anómalo de Renesme. Pois bem, isto nem sequer foi abordado como deve ser. Disseram ao pai de Bella que a menina era uma sobrinha, e ele também não achou estranho que a miúda crescesse como se tivesse sido feita em laboratório. Nem quando Jacob lhe mostra que existem lobisomens aquele palerma decide perguntar à filha se Bella era agora uma lobisomem (lobismulher?) também. Que decepção, ó pai da Bella! Julgava-te muito mais esperto!
Outra coisa em que me enganei foi ao supor que os Vulturi estavam interessados na Renesme. Nada mais errado. Eles estavam interessados era na Alice, a tal que tem os poderes psíquicos de ver o futuro. Ora, eu nem me tinha apercebido de que a Alice era uma personagem importante! Imaginem o meu choque!
Mas o enredo principal centra-se mesmo em torno de Renesme (a quem Jacob, seu auto-nomeado protector, dá a alcunha de Ness, o que leva Bella a zangar-se com ele por lhe ter dado a alcunha do monstro de Loch Ness... Ora, Bella, e mesmo assim é muito mais bonito do que o nome que puseste à tua filha, ó criatura com falta de gosto!).
E aqui, meus amigos, temos um enredo “Claudia”. Uma vampira que eu nunca vi na vida mas que é a Althea de “Fear the Walking Dead”, e aparentemente parente dos Cullen (?), vai visitá-los e fica chocada ao ver uma criança entre eles. Imediatamente, vai fazer queixinhas aos Vulturi de que os Cullen fizeram uma criança vampira. Isto é proibido e os Vulturi partem de imediato para destruir a criança e os Cullen também (excepto a Alice, a quem querem capturar devido aos seus dons).
Ora, isto é o enredo de “Entrevista com o Vampiro”, parte Claudia, com algumas variações. Se até aqui eu desconfiava que os Vulturi tinham sido inspirados no vampiro Armand de Anne Rice, agora tenho a certezinha absoluta. E que se tirem daqui as devidas conclusões. Também me enganei ao julgar que os Vulturi iam ter alguma curiosidade científica quanto a Renesme. Não, isto é mesmo e apenas “Armand do Thèâtre des Vampires quer esturricar Claudia porque é proibido fazer vampiros tão jovens”.


Mas não me enganei quanto ao facto de Renesme não ter sido a primeira “híbrida”. Era óbvio que não podia ser. Desde quando é que, na possibilidade de existir sexo entre humanos e vampiros, este não seria experimentado? O inverosímil é que nem os Cullen nem os Vulturi (nem qualquer outro dos “antigos”) tivessem conhecimento de casos anteriores. É que não devia haver apenas um ou dois ao longo dos milénios. Devia haver dúzias. Tudo isto foi mal pensado e abre mais um buracão na história.
Renesme não é exactamente uma vampira***, e o equívoco podia muito bem ser resolvido com uma conversa se os malvados Vulturi estivessem para isso. Mas não estão, e segue-se uma batalha entre eles e os amigos dos Cullens, com a ajuda dos lobisomens.
Aqui encontrei mais uma incoerência. Jacob diz que as alcateias vão querer lutar, mas por alma de quem? Porque “nunca tiveram medo de vampiros”, diz ele, e é verdade, mas não seria muito mais lógico que não se envolvessem e deixassem os vampiros matarem-se uns aos outros? Afinal, ainda no filme passado eram eles quem queria destruir a abominação Renesme… Porque é que mudaram de ideias? Jacob é agora o lobo alfa (o que manda) e ninguém nos informou? Não se percebe.
***Quanto a Renesme, a ideia é que a miúda é metade-vampira metade-humana. O que é que isto significa? Que ela tanto pode viver de sangue como de comida? Mas precisa de sangue ou não precisa? Porque se não precisa não é vampira. Mas se é, e se deixar de beber sangue, perde os poderes vampíricos? Sinceramente, não sei nem quero saber. E espero bem que não haja uma sequela a contar as aventuras de Renesme.
Então, de volta ao filme, chegamos à batalha e as coisas ficam bastante graves. Quando eu vi a cabeça decepada do Carlisle Cullen julguei que ia ser muito a sério. E pensei: “Tu queres ver?! Que morre o Edward, que morre a Bella, que morrem todos e só se safa a Renesme porque é salva pelo Jacob?” E de repente tudo se tornou mais empolgante. Suficiente para redimir a saga inteira. Começou a batalha. Parecia uma batalha dos “Vikings”, com tantas cabeças cortadas. Morreram vampiros importantes. Morreram lobos. Lágrimas vieram-me aos olhos e o meu coração partiu-se… Mas, afinal, nada disto aconteceu. Exactamente assim: não houve batalha nenhuma. Foi tudo uma visão que a tal Alice inspirou ao líder dos Vulturi. No fim vão-se embora antes que haja batalha.
Também já na última versão dos “Ficheiros Secretos” fizeram o mesmo: ah, não era o fim do mundo, era só uma visão. Truque baixo que defrauda as expectativas do espectador. Pior que isto só o sonho infame de “Dallas”, em que uma temporada inteira foi um sonho.
E assim terminou a saga Twilight… Ah, não, há mais. Outra coisa que eu esperava ansiosamente era que o Jacob finalmente se libertasse da Bella e disto tudo. Em vez disso, torna-se protector da filha da Bella, o que já é suficientemente doentio. Mas no fim, mesmo no fim, Alice tem outra visão. Jacob e Renesme abraçados, ela já adulta, tão juntinhos que me pareceram um casal. Eu não quis acreditar no que vi. E pensei: “Desliga lá a mente ordinária, que isto que viste foi só fraternal”. Mas fiquei tão incomodada que fui à internet procurar. E então não é mesmo verdade que o Jacob espera que a Renesme cresça (sete anos apenas, porque ela cresce depressa) e se tornam um casal romântico?! Uma coisa é o Edward andar atrás da Bella que é 80 anos mais nova do que ele, mas até fecho os olhos. Muito diferente é alguém que tem sobre uma criança o papel paternal de um tio e que a certa altura deixa de ser paternal para se tornar… o quê? Já seria suficientemente mau que ele esperasse pela filha na impossibilidade de ter a mãe, mas acompanhar essa criança desde bebé? Sou só eu, ou acontece aqui algo de muito errado? Pelo menos podiam separá-los e podiam encontrar-se muito tempo depois, sem que o Jacob alguma vez lhe tivesse mudado a fralda. Pobre Jacob, o que fizeram à personagem dele, uma das mais interessantes da saga. Desde o primeiro livro (aquele que li), Jacob sempre me pareceu o único com alguma coisa na cabeça. Eu estava a torcer para que ele se libertasse desta relação a três (ou a quatro?) mas nem essa sorte eu tive.
Não admira que Twilight tenha dado origem a coisas mais doentias ainda (50 Sombras de Grey e sabe-se lá mais o quê).

Este abraço

E assim acabou a saga com um sabor a pedofilia que era completamente dispensável. Vou fingir que não vi isto. Melhor, vou fingir que nunca vi esta saga. E vou dar mais um pontinho porque é o último filme:

13 em 20

Acabou! Acabou!


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite

 

 [spoilers mínimos; não revela o fim]


Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.

Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:

«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»

Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros. 

Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:

«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»

Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um  Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:

«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»

E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:

«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»

A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.

Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.


domingo, 27 de janeiro de 2019

The Twilight Saga: Eclipse (2010)


Terceiro episódio de Edward o-vampiro-que-brilha e Bella a-rapariga-que-só-quer-ser-vampira. E agora também temos Jacob o-lobisomem-que-quer-comer-a-Bella-no-melhor-dos-sentidos.
Fiquei um pouco confusa logo a começar. Nunca me passou pela cabeça que a situação com a vampira Victoria (a ruiva que aprendeu a correr por entre as árvores num ângulo de 90º como na Matrix) não estivesse já resolvida. Isto é que é tenacidade. Victoria quer mesmo muito vingar-se por causa de coisas que aconteceram no primeiro livro/filme e de que eu já não me lembro. Mas recordo que foi o bando da Victoria que se meteu com os Cullen por isso ela não tem razão nenhuma. As pessoas têm mesmo de aprender a desprender-se e partir para outra. Victoria precisa de ler um livrinho de auto-ajuda.
Victoria continua obcecada em matar Bella para que Edward sinta a dor de perder um amor, como ela sentiu. E também dá muito jeito ao enredo principal, porque obriga os vampiros e os lobisomens a fazer uma aliança para se revezarem a proteger Bella.
Entretanto, e depois sabemos que foi Victoria também, alguém cria um exército de vampiros recém-transformados (a quem chamam recém-nascidos) para atacar os Cullen em grande escala. Na mitologia de Twilight os vampiros são fisicamente mais fortes quando são transformados há pouco tempo. Geralmente é o oposto, o que faz com que os vampiros muito antigos sejam praticamente invencíveis. Esta ideia de maior fragilidade física mas de aquisição de outras capacidades é interessante e foge aos lugares comuns do mito do vampiro.
Por falar em mitologia, neste filme temos um flashback que nos explica como começou a animosidade entre os lobisomens e os vampiros. Mas temos também a resposta à questão que coloquei na crítica ao filme anterior, New Moon: os lobisomens têm consciência do que fazem enquanto lobos? Sim, têm. E conseguem, efectivamente, transformar-se quando querem, sem qualquer influência lunar. Até há uma cena em que os lobisomens vão a um encontro com os vampiros em forma de lobos porque se sentem mais seguros assim. (É uma cena algo ridícula, se não mesmo infantil, em que de repente temos os vampiros a combinar estratégia com os lobos silenciosos -- também era melhor se falassem! -- enquanto Bella faz festinhas ao lobo Jacob. Por falar nisso, o CGI dos lobos não é nada realista. Parece um desenho animado para crianças.)

 Eu também gosto muito de animais.

Ora, como dizia na crítica anterior, isto é problemático. Se os lobisomens têm consciência do que fazem como lobos são tão maus como os vampiros e não têm autoridade moral para se sentirem superiores. Duvido que esta questão existencial alguma vez seja abordada no universo Twilight mas fica a minha nota.
Também disse que estava a torcer pelo Jacob, mas neste filme o jovem lobisomem está a passar pela fase “parva” e não podia estar a sair-se pior com a Bella. Mas que outra coisa esperar? O rapazinho tem 16 ou 17 anos, ainda tem muito que aprender sobre como encantar o sexo oposto. O Edward tem 90 anos de lábia e anda atrás de uma miúda do liceu. Desculpem, fãs, factos são factos. Pobre Jacob, não tem a mínima hipótese.
O envolvimento dos Vulturi é, como sempre, o que mais gosto na saga. Porque me lembram os vampiros Riceanos, claro está. Armand ficaria orgulhoso destes Vulturi.
Não percebi, no filme, de que matéria são feitos os vampiros. Pedra, gelo, é por isso que brilham? É o que parece no filme, ou é culpa dos efeitos especiais. (Akasha foi durante séculos uma vampira “petrificada” mas isso era porque não se alimentava. Quando voltou à “vida” parecia completamente de carne e osso.) Quando os vampiros de Twilight são decapitados não há sangue a jorrar e carne à mostra. Parecem objectos partidos, o que lhes retira a humanidade. Como é que podemos ter pena de uma boneca partida? É isto que Bella quer ser?
Por último, nunca é explicado o título do filme. Qual eclipse? Penso que se referem ao exército que era liderado por um testa-de-ferro aparentemente criado por Victoria. Desta forma, ela estava “eclipsada” atrás dele. Será? Eu acho rebuscadíssimo mas não encontro outra explicação. Talvez o livro tenha explicado melhor.

12 em 20

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

New Moon / Lua Nova (2009)


Segundo capítulo das aventuras de Edward o-vampiro-que-cintila e Bella a-rapariga-que-só-pensa-no-Edward.
Um dos motivos porque a saga Twilight foi tão mal recebida pelos verdadeiros amantes de vampiros foi na verdade um equívoco gerado pelo marketing à série. Um desfasamento de expectativas. Embora tenha elementos sobrenaturais, Twilight pertence mais ao género romântico do que a qualquer outro. O facto de ter vampiros e lobisomens é quase irrelevante. Se os substituíssemos por grupos rivais o enredo seria exactamente o mesmo. Esta é, acima de tudo, uma história romântica, e os amantes de horror que não apreciam o género romântico não vão encontrar aqui satisfação.
As minhas razões para continuar a seguir a saga são mais obcecadas. Sou de tal forma uma viciada em vampiros que muito raramente consigo resistir e vejo tudo: do muito bom ao muito mau. Para quem não é alérgico a histórias românticas, a saga Twilight vê-se.

Sempre desconfiei de vampiros que brilham
Depois dos acontecimentos do primeiro livro, que puseram Bella em perigo, Edward decide finalmente fazer a coisa certa e deixar de andar atrás de miúdas de liceu. Mas fá-lo mal. Em vez de revelar os seus verdadeiros motivos, arma-se em “todo-bom” e diz a Bella que esta não é digna dele. Grande estafermo. Eu já não gostava do Edward, mas neste filme começo mesmo a detestá-lo. Sem mais explicações, desaparece, deixando a miúda bastante deprimida por uns meses. Mas na verdade Edward não rompeu completamente, como devia ter feito se era mesmo esse o objectivo. Continuou em contacto com Bella através da ligação psíquica, o que pessoalmente achei de muito mau gosto. (Se vais, vai. Não vás pela metade.) Desta forma, nunca lhe permite recuperar e ultrapassar a relação. O que é mais grave, Bella fica à mercê dos inimigos dos Cullen, na ausência destes, e começa a ser perseguida por vampiros vingativos. Outra má onda. Não a deviam ter deixado sozinha nestas circunstâncias. Nomeadamente Edward sabe o que se passa (através da tal ligação psíquica) e nem isso o leva a mexer o traseiro para ir resolver problemas que são da família dele. (Estão a ver porque é que o detesto?)

Vampiros vs lobisomens
Felizmente, Bella torna-se mais próxima de Jacob, o índio. Admito que sempre gostei deste personagem. Sempre que ele aparecia no livro original, era uma lufada de ar fresco. Jacob parece ser o único que pensa e diz coisas com pragmatismo, e além disso tem sentido de humor. É difícil não torcer por ele. (Mas só aqui entre nós acho que a Bella não o merece.)
Quando se aproximam, Jacob ainda não sabe que é lobisomem. Mas atingiu a idade e as transformações começam a acontecer. (Coitada da Bella, também admito que não pode haver rapariga mais azarada. Ou se apaixona por vampiros ou lobisomens.)
Os lobisomens de Twilight, à semelhança dos vampiros, também não obedecem aos cânones. Não precisam da noite nem da Lua Cheia para se transformarem. Não sei se o livro explica melhor, mas fiquei com dúvidas. Conseguem transformar-se quando lhes apetece ou apenas quando se enfurecem? A Lua Cheia terá alguma influência, ou nenhuma? E até que ponto têm consciência humana na fase lobo? Se percebi bem, são responsáveis por alguns homicídios que a polícia da terra andava a investigar. Mas Jacob parece reconhecer Bella na fase de lobisomem, o que é problemático do ponto de vista da consistência. (Se como “lobo” tem este grau de consciência, também é responsável pelos homicídios.) Também não cheguei a perceber porque é que há rivalidade entre vampiros e lobisomens. O filme não explica, simplesmente apresenta como facto. Nos Diários do Vampiro, pelo menos, são apresentados como inimigos naturais porque uma dentada de lobisomem mata um vampiro. Aqui, não percebo qual é a rivalidade (e não me quero pôr a conjecturar). Afinal, não são todos monstros? Até deviam dar-se bem, penso eu. No primeiro livro/filme já havia aversão dos índios para com os Cullen, mas pensei que se devia apenas a saberem que eram vampiros. Afinal a aversão é outra.
É Jacob que lá está quando é preciso salvar Bella. Começa a estabelecer-se entre eles uma relação maior do que amizade. E eu a torcer por ele, obviamente.
Mas a relação não chega a ter tempo de se desenvolver. Em busca de adrenalina, e porque é jovem e não pensa (e para tentar que Edward a contacte psiquicamente), Bella decide mergulhar de um penhasco. Alice, a irmã adoptiva de Edward e vampira médium, tem uma visão deste mergulho e julga que Bella se tentou suicidar. Aqui acontece uma peripécia um bocadinho forçada. Sem confirmar que Bella está morta, Edward acredita apenas na visão de Alice e decide ir entregar-se a um clã de vampiros na Itália, os Volturi, que matam aqueles que quebram as regras. A primeira de todas é que os vampiros não devem expor-se aos seres humanos (brilhando ao sol). Nesta tentativa de suicídio à Romeu (porque não consegue viver num mundo onde Bella não viva), Edward decide quebrar as regras para que o matem. Mas eu acho isto um pouco precipitado. A própria Alice diz que nem sempre vê tudo. Porque é que o Edward acredita numa visão sem se certificar? Pelo menos ia ao funeral, não? Mas assim é mais dramático.
Bella e Alice chegam mesmo a tempo de o salvar, mas os tais Volturi exigem que ela seja transformada porque sabe demais. Isso, ou morta. Mais uma vez, Edward arranja-lhe problemas. Bravo, Edward vampiro-brilhante! E a Bella deixou o Jacob para isto!
Estes Volturi lembram-me os vampiros de Anne Rice, no tempo do coven do Cemitério dos Inocentes e do Teatro dos Vampiros. A qualquer altura, esperava que o vampiro Armand entrasse pela sala.

 Armand, Lestat e Louis não estavam disponíveis para participar no filme.

Tal como os vampiros de Armand, também estes se julgam a autoridade vampírica e gostam das suas regrazinhas. São os piores. O filme consegue um momento de quase-terror quando um grupo de turistas é guiado para dentro do palácio dos Volturi para lhes servir de refeição. Como é que eles explicariam todos estes desaparecimentos, pergunto-me? Levantar suspeitas também é contra as regras. Mas o filme não é sobre isto.
O facto é que Bella quer ser vampira. Desde o início do filme, não fala de outra coisa. Até me perguntei: mas esta miúda nunca leu Anne Rice? Aparentemente não, porque no mundo de Twilight não existem as Vampire Chronicles. Bella não quer ser vampira para ser imortal, nem para ser jovem para sempre, nem para ter poderes especiais. Nada disso. Bella quer ser vampira para ficar mais próxima de Edward. A princípio ele rejeita a ideia (única coisa em seu favor) mas acaba por concordar (lá se foi a coisa).

E assim terminaram duas horas de filme. Não imagino quando verei a continuação. Acompanho por uma questão de curiosidade e cultura “geral”, como acompanhei o Harry Potter. (De outra forma, como é que ia perceber as referências culturais da gente mais nova?) Comparando entre ambos os fenómenos, desgosto menos do Twilight. Pelo menos tem vampiros. E pronto, é só isto.


13 em 20 (ponto extra porque os Volturi me lembraram outras vampiragens)




domingo, 8 de outubro de 2017

"Prince Lestat", de Anne Rice


Já me tinham avisado de que este livro é uma desilusão, mas recusei-me a acreditar antes de ler. E depois recusei-me a acreditar antes de chegar ao fim. E agora que acabei de ler também não adjectivaria o livro como uma desilusão, mas como um manancial de ideias mal aproveitadas que até podiam ter dado um grande livro se tivessem sido exploradas como Anne Rice nos habituou. Infelizmente, este não é um livro da qualidade a que Anne Rice nos habituou. De todas as minhas queixas, a principal é mesmo essa. O que mais gosto na escrita de Anne Rice é que nos mergulha na psique dos personagens e nos faz compreender todas as suas motivações. Infelizmente, é o que mais falha em "Prince Lestat". Nunca consegui compreender as motivações dos personagens, dos já conhecidos e dos que são apresentados neste livro. Muitas das suas decisões e personalidades pareceram-me até incoerentes, como se durante o hiato em que Anne Rice pôs de lado as Vampire Chronicles se tenha esquecido de quem estes personagens são.

Para explicar estes motivos de insatisfação, terei de incluir spoilers. Quem ainda não leu e pretende ler, pode preferir interromper a leitura aqui e regressar mais tarde.


!!!CONTÉM SPOILERS!!!


Rowan? Qual Rowan? Quinn e Mona, idem
A minha primeira insatisfação é a falta de continuidade com o último livro da série, “Blood Canticle”. No fim deste, Lestat e Rowan, das Mayfair Witches, estão completamente apaixonados. Lestat até pensa em dar o Sangue a Rowan, mas decide adiar porque acha que ela ainda tem muito que fazer como humana. (Esta ideia é importante para este livro.) Mas ficamos a pensar que o romance vai ser retomado, se é que chega a ser interrompido.
Neste livro, eu talvez esperasse continuar a partir daí. Mas mesmo não continuando, nunca imaginei que aconteceria o que aconteceu: Rowan desaparece como se nunca tivesse existido. Nem uma palavra é dita sobre ela. 
Mona e Quinn, personagens de "Blackwood Farm" e "Blood Canticle", também não são mencionados, como se nunca tivessem acontecido, como se Anne Rice se tivesse arrependido de escrever esses dois últimos livros.
Mas Mona e Quinn (apesar de nunca terem sido personagens de que eu goste particularmente, especialmente a fútil Mona) são agora vampiros. Tendo em conta o enredo desta história, eles deviam ter aparecido, mais ainda, deviam ter estado sempre ao lado de Lestat. Incompreensivelmente, desapareceram também.

Os vampiros cientistas e o bebé-proveta
Parece o título de uma comédia, mas aconteceu mesmo. Lestat conhece uns vampiros que são igualmente cientistas e que se dedicam a estudar a fisiologia da espécie a que pertencem (outros vampiros). Até aqui tudo bem e normal. Conseguem convencer Lestat a participar nestas experiências, ao que ele acede porque lhe parecem interessantíssimas, e por meios que nem vale a pena explicar devolvem-lhe temporariamente a capacidade sexual. (Como os leitores das Vampire Chronicles sabem, os vampiros de Anne Rice perdem qualquer capacidade de desejo ou actividade sexual, sendo esta completamente substituída pelo desejo de sangue.) Lestat consegue assim envolver-se numa relação sexual com uma cientista humana, para fins científicos. Quando a coisa termina e o efeito da experiência passa, a Lestat apetece imediatamente "exanguinar" a parceira, o que não deixa de ser engraçado.
Ainda bem que não o fez, porque o sémen aproveitado deste encontro é utilizado para criar em laboratório um bebé 100% humano! Isto é, Lestat é pai! Lestat tem um filho! Humano! Eu adorei esta parte, imaginando que tipo de pai poderia Lestat tornar-se, como o poderia fazer evoluir e transformá-lo.
Que desilusão! Por razões que me ultrapassam, os cientistas acham melhor esconder a criança do pai, embora o miúdo saiba, desde sempre, que é filho do famoso vampiro Lestat.
Ora, isto não me entra na cabeça. Custava alguma coisa que um deles lhe tivesse telefonado:
“Lestat, pá, como vai isso?”
“Hã, assim assim.”
“Pá, nem vais acreditar no que aconteceu. Lembras-te daquela experiência, com a cientista boazona, no laboratório? Pá, és pai, pá! Vem cá já ver o puto! Mas não o comas, fixe? ”
Nada disto aconteceu. Lestat só toma conhecimento deste filho quando este já tem 18 anos. E não se percebe porquê, porque Lestat e os cientistas ficaram amigos e não havia razão para que não participasse na paternidade. O que Lestat teria para ensinar a um miúdo humano!
O que é que Anne Rice estava a pensar, pergunto-me? Que oportunidade desperdiçada.

A insuportável Rose
Em vez disso, somos apresentados a mais uma protegida de Lestat, uma miúda órfã chamada Rose a quem este decide “adoptar”, apresentando-se como tio Lestan. A história de Rose não me diz nada. A miúda foi tão protegida por amas e seguranças que nunca conseguiu aprender a safar-se sozinha no mundo. Cresceu uma flor-de-estufa, uma mosquinha morta. Uma daquelas donzelas do século XIX que choram e desmaiam e precisam de ajuda para atravessar a rua. Uma coisa que já não existe, graças a Deus.
Resultado: Rosa mete-se em problemas atrás de problemas e não sabe sair deles sozinha. Rosa nem sequer tem um grupo de amigos, nem um único. Só podia correr mal!
Em vez desta insuportável Rose, eu queria ver o Lestat ser um pai para o filho verdadeiro. Como é que alguma vez Rose poderia ser relevante, quando subitamente Lestat tem um filho biológico e humano com quem nunca o vemos relacionar-se? Rose não era necessária para nos mostrar que Lestat tem tendências paternais (sabemo-lo desde Claudia de "Entrevista com o Vampiro") e ainda por cima não desempenha qualquer papel influente no enredo. O que Rose fez na história foi ocupar espaço que devia ter sido usado com Viktor, o filho de Lestat.

A ameaça
"Prince Lestat" é a história de como a comunidade vampírica enfrenta a maior ameaça desde que Akasha ("A Rainha dos Malditos") decidiu destruir todos os vampiros (ou quase). A ameaça, suspeito, é a mesma, porque desta vez é o espírito Amel (o espírito que vivia no corpo de Akasha e origem de todos os vampiros) que após milénios de dormência toma consciência de si próprio e decide que existem demasiados vampiros no mundo. Amel possui um corpo (espiritual, mas um corpo) que também tem limitações, e a proliferação de vampiros esgota-o e enfraquece-o. Desta forma, Amel começa a convencer os vampiros mais velhos, os que já adquiram o Fire Gift, a incinerarem os mais novos. A maneira como os atormenta até que lhe façam a vontade nada deve à possessão. Amel é tão cruel que ameaça os resistentes: se não fazem o que lhes manda, mandará outros matá-los a eles.
Descobri muito depressa de quem era esta Voz que sussurrava ao ouvido dos vampiros, mas não penso que o livro tenha feito dela grande mistério, de propósito ou não, porque Lestat e outros vampiros também já desconfiavam ainda antes de começarem a falar disto uns com os outros.
A Voz, que mais tarde se veio a confirmar ser Amel, é o enredo fulcral desta nova história das Vampire Chronicles. O final, sem querer revelar, foi bastante imprevisto.
Mas que faz Lestat ao conhecer o perigo que enfrenta? Lestat vai buscar um pequeno machado e começa a usá-lo dentro do casaco. Sim, leram bem, um machado! E pequeno! Ora, desde quando é que o vampiro Lestat anda com um machado? E para quê? O que é que Lestat fazia com um machado se lhe aparecesse à frente um vampiro de 6000 anos com intenções de o transformar em cinzas? Esta parte é tão estúpida que até dói. O pior é que Anne Rice nem tenta explicar. Podia ter havido uma explicação plausível, algo do género, “sei que um machado não me protege mas era o que eu usava quando era humano e de alguma forma irracional conforta-me andar com ele neste momento de perigo”. Se era isto que Anne Rice queria transmitir, não transmitiu. Mas o machado acabou por ser muito conveniente quando foi preciso um machado e Lestat o tinha dentro do casaco… Ele há conveniências que só as necessidades do enredo podem explicar.

Lestat superstar
Por falar em vampiros de 6000 anos, esta história apresenta-nos uns quantos que ainda não conhecíamos. O que também é bastante interessante. O que não faz qualquer sentido é que até estes concordem que Lestat deva ser o novo líder de todos os vampiros.
Exactamente, o líder! Por razões que me são incompreensíveis, todos os vampiros do mundo (Armand incluído) decidem que Lestat é o homem perfeito para os liderar. Lestat passará a ser o príncipe dos vampiros! Ora, isto não faz sentido nenhum, nem para o próprio Lestat. Ele mesmo o diz, a certa altura, como é que o vampiro que mais regras quebrou ficará agora encarregado de as estabelecer?! (Boa pergunta, Lestat! E olha, já agora, como e porque é que mudaste de ideias? Foi a tua vaidade, não foi? Mas não explicaste, maroto! Dantes costumavas ser mais sincero. Cuidado, não te transformes mesmo num político.)
Mas é assim que Anne Rice apresenta o mundo dos vampiros. De repente, vampiros antiquíssimos, vampiros de primeira geração, vampiros que já viveram milénios, decidem achar que Lestat é presidenciável, ou realeza, ou algo assim, porque… Ah, é verdade. Não se percebe porquê. Porque teve uma banda rock? Porque expôs os vampiros ao mundo (e não foi ele, foi Louis quem o fez primeiro)? Porque os vampiros mais novos o consideram um vampiro superstar? Pela sua bela “juba de cabelo loiro”? Isto era como se um líder político fosse escolhido por ser um fenómeno de popularidade. Até estaria disposta a aceitar se fossem apenas um ou dois vampiros fascinados com Lestat, mas todos? Não. 

As gémeas estavam a mais
Esta fascinação por Lestat também deu muito jeito no caso de Mekare, e em como Anne Rice se livrou das duas gémeas no mesmo livro. (Grande spoiler: as gémeas foram-se, excepto se regressarem como fantasmas.) Mas novamente não faz sentido. Não me lembro exactamente qual era o estado mental de Mekare no fim de "A Rainha dos Malditos", mas é-nos dito neste livro que o cérebro de Mekare está praticamente morto devido a ter passado milénios sem contactar com ninguém. Ora, nesse caso, Akasha, que “petrificou” durante milénios seguidos, não teria ficado no mesmo estado? E não poria isso em causa a capacidade de regeneração vampírica da mitologia destes vampiros? Mas fechando os olhos a estes pormenores (que até não são pormenores, mas adiante), o cérebro de Mekare, dizem-nos, não funciona. Mekare não é capaz de um pensamento racional. Mekare é um vegetal. Muito bem, aceitamos isto. Como é que então Mekare subitamente dá a entender a Lestat que quer morrer? A mesma Mekare que não teve a capacidade mental de perceber que a sua irmã Maharet tinha sido assassinada quase debaixo do seu nariz? Não faz sentido. O cérebro de Mekare funciona ou não funciona, ou só funciona quando dá jeito ao enredo? 
Que mal Anne Rice tratou Mekare, e as gémeas. As gémeas que eliminaram Akasha, que souberam o que fazer para impedir a destruição de todos os vampiros que a morte de Akasha implicava! A única maneira de redimir a falta de cerimónia com que as gémeas foram despachadas seria mesmo fazê-las regressar como espíritos. (Neste livro, somos informados de que alguns fantasmas aprenderam a criar um corpo físico para si próprios. Não sei se gostei disso.) Algo me diz que Anne Rice não o fará, que as gémeas morreram porque a autora se fartou delas, e nota-se. Esta parte, a parte em que se nota, é que me incomoda.

O filho (invisível) de Lestat
E por último, voltamos à tristeza que foi o desperdício deste filho biológico, Viktor. A pobreza que foi aquela primeira conversa: 
“Sou o teu filho Viktor”
“Pois, parece que sim”
Nem foi tão engraçado como isto, foi muito pior. Foi seco, foi forçado, foi artificial. Absolutamente nenhuma emoção, nem boa nem má. E depois Viktor diz ao pai que também quer ser vampiro. (Aqui, recordemos que Lestat não transformou Rowan por achar que ela ainda tinha muito que fazer como humana.) O que faz Lestat? Aceita! Sim, filho, vamos já tratar disso. Marius, transforma-me aqui o puto, se faz favor.
Não Lestat! O que devias ter-lhe dito era o que ele precisava de ouvir: “Queres o quê?! Ser vampiro? Qual vampiro qual carapuça! Quantos anos tens, 18? Pensa mas é em ir para a escola, tirar um curso, arranjar um emprego! Vai viver a vida! E dá-me um neto, já agora! E depois, quando fores um homenzinho, logo se pensa no assunto.” 
Não. Lestat aceita transformar um adolescente em vampiro, antes de ter oportunidade de experimentar a vida, antes ainda de sair de casa dos pais. Isto não me entra na cabeça. Lestat não aprendeu a lição de Claudia?!?!... Por falar em Claudia, o único que ainda tem algum juízo, valha-nos isso, continua a ser Louis. Foi o único que disse ao miúdo que o vampirismo não é vida, é não-vida. Que para ser vampiro Viktor tem de morrer antes. Não adiantou nada. 
Rose apaixonou-se por Viktor e também quis ser vampira. O que não interessa nem ao menino Jesus, porque nunca se viu um romance tão forçado e artificial e conveniente (?) como o destes dois. Detesto tanto esta personagem que quando a autora dá entender que por pouco Rose não sobrevivia à transformação, torci para que não sobrevivesse mesmo. Se esta série de livros é para continuar, Rose tem de desaparecer ou ser remetida para um lugar muito nas sombras, ou ter qualquer papel relevante que não seja ser apenas a filha adoptiva de Lestat que é namorada do filho biológico de Lestat, e que também é vampira.
Nunca julguei dizer isto, mas uma personagem como Rose fez-me desejar que Mona regressasse.
Quanto a Viktor, não sabemos nada dele excepto a sua aparência física e que tem medo de espaços subterrâneos (relevância? não sei). O livro não achou interessante debruçar-se sobre a personalidade do único filho biológico do protagonista. Escolhas curiosas, estas. Este podia ter sido um enredo tão interessante como o enredo de Amel, se não mais, mas Anne Rice desperdiçou-o tão completamente que não percebo por que motivo decidiu que Lestat devia ter um filho. Não é todos os dias que um vampiro deste universo consegue ter um filho biológico, faria todo o sentido que um acontecimento destes fosse explorado à altura.

Não bastando todas estas queixas, ainda tenho outra. No final, Anne Rice tenta convencer-nos de que Louis, subitamente, se livrou da melancolia. Que subitamente decidiu que é feliz. Oh horrores, oh injúria! Se ao menos não soasse a falso! Mas cada vez estou mais convencida de que Anne Rice odeia o personagem Louis e se quer livrar dele. Se não fisicamente, transformando-o noutra coisa. Talvez não fosse assim quando escreveu "Entrevista com o Vampiro", mas depois disso Louis desapareceu e começou a ser cada vez mais maltratado pelas Chronicles. Neste aspecto, "Prince Lestat" não destoa da tendência anti-Louis.

Pela primeira vez desde que leio as Vampire Chronicles terminei este livro sem qualquer vontade de o ler outra vez. Não sei se é uma desilusão, para mim pessoalmente, porque "Blackwood Farm" e "Blood Canticle" já não me agradaram tanto como os anteriores. Confesso que não esperava todos os motivos de queixa que apontei acima, o mais grave de todos a falta de importância que é dada à paternidade de Lestat.
No fim do livro, parece que Lestat decide que os vampiros têm de deixar de pensar mal de si próprios, que não são monstros (não, que ideia!), que já não se devem referir a si próprios como The Damned ou ao vampirismo como The Devil’s Road. Em suma, querem ter orgulho em si próprios como "povo". A minha vontade de ler livros posteriores vai depender disto. O mais interessante nas Vampires Chronicles era o perpétuo dilema dos vampiros entre a necessidade de matar e o remorso, entre a imortalidade e a nostalgia da vida mortal, entre o Bem e Mal. Se este dilema acaba, se até Louis resolve decidir que não podia estar melhor como está, que apelo poderá restar nesta série? Não sei, e talvez leia o próximo livro ("Prince Lestat and the Realms of Atlantis") para só para chegar a uma opinião definitiva.
Mas neste momento as Vampire Chronicles estão a perder-me.
Com outra escritora, diria que este livro foi escrito porque a autora precisava do dinheiro para pagar as contas. (Parece que a série sobre Cristo não vendeu o que se esperava.) Anne Rice, do que sei, não precisa do dinheiro. Mas, talvez por sorte, nunca li dela um livro tão desinspirado como este. É como se, ao decidir deixar de escrever sobre as Trevas e começar a escrever sobre a Luz, ela tenha delirado que as Vampire Chronicles também podiam pertencer à Luz. Fechando os olhos ao crime e à morte, porque os vampiros se alimentam de “malfeitores”. Mas até os malfeitores têm direito a julgamento, e nunca um só homem ou vampiro se deve encarregar de fazer justiça pelas próprias mãos e achar que pertence à “Luz”.
Honestamente, não sei que caminho levam as Vampires Chronicles mas não estou a gostar do sentido em que se dirigem. É possível que este tenha sido o último livro que leio desta série. Para já, não me apetece nada ler o próximo.

Por outro lado, descobri no site da Anne Rice que há planos para transformar as Vampires Chronicles numa série de TV, abrangendo toda a história desde o início. Esta sim, é uma ideia brilhante, que adoraria ver em prática. Que venha ela!