terça-feira, 19 de maio de 2026
domingo, 17 de maio de 2026
Mayhem / Pandemónio (2017)
Um vírus que retira as inibições provoca uma epidemia de violência extrema. Quando uma firma de advogados sem escrúpulos fica em quarentena, os infectados fazem justiça pelas próprias mãos sabendo que vão beneficiar de impunidade.
Ao ler a sinopse, e ainda mais quando vi Steven Yeun (o Glenn de "The Walking Dead"), pensei que ia ser uma coisa do tipo "28 Days Later". Mas não é. É um filme de acção e comédia que satiriza as grandes corporações de advogados, uma espécie de "Um Dia de Raiva" provocado por um vírus.
Derek Cho é um executivo em ascensão tramado pela colega incompetente que está nas boas graças do dono da firma. Infectado e sem nada a perder, Derek Cho decide mostrar aos accionistas quem tem razão, quer eles queiram quer não. Mas Derek Cho até é boa pessoa. Os sócios da firma, impiedosos de natureza, e igualmente sabendo que o vírus lhes trará impunidade, não hesitam um instante em recorrer ao homicídio.
Violência há de sobra, resta saber se há comédia. Pessoalmente, não achei engraçado. É claro que dá sempre gozo ver esta gente velhaca a pagar pelos seus crimes, mas não há muito mais a esperar daqui.
"Mayhem" é um filme que entretém, em que a violência é demasiado irrealista para se levar a sério, sem conseguir ser tão engraçado como queria ser.
12 em 20
terça-feira, 12 de maio de 2026
Culatra - "Capítulo Primeiro: 1985-1989 / Sombras e Fantasmas" (Pós-80's label)
Segundo o press release, os Culatra foram "provavelmente a primeira banda portuguesa assumidamente gótica". Com actividade entre 1985 e 1992, nunca chegaram a gravar um disco. Esta colectânea, pela Pós-80's, reúne "os registos raros e inéditos do material gravado entre 1985-1989, provenientes de uma maquete, ensaios e um tema ao vivo no RRV".
Não tenho qualquer lembrança dos Culatra (o que não significa que nunca tenha ouvido falar deles). Estou impressionada com a qualidade desta banda de Lisboa que merecia mais reconhecimento, e lamento que tenham acabado sem deixar discografia. A diferença que o Bandcamp teria feito naquela altura! Nestes registos, finalmente trazidos à luz do dia em 2026, encontro influências do melhor da época: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy e outras referências pós-punk incontornáveis. Este é o som que eu recordo do Rock Rendez Vous. A qualidade das gravações é que é fraquinha, como seria de esperar de ensaios, maquetes e música ao vivo.
Para descobrir agora no Bandcamp, já que esta música esperou tanto tempo entre sombras e fantasmas.
According to the press release, Culatra were "probably the first explicitly Portuguese goth band". Even though they were active between 1985 and 1992, a record was never released. This compilation by the Pós-80's label brings together "rare and unreleased recordings from 1985 to 1989, taken from demos, rehearsals, and a live track at the RRV [Rock Rendez Vous]".
I have no recollection of Culatra (which doesn't mean I've never heard of them). I'm impressed by the quality of this Lisbon band, which deserved more recognition, and I regret that they disbanded without leaving a discography. The difference Bandcamp would have made back then! In these recordings, finally brought to light in 2026, I find influences from the best of the era: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy, and other inescapable post-punk references. This is the sound I remember from Rock Rendez Vous. The recording quality is weak, as one would expect from rehearsals, demos and live music.
After waiting so long amidst shadows and ghosts, Culatra’s music can finally be discovered on Bandcamp.
pos-80s.bandcamp.com/album/cap-tulo-primeiro-1985-1989
domingo, 10 de maio de 2026
The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?) [terceira temporada]
[não contém spoilers relevantes]
Adorei esta temporada de "Daryl Dixon"! Há muito tempo que não podia dizer isto de uma spin-off de "The Walking Dead", mas "Daryl Dixon" está a conseguir atingir os objectivos e a divertir os espectadores, e não sou só eu que o digo.
No início, o original "The Walking Dead" pretendia não ser simplesmente mais um filme de zombies para rir e entreter. A série ambicionava ser realista, dramática, filosófica e profunda. E nas primeiras temporadas até conseguiu, muito embora alguns fãs apenas quisessem mais um filme de zombies com muita acção, só para entreter, e tenham chamado telenovela a "The Walking Dead". A série começou a descarrilar quando tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo para agradar a gregos e troianos, o dramático e o acéfalo, e a certa altura decidiu sacrificar o realismo também, primeiro o realismo dramático e logo a seguir o realismo da acção propriamente dita. Isto deu-nos cenas deploráveis como, por exemplo, o tiroteio com Negan, em que apesar da escassez de munições, estabelecida pelo próprio universo da série, houve balas com fartura. Sacrificando a profundidade dos personagens e sacrificando o realismo que o próprio universo estabeleceu, a certa altura já não se aproveitava nada. Até podiam ter metido ali Godzilla sob o pretexto "é uma série de zombies, nada disto é real, vale tudo". Na estrutura interna de uma história não vale tudo; só vale o que o universo ficcional permite. A franchise levou o absurdo ao limite com "Fear The Walking Dead", em que só não apareceu Godzilla porque não calhou, mas houve uma guerra nuclear e uma radioactividade selectiva que só afectava os personagens que dava jeito eliminar.
"Daryl Dixon" também se move nos limites da credibilidade, mas não os ultrapassa de tal forma que não nos convença a acreditar que talvez, se calhar, com muita sorte, Carol até podia ter voado para França em pleno apocalipse zombie.
Na terceira temporada, "Daryl Dixon" abraça o género de aventura e acção de corpo e alma. Os personagens não são bidimensionais, mas o dramatismo ficou definitivamente em segundo plano, e mesmo assim eu gostei e aplaudi. Daryl Dixon num duelo de motas, Daryl Dixon a assaltar um comboio, Daryl Dixon a matar um super-zombie com a bandeira de França (esta é da primeira temporada mas serve como exemplo). Às vezes o despretensiosismo é o melhor remédio e a terceira temporada assumiu-se abertamente como um "western spaghetti". E não é que funciona?
Era uma vez na Galiza
Carol e Daryl chegam à Inglaterra, onde quase toda a gente morreu. O único sobrevivente que encontram, convenientemente, tem um veleiro, e conseguem convencê-lo a levá-los de regresso à América. Mas o único sobrevivente mal sabe velejar. Todos decidem correr o risco e acabam naufragados na Costa da Morte, ali em cima na Galiza.
Ora bem, isto não é Espanha, nem a Espanha actual nem a Espanha passada. Isto parece mais o México com uma pitadinha de sabor local aqui e ali, como os trajes de festa que podem ter vindo de um rancho folclórico minhoto, ou a paisagem ou a arquitectura, ou os candeeiros de rua. Mas se começarmos logo por encarar isto como "Espanha alternativa cruza-se com Mad Max" gostamos muito mais. E a série ajuda-nos a querer acreditar, que é o mais importante.
Daryl e Carol descobrem uma povoação onde se desenrola um amor de Romeu e Julieta. Roberto e Justina são dois jovens que se amam, mas a povoação está sob o controlo de um chefão, servidor do rei de Espanha (não o verdadeiro), que exige o tributo de uma rapariga todos os anos. As raparigas são requeridas para ser casadas com homens importantes ou simplesmente para servirem como criadas. (Aqui, confesso, ao ouvir falar em La Ofrenda, pensei em coisas muito piores.)
As raparigas são seleccionadas através de uma corrida de porcos. (Na Espanha deviam ser touros, mas imagino que isso ia exigir bastante à produção e que muita gente não ia gostar das implicações com touradas, a começar por mim.) Justina é seleccionada e levada para o palácio do rei. A princípio Daryl não se quer meter no assunto, e com alguma razão, mas Carol insiste em resgatar Justina. Entretanto, Daryl e Carol conhecem mais pessoas capazes de velejar, incluindo outro americano que também quer regressar a casa, e só pretendem ficar na povoação até partirem. Mas o envolvimento no resgate de Justina vai levar Daryl por paisagens inóspitas que podiam ter saído de Mad Max, e são aventuras atrás de aventuras: o duelo, o comboio, uma comunidade de leprosos, um teatro de marionetas zombies que me lembrou muito o Teatro dos Vampiros.
Outro apontamento interessante é que a povoação é atacada por um grupo auto-intitulado Os Primitivos, uma espécie de seita niilista que usa máscaras de caveiras de animais chifrudos e quer destruir tudo o que sobreviveu ao apocalipse. Depois de dar algumas voltas à cabeça, lembram-me os Caretos do Entrudo Chocalheiro de Podence, versão pós-apocalíptica. Desconheço onde é que a série se inspirou.
Até sem enredo era bom
Pergunto-me, porque é que eles querem voltar para a América? Daquilo que já vimos, está-se muito melhor na Europa. Sim, existem zombies em todo o lado, e há escassez em todo o lado, mas as coisas deste lado do Atlântico são muito mais civilizadas e pacíficas. Li algumas críticas de americanos que se questionavam exactamente sobre isto. Voltar para quê? Mas acho que todos queremos sempre voltar a casa, não é? É humano.
No entanto, Carol arranja um namorado em Espanha e Daryl receia que o seu desejo de partir à procura de alguma coisa, precisamente o que o colocou nesta situação, não deixe de se manifestar seja onde for. Esta temporada não é forte em temas dramáticos mas temos flashbacks de Merle, o irmão mais velho de Daryl, quando eram crianças. Dá a entender que Daryl está a tomar consciência dos traumas que o fazem deambular de um lado para o outro quando no fundo está a tentar fugir de si mesmo.
Eu julgava que esta seria a última temporada e, confesso, fiquei muito contente quando percebi que ainda não acabou.
"Daryl Dixon" continua a ser uma série que se vê só pelo cenário. Temos Londres e Barcelona pós-apocalipse, temos paisagens deslumbrantes da Costa da Morte, temos o Real Alcázar de Sevilha (com uma arquitectura e decoração árabe tão Mil e Uma Noites que a câmara deu a volta ao salão todo), temos a vila de Sepúlveda. Voltar à América? Não, não. Por esta altura até só quero ver mais aventuras de Daryl e Carol pela Europa toda, em Itália, na Grécia, na Alemanha, na Roménia, nos países nórdicos, onde puder ser.
E, é claro, ia adorar ver zombies no nosso cantinho: zombies no Terreiro do Paço, zombies nos Jerónimos, zombies no Bairro Alto. E para não dizerem que só falo de Lisboa, estou completamente convencida de que a Torre dos Clérigos dava uma batalha épica de zombies. É só ir lá e percebe-se porquê.
❗OFEREÇO-ME COMO FIGURANTE❗
Zombies
Se há uma coisa que a franchise "The Walking Dead" sabe muito bem é que os espectadores estão aqui, principalmente, pelos zombies. Estamos tão "mal habituados" a zombies espectaculares em todos os episódios que quase nos esquecemos de que isto dá trabalho, custa dinheiro, e, acima de tudo, exige uma criatividade formidável. Admiro a inventividade da equipa que constantemente tenta criar zombies diferentes, adaptados ao cenário, à natureza, e até à cultura de cada local, bem como maneiras originais de os matar. Isto não é pequena proeza se tivermos em conta a longevidade da série. Nesta terceira temporada há zombies submarinos, zombies a arder e zombies-marionetas. Mas o que me surpreendeu mais foram as duas cenas em que tanto Daryl como nós, veteranos do apocalipse, nos questionámos por momentos se estávamos a ver zombies ou outra coisa. Não esperava que uma franchise com 16 anos de existência ainda nos conseguisse criar esta sensação de alarme e sobressalto.
Se a próxima temporada correr tão bem, ou superar, esta foi a melhor spin-off a sair de "The Walking Dead".
Por último, um spoiler não relevante mas interessante: Daryl Dixon mata o zombie do rei de Espanha. Isto, na cultura europeia, é significativo. Quem mata um rei é uma de duas coisas: um condenado à morte, se lhe correr mal, ou o novo rei, se lhe correr bem. Simbolicamente, Daryl Dixon já conquistou uma coroa. Por outra perspectiva, a série está a abordar o tema que "The Walking Dead" tem explorado desde o início. Num mundo pós-apocalipse, em que as estruturas da sociedade desmoronaram há muito tempo, qualquer zé-ninguém pode matar o zombie do rei de Espanha sem consequências.
Foi engraçado, porque o sobrevivente inglês também refere que actualmente se pode ir ao palácio de Buckingham e dormir na cama da rainha, e, com alguma sorte, se pode encontrá-la a deambular, zombificada, pelos corredores. Outra maneira de dizer a mesma coisa.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes
PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, pós-apocalíptico
domingo, 3 de maio de 2026
Burial / O Enterro (2022)
Depois do suicídio de Hitler, um grupo de soldados russos tem a missão de transportar o corpo até Moscovo para o apresentar a Estaline. A caminho, são interceptados por uma milícia de nazis que não se resigna ao fim da guerra e fará tudo para resgatar o cadáver e negar a morte do líder.
A ideia até era "interessante", o que aconteceu ao corpo de Hitler, mas o último consenso quanto ao assunto, confirmado por testemunhos de pessoas que estavam no bunker (à altura, pessoal administrativo muito jovem), os corpos de Hitler e Eva Braun foram levados para o exterior e incinerados porque Hitler não queria o seu cadáver profanado como no caso de Mussolini. É claro que pode haver sempre especulações e teorias da conspiração, mas não me parece que este filme as tencionasse alimentar.
Foi essa a minha questão durante o filme todo: qual é o objectivo deste filme?
Durante o percurso, os soldados e os locais são confrontados com algumas atrocidades que aconteceram durante a guerra, nomeadamente a violação de mulheres por parte dos soldados russos e o fanatismo dos nazis. Tudo bem, podia ser um filme de reflexão. Mas está bem feito? Aqui é que está o problema. É tudo feito de forma muito superficial e acaba por ser um filme de tiros. Se não fosse o cadáver de Hitler isto passava como mais um filme de guerra/acção, mas tinham mesmo de ir explorar o assunto, em 2022? Porque me pareceu que usaram o cadáver de Hitler para promover o filme, que de outra forma nem era comentado.
E, mesmo com o cadáver de Hitler, o filme não deixa de ser muito fraquinho. Era melhor terem feito um filme só de tiros, era mais honesto e não enganava ninguém. Não gostei do filme e não gostei da pseudo-profundidade.
11 em 20





