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domingo, 7 de julho de 2024

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?)

Toda a gente que lê este blog há alguns anos sabe que sou uma FANÁTICA das Vampire Chronicles. Li todos os livros pelo menos duas vezes (excepto o último), vi os dois filmes várias vezes. Há cerca de 15 anos que ouvi falar na produção de “Interview With The Vampire” numa série televisiva e não podia ter ficado mais entusiasmada: finalmente íamos ver a história COMPLETA, com todos os PORMENORES dos livros que fascinaram milhões de fãs em todo o mundo. Falo dos verdadeiros fãs, não daquelas pessoas que viram um filme ou dois e não sabem mais nada da história.
Da mesma forma, não podia ter ficado mais decepcionada, abismada, irritada com a série de que falo aqui e que pode ser tudo menos “Entrevista Com o Vampiro”. Isto não é uma adaptação, isto é fan fic. O que me leva a maior desapontamento ainda com Anne Rice, que sendo produtora executiva teve forçosamente de aprovar todas as alterações. Para quem não sabe, Anne Rice sempre foi contra toda a produção de fan fic (ficção escrita por fãs) do seu trabalho, alegando que deturpavam a história. Mas aparentemente se há dinheiro envolvido já não existe “deturpação”.
O outro problema é: porquê? Porque é que se criou todo um enredo alternativo às Vampire Chronicles quando o original é tão bom e nunca foi adaptado como só uma série de televisão permitiria? Porque é que se quis desiludir milhares de fãs com uma história inferior que atenta contra os elementos mais importantes do original?

Louis de Pointe du Lac
A história começa em 1910. (Porquê, mãezinha, porquê? Porque é que tivemos de perder todo o encanto do século XIX, o século do vampiro?)
Aqui, Louis de Pointe du Lac é crioulo e um proxeneta (dono de bares, casas de prostituição e actividades ilegais em geral). Um Louis crioulo podia ser uma boa ideia, mas a própria questão da raça (incluída por motivos de “diversidade”, algo que nunca teve qualquer relevância no original) coloca contradições gritantes. É Louis quem nos diz que as ruas mal-afamadas de New Orleans eram o único lugar onde um negro podia ser alguém. Por outro lado, o pai dele era dono de uma plantação de açúcar (como no original) que faliu. A família de Louis (mãe, irmã e irmão) é negra e rica. E o pai? Seria branco? Poder-se-á sequer imaginar historicamente que uma família negra pudesse ser dona de uma plantação na Louisiana da altura? * É Louis quem nos diz: não. Então como é que é possível? Mais valia terem retirado completamente a parte da plantação e as coisas faziam mais sentido: Louis de Pointe du Lac, proxeneta, ponto final. (O verdadeiro Louis de Pointe du Lac deve andar às voltas no caixão. Nunca tal criatura sombria e depressiva podia alguma vez estar ligado a negócios de prazer. Aliás, foi esse desprazer com a vida que atraiu Lestat.)
* No segundo visionamento, notei que Louis diz isto sobre a plantação: “Capital acumulado de plantações de açúcar e o sangue de homens que se pareciam com meu bisavô, mas não tinham a sua posição”. Então, a plantação passou para descendentes de escravos? Considerando que seria possível, mesmo assim não invalida a contradição: “as ruas mal-afamadas de New Orleans eram o único lugar onde um negro podia ser alguém”.
Peço desculpa, eu disse que a história começa em 1910. Referia-me ao ano em que Louis conhece Lestat. A série começa nos nossos dias, num dos anos da pandemia, quando Louis, agora instalado no Dubai, convida o jornalista veterano Daniel Molloy para lhe dar uma segunda entrevista 50 anos depois da primeira. Daniel Molloy, que no original também foi transformado em vampiro, está muito mais velho e cínico e sofre de Parkinson. (Esta alteração, por exemplo, não me incomoda muito porque Daniel Molloy nunca foi importante para a história em geral.) Louis, ao que parece, quer corrigir o que disse há 50 anos porque também está mais velho e… mais sábio? Porque mudou de ideias? Porque quer comer Daniel Molloy depois da entrevista? Eu também não sei. A certa altura ambos queimam as gravações em cassete da primeira entrevista, o que não podia ser mais simbólico do que estão a fazer ao trabalho de Anne Rice (com o consentimento da própria). Então este Louis (recuso-me a considerá-lo o “verdadeiro”) começa a contar a história de como era libertino e de como se assumiu como homossexual quando fez sexo com um homem (Lestat). Ui! Isto é mesmo pôr no lixo todos os livros das Vampire Chronicles e deitar-lhes fogo.
Os vampiros de Anne Rice não fazem sexo. O que não quer dizer que não se envolvam em actividades sexuais, mas o êxtase está todo no sangue. Isto não é uma nota de rodapé e não é um pormenor, faz parte da identidade do vampiro de Anne Rice: a imortalidade vem com o preço da perda do prazer sexual, mas o êxtase do sangue supera-o sobremaneira.
Em certos casos, nas Chronicles, alguns vampiros envolvem-se em actividades sexuais com outros vampiros e mortais, o que é sempre representado como uma união profunda, rara, de amor platónico e transcendente, de uma tentativa de voltar a sentir vida. Por exemplo, Lestat e Rowan em “Blood Canticle”. (E sim, temos muitos pormenores bastante explícitos de como estas relações ocorrem, do princípio ao fim. Anne Rice nunca foi exactamente uma púdica.) Transformar isto no mais comezinho da experiência humana é retirar aos vampiros de Anne Rice tudo o que os torna seres únicos e fascinantes, para sempre afastados da humanidade perdida mas nostálgicos por ela, imortais mas amaldiçoados pelo peso da eternidade.
Aliás, a homossexualidade nunca foi escondida nas Chronicles, bem pelo contrário. Muitos vampiros, entre eles Lestat e Marius, assumem-se como bissexuais com todas as letras. Mas Louis nunca o fez e nada nos deu a entender que a sua relação com Lestat não fosse puramente platónica (até ao momento em que Louis o começou a odiar, isto é). A série põe Lestat e Louis a dormirem no mesmo caixão como qualquer casal gay. Isto sim, é fan fic da pior, como certos desenhos que circulam online e que quase me fazem dar razão a Anne Rice quanto à imaginação púbere dos fãs.

Lestat de Lioncourt
Falando no diabo, Lestat é a única personagem que escapa mais ou menos incólume às abominações do enredo. Sam Reid, o actor, consegue personificar o demónio de cabelos loiros como toda a gente o conhece, apesar de o quererem remeter ao papel de marido rabugento que não tem sexo em casa e vai ter com uma amante quando Louis não lhe liga. Isto também é problemático. Lestat nunca se envolve com uma qualquer só pelo sexo. Como no caso de Rowan, o que o atrai a alguns humanos que ele considera extraordinários é um profundo respeito, fascínio e admiração em que o vampiro dá prazer em troca de sangue (ou, no caso contrário, acontecem coisas desagradáveis como em “The Tale of The Body Thief”). Geralmente a amada ou amado são transformados em vampiros também. Não me parece que ele tenha esse respeito imenso pela cantora com que se envolve nesta série.

Claudia
Claudia não é a criança-vampiro de causar pesadelos. É uma miúda de 14 anos, mais ou menos a idade de Armand quando foi transformado. No entanto, com a chegada de Claudia a série começa finalmente a assemelhar-se à dinâmica do original, pelo menos durante uns episódios. Quando a primeira temporada termina, Claudia ainda está viva e o mundo está em plena Segunda Guerra Mundial. Já não são tempos de um Théâtre des Vampires, uma das melhores passagens do livro e do filme. Isto significará que Claudia não morre de todo, o que foi o momento mais dramático e o ponto de não retorno entre Louis e Lestat, já para não falar em Armand? Por outro lado, nesta versão, Armand já não teria razões para destruir Claudia por ser “contra as regras, demasiado nova e dependente para ser um vampiro”. Esta Claudia é bastante auto-suficiente e passa bem por adulta com o vestuário e a maquilhagem apropriada. Aliás, a certa altura ela zanga-se com os “pais” e foge de casa. Nas suas peripécias, conhece outro vampiro de quem se torna amiga e que, tudo dá a entender, a viola de seguida. NÃO! Vampiros não violam vampiros (nem sequer humanos). Primeiro, NÃO CONSEGUEM e não têm prazer sexual. Segundo, a única coisa que lhes interessa noutro vampiro é talvez a amizade, a partilha de um sangue mais potente (como em “Queen of The Damned”), ou a aniquilação do outro por causa do “território de caça”. Obviamente esta gente não leu as Vampire Chonicles e Anne Rice concordou em destruir toda a obra de uma vida. É triste.
Sinceramente, não sei o que estou a ver mas não é “Entrevista Com o Vampiro” de certeza. Pelo menos falaram em Nicholas e Magnus, muito de passagem. Foi pena não terem seguido os livros. Eu teria querido ver o Lestat humano preso na torre, o jovem actor Lestat, e todos os vampiros e vampiras que existiram muito antes de Louis aparecer em cena. O que não queria nada ver era esta abominação. Estou a torcer para que a segunda temporada leve com uma estaca no coração e não apareça à luz do dia. Os verdadeiros fãs fazem melhor em ver o filme do Tom Cruise e do Brad Pitt outra vez.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: NUNCA!

PARA QUEM NÃO GOSTA DE: Anne Rice, The Vampire Chronicles, O Vampiro Lestat, o Vampiro Armand, etc, etc


domingo, 24 de janeiro de 2021

Christ the Lord The Road to Cana, de Anne Rice

Tanto a dizer! Como já tinha referido ao fazer a crítica ao primeiro livro desta série, “Christ The Lord Out Of Egypt”, fui daquelas que estremeceu de medo ao saber que Anne Rice estava a escrever a vida de Jesus. E em primeira pessoa, para ser ainda mais controverso.
Este segundo livro veio tranquilizar-me completamente de que Anne Rice adoptou uma postura respeitosa e reverente, recontando os episódios bíblicos da perspectiva de Yeshua como alguém que lá esteve e os viveu. Nada é esquecido, mas tudo é desenvolvido de maneira que nos surpreende como se nem conhecêssemos a história.
O livro começa não com a última mas com a primeira tentação de Cristo: uma rapariga. Yeshua é agora um homem de trinta anos, carpinteiro de profissão, tal como o pai José e os irmãos adoptivos, de mãos calejadas do trabalho árduo a lixar tábuas e assentar chãos em casas mais ricas do que aquela onde mora a sua família em Nazaré. Yeshua tem um sonho com Avigail, a rapariga, sua parente afastada que o ama. Mas Yeshua afasta o sonho com a conclusão: talvez isto não seja algo para o filho de Deus conhecer.
Nesta altura Yeshua ainda não compreende qual é exactamente o seu propósito divino (especificamente, aquilo que tem de fazer), mas sabe que o tem e sabe quem é.
Anne Rice descreve a vida prosaica de Jesus e da sua família alargada, uma família normal da Palestina ocupada por Roma, mas é quando explora personagens extraordinários que a escrita de Anne Rice brilha. Nenhum personagem poderia ser mais extraordinário do que Jesus, Deus encarnado para alguns, apenas divino para outros. Anne Rice transmite-nos esta dimensão divina em Yeshua mas faz-nos ao mesmo tempo empatizar com o homem. Yeshua é acima de tudo um homem bom, um homem decente, a quem não queremos que aconteça mal nenhum.
Quando chegamos à parte de João Batista no Jordão, a minha vontade era gritar à personagem: não vás! Se vais, é o princípio do teu fim! Fica em Nazaré, casa com a Avigail, esquece lá os pecados do mundo que não são culpa tua. Sê feliz porque mereces.
E aqui eu estaria a falar como o Tentador, o que não é nada bom para a minha pessoa.
Por falar em Tentador, mais uma vez o ponto alto do livro é quando este aparece para tentar Jesus após os quarenta dias no deserto. Anne Rice tem experiência a escrever do ponto de vista de diabos, mas nunca fica claro se Memnoch é o diabo ou apenas um diabo. Aqui, sem dúvida nenhuma, é mesmo o Diabo, Lúcifer, Satanás, o tentador do Jardim do Éden. Lúcifer aparece a Jesus fisicamente igual a ele, mas vestido como um rei. Tal como no primeiro livro, existe em Lúcifer um misto de curiosidade, medo e inveja, mas também atracção, que o torna muito complexo. (Este Lúcifer recordou-me o vampiro Armand no seu primeiro encontro com Louis e Lestat. Ou melhor, e mais certo, o vampiro Armand é que terá sido inspirado na ideia que Anne Rice faz do Diabo, o que é completamente natural tendo em conta a personagem.)
Lúcifer não está ali para antagonizar Yeshua nem para o levar a desistir. Lúcifer pensa que Yeshua vai liderar um exército contra Roma e, sendo o Príncipe deste mundo (está na Bíblia), oferece a sua ajuda. Yeshua rejeita-o, é claro, e Lúcifer tem um ataque de cólera:
“Vais amaldiçoar o dia em que me recusaste! Não vais conseguir fazer isto sem mim! Vais morrer numa cruz romana.”
Lúcifer estava enganado quanto ao propósito do homem cujo nascimento esteve rodeado de “maravilhas e sinais”, mas ao dizer isto Lúcifer não está a fazer uma ameaça. Está a deixar um aviso.
O livro termina na altura em que Yeshua já assumiu o seu papel divino e começa a chamar a si os apóstolos. Jesus diz a Pedro: “Segue-me e far-te-ei um pescador de homens”. Mateus diz a Yeshua: “José contou-me os prodígios e sinais que aconteceram quando nasceste. Se me deres permissão, gostava de os escrever”. E escreveu. Gostei muito que o jovem rico a quem Jesus diz “se queres vir comigo, abandona as tuas riquezas e segue-me” não fosse um estranho qualquer como no episódio bíblico. Aqui ainda tem mais peso. E surpreendeu-me o casamento de Canaã, as bodas de outra personagem que nunca me passaria pela cabeça. Não vou revelar para não estragar a surpresa.
Gostei do surgimento da verdadeira Maria de Magdala, possessa, de quem Jesus expulsa os demónios. (Ao contrário do mito popular, Maria Madalena não era prostituta. O mito decorreu da confusão com outra Maria que também seguia Jesus.) É tudo tão bem encadeado que os episódios bíblicos ganham vida sem nunca perderem solenidade. Anne Rice está a superar-se com esta obra.
Ou melhor, estava. Agora que eu estava a gostar mesmo muito da sua interpretação da vida de Cristo, e decidida a ler o resto até ao fim, Anne Rice já anunciou que não vai continuar a série, originalmente planeada para quatro livros, devido à potencial controvérsia que os livros seguintes poderiam gerar.
Compreendo perfeitamente a posição da autora. Qualquer interpretação da vida de Cristo é polémica. Este mesmo livro, onde eu pessoalmente não encontrei nada de desrespeitoso, pode ser encarado como blasfemo por algum fundamentalista só porque Yeshua pensou (e nada mais fez senão pensar) no que seria uma vida normal com Avigail. Noutros tempos, escrever (e ler) um livro destes era caso para sermos queimados vivos na fogueira. Por isso compreendo perfeitamente a posição de Anne Rice de estar farta de lançar pérolas a porcos. Tenho esperança de que ela tenha continuado a série, nem que seja em segredo, para ser publicada postumamente quando já ninguém a puder chatear. É triste, em pleno século XXI, que fundamentalismos religiosos continuem a obstruir a criação artística a ponto de levarem um autor a perder a paciência e a deixar de escrever.
Recomendo muito os dois livros existentes. Lamento não termos os seguintes.



domingo, 24 de fevereiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 27, 2004

“O Vampiro Lestat” - o livro

O segundo livro das “Vampire Chronicles” de Anne Rice, escrito em 1985, nove anos após a publicação de “Entrevista com o vampiro”, vem explicar os mistérios deixados no ar pelo relato de Louis e preparar os leitores para a explosão cósmica de “A Rainha dos Malditos”. Nenhum dos livros esgota o tema, pelo contrário, até lança pistas para a sua continuação, de uma forma tão natural e pouco comercial que se diria que as “Vampire Chronicles” não podem acabar enquanto os protagonistas existirem.
A rede de relações entre todos e uns e outros em particular é tão intricada e misteriosa como só a vida pode ser. Muitos dos personagens que falam na primeira pessoa não fazem ideia do que os outros tramam e escondem nas suas costas. Mas nem só de traições e segredos se faz a vida destes vampiros. Os amores falsos e os amores verdadeiros e os amores não correspondidos também lá estão.

Lestat é um jovem fidalgo de uma família aristocrática mas falida do século XVIII, em França, pouco antes da Revolução. Propositadamente ou não, Anne Rice diz-nos que ele foi o 7º filho do marquês, mas é o irmão mais novo dos três sobreviventes. A mãe, Gabrielle, é uma mulher fria que se refugia na leitura, mais uma vítima do seu tempo e de um casamento arranjado e de uma vida que odeia mas da qual não se pode libertar. Num castelo pobre e frio, o jovem Lestat mostra desde cedo uma personalidade invulgar e extraordinária. Sai à mãe e tem jeito para os estudos mas o poder paterno não o deixa ingressar num mosteiro porque ser um humilde monge não é digno da sua condição social. Por exemplo, Gabrielle nem perde tempo a ensinar os filhos a ler. E Lestat ressente-se de ser preterido pelos livros. Na adolescência, alimenta o sonho de ser actor. Chega a fugir com uma companhia de saltimbancos italianos e actuar pelas feiras da região. É apanhado pelos irmãos e obrigado a voltar ao castelo porque ser actor nesse tempo era uma vergonha inconcebível. Na sua frustração e infelicidade, Lestat remete-se a ser o caçador que mais tarde se torna na única fonte de sustento de toda a família.
O seu destino é traçado quando enfrenta um alcateia de oito lobos e consegue matá-los todos. Finalmente conquista o respeito da família e da aldeia, mas este acontecimento é apenas o princípio de tudo. É assim que conhece Nicholas, um jovem violinista que, tal como Lestat, tem sonhos artísticos irrealizáveis. Mas agora estão juntos e conseguem gerar força um no outro para fugirem para Paris e dedicarem-se ao teatro. Gabrielle sabe que está a morrer de tuberculose e num dos seus raros gestos de ternura, incentiva o filho a fugir.
Os dois rapazes de vinte anos partem para Paris e dão asas ao seu sonho. Nicholas toca violino e Lestat consegue um papel principal num pequeno teatro para gente pobre. Nessa altura são felizes.
Aqui termina a curta vida humana do vampiro Lestat. A sua fama de caçador, a sua beleza e o seu talento atraem um velho vampiro que quer fazer dele seu herdeiro. É contra a sua vontade que Lestat é obrigado a tomar a Dádiva Negra. De seguida, o seu criador suicida-se e deixa-o entregue a si próprio, sem fazer ideia das leis que regem o submundo onde acabara de entrar.
Mais uma vez, Lestat é obrigado a desistir dos seus sonhos, a viver nas sombras, longe do palco onde brilhava. É prisioneiro da sua condição.
Mas algo mudou: o seu criador deixou-lhe uma enorme fortuna. Subitamente rico, rodeia-se de todos os luxos que o seu castelo arruinado nunca conheceu e reparte o dinheiro com a família e os amigos. Uma coisa lhe é proibida: o contacto com eles. Até ao dia em que Lestat não suporta a solidão e acaba por voltar, mas Nicholas nunca lhe perdoará ter desaparecido de um momento para o outro. É assim que perde o maior amigo.
Quando Lestat fala da insuportável sede de sangue, não será esta também uma ânsia da vida que o Destino não o deixa viver?
E depois Gabrielle está às portas da morte. E Lestat, que não acredita em Deus, tem tanto pavor da morte como da solidão. Com o consentimento de Gabrielle, transforma-a noutra vampira. Torna-se no criador da sua mãe.
Mas assim que Gabrielle se liberta das condições restritivas da vida, transforma-se no que chamamos agora uma “exploradora de terras desconhecidas”. Tinham em comum, ela o filho, serem prisioneiros de um século feudal e demasiado atrasado para duas pessoas extraordinárias que não se conformavam com a mediocridade das suas existências e com as convenções que lhes eram impostas. Atraída pelos desertos, pelas montanhas, pelo desconhecido, pelos povos primitivos e exóticos, Gabrielle não suporta a sociedade moderna do século XVIII. Aliás, Gabrielle não suporta nenhuma sociedade. Livre como um animal selvagem, é no espaço bravio e desabitado que encontra o seu lugar. Lestat, apaixonado pela vida e pelo amor, jamais a poderia seguir. O próprio admite que espera da mãe o que ela não lhe pode dar. E no entanto, existe amor entre os dois. E no entanto, não podem ficar juntos.
Lestat ainda tenta redimir-se perante Nicholas transformando-o também num vampiro, mas é tarde demais para reconquistar o seu amor. Pior, Nicholas é uma espécie de Louis ainda mais atormentado e acaba por se suicidar numa pira de fogo.
A família aristocrática de Lestat é assassinada durante a revolução, sobrevivendo apenas o velho pai, que se refugia na colónia americana da Louisiana. Confrontado com a necessidade de tomar conta do pai, é Lestat quem se sacrifica. Gabrielle nunca mais quis ver os outros filhos, quanto mais o marido. É a separação definitiva.
Mais uma vez sozinho e sem rumo, Lestat entra na sua primeira depressão vampírica: debaixo da terra, permanece vivo, mas sem vontade de viver. A visita de Marius ensina-lhe alguns segredos que o fazem reagir, mas mais tarde volta a procurar esta hibernação, depois de perder Cláudia e Louis, e como Marius lhe disse, se não fosse esta fuga do mundo muitos imortais não teriam coragem de continuar a viver.


Vampiros muito humanos
É interessante notar a evolução do vampiro Lestat da “Entrevista” para este Lestat que escreve a sua autobigrafia e mais tarde ainda para o Lestat pós-“Queen of the Damned” em “The Tale of the Body Thief”. É o cidadão do século XX que nos fala, como não podia deixar de ser, e já não o aristocrata francês, contemporâneo de Maria Antonieta, que não sabia ler nem escrever, que usava tricórnio e fatos de “todas as cores do arco-íris” (citação) - Consegue-se imaginar um homem elegante de tricórnio cor-de-rosa?... Dificilmente. Grande inteligência, a de Anne Rice, e ao mesmo tempo pergunto-me se o interregno de 9 anos entre o início das crónicas em 76 e a sua continuação nos anos 80 não teve também importância nesse salto qualitativo das personagens.
Como já aqui disse, Louis é que é o gótico mas é de Lestat que eu gosto mais. Lestat é aquela criatura que ninguém nunca conhece completamente, tal é a sua complexidade, e as suas aparentes incoerências só se desfazem quando o próprio explica, com uma inocência mais que convincente, aquele pormenorzinho que os outros ignoravam porque nunca perguntaram, porque Lestat pensava que eles sabiam, ou porque Lestat não podia ou não teve coragem de contar antes.
Por exemplo, a morte de Cláudia. Quem viu o filme e quem leu o primeiro livro, pela perspectiva de Louis, não imagina o que realmente se passou. Só um século depois, quando Lestat lê a interpretação que Louis faz dos factos e da sua personagem (o tal ignorante, cruel, egoísta e vaidoso aristocrata que não tem muitos escrúpulos) é que se revolta e decide contar a sua versão da história. Aliás, como qualquer um de nós faria.
Então, seguir o percurso destas personagens torna-se apaixonante. É preciso, como no jornalismo, ir ouvir a versão de cada um e, como na justiça, não esquecer que todos são inocentes até se provarem culpados. Inevitavelmente, criam-se amores e ódios de estimação.
Já tenho o meu ódio pessoal a Armand. Sedutor e carismático, Armand tem a moral de um tubarão. Não ama ninguém a não ser ele mesmo, isto é, e duvido muito, se é que se ama a ele mesmo. Às vezes a falta de auto-estima leva certas criaturas a encontrarem compensação na sensação de poder que é liderar alguma coisa, manipular as pessoas para benefício próprio, sentir-se importantes aos olhos dos outros mesmo que não gostem deles próprios. (Mal posso esperar por ler “Armand”)
Armand engana Louis, deixando-o pensar durante quase um século que Lestat morreu e, mesmo quando confessa que Lestat está afinal vivo e que foi ele, Armand, a ordenar a morte de Cláudia, não conta que Lestat nunca pediu que o fizesse. A Lestat, Armand também engana e também diz que Louis morreu pouco depois de Cláudia. Chama-se “dividir para reinar”. Graças a isto, manteve os dois afastados até ao século XX e privou da companhia de Louis enquanto lhe apeteceu.
Todos nós conhecemos Armands. O mundo está cheio de Armands. Se calhar por isso o meu ódio de estimação à personagem. Quem não conhece essa personagem intriguista e manipuladora, da família, do escritório, do círculo de amigos?
Só a verdade pode expor a criatura, e é isso que faz Lestat na sua biografia, como a luz que dissipa as trevas. Basicamente é isso que Lestat representa, a luz, e já lhe perguntava o seu amigo Nicholas, “para que serve um monstro cheio de luz”?
O amor de Lestat e Nicholas, por outro lado, lembra-nos que quando o amor se torna em ódio é dos ódios mais fortes que existem. E todos também já vimos isso todos os dias.
O que não vemos todos os dias é uma personagem brilhante e honesta como Lestat, que procura pelo amor. E quem é que pode amar um ser como Lestat? Talvez ninguém. Talvez apenas Louis, à sua maneira, porque partilham da mesma inocência e do mesmo desespero. E mesmo assim, nenhum se consegue adaptar à forma de viver do outro. Este já é o grande problema do século XXI, consciente ou inconscientemente antecipado aqui por Anne Rice. A extrema individualidade e independência dos anos 90, a mesma razão porque Mulder e Scully dos “Ficheiros Secretos” nunca assumem a sua ligação romântica.
Na mãe, Lestat tem uma amiga mas não uma alma gémea. E em relação ao pai, Lestat é implacável. Nada está perdoado. Existe apenas um vago sentimento de obrigação que o faz ficar com ele até ao fim. Os pedidos de desculpa do velho marquês, no leito de morte, já vêm tarde demais. Lestat pede a Louis: “Mata-o!”. Louis responde: “Não posso, é o teu pai!” Ao que Lestat responde: “Eu sei. Por isso não o posso matar eu”. (in “Entrevista com o vampiro”)
Até que ponto a falta de sentir amor na infância pode moldar as pessoas? E se não há almas gémeas, pode haver amor? Como é que os familiares de Lestat poderiam imaginar como este se sentia preso ao destino imposto pela família? A frieza de Lestat no leito de morte do pai, portanto, é completamente natural. Estranho seria se chorasse o homem que o fez tão infeliz. Não havia nada, mesmo nada, em comum entre os dois excepto a casualidade estranha de um ser pai do outro. E viver entre almas estranhas é o inferno da incompreensão. Já dizia Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”.
Mas não todos os outros. O inferno aumenta na medida em que as almas são diferentes. Porque Lestat e Gabrielle tinham muito em comum mas se ela não compreendia a necessidade de Lestat viver entre as pessoas, muito menos ele poderia compreender que ela preferisse viver entre rochas inacessíveis. Eram almas mais gémeas do que Lestat e o velho marquês, mas ainda não suficientemente gémeas.
Lestat procura desesperadamente reconstruir a família. Ao saber da morte dos irmãos e cunhadas e sobrinhos, sonha que voltou a casa e os transformou a todos em vampiros, desde o pai, passando pelas crianças, até ao bebé de colo - a primeira visão de Cláudia? - porque para Lestat tudo e qualquer coisa é melhor do que a morte.


Vampiro vs anticristo
Nos anos 80, Lestat volta a sair de uma depressão de 50 anos e dedica-se à música. Quer ser, nem mais nem menos, uma estrela rock.
Aqui tenho de sorrir e ser condescendente para com Anne Rice. Nem vou transcrever as letras que ela escreveu para Lestat. Não, são piores que “Black #1” dos Type O Negative. Mas muito piores!!!
Digamos que Anne Rice queria dizer que Lestat se tornou um ídolo internacional à escala de Marilyn Manson, mas sem a polémica de Marilyn Manson porque ninguém acreditava que ele fosse mesmo um vampiro. Pobre Anne Rice, que em 1985 não acreditava que certas pessoas fossem tão estúpidas que pensassem que um cantor rock pudesse mesmo ser um vampiro - ou o Anticristo!!! E, no entanto, em pleno século XXI, ainda há quem veja o Demónio em Brian Warner.

O que é que aprendemos daqui?

1, Que Anne Rice é uma optimista e que as pessoas podem ser mais estúpidas do que nós imaginamos, ou
2, Que nos anos 80 se vivia uma euforia artística e cultural que não deixava antever a regressão dos anos 90?

Aposto na segunda hipótese porque o progresso é mesmo feito de avanços e recuos.


De volta ao vampiro
Na sua existência vampírica, o destino de Lestat repete-se. O próprio acaba por perceber isto não só em relação a ele próprio como aos outros que o rodeiam. Mortais ou imortais, parece que todas as voltas vão dar ao mesmo fim. Ao tentar brilhar de novo num palco e fazer aquilo para que nasceu... a nova “família” insurge-se. Não pode expor-se assim dessa maneira, não lhe é permitido expor os outros. É preciso remeter-se às sombras e ao anonimato. Não admira que Lestat venha a ter um comportamento suicida e auto-destrutivo. Está tão aprisionado pelo destino como mais tarde se vê aprisionado num corpo humano, já em “The Tale of the Body Thief”.
Sozinho, frustrado... e a precisar de muita terapia.
Mal posso esperar por ler “Memnoch, o diabo”.

Mas, antes, vou reler “Queen of the Damned”. Acontece que já li em português e se há pensamentos de Anne Rice que não se percebem em inglês, muito menos noutra língua. Não me queixo dos tradutores nem da escritora. Pelo contrário, muitas vezes a grandiosidade de um escritor está na dificuldade em interpretar e traduzir as suas frases que evocam toda uma corrente de pensamentos e sentimentos associados aos sons, às sílabas, aos jogos de palavras... Isso fica “lost in translation”. É um pouco como traduzir Fernando Pessoa para outra língua sem lhe assassinar a poesia. É daqueles casos em que não basta traduzir mas re-escrever. Não se pode pedir tanto a um tradutor. (Não se pode pedir tanto a ninguém.)

“O Vampiro Lestat” só termina na introdução da “Rainha dos Malditos” Diz ele: “É uma verdade horrível que o sofrimento nos pode tornar mais profundos, dar mais brilho às nossas cores, uma ressonância mais rica às nossas vozes. Isto é, se não nos destrói, se não nos queima o optimismo e abate o espírito, a capacidade de sonhar, e o respeito pelas coisas simples mas indispensáveis. Por favor perdoem-me se vos soo amargo”.

Como não? Afinal, é apenas a destruição da humanidade que Lestat quase provoca com a Rainha dos Malditos... E só queria voltar a ser o jovem actor que fugiu de casa para andar de feira em feira com saltibancos italianos... É lixado sermos nós próprios.


Notas de humor
“Todas as noites quando regressava a Carmel Valley eu pegava nos sacos de correio dos fãs (...) e procurava neles escrita de vampiros (...) mas não havia nada excepto a devoção fervorosa dos mortais.
‘Querido Lestat, eu e a minha amiga Sheryl adoramos-te, e não conseguimos bilhetes para San Fransciso embora tenhamos estado na bicha durante seis horas. Por favor manda-nos dois bilhetes. Nós seremos tuas vítimas. Podes beber o nosso sangue.’”

Delicioso!
Fantástico!
E eu queixava-me do preço dos bilhetes para o Nick Cave.

E há aquela parte em que Louis fala dos bares onde os vampiros se encontram, e de uma certa fauna humana que também por lá anda... Esta, confesso, foi dolorosa. Diz Louis:
“Os mortais que lá vão são um autêntico circo de tipos teatrais - jovens punks, artistas, aqueles que vestem capas negras e dentes de vampiro de plástico. Eles mal dão por nós! Comparados com eles, somos ofuscados!”

Senhor Louis, já é suficientemente mau ter nascido numa época de trajes elegantes - nada de tricórnios e fatos brilhantes cor de malva que são coisas do seu ilustre amigo - e não poder apontar um dedo ao seu bom gosto, e ainda por cima ser um vampiro famoso e quase antigo e aos antigos não se falta ao respeito, não pela hierarquia gótica porque o senhor não é gótico nem percebe nada do assunto (faz de conta!), mas com a respectiva vénia: beba-nos o sangue mas não critique as nossas roupas!

Publicado por _gotika_ em 02:59 AM | Comentários: (6)