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domingo, 12 de outubro de 2025

Fevre Dream, de George R. R. Martin (1982)


Fiquei muito curiosa ao saber que George R. R. Martin tinha escrito uma história de vampiros. Já que não vou pegar de todo em "Guerra dos Tronos", foi também uma oportunidade de conhecer o estilo do autor.
No Mississípi, antes da Guerra da Secessão, Abner Marsh é um armador à beira da falência a quem o misterioso Joshua York faz uma proposta duvidosa: construir o barco mais rápido e mais luxuoso do rio. Em contrapartida, Joshua York quer ser o capitão e não quer responder a muitas perguntas. Abner Marsh é um homem de meia-idade que perdeu muitos barcos no Mississípi. A tentação de voltar a ter um barco majestoso que vença corridas é irrecusável, e é assim que aparece o Fevre Dream, barco baptizado a partir de um afluente do grande rio (o Fevre, que não é erro ortográfico mas que custa muito a escrever desta maneira).
Ia a um terço do livro quando me apercebi de que ainda não sabia qual era a história. Em contrapartida, nunca pensei ler tanta coisa sobre barcos, sobre partes de barcos como as pás e os conveses, sobre corridas de barcos, sobre o negócio dos barcos, sobre a pintura dos barcos, sobre a velocidade dos barcos. Isto só não foi inteiramente chato porque vamos tendo cenas de um clã de vampiros liderados por Damon Julian (Olá "Diários do Vampiro"!), ainda não relacionadas com o argumento principal, em que os vampiros fazem vampiragens sangrentas. A história propriamente dita só começa a meio do livro, quando percebemos que Joshua York aperfeiçoou uma bebida de álcool e sangue que elimina a necessidade de matar (um pouco o conceito de "True Blood") e deseja fazer do Fevre Dream um local de paz e harmonia entre vampiros e humanos, ideia que Damon Julian abomina veementemente por uma questão de princípio.
Vou já ao ponto, os vampiros são Riceanos. Depois de Anne Rice, é difícil fugir à influência. As cenas entre vampiros pareceram-me muito familiares e "confortáveis" por causa disso. Damon Julian lembrou-me Armand, calculista e frio, nos dias do Théâtre des Vampires. Logo, senti-me em casa. Tirando esta semelhança aparente, estes vampiros de George R. R. Martin são maniqueístas, não são o poço de profundidade dos vampiros de Anne Rice. Joshua York é o vampiro bom, Damon Julian é o vampiro mau. O conflito é Homem vs Homem (leia-se vampiro contra vampiro), enquanto que o conflito em Anne Rice é Homem vs Ele Próprio. O tema de "Fevre Dream" é a luta do Bem contra o Mal, não existe a introspecção existencial que encontramos em Anne Rice. Não estou a dizer que devesse existir, estou apenas a apontar as diferenças.
Outro detalhe que achei muito interessante neste universo é que os vampiros não são transformados, são nascidos de pai e mãe vampiros de uma forma mais ou menos "tradicional". Achei muito interessante porque aqui Martin afasta-se do género do Terror clássico em que os vampiros são criados por meios sobrenaturais e aproxima-se do terreno da Fantasia com a invenção de uma nova espécie. De igual modo, e apesar de possuírem a lendária auto-regeneração, a capacidade de hipnotizar e uma força sobre-humana, estes vampiros também podem ser mortos de maneiras normais (embora sejam difíceis de matar).
Mas o protagonista da história é mesmo Abner Marsh, a quem eu descreveria como um paz-de-alma e boa pessoa, que de repente se vê no meio de uma guerra de vampiros. Abner Marsh não é exactamente o tipo de personagem que me cative, especialmente no primeiro terço do livro em que só se fala de barcos. Ficou tudo muito mais interessante quando comecei a imaginar George R. R. Martin neste papel. É que assenta como uma luva. Lá para os dois terços do livro é impossível não torcer por ele, mas demorou-me a estabelecer empatia.
Como disse acima, "Fevre Dream" pode não ter a profundidade psicológica de Anne Rice, mas apreciei a componente filosófica que também se encontra nas Vampire Chronicles. Damon Julian, o vampiro mau, faz paralelismos entre o vampirismo e a escravatura: como é que acusam os vampiros de cometerem crimes quando os próprios seres humanos se exploram uns aos outros? E pergunta a Abner Marsh, um grande comilão: qual é a diferença entre os seres humanos e o gado? Perguntou a essa vaca que acabou de comer se ela concordava em ser comida? Devo dizer que não deixo de compreender a posição de Damon Julian, e este foi o momento mais moralmente cinzento do livro, que de novo me remeteu a Anne Rice.
Aconselho "Fevre Dream" a todos os amantes de vampiros, uma história de escolhas e coragem e de vampiros tendencialmente Riceanos. É preciso é ultrapassar um terço do livro sobre barcos e o Mississípi, e descrições de barcos e do Mississípi. Mas, por outro lado, para quem quiser conhecer melhor este Mississípi desaparecido, também é aqui.


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Arrábida - Reserva da Biosfera da UNESCO

A Arrábida foi recentemente classificada como Reserva da Biosfera da UNESCO. Segundo o comunicado oficial, "a região alberga mais de 1400 espécies vegetais (40% da flora nacional), incluindo 70 espécies raras e endémicas, bem como cerca de 200 espécies de vertebrados e mais de 2000 espécies marinhas".
Aproveito a oportunidade para relembrar "Orquídeas Silvestres, Arrábida (Guia de Campo)" de Armando Frazão, um livro que aprofunda a riqueza das espécies de orquídeas nativas da serra. Já tive o livro na mão e recomendo. Além das fotografias minuciosas e deslumbrantes, o papel é de grande qualidade, macio e brilhante, e o tamanho do livro permite levá-lo para o terreno. Destaco ainda o texto em português e inglês, científico e exacto mas pensado para ser acessível a todos, e a excelente composição gráfica. 
"Orquídeas Silvestres, Arrábida (Guia de Campo)" é um livro para apaixonados por orquídeas, pela Natureza e pela região da Arrábida em geral, e faz um óptimo presente didáctico para miúdos e graúdos.


domingo, 27 de abril de 2025

And the Ass Saw the Angel, de Nick Cave

Conhecia este livro quase há tanto tempo como conheço Nick Cave, mas a oportunidade nunca se proporcionou. Não fazia ideia do que ia ler.
Esta é a história de Euchrid Eucrow, um desgraçado que já era desgraçado antes de nascer. Mãe alcoólica, pai indiferente. Nos anos 30, numa miséria humana em todos os sentidos, Euchrid nasce junto a uma comunidade fortemente religiosa sem nunca lhe pertencer. O negócio dos pais, ao que parece, é produzir zurrapa para os vagabundos que abundam pelo vale. O passatempo da mãe é torturar Euchrid, o passatempo do pai é torturar os animais ainda vivos que apanha nas suas armadilhas. Euchrid não é filho único. O seu irmão gémeo, o primogénito, morreu logo depois de nascer e foi enterrado no quintal.
Euchrid é mudo de nascença, o que, conjuntamente com o seu status familiar abjecto, o torna alvo de perseguição e tortura pelos habitantes mais perversos do vale.
Sem ninguém que o proteja, pela altura em que os pais morrem Euchrid já está meio louco. Na falta deles, enlouquece de vez. Convence-se de que é um mensageiro, um sabotador por ordem divina, ouve a voz de Deus, vê um anjo da guarda, vê fantasmas, acredita-se um rei num reino de sucata que tem como súbditos os pobres animais estropiados e famintos apanhados nas armadilhas que herdou do pai. Testemunhar os delírios de Euchrid, relatados na primeira pessoa, é acompanhar uma descida aos abismos mais alucinados da loucura. Muitas vezes os seus devaneios são já tão desligados da realidade que Nick Cave tem de "intervir" para nos elucidar sobre o que está realmente a acontecer. Euchrid começa a sofrer de "apagões" ("deadtime", como ele lhes chama) em que não se lembra do que fez. Euchrid também tortura animais, o que só não é mais difícil de ler porque percebemos que a violência vem de uma mente paranóica e demente, como, por exemplo, quando ele espanca um cão porque o cão estava a "troçar dele". Num sonho, ou visão, Euchrid vê-se a estrangular o próprio irmão com o cordão umbilical no ventre materno, o que seria impossível mas que nos esclarece sobre o seu estado mental. Por outro lado, o facto de Euchrid se intitular a si próprio "sabotador" (algo que o fantasma do pai também lhe chama, acusatoriamente) dá-nos razões para suspeitar que tenha matado o pai, muito embora ele diga que eram próximos e que não tinha nenhuma razão para fazer isso. Tirando a "nenhuma razão", tem todas as razões, e tem apagões em que não se lembra do que fez, e não se pode confiar numa palavra de Euchrid por muito que ele acredite piamente no que diz.
A história de Euchrid é violenta, chocante, pesada e perturbadora. A escrita de Nick Cave é magistral, erudita, avassaladora, mas com a componente lírica que seria de esperar. Nick Cave, como os fãs já sabem, é também um letrista fora de série, um contador de histórias extraordinário, um daqueles raros mestres do ofício de escrever que conseguem fazer tudo o que querem das palavras. Quem acompanha Nick Cave, tanto a solo como nos Birthday Party ou nos Grinderman ou com os Bad Seeds, vai reconhecer neste livro muitos temas recorrentes na obra musical, alguns desenvolvidos de forma diferente, outros muito semelhantes, como no caso do cavalo chamado Sorrow ou de "The Firstborn Is Dead".
Após ler "The Death of Bunny Munro" e "And the Ass Saw the Angel", e de ficar arrebatada pelo talento de Nick Cave (também) como romancista, quase me perguntaria porque é que ele não escreveu mais livros se não soubesse já a resposta. Depois de "The Death of Bunny Munro" a tragédia abateu-se. E voltou a abater-se poucos anos depois. Compreendo que o autor possa não estar no melhor espaço mental para escrever neste momento, mas a tragédia e o luto são um grande catalisador para a criação artística e eu vou manter a esperança.
Aconselho veementemente os livros de Nick Cave a todos os fãs, os que melhor vão conseguir apreender todo o significado e simbolismo da sua obra em prosa. Quanto aos que ainda não conhecem a música de Nick Cave, recomendo também e prometo que a música é tão boa ou melhor.


domingo, 13 de abril de 2025

The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, de Robert Louis Stevenson

Foi a primeira vez que li este clássico. O doutor Henry Jekyll, figura respeitável na alta sociedade, tem alguns apetites "desonrosos" que o levam a inventar uma poção que lhe permita transformar o seu corpo físico num outro, Edward Hyde, congeminado somente para satisfazer os desejos mais baixos de Jekyll sem que este sofra consequências legais. No entanto, Jekyll tem a consciência que falta a Hyde e sofre as consequências morais dos actos do seu duplo. Com horror, Jekill percebe que Hyde se está a apossar cada vez mais do seu corpo a ponto de não o conseguir controlar ou expulsar.
Jekyll é o que Stephen King descreveu como um "lobisomem com o pêlo por dentro", mas ao lermos a confissão de Jekyll percebemos até que ponto este lamenta as suas experiências e a existência de Hyde, na sua cegueira de quem não assume a inteira responsabilidade pelos actos do "outro".
Este é um grande clássico, cheio de dilemas filosóficos e análises psicanalíticas. O que Jekyll nunca consegue admitir é que Hyde está a apossar-se de si porque Hyde é o inconsciente reprimido de Jekyll, ou seja, Hyde é Jekyll no seu pior, um pior que Jekyll não consegue assumir sem se dissociar fisicamente de Hyde. Se Hyde acaba por controlá-lo, é porque Jekyll, inconscientemente, assim o deseja.
"The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde" tem, ainda hoje, uma influência que permeia a literatura, o cinema, e todos os géneros da Ficção Científica (a leitura lembrou-me muito de "A Mosca" e de "O Retrato de Dorian Gray"), Terror e Policial, ao mesmo nível de "Drácula" e "Frankenstein". Se acho esta leitura obrigatória? Nos dias de hoje já não, uma vez que o tema já foi muito melhor explorado em histórias mais recentes, mas vai certamente agradar a quem, como eu, se dedica a arqueologia literária.


 

domingo, 16 de março de 2025

Cujo, de Stephen King

Cujo é um nome que já faz parte da cultura geral. Sempre pensei que se tratava de um cão possuído por uma força sobrenatural, mas não. Esta é uma história muito triste. Cujo é um São Bernardo simpático, mansinho e amigo de crianças, até que é mordido por um morcego. Sem vacinas, Cujo apanha raiva, e a partir daqui já sabemos o que lhe acontece.
Mais do que triste, esta história é uma tragédia: a tragédia do cão, uma vítima inocente, a tragédia das vítimas inocentes causadas pela doença do cão. O terror, aqui, não é um monstro, nem uma entidade sobrenatural ou malévola, mas talvez seja o maior terror de todos, o terror existencial de sabermos que podemos perecer a qualquer instante e de qualquer maneira, até só por estarmos no sítio errado à hora errada, sem nexo, sem aviso. Eu gosto de lhe chamar a Crueldade de Deus mas também lhe podemos chamar apenas Natureza.
O drama de Cujo não é o único. Os donos de Cujo são uma família em que o marido bate na mulher. A outra família envolvida nos acontecimentos também se encontra em crise, depois de a esposa ter tido um caso extra-matrimonial. As circunstâncias conspiram para a tragédia final: a dona de Cujo consegue convencer o marido (controlador e abusivo) a deixá-la visitar a irmã, e o marido decide também fazer uma viagem de lazer "de homens" com um amigo e vizinho. Todos embrenhados nos seus dramas pessoais, ninguém, excepto o rapaz dono de Cujo, se apercebe de que este está doente. Cujo fica sozinho, já num estado enlouquecido e assassino, pronto a matar tudo o que apanhar.
Gostei principalmente da perspectiva de Cujo, que nos informa do seu estado mental cada vez mais deteriorado. Sem compreender o que se passa, Cujo culpa as pessoas que lhe aparecem à frente de lhe causarem a dor e o sofrimento que o afligem, e é por isso que as ataca. O que é triste, trágico. As cenas dos ataques são perturbadoras o suficiente, mas só consegui sentir pena do pobre Cujo, das pobres pessoas. Confesso que não consegui chorar, mas chorei por dentro. Não era o que esperava de um livro de Stephen King.
Sei que existe uma adaptação cinematográfica, mas quem é que quer ver um desgraçado animal ficar doente, moribundo e psicótico a atacar pessoas? Não há aqui bons e maus, são todos vítimas.
Stephen King revelou que escreveu "Cujo" em tal estado de embriaguez que não se lembra de o ter escrito. Sinceramente, não acredito. Ou Stephen King estava pedrado noutra coisa ou não temos o mesmo conceito de "embriaguez". O meu conceito de bebedeira é quando já não se consegue escrever, literalmente, nem sequer acertar nas teclas. Logo, Stephen King não podia estar assim tão bêbedo. Talvez estivesse sob outras influências. Seja como for, "Cujo" é um grande livro, se bem que não seja o terror sobrenatural a que King nos habituou, e por mim ele podia embebedar-se mais vezes (a família dele é que não ia gostar nada) e escrever mais livros destes.


 

domingo, 19 de janeiro de 2025

Great Expectations, de Charles Dickens

Este foi o meu primeiro livro de Charles Dickens e eu pensei que ia ser a seca da minha vida. Não podia estar mais enganada. A julgar pelas adaptações cinematográficas, sempre imaginei que “Great Expectations” era um dramalhão à semelhança dos romances das irmãs Brontë, com infindas descrições de trinta páginas cada uma (como era comum na altura). Nada me faria adivinhar como a escrita de Dickens é divertida e nunca vi um filme que conseguisse transmitir o seu grande sentido de humor, especialmente no que toca a “Great Expectations”.
A história é uma das minhas favoritas de sempre e posso dizer sem exagerar que me marcou em tenra idade (à semelhança da maneira com que Miss Havisham marcou Pip, curiosamente), influenciando a minha maneira de pensar e até a minha personalidade, e isto sem sequer ter lido o livro. Era, pois, mais do que justo que finalmente o lesse, e embora tarde mais vale tarde do que nunca.
Pip, o protagonista, é um órfão de família humilde que vive com a sua terrível irmã mais velha e o cunhado ferreiro, Joe, marido dela, que funciona para ele como um padrasto bondoso. Aproveito para falar já da irmã de Pip, uma mulher horrorosa que se enfurecia sozinha com o seu complexo de mártir para ter desculpa para bater a Pip e ao marido, o que só sublinha a natureza benévola de Joe. Tendo em conta a situação de abusos psicológicos e tareias que sofre, e que só conhece os pais das campas no cemitério, Pip até me parece uma criança muito bem-disposta.
É precisamente no cemitério, num dia de Natal, que Pip tem o encontro fatídico que vai mudar a sua vida sem que este desconfie. Um foragido pede-lhe ajuda, fora as ameaças, e Pip concorda em ajudá-lo. O foragido acaba por ser preso e Pip nunca mais pensa sobre ele.
Entretanto, Miss Havisham e Estella entram na sua vida. Miss Havisham, abandonada pelo noivo no dia do casamento, vive na escuridão da sua sala decadente entre relógios parados, teias de aranha, o vestido de noiva em farrapos e o bolo de casamento a apodrecer há anos na mesa do banquete. Para se vingar dos homens, Miss Havisham adoptou Estella, nesta altura ainda uma rapariguinha, a quem treina para ser fria, distante e caprichosa. Pip é convidado a visitar a casa de Miss Havisham para brincar com Estella, e para Estella brincar com ele, como o gato brinca com o rato, sob o olhar perverso de Miss Havisham.
Aqui devo dizer que não achei a Miss Havisham do livro a mesma velha tétrica e fantasmagórica que é retratada nos filmes, por muito que Dickens se esforce para passar essa impressão. Ou, se calhar, os filmes superaram o original com a ajuda da imagem que vale mil palavras. A Miss Havisham do livro é igualmente trágica, sem dúvida, mas consegui reconhecer-lhe uma faceta mais humana, mais insegura, mais vulnerável, uma mulher de carne e osso que come, bebe e passa cheques. Os filmes, parece-me, sempre tentaram transformá-la numa assombração, como Dickens pretendia projectar mas, pelo menos a mim, não convenceu. (Também concedo que seja fácil dizer isto depois de ver os filmes e que a impressão podia ter sido completamente diferente se tivesse lido o livro primeiro.) O que Dickens conseguiu perfeitamente foi transmitir a pessoa perturbada e doentia em Miss Havisham, seja ela espectral ou de carne e osso, e a sua obsessão em exercer vingança através de Estella.
O plano resulta, e Pip apaixona-se perdidamente pela altiva Estella, nomeadamente à medida que ambos crescem e ela se torna uma mulher cada vez mais bela. O efeito mais iníquo desta maquinação de Miss Havisham, no entanto, como percebemos mais tarde, não é que Estella venha a partir o coração de Pip, mas que Pip comece a ter vergonha das suas origens, especialmente de Joe, o cunhado que foi para ele um pai e que Pip começa a olhar com crescente embaraço por não ter as maneiras, a educação e a linguagem a que Pip é exposto na casa rica de Miss Havisham.
Certo dia, Pip é informado de que um benfeitor anónimo lhe pretende deixar uma grande fortuna para que Pip se transforme num gentleman. Acreditando piamente que o benfeitor é Miss Havisham, Pip depreende também que isto significa que a velha senhora pretende que ele se case com Estella. Miss Havisham conhece este equívoco (e esta ilusão) mas nada faz para o esclarecer porque lhe convém que Pip continue o mais iludido possível.
Sempre gostei do sentido duplo do título. Os advogados chamam a Pip, referindo-se a esta fortuna prometida, “um jovem de grandes expectativas”, mas nós sabemos que são antes “grandes esperanças” e que estas esperanças são Estella, Estella, Estella. Mas eu não considero, de maneira alguma, que “Great Expectations” seja baseado numa história de amor. Não há aqui amor nenhum. Pip “ama” Estella porque é ela é bela, sofisticada, educada. Ele próprio admite que Estella não tem outras qualidades, nem é amável nem é agradável, e quando está com ela não podia ser “mais infeliz”. Isto não é amor mas obsessão, como se conquistá-la fosse a prova de que a merece, de que atingiu um estatuto, de que finalmente é alguém, um gentleman. Mesmo depois de saber que foi iludido e manipulado, Pip não consegue livrar-se desta relação tóxica que só existe na sua cabeça desde infância.
Estella não tem melhor sorte. Igualmente sujeita a uma lavagem cerebral desde criança, acredita no que lhe foi ensinado e segue em frente até destruir a sua vida. Confesso que esperava conhecer mais sobre esta personagem fascinante no livro, mas Estella é sempre vista pela perspectiva de Pip, uma perspectiva completamente distorcida e perplexa, quando não cega de todo.
O que mais gostei nesta história, desde sempre, foi como Dickens descreveu os mecanismos psicológicos que podem manipular e arruinar uma criança para sempre, especialmente quando não existe contraponto às influências nocivas que recebe, a ponto de a manipulação perdurar e continuar a fazer estragos bem para lá da idade adulta. Pip acaba por perder tudo, mas sobretudo compreende que a coisa mais valiosa que perdeu, por sua culpa, foi a amizade pura e desinteressada de Joe, que dinheiro nenhum poderia pagar.
Dickens é muito elogiado pelas suas personagens inesquecíveis (sem dúvida) ao mesmo tempo que é criticado por estas serem algo caricaturais (não nego), o que as torna ao mesmo tempo divertidas. Prefiro ver estas “caricaturas” como humor (ou ironia, ou sarcasmo) e como crítica social. A verdade é que “Great Expectations” ainda se lê muito bem nos dias de hoje e recomendo a toda a gente que gostou dos filmes.

 

domingo, 17 de novembro de 2024

The Bell Jar, de Sylvia Plath

Uma personagem de uma série de televisão descreveu este livro como “uma viagem ao abismo”. Confesso que fiquei surpreendida porque não sabia que Sylvia Plath tivesse escrito um romance (sempre a conheci como poetisa) mas o tema interessou-me imediatamente. Com efeito, “The Bell Jar” é o único romance de Sylvia Plath, publicado originalmente sob o pseudónimo Victoria Lucas, em 1963, tendo em conta que é uma obra autobiográfica com personagens ficcionais.
A história passa-se em 1953. Esther Greenwood, uma aluna excepcional de 19 anos consegue um estágio numa revista de moda, junto com algumas colegas. Esther vem de uma família pobre, e sempre se empenhou com afinco para conseguir prémios e bolsas para financiar os estudos, mas subitamente percebe que não sabe que carreira escolher ou mesmo se prefere casar e ter filhos. Esther é daquelas pessoas que fingem sempre que está tudo bem e não desabafam com ninguém, e do seu relato na primeira pessoa nota-se perfeitamente uma baixa auto-estima.
Na verdade, o que Esther quer ser é poetisa e escritora, e depois do estágio inscreve-se num curso de escrita onde não é aceite. Esta foi a gota de água que provocou o que nós chamaríamos hoje um esgotamento nervoso: Esther mete-se na cama embora alegue que não consegue dormir, deixa de comer, deixa de tomar banho. Estes são sintomas de depressão profunda à mistura com a ansiedade perante o futuro que Esther não consegue enfrentar.
A mãe leva-a ao psiquiatra que, logo de rajada, prescreve choques eléctricos. Esther recusa voltar ao médico, mas começa obsessivamente a planear o suicídio que quase consegue executar com comprimidos. Descoberta a tempo, é internada num hospital psiquiátrico (à altura chamado manicómio/hospício) onde é “tratada” com mais choques eléctricos e insulina (!), a par com alguma psicoterapia. Por esta altura penso que o problema de Esther já não é simplesmente depressão, especialmente quando ela começa a pensar que os médicos “estão todos feitos uns com os outros”. Isto parece-me mais esquizofrenia paranóica. Esther sente-se isolada do mundo, como que dentro de uma redoma de vidro (the bell jar) que não a deixa respirar, e mesmo depois de ter alta do hospital receia que a redoma volte a asfixiá-la no futuro.
O que mais me impressionou nisto tudo (talvez da minha experiência pessoal) foi a falta da raiva que Esther nunca chega a expressar. Isto, confesso, chocou-me. Nada como uns pontapés nas mesas e cadeiras para curar a depressão. Mas Esther deixa-se levar passivamente, quando não em lágrimas. “Electrochoques? Está bem.”, “Sou maluquinha? Está bem.”, “Merecia estar num hospício de maior segurança? Está bem.”
É claro que isto é nos anos 50 em que o lugar de uma mulher era muito diferente. A grande conquista de Esther, à altura, é começar a usar contraceptivos para não ficar grávida e dependente de um homem.
“The Bell Jar” tem sido visto ao longo das décadas como um precursor da literatura feminista e, sinceramente, não sei o que dizer quanto a isto. O feminismo nos anos 60, 70, 80, já não tem nada a ver com o feminismo dos nossos dias. Acredito que este livro, na altura da publicação, tenha sido uma pedrada no charco. Esther fala de dificuldades económicas, ambições, sexo, contracepção, depressão, suicídio, e do seu enorme desejo de ser uma mulher independente que faz o que quer.
O estilo de escrita é muito desequilibrado, na minha opinião. Por um lado, como poetisa que é, Plath é capaz de nos deslumbrar com imagens inesperadas, mas o tom geral da narração é a de alguém que está a escrever um post à pressa no Facebook (ou num diário secreto), sem se importar muito com a linguagem. Talvez seja esta informalidade que ainda capture o interesse de geração após geração, apesar do tema sombrio.
Gostaria que o livro me tivesse tocado mais, mas, muito honestamente, para mim só funcionou como documento histórico dos tratamentos brutais a que submetiam os pacientes psiquiátricos.


domingo, 20 de outubro de 2024

Pet Sematary, de Stephen King / Pet Sematary (1989) / Pet Sematary (2019)

[contém spoilers]

Obviamente, não li “Pet Sematary” para saber a história. Já conheço a história de trás para a frente e de frente para trás. O que me despertou a curiosidade em finalmente pegar no livro foram as discrepâncias entre as duas adaptações cinematográficas (1989 e 2019).
Para começar, não sou de modo algum imparcial. Considero “Pet Sematary” um dos melhores “contos de fadas” do século XX, uma história que atinge e provoca o âmago da humanidade desde que o homem é homem: a morte, o luto, o desejo de imortalidade e o pavor do fim. Acima de tudo, o nosso pavor de perder os mais queridos, impotentes e revoltados, sabendo que cada morte é um bocadinho de nós que morre com eles. Chamei-lhe “conto de fadas”, embora negro, porque todos os contos de fadas começaram por ser histórias de terror no tempo deles, adaptados e suavizados, como todos os mitos, aos valores e sensibilidades das sociedades que vieram depois. Não é pois de estranhar que o remake de “Pet Sematary” difira tanto do original, em especial no que toca a Church, o gato.
“Pet Sematary”, o livro, foi publicado em 1983 e a primeira adaptação é de 1989. Também não é de estranhar que a primeira adaptação seja a mais fiel ao original, se bem que ela própria já suavizada ao gosto da altura: o original é muito mais brutal. Se eu tenho razão, e se o conto de fadas se perpetuar como um mito, é de esperar sucessivas adaptações no futuro.
Tendo tudo isto em conta, vou começar por alguns pontos do livro que foram autênticos choques para mim, que só tinha visto os filmes.

Norma
Para meu espanto e choque, Norma, a mulher de Jud Crandall, está viva no livro! Juro que quando ouvi Jud a referir-se à esposa, “que estava em casa”, julguei que o velho estava cheché e que continuava a falar com a mulher depois de morta, especialmente uma mulher chamada Norma. Mas não, Norma está mesmo viva no livro, embora seja igualmente velhota e sofra de artrite e do coração. No entanto, Norma morre de AVC logo no início, quase a seguir a Church. Isto quase não é um spoiler porque Norma quase não tem papel. Se calhar só se queria dizer com isto que Jud resistiu à tentação de enterrar a mulher no cemitério Micmac. Há uma cena muito estranha no fim do remake em que Norma fala por outra personagem e diz a Jud que espera por ele no Inferno por causa do que ele lhe fez. Sinceramente, fiquei a pensar que Jud a tinha ressuscitado dos mortos também. Afinal era algo bem mais banal e duvido que seja mesmo Norma a dizer no filme uma versão suavizada do que disse no livro. Fiquei na dúvida se não era o demónio do bosque a falar por ela. Uma senhora tão decente não diria/faria as coisas que disse que fez. Seja como for, compreendo que os dois filmes tenham excluído o pequeno papel de Norma.

Church (Winston Churchill), o gato
O que se passa com o gato no original deixou-me tão mal disposta que se não soubesse o fim acho que punha o livro de lado sem pensar duas vezes. Não me refiro ao atropelamento e à ressurreição nem nada disso. Refiro-me à maneira como o pobre animal foi vítima de maus-tratos injustificáveis. Ao contrário do que vemos nos filmes, Church não regressa imediatamente maléfico como um demónio do inferno. Church volta desengonçado e apático, “sem graça felina” nas palavras de Louis Creed, e, claro, com o cheiro nauseabundo do cemitério Micmac. Por esta razão Ellie Creed, a filha de 6 anos de Louis, começa logo por correr com ele da cama, onde ele costumava dormir com ela. Isto acontece depois de Ellie ter chorado baba e ranho só de pensar que ele podia morrer, o seu querido gato de estimação, um dos motivos que levam Jud e Louis a trazê-lo de volta. A partir do momento em que ele regressa é ignorado por toda a família e maltratado por Louis, que o põe na rua com uma vassoura (!) todas as noites porque tem nojo de lhe tocar (Louis diz que Church já não é um animal mas a “imitação de um gato”). Pôr o gato na rua todas as noites outra vez, depois de este já ter sido atropelado na estrada, é ilógico e cruel. Até Rachel Creed, que queria tanto mandá-lo esterilizar para ele não sair de casa (pressuposto errado, porque mesmo um gato esterilizado continua a fazer tudo o que estava habituado a fazer antes), não parece nada preocupada que o gato ande na rua a noite toda com os camiões a passarem na estrada a grande velocidade. Cage, o bebé de dois anos, puxa-lhe o rabo. Deixa lá, Gage, a tua hora está próxima! Entretanto, Church desenvolve o hábito de trazer para casa ratos e pássaros semi-comidos, esventrados (no estado selvagem os felinos comem primeiro as vísceras), depositando-os perto de Louis. Louis fica tão furioso que começa a dar pontapés ao gato e a atirar-lhe coisas com força. Exactamente assim: pontapés e maus-tratos. As oferendas são para ti, Louis, sua besta! A minha gata, que está muito viva e não veio do cemitério Micmac, mas que é muito mazinha, tinha-te arrancado a cara! Louis racionaliza estes maus-tratos com a “perversidade” da caça de Church, que supostamente antes não caçava tanto, mas, a ser verdade, eu explico o fenómeno com o facto de Church dormir com Ellie em vez de andar a noite toda no bosque. A princípio Church foge e esconde-se mas, a certa altura, com a continuação dos maus-tratos, começa a assanhar-se a sério, e já não era sem tempo. Fiquei chocada, chocada! Que mal é que o animalzinho fez? Foi vítima de negligência dos donos que o deixavam sair de casa, especialmente com uma estrada assassina à porta; foi atropelado e ressuscitado; foi rejeitado por Ellie; foi vítima de maus-tratos e pontapés; é assassinado pelo dono no fim. Chiça! É o suficiente para odiar a família toda.
Não vou ser como aquele leitor enfurecido que mandou uma carta a Stephen King a dizer-lhe que ia para o inferno porque um dos seus personagens matou um cão a pontapé, sei a diferença entre ficção e realidade, mas percebo perfeitamente que a adaptação de 2019 tenha lido a sensibilidade da época e que a morte de Church seria intolerável nos dias de hoje. No entanto, nos anos 80, à data do livro, os animais de companhia ainda não eram vistos como membros da família mas como objectos utilitários e descartáveis. Os filmes tentaram justificar o livro tornando Church maléfico desde que regressa, mas no original Church só se torna efectivamente malévolo e perigoso quando Gage regressa também. O poder do demónio dos bosques que domina o cemitério Micmac age por meio de ambos.

Justiça feita a Zelda
Ao contrário dos filmes, que apresentam Zelda como um monstro, um demónio à espreita dentro de um armário, o livro retrata a irmã de Rachel com mais lógica e veracidade, uma jovem vítima de uma doença terminal e atrozmente dolorosa, de quem Louis Creed diz que estaria já “clinicamente demente” no final. Zelda torna-se uma doente vingativa, que faz chichi na cama de propósito e que torna a vida de Rachel e da mãe de ambas num inferno. Rachel está sozinha com Zelda quando esta morre e corre para a rua a gritar histericamente “Zelda morreu!”, mas Rachel está a rir e a não a chorar. Este alívio, compreensível numa criança de oito anos, transforma-se em culpa e Rachel desenvolve uma verdadeira fobia à morte, não apenas um medo racional mas uma fobia incapacitante. Ao mesmo tempo, Rachel tem tanto medo de vir a ter a mesma doença da irmã que em criança imagina que Zelda virá “buscá-la” em forma de fantasma. O livro é muito mais explícito em demonstrar que estes medos e visões só existem na cabeça de Rachel, não são manifestações da força maligna do bosque.

Livro vs filmes
É difícil dizer isto mas os filmes conseguiram criar imagens mais assustadoras e icónicas do que o original. Por exemplo, fiquei muito desapontada porque no livro não existe a frase “the cemetery is the place where the dead talk, don’t go to the place where the dead walk”. Jud Crandall conta a Louis Creed os episódios do cão Spot e do soldado ressuscitado, mas os relatos não são tão arrepiantes como as cenas do filme de 1989. Por um lado é normal: há casos em que aquilo que nos entra pelos olhos é mais aterrador do que a nossa imaginação poderia conceber (mas nem sempre).
Aproveito para falar do zombie Timothy, o soldado ressuscitado pelo pai uns 15 dias depois de morrer. Timothy não é um zombie como os imaginamos agora (e como o filme de 1989 o apresenta, um autêntico zombie de “The Walking Dead”). Também ele regressa desengonçado e cambaleante, e passa os dias e as noites a andar de um lado para outro, aterrorizando os habitantes da cidade. Quando quatro homens, incluindo Jud, se dirigem a casa do pai dele para “tratar do assunto”, Timothy revela segredos pecaminosos e criminais dos homens que o vão confrontar, segredos que ninguém poderia saber, o que é mais consentâneo com alguém possuído por um demónio. Sinceramente, prefiro a versão do filme.
Da mesma forma, prefiro a versão do filme de 2019, em que não é Gage que morre. No livro, ao regressar, Gage também fala e diz coisas obscenas, coisas sexuais que uma criança de dois anos nem sabe que existem. Sempre achei que Gage como assassino maléfico era uma ideia rebuscada. Sim, um bebé assassino causa mais choque, mas torna-se absurdo (antes de morrer Gage só conseguia dizer “daddy”, e mal). Por outro lado, a “possessão” de Timothy e Gage, no livro, aprofunda melhor a influência da força maligna que está na base do poder do cemitério Micmac. (Parece que é um Wendigo, um mito americano que desconheço e de que só ouvi falar nos episódios de “Sobrenatural”, e também não foi “Pet Sematary” que me esclareceu.)
O que nos leva ao estado mental de Louis Creed quando decide lá enterrar o filho, muito mais perceptível no livro. Louis Creed não é apenas um homem destroçado e em luto, é alguém tresloucado que se sente compelido a fazer algo que sabe que está errado, e no entanto racionaliza e defende a lógica das suas escolhas como a única coisa que pode fazer. A certa altura, ao desenterrar Gage no cemitério, já está tão descontrolado que admite que agora ninguém o conseguiria deter, e se aparecesse alguém Louis simplesmente o mataria com uma pazada na cabeça. Inclusive decide tratar a ressurreição do filho como uma experiência: “se ele vier mau, eu mato-o e pronto”. Assim mesmo, com toda a frieza. Louis Creed está igualmente possuído pela atracção e pelo poder do ser maligno da floresta, algo que não se nota tanto nos filmes mas que é muito claro no livro. Nesta altura Louis Creed recordou-me de Jack Torrance de “The Shining” (do mesmo autor) só que enlouquecido para salvar a família e não para a matar com um machado. Novamente prefiro a abordagem dos filmes, que conseguiram humanizá-lo. Por exemplo, aquela cena do filme de 1989 em que Louis abraça pela última vez o Gage ressuscitado já depois de morto e desata a chorar, não existe no livro. No livro, Louis mata o filho com a mesma frieza clínica com que tinha matado Church, como a aberrações ou experiências falhadas, sem qualquer vestígio de emoção.

“Pet Sematary”, o livro
Como disse no início, este é um conto de fadas negro que até respeita a “regra das três vezes” dos contos de fadas: primeiro veio o gato; segundo veio o miúdo; terceiro veio a mãe. Já li algumas coisas de Stephen King mas, para o meu gosto pessoal, este foi de longe o melhor livro que ele já escreveu. No entanto tenho algumas picuinhices a apontar.
Por exemplo, demasiados pormenores. Não era mesmo preciso saber tudo o que é dito sobre um funeral americano (desde o embalsamamento ao tipo de sepultura). O tio de Louis Creed era um agente funerário e Louis faz questão de relatar o processo todo só para percebermos que é muito difícil roubar uma campa que leva cimento por cima, algo que, no meu conhecimento, não acontece por cá (pelo menos nas campas não perpétuas em que o corpo é exumado alguns anos depois e os ossos são enfiados numa gaveta). Também há muita palha em relação à família de Rachel, aos colegas de Louis na universidade onde ele trabalha, até às histórias passadas dos habitantes da cidade. É boa palha mas é palha, e não se perdia nada se tivesse sido cortada.
Outra coisa de que não gostei, depois de ler dois livros de não-ficção de Stephen King (“Danse Macabre” e “On Writing”), é a voz dele nesta história. Porque é mesmo a voz dele que reconhecemos em Louis Creed. Stephen King veio de uma família trabalhadora na América, não exactamente pobres mas aquilo a que chamaríamos “remediados” (a mãe dele criou os dois filhos sozinha), e parece-me que Stephen King quer recuperar a linguagem dessa América de classe média/baixa. O que acontece é que temos um professor e académico como King a querer falar como um canalizador, o que soa falso e forçado. Pior ainda, não é apenas Louis Creed que se expressa assim em pensamentos (Louis Creed veio de um background semelhante ao de King) mas também Steve, outro colega médico, acaba a soar desta maneira. Talvez, entretanto, esta voz de académico a tentar fingir que é um canalizador, um homem do povo, tenha desaparecido da obra de King. Li coisas mais recentes dele e já não notei esta voz embirrante, mas talvez tenha de ler mais alguma coisa para tirar as dúvidas.
Recomendo a leitura de “Pet Sematary” a toda a gente que gostou da história. Há aqui muitos pormenores sobre a natureza maléfica e a extensão do poder do cemitério Micmac que os filmes apenas tocam ao de leve. No entanto, devido à natureza brutal da história (mais do que nos filmes) não é um livro que me apeteça ler duas vezes.

 

domingo, 21 de julho de 2024

Heart’s Blood, de Juliet Marillier

Este foi possivelmente o meu livro preferido de Juliet Marillier. Não é difícil, porque mais parece uma história de terror com meios-fantasmas/meios-zombies e tudo.
Caitrin é uma jovem escriba em fuga. Desde que o pai morreu e a irmã casou, Caitrin ficou à mercê de uns primos distantes que se instalaram em sua casa para reclamar a herança e que a maltratam física e psicologicamente.
Em desespero, Caitrin foge para Oeste, em busca de parentes da sua mãe, mas os seus parcos fundos deixam-na apeada junto à povoação de Whistling Tor, cujos aldeões morrem de medo da colina onde fica a respectiva fortificação do nobre que os devia liderar, Anluan.
Os estalajadeiros contam a Caitrin que Anluan está sob uma maldição centenária. O seu bisavô Nechtan, através de feitiçaria, conjurou um exército de espíritos, a que chamam “a hoste”, para combater nobres vizinhos, mas algo correu mal e Nechtan perdeu o controlo sobre os mortos-vivos assim que estes saíram da colina. A hoste chacinou o inimigo, as pessoas da povoação, e os espíritos atacaram-se uns aos outros. Desde aí, o senhor de Whistling Tor não pode abandonar a fortificação sem perder o poder sobre a hoste.
Mas Caitrin está mesmo desesperada, e desconfia que os parentes malvados a perseguem para que ela case com o primo (de modo a que ele possa ter direito legal à herança). Ao ouvir dizer que Anluan procura um escriba que saiba irlandês e latim para lhe organizar uns documentos antigos, Caitrain prefere enfrentar os fantasmas e procurar emprego seguro.
Assim que chega, Caitrin percebe que algo de muito errado se passa na fortificação, onde só vivem o próprio Anluan, o guerreiro Magnus, que agora faz tudo incluindo a comida, um conselheiro e um monge, uma dama de poucos sorrisos, e um homem (?) de quem só sabemos que já vivia em Whistling Tor antes de Nechtan e da hoste, Olcan (e nada mais nos é dito sobre a natureza desta criatura). Pior um pouco, Caitrin descobre rapidamente que Anluan, Magnus e ela própria são os únicos seres humanos em Whistling Tor. Tirando Olcan, que não é humano mas não sabemos o que é, os outros três são fantasmas, parte da hoste, que simplesmente conseguiram controlar melhor os seus impulsos a ponto de quase conseguirem passar por humanos. (Parece ou não parece uma história de terror?)
O trabalho de Caitrin consiste em traduzir os documentos de Nechtan em busca de um feitiço que anule o primeiro e devolva a hoste ao sítio de onde veio. Mas, entre os pertences do feiticeiro, Caitrin encontra um espelho negro que lhe permite não apenas visualizar como sentir o que Nechtan sentia, por exemplo, ao torturar uma velha senhora e o seu cão de estimação… (Mais terror.) No entanto, no meio de todas estas monstruosidades, Caitrin vê motivos para acreditar que a hoste não é tão desprovida de humanidade como parece e que a chave para a dominar reside na auto-confiança de Anluan, um homem que não acredita nas suas capacidades embora seja o único capaz de manter a hoste sob controlo.
Não seria um livro de Juliet Marillier se isto não desse uma história de amor.
Contudo, e muito importante para a trama e o desenlace, “Heart’s Blood” conta também com um “policial”. Acontece que todas as esposas dos senhores de Whistling Tor morreram em acidentes misteriosos, excepto a mulher de Nechtan (mas não vou revelar como). Logo, existe um assassino à solta em Whistling Tor e a própria Caitrin é alvo de uma ou duas tentativas de assassinato quase conseguidas. Gostei da maneira como Marillier foi deixando pistas para o leitor e consegui estar sempre um passo à frente da heroína em todas as descobertas, até porque quem está de fora consegue ser mais imparcial do que os intervenientes.
Também gostei que desta vez Marillier tenha conseguido criar uma personagem cuja vilania não é a preto e branco como eu nunca tinha encontrado nos livros dela até agora. Por outro lado, a heroína também não é tão perfeita e segura e estóica e tudo e tudo como as anteriores. Não gosto de heroínas tão fortes que nem pareçam reais. Caitrin podia ser real, e isso cria empatia.
Fiquei agarrada à história do princípio ao fim e recomendo a todos os fãs de Juliet Marillier. E não se assustem com os fantasmas/zombies: afinal são apenas almas aprisionadas numa situação que abominam e tudo o que desejam é voltar para onde vieram. “Heart’s Blood” é uma história sensível em todos os sentidos.


domingo, 23 de junho de 2024

A Aldeia Suspensa, de Joaquim Semeano

“A Aldeia Suspensa” é um livro de 2015 do autor Joaquim Semeano, que entretanto já publicou mais coisas.
Esta não é uma história no sentido tradicional, diria mais que é o sonho de uma história ou, melhor, uma história sonhada em que nem tudo tem de fazer sentido. Quase lhe chamaria Surrealismo, mas o surreal (ou até mesmo o Realismo Mágico) assenta numa base real que por vezes não se encontra aqui, pelo que prefiro chamar-lhe Irrealismo (se o género não existe passa a existir), obviamente inserido no grande espectro da literatura Fantástica.
Li o livro duas vezes, uma delas no mesmo dia porque é curto, e teria muita dificuldade em resumir a “história”. Existe uma aldeia “encantada”, por falta de melhor termo, onde aparece uma mansão (ou será castelo ou ruína?) que nem todos conseguem ver ou encontrar, pessoas e entidades que aparecem e desaparecem, seres do bosque ou gnomos (mas nada de infantil), personagens à procura da realidade ou da fantasia. Noto aqui muito das Mil e Uma Noites (tirando o fio condutor e inequívoco entre as várias histórias, que aqui quase não existe) e de uma abordagem filosófica nas personagens que andam à procura da realidade como da luz que dissipa as sombras na caverna de Platão. Não vou falar da bidimensionalidade das personagens porque claramente não são personagens propriamente ditas, humanas e de carne e osso, mas arquétipos: a Mulher Misteriosa (ou várias?), o Padre, a Cigana, o Feiticeiro, o Filósofo, o Neófito, etc.
As personagens são mais que muitas e passamos tão pouco tempo com elas que só desenhando um esquema conseguiria acompanhar as relações que as ligam, e nem mesmo assim porque não se compreende com suficiente clareza que cenas aconteceram no passado ou no presente. Não tenho bem a certeza se era mesmo o propósito, mas é o que acontece: algumas coisas percebem-se (mais ou menos), outras não. O que direi de Joaquim Semeano como autor (a quem eu não conhecia e de quem nunca tinha lido nada) é que é um escritor veterano com um excelente domínio da linguagem, dizendo exactamente o que quer dizer sem cair em indulgências de prosa poética em demasia, pelo que depreendo que é de propósito.
 “A Aldeia Suspensa” não será o livro mais adequado para quem gosta de histórias no sentido tradicional, deverá ser antes encarado como uma experiência onírica que cada um interpretará como a imaginação lhe ditar. Tal como num sonho, tive de escrever esta crítica o mais depressa possível antes que o sonho se desvaneça. Não é o meu tipo de leitura mas gostei de variar.


Onde comprar: https://www.amazon.com/Aldeia-Suspensa-aventura-ilusão-Portuguese/dp/1507731345

Página do autor: https://joaquimsemeano.pt



domingo, 2 de junho de 2024

Jane Eyre, de Charlotte Brontë


Este livro é muito mais longo do que eu pensava, se calhar porque a maioria das adaptações cinematográficas se focam na parte mais interessante e cortam o resto. O estilo é o típico Romantismo do séc. XIX, muito datado, com linguagem perfeitamente obsoleta, onde não falta sequer o “querido leitor”. Mesmo assim, Charlotte Brontë escreve apenas da perspectiva de Jane Eyre, como se fosse um diário.
A parte “mais interessante”, isto é, o romance entre Jane Eyre e Mr. Rochester ocupa a maior parte do livro, mas Charlotte Brontë dedica bastantes capítulos ao que aconteceu antes e depois (na minha opinião demasiados capítulos, mas era o estilo da época). Jane Eyre é uma órfã que vai viver com os tios, mas a tia por afinidade não gosta dela e manda-a para um colégio interno onde as meninas passam fome, frio, privações e castigos humilhantes. A melhor amiga de Jane morre de tuberculose. Sem dúvida que a adversidade lhe forjou um carácter forte, resistente, independente mas também determinado, o que por vezes se torna em obstinação e orgulho. Mesmo assim, Jane consegue prosperar e acaba por tornar-se professora na escola onde estudou. Perto dos 18 anos decide ampliar as suas perspectivas, candidatando-se a um lugar de preceptora. É assim que é contratada para a casa de Mr. Rochester, para ser ama e professora da pequena Adele, que pode ou não ser filha ilegítima do dono da casa (tudo indica que não é).
Nos dias de hoje, Mr. Rochester estaria preso. Para começar, tem a mulher louca confinada ao sótão. Apesar de casado, tenta casar de novo, em bigamia, primeiro com uma herdeira da sociedade, depois com a própria Jane. O homem é antipático, prepotente, egoísta, devasso, e em tudo tóxico e abusivo. Mas enfim, é outro século, e Jane Eyre apaixona-se por ele a quem considera, em vez disto tudo, muito “másculo”. Porém, depois de uma tentativa de matrimónio interrompida pelo irmão da esposa legítima de Rochester, este tenta convencer (se não mesmo obrigar) Jane a tornar-se sua amante. Jane tem de fugir a meio da noite, com o pouco dinheiro que Rochester já lhe pagou pelos serviços de ama (mas não todo), como qualquer vítima de violência doméstica. E, no entanto, a pobre vítima ainda tem pena dele, o “pobre” homem “perdido” e “condenado” a uma vida de devassidão e pecado sem ela.
Aqui a história toma um rumo bastante conveniente, quase um conto de fadas. Jane Eyre vai parar a casa de uns benfeitores que mais tarde descobre serem seus primos, e herda a fortuna que lhe foi deixada por um tio que vivia na Madeira. Um dos primos, St. John, quer ser missionário na Índia e está apaixonado por uma menina rica mas considera-a demasiado mimada para ser uma boa esposa de missionário. Mais uma vez Jane Eyre é o alvo do pedido de casamento, não por amor mas por ser competente. Tudo isto a leva de volta para os braços arrependidos de Mr. Rochester, que se declara redimido devido aos castigos que sofreu. Inclusivamente ele diz que nunca a quis forçar a ser amante dele, mas não foi isso que ela percebeu na altura (nem eu, para ser muito honesta).
Um exemplo do “grande amor Romântico”? Sinceramente não acho, comparando com outros grandes clássicos em que o herói tinha pelo menos algumas virtudes. A única virtude de Rochester foi ter acolhido Adele, e mesmo assim não lhe tem grande afecto. Jane Eyre deve ter algo de “complexo do salvador” para correr para os braços dele outra vez, coitadinho, cego e mutilado depois do incêndio, sem ponderar que Rochester e St. John não são os únicos homens no mundo (embora não houvesse internet na altura, sempre havia vida social…).
Conclusão: lamento dizê-lo mas muitas vezes a leitura se tornou aborrecida, não por ser datada ou ao estilo da época, mas porque não consegui empatizar com a interioridade psicológica de Jane. Até as partes mais sinistras (todo o aspecto de haver uma louca escondida a pôr fogo à casa) não conseguiram produzir o efeito de suspense que deviam. As adaptações cinematográficas têm sido muito mais bem sucedidas, como por exemplo esta, limpando a história de toda a palha supérflua e aproveitando a força da ideia original, força essa que quase passa despercebida no livro e que se vai perdendo aos poucos até à última página.
“Jane Eyre”, em livro, é um clássico que não resistiu ao tempo. Nesse aspecto Charlotte Brontë não esteve à altura do grande romance da sua irmã Emily Brontë, “Wuthering Heights”, que ainda hoje causa a ressonância do início.


domingo, 10 de março de 2024

Cybele's Secret, de Juliet Marillier


Segundo livro da série iniciada em “Wildwood Dancing”, esta é a história de Paula, uma das cinco irmãs do original. Paula acompanha o pai, o mercador Teodor, a Istambul, na tentativa de adquirirem a estatueta de Cybele, um artefacto pagão de uma deusa da antiguidade, que se diz trazer prosperidade ao seu possuidor.
Em Istambul, chegada da Transilvânia, Paula encontra uma cultura islâmica muito diferente da sua que obriga o mercador a arranjar-lhe um guarda, o búlgaro Stoyan, que a acompanha para todo o lado. Numa sociedade de intrigas e traições, Paula, a erudita da família, conhece outra erudita, a grega Irene de Volos, e o capitão do navio Esperança, o português com fama de pirata Duarte da Costa Aguiar, ambos interessados no mesmo artefacto. (Fiquei muito surpreendida e entusiasmada por haver um português na história, com palavras e canções em português e tudo!) As autoridades de Istambul suspeitam que o culto pagão de Cybele está a ser praticado às escondidas e também querem pôr as mãos no que consideram um ídolo proibido.
Duarte é atrevido e considerado sem escrúpulos, e é ele quem consegue comprar a estatueta, mas, como Paula vem a descobrir, não é o lucro que o move, antes a promessa que fez a um amigo de restituir o artefacto ao povo a quem este pertence.
Paula torna-se amiga de Duarte mas apaixona-se por Stoyan, o que não vai ser uma relação fácil porque Paula adora conhecimento e instrução e Stoyan nem sabe ler ou escrever.
“Cybele's Secret” é um romance Young Adult (e toda a gente aqui sabe que não é o meu género) mas o que realmente não apreciei foi a aventura à Indiana Jones em que Paula, Duarte e Stoyan se metem para levar a estatueta ao povo que a idolatra. Quem gosta de aventuras tem aqui uma boa história, no entanto. Para mim, admito, foi uma seca. Aliás, “Cybele's Secret” ainda é mais juvenil do que “Wildwood Dancing” e faltam-lhe os elementos dramáticos que me enchem as medidas. Bom livro para oferecer a uma pessoa muito jovem, mas para mim não.


domingo, 4 de fevereiro de 2024

The Haunting of Hill House (livro, 1959), The Haunting (filme, 1963)

The Haunting, 1963

Mais um dos casos raros em que o filme me estragou completamente o livro. Depois de ver a série “The Haunting of Hill House” (2018), e uma vez que “The Haunting” (1963) é um dos meus filmes de terror preferidos de sempre, tive a compulsão de ir ler o livro original “The Haunting of Hill House” de Shirley Jackson, publicado em 1959. Finalmente queria descobrir o que fazia parte do livro original, do filme e da série.
Desta vez não tenho qualquer problema em dizê-lo: o filme é muito melhor do que o livro. Não só criou uma atmosfera (e história) muito mais arrepiante como cortou toda a palha desnecessária.
Eleanor Vance continua a ser a protagonista (o apelido é ligeiramente alterado no filme para Lance), uma mulher de trinta anos que sempre viveu com a irmã e que passou os últimos 11 anos a cuidar da mãe doente sem ter qualquer vida própria (onde é que estava a irmã que nunca ajudou a cuidar da mãe?). Eleanor é submissa, passiva (diria mesmo passivo-agressiva), insegura, isolada, eternamente à espera que algo de importante lhe aconteça. Finalmente algo lhe acontece, quando é convidada por um investigador do sobrenatural, o doutor Montague (Markway no filme) para um estudo experimental em Hill House. Eleanor recebe o convite devido a uma experiência documentada com um poltergeist na infância. Os outros investigadores são Theodora, uma médium (curiosamente,Theodora é lésbica no livro, no filme e na série, mas apenas declaradamente na série, sinal dos tempos), e um representante da família dos donos da casa e potencial herdeiro, Luke. São estes igualmente os protagonistas do filme. Mais tarde aparece a esposa do doutor Markway num papel ultra secundário, e ainda bem, porque a esposa do doutor Montague no livro é uma personagem execrável, ainda mais fanática pelo espiritismo do que ele, que critica, desvaloriza e trata o marido abaixo de cão. Eu, sinceramente, tive pena do homem. Se fosse a ele fechava-a no berçário e deixava-a lá para todo o sempre. Não exagero, a mulher é tão mandona e convencida (se calhar foi inserida no livro como comic relief) que nem a casa quer nada com ela. A mulher bem tenta ser assombrada mas Hill House nem lhe passa cartão, o que é dizer tudo.
Por falar em berçário, há uma diferença significativa no livro, em que Hugh Crain, o dono original de Hill House, tem duas filhas e não apenas uma. Na morte do pai, as duas irmãs digladiaram-se encarniçadamente pela herança da casa e seus conteúdos, o que nos recorda as brigas de família da série “The Haunting of Hill House” em que os irmãos quase andaram à porrada no velório da irmã.
Tanto o livro como o filme se centram fundamentalmente em torno de Eleanor, cuja fragilidade psicológica a torna presa fácil para ser possuída (ou enlouquecida, se quisermos) por Hill House, onde ela julga ter encontrado o seu lugar. Outra diferença significativa é que no livro Eleanor se interessa romanticamente por Luke enquanto que no filme os seus afectos se dirigem ao doutor Markway, o que até faz mais sentido porque um homem mais velho lhe oferece mais estabilidade emocional, estabilidade que é feita em pedaços quando Eleanor descobre que ele é casado. Tanto no livro como no filme Eleanor começa por pensar que descobriu amigos nos três companheiros e acaba a considerar que afinal não tem um lugar entre eles, que eles a gozam e subestimam (apenas na imaginação dela), exactamente como a sua família sempre fez. É caso para dizer que Eleanor nunca consegue perceber que é ela quem tem de aprender a socializar e a impor-se, com consequências trágicas. A série, até pelo formato televisivo, teve de desenvolver a história de outra maneira, mas foi buscar muita coisa tanto ao livro como ao filme.
Não considerando a série (pelo motivo referido), continuo a preferir o filme original ao livro, também porque visualmente é mais impressionante sem que envolva grandes efeitos especiais, até porque acabamos por nunca ver nenhuma assombração mas conseguimos senti-la numa casa onde os personagens se perdem a caminho do quarto para a sala de estar e onde não existe um único ângulo recto, o que é muito lovecraftiano.
Em suma, não digo a ninguém que não leia o livro, mas “The Haunting” conseguiu fazer mais e melhor.

 

domingo, 21 de janeiro de 2024

Wildwood Dancing, de Juliet Marillier

Vampiros!
Certo, Juliet Marillier chama-lhes antes Night Folk mas que não haja ilusões: são vampiros mesmo. Como grande amante de vampiros não estava à espera deles numa história de Marillier, mas que boa surpresa!
“Wildwood Dancing” destina-se claramente a um público mais jovem. Até o local e a época são diferentes. Nunca é dito mas tudo me cheira a século XIX.
Cinco jovens irmãs mudam-se com o seu pai, comerciante, para um castelo na Transilvânia onde descobrem um portal para um Outro Reino. Neste outro mundo de fadas e seres mágicos da floresta, todas as Luas Cheias há um baile onde as cinco irmãs são bem recebidas há largos anos e onde se divertem bastante.
Tudo muda quando o pai fica doente e precisa de ir passar o inverno a um clima mais quente, deixando as filhas entregues ao seu irmão, igualmente comerciante. Mas uma desgraça nunca vem só. Da próxima vez que as irmãs vão ao Outro Reino, para além das fadas e dos seres mágicos, aparecem também uns seres mal-afamados, até entre as Fadas, chamados os Night Folk. Os Night Folk mantêm-se à parte e também dançam, mas à maneira deles. As fadas não gostam muito deles mas a presença vampiresca não as incomoda muito, com certeza porque eles só gostam de sangue humano e não bebem sangue de fada (muito ao contrário do que acontecia em “True Blood”, mas essas são outras histórias). A irmã mais velha,Tatiana, apaixona-se por Sorrow, um jovem que pode já ser um dos vampiros ou apenas estar escravizado por eles.
Como não há duas sem três, o tio das irmãs morre inesperadamente, e o filho deste, Cezar, primo delas, começa a exibir um comportamento de ditador e a retirar-lhes o negócio das mãos por achar que trabalhar não é próprio de mulheres. Ao mesmo tempo, começa a insinuar-se à segunda filha mais velha, Jena, que não sente nada por ele. Cezar é também um grande inimigo dos seres mágicos da floresta porque acredita que eles afogaram o seu irmão mais velho, Costi, quando este era criança. Cezar está desconfiado das saídas nocturnas das primas, uma desconfiança agravada pelo frágil estado de saúde em que Tatiana parece ter caído desde que conheceu Sorrow, muito coincidente com alguém que está a ser vítima de um vampiro. Entretanto, Jena tinha sido atraída a falar com o líder dos vampiros durante um dos bailes, o que causou que estes visitassem a aldeia e fizessem vítimas. Cezar chega a trancar as primas no quarto em noite de Lua Cheia, com guardas em toda a casa, tornado-as autênticas prisioneiras.
Jena ainda tenta pedir ajuda à rainha das fadas, que lhe responde qualquer coisa como “a resposta está debaixo do teu nariz”.
Esta é que foi a parte que me surpreendeu. Jena tem um sapo de estimação, Gogu, que não é bem um sapo mas um sapo mágico que fala com ela por telepatia. Surpreendeu-me, conhecendo o gosto de Marillier por histórias tradicionais, ter demorado mais de um quarto do livro até perceber onde as coisas iam dar.
Curiosamente, a parte mais tensa da história não são os vampiros mas as tentativas de Cezar de controlar as primas e torná-las em meros objectos decorativos, já para não falar da passagem em que Cezar quer obrigar Jena a casar com ele.
As irmãs são obrigadas a tornar-se adultas e a assumir as escolhas que querem para as suas vidas, um tema recorrente em Young Adult. Aliás, esta história é dedicada à neta de Juliet Marillier.
Diria que “Wildwood Dancing” é mais leve do que outras histórias de Marillier mas vai agradar aos fãs do costume. Eu teria preferido mais sangue e mais vampiros, mas isto não é uma história de terror. Acredito mesmo que os fãs vão adorar o fim.



domingo, 26 de novembro de 2023

“Seer of Sevenwaters”, de Juliet Marillier


De todos os livros que já li de Juliet Marillier este é o que entra mais no género Fantástico. Claro, a Fantasia faz parte do Fantástico em sentido lato, mas a Fantasia de Marillier é sempre muito humanizada. Há os Fair Folk e os Good Folk, raças de fadas, mas também estes têm personalidades e motivações muito humanas, um mundo paralelo com reis e rainhas e súbditos como os humanos, e muitas vezes tentam mesmo manipular o mundo humano para os seus propósitos. Em “Seer of Sevenwaters” temos uma serpente marinha gigante e mágica!
Desde “Daughter of the Forest” que Marillier conta histórias de selkies, sempre como se fossem folclore e mito. Uma selkie é uma criatura marinha que pode largar a sua pele verdadeira e assumir forma humana, mas quem estiver na posse da sua pele tem controlo sobre a selkie. Desta vez temos mesmo uma personagem selkie, o que me surpreendeu bastante. Não me faz gostar menos ou mais, apenas me diz que Marillier se quis lançar em domínios mais aventurosos (e arriscados) do que os dramas românticos que até aqui a caracterizam.
“Seer of Sevenwaters” é a história de Sibeal, a quinta filha de Sean e Aisling e neta de Sorcha e Red, que desde pequena tem dons de vidência e sonha tornar-se druida. Por esta altura Sibeal já passou muito tempo com os seus tios Conor e Ciarán no treino druíco e está prestes a dedicar-se inteiramente, o que significa uma vida de celibato, contemplação e ritual. Antes de fazer aquilo que numa monja chamaríamos “tomar o véu”, no entanto, é mandada para a ilha de Inis Eala, onde passa o verão com o primo Johnny e duas das suas irmãs. Quando Sibeal lá está, uma violenta tempestade faz naufragar um barco nórdico contra os penhascos de Inis Eala. Há poucos sobreviventes, mas Sibeal consegue descobrir um último, de quem vimos a saber chamar-se Felix, ainda agarrado aos rochedos. Felix está amnésico, mas mesmo assim é ameaçado em segredo por Knut, outro sobrevivente, para não revelar nada do que viu no barco.
Enquanto cuida de Felix na enfermaria de Inis Eala, Sibeal percebe que se apaixonou por ele e que é correspondida, o que lhe põe o maior dilema da sua vida: desistir do druidismo, casar com Felix e eventualmente ser mãe, ou virar as costas ao amor para sempre? Haverá uma terceira opção?
Muito do livro é a paixão entre Sibeal e Felix (até um pouco demais, na minha opinião) antes de percebermos que a grande aventura vai centrar-se em Svala, outra sobrevivente, e a serpente marinha gigante comedora de homens. Disto não vou dizer nada por causa dos spoilers.
“Seer of Sevenwaters” não é, na minha opinião, o melhor de Juliet Marillier, mas não lhe falta a qualidade que já lhe conhecemos. Infelizmente, desta vez, não aconteceu nada de perturbador como estou habituada nos livros de Marillier, o que me decepcionou um pouco.
(Não, uma serpente marinha que come pessoas não é perturbador, é apenas Natureza. Podia ter sido um urso, um leão, outro animal feroz qualquer. É um acontecimento infeliz, sem dúvida, mas para mim são necessários elementos mais estranhos para ser considerado perturbador.)


domingo, 24 de setembro de 2023

The Well of Shades, de Juliet Marillier


Há relativamente pouco tempo, numa resposta a um fã no Goodreads, Juliet Marillier afirmou que Faolan foi um dos seus personagens secundários que ganhou mais protagonismo do que a autora esperava para ele. “The Well of Shades” é um exemplo disso mesmo, onde a história e o destino de Faolan eclipsa os de Bridei e Tuala e Broichan, que aqui são eles os protagonistas do enredo secundário.
Depois da grande vitória de Bridei sobre os gaélicos, Faolan, espião e assassino de Fortriu, é enviado numa missão tripla. Bridei tem razões para desconfiar de um aliado e precisa de saber se está a ser traído. Mas, antes, Bridei faz questão de que Faolan resolva os problemas que deixou para trás com a família. No caminho, Faolan tem o dever de visitar os parentes de Deord para os informar da sua morte heróica que ajudou à fuga de Ana, Drustan e Faolan das terras de Caitt.
É na casa de Deord que encontra Eile, filha de Deord, numa situação de miséria e maus-tratos. Deord e Faolan foram ambos reclusos de uma prisão terrível (confesso que não sei o que os levou lá) e tinham essa “dívida de irmandade” um para com o outro. Deord não conseguiu regressar para a família (tornou-se no carcereiro benévolo de Drustan) e a mulher dele suicidou-se. Eile vive com a tia e o marido desta, Dalach, que não só lhe bate como a viola e Eile até já tem uma filha dele, Saraid. Faolan só se apercebe disto tudo quando Eile mata Dalach e lhe pede ajuda para fugir. Eile é ainda muito jovem mas já bastante traumatizada. No entanto, durante a viagem criam-se laços entre ela, Faolan e Saraid, e este começa a ponderar um futuro como pai e marido, o que é incompatível com a sua “profissão” actual. Além disso, não sabe se Eile está interessada nesse compromisso.
Drustan e Ana estão em White Hill (a residência de Bridei), onde celebram o casamento antes de seguirem viagem para as terras de Drustan no Caitt. Todos partem do princípio de que Eile os acompanhará, especialmente depois da oferta generosa que Ana lhe estende: uma vida na corte de Drustan com todas as honras e regalias como gratidão pelo sacrifício que Deord fez por eles. No entanto, Eile não quer acompanhá-los, antes deseja esperar por Faolan que entretanto já partiu noutra missão.
Ainda mais interessante do que o romance entre Eile e Faolan (quem conhece a obra de Marillier já adivinha que vai ser um “felizes para sempre”) é a chegada a Fortriu de uma comitiva de monges cristãos liderados pelo monge Colm que vêm pedir permissão para se estabelecerem num mosteiro em terras pagãs. Isto prenunciava um grande choque de crenças entre o druida Broichan e o monge Colm, mas devido aos próprios acontecimentos da história este confronto nunca acontece e Bridei cede a utilização das terras por dois anos.
Como sabemos dos livros anteriores, Bridei é muito fiel aos deuses. Desde que proibiu o sacrifício humano e anual ao Deus Sem Nome, Bridei tem existido no pesadelo de que este deus se vingue na sua família. Este medo torna-se real quando o seu primogénito Derelei desaparece da corte e se embrenha na floresta sem deixar rasto… O resto da história é a busca por Derelei, Saraid e Eile (que também desaparecem por mão criminosa).
A escrita de Juliet Marillier está cada vez mais vívida e agradável, mesmo que esta história não seja tão interessante como as anteriores que já li. Deu-me a entender que é uma história de transição para a conclusão da série e um desejo de dar um fim feliz a Faolan. Até agora não foi publicado mais nenhum livro da série “The Bridei Chronicles”. Tenho acompanhado a obra de Marillier desde o primeiro livro “Daughter of the Forest” e tenho efectivamente notado uma grande evolução (excepto quando a autora escreve a palavra “piquenique”, para meu grande desgosto e decepção), a não ser no que já considero o “calcanhar de Aquiles” da autora: a bidimensionalidade dos vilões a que “The Well of Shades” ainda não conseguiu fugir.
Aqui temos dois, o tal Dalach que abusa da sobrinha da esposa (e a certa altura começa a falar em abusar de Saraid também, a sua própria filha) e de quem nem vale a pena falar mais.
E depois temos Breda, uma psicopata e princesa mimada que faz tudo o que lhe dá na gana. Desta vez Marillier tentou dar a Breda maior interioridade escrevendo algumas cenas pela perspectiva dela, o que teria funcionado se Breda tivesse uma interioridade interessante. Acontece que é só invejosa e egoísta e muito aborrecida como vilã. Não digo que não seja credível, eu é que prefiro vilões mais “cinzentos” ou interessantes por muito repulsivos que sejam (por exemplo, um Hannibal Lecter, que nos choca mas é fascinante). Talvez Marillier ainda consiga dar-nos um vilão decente numa história posterior.
Não recomendaria “The Well of Shades” como primeiro livro a quem não conhece Juliet Marillier, mas de certeza que vai agradar aos fãs.



domingo, 18 de junho de 2023

The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood

Não é costume dizer isto, mas a série estragou-me o livro. Não consegui ler sem imaginar “The Handmaid’s Tale” (a série) na minha cabeça a todos os instantes. Isto significa duas coisas: que a série respeita perfeitamente o material original, e que o livro publicado em 1985 foi o bastante para incendiar imaginações e perturbar consciências até aos dias de hoje.
Não estou a dizer com isto que não adianta ler o livro se já se viu a série, nem que a série é melhor do que o livro, mas depois de ter uma visualização de todo este mundo com personagens tão fortes como June (na série, porque no livro nunca é revelado o nome de Offred, a protagonista) não me foi possível dissociar as duas coisas. A maior parte das vezes dei por mim a reconhecer as cenas e a apontar mentalmente os monólogos de Offfred: “Olha, a June disse isto exactamente assim”; “Olha, a June disse isto mas deixou parte de fora”; “Olha, aqui está dito de forma diferente”. Também não ajuda que eu esteja completamente viciada na série.
Em suma, preferia ter lido o livro primeiro, mas agora já está. Atwood foi ousada em apresentar-nos Gilead tão intimamente sem grande exposição, como se o leitor conhecesse perfeitamente a distopia em que Offred estava aprisionada e porquê. Só posso imaginar o choque que isto tenha causado aos leitores que não sabiam para o que iam (como me costuma acontecer a mim), e que se calhar tiveram de ler duas ou três vezes para perceber todo o horror que Offred, muitas vezes veladamente, lhes ia revelando nos seus diários.
No entanto, existem pequenos pormenores de diferença. Como aquelas crianças a quem é repetidamente contado um conto de certa maneira até o ouvirem de forma diferente e que dizem “a história não é assim”, obviamente que reparei neles. Outros ajudam-nos a perceber melhor certas relações e acontecimentos que a série não aprofundou. Por exemplo, a origem da frase “nolite te bastardes carborundorum” está aqui muito melhor explicada.
E depois há a cena da gata…

Spoilers
No livro, June (vou usar o nome da série) e Luke têm uma gata. Quando Gilead faz com que June e todas as mulheres percam o emprego, June conforta-se abraçando a gata contra o peito. Comovente, não é? Mas na hora de fugir para o Canadá com Hannah, Luke e June apercebem-se de que não podem “levar um gato com eles a cruzar a fronteira”, que deixar a gata para trás os podia denunciar (se a deixassem à solta ela miava em volta da casa) e que não a podiam oferecer a ninguém que os pudesse trair de seguida. Então o que é que fazem? A gata está escondida debaixo da cama e June até diz “eles sabem sempre”. Luke leva a gata para a garagem e mata-a. Assim mesmo. Mais tarde, quando de facto são traídos, June pergunta-se que género de maldade leva outros seres humanos a traírem os vizinhos. June, filha, e o que terá pensado o animalzinho nos seus últimos momentos naquela garagem, traído pela única família que conheceu, a quem amava e por quem se julgava tão amado que era abraçado contra o peito, que últimos momentos foram esses, cheios de medo, confusão, dor e amargura? Pensaste nisso?
Felizmente, os criadores da série perceberam que isto não ia cair nada bem no público actual e não incluíram essa cena. Afinal, o livro foi publicado em 1985, quando os animais não eram considerados parte da família. Que lhes fazer? Matá-los, afogá-los à nascença, fazia-se tudo isso quando eram incómodos e já não davam jeito. Actualmente é impensável deixar um animal para trás (por exemplo, os refugiados da Ucrânia levaram cães e gatos com eles), e não daria tanto nas vistas porque muita gente leva os animais de estimação quando vai de férias. Na altura talvez não.
Não é que eu não acredite que a June da série não seja capaz de matar um gato, dois gatos, mil gatos. Pelo contrário. O que acho é que a June da série é monstruosa a um ponto que a Offred do livro nunca chega a ser e mesmo assim não me apeteceu torcer por ela. Perturbou-me, revoltou-me. Isto não é dizer pouco quando se fala de “The Handmaid’s Tale”, mas para tudo o resto eu já ia preparada.
Ainda por cima, na série, quando fogem, June e Luke passam por imensos matagais desertos onde podiam muito bem ter deixado a gata e assim esta sempre tinha uma oportunidade de caçar ou encontrar um novo lar. Na garagem é que não teve oportunidade nenhuma.
A acção do livro só cobre as primeiras duas temporadas da série e a própria Margaret Atwood faz parte da equipa, o que poderá explicar o sucesso da expansão do mundo de Gilead. O livro termina quando Offred é levada para parte incerta pela polícia do regime, sem saber o que lhe vai acontecer. Acredito que este fim em aberto tenha causado pesadelos a inúmeras gerações de leitores.
Por fim, o livro deixa-nos uma nota de esperança. Muitos anos no futuro, durante um simpósio sobre Gilead, os diários de Offred (aparentemente gravados em cassete, como em certa passagem da série) são analisados e debatidos, sendo mesmo posta em causa a sua veracidade e de que modo Offred os poderia ter gravado e escondido. Mas Gilead é sempre referida como uma sociedade do passado, algo de extinto que merece a pena ser estudado. O que nos diz, também não disfarçadamente, que Gilead não ganhou no fim.
Margaret Atwood escreveu uma distopia magnífica, um sucessor perfeito dos gigantes “Farenheit 451” e “1984”, e ainda por cima com um contexto muito actual.
Recomendo a toda a gente que não faça o que eu fiz: leiam o livro primeiro, até porque é curto. E depois, sim, devorem a série.
Quanto à cena da gata… vou fingir que não li. Já me perturbou mais do que o bastante.

 

domingo, 23 de abril de 2023

A Court of Thorns and Roses, de Sarah J. Maas

À medida que lia “A Court of Thorns and Roses” (primeiro livro da série homónima) mais me dava aquela sensação de ter chegado atrasada ao filme. Culpa minha, e da minha mania de querer ler os livros às cegas para não ir com ideias feitas. Foi o primeiro livro que li desta autora. Esta é a segunda série de Sarah J. Maas, e posso estar enganada mas acho que há muitas referências à primeira série, “Throne of Glass”. O que não é mau, porque me deu curiosidade suficiente para parar esta série e ir ler a primeira. Ou posso mesmo estar enganada e nesse caso vou ficar desiludida, o que será culpa minha e das minhas expectativas erradas.
Mas vamos lá então à história. Feyre, a protagonista, é uma jovem pobre de uma família que já foi abastada em tempos. Fala-se muito de uma guerra que dividiu o mundo humano do mundo Fae mas não percebi exactamente se o empobrecimento teve a ver com isto. O que se percebe claramente é que estes Fae (fadas) são criaturas que menosprezam os humanos e que lhes fazem coisas bastante sádicas. Uma espécie de Elfos maléficos.
Feyre tem duas irmãs mais velhas que ainda não se adaptaram à nova situação e um pai que vive nas nuvens da negação. Para pôr comida na mesa, Feyre começa a ir para a floresta caçar. Um dia, ao tentar apanhar uma corça, aparece-lhe um lobo enorme, também interessado na presa. Uma vez que os Fae se conseguem transformar em animais, e na dúvida se será mesmo um lobo, Feyre atinge-o com uma flecha com poderes mágicos. O lobo morre, Feyre consegue a corça.
Mas logo depois lhe entra pela casa dentro um ser animalesco, um Fae, que diz que ela não matou um lobo mas sim um outro Fae sob disfarce, e a pena para esse crime é uma vida por uma vida. Feyre pode escolher entre morrer de imediato ou ser levada para o reino dos Fae para uma vida de escravidão. Sempre na esperança de escapar, Feyre resigna-se à segunda opção.
Aqui começa algo estranho. Em vez de escrava, Feyre é tratada como uma princesa em casa do tal ser animalesco, que depois de transformado na sua forma original é um belo High Lord Fae, Tamlin, o senhor do Reino da Primavera, e que é um cavalheiro. Aqui eu comecei a tentar perceber o que estava a ler. Uma espécie de a Bela e o Monstro?
Mas depois há uma reviravolta. Admito que o livro não me conseguiu capturar inteiramente para prestar atenção aos pormenores todos, mas, resumindo, há uma Fae malvada, Amarantha, que venceu todos os outros Fae na tal guerra do passado, que convoca Tamlin para ir viver na corte dela Debaixo da Montanha (literalmente debaixo de uma montanha). Aqui, Tamlin deixa Feyre voltar para casa sem que se perceba porque é que a chegou a levar, excepto que entretanto gerou-se um romance entre eles.
Outra consequência das guerras do passado: todos os Fae do Reino da Primavera estão amaldiçoados com uma máscara na cara que não conseguem tirar, resultado de um encantamento. (Daí a minha curiosidade: como é que se chegou até aqui, como é que Amarantha ganhou?) Finalmente, Feyre descobre a história toda: que para os livrar do encantamento é preciso que uma mulher humana mate um Fae e se apaixone por outro. É tarde demais, Tamlin já partiu para Amarantha, mas Feyre vai atrás dele por amor. Ora, isto é mais a Princesa que tem de beijar o Sapo.
Amarantha, criatura malévola, impõe-lhe três tarefas a realizar para os libertar, todas elas terríveis, ou, em vez disso, um enigma que os libertaria imediatamente. (Eu decifrei o enigma em menos de 6 horas sem pensar muito nele, não é para me gabar.)
Enquanto é prisioneira nas masmorras de Amarantha, curiosamente, Feyre torna-se uma espécie de brinquedo sexual para o High Lord do Reino da Noite, Rhysand, que a expõe na corte drogada e semi-nua e a faz dançar para ele sem nunca chegar a tocar-lhe intimamente.
Por esta altura eu já estava com muitas dúvidas sobre o género literário. A magia nunca é muito importante, pelo que não me incomodaria pôr isto no rótulo da Low Fantasy. São as personagens que decidem o enredo. Por outro lado tudo é contado da perspectiva de uma jovem, o que se coloca no Young Adult. Existe um erótico levezinho, mas aquela coisa da Feyre drogada a dançar semi-nua à vista de todos é mais pesado do que parece. Digamos que a autora passa o livro todo a pisar o risco sem nunca o ultrapassar. Mas as cenas violentas são muito explícitas, contudo; até perturbadoras. Então, que género é este, para além de Fantasia? Grim? Dark? Romântico e semi-erótico?
Talvez seja do meu estado de espírito, ou das minhas leituras habitualmente mais complexas, mas assim que li o livro comecei imediatamente a esquecê-lo. Fiquei muito mais curiosa sobre a tal guerra do passado, e vou ver se a consigo apanhar.
Em suma, achei uma leitura ligeira que nunca nos consegue emocionar muito mas que tem passagens de grande tensão. Os capítulos são curtos e a linguagem é acessível. A protagonista é empática mas não saímos o bastante da cabeça dela para conhecer os outros personagens como deve ser. Recomendo a quem quer Fantasia de pendor romântico sem ter de pensar muito.

 

domingo, 28 de agosto de 2022

Sombras, de Patrícia Morais

“Sombras” é o primeiro livro de Patrícia Morais, inicialmente publicado em 2014 pela Cool Books, uma chancela da Porto Editora. Terminado este contrato (e a chancela?), a autora optou agora pela auto-publicação.
Esta é uma história em Young Adult/Fantasia Urbana que agradará a quem gostou de “Twilight”, “Harry Potter”, “Diários do Vampiro” e “Sobrenatural”.
Lilly tem uma vida perfeitamente normal até à noite em que toda a sua família é assassinada. Incapaz de ficar no local onde aconteceu o trauma, Lilly parte para os Estados Unidos, a princípio para estudar Mitologia, mas depressa se junta aos Diabolus Venator, uma organização de caçadores de monstros. É a sua maneira de extravasar a raiva e encontrar um sentido na vida… ou de acabar com ela. Junto dos venatori, Lilly envolve-se num quase triângulo romântico com um dos caçadores, Liam, e um vampiro chamado Louis (não, não é o da Anne Rice). Mas poderá confiar em qualquer um deles?
Como estreia, é inegável que Patrícia Morais tem bastante potencial para fazer mais e melhor, mas vejo ainda muito trabalho, dedicação e vontade de aprender à sua frente. Algo necessário a "Sombras" como pão para a boca teria sido um bom beta reader ou revisor de texto.
Como beta reader de contos mais recentes de Patrícia Morais (em que se nota uma evolução substantiva), já tive oportunidade de dizer à autora que ainda falta um português mais elegante a nível gramatical, e que existe uma tendência permanente de decalcar expressões idiomáticas directamente do inglês (é a tal formação da autora em Tradução a imiscuir-se onde não deve) que até podiam resultar se fossem trabalhadas. Algumas escolhas de palavras são igualmente decalcadas do significado em inglês e, lamento, não resultam na nossa língua.
A nível da narrativa propriamente dita, o maior problema está na (falta de) caracterização e bidimensionalidade das personagens. A Lilly até conseguimos conhecer, mas todos os outros são genéricos. Isto vai-se tornando mais grave à medida que se desenrolam acontecimentos dramáticos que nos deviam fazer sentir alguma coisa… se conhecêssemos as personagens e nos interessássemos por elas. Infelizmente, isto não foi conseguido, o que retira bastante impacto à revelação final, quando nos surge um vilão sem profundidade que nunca passou de um nome no papel.
Por último, as personagens de “Sombras” andam na casa dos vinte anos mas comportam-se, falam e agem como miúdos de liceu, o que é grave numa organização que devia ser antiquíssima, sapientíssima e profissional. Esta “juvenilidade” devia ser revista. Jovens adultas não são adolescentes birrentas que andam a puxar os cabelos umas às outras quando se zangam. Basta dizer que o personagem mais velho, o chefe dos venatori, tem apenas 30 anos. Faltava aqui uma maturidade à altura da instituição representada.
Em suma, e apesar do rumo pesado e dramático que a história podia levar, “Sombras” é um livro leve que aborda o sobrenatural e o romântico sem querer aprofundar os temas que, como espectros, gritam das sombras para serem explorados.
Espero muito mais de Patrícia Morais no futuro.

Onde encontrar o livro: patricia-morais.com/livros/sombras