domingo, 7 de junho de 2026
Talamasca: The Secret Order (2025)
A Talamasca é uma organização secreta e milenar que estuda o sobrenatural, nomeadamente as bruxas e vampiros do universo de Anne Rice. A Talamasca sempre foi fascinante, mas descobrir a sua verdadeira origem, nos últimos livros das Vampire Chronicles, tornou-a ainda mais interessante. (Um nome apenas: Gremt)
Fiquei muito entusiasmada quando descobri esta outra série criada a partir dos livros da autora. A Talamasca é uma organização que vamos conhecendo ao longo das Vampire Chonicles e Mayfair Witches e, ao contrário destas, não tem nenhum livro que lhe seja dedicado. Isto permite uma liberdade criativa única. Os argumentistas podem desenvolver personagens dos livros ou, pelo contrário, criar personagens e histórias completamente novas.
Foi o que aconteceu neste caso. Guy Anatole, um jovem advogado com poderes telepáticos, é abordado por Helen, uma operacional da Talamasca, para que se junte à organização. Guy não tem qualquer motivo para fazê-lo até perceber que a sua mãe, que ele julgava morta, era na verdade uma agente da Talamasca que por alguma razão teve de fugir e esconder-se. Guy aceita a missão na tentativa de encontrar a mãe, o que o leva à sede da Talamasca em Londres, onde o vampiro Jasper usurpou o poder. Jasper e Helen andam à procura do misterioso 752, que poderá ser um livro, ou um microfilme, ou um artefacto completamente diferente, que reúne todo o conhecimento que a organização compilou durante séculos.
Jasper também tem estado a criar uma espécie de vampiros "imperfeitos", mais "zombificados" e acéfalos, que Anne Rice introduziu no primeiro livro, "Entrevista Com o Vampiro". Anne Rice desinteressou-se deste tipo de vampiro, aparentemente, porque nunca mais o retomou, e se calhar fez muito bem porque os temas das Vampire Chronicles são mais profundos do que isto, mas o facto é que estes monstros resultam muito bem na televisão.
Do que sei, sem ter lido as Mayfair Witches, e do que vi nas críticas, são todos personagens novos (excepto dois, que só entram em curtas passagens, que também aparecem em "Interview With The Vampire"). O subplot de Helen recorda vagamente o enredo das gémeas e de Jesse Reeves em "The Queen of the Damned", mas apenas como paralelismo. A série desenrola-se como uma história de espionagem/policial, sem que isso interfira com o aspecto sobrenatural das personagens. E gostei, gostei muito, mesmo sem conhecer os personagens de lado nenhum.
Fiquei sinceramente chocada e perplexa quando soube que a série foi cancelada após apenas a primeira temporada. De todo o universo de Anne Rice adaptado pela AMC, "Talamasca: The Secret Order" era a série que tinha mais potencial de desenvolvimento. Como disse, a Talamasca é uma organização que estuda o sobrenatural há mais de mil anos. Os personagens podiam ser novos ou conhecidos, ou uma mistura de ambos, interagindo igualmente com os imortais dos livros ou outros que viessem a ser apresentados, incluindo até flashbacks a outros séculos. Só o manancial de criaturas e fenómenos sobrenaturais que podiam ser abordados é inesgotável. Basta pensar que a Talamasca é uma mistura de X-Files com os Homens de Letras de "Sobrenatural", mas com todo um requinte académico e britânico, e que os próprios membros da Talamasca incluem vampiros, espíritos, bruxas, telepatas e outros mortais com poderes especiais. Acresce a isto que a Talamasca tem casas-mãe em várias partes do mundo, o que até daria panos de fundo diversificados e internacionais se fosse esse o objectivo.
Não sei o que aconteceu, se "Talamasca: The Secret Order" não teve audiência suficiente ou se a AMC estava com problemas de orçamento e preferiu investir nas Vampire Chronicles ou nas Mayfair Witches. Não encontro nenhuma razão para cancelar esta série, fosse com um enredo derivado da primeira temporada ou adoptando um formato de antologia nas seguintes. Com uma organização como a Talamasca, até o monstro-da-semana resultava (embora eu, muito pessoalmente, esteja farta desse formato e não o recomende). A questão é que não faltavam histórias, opções e personagens. E nem sequer estou a falar de Gremt, mas adorava tê-lo visto.
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PARA QUEM GOSTA DE: Anne Rice, Vampire Chronicles, Mayfair Witches, vampiros, bruxas, sociedades secretas, espionagem, policial, sobrenatural, terror
domingo, 28 de dezembro de 2025
Revival (2025 - ?)
Uma noite, na pequena cidade de Wausau, todas as pessoas falecidas nos últimos 15 dias regressam da sepultura. Estes ressuscitados não são zombies, estão de corpo e mente sãos, e tentam voltar à vida que tinham antes.
Dito assim, isto parece a sinopse de "Glitch". Tal como "Glitch", a série aborda a reacção dos familiares e da sociedade em geral ao regresso destes "mortos", e existe igualmente uma componente dramática na dinâmica da família da protagonista, da sua irmã e do pai de ambas, o xerife. Segundo li, embora "Glitch" tenha estreado em 2015, as novelas gráficas originais em que "Revival" se baseiam são anteriores.
Gostei muito de "Glitch" como lufada de ar fresco para o tema, mas "Revival" não faz tão bem aquilo a que se propõe. É como se tudo em "Revival" ficasse pelo superficial, desde o mistério, ao drama, à própria reacção da parte da sociedade que teme os "ressuscitados". Existe de facto tal ligeireza propositada, e um humor tipo "Fargo", que às vezes nos faz esquecer que estamos a ver personagens regressadas dos mortos como se isto fosse só um pormenor.
Na verdade, à medida que os sub-enredos se começam a ampliar de episódio para episódio, desde traficantes de droga a nativos americanos expropriados das suas terras, bem como um caso de polícia que aparentemente a protagonista não resolveu bem e que ainda a atormenta, e aos traumas do passado da família da protagonista, e ao líder de um culto fundamentalista que quer destruir os ressuscitados por serem "demónios", parece que o menos importante são mesmo os próprios ressuscitados.
Apesar de tudo, eu estava a gostar. Apreciei principalmente o líder do culto interpretado por Steven Ogg, o Simon de "The Walking Dead", capanga de Negan. Steven Ogg lembra-me o Jack Nicholson de "The Shining", não apenas pelas parecenças físicas como pelo sorriso sinistro, o olhar psicótico e a postura ameaçadora. Isto é um vilão a sério e um actor que sabe meter medo.
Os sub-enredos são tantos que se tornam um pouco difíceis de seguir e de recordar, mas até aqui eu tencionava ver uma segunda vez. O último episódio estragou tudo. Quando se faz uma série com mortos regressados da sepultura é natural esperar uma explicação minimamente plausível dentro do universo ficcional. Qual é a causa ? É sobrenatural, é científica? Sinceramente, não sei, porque o último episódio foi uma banhada sem sentido. "Glitch" deu-nos uma explicação compreensível. Sim, é sobrenatural, não revela tudo, deixa mistérios no ar, mas está de acordo com a essência da série. "Revival" nem pensou no assunto. Não percebi mesmo, de todo, o que aconteceu no último episódio. Nem consegui perceber se era o fim da série ou se ia haver mais temporadas. Aparentemente, querem fazer mais temporadas para desenvolver ou atar as pontas soltas, mas eu não ficaria nada surpreendida se isto fosse cancelado. Honestamente, é o que "Revival" merece.
Depois do último episódio não tive paciência para ver outra vez. É pena, porque Steven Ogg estava a fazer um papelão e porque a premissa merecia ser mais bem abordada.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, se não houver melhor para ver
PARA QUEM GOSTA DE: ficção científica (?), sobrenatural (?), Glitch
domingo, 2 de março de 2025
Evil (2019 - 2024)
Um seminarista em crise de fé, uma psicóloga agnóstica e um cientista muçulmano investigam fenómenos paranormais ao serviço da Igreja Católica. Trabalhando contra eles, Leland Townsend, psiquiatra forense e satânico, lidera uma organização demoníaca que pretende dar origem ao Anticristo.
Dito assim, isto parece os "Ficheiros Secretos" com demónios em vez de extraterrestres, mas a semelhança com os "X-Files" termina antes de começar.
Confesso que vi "Evil" de queixo caído, não por achar a série fantástica mas por me questionar continuamente a quem é que a série era dirigida. Kristen Bouchard, a psicóloga, tem quatro filhas entre os 10 e os 15 anos. Os demónios são fofinhos ou engraçados, nunca assustadores. Seria uma série de "terror para crianças"? Mas ao mesmo tempo, depois da primeira temporada, "Evil" enveredou também por cenas de sexo tão maradas que não podia ser para crianças. À semelhança de "Ficheiros Secretos", alguns casos investigados têm explicação científica, outros não. Muitas das conclusões podem parecer demasiado "beatas" para alguns gostos e quanto às respostas científicas não consigo opinar, mas muitas coisas pareceram-me mais ficção científica do que realidade.
O enredo é completamente desvairado. David Acosta, o futuro padre, tem visões do Céu, do Inferno, de anjos e de santos. Tem também uma atracção por Kristen, e durante algumas temporadas David não consegue decidir entre ela e Deus, sendo atormentado por demónios na forma de Kristen que o tentam sexualmente. Kristen corresponde à paixão de David, apesar de casada, e ao longo da série torna-se cada vez mais destravada e arrogante, a ponto de matar um homem e safar-se porque tem uma amiga na polícia que a encobre. Na verdade, detestei a personagem por uma batelada de razões, mas a principal é que ela tem a mania de que é boa. Nisso sai à mãe, Sheryl Luria, que não olha a meios para conseguir os fins e que também pertence à organização de Leland. A filha mais velha de Kristen, de 15 anos, tem mais juízo do que as duas juntas. O personagem mais simpático é mesmo Ben, o cientista, sempre muito pragmático e leal, que não se deixa levar por superstições e contos do vigário.
Entre os elementos alucinados de "Evil", temos também uma freira que vê demónios e que os mata com o sapato (quando são pequenos e fofinhos, o que até dá pena deles); uma app que as miúdas usam para "detectar" demónios, e que evidentemente os "detecta" para que os utilizadores não deixem de a usar, o que as leva a exigir um "exorcismo porque a casa está cheia de demónios"; demónios peludos e chifrudos na posição de CEOs de empresas e organizações cotadas em bolsa (nisto eu acredito!); lendas urbanas que dizem que durante um furacão os demónios caminham na terra; a freira a dizer que os furacões são obra do Diabo e apenas Ben a explicar que são consequência das alterações climáticas; um demónio numa reunião remota por Zoom que quer falar mas está em mute e têm de o ensinar onde activar o microfone.
Então, o que é "Evil"? Comédia? Se é, eu não achei graça nenhuma. Drama? Demasiado ligeiro. Terror? Só se for para criancinhas, porque não mete medo nenhum. Depois de ver a série toda a tentar perceber o que ia sair dali, concluo que "Evil" é um comentário social que explora os conceitos do que é o Mal, desde o Mal clássico e personificado por diabos chifrudos (pobre deus Pan não tem culpa de nada disto!) aos novos males que podem ser colocados pela ciência, pela tecnologia, pela Inteligência Artificial, pela internet.
Não gostei da maior parte dos episódios, mas um dos meus preferidos foi sobre um programa que, usando Inteligência Artificial e informação de emails, voice mails e redes sociais, permitia manter uma conversa/relação com um falecido, incluindo conversas usando a voz deste. O programa também permitia conversar com figuras históricas e pessoas conhecidas, ou até manter um flirt com uma paixão proibida. Eu já tinha ouvido falar nestes programas e, sinceramente, acho que a possibilidade de continuar a "falar" com um falecido através de Inteligência Artificial é algo arrepiante, já para não dizer que impede a pessoa de fazer completamente o luto. Eis um bom exemplo de uma tecnologia que questiona os nossos princípios éticos e até as nossas noções do que é moral.
A melhor razão para ver "Evil", no entanto, é mesmo Michael Emerson, o enigmático Ben Linus de "Lost", no papel de Leland Townsend. Michael Emerson é uma boa razão para ver tudo, até uma telenovela mexicana. Este é um daqueles actores grandiosos que enchem o écran sem precisarem de dar muito nas vistas, e Michael Emerson parece que nasceu para fazer papéis maléficos. Deste modo, "Evil" assenta-lhe como uma luva.
Curiosity note: our friend George Grant from Black Rose Burning worked as a grip in "Evil".
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PARA QUEM GOSTA DE: Os Ficheiros Secretos, The X-Files, exorcismos, paranormal, ciência, ficção científica, sexo marado, Michael Emerson (Lost)
domingo, 3 de novembro de 2024
Glitch (2015 - 2019)
Na pacata noite de Yoorana, uma pequena cidade (ficcional) no interior da Austrália, meia dúzia de pessoas falecidas saem das suas sepulturas. No entanto, não são zombies. Estão nus e na idade em que morreram, cobertos de lama, desorientados e confusos, e sofrem de amnésia. Numa terra em que há apenas dois polícias de serviço, o agente James é chamado ao cemitério e julga que aquilo que está a ver é uma partida ou o resultado de uma bebedeira. Leva-os todos para o consultório da médica Elishia McKellar, igualmente o único da cidade, onde esta lhes faz testes e James os tenta identificar. Lentamente, uns mais devagar do que os outros, os ressuscitados começam a lembrar-se de pequenos pormenores das suas vidas, como por exemplo o nome próprio. Depois do estado de negação, James tem de acreditar nos seus olhos ao reconhecer entre eles a sua esposa Kate, falecida há dois anos de cancro. Mais investigação revela que estas pessoas são mesmo quem estava nas campas, alguns deles mortos há mais de 100 anos.
O que os trouxe de volta? E como? O que têm em comum?
“Glitch” é mais ficção científica do que sobrenatural, embora o sobrenatural também esteja envolvido. Já voltaremos a isso, mas penso mesmo que a melhor maneira de assistir a esta série australiana é focarmos-nos nos personagens que se vêem de volta à vida sem saberem que tinham morrido.
Kate, falecida esposa de James, regressa para descobrir que entretanto ele casou com a melhor amiga dela e que estão à espera de um bebé dentro de semanas, a criança que Kate não conseguiu ter devido ao cancro. James nunca deixou de amá-la, o que o coloca numa situação muito difícil. Acima de tudo por causa de Kate, mas também pelos outros, James e Elishia decidem manter os ressuscitados em segredo antes que cientistas os queiram levar e estudar.
Kirstie Darrow, assassinada aos 19 anos na década de 80, tem apenas vislumbres do que lhe aconteceu até recordar o homicídio e agora só quer encontrar o homem que a matou.
Uma das minhas histórias preferidas é da Charlie P. Thompson, o único soldado da Primeira Guerra Mundial que regressou vivo a Yoorana com o estatuto de herói e mandou erigir uma estátua aos camaradas caídos em batalha, mas acabou por morrer também, muito novo, em circunstâncias desconhecidas. Charlie morreu antes de assumir a sua homossexualidade, uma vez que estava apaixonado por um companheiro de trincheira que foi alvejado à sua frente. Regressado dos mortos, Charlie tem de descobrir o que lhe aconteceu e lidar, finalmente, com a sua sexualidade.
Outra história igualmente interessante é a de Patrick Michael Fitzgerald, primeiro Presidente da Câmara de Yoorana, falecido há mais de 150 anos, que funciona também como comic relief. Patrick construiu a sua fortuna através de expedientes e ilegalidades. Quando regressa dos mortos consegue escapar à vigilância da polícia, dá umas voltas por uma cidade que já não reconhece (excepto a sua própria estátua na praça), assalta uma loja de artigos de caça e vai acampar no mato à moda antiga, com uma fogueira e tudo. Lentamente, Patrick recorda o seu envolvimento com uma criada aborígene da sua casa, de quem teve uma criança. Mais tarde descobre também que os seus descendentes com esta mulher, o amor da sua vida, ainda vivem em Yoorana. Obviamente, o ramo “branco” da família não os reconhece. Patrick embarca numa missão para que a sua fortuna seja também dividida com eles, o que não vai ser fácil devido aos entraves da família legítima.
Nem tudo são rosas para estes regressados da sepultura. Depressa descobrem que estão limitados no espaço por uma barreira invisível que não lhes permite sair de Yoorana, e esta barreira está a encolher cada vez mais. Se tentarem ultrapassá-la, morrem e decompõem-se em segundos, voltando ao estado em que estavam.
E então entra o sobrenatural. Pessoas antes normais começam a ficar “possuídas” com um único propósito: devolver os ressuscitados à sepultura para corrigir a ordem natural das coisas.
Vou cometer um spoiler para se perceber isto (ou não). A série andou às voltas até que por fim admitiu que a ressurreição tinha sido produto de uma experiência científica. Mas estes “exterminadores” ao serviço de uma força inteligente que quer “repor a ordem das coisas” não têm nada de científico. Geralmente não gosto da mistura de ficção científica com sobrenatural, mas aqui até funciona bem. Um dos personagens pergunta a um destes “exterminadores” se ele trabalha para Deus, ao que o outro não responde sim nem não. Mas a natureza não quer saber de moralidades (e não são meia dúzia de ressuscitados que vão implodir o universo), pelo que só pode ser uma força sobrenatural que move os “exterminadores” a “corrigirem” o que a ciência “perturbou”. Isto faria sentido, ciência vs sobrenatural, especialmente se a ciência se aguentasse nas pernas (não aguenta). O problema é quando se tenta misturar ficção científica com sobrenatural, porque nunca bate a bota com a perdigota, e “Glitch” também se tentou meter por aí, embora muito ao de leve e sem se comprometer, o que permite a cada espectador interpretar como quiser. Por exemplo, o romance entre Elishia McKellar e William Blackburn. Das conversas entre ambos tudo indica que se trata de reencarnação (neste caso uma reencarnação “forçada”) e que ambos se conheciam de uma vida passada ou até mesmo do Além, mas a série nunca é suficientemente explícita.
Na verdade, a grande crítica que “Glitch” merece é que nunca se interessa por dar respostas, e cada resposta vem carregada de mais perguntas, ao que eu vou começar a chamar o “Síndrome de Lost”, e ao fim de três temporadas termina cheia de pontas soltas. Vou considerar que este desinteresse foi propositado para que os espectadores se focassem antes nos personagens, porque uma vez que mete ciência até seria MUITO FÁCIL explicar “porquê estes e não outros”. Por exemplo, podiam ter inventado um gene em comum, o mesmo tipo de sangue, um parentesco, e patati-patatá porque não ia fazer sentido à mesma.
Por falar em parentesco, a certa altura Patrick recupera o seu testamento, que tinha deixado num esconderijo secreto, e confronta ambos os ramos da família com ele, apresentando-se como um parente, tentando provar que tinha deixado uma grande propriedade a Kalinda, a criada. Inclusivamente, Patrick contrata um advogado para tratar do caso. Nenhum dos ramos da família acredita nele, mas não seria lógico que alguém sugerisse um teste de ADN para provar o parentesco, o que daria mais credibilidade ao testamento, nem sequer o advogado? Até podia ser interessante porque a doutora Heysen diz que o sangue dos ressuscitados é “invulgar”, o que certamente seria detectado no teste de ADN e abriria uma nova narrativa. Haveria mais exemplos, mas “Glitch” não está interessada em pormenores que desviem a história do enredo principal.
Também não fiquei nada convencida com o fim. Deu-me até a entender que se calhar queriam que a série fosse continuada, mas não foi renovada e tiveram de arranjar alguma coisa à pressa?…
“Glitch” começa em ritmo lento (cada temporada tem apenas 6 episódios), o tempo necessário para que os ressuscitados se adaptem à sua nova situação, recobrem do choque e procurem respostas, mas começa “a abrir” a partir da segunda temporada. Algumas coisas são resolvidas e explicadas, outras são abandonadas. Penso que uma série tão profunda e viciante merecia “pontos mais bem dados”, mas continuo a dizer que vale a pena pelo percurso dos personagens desde que não se olhe muito para o lado e para as questões que não tiveram tempo de ser desenvolvidas.
Nota humorística: quando eles saem das sepulturas, nus e sujos de lama, são levados para um consultório. Em questão de horas todas as mulheres tomam banho e arranjam roupa decente. Dias depois, os homens ainda andam com as orelhas e até o peito sujo de terra, como quem não se lavou como deve ser. Na verdade, só os vi limpinhos na segunda temporada. Não estou a inventar nada, é só ver a série. Achei engraçado.
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PARA QUEM GOSTA DE: ficção científica, sobrenatural, metafísica, Lost
domingo, 28 de agosto de 2022
Sombras, de Patrícia Morais
“Sombras” é o primeiro livro de Patrícia Morais, inicialmente publicado em 2014 pela Cool Books, uma chancela da Porto Editora. Terminado este contrato (e a chancela?), a autora optou agora pela auto-publicação.
Esta é uma história em Young Adult/Fantasia Urbana que agradará a quem gostou de “Twilight”, “Harry Potter”, “Diários do Vampiro” e “Sobrenatural”.
Lilly tem uma vida perfeitamente normal até à noite em que toda a sua família é assassinada. Incapaz de ficar no local onde aconteceu o trauma, Lilly parte para os Estados Unidos, a princípio para estudar Mitologia, mas depressa se junta aos Diabolus Venator, uma organização de caçadores de monstros. É a sua maneira de extravasar a raiva e encontrar um sentido na vida… ou de acabar com ela. Junto dos venatori, Lilly envolve-se num quase triângulo romântico com um dos caçadores, Liam, e um vampiro chamado Louis (não, não é o da Anne Rice). Mas poderá confiar em qualquer um deles?
Como estreia, é inegável que Patrícia Morais tem bastante potencial para fazer mais e melhor, mas vejo ainda muito trabalho, dedicação e vontade de aprender à sua frente. Algo necessário a "Sombras" como pão para a boca teria sido um bom beta reader ou revisor de texto.
Como beta reader de contos mais recentes de Patrícia Morais (em que se nota uma evolução substantiva), já tive oportunidade de dizer à autora que ainda falta um português mais elegante a nível gramatical, e que existe uma tendência permanente de decalcar expressões idiomáticas directamente do inglês (é a tal formação da autora em Tradução a imiscuir-se onde não deve) que até podiam resultar se fossem trabalhadas. Algumas escolhas de palavras são igualmente decalcadas do significado em inglês e, lamento, não resultam na nossa língua.
A nível da narrativa propriamente dita, o maior problema está na (falta de) caracterização e bidimensionalidade das personagens. A Lilly até conseguimos conhecer, mas todos os outros são genéricos. Isto vai-se tornando mais grave à medida que se desenrolam acontecimentos dramáticos que nos deviam fazer sentir alguma coisa… se conhecêssemos as personagens e nos interessássemos por elas. Infelizmente, isto não foi conseguido, o que retira bastante impacto à revelação final, quando nos surge um vilão sem profundidade que nunca passou de um nome no papel.
Por último, as personagens de “Sombras” andam na casa dos vinte anos mas comportam-se, falam e agem como miúdos de liceu, o que é grave numa organização que devia ser antiquíssima, sapientíssima e profissional. Esta “juvenilidade” devia ser revista. Jovens adultas não são adolescentes birrentas que andam a puxar os cabelos umas às outras quando se zangam. Basta dizer que o personagem mais velho, o chefe dos venatori, tem apenas 30 anos. Faltava aqui uma maturidade à altura da instituição representada.
Em suma, e apesar do rumo pesado e dramático que a história podia levar, “Sombras” é um livro leve que aborda o sobrenatural e o romântico sem querer aprofundar os temas que, como espectros, gritam das sombras para serem explorados.
Espero muito mais de Patrícia Morais no futuro.
Onde encontrar o livro: patricia-morais.com/livros/sombras
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
Um Natal Assombrado, um conto de Patrícia Morais
“Um Natal Assombrado” é um conto de Natal para pessoas que gostam do Natal. Eu odeio o Natal e isso prejudicou-me a leitura, mas tentei focar-me noutras coisas.
Aqui está outra boa história de introdução ao universo iniciado em ”Sombras”. Os caçadores de Diabolus Venator celebram a quadra natalícia, mas até no Natal existem gnomos maléficos a fazer maldades. Se calhar Patrícia Morais não quis entrar muito nestas “maldades” para não estragar o espírito festivo do conto, mas, por exemplo, uma criança é comida, “off-screen”, por um ogre. Não vemos, apenas somos informados.
Lilly tem saudades da família que perdeu, e ao mesmo tempo começa a sentir atracção por um dos caçadores lá do sítio. Existe alguma culpa própria ao luto, de quem sofre remorsos porque a vida continua, mas este é um conto muito levezinho que não se mete em grandes dramas.
Não posso deixar de mencionar que para o tamanho do conto (mesmo muito curto) apareceram tantas personagens que só consegui memorizar uma ou duas, e uma delas porque já tinha lido “Correntes” e já tinha estabelecido uma simpatia com ela. Tenho acompanhado a escrita da Patrícia Morais e congratulo-me por ver como a escrita dela tem vindo a evoluir. Aqui ainda se nota muitas vezes a tendência de escrever um português que parece uma “tradução do inglês”, com expressões idiomáticas que não existem na nossa língua e que eu só percebi porque efectivamente sei de onde elas vêm, mas que causa solavancos dispensáveis na leitura. Neste e noutros aspectos, a escrita da autora tem melhorado de obra para obra. Publicado em 2015, “Um Natal Assombrado”, lamento dizê-lo, não é o melhor que Patrícia Morais tem para oferecer hoje em dia. “Correntes”, em todos os aspectos, está muito melhor.
Mesmo assim, este é um continho de Natal, Young Adult e simpático, que ajuda à introdução ao universo dos Diabolus Venator. Um universo um pouco adolescente demais para o meu gosto pessoal, mas tenho esperança de que coisas melhores virão da autora.
Todos os livros na página da autora: patricia-morais.com/livros
Os livros podem ser adquiridos aqui: www.wook.pt/autor/patricia-morais/3233784
domingo, 20 de junho de 2021
NOS4A2 / Nosferatu [segunda temporada]
Nunca pensei que esta série tivesse uma segunda temporada. A primeira pareceu-me uma história finalizada. Vic McQueen venceu, não sem o sacrifício do pai do seu filho, o Wraith (carro-vampiro) ficou sem motor, e Manx acabou comatoso no hospital.
Por outro lado Bing Partridge andava a monte. Bing Partridge é o equivalente para Manx do que Renfield era para Drácula. Ainda na esperança de ser levado para a Christmasland (onde não ia divertir-se tanto como pensava), Partridge consegue localizar o Wraith e pô-lo a funcionar. Após oito anos de coma, Charles Manx morre no hospital, mas assim que o Wraith volta a ter motor, Manx ressuscita.
Durante todo este tempo, Vic McQueen nunca se convenceu de que Manx já não era um perigo. Agora ela mora com o filho e com o namorado e tem uma oficina de motas onde dá largas aos seus talentos criativos pintando capacetes por encomenda. Longe ficaram os sonhos de entrar numa escola de Belas Artes e ser alguém. Mas não se pode dizer que viva mal, ou que seja uma má mãe. Simplesmente desenvolveu o hábito de beber whisky (herdado direitinho do pai) a toda a hora e às escondidas. Em sua defesa, durante estes anos todos Vic continuou a receber telefonemas ameaçadores directamente da Christmasland (é Millie, filha de Manx, quem lhe telefona), que muitas vezes guarda em segredo para si. Estes telefonemas tanto chegam em telefones normais como em telefones de brinquedo, o que é por si só arrepiante.
A notícia da morte de Manx não a convence, e o seu sexto sentido tem razão. Manx é ressuscitado assim que o carro volta à vida. E agora Manx só tem um objectivo; vingar-se e roubar o filho de Vic, levando-o também para a Christmasland.
Enganei-me, na crítica anterior, ao julgar que Manx era velho, mesmo muito velho. Aqui eu estava a pensar em séculos. Afinal não era assim tão velho, e um flashback explica-nos o seu encontro com o maldito Wraith e a criação da Christmasland imaginária. Manx era jovem durante os anos 30, época da Grande Depressão. O Wraith foi comprado barato como tentativa de criar o seu próprio negócio assim que as coisas melhorassem. A mulher de Manx zanga-se com ele por gastar dinheiro inutilmente, dinheiro que ele arranjou empenhando as jóias dela (“Já ninguém tem dinheiro para um chaffeur, Charles”), e ameaça sair de casa e levar com ela a filha de ambos, Millicent. É então que algo aqui acontece e que o Wraith se torna um carro-vampiro e que a Christmasland, imaginada em conjunto por Charles e Millie, se torna uma realidade (embora imaginária). Millie é a sua primeira habitante e a mãe dela, esposa de Manx, a sua primeira vítima.
Deste modo, nos nossos dias Manx tem uns 110/120 anos, e uma aparência jovem alimentada pelas almas dos miúdos raptados. Falhando o Wraith, a força mágica que lhe confere imortalidade, Manx transforma-se num velho da sua idade real. Mas, praticamente imortal, a única maneira de o matar é destruindo o Wraith, o que não é tarefa fácil porque o carro tem vontade própria.
Recuperado da morte e de uma autópsia (matar Manx não é mesmo fácil), este começa de imediato a cercar Wayne McQueen, filho de Vic. O apelo da Christmasland é praticamente irresistível para uma criança, e depois de alguma resistência Manx consegue dar-lhe a volta. Não é um rapto. Mais doloroso ainda para Vic, a certa altura é Wayne quem segue Manx voluntariamente (ou o mais voluntariamente possível nestas circunstâncias, em que o Wraith já lhe comeu a alma). Agora Vic tem de tentar resgatar o seu filho e matar Manx de uma vez por todas.
Tal como a primeira temporada, também a segunda vale mais pelo complexo drama familiar do que pela história de terror em si. Vic sempre quis escapar ao mesmo destino dos pais, mas acaba exactamente como eles. Entretanto, Chris McQueen, pai de Vic, já deixou a bebida, mas Vic ainda agora começou. Vic atinge o ponto mais baixo quando pega fogo à sua própria casa, embriagada, tentando livrar-se de todos os telefones de onde recebe chamadas fantasmagóricas. Por causa disto recebe um ultimato do namorado: ou pára de beber ou está tudo terminado entre eles. Vic decide deixar Wayne com o pai adoptivo e sair de casa. Tirando a parte das chamadas fantasmagóricas, este podia ser um drama em que os filhos acabam a repetir os erros dos pais, por falta de condições ou de apoio para os superarem, ou por auto-sabotagem. A família McQueen precisava de muita terapia, com ou sem Manx.
Efectivamente, o drama continua a ser o ponto forte da série à medida que a história de terror se torna cada vez mais rebuscada e a premissa é esticada até um limite em que a corda da credibilidade ameaça partir-se. Para mim, partiu-se mesmo. Por exemplo, qual é o plano deles para destruir a Christmasland? Detoná-la com explosivos. Como é que se faz explodir um espaço imaginário? Com explosivos imaginários? Não, os explosivos até eram bem reais. Isto para mim foi a certeza de que mais valia se terem ficado pela primeira temporada.
Todos os episódios são esticados “demais”, espremendo todas as pinguinhas do drama. Não digo que tenha sido uma temporada chata com episódios de encher chouriços, mas notou-se que as ideias já faltavam quando, em vez de usar explosivos reais (duas vezes, ainda por cima, e em vão), Vic poderia, por exemplo, ter tentado recrutar a ajuda de outros “criativos” como ela, expandindo o universo sobrenatural da série.
Recomendo NOS4A2 a quem gosta de um bom drama familiar com um carro-vampiro à mistura (ou a toda a gente que deteste o Natal tanto quanto eu), mas a segunda temporada não vale tanto como a primeira. O último episódio tentou lançar as bases para uma continuação, mas a série foi cancelada. Já não havia por onde esticar mais.
domingo, 6 de junho de 2021
The Banshee Cries, de Patrícia Morais
Li este conto ainda na versão original, “The Roommate”, o meu primeiro contacto com o universo sobrenatural de Patrícia Morais. Francamente, gostei, tirando alguns pormenores que salientei à autora como beta reader do conto. Esta segunda versão está muito melhor, sem dúvida, e nota-se a evolução na escrita de história para história.
A protagonista de “The Banshee Cries” é Melissa, uma jovem que já traz consigo um passado traumatizante ligado ao sobrenatural. Na tentativa de recomeçar num local novo, muda de escola a meio do primeiro período. Para seu azar, chega precisamente durante as celebrações do Halloween, que Melissa detesta por lhe recordar tudo o que quer esquecer. Pior ainda, têm acontecido estranhos homicídios no campus, e Melissa descobre que vai ocupar a vaga no quarto (e dormir na cama) de uma rapariga assassinada. E não foi assassinada de qualquer maneira. Descobriram-lhe o cérebro todo picado, como se por agulhas, mas sem qualquer lesão exterior que o explicasse. Arrepiante!
À medida que os homicídios se sucedem, Melissa ouve o grito da banshee, criatura mitológica irlandesa conhecida por anunciar uma morte na família. Quem será o próximo? Estará Melissa realmente em perigo ou tudo não passa da sua imaginação, uma sequela do trauma que viveu?
Algo que me agradou bastante no conto foi a contextualização do Haloween como festa de origens pagãs, o que não costuma acontecer neste tipo de histórias mais viradas para os sustos gratuitos. Melissa conhece um entusiasta do Halloween (cá dos meus) que tenta explicar-lhe que o antigo Samhain não é apenas um “carnaval temático” (aqui estou a citar um amigo), e diz algo em que eu ainda não tinha pensado:
“But that’s what makes it so fun! Life is scary. Why wouldn’t we enjoy and make fun of that fear? Life is trying to make us fear it, and on this day we mock its attempts and say,” he puts his hands on my shoulders and shakes me. “No, not today. Today, I’m not scared of anything you throw at me.”
Bem apanhado. Nunca tinha pensado no Halloween nesta perspectiva.
“The Banshee Cries” é um conto Young Adult escrito em inglês que aconselho a quem gosta do Halloween, do sobrenatural, de banshees e de caçadores de bruxas. Infelizmente, é mesmo o aspecto Young Adult que não me permite gostar mais do conto, embora a história e as personagens revelem maior profundidade do que é costume neste Género. Ainda não o bastante para mim, todavia, que não sou o público-alvo. Será sem dúvida uma boa introdução ao universo começado pela autora no livro “Sombras”.
O conto pode ser adquirido em PDF e epub a partir daqui: patricia-morais.com/en/books/the-banshee-cries
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
“Correntes”, um conto de Patrícia Morais
Ada já tem problemas de sobra ainda antes de se cruzar com o sobrenatural. Vítima de violência doméstica, o seu grande objectivo é conseguir a custódia dos dois irmãos mais novos para os livrar dos maus-tratos de um pai desempregado e alcoólico que descarrega nos filhos as suas frustrações. Mas se a situação de Ada é má, as coisas ainda vão ficar piores. Crianças têm vindo a desaparecer na vizinhança e ninguém sabe o que lhes acontece.
O que gostei mais nesta história foi o lado humano. Todo aquele ambiente de violência doméstica é muito realista e eu já estava tão interessada no drama familiar que, por mim, não me importava que o conto nem envolvesse o sobrenatural.
Mas “Correntes” é um conto curto no género Fantasia Urbana / Sobrenatural / Young Adult, e é desta forma que deve ser lido. A acção é relativamente rápida e privilegiada em detrimento de um maior desenvolvimento dos personagens secundários (que me agradaria mais), mas a protagonista é bastante tridimensional. É muito fácil empatizar com esta personagem.
“Correntes” é uma história no universo da série começada por Patrícia Morais com “Sombras” e revela os acontecimentos que levaram Ada a ter contacto com a organização Diabolus Venator.
O conto encontra-se disponível a partir da página da autora: patricia-morais.com/livros
terça-feira, 4 de agosto de 2020
Patrícia Morais divulga método para escrever um livro em dois meses
Mas já tive oportunidade de ler um conto de Patrícia Morais, “The Roommate”, e fiquei muito curiosa. Embora o género principal seja o Young Adult, que como sabem não é o meu preferido, a história tem bastante de Sobrenatural/Terror light para me agarrar do princípio ao fim. Do que percebi de “The Roommate” e das outras sinopses, mas também não quero saber mais para não estragar a surpresa, existe uma organização de caçadores de demónios e bruxas (maléficas). Pareceu-me, no bom sentido, sentir influências de “Sobrenatural” e “Harry Potter”, com um ambiente a lembrar “Os Diários do Vampiro”. O conto que eu li promete, e estou à espera do “terceiro capítulo” da série principal para começar a puxar o fio à meada.
Como escrever um livro em dois meses
Para celebrar os 2000 seguidores no Instagram, Patrícia Morais está a fazer um live a revelar o método que utiliza para escrever o primeiro rascunho de livros de ficção. O live já começou, mas basta perguntar à autora e há maneira de acompanhar do princípio.
Parafraseando a Patrícia, eis aqui uma ideia para quem sempre quis escrever uma história e não sabe como começar. Já conheço o método (versões dele) e é utilizado por muitos escritores prolíferos.
Sociedade Autores Portugueses
A Patrícia Morais também andou a fazer uma coisa que eu acho imensamente meritória, traduzir dicas de escrita para português, algo que faz tanta falta por cá. Antes de encontrar as dicas dela, eu tive de as ler em inglês.
Recomendo a todos os interessados nestas coisas da escrita que subscrevam a newsletter da Sociedade Escritores Portugueses para irem recebendo as dicas, as publicações de novos autores em português, e outras informações interessantes. A newsletter é muito fácil de subscrever, basta adicionar o nosso email no formulário no fim desta página: Recursos para escritores
Aproveito para divulgar a Sociedade Autores Portugueses em geral, que tem muito para explorar. Destaco uma série de bloggers interessados em fazer beta reading e/ou críticas.
Livros
Para além destas coisas todas a Patrícia Morais ainda arranja tempo de escrever histórias! A lista completa está na página da autora, mas destaco os dois primeiros livros da série iniciada com “Sombras”, a tal de que falei no início do post:
“Sombras”
Lilly Ashton não podia imaginar vida mais perfeita que a sua, até à terrível noite em que tudo mudou.
A única maneira que encontra para sobreviver à tragédia é fazer o que sempre desejou: ser impulsiva.
Afasta-se de tudo e todos quando se muda para Jillian e decide estudar Folclore e Mitologia, mas depressa se encontra numa corrida para salvar a própria vida, ao descobrir que os monstros que se escondem debaixo da cama existem mesmo.
Para garantir a sua sobrevivência, junta-se a Diabolus Venator, a organização de caçadores de demónios daquela pequena cidade, onde conhece Liam, o misterioso jovem que a enfurece e surpreende todos os dias. Mas nem todos os que lutam com ela têm o mesmo objetivo, e o perigo que enfrenta pode ser maior junto dos que a rodeiam do que na batalha contra os demónios. Num mundo onde as lendas são reais, em quem poderá Lilly confiar?
“Chamas”
Diabolus Venator acaba de vencer uma importante batalha – a guerra está, porém, longe de ter terminado. Lilly e Liam são agora perseguidos por Claudius, sedento de vingança após a morte da mulher.
Louis tenta manter Lilly a salvo do irmão, mas um acidente faz com que reencontre alguns dos seus demónios, ao mesmo tempo que os sentimentos por Lilly se tornam mais intensos.
Enquanto é confrontada com monstros do seu passado e descobertas sobre quem verdadeiramente é, Lilly vê-se obrigada a escolher entre a amizade e o amor. Conseguirá ela salvar quem realmente importa?
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
NOS4A2 / Nosferatu
Ao contrário do que o título indica, não é uma série de vampiros. Também não é um anúncio à NOS [eheh, não resisti]. O título é um trocadilho como se usa nas matrículas americanas. Lendo as letras em inglês temos algo como NOS-four-A-two, que soa quase a “nosferatu”. Não é um trocadilho muito bom e na minha opinião é um daqueles títulos que parecem giros em teoria mas que na prática nos levam a pensar em tudo menos no tema da história. Eu pensei, sinceramente, das primeiras vezes que vi o título, que ia ser uma série de espionagem e que NOS4A2 era um código qualquer. ("NOS4A2" é um livro original de Joe Hill.) Felizmente tive curiosidade em perceber que raio significava aquilo porque a série é interessante. Mas na minha opinião é um título francamente mau, e daqui não saio.
Também é um título mau pela razão óbvia que já referi: não é uma história de vampiros, pelo menos no sentido tradicional. É uma história sobre pessoas com poderes psíquicos (a que a série chama “criativos fortes” e que eu também acho uma designação péssima, por isso aqui vou só chamar-lhes “criativos”) que podem ser usados para o bem ou para o mal. Charlie Manx, o vilão, usa os seus dons para fazer muito mal. Este “criativo” descobriu uma maneira de usar os seus poderes para viver para sempre: alimentando-se de almas de crianças, que, uma vez “sugadas”, se tornam uns monstros pálidos de longos dentes. Mas não vampiros, porque comem a carne das suas vítimas. Manx é que chama nosferatu a si próprio (a petulância!) ao usar o tal NOS4A2 na matrícula do carro. Manx é velho, muito velho. Nunca é dito ao certo mas dá a entender que tem pelo menos 100 anos, se não mais. E é um “criativo” mais poderoso do que todos os outros que já o tentaram travar até ao momento. Para começar, Manx criou um espaço ficcional, mas real (é preciso ver para compreender), chamado Natalândia (Christmas Land), que usa para atrair as crianças. Esta Natalândia, baseada em temas natalícios e fofinhos, é um local sinistro a lembrar o filme “Nightmare Before Christmas”. Ora, eu odeio o Natal e deu-me gozo. Aconselho vivamente a toda a gente que também odeia o Natal.
Charlie Manx tem outra ajuda sobrenatural, um carro com vida própria, tipo “Christine”, que aprisiona pessoas no banco de trás e se conduz sozinho. Este carro deve ser o elemento mais sinistro de toda a série. Penso mesmo que o “nosferatu” é o carro porque é dentro e através do carro que as almas são sugadas e o espírito vital é transferido para Manx. Por motivos que não são explicados, a vida de Manx está “ligada” ao carro e quando o carro é atingido Manx fica às portas da morte. Chatices de viver para sempre a qualquer custo.
Este vilão anda a raptar crianças há quase um século (isto é, tendo em conta a data de lançamento do carro, mas ninguém nos diz que ele não começou antes) quando desta vez leva uma miúda ligada a outra “criativa”, Vic McQueen, que decide fazer-lhe frente.
Por vezes esta série toca perigosamente na treta dos super-heróis, Super-Fulano que tem o poder de fazer X, Super-Fulana que tem o poder de fazer Y, mas felizmente não cai completamente nisto. A série mantém sempre um bom nível de cenas perturbadoras, algumas bastante inesperadas como aquelas que incluem Bing, o ajudante de Manx, e que me surpreenderam pela perversidade sexual digna de um “Pshyco” numa série que é praticamente Young Adult de terror e em que a maioria dos protagonistas é adolescente.
Para além do terror e do sobrenatural, a história segue o drama bem mais prosaico da jovem Vic McQueen, que por si só valia uma série de outro tipo. Vic é filha de pais pobres e separados, ele mecânico de motas, a mãe empregada de limpeza. O género de pais que casaram muito jovens por causa da gravidez acidental e que nunca ultrapassaram esse ressentimento de abdicarem dos seus sonhos. Vic quer ir para a faculdade mas é difícil libertar-se desse ciclo de pobreza. Por exemplo, quer pedir um empréstimo para estudar mas nem sequer tem declarações de rendimentos dos pais porque ambos são pagos em dinheiro para se esquivarem aos impostos. Desta forma, Vic não consegue provar a sua necessidade de apoio. Para se candidatar ao empréstimo tem de falsificar documentos. Identifiquei-me com os problemas dela e o final deixou-me com um sabor amargo. Afinal, Vic não teve de desistir dos seus sonhos por causa do sinistro Charlie Manx ou devido a motivos sobrenaturais, mas por sua própria culpa. E tive pena. Queria mesmo vê-la entrar na faculdade e quebrar o ciclo, mas no meio disto tudo ela perdeu de vista os objectivos.
“NOS4A2” nunca é uma série tão arrepiante como podia ter sido e nunca me conseguiu arrebatar, mas vê-se com prazer (ou inquietação, neste caso). O terror nunca nos assusta mas a história vale mais pela dimensão humana do que por qualquer pseudo-nosferatu.
Deixo uma última nota à maquilhagem e aos efeitos especiais, esses sim verdadeiramente excepcionais, que conseguem convencer-nos de que Zachary Quinto é mesmo um velho centenário. Também gostei do truque em que a rapariga enfia o braço no saco das peças de scrabble e o braço parece mesmo desaparecer lá dentro. Até chega a fazer alguma impressão. E gostei de todas as cenas em que Vic atravessa a ponte, de mota, com os morcegos a esvoaçar e a imagem a inverter-se no écran. O tipo de cena que nunca mais se esquece. Nem que seja só por estes pormenores, é uma série que merece ser vista. Mas sem demasiadas expectativas.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
A Morta, de Florbela Espanca
Ou não fosse Florbela Espanca, este é um conto em prosa poética. Os temas são os do costume nesta poetisa, o amor e a morte, e mais uma dose de morte.
Tal como em toda a prosa poética, apenas se pode interpretar o significado, e do que eu conheço da autora interpreto assim: a Morta morreu nova; durante uns tempos, o noivo foi visitá-la ao jazigo; por fim, o noivo deixou de visitá-la. Sentindo-se esquecida, a Morta levanta-se e vai-se “afogar”/”diluir” no rio, onde acabam todas as memórias. (Florbela conheceria o rio Lethes?... Na sua obra poética, Florbela menciona várias vezes a transmigração das almas/metempsicose/reencarnação, pelo que não é descabido interpretar este conto como mais uma referência a essa “morte” do eu antigo/renascimento pós-morte).
Florbela Espanca foi a autora mais gótica do nosso país antes de haver o movimento gótico. Lamento muito por ela não ter encontrado a sua gente. Talvez o suicídio tivesse sido evitado. Trágico destino de nascer antes do seu tempo. Como é que se conseguia ser gótico e viver naquele tempo de Avé-Marias e procissões, e de gente normal a martelar-lhe aos ouvidos que o problema estava nela? A solidão intelectual devia ser absoluta.
Isto é suspeito da minha parte porque eu adoro a autora, mas este foi um dos meus contos preferidos desta colectânea.
segunda-feira, 22 de julho de 2019
A Feiticeira, de Ana de Castro Osório
Esta é uma história de aldeia com personagens a condizer. Num cenário muito rural, existe um rapagão considerado o melhor partido da terra, o Manel da Clara, que “tem alguma coisa de seu, e no fundo não é mau rapaz”.
Este tal Manel está dividido entre duas pretendentes, a pálida e frágil Teresinha, que “era afilhada da fidalga e lá pelo palácio se tinha criado com mimos e delicadezas que as outras não conheciam. Era com uma graça toda senhoril que punha os olhos no chão e enrubescia como romã bem madura quando ele a fitava de frente, bem de frente, como fazia às mais, sem conseguir com isso chamar-lhes o sangue ao rosto, mas fazê-las explodir em jucundas gargalhadas. O seu andar lento e ondulado dava um realce de elegância exótica ao seu corpo delgado de anémica, flor tristemente desabrochada entre paredes sombrias e velhas coisas impregnadas da melancolia dos tempos passados. Como era a única que na terra sabia ler, eram também os seus os únicos olhos que na missa se não levantavam do livro para andarem em leilão pela igreja à procura dos rapazes, que lá de longe, e de soslaio, não perdiam o grupo buliçoso da raparigada”, e a robusta Maria do Próspero, que “era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fora brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A boca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras, e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delícia no pão de milho, sua única escova. As saias, rodadas em balão, faziam-lhe mais altas as ancas já de si redondas e fortes; o cabelo, em duas tranças pregadas, enchia-lhe a cabeça como uma touca de veludo negro. Quando punha o cachené vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o xale em bico traçado deixando livre o braço esquerdo, a chinela branca pespontada na ponta do pé, nenhuma como a Maria do Próspero para arrebanhar admiradores. Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expansão dos seus vinte anos sadios, vividos em plena natureza.”
Esta tal Maria, mais extrovertida, está a conseguir avanços no coração do Manel que a tímida Teresinha não alcança. A tia da Teresinha, que faz muito gosto no casamento, queixa-se à Gertrudes Zarolha que o Manel não se decide a declarar-se à Teresinha. A Gertrudes Zarolha oferece ajuda através de umas mezinhas de bruxa de aldeia:
“— Deixe estar, deixe estar... Eu sei cá umas coisinhas que hão-de voltar o Manel, oh se hão-de!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e dizia a oração... É coisa certa.”
O Manel, em noite que vinha da feira, depara-se então com um Sabat onde nem faltava “o Diabo passeando altivo, vestido de encarnado e de chapéu guizalhante, poisando os pés de forquilha sobre as cabeças das feiticeiras, que riam sarcasticamente”. Entre as feiticeiras, Manel vê a Maria do Próspero, e “E quando a viu chegar ao pé do homem vermelho, estender-lhe os fortes braços roliços e trigueiros, abraçá-lo com ardor, não pôde reter um surdo grito de raiva.” Horrorizado, nunca mais lhe fala e casa antes com a Teresinha.
Mas aqui é que está a parte mais difícil de perceber. Parece que ele não viu a Maria do Próspero. Esta nega tudo quando é confrontada. Mas, caída em desgraça, perde o gosto pela vida e torna-se um fantasma de si própria, questionando-se mesmo se afinal é de facto a bruxa que a acusam de ser.
Este conto peca pela falta de desenvolvimento. Havia aqui o suficiente para um romance, com personagens bem desenvolvidas, maior imersão no pano de fundo da vida na aldeia, maior aprofundamento psicológico dos protagonistas, pistas que nos levassem a perceber que se passa mesmo algo de sobrenatural. Afinal, esta Gertrudes Zarolha tem pacto com o demo, ou, no mínimo, tem poderes suficientes para invocar a imagem de um Sabat na mente do Manel, e até de o fazer ver a Maria no Sabat, e isto é tratado como se nada fosse?... Assim parece um conto escrito a correr, sem ter o desenvolvimento que merece. No pior dos casos, soa-me a coisa escrita por senhora da alta sociedade a gozar com as superstições (e a linguagem, e o modo de pensar, e a “vidinha”) do povo ignorante, porque é “himalaias de giro” observar a gentinha. E isto irrita-me muito. Se calhar não era a intenção da autora (raramente é) mas foi o que chegou até mim.
O conto tem uma temática gótica o bastante mas falha na execução.
domingo, 23 de dezembro de 2018
Midnight, Texas
[crítica à primeira temporada]
Sobrenatural, vampiros, sangue, sexo tórrido. Era o que eu esperava de “Midnight, Texas”, série baseada na colecção homónima de Charlaine Harris, autora dos livros que deram origem a “True Blood”. Nem acredito que estou a dizer isto, mas a “Midnight, Texas” talvez falte mesmo o sexo tórrido para a acção abrandar. Tudo acontece a um ritmo tão alucinante que nem temos tempo para conhecer devidamente os personagens, muito menos envolvermo-nos com eles.
Por exemplo, a história de Manfred, o protagonista. Um verdadeiro médium, mas também capaz de “aldrabar” os seus dons para agradar a clientes ricas. Por causa de uma dívida contraída para pagar os tratamentos da avó com cancro, é obrigado a fugir para a pequena terriola de Midnight na esperança de escapar ao credor. Este credor promete ser um vilão terrível, mas afinal dão conta dele num só episódio. Tudo é assim em “Midnight, Texas”. A série é uma sucessão de monsters-of-the-week e tudo se resolve no próprio dia. Fez-me pensar que se calhar queriam rivalizar com “Sobrenatural”, mas a diferença é que em “Sobrenatural” os personagens são extraordinários: interessamo-nos por eles, sofremos por eles. Em “Midnight, Texas” mal os conhecemos. Nem parece haver muito para conhecer. Todos os personagens são bidimensionais.
Há o vampiro bonzinho, Lemuel, um antigo escravo que encontrou a liberdade no vampirismo. Esta podia ser uma história boa e dramática, mas não merece mais do que cinco minutos de flashback.
A outra fulana (a Lexi de “Diários do Vampiro”, mas nesta série nem lhe consegui fixar o nome), assassina profissional com um passado pesadíssimo, também nunca é desenvolvida a esse nível.
Depois temos o Reverendo, que é um tigromem. (Lobisomem, mas em versão tigre.) Este deve ter uma história bem interessante, se alguma vez a conhecermos.
Entretanto há também um casal gay, ele um anjo e ele um demónio, e amam-se. Mais outra história fofinha de que nunca conhecemos nada. Eu ia adorar assistir a como é que estes dois se apaixonaram e decidiram assumir um amor tão proibido.
E finalmente temos a bruxa Fiji, cujo gato é um familiar (espírito familiar) que fala. O gato é o meu personagem preferido. Nem querem imaginar a minha raiva quando em certo episódio decidiram sacrificar o gato. Sim, é verdade que foi o gato que pediu que o sacrificassem num acto altruísta e heróico, e que este não é um gato “normal”, mas com a ignorância e a maldade que ainda existem neste mundo preferia não ver estas atrocidades em obras de ficção. Felizmente, por qualquer razão que não fez sentido nenhum, o sacrifício não matou o gato. Pelo menos isso.
Tirando estes personagens “sobrenaturais” e/ou complicados, existem os normais. E os normais ainda são menos interessantes do que os outros e nem merecem que os mencione.
O verdadeiro enredo da série, afinal, não é a dívida que levou Manfred a Midnight. Midnight é daqueles locais em que o “véu” entre este mundo e o outro é mais ténue, e este véu está a ficar cada vez mais fino. O anjo prevê que quando este véu se romper o inferno passará através dele para reinar na terra. (Um enredo muito “Sobrenatural”.) Mas existe uma profecia, de que apenas um homem que fala com os vivos e os mortos pode deter o inferno. Este é Manfred, e esta é a verdadeira razão da sua presença em Midnight.
Contado assim até parece interessante, mas deviam ver o demónio medíocre que aparece em representação do inferno. Se calhar sou eu que estou mal habituada. Já vi tão melhor!
Se ao menos as personagens fossem profundas e cativantes a série ainda se aproveitava. Não basta deitar lá para dentro um sortido de criaturas sobrenaturais e julgar que basta. Não basta. É preciso que nos interessemos por elas. Se a série acabasse agora nunca mais pensava nesta gente.
“Midnight, Texas” é uma série para ver sem interesse nem expectativas. Daquelas que servem para olhar para a televisão e pensar noutras coisas. Para ser muito sincera, nem percebo como é que foi renovada.
Do mal o menos, resta-nos François Arnaud (César Bórgia de “Os Bórgias”) que me levava para todo o lado se eu tivesse a idade dele. Mal empregado neste papel.
sábado, 20 de outubro de 2018
Ugetsu / Contos da Lua Vaga (1953)
O cinema japonês clássico é uma das minhas paixões “secretas”. Não sei explicar porquê. Talvez porque são sempre relatos de crueldade e servidão em que a sensibilidade sobressai de forma mais pungente do que nos filmes ocidentais. Uma sensibilidade muito japonesa que ainda se nota nos filmes modernos, até nos de terror.
Tenho a certeza de que já tinha visto “Contos da Lua Vaga”, filme de Kenji Mizoguchi de 1953. (Recordo-me de um ciclo de cinema japonês que passou na RTP2 há muitos anos, em que vi bastante filmografia da época.) Deve ter sido há demasiado tempo para lembrar e voltei a ver. Não me arrependi.
Não são filmes para toda a gente. Quem não conseguir abstrair-se do preto e branco e da actuação exagerada dos actores (como se estivessem no teatro), ou quem não conseguir “entrar” na cultura que serve de pano de fundo, dificilmente gostará do género. Nada aqui é Hollywood, e ainda bem.
“Contos da Lua Vaga” é um filme moral sobre a ambição e a ganância. Genjuro é um camponês pobre e humilde, casado e pai de um filho pequeno, que vive num casebre contíguo ao da sua irmã, Ohama, também casada com Tobei, igualmente camponês. A acção passa-se no século XVI, durante uma guerra civil. Genjuro domina a arte da olaria e aproveita a passagem dos exércitos para vender os seus trabalhos no mercado. Faz tanto dinheiro que nunca mais pensa nutra coisa. Por seu lado, o cunhado Tobei mete na cabeça que quer ser um samurai porque não quer ser pobre toda a vida. Ambas as esposas advertem contra a ambição em demasia mas, apesar dos riscos que correm em tempo de guerra, aceitam acompanhar Genjuro ao mercado para venderem mais olaria.
Fazem o caminho de barco, para evitarem os exércitos que andam a pilhar as aldeias, mas o rio também não é livre de perigos. Depois de avisados de que existem por ali piratas, Genjuro deixa a mulher e o filho em segurança, na margem do rio, e continua a viagem. Tobei e Ohama seguem com ele.
No mercado, fazem grande sucesso. A olaria de Genjuro é magnífica. Genjuro sonha em comprar sedas para presentear a sua esposa mas Tobei pega na sua parte e vai comprar uma armadura e uma lança que lhe permitam entrar ao serviço de um senhor da guerra. Ohama vai atrás dele, mas não o encontra. Perdida em terreno desconhecido, é emboscada por soldados que a violam. A cena da violação, que não se vê, é um dos exemplos desta sensibilidade nipónica de que falava a início. Ficamos na dúvida do que acontece, mas as dúvidas são esclarecidas quando um dos soldados lhe atira dinheiro como despedida. Acrescentado, ao abuso, injúria.
Entretanto, no mercado, Genjuro é abordado pela nobre dama Wakasa e sua aia que lhe fazem uma grande encomenda a ser entregue na casa senhorial. Quando Genjuro lá chega as coisas ficam estranhas. A dama Wakasa começa a seduzi-lo com cortesias e cantigas de requinte nobre e Genjuro não tem força para resistir. A aia ajuda-o a perceber o que tem de fazer: casar com Wakasa, imediatamente. Enfeitiçado, Genjuro esquece a mulher e o filho e fica sob o domínio de Wakasa. Nem repara, ao entrar na casa, que a entrada parece completamente abandonada. Sim, é uma casa assombrada. Wakasa, a aia, até as criadas, são todas fantasmas.
Entretanto, Tobei consegue tornar-se um homem importante ao serviço de um samurai. A sua única intenção é voltar a casa, para mostrar à mulher Ohama como está rico e prestigiado. Pelo caminho, os vassalos pedem-lhe que pare e descanse num bordel do caminho. Onde encontra Ohama, forçada à prostituição agora que ficou destituída de tudo pelos exércitos inimigos.
Ainda sob o efeito de Wakasa, Genjuro vai fazer mais compras para o seu novo lar quando encontra um sábio que o alerta. Incrédulo, descobre que todo o clã de Wakasa foi morto por inimigos e que a sombra da morte paira sobre ele também a não ser que fuja daquela assombração. Genjuro não consegue afastar-se do seu amor fantasma, mas permite que o sábio o exorcize. Quando ele regressa à casa senhorial, Wakasa está mais determinada do que nunca em levá-lo dali, agora que o considera seu marido, para a sua “terra natal”. Mas desta vez Genjuro está protegido do encantamento graças ao exorcismo que recebeu.
Não vou contar o fim. É digno de se ver e reserva ainda muitas surpresas. Os amantes do sobrenatural e do terror vão certamente gostar deste filme.
Para mais informações sobre o filme, em inglês, podem consultar o título original, Ugetsu.
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