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domingo, 10 de maio de 2026

The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?) [terceira temporada]

[não contém spoilers relevantes]

Adorei esta temporada de "Daryl Dixon"! Há muito tempo que não podia dizer isto de uma spin-off de "The Walking Dead", mas "Daryl Dixon" está a conseguir atingir os objectivos e a divertir os espectadores, e não sou só eu que o digo.
No início, o original "The Walking Dead" pretendia não ser simplesmente mais um filme de zombies para rir e entreter. A série ambicionava ser realista, dramática, filosófica e profunda. E nas primeiras temporadas até conseguiu, muito embora alguns fãs apenas quisessem mais um filme de zombies com muita acção, só para entreter, e tenham chamado telenovela a "The Walking Dead". A série começou a descarrilar quando tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo para agradar a gregos e troianos, o dramático e o acéfalo, e a certa altura decidiu sacrificar o realismo também, primeiro o realismo dramático e logo a seguir o realismo da acção propriamente dita. Isto deu-nos cenas deploráveis como, por exemplo, o tiroteio com Negan, em que apesar da escassez de munições, estabelecida pelo próprio universo da série, houve balas com fartura. Sacrificando a profundidade dos personagens e sacrificando o realismo que o próprio universo estabeleceu, a certa altura já não se aproveitava nada. Até podiam ter metido ali Godzilla sob o pretexto "é uma série de zombies, nada disto é real, vale tudo". Na estrutura interna de uma história não vale tudo; só vale o que o universo ficcional permite. A franchise levou o absurdo ao limite com "Fear The Walking Dead", em que só não apareceu Godzilla porque não calhou, mas houve uma guerra nuclear e uma radioactividade selectiva que só afectava os personagens que dava jeito eliminar.
"Daryl Dixon" também se move nos limites da credibilidade, mas não os ultrapassa de tal forma que não nos convença a acreditar que talvez, se calhar, com muita sorte, Carol até podia ter voado para França em pleno apocalipse zombie.
Na terceira temporada, "Daryl Dixon" abraça o género de aventura e acção de corpo e alma. Os personagens não são bidimensionais, mas o dramatismo ficou definitivamente em segundo plano, e mesmo assim eu gostei e aplaudi. Daryl Dixon num duelo de motas, Daryl Dixon a assaltar um comboio, Daryl Dixon a matar um super-zombie com a bandeira de França (esta é da primeira temporada mas serve como exemplo). Às vezes o despretensiosismo é o melhor remédio e a terceira temporada assumiu-se abertamente como um "western spaghetti". E não é que funciona?


Era uma vez na Galiza
Carol e Daryl chegam à Inglaterra, onde quase toda a gente morreu. O único sobrevivente que encontram, convenientemente, tem um veleiro, e conseguem convencê-lo a levá-los de regresso à América. Mas o único sobrevivente mal sabe velejar. Todos decidem correr o risco e acabam naufragados na Costa da Morte, ali em cima na Galiza.
Ora bem, isto não é Espanha, nem a Espanha actual nem a Espanha passada. Isto parece mais o México com uma pitadinha de sabor local aqui e ali, como os trajes de festa que podem ter vindo de um rancho folclórico minhoto, ou a paisagem ou a arquitectura, ou os candeeiros de rua. Mas se começarmos logo por encarar isto como "Espanha alternativa cruza-se com Mad Max" gostamos muito mais. E a série ajuda-nos a querer acreditar, que é o mais importante.
Daryl e Carol descobrem uma povoação onde se desenrola um amor de Romeu e Julieta. Roberto e Justina são dois jovens que se amam, mas a povoação está sob o controlo de um chefão, servidor do rei de Espanha (não o verdadeiro), que exige o tributo de uma rapariga todos os anos. As raparigas são requeridas para ser casadas com homens importantes ou simplesmente para servirem como criadas. (Aqui, confesso, ao ouvir falar em La Ofrenda, pensei em coisas muito piores.)
As raparigas são seleccionadas através de uma corrida de porcos. (Na Espanha deviam ser touros, mas imagino que isso ia exigir bastante à produção e que muita gente não ia gostar das implicações com touradas, a começar por mim.) Justina é seleccionada e levada para o palácio do rei. A princípio Daryl não se quer meter no assunto, e com alguma razão, mas Carol insiste em resgatar Justina. Entretanto, Daryl e Carol conhecem mais pessoas capazes de velejar, incluindo outro americano que também quer regressar a casa, e só pretendem ficar na povoação até partirem. Mas o envolvimento no resgate de Justina vai levar Daryl por paisagens inóspitas que podiam ter saído de Mad Max, e são aventuras atrás de aventuras: o duelo, o comboio, uma comunidade de leprosos, um teatro de marionetas zombies que me lembrou muito o Teatro dos Vampiros.
Outro apontamento interessante é que a povoação é atacada por um grupo auto-intitulado Os Primitivos, uma espécie de seita niilista que usa máscaras de caveiras de animais chifrudos e quer destruir tudo o que sobreviveu ao apocalipse. Depois de dar algumas voltas à cabeça, lembram-me os Caretos do Entrudo Chocalheiro de Podence, versão pós-apocalíptica. Desconheço onde é que a série se inspirou.

Até sem enredo era bom
Pergunto-me, porque é que eles querem voltar para a América? Daquilo que já vimos, está-se muito melhor na Europa. Sim, existem zombies em todo o lado, e há escassez em todo o lado, mas as coisas deste lado do Atlântico são muito mais civilizadas e pacíficas. Li algumas críticas de americanos que se questionavam exactamente sobre isto. Voltar para quê? Mas acho que todos queremos sempre voltar a casa, não é? É humano.
No entanto, Carol arranja um namorado em Espanha e Daryl receia que o seu desejo de partir à procura de alguma coisa, precisamente o que o colocou nesta situação, não deixe de se manifestar seja onde for. Esta temporada não é forte em temas dramáticos mas temos flashbacks de Merle, o irmão mais velho de Daryl, quando eram crianças. Dá a entender que Daryl está a tomar consciência dos traumas que o fazem deambular de um lado para o outro quando no fundo está a tentar fugir de si mesmo.
Eu julgava que esta seria a última temporada e, confesso, fiquei muito contente quando percebi que ainda não acabou.
"Daryl Dixon" continua a ser uma série que se vê só pelo cenário. Temos Londres e Barcelona pós-apocalipse, temos paisagens deslumbrantes da Costa da Morte, temos o Real Alcázar de Sevilha (com uma arquitectura e decoração árabe tão Mil e Uma Noites que a câmara deu a volta ao salão todo), temos a vila de Sepúlveda. Voltar à América? Não, não. Por esta altura até só quero ver mais aventuras de Daryl e Carol pela Europa toda, em Itália, na Grécia, na Alemanha, na Roménia, nos países nórdicos, onde puder ser.
E, é claro, ia adorar ver zombies no nosso cantinho: zombies no Terreiro do Paço, zombies nos Jerónimos, zombies no Bairro Alto. E para não dizerem que só falo de Lisboa, estou completamente convencida de que a Torre dos Clérigos dava uma batalha épica de zombies. É só ir lá e percebe-se porquê.

❗OFEREÇO-ME COMO FIGURANTE❗

Zombies
Se há uma coisa que a franchise "The Walking Dead" sabe muito bem é que os espectadores estão aqui, principalmente, pelos zombies. Estamos tão "mal habituados" a zombies espectaculares em todos os episódios que quase nos esquecemos de que isto dá trabalho, custa dinheiro, e, acima de tudo, exige uma criatividade formidável. Admiro a inventividade da equipa que constantemente tenta criar zombies diferentes, adaptados ao cenário, à natureza, e até à cultura de cada local, bem como maneiras originais de os matar. Isto não é pequena proeza se tivermos em conta a longevidade da série. Nesta terceira temporada há zombies submarinos, zombies a arder e zombies-marionetas. Mas o que me surpreendeu mais foram as duas cenas em que tanto Daryl como nós, veteranos do apocalipse, nos questionámos por momentos se estávamos a ver zombies ou outra coisa. Não esperava que uma franchise com 16 anos de existência ainda nos conseguisse criar esta sensação de alarme e sobressalto.


Se a próxima temporada correr tão bem, ou superar, esta foi a melhor spin-off a sair de "The Walking Dead".
Por último, um spoiler não relevante mas interessante: Daryl Dixon mata o zombie do rei de Espanha. Isto, na cultura europeia, é significativo. Quem mata um rei é uma de duas coisas: um condenado à morte, se lhe correr mal, ou o novo rei, se lhe correr bem. Simbolicamente, Daryl Dixon já conquistou uma coroa. Por outra perspectiva, a série está a abordar o tema que "The Walking Dead" tem explorado desde o início. Num mundo pós-apocalipse, em que as estruturas da sociedade desmoronaram há muito tempo, qualquer zé-ninguém pode matar o zombie do rei de Espanha sem consequências.
Foi engraçado, porque o sobrevivente inglês também refere que actualmente se pode ir ao palácio de Buckingham e dormir na cama da rainha, e, com alguma sorte, se pode encontrá-la a deambular, zombificada, pelos corredores. Outra maneira de dizer a mesma coisa.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, pós-apocalíptico


domingo, 4 de janeiro de 2026

The Walking Dead: Dead City (2023 - ?) [segunda temporada]


Continuam as aventuras de Maggie e Negan em Nova Iorque. No continente, a federação autoritária Nova Babilónia pretende invadir Manhattan para obter a produção de metano. Em Manhattan, os líderes do gangue mais poderoso querem que Negan chefie a defesa contra Nova Babilónia. Maggie é recrutada à força por Nova Babilónia para lutar contra Manhattan.
Como já aqui disse algures, de todas as spin-offs de "The Walking Dead" esta era aquela que acreditava menos que pudesse resultar, porque Maggie e Negan juntos prenunciava que se matavam um ao outro no primeiro episódio, mas enganei-me. Continuo a preferir "Daryl Dixon" por várias razões, mas "Dead City" surpreendeu-me. A primeira temporada foi muito boa, principalmente a nível do world building. Nunca tínhamos visto Nova Iorque depois do apocalipse zombie e a série deu-nos uma imagem muito nítida da devastação e abandono. A nível dramático também fiquei agradavelmente impressionada. A relação de Maggie e Negan tornou-se mais complexa, mais densa, mais imprevisível, e tudo de modo natural, sem ser forçado. Conhecendo a história entre os dois, isto não é pouca proeza!
Esta segunda temporada não é tão boa como a primeira mas a premissa continua a ser sólida. Num mundo pós-apocalíptico em que vale a lei do mais forte, tanto Nova Babilónia (que quer restaurar o país ao que era dantes) como os líderes dos gangues de Nova Iorque, quase todos, são vilões implacáveis. Ambos os lados são malvados e só estamos a torcer para que morram depressa. Nova Babilónia é uma federação que agrega várias comunidades obrigadas a "agregar-se". Para esta guerra pelo metano, recrutam pessoas à força e enforcam os "desertores" a torto e a direito, até num mundo em que a mão-de-obra não é exactamente abundante e em que as pessoas são necessárias para produzir comida. Os vilões de Nova Iorque também são maus como as cobras. Sabendo quem era Negan, querem obrigá-lo a ser o mesmo líder sanguinário do passado e até lhe arranjam uma nova Lucille. Negan recusa, mas os seus captores ameaçam-lhe a família, esposa e filho. Maggie, do outro lado, também é forçada a colaborar para poupar a sua comunidade.
O maior problema desta temporada é que os vilões são efectivamente de banda-desenhada, são maus porque sim. Isto é a spin-off a cair nos mesmos erros da série original, outra vez, depois de uma primeira temporada mais promissora. Na mesma senda, se a primeira temporada conseguiu humanizar Negan (como nem a série principal conseguiu), aqui esse desenvolvimento de personagem está comprometido. Negan aceita assumir o papel de líder brutal e impiedoso para salvar a família mas, quando finalmente eles estão perto, de um momento para o outro, decide que afinal ele é "mau para eles" (e com razão) e manda-os embora. Até compreendo o que se queria conseguir, mas isto foi demasiado abrupto e mal vendido. 
Maggie também muda de ideias de um instante para o outro de forma a roçar o implausível e a recordar "Fear The Walking Dead". De igual modo, Hershel, filho de Maggie e Glenn, é um adolescente "naquela idade" rebelde, mas o que ele faz aqui já entra no campo da burrice. Crianças e adolescentes a agir estupidamente foi outro dos problemas da série original. Uma vez é normal; sempre é demais. A própria Maggie, como mãe, está a ser muito mole. O puto ainda tem idade de levar umas estampilhas e até as merece. É agora ou nunca, e Maggie até sabe disso porque teve um pai muito sábio mas muito rígido e isso só lhe fez bem.
Em suma, as personagens estão a começar a agir ao contrário das suas personalidades estabelecidas e isso é um grande problema em termos de coerência e até de narrativa. Negan não podia ter mandado embora a mulher e o filho porque tudo o que ele fez nesta temporada foi na tentativa de voltar para eles. Maggie não tinha razões para ficar em Manhattan tanto tempo quando já poderia ter regressado a casa. Reduzir a inteligência e manipular as motivações dos personagens consoante interessa às reviravoltas do enredo é um insulto para os personagens e para os espectadores. "Dead City" está neste momento perigoso em que ainda não escorregou totalmente por ali abaixo mas ameaça derrapar. Seria pena, porque isto até estava a correr bem. Tendo em conta o nível de qualidade a que "The Walking Dead" caiu, "Dead City" foi uma boa surpresa e eu não queria que acabasse mal.
Quanto aos momentos positivos, a segunda temporada continua a apostar no world building. Os militares de Nova Babilónia vestem-se a lembrar um western ou um exército dos tempos da Guerra da Independência, um dos vilões de Manhattan parece um aristocrata do século XIX e outro parece um personagem de "A Guerra dos Tronos". Isto é demasiada Fantasia, e muito conveniente para fazer "bons bonecos", mas consegue ser engraçado. Afinal, pelo menos que o apocalipse zombie sirva para que as pessoas mandem a moda às urtigas e se vistam como bem lhes apetece. Se todos os problemas de "Dead City" fossem estes!
Outra coisa de que gostei. O Central Park está transformado num matagal tipo selva e cheio de zombies e animais selvagens que fugiram do jardim zoológico. Isto é aproveitado e até podia ser mais, mas compreendo que não o tenham feito. As pessoas que gostam destas séries estão aqui pelos zombies, não é para ver animais a atacar pessoas e pessoas a matar animais.
Também aprendemos que as melhores iguarias de Nova Iorque são baratas, ratazanas e cobras (?). Foi muito bem apanhado, sim senhor.
E só desta vez reparei que a Estátua da Liberdade não está apenas danificada por causa dos bombardeamentos, também ela parece um bocadinho zombificada. Óptimo pormenor do genérico.
O último episódio tem momentos muito tensos que só não são convincentes porque já sabemos que vai haver mais temporadas. Eu esperava outro desenvolvimento de Maggie e Negan, mas não fiquei insatisfeita porque a ideia principal foi lá parar também. 
"Dead City" ainda se recomenda pelo world bulding, pelos cenários de uma Nova Iorque deserta e em ruínas, e pelos zombies. (Esqueci-me de falar nos combates de zombies, que acabaram por ser mais interessantes do que pareciam.) Mas "Dead City" está no estado periclitante de uma spin-off a ficar sem ideias e a tentar encher chouriços. Neste momento, uma terceira temporada poderá ser muito boa ou muito má. Há muito tempo que não dizia isto de um produto "The Walking Dead", mas a esperança não está perdida. Mesmo assim, cenário por cenário, continuo a preferir "Daryl Dixon".

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies

Nota: Estava a ver isto no AMC e fiquei chocada com a quantidade de anúncios de sites de apostas online e produtos de barbear dirigidos a um público jovem e masculino. Sinto-me discriminada. Onde é que estão os anúncios aos champôs, aos cremes, aos detergentes? Há donas de casa a ver isto que querem conhecer o novo detergente da louça 1000 vezes mais desengordurante e tão eficaz como Lucille. Não me lembro de "Daryl Dixon" ter anúncios tão dirigidos ao público masculino, o que significa que Daryl Dixon é encarado pelo mundo da publicidade como um sex symbol masculino, mas Negan será encarado como um action figure só apreciado por homens? Mas Maggie não é também um exemplo de mulher durona? Serei a única mulher a ver isto? Agora fiquei com problemas existenciais que não sei resolver. Quem sou eu? Onde pertenço? Serei normal? Se não sou normal, o que sou? Serei real? Será que existo? Quero anúncios para mim, se faz favor.


domingo, 28 de setembro de 2025

The Walking Dead: Daryl Dixon - The Book of Carol [segunda temporada]

[não contém spoilers relevantes]

Em França, Daryl e Isabelle continuam a proteger Laurent de uma dupla ameaça. Carol descobre o paradeiro de Daryl e atravessa o Atlântico de avioneta para ir ter com ele.
Vou ser muito honesta, nunca pensei que Daryl Dixon em França resultasse. A primeira temporada foi surpreendente e, na minha opinião, melhor do que o original estava a ser há muitos anos. Esta segunda temporada não foi tão boa como a primeira (especialmente por causa do enredo de Carol) mas aconteceram muitas coisas interessantes.
Os dois primeiros episódios são mauzinhos. O primeiro episódio é tão mauzinho que me lembrou o pior de "Fear The Walking Dead", que nas últimas temporadas eu só via para rir. O problema era pôr Carol em França, uma vez que era suposto que Carol estivesse nesta spin-off desde o início, mas não foi possível. E a maneira como isto é feito é risível. Carol anda à procura de Daryl. Em questão de dias, encontra quem lhe diga que Daryl foi levado para França e logo de seguida descobre um homem que tem um avião. Este tipo, Ash, não só tem um avião como tem combustível com tanta fartura que se dá ao luxo de dar uma volta de avião de vez em quando, em lazer. Sabemos mais tarde que já passaram 12 anos desde o apocalipse e que Ash tem andado de avião este tempo todo sem que apareça ninguém para o incomodar, num mundo em que as pessoas se matam por meia dúzia de rabanetes...

Mau começo
Carol tem de persuadir Ash a dar-lhe boleia para França, e para isso faz uma coisa terrível. Quando sabe que Ash ainda está a fazer o luto de um filho que perdeu, diz-lhe que a sua filha Sofia estava em França quando o apocalipse aconteceu e que poderá ainda estar viva. Nós já sabemos que Carol mente que se farta, mas uma mãe usar a memória de uma filha morta para manipular alguém, sem ser por razões de vida ou morte, é de uma mãe que não sofre com a memória. Mais tarde, Carol diz que usou a mentira para ser "convincente", mas acho que nem a própria actriz Melissa McBride ficou convencida porque não conseguiu convencer-nos. Isto foi muito mal feito. Por outro lado, e isto já foi mais bem feito, durante esta temporada Carol tem de confrontar-se com o trauma de perder Sofia. Pode parecer tarde, tantos anos passados, mas faz sentido. Carol é o tipo de pessoa que enfia a cabeça na areia em vez de lidar com os problemas e que, de certa forma, mente também a si própria. É natural que o trauma aparecesse para a assombrar mais tarde ou mais cedo. Eu admito que isto me trouxe lágrimas aos olhos. A morte de Sofia foi um dos momentos mais chocantes de "The Walking Dead" e nunca houve oportunidade de lhe fazer o luto como devia ser. Gostei muito que esta temporada tivesse dedicado tempo dramático ao assunto. Carol está a tornar-se uma personagem muito antipática, era altura de lhe devolver a humanidade que foi perdendo.
Mas de volta à acção, Carol e Ash preparam-se para partir. A minha questão foi: como é que aquele chaço velho vai atravessar o Atlântico? Não fui a única a questionar-se e alguém até foi perguntar ao ChatGPT se a viagem seria possível. O ChatGPT é mais optimista do que nós humanos e responde "possível, mas improvável". Nós humanos sabemos o que o ChatGPT não sabe, que tudo o que pode correr mal tende a correr mal. Ash e Carol só fazem uma paragem na Gronelândia (onde acontecem outras coisas interessantes, se bem que um bocadinho absurdas) quando deviam ter parado mais vezes para reabastecer, e isto sem contar com o pormenor de que não fazem ideia de onde reabastecer nem do que os espera. Esta viagem de avião podia ter sido uma aventura épica para ser credível, mas aqui até estou disposta a dar um grande desconto: não era essa a história, era preciso levar Carol para França o mais depressa possível, foram tomadas liberdades. A questão é mais: trazer Carol para a história desta maneira valeu a pena?
Lamento muito dizer isto mas acho que a história estava a correr melhor sem a Carol. Não sei se o problema foi o enredo ter sido planeado para Daryl sozinho (porque Melissa McBride não pôde estar no início) e tiveram de meter a Carol às três pancadas. Pareceu-me tudo muito forçado, começando no momento em que Carol decide ir para França só porque um marmanjo qualquer lhe disse que Daryl estava lá. Tudo o que acontece a partir daí foi "martelado" e conveniente. Basta dizer que Carol encontra Daryl em questão de dias, num continente diferente, durante o apocalipse zombie. Isto foi mauzinho, mas a série melhora bastante passando estes dois primeiros episódios.

Horrores do mundo real
Em França, o exército Pouvoir des Vivants continua a perseguir Laurent, um rapaz considerado por um movimento religioso, a Union de l’Espoir, como um novo messias. Nesta temporada descobrimos que os dirigentes da Union de l’Espoir também não são bons. Laurent é considerado um milagre porque nasceu de uma mãe zombie e é julgado imune ao vírus zombie, não por qualquer motivo científico mas apenas pela fé cega. Na temporada anterior assistimos ao nascimento. A mãe morreu no parto, transformou-se, e o bebé foi-lhe retirado, nada mais que isto. Os líderes da Union de l’Espoir querem submeter Laurent a uma cerimónia onde é mordido por um zombie para provar que é imune e "enviado por Deus". 
(Esta ideia já tinha sido abordada em "Fear The Walking Dead", em que o líder de uma comunidade era reverenciado por ter sobrevivido à dentada de um zombie, mas afinal não era uma dentada de zombie e era tudo uma falácia alimentada pelo próprio para "manter a ordem" no caos.)
Ou seja, Daryl e Isabelle passaram a primeira temporada a levar Laurent para uma armadilha. Agora estão todos dentro da armadilha e o Pouvoir des Vivants também anda atrás deles. Nesta temporada compreendemos melhor as razões do Pouvoir des Vivants, mas se uns são fanáticos religiosos os outros são fascistas. São todos maus e todos querem, no fundo, manter o poder sobre os seguidores. Até há algumas "bocas" políticas sobre a realidade actual que não costumavam aparecer em "The Walking Dead". Gostei, não estava à espera.
Também gostei dos paralelismos entre o Pouvoir des Vivants e os nazis, totalmente explícitos nesta temporada. Há uma cena arrepiante em que os prisioneiros são separados e transportados em camiões diferentes consoante o seu "valor" e o seu "fim". O cenário de França ajuda a invocar estes fantasmas.

Dépaysant
Por falar em cenário de França, uma das palavras de que Daryl gosta muito é "dépaysant", que significa algo como mudança de ares que faz uma pessoa ver as coisas de maneira diferente. Este spin-off teve esse efeito positivo no universo The Walking Dead. Continuo a dizer que "Daryl Dixon" nem precisava de enredo, a gente via só pelos zombies e pelos cenários. Os cenários são tão bons, mas tão bons, que somos levados a perdoar os problemas de realismo como a viagem de Carol. Nesta temporada destaco as cenas no Louvre, que foram mesmo filmadas no Louvre (fui confirmar), e as cenas no Mont Saint Michel e nas catacumbas. Não é todos os dias que vemos zombies no Louvre. Genet, a líder do Pouvoir des Vivants, e sua braço-direito Sabine (que aqui, coitada, tem cara de Estaline, e não inocentemente) eram empregadas de limpeza no museu quando aconteceu o apocalipse. Isto permite-nos ver mais cenas do início do apocalipse, e adorei! Os primeiros zombies, o primeiro pânico, a sociedade a colapsar. O início foi sempre a minha parte preferida e, de certa forma, tenho apreciado ver poucas cenas polvilhadas pelos diferentes spin-offs para não perder o impacto. A Mona Lisa também se torna, de certa maneira, uma personagem, um símbolo de poder. O interesse deste spin-off em França (ou na Europa em geral) sempre foi abordar como diferentes culturas se adaptavam ao apocalipse zombie. Tenho a certeza de que esta interpretação está cheia de clichés e de que nada disto aconteceria assim na vida real, mas admito que está bem pensado da perspectiva de alguém de fora. Eu fiquei muito nervosa com o perigo de acontecer alguma coisa à Mona Lisa. 
Como já disse na análise à primeira temporada, a opção de colocar Daryl em França parecia descabida mas funcionou pelo contraste. Daryl caiu de pára-quedas no ambiente cultural mais sofisticado que ele já tinha visto fora da televisão, sem falar uma palavra de francês, e tem-se aguentado com muito estilo e sem deixar de ser ele próprio. Isto revela características de Daryl que não lhe conhecíamos porque nunca tinha sido preciso mostrá-las: abertura de espírito, adaptabilidade, e um à-vontade que era muitas vezes ofuscado por outros protagonistas mais espalhafatosos. Esta spin-off está a fazer justiça a Daryl Dixon.
Por outro lado, ter Daryl e Carol em França deu azo a momentos de humor muito bem conseguidos e até patuscos, como Daryl a ensinar-lhe francês ou a cara de Carol quando entrou no Demimonde em Paris. O Demimonde é um bar que podia existir nos nossos dias, com dançarinos exóticos, travestis e temas bondage (e que se imagina muito mais excessivo depois do apocalipse zombie, mas para manter a série acessível ao público mais jovem não há verdadeira nudez nem nada do que poderia haver). Carol e Daryl vêm de um meio culturalmente limitado e puritano. Nenhum deles fala no assunto, mas a cara de Carol diz tudo.


Os melhores zombies de Hollywood...
"Daryl Dixon" não desilude neste campo. Os zombies continuam a ser do melhor que há. Destaco os zombies da Gronelândia e do Túnel da Mancha, onde vemos zombies bioluminescentes, fantásticos, devido a um tipo de fungo.
Os super-zombies do Pouvoir des Vivants também estão mais aperfeiçoados. Afinal sempre andavam a tentar criar soldados zombies. Ainda não conseguiram controlá-los (e aposto que nunca irão), mas o soro das experiências está a torná-los mais estáveis e perigosos. Nesta segunda temporada os super-zombies já não explodem, como acontecia na primeira, embora continuem a matar-se uns aos outros, o que não dá grande exército. 
Agora que já vi "The Walking Dead: The Ones Who Live" e "The Walking Dead: World Beyond", a minha teoria de que a CRM (República Cívica) e os cientistas franceses estavam a trabalhar em conjunto ainda faz mais sentido. O universo The Walking Dead tem alimentado este enredo às pinguinhas e, devo admitir, até ficaria muito surpreendida se tudo batesse certo ao longo das diferentes spin-offs, mas a verdade é que pelo menos não se têm contradito.
Se há uma coisa que tem sido topo de gama e consistente na franchise toda, desde o primeiro episódio, é a qualidade dos zombies. Se há outra coisa consistente é a estupidez selectiva dos personagens, que os coloca em maior perigo do que deviam correr.

... e a estupidez selectiva
"The Walking Dead: Daryl Dixon - The Book of Carol" volta a ter um momento de extrema estupidez como já não víamos há muito tempo. Ash fica preso num carro cercado de zombies. Nestes casos, o que Daryl e Carol costumam fazer é atrair os zombies para outro sítio para resgatarem a pessoa. Aqui, estupidamente, enfiam-se no carro também. Ficam os três presos dentro do carro, cercados por zombies. Isto é um erro de iniciantes do apocalipse que Carol e Daryl já não cometeriam. Mas a série quis mostrar um ambiente claustrofóbico e tenso de dentro do carro e achou boa ideia sacrificar a inteligência de Daryl e Carol. Nem era preciso. Ash é um bocadinho iniciante, servia para fazer a cena, e ninguém acredita que aconteça alguma coisa a Daryl e Carol devido ao plot armour. Então para que é que aquilo serviu? Porque é que esta série gosta tanto de se auto-sabotar? Não percebo. Este era o tipo de disparate totalmente evitável e desnecessário.

Linha temporal
Em "The Walking Dead: Daryl Dixon - The Book of Carol", Carol diz que Sofia morreu há 12 anos. Isto deixou-me um pouco perplexa porque tinha a ideia de que já tinham passado pelo menos uns 15 anos desde o apocalipse. Em "The Walking Dead: Dead City", o filho de Maggie já tem 15 ou 16 anos, pelo menos, e Hershel já nasceu pelo menos um ano depois do apocalipse. Isto pode significar que "The Walking Dead: Dead City" se passa mais à frente do que "Daryl Dixon", mas vou deixar esta nota aqui para o caso de ser preciso confirmar.

Geralmente os últimos episódios não são brilhantes, mas neste caso destaco o último episódio como um dos melhores. O começo de "Daryl Dixon - The Book of Carol" foi atabalhoado, sim, e a série foi caindo em alguns maus hábitos que a primeira temporada conseguiu disfarçar melhor (como a chegada de Daryl a França, que também não é de recomendar), mas foi melhorando ao longo dos episódios e o final conseguiu resolver o enredo de modo muito satisfatório e abrir espaço para novas aventuras na terceira temporada. Continuo a dizer que o ponto forte desta spin-off foi a mudança para um cenário completamente diferente (o tal dépaysant) e que ia ser muito divertido ver o apocalipse zombie noutros países da Europa e do mundo.
Nem é preciso mais nada. "Daryl Dixon" já é a minha spin-off preferida.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies

domingo, 22 de dezembro de 2024

The Walking Dead: The Ones Who Live (2024)

 

De todas as spin-offs que saíram de “The Walking Dead”, esta era sem dúvida a mais aguardada: o que aconteceu a Rick quando A Senhora da Lixeira/Jadis/Anne o levou de helicóptero, e a reunião com Michonne, que deixou tudo para o ir procurar. De certa forma, estes seis episódios são o verdadeiro final da série original, a conclusão da história daquele que foi o protagonista desde o primeiro momento, Rick Grimes.
Os fãs já desconfiavam, pelo que nem é um spoiler. Rick foi levado por Jadis para a CRM, que alguém traduziu melhor do que eu como Exército da República Cívica, o que não significa nada porque não é uma república e muito menos cívica.
Comecemos já por aí. Não é preciso ver “The Walking Dead: World Beyond” (a spin-off “adolescente” de “The Walking Dead”) para compreendermos a CRM, mas quem viu já ficou perfeitamente elucidado quando a CRM destruiu toda a cidade de Omaha, uma cidade aliada, e o seu Campus Universitário cheio de jovens. Em “The Ones Who Live” ficamos a perceber a ideologia subjacente a esta chacina: em primeiro lugar, este exército tem a sua base em Filadélfia, cidade que sobreviveu ao apocalipse e que é supostamente a tal República Cívica mas na verdade é a ditadura militar da CRM (Civic Republic Military). Segundo a CRM, a sobrevivência e segurança da cidade dependem do maior segredo em torno dela, pelo que quem lá entra já não é autorizado a sair e quem tenta fugir é abatido. Isto explica, finalmente, porque é que Rick nunca conseguiu regressar a Alexandria apesar das muitas tentativas de fuga. Rick não foi apenas levado, mas raptado e mantido em cativeiro, forçado a tornar-se um cidadão e, posteriormente, soldado da CRM. Jadis conseguiu que a CRM o aceitasse classificando-o como um “B”, isto é, um seguidor. Os “As”, os líderes, os que pensam pela própria cabeça, são abatidos, à semelhança da ideologia dos Khmer Rouge.
Mas a CMR é capaz de atrocidades piores, como já se viu em “World Beyond”. A princípio aliados de Omaha e Detroit, sem que estas duas cidades conhecessem a base da CRM, o exército decide pura e simplesmente bombardear Omaha, e Detroit está na calha a seguir. Porque é que a CRM bombardeia os seus aliados? Porque tem uma ideologia, a que só posso chamar nazi, de terra queimada: destruir o mundo velho para criar o novo, com pessoas submissas, que não se insurjam, que não questionem, dispostas a abdicar da liberdade em troca de segurança. A missão da CRM é, efectivamente, destruir todas as comunidades do país, e, a acreditar no que vimos em “The Walking Dead: Daryl Dixon”, em que tudo indica que a CRM tem ligações à Europa, talvez até do mundo (o que é confirmado aqui em “The Ones Who Live”). O mais grave é que a CRM, organização que herdou o poderio militar do exército dos Estados Unidos, tem à sua disposição os meios para o fazer. Nunca “The Walking Dead” conheceu um adversário tão temível e perigoso. Disto tudo, conseguimos perceber que “The Ones Who Live” faz a ligação com outras spin-offs e a série original.

A “escrita Gimple”…
Infelizmente, tenho de confessar que de entre os spin-offs do pós-Walking Dead, “The Walking Dead: Daryl Dixon”, “The Walking Dead: Dead City” e até “Tales of the Walking Dead”, “The Ones Who Live” foi do que gostei menos, e, lamento dizê-lo, porque foi o que me recordou mais dos problemas narrativos de “Fear The Walking Dead”. “Fear The Walking Dead” tornou-se uma coisa tão absurda que eu já só via para me rir e para ler as críticas a gozar com a série e rir mais. Em comum a “The Ones Who Live” e “Fear The Walking Dead” está a escrita de Scott Gimple, o mesmo que conseguiu arruinar a série original antes que Angela Kang tomasse as rédeas em modo de “controlo de danos” e tentasse endireitar o enredo e as personagens na medida do possível.
Em “The Ones Who Live” nota-se perfeitamente a “escrita Gimple”. Por exemplo, no segundo episódio, que eu detestei completamente, Michonne está à procura de Rick e encontra uma comunidade. Uma dúzia de pessoas preferem acompanhá-la. Michonne torna-se próxima de alguns destes personagens, e é suposto que os achemos simpáticos, mas 10 minutos depois estão todos mortos e nem conseguimos decorar-lhes os nomes quanto mais simpatizar com eles. Antes disso, porém, avisam Michonne de que existe uma horda de zombies de 5km de largura entre ela e o seu destino, e que ela devia antes esperar que a horda se deslocasse. Mas Michonne tem pressa e decide romper por entre esta horda descomunal sozinha, a cavalo, no que seria o seu suicídio e o “suicídio” do cavalo. Nunca perdoarei que tivessem posto Michonne a fazer esta estupidez. Mais tarde, à medida que se aproximam da CRM, Michonne e os viajantes são bombardeados com gás de cloro. Morrem todos, menos Michonne e um único sobrevivente, e ambos passam um ano inteiro num centro comercial a recuperar das queimaduras nos pulmões e na garganta, apenas com um tanque de oxigénio. Nem sei se isto é possível, mas na “escrita Gimple” tudo é possível, até uma espécie de radioactividade selectiva que só afecta os personagens quando dá jeito ao enredo (não estou a inventar, é só ver “Fear The Walking Dead”). Mais tarde ainda, no mesmo episódio, que já vai atribulado, Michonne chega ao fim das pistas que seguia em busca de Rick, fica desanimada, chora, decide voltar para casa. Já no caminho para casa, por coincidência, dá de caras com ele. É mesmo assim, Michone não encontra Rick, encontram-se por acaso. Ora, eu acho que se podia ter arranjado uma histórinha qualquer com os personagens desta comunidade, em que eles ajudassem Michonne a combater os zombies e a descobrir pistas que a levassem a Rick, sem que ela passasse um ano enfiada num centro comercial e sem que os dois se encontrassem só porque o enredo assim ditava. Péssimo, péssimo episódio.
Mas passemos à frente. Sem cometer muitos spoilers, direi apenas que Rick não quer regressar com Michonne porque isso faria com que a CRM o seguisse e destruísse Alexandria, e Rick acredita que tem de ficar para trás para o impedir. Na verdade, Rick está a ser chantageado por Jadis, que pertence à polícia militar como sabemos de “World Beyond”, e que tem as suas razões para que ele fique. Se Rick fugir, Jadis revelará a localização de Alexandria. Por outro lado, depois de anos de cativeiro traumático, Rick acaba por ser convencido por Okafor, um oficial da CRM, de que conseguirão mudar a ideologia da CRM por dentro. É isto que Rick pretende fazer: ficar, proteger Alexandria e trabalhar para mudar a CRM. Obviamente, Michonne não anda à procura dele há uns dois anos para o deixar ficar, e atira-se com ele de um helicóptero abaixo, sem pára-quedas, em mais um “momento Gimple”. Foi uma sorte terem caído na água porque não se notou que Michonne estivesse a prestar atenção a esse “pormenor”.

… e a boa escrita…
Chegamos ao meu episódio preferido da série, escrito pela própria Danai Gurira (Michonne). Não fazia ideia de que Danai Gurira escrevesse para teatro e televisão, mas depois disto teria sido melhor que ela tivesse escrito a série toda. Esquecendo a coisa do helicóptero, que é melhor não lembrar, Rick e Michonne encontram refúgio num edifício que parece ter escapado às pilhagens do apocalipse e que ainda tem electricidade e água corrente (mais um momento improvável), e aqui, sozinhos, desatam numa discussão das antigas, com acusações, recriminações e gritaria, e foi tão tenso, tão realista, que eu cheguei a temer que houvesse porrada, e na verdade até houve um empurrão. Michonne revela que Rick tem um filho que não conhece, e que RJ tem quase 8 anos. Isto indica-nos que Rick esteve desaparecido durante uns 9 anos. Depois de quase uma década de separação, Michonne não reconhece o homem à sua frente nem reconhece as suas razões. A briga torna-se tão feia, mas tão feia, que ela o deixa. Ela deixa-o! Adorei este episódio em que pela primeira vez vimos a mulher de carne e osso, vulnerável e magoada, por trás da heroína da catana. Confesso que nunca acreditei muito na relação entre Rick e Michonne, sempre pensei que tinha sido uma coisa de conveniência (eu estou sozinho, tu estás sozinha, é o fim do mundo, não há muito por onde escolher, e nós até nos damos bem, porque não juntamos os trapinhos?) mas uma coisa que “The Ones Who Live” conseguiu foi vender-me este romance, e isto graças a este episódio escrito por Gurira. Sei que muitos fãs se vão queixar e dizer que é “telenovela”, mas sobre eles falo depois.
O que acontece a seguir já não me agrada tanto. Rick e Michonne fazem as pazes e decidem ir destruir a CMR, sozinhos contra o mundo. Aqui aproveito para falar na representação de Terry O'Quinn, o John Locke de “Lost”. (Aliás, as representações são todas muito boas, e saliento igualmente Pollyanna McIntosh como Jadis. Se esta série vale alguma coisa é graças aos actores, não ao enredo.) Terry O'Quinn, como dizia, lembra-me um pouco Bryan Cranston de “Breaking Bad”, ambos com aquele arzinho sonso de quem nem sabe que é actor e que está num filme. Terry O'Quinn não tem muitas cenas mas quando aparece causa impacto no papel do Major General Beale, o topo da hierarquia da CRM, que num briefing a Rick expõe todos os planos secretos da organização: a CRM tenciona destruir os aliados e comunidades pelos recursos e superioridade numérica, tem espiões em todo o mundo para influenciar as políticas e sabotar os aliados (como vimos em “Daryl Dixon”), e é possivelmente a maior força militar do continente ou até do mundo. Só assim a CRM acredita que é possível salvar a raça humana da extinção.

… e o regresso à “escrita Gimple”
Rick e Michonne têm um plano: expor a CRM perante o Conselho da cidade de Filadélfia e as pessoas da cidade revoltar-se-ão. Afinal existe mesmo uma República Cívica e um Conselho, mas, admitamos, este plano é infantil. Este Conselho não manda nada, quem manda é a CRM, o que o torna um governo fantoche. A CRM tem oficialmente 17.000 efectivos, fora a polícia militar e as forças especiais e secretas, tem uma hierarquia militar com muitas chefias espalhadas pelo país, tem helicópteros, veículos, combustível, provavelmente até tem acesso a satélites ainda em funcionamento e talvez até ao arsenal nuclear pré-existente. Para derrotar Negan e duas ou três centenas de capangas e associados, uns bandidos de beira de estrada, foram precisas duas temporadas e dezenas de pessoas. Sobrepondo estes cenários, onde é que alguma vez Rick e Michonne, sozinhos, poderiam derrotar um exército com ramificações mundiais? Em “Daryl Dixon” ninguém pôs Daryl a superar o exército Pouvoir des Vivants sozinho; ele ajudou, mas não tinha conseguido nada sem a Resistência e numerosos aliados. E isto faz logo de “Daryl Dixon” um enredo de maior qualidade do que temos em “The Ones Who Live”, infelizmente, porque este spin-off é mesmo o verdadeiro final de “The Walking Dead”.
Quando a série acabou eu pensei: “Ok, isto não pode ficar assim. Quando é que começa a nova temporada?” Não há nova temporada planeada. É mesmo para acabar assim. Não vou dizer como termina, apenas que a levar a sério é ridículo e infantil. Prefiro considerar que não é um “felizes para sempre” mas um “felizes por agora”, e tirei da cabeça qualquer vontade de uma segunda temporada.
Acho a CRM maléfica uma história fascinante mas, sinceramente, não acredito que a série tenha o orçamento e a criatividade para se meter numa saga em que é travada uma guerra mundial, muito embora “Daryl Dixon” já tenha deixado algumas pistas de como fazer isso. Desde que não entre a “escrita Gimple”, talvez eu me engane.

O grande problema de The Walking Dead não são os zombies
“The Ones Who Live” ajudou-me a tecer algumas reflexões sobre o universo Walking Dead em geral. Desde a segunda temporada da série original que tem havido uma cisão entre os fãs que gostam do realismo e do drama (como o episódio da discussão entre Rick e Michonne) e os fãs que só querem sangue e miolos (como o episódio de Michonne a cavalo contra uma horda de zombies) e que acham que o drama é uma “telenovela”. Penso que a série sofreu devido a esta cisão, tentando agradar a uns e outros e não agradando a ninguém. Quando “The Walking Dead” estreou, quase há 15 anos, havia uma distinção muito clara entre séries dramáticas e séries de acção, distinção que já não faz sentido hoje em dia e que, ironicamente, “The Walking Dead” ajudou a destruir. No entanto, em todo o universo Walking Dead, nota-se claramente que há duas linhas de escrita: a irrealista e estapafúrdia que faz uma mulher inteligente atirar-se de um helicóptero sem pára-quedas, e a dramática e realista que aborda o aspecto emocional dos personagens. Tenho para mim que quem escreve os episódios delirantes, como a radioactividade selectiva, preferia estar a escrever sobre super-heróis para um público infantil ou pouco exigente que só quer ver bonecos de acção. Como a série se destina a adultos e os personagens são de carne e osso, acontecem coisas absurdas como “Fear The Walking Dead”. E desta forma “The Ones Who Live”, com o protagonista principal da saga inteira, conseguiu ter um enredo mais fraco do que “Dead City”, uma série que aliava Maggie e Negan e pela qual eu não dava mesmo nada, mas que funcionou porque o enredo não era completamente estrambólico e as motivações das personagens eram sólidas. Sim, é possível ter drama e acção sem cair no ridículo, mas não com desvarios de super-heróis sozinhos contra o mundo.
De “The Ones Who Live” salva-se o episódio escrito por Danai Gurira, um dos melhores da saga toda, um final para a história de Rick, a integração dos enredos de várias spin-offs, e o grande potencial que existe na ameaça planetária que é a CRM (oxalá houvesse meios para o desenvolver). Mas, pelo menos, não morreu nenhum cavalo.
Peço desculpa pelo testamento, tive de referir várias sub-séries para explicar onde queria chegar e mesmo assim acho que me esqueci de qualquer coisa.

PS: Descobri que Pollyanna McIntosh cresceu, em parte, em Portugal, o que é sempre interessante saber.


ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, Fear The Walking Dead, The Walking Dead: World Beyond, The Walking Dead: Daryl Dixon, The Walking Dead: Dead City, Lost, zombies, pós-apocalíptico


domingo, 25 de agosto de 2024

Danse Macabre, de Stephen King

“Danse Macabre” é um livro não ficcional de Stephen King em que o autor se propõe a fazer uma análise da literatura, cinema e televisão no âmbito do terror entre os anos 50 e 80, à mistura com alguns episódios auto-biográficos e bastantes citações das obras mais emblemáticas. Obviamente, como o próprio reconhece, não seria possível incluir tudo sem produzir uma enciclopédia, pelo que muitas das escolhas do autor são forçosamente subjectivas. Concordo com a maioria, não concordo com algumas, mas teria de ser mesmo assim. Como seria de esperar, King escreve de um ponto de vista americano, com referências americanas, e confesso que nunca tinha ouvido falar de alguns comics dos anos 30, 40 e 50 que ele menciona (nem teria como ouvir). Muitas vezes King tem de ir ainda mais atrás, aos séculos XIX, XVIII e antes, para puxar o fio condutor de obras como “Frankenstein”, “Drácula” e precursores mais antigos.
Nunca pensei que o livro fosse tão extenso. Para analisar “Danse Macabre” era preciso escrever outro livro, por isso não vou sequer tentar resumir. Pelo contrário, vou acrescentar!
“Danse Macabre” foi publicado em 1981. Desconheço se Stephen King actualizou os seus pontos de vista com um “Danse Macabre II” (e eu gostava de ler isso), mas o período analisado é dos anos 50 aos 80. Daí até 2024 muita coisa mudou. Por exemplo, as pessoas tornaram-se tão fanáticas por gatos que no remake de “Pet Sematary” o gato é quase a personagem principal (na minha opinião é mesmo a personagem principal e gostava de saber o que Stephen King pensa disto.)
Mas regressando a “Danse Macabre”, Stephen King preconiza a existência de alguns arquétipos do terror a que ele chama O Vampiro, O Lobisomem (mesmo o lobisomem que usa o “pêlo” por dentro, como em “Psycho”), O Fantasma, A Coisa Sem Nome e O Lugar Maldito (The Bad Place). Na opinião dele, o zombie e o vampiro são apenas um só arquétipo porque ambos se alimentam dos vivos. Ora, do meu lugar de espectadora em 2024 não posso concordar. Talvez tenha sido assim até aos anos 80 mas actualmente o vampiro e o zombie são personagens bastante diferentes. O vampiro, hoje em dia, é uma estrela de rock, um símbolo sexual de juventude e beleza eterna, um bad boy carismático e magnético. (Na verdade, sempre foi, desde que Lucy e Mina correram para os braços do Conde, mas talvez seja uma coisa tão feminina que escapou a Stephen King?...) “Danse Macabre” foi publicado antes da explosão dos vampiros de Anne Rice com o filme “Entrevista Com o Vampiro”. Aliás, é significativo que Stephen King não tenha sequer destacado “Interview With The Vampire” como referência, embora o livro seja mencionado no Apêndice. Já nem falo das filas de adolescentes aos gritinhos em cada estreia de “Twilight”, nem dos posters de Robert Pattinson no quarto… (Acreditem, tive de ir pesquisar o nome do actor.) “The Hunger”, com Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon, é igualmente de 1983. Este não é o mesmo vampiro dos filmes Hammer.
Por sua vez, o desgraçado do zombie (e afins) lá se vai arrastando, mas ganhou um protagonismo que já vai em duas décadas com o fenómeno “The Walking Dead”, e também já não é o mesmo zombie de George A. Romero. O zombie dos anos 2000 é quase um adereço em histórias pós-apocalípticas, em distopias em que o verdadeiro inimigo são os outros sobreviventes, onde impera a lei do mais forte e a violência extrema, curiosamente servidas à primeira geração que sabe que não vai ter uma vida tão boa como a dos pais antes deles. São outras as preocupações sociológicas, como as preocupações com a energia e a guerra nuclear dos anos 50 e 60 que Stephen King não deixa de identificar e que produziram toda uma série de filmes de insectos gigantes, por exemplo, e que até deram motivo ao clássico “The Night of The Living Dead” de Romero (1968).
Mas eu não quero mesmo escrever o livro e fico por aqui. Notei uma tendência extremamente exagerada na maneira em que Stephen King tenta explicar que o autor de terror não é um gajo psicologicamente transtornado, psicopata ou imoral, como lhe parece quando lhe perguntam infinitamente se não se importa de “viver dos medos dos outros”. Se calhar tem razão em ser tão defensivo. A pergunta parece-me incompreensível mas deve ser uma provocação americana. Afinal, ninguém é obrigado a ler ou ver terror, tal como ninguém é obrigado a ler ou ver erotismo. Mas é interessantíssimo que a imprensa americana lhe pergunte isto (e a outros autores do mesmo género) a ponto de o irritar.
Aconselho “Danse Macabre” a todos os amantes de terror e, principalmente, a todos os autores do mesmo ofício. O livro é longo mas não parece, está muito bem escrito e nunca aborrece.


domingo, 18 de agosto de 2024

Pet Sematary (2019)


[contém spoilers]

“Pet Sematary” (1989) é um dos meus filmes preferidos portanto vai ser muito difícil falar deste remake de 2019 de forma imparcial. Numa apreciação global, sugere-me um filme feito para quem já viu o original e para os amantes de gatos que se calhar, na altura, não eram tantos como são agora.
O enredo é o mesmo: um casal e os dois filhos e o gato mudam-se da cidade para uma pacata localidade no campo de modo a terem mais tempo para a vida familiar. Gostei que o filme tivesse começado pelo fim, quando todos pensamos que já sabemos o que aconteceu, mas o filme reserva-nos surpresas que nunca nos passariam pela cabeça e se o virmos duas vezes ainda percebemos melhor o que ocorreu depois de o filme acabar. Diria mesmo que este “Pet Sematary” não é tanto um remake como antes uma versão alternativa que nos leva a questionar tudo. Peço desde já desculpa pelos spoilers mas não seria possível analisar as diferenças sem eles.

Do que gostei
Gostei do cenário. O filme original era passado num descampado suburbano com uma estrada feiosa a meio. Aqui a família muda-se para uma casa na floresta cerrada, rodeada de árvores verdejantes e trilhos pedestres. A floresta, escura, misteriosa, selvagem, perigosa, sempre foi um local que evoca medo, especialmente de noite, que esconde o que pode estar à espreita. Neste caso a estrada também lá está, ainda mais mortal porque menos visível entre ramos e vegetação, como uma armadilha perfeita. E, como uma armadilha, faz vítimas. A primeira é Church (Winston Churchill, o gato).
Aqui vem o spoiler que não posso evitar. Quem morre a seguir não é Gage, o bebé, mas a irmã mais velha, Ellie, o que altera toda a dinâmica da história. Gostei desta mudança. Gage, como bebé assassino, pode ser mais sinistro e chocante para algumas pessoas mas eu sempre achei que uma criança tão pequena a executar homicídios que exigiam bastante força física era irrealista e exagerado; era como se Gage tivesse saído da sepultura 5 anos mais velho. Ellie, por outro lado, tem 9 anos. Isto permite um nível filosófico de conversa entre ela e o pai que Gage nunca teria, como quando ela pergunta “onde é que eu estive?”, “estou morta?”, com um inegável ressentimento para com ele como se este lhe tivesse roubado o repouso em paz. Muito mais interessante, na minha opinião. Gostei que Ellie tivesse regressado com olhos de morta: uma pálpebra mais descaída, outra mais fechada. Quando Ellie pede ao pai que fique com ela nessa noite, é visível a hesitação de medo e desconforto com que Louis se deita na cama da filha, e, no entanto, quase contra o seu próprio instinto de preservação, sente-se como ele luta contra essa repugnância visceral para ter a filhinha “de volta”.
Gostei muito mais do papel de Church neste remake. No filme original o gato era quase um adereço, uma desculpa para introduzir o cemitério índio. Neste “Pet Sematary” Church tem um papel mais principal, se não for mesmo a personagem principal do filme! Church volta da sepultura perfeitamente malévolo e manipulador. Não é apenas o catalisador de mais tragédias, conseguiram de facto pôr-lhe expressões de contentamento felino a cada novo horror. Church é o aliado dos que regressam, parte da força maldita e sobrenatural que os move.
Aliás, neste remake é-nos dito que os nativos descobriram o poder maléfico do solo e fugiram porque acharam que aqueles bosques pertenciam a outra coisa qualquer, não sem antes assinalarem as árvores com símbolos de aviso. A localização do cemitério de animais, tão próxima do sítio “onde os mortos andam”, já não nos parece assim tão acidental mas um resquício esquecido de crenças antigas.
Não é a única informação nova que o remake introduz. É fortemente sugerido que Jud, o vizinho simpático que leva o médico ao cemitério índio, também lá enterrou a esposa quando ela morreu. Esta complexidade acrescida, no entanto, nunca é explicada. (Lá vou eu ter de ler o livro.) O que nos leva ao que não gostei.

Do que não gostei
Tal como no filme original, Zelda continua a ser um erro. Zelda é a irmã mais velha de Rachel (a mãe) que morreu de uma doença terrível que lhe distorcia a coluna. Assim que chega à casa nova, Rachel começa a ter visões da irmã. Rachel nunca conseguiu ultrapassar a culpa por ter sentido alívio quando Zelda finalmente morreu. É claro que compreendemos como é que um acontecimento tão traumático assombra Rachel para sempre, e percebemos que para uma criança a doença e a morte possa ter sido assustadora. No entanto, tal como no original, o filme insiste em representar Zelda como uma monstruosidade, quando na verdade é uma pobre vítima digna de compaixão que morreu demasiado cedo depois de uma doença dolorosa e prolongada. Ambos os filmes nos podiam ter mostrado os sentimentos de culpa e medo de Rachel sem tentar usar Zelda para assustar os espectadores também. Aqui é que está o erro. Zelda não nos assusta, provoca-nos pena. Os filmes não perceberam que o espectador pode compreender o medo que Zelda inspira a Rachel sem nos impingir Zelda como um monstro, o que é um tiro pela culatra. Este “Pet Sematary” ainda exagera mais a coisa, transformando a morte de Zelda num jump scare completamente desnecessário e até um pouco ridículo. Mal feito, muito mal feito.
Por outro lado, este “Pet Sematary” não incluiu duas das partes mais assustadoras do original: os flashbacks do cão e da primeira pessoa que foram propositadamente enterrados no cemitério índio. A cena do cão a ladrar do outro lado dos lençóis estendidos ainda hoje me arrepia. O soldado que regressa como morto-vivo foi possivelmente o primeiro zombie bem feito e verdadeiramente assustador que eu vi na vida, um zombie tão semelhante aos de “The Walking Dead” que não me admiraria nada que tivesse inspirado o próprio Greg Nicotero anos mais tarde. Aliás, por falar nisso, o fantasma de Pascow avisa o médico, no cemitério de animais, tal como no original: “This is the place where the dead rest. Don’t go on to the place where the dead walk.” Coincidência ou inspiração, não sei.
Os flashbacks do cão e do zombie foram verdadeiramente arrepiantes e não gostei que os tivessem retirado. Sem eles, nunca teríamos sentido tanta tensão à medida que o filme original avança e percebemos que Louis vai cometer os erros de que já foi avisado. Neste novo “Pet Sematary”, lamento dizê-lo, nunca há cenas tão assustadoras, o que é pena.
Então, resumindo, qual é a razão de existir deste novo “Pet Sematary” para além das coisas que não acontecem como estávamos à espera e das coisas que acontecem quando já não as esperávamos? Tal como no original, também neste filme o tema principal é o luto, a dor tão feroz que faz as pessoas cometerem os actos mais tresloucados, mas por alguma razão o original conseguiu transmitir melhor essa dor. No funeral de Gage, por exemplo, quando uma briga faz com que o caixão caia ao chão, ou quando Louis desenterra Gage e passa a noite com ele ao colo.
Este “Pet Sematary”, por seu lado, envereda por uma conclusão bizarra. No final do filme há uma cena muito tensa em que efectivamente tive medo do que ia ver, mas mais uma vez me trocaram as voltas. Regressando ao início do filme compreendemos melhor o que se passou depois, como disse atrás. O problema começa exactamente aqui: e agora, o que é que eles vão fazer? Viver zombies e felizes para sempre? Lançar uma epidemia de zombies? Será isto o piscar de olho a uma sequela?
Tendo em conta a dificuldade em ser imparcial, não consigo dizer qual dos filmes é melhor. O original já nos parece algo antiquado. O novo tem uma linguagem cinemática mais moderna mas não consegue transmitir o tema com a mesma visceralidade. Gostei dos dois e encontrei virtudes e defeitos em ambos. Neste, pelo menos, um personagem muito especial teve um fim feliz. Para mim, pelo menos. Não consigo escolher e recomendo os dois.

15 em 20 (menos 2 pontos do que o original porque faltam os flashbacks icónicos)


domingo, 21 de abril de 2024

The Last of Us (2023 - ?)


Fiquei decepcionada com esta série. “The Last of Us” é a adaptação de um jogo de vídeo num mundo pós-apocalíptico. O que causou o apocalipse foi um fungo mutante que começou a infectar seres humanos, controlando-lhes o cérebro e tornando-os agressivos de modo a contagiarem o máximo de pessoas possível (é-nos dito no prólogo que isto acontece na natureza, mas não em seres humanos). Chamam-lhes Infectados mas na verdade são mais “colonizados”, e comportam-se como uma mente única, a do fungo, que inclusivamente tem tentáculos subterrâneos que os controlam como uma só unidade. No entanto, embora se assemelhem a zombies, estes Infectados não o são e o próprio fungo acaba por matá-los mais tarde ou mais cedo.
Devo avisar que algumas imagens de Infectados são imensamente repugnantes. O fungo aloja-se dentro do hospedeiro mas acaba por sair para fora. Numa das cenas, uma professora universitária de Micologia está a fazer uma autópsia a um deles e, ao abrir uma incisão no cadáver, o interior do corpo é só fungo. A professora fugiu disparada da sala de autópsias e eu até fiquei com comichões e com os pêlos dos braços em pé de tanto nojo. Na verdade, acredito que “The Last of Us” podia ter feito os Infectados ainda mais repulsivos (alguns fungos são bastante repelentes) mas se calhar recearam que as pessoas não conseguissem ver a série devido à reacção física de repugnância.
Com este cenário, pensei que talvez “The Last of Us” viesse a preencher o vazio deixado por “The Walking Dead”, mas isso não aconteceu por várias razões. Uma das maiores é a notória falta de Infectados. Enquanto que em “The Walking Dead” tínhamos zombies em quase todos os episódios, aqui, por alguma razão, em 9 episódios só existem 3 ou 4 confrontos com Infectados. Terá sido falta de orçamento ou uma aposta maior no drama entre os personagens? Não tenho nada contra séries dramáticas, antes pelo contrário, mas se toda a história gira em torno dos Infectados não deveríamos vê-los mais vezes?
Voltando ao enredo, vinte anos depois do início da pandemia a sociedade organizou-se numa ditadura militar dentro de centros fortemente vigiados chamados Zonas de Quarentena. As pessoas vivem mal, tendo de trocar trabalho por rações. Existe uma Resistência bastante activa mas não consegue grandes resultados. Joel, um homem de 56 anos que perdeu a filha adolescente no início da pandemia, é um deles e vive na Zona de Quarentena de Boston. Joel também trabalha, mas é mais para disfarçar a actividade de contrabandista que comporta risco de execução sumária.
Acidentalmente, a Resistência encontra uma adolescente muito especial, Ellie, que parece ser imune ao fungo. Na sequência de um ataque imprevisto, a líder da Resistência incumbe Joel (a troco de contrapartidas) de acompanhar Ellie em segurança até às instalações médicas onde, têm a certeza, Ellie será fulcral para desenvolver uma vacina ou uma cura. É este o enredo: Joel e Ellie têm de atravessar o país enfrentando Infectados, salteadores, militares, rebeliões e até fanáticos religiosos canibais (o episódio dos canibais foi o melhor).
Como acontece sempre neste tipo de história, a princípio Joel encara Ellie como mais um “trabalho”, uma mercadoria a transportar, mas obviamente o seu instinto protector e a culpa por não ter conseguido salvar a vida da filha começam a vir ao de cima e Joel acaba por desenvolver um sentimento paternal para com Ellie. Ellie, em princípio à defesa e relutante em confiar, acaba por se afeiçoar também a Joel como ao pai que nunca teve (como em “The Witcher”, na verdade, só para citar um caso em milhentos). É nesta relação que se baseia o fundo dramático da história, que acaba por suplantar os elementos pós-apocalípticos da premissa.
Agora, as razões do meu desapontamento. Para além do exíguo número de Infectados que Joel e Ellie encontram pelo caminho (e esta queixa não é só minha), o que mais me afastou da série foi mesmo a miúda (e a queixa também não é só minha). Não tenho nada contra a actriz Bella Ramsey, pelo contrário, adorei-a como Lyanna Mormont em “Guerra dos Tronos”, mas Ellie é uma miúda embirrante, armada em boa, com 14 anos mas mentalidade de 12, inculta, tem acesso a livros mas os seus preferidos são uma compilação de trocadilhos sem piada nenhuma e uma banda desenhada do mais básico possível que só um miúdo de 8 anos partilha com ela (já nem falo do “auge” da vida dela que foi jogar Mortal Kombat), e ainda por cima acha-se muito engraçada. Ainda me irrita mais quando outros personagens dizem que ela é engraçada (não é) e que tem capacidades de liderança (eu não vi nada, qual liderança, a miúda segue Joel como um cachorrinho atrás do dono). Enfim, detestei-a. Preferia muito mais que a protagonista fosse a filha de Joel, essa sim, uma personagem empática, mas infelizmente tiveram de a matar logo a princípio.
Outra coisa que me desagradou na série foram os episódios filler, isto é, de encher chouriços. Sem nunca ter visto o jogo à frente (nem vi nem quero ver) fiquei com a impressão de que não havia enredo que chegasse e tiveram de arranjar maneira de esticar a massa. Um dos exemplos mais flagrantes é logo o terceiro episódio (de uma hora e vinte minutos!) que é o flashback da relação entre Bill e Frank. Bill é um survivalista quarentão que aparentemente não sabe que é homossexual quando conhece Frank, já depois do apocalipse. Apaixonam-se, vivem felizes e envelhecem juntos apesar de tudo o que se passa no mundo. É um episódio muito bonito, muito romântico, muito comovente, mas eu tive a sensação de que estava a ver outro filme. Bill e Frank nem nunca se cruzam com Joel e Ellie e o episódio não faz nada para avançar o enredo. Quando estava a ver pensei que Bill e Frank deviam ser muito importantes para o jogo para terem direito a tanto destaque e tão pormenorizado, mas ao ler as críticas percebi que (mais uma vez) a queixa não era só minha. Frank e Bill só têm importância marginal para o enredo em geral, não são personagens assim tão relevantes. Mas não é caso único. Novo episódio, novos personagens, novo sub-plot, morrem todos, novo episódio. E a série vai assim até ao fim. Tendo em conta que são apenas 9 episódios, esperava-se uma história mais coesa e focada nos protagonistas. Isto nem vai parecer eu a falar, mas realmente faltaram Infectados e confrontos a dificultar a vida a Joel e Ellie. Os adversários que eles encontraram, em vez disso, foram outros humanos, alguns muito monstruosos, é verdade, mas isto devia ser uma série sobre um fungo que infecta humanos e não sobre a monstruosidade humana em geral. Um título mais apropriado para o drama realmente retratado na história devia ter sido “Joel e a Filha Perdida”.
E ainda outra coisa que me irritou bastante na série: ao fim de 20 anos aquelas alminhas ainda não aprenderam que a maneira mais eficiente de matar um Infectado é o inescapável tiro na cabeça (até porque é lá que o fungo se aloja e de onde controla o hospedeiro). Foi tanta a munição desperdiçada ao desbarato que se Daryl Dixon ou Carol ou até a pequena Judith vissem aquilo abanavam a cabeça em desdém: “Amadores!”
Não detestei a série mas esperava muito melhor e um enredo mais baseado na premissa. É sobre humanos controlados por fungos. O drama pode ficar à mesma, mas mostrem-nos os fungos, bolas!
Pelo menos assistimos a 15 minutos do desagregar da sociedade antes do salto temporal de vinte anos para a frente, o que eu gosto sempre de ver, mas ainda não foi desta que fiquei satisfeita. Quando é que nos vão mostrar a sociedade a desagregar-se como deve ser?

PS: Já depois de escrever o artigo, para não morrer estúpida, fui espreitar um stream do jogo, que por acaso estava precisamente na parte mais emocionante do episódio dos canibais. Não tive paciência para ver mais de um minuto. Definitivamente, não gosto de jogos.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, Young Adult, mundos pós-apocalípticos, distopia


domingo, 24 de março de 2024

The Walking Dead: Dead City (2023 - ?)


Muito era esperado deste spin-off que confronta Maggie e Negan de “The Walking Dead”. Algumas críticas acreditam que o conflito entre os dois (a morte à cacetada de Glenn) ficou superado na série original. Eu nunca fui dessa opinião. Negan decide afastar-se da gente de Alexandria/Hilltop/etc exactamente por saber que um dia Maggie vai acabar por matá-lo. Maggie tenta interiorizar o facto de que Negan passou anos preso em Alexandria a pagar pelo seu crime, mas Maggie não estava lá para ver (porque a actriz Lauren Cohan estava a fazer outro programa). Desta forma, embora na última temporada tenham sido obrigados a trabalhar juntos, o conflito entre Maggie e Negan está longe de resolvido (se é que alguma vez poderá estar).
Passaram-se alguns anos desde o final de “The Walking Dead”. Existe uma nova Federação de Estados chamada New Babylon em que se aplica Lei & Ordem. Maggie e as pessoas de Hilltop tiveram de se mudar para outra localização depois do incêndio causado pelos Whisperers (não percebi se a comunidade de Maggie faz parte de New Babylon ou não). Hershel, o filho de Maggie e Glenn, é agora um adolescente na fase rebelde que responde mal à mãe (como é normal). Mas parece que a sociedade está menos caótica em geral. Até têm bares com álcool, jogo e prostituição. Fiquei surpreendida mas achei interessante. Se é fascinante ver a sociedade desagregar-se também é interessante vê-la voltar ao normal.
No final da série original, Negan tinha uma esposa e um filho a caminho, mas não se encontra com eles porque, como sempre, Negan está metido em sarilhos. É procurado pelos delegados de New Babylon pelo homicídio de 5 homens (mas depois percebemos que teve grandes razões para fazer o que fez). Maggie descobre-o escondido num motel (já têm motéis outra vez) para o obrigar a ajudá-la. A comunidade de Maggie foi atacada por um antigo parceiro de Negan dos tempos do Santuário, chamado o Croata (a quem Negan apelida de “o filho da puta mais demente que já conheci”), que lhes roubou todo o grão, levou Hershel como refém, e ameaçou regressar frequentemente para lhes levar a produção agrícola. Maggie quer a ajuda de Negan porque este conhece o Croata, e porque Negan “lhe deve”, além de andar fugido e já não ter muitos sítios onde se esconder. O problema é que o tal Croata levou Hershel para a ilha de Manhattan, um dos locais mais perigosos da América. Acredito que Negan só tenha aceitado por causa de Hershel, porque tem a tal “dívida”.
Perseguidos pelos delegados de New Babylon, Negan e Maggie chegam de barco a Manhattan. Manhattan está particularmente devastada porque foi um dos epicentros do apocalipse zombie. Numa tentativa de conter a epidemia, os militares destruíram as pontes e os túneis, deixando as pessoas abandonadas à sua sorte. Manhatan é agora um deserto negligenciado de prédios semi-destruídos e vegetação, hordas de zombies pelas avenidas, esgotos cheios de mortos e veados a pastar nas ruas. É neste cenário de ficção-científica (desolador, mas não é a bela França) que Negan e Maggie têm de procurar onde se esconde o Croata, o que vão descobrir mais depressa do que pensavam graças à ajuda de sobreviventes originais de Manhattan. No entanto, Maggie não está a ser tão honesta como parece…
Durante a aventura em Manhattan, Maggie fica a conhecer facetas de Negan que não julgava existirem. Por outro lado, Negan parece reconhecer o monstro que existe dentro de si e que ele não quer ver de volta à luz do dia.
“The Walking Dead: Dead City” é um bom spin-off, com mais originalidade e tensão do que a série original nos últimos tempos (o que não seria difícil). O último episódio promete uma sequela, uma vez que Maggie admite que está na altura de resolver a questão de Negan de uma vez por todas. Aconselho a todos os fãs de “The Walking Dead” e, depois de ver dois spin-offs, estou surpreendida pela qualidade que já não esperava tendo em conta como a série original acabou a arrastar-se.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies

 

domingo, 25 de fevereiro de 2024

The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?)

[contém spoilers]

Pensavam que “The Walking Dead” tinha acabado? “The Walking Dead” nunca vai acabar porque, como o próprio nome indica, vai andar por cá durante séculos… ou enquanto der dinheiro. Já estava na calha um spin-off protagonizado por Daryl Dixon, em que Carol, inicialmente, era suposto ter participado também.

França: mais uma personagem
Confesso, fiquei agradavelmente surpreendida com esta série filmada em França (fui confirmar) que nem precisava de enredo, bastava Daryl a matar zombies pelos fascinantes cenários franceses, mas por acaso até tem.
Comecemos pelo princípio. Daryl dá à costa em França e põe-se a deambular por lá como um peixe fora de água (passe o trocadilho). Como é que Daryl dá à costa em França? Isto pode parecer pateta mas o penúltimo episódio explica-nos o que aconteceu. (Voltarei a isto no fim.) *
Quanto mais vejo a série mais sentido faz o contraste entre o redneck (campónio) americano Daryl, um homem sem educação nem requinte que não percebe uma palavra de francês, e a cultura de milénios onde acaba de aterrar. Não estou com isto a menosprezar ou a subestimar Daryl. Pelo contrário, parece-me que a série original é que o menosprezou em favor de personagens menos interessantes, porque em “Daryl Dixon” percebemos que Daryl até pensa e diz umas coisas muito acertadas.
O que Daryl encontra ao chegar não é muito diferente do que se passa nos Estados Unidos: zombies mortos e vivos, cidades e estradas desertas, falta de recursos. O que muda é o cenário, e que cenário! A série leva-nos a muitos locais belos, mais do que eu consigo enumerar, como um convento, um castelo medieval, um palácio barroco, as Catacumbas, a paisagem campestre francesa, Paris, o cemitério de Père-Lachaise e o túmulo de Jim Morrison, o Mont Saint Michel, entre outros lugares icónicos. A Notre Dame deve ter sido inserida por computador porque, ironicamente, ardeu no nosso mundo mas não ardeu no apocalipse zombie. A Torre Eiffel, por outro lado, sofreu um choque com um helicóptero e tem o pináculo derrubado. É quase como se França fosse mais uma personagem da história. Inclusive descobrimos que o avô de Daryl morreu no desembarque na Normandia na Segunda Guerra Mundial, o que fez com que o pai de Daryl fosse ausente e negligente, no que Daryl chama “o repetir da história”. No fim temos uma cena muito emocional em torno disto.

Voltar a casa
Mas vamos ao enredo. Daryl quer encontrar uma maneira de voltar para casa, mas mete-se logo em sarilhos. Durante uma escaramuça com os novos senhores de França, os guerriers do Pouvoir des Vivants, uma força militarizada e comandada pela implacável Madame Genet, um destes homens é morto e o irmão dele jura perseguir Daryl até à morte.
Daryl é encontrado por uma freira, Isabelle, que o leva para um convento. Antes ainda da escaramuça com os homens de Genet, Daryl fica ferido por uma espécie de zombies que ele nunca tinha visto (nem nós) que têm sangue ácido e que queima. Não é explicado se isto tem a ver com as experiências com zombies que Genet anda a conduzir (já lá vamos) ou se é uma coisa completamente diferente e característica do apocalipse zombie em França. O convento de Isabelle pertence a uma nova doutrina, uma reunião de várias religiões na Union de l’Espoir (afinal o apocalipse sempre serviu para uma coisa boa), e Isabelle tenta convencer Daryl a ajudá-la a viajar para norte onde ela pretende levar o jovem Laurent, apontado como o futuro líder da Union. Laurent é um miúdo de 12 anos, muito inteligente e puro, mas igualmente ingénuo e inocente. Quando Daryl descobre que as freiras têm um zombie fechado no convento, o venerado padre Jean que morreu, decide logo ir-se embora como quem já viu esse filme (o celeiro da segunda temporada de “The Walking Dead”). Mas, na verdade, as freiras apenas estão a viver de acordo com o que acreditam, à espera que padre Jean se “erga” outra vez. Daryl vai-se mesmo embora, mas regressa quando o convento é atacado por homens do Pouvoir. Acaba por decidir ajudar Isabelle, não por acreditar que Laurent seja um Messias, mas, bem pelo contrário, por achá-lo completamente impreparado para sobreviver no mundo fora do convento. Aqui, Daryl está a tentar fazer com que a história não se repita. Esta informação sobre o avô que morreu na guerra explica-nos muita coisa sobre o personagem. Por outro lado, Daryl quer chegar ao porto de Le Havre, de onde há rumores de navios a funcionar, e parte do caminho é coincidente.

Os vilões
Entretanto, a Union chamou a atenção do Pouvoir, que os considera inimigos. Como diz Genet, a Union vende contos de fadas e cada pessoa que se junta a eles enfraquece o Pouvoir. O Pouvoir recorda-me os regimes fascizantes do século XX. Como estes, Genet chega mesmo a dizer que o impressionismo é uma arte degenerada. E, obviamente, Genet também quer “fazer a França grande outra vez”. Para isso, pretende aniquilar “movimentos de fracos” como a Union. Durante o caminho, Daryl, Isabelle e Laurent são perseguidos pelos guerriers. Laurent, porque as pessoas acreditam nele, torna-se um alvo a abater.
O Pouvoir anda a fazer experiências sinistras com zombies, injectando-lhes um líquido que os torna super-zombies (e que provoca o tal sangue ácido), sem dúvida para tentar transformá-los em armas. Geralmente não gosto de super-zombies, mas mais uma vez  “The Walking Dead” apresenta os melhores zombies de Hollywood. Estes super-zombies não funcionam perfeitamente: alguns não resistem ao soro, outros ficam fortes e rápidos mas têm espasmos e paragens, outros atacam outros zombies. As experiências não estão a correr nada de feição para o Pouvoir.
Um segundo vilão, Quinn, antigo amante de Isabelle, é o delicioso Adam Nagaitis que interpretou o infame Mr. Hickey em “The Terror”. Quinn não é tão maléfico como Mr. Hickey, nem nada que se pareça, mas Nagaitis é um excelente actor em papéis de vilão. O que ele consegue transmitir com um simples franzir de sobrancelhas ou um esgar dos lábios! Estou encantada com o actor e queria vê-lo em muitos outros papéis.
As lutas de zombies continuam a ser do melhor que há. A certa altura Daryl é obrigado a lutar com super-zombies, como num combate de gladiadores em Roma com armas medievais, e mata um deles com a bandeira de França. No contexto em que a cena se passa, é épico em todos os sentidos. Mais tarde, Daryl e Quinn são obrigados a enfrentar mais super-zombies, desta vez agrilhoados um ao outro. Uma das manobras que empregaram lembrou-me “Spartacus”, só que em “Spartacus” a pobre vítima estava muito viva. Toda a cena das correntes recordou-me também de “The Terror”. Afinal, foi por causa de Mr. Hickey e de uma corrente que o Tuunbaq conheceu a sua desgraça.

O fenómeno Dixon
Daquilo que tenho lido, Daryl Dixon é a única personagem de “The Walking Dead” que não estava na banda desenhada original. Tenho para mim que Daryl era daqueles personagens destinados a morrer logo na primeira temporada, mas, graças à performance carismática de Norman Reedus, e àquele primeiro feito heróico em que Daryl regressa ao telhado para salvar o irmão Merle (que devia ter sido heroísmo de Rick mas que granjeou mais pontos a Daryl), o personagem ganhou a simpatia do público para sempre. É um fenómeno que uma personagem não original tenha chegado até aqui, e ainda mais que tenha alcançado tal estatuto que merece um spin-off protagonizado por ele sozinho (isto é, sem mais personagens originais de “The Walking Dead”). A popularidade de Daryl Dixon é igualmente um fenómeno. Daryl tem milhões de fãs, não apenas “em casa” como da Europa à Ásia e em qualquer lugar onde haja um televisor e passe “The Walking Dead”. Como explicar que um redneck de um estado obscuro da América, um homem sem educação, sujo e de poucas falas, se tenha tornado tão amado pelos fãs? Talvez porque Daryl sempre tenha sido menosprezado pelo pai e subestimado pelo irmão, aprendendo a desenvencilhar-se sozinho desde infância, o que o preparou invulgarmente para o apocalipse. Talvez a sua vulnerabilidade escondida, que o faz isolar-se na floresta de forma anti-social porque ter amigos é sinónimo de os perder ou de ser traído por eles. Talvez o seu bom coração debaixo daquela carapaça durona. Talvez tudo isto tenha tocado os corações de todo o mundo e criado uma empatia com os fãs. É possível, nesta altura, que Daryl tenha mais fãs do que o protagonista, Rick, que já nem está na série.
Por todos estes motivos, Daryl mereceu o seu próprio spin-off num cenário deslumbrante onde ele melhor contrasta. Não sei se a série vai ser renovada, mas eu não me importava de ver Daryl numa perambulação pela Europa toda (por exemplo, aqui vemos os primeiros dias do apocalipse em França, e os primeiros dias é o que eu gosto mais de ver, confesso), mostrando-nos o apocalipse zombie no velho continente desde o Reino Unido à Noruega. E talvez, até, neste jardim à beira-mar plantado.
“The Walking Dead: Daryl Dixon” é um spin-off que se podia ver só pelos cenários mas que, ao invés disso, tem uma componente dramática que há muito tempo não se vislumbrava na série original.

* Spoiler / teoria
Daryl Dixon é levado para França num transatlântico que transporta zombies a bordo. Isto pode parecer estúpido porque os franceses não precisam de ir à América buscar zombies mas, se pensarmos que a CRM (República Civil Militar) também estava a fazer experiências com zombies em “The Walking Dead: World Beyond” para o mesmo objectivo e que a CRM tem capacidade de comunicar por rádio (e se calhar também por satélite?), será que o navio francês foi antes buscar equipamento, conhecimento, fórmulas, o tal soro? Afinal, os cientistas franceses começaram logo a fazer as experiências durante a travessia. É a minha teoria, pelo menos, porque gosto que as coisas façam sentido.


ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes (pelos cenários de França)

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies


domingo, 12 de novembro de 2023

The Wire (2002 - 2008)

Vi esta série policial por uma questão de arqueologia televisiva. Volta e meia, ao ler críticas a “The Shield”, a “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, lá me aparecia uma menção a “The Wire”: “The Wire” isto e “The Wire” aquilo. Acabei por ver por curiosidade. Três episódios depois ponderei seriamente desistir. É sobre uma equipa de polícias a tentar apanhar uma rede de traficantes de droga de rua que usam pagers (pagers!) e cabines telefónicas (cabines telefónicas!) para contactarem uns com os outros. A série começa por volta de 2002 ou 2003, após o 11 de Setembro, e a maioria dos recursos foram deslocados para o contraterrorismo. Os polícias vêem-se gregos e têm de preencher catadupas de papelada para requisitar uma escuta telefónica (the wire) e descobrir o código que os traficantes utilizam. O humor (?) é questionável e impregnado do que hoje chamamos “masculinidade tóxica”. A série é tão datada que parece algo dos anos 80 ou 90. Mesmo assim, porque sou paciente, continuei a ver para perceber de onde vinham tantos elogios. “The Wire” tem cinco temporadas, cada uma com um enredo mais ou menos independente, e a história só começa a “aquecer” lá pelo meio de cada uma delas. Cada uma das temporadas traz consigo uma catrefada de personagens novos e eu também me vi grega para os distinguir e entrar na nova história.
Aqui vou parar para fazer a minha distinção no que toca a séries policiais: as de entretenimento e as dramáticas. Chamo entretenimento a séries em que os polícias bons apanham um criminoso por episódio, e é só isso. Uma série policial dramática, por outro lado, segue os polícias “para casa”, mostra-nos os seus problemas e a sua intimidade, torna-os tridimensionais em vez de máquinas de apanhar meliantes. (“Mentes Criminosas” começou assim mas as últimas temporadas descambaram na fórmula psicopata-da-semana, e isto só para falar de uma série que eu via porque geralmente não vejo séries sem uma grande componente dramática).
Da minha experiência como espectadora, a avozinha das séries policiais dramáticas foi “Hill Street Blues” (“A Balada de Hill Street”, 1981 - 1987). Aqui os polícias eram mesmo de carne e osso, tinham amantes e problemas de alcoolismo, e os meliantes não eram necessariamente vilões.
“The Wire” segue esta nobre tradição, o que só lhe fica bem, mas na minha opinião perde-se demais a tentar contar histórias tão díspares como as dos traficantes e dos toxicodependentes, as dos estivadores do cais que estão a ficar sem empregos, as dos putos dos bairros pobres que se vêem sem alternativa senão ir vender droga para a esquina, a do declínio da imprensa escrita e, por último, um enredo sobre ambições políticas e corrupção que nunca me conseguiu interessar. Tudo muito dramático e realista, sem dúvida, mas demasiado fracturado para ser coeso.
Fiquei completamente chocada quando consultei as datas de “The Shield”, que eu julgava uns dez anos posterior, e percebi que “The Wire” e “The Shield” são contemporâneos (2002 - 2008). “The “Wire” é uma série de qualidade, não há dúvida, mas não chega aos calcanhares de “The Shield”, uma história mais chocante, mais escorreita, com princípio meio e fim (coisa que “The Wire” ameaçava nunca vir a ter). Vic Mackey não punha escutas. Vic Mackey entrava por ali dentro e partia cabeças roubava a droga e o dinheiro, e ainda arranjava maneira de prender os traficantes à mesma. Vic Mackey e a sua Strike Team já não eram só polícias: eram os vilões. (Um deles matou o companheiro com uma granada!)
Daqui a “Breaking Bad” (2008 - 2013) foi um passo. Em “Breaking Bad” já não acompanhamos a acção pela perspectiva dos polícias: passámos completamente para o outro lado e torcemos pelos “maus da fita” (se é que o são, porque é debatível).
Tudo isto para dizer que penso que os elogios a “The Wire” se devem mais aos temas abordados, principalmente os temas políticos fracturantes na sociedade americana, do que propriamente à narrativa, enredo e personagens (se bem que alguns personagens tenham conseguido espaço “para respirar” e crescer, como Stringer Bell, o traficante de rua que acabou a gerir o negócio como se fosse o CEO de uma multinacional: isto sim, é um vilão de carne e osso!).
Vale a pena ver “The Wire” para compreender o panorama que nos trouxe a “Breaking Bad” e ao que está para vir, mas aviso já que é preciso alguma paciência para chegar à parte boa da história. Por exemplo, quando um detective decide “inventar” um serial killer para arrancar recursos da Câmara Municipal para apanhar uma rede de traficantes. Grande trapalhada quando mete os jornais também, e um jornalista tão inescrupuloso como o detective decide inventar notícias sobre o mesmo serial killer (inexistente). Mas para chegar aqui, ó Céus, foi preciso paciência!

Uma última curiosidade: em "The Wire" temos a oportunidade de ver um jovem Seth Gilliam a contracenar com Chad Coleman (respectivamente Padre Gabriel e Tyreese Williams em "The Walking Dead"). Aqui Seth Gilliam faz o papel de Sargento Carver, um durão que lhe assentava como uma luva. Talvez isto explique porque é que "The Walking Dead" foi buscar o Sargento Carver quando já ninguém suportava o Padre Gabriel?... Sinceramente, não me recordo de os dois personagens se encontrarem em "The Walking Dead" mas parece que também contracenaram juntos.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Hill Street Blues (A Balada de Hill Street), The Shield, Breaking Bad, Better Call Saul, dramas policiais