domingo, 27 de julho de 2025
Yellowjackets (2021 - ?) [primeira e segunda temporada]
− Porque é que o Travis está a gritar?
− Porque vamos comer o irmão dele.
Uma equipa de raparigas, campeãs de futebol, sobrevive a um acidente de avião que se despenha numa floresta remota. Durante quase dois anos, têm de sobreviver sozinhas na natureza.
Não costumo dizer isto muitas vezes, mas esta série não é mesmo para todos. Logo nos primeiros minutos percebemos que vai haver canibalismo. O interessante aqui é como as adolescentes chegam a esse ponto.
As raparigas passam 19 meses numa região montanhosa, incluindo dois invernos muito frios, em que têm de aprender a caçar e a aproveitar qualquer alimento que consigam encontrar. Mas este não é um grupo de raparigas vulgares. Como se não bastasse a insegurança e o drama dos 17 anos, há duas sociopatas entre elas. Para começar, as sobreviventes nunca estariam desaparecidas se uma das sociopatas não tivesse sabotado a caixa negra do avião, que tinha um localizador a funcionar. Porque é que ela fez isso? Porque no mundo normal não era reconhecida, e ali, na floresta, tem competências que a tornam valiosa aos olhos das outras.
A questão da fome é muito premente e presente. Mas as raparigas nunca decidem recorrer aos extremos de forma ponderada, racional e consciente. Pelo contrário, incapazes de lidar directamente com as implicações do que estão a fazer, acabam por criar um culto e deixar a escolha da vítima sorteada à "Entidade da Floresta". A entidade da floresta não existe, e algumas nunca acreditam nela, mas o culto é única maneira de sobreviver. Estas raparigas são combativas, campeãs, não lhes passa pela cabeça outra opção que não a sobrevivência. O único adulto que sobrevive ao acidente, um treinador de vinte e poucos anos, nunca se junta a elas. Pelo contrário, começa logo a perceber a dinâmica perigosa que se está a criar ali e a temê-las (e com razão). Até os lobos aprendem a ter medo delas.
"Yellowjackets" tem sido comparado a "O Senhor das Moscas" ("Lord of the Flies") na versão adolescente e feminina, e muito correctamente. Rapidamente se gera um clima de terror no acampamento, a selvajaria da lei da mais forte, seja por ser útil ou por ser a que está em contacto com a "Entidade". Ninguém quer abdicar do que está a fazer, mas ninguém quer ser a próxima.
A série não é só sobre as adolescentes na floresta. Vinte e cinco anos depois, seguimos as vidas de quatro sobreviventes que foram resgatadas e regressaram à civilização. Existe um pacto de silêncio entre elas, mas subitamente alguém começa a chantageá-las. Tenho lido críticas a dizer que esta parte da série é a mais interessante, mas não posso concordar. Mulheres desequilibradas e perigosas é sempre um tema fascinante (e já muito explorado), mas adolescentes desequilibradas e perigosas (e canibais) não é uma coisa que se veja todos os dias.
Aproveito para falar das sobreviventes, na versão adulta, que regressaram à civilização.
Taissa
Taissa é a minha personagem preferida. Só não percebo porque é que não era ela a capitã da equipa de futebol, porque Taissa é uma líder nata. (Por acaso é explicado porque é que a capitã era outra, mas não me convence.) Foi uma líder na floresta e é candidata a senadora na actualidade. Isto não é coisa pouca para uma mulher negra, casada com outra mulher negra, nos Estados Unidos. Taissa sempre foi a mais racional e madura do grupo, a que não fechava os olhos à realidade do que se estava a passar, com a perfeita noção de que era uma escolha pela sobrevivência que tinha de ser feita. Talvez por isso, por encarar a realidade de frente, a realidade a tenha sobrepujado. Taissa começou a ter episódios psicóticos e dissociativos em que a "outra Taissa" toma as rédeas. A chantagem traz a "outra Taissa" de volta, o que não é bom para uma candidata a senadora.
Shauna
Shauna é uma sociopata funcional do piorio, daquelas que não o parecem, sonsa e manipuladora. Na floresta, foi ela quem se encarregou de cortar a carne. Na actualidade, é uma dona-de-casa chata, e aborrecida, a precisar de ter um affair para se sentir viva.
As personagens são interpretadas por actrizes diferentes quando adolescentes e adultas, e devo dizer que algumas não me convenceram. Isto não é culpa das actrizes, que são excelentes, e adoro vê-las contracenar umas com as outras na versão adulta e adolescente, mas esta não é a mesma Shauna. Na adolescência, Shauna era brutal e tirânica, uma assassina capaz de matar pessoas só porque não gostava delas, mas na versão adulta finge-se sonsa e inofensiva? É que são tipos de personalidade antagónicos. Não estou mesmo a ver a evolução de uma coisa para a outra.
Se alguma vez conhecerem uma Shauna, fujam.
Misty
Misty é uma sociopata menos funcional, daquelas de quem o próprio Dexter tinha medo (e com quem acabou por casar). Interpretada por Christina Ricci (a Wednesday de "A Família Addams") na versão adulta, Misty é um terror na floresta e é um terror na civilização. Não quero contar o que ela faz, mas li uma sondagem em que as pessoas disseram que Misty era a sua personagem preferida. Quero acreditar que se estão a referir à actriz Christina Ricci, que realmente é extraordinária aqui.
Se alguma vez conhecerem uma Misty, fujam, se forem a tempo.
Natalie
Natalie é outra das personagens que não batem certo na versão adolescente e adulta. A versão adulta, uma ex-toxicodependente, é interpretada por Juliette Lewis. Mais uma vez, não me parece que seja culpa da actriz. Parece-me que a personagem estava sincronizada no primeiro episódio, mas a partir daí as personalidades divergiram e já não são a mesma pessoa. É curioso que as críticas que leio têm dito o contrário, não percebo porquê. Juliette Lewis interpretou Natalie como uma mulher destravada, histriónica, que não pensa nas consequências, que parece que está sempre bêbeda mesmo quando está sóbria, que parece, em suma, uma personagem de "Pulp Fiction", quando a versão Natalie adolescente é uma das pessoas mais sensatas e responsáveis do grupo. Pode-se argumentar que as drogas a transformaram, mas, como no caso de Shauna, não estou mesmo a ver. A Natalie adolescente depois de adulta, como drogada, já teria organizado um negócio em que era ela a traficante. A Natalie adulta é menos adulta do que a Natalie adolescente.
O monstro entre elas
Para quem tiver estômago para tal, "Yellowjackets" é uma série a não perder. O trocadilho não é inocente, há cenas muito perturbadoras com carne, sangue e ossos, e pior. Só há duas maneiras de ver esta série: com repulsa, ou com um desejo súbito de comer carne. Não preciso de saber, não me contem.
O tempo em que o terror não era levado a sério já passou. "Yellowjackets" tem um elenco de luxo. Apesar do tema, tanto a parte da floresta como a parte da actualidade são acima de tudo abordadas como drama. Para mim, a parte da actualidade funcionou como um alívio momentâneo do que se passava na floresta, com influências flagrantes de "Breaking Bad", "Better Call Saul" (com duas homenagens descaradas) e até de "Twin Peaks", mas por esta altura é mais correcto perguntar qual é a série de qualidade que não tenha sido influenciada por estas. Não consegui achar graça às tentativas de humor. Se fosse só sobre mulheres malucas e perigosas, sim, tinha achado graça, mas a tensão de saber o que ia ver no regresso à floresta (e que efectivamente vi) tirou-me a vontade de rir. Adorei a banda sonora dos anos 90, apesar de não ser o meu tipo de música preferido. Desde Smashing Pumpkins a Massive Attack a Nirvana, está lá tudo. Bom para a nostalgia.
Por último, "Yellowjackets" não é só uma série de terror, é também uma análise, de uma perspectiva forçosamente feminina, de uma história de sobrevivência de adolescentes ainda em maturação, ainda a explorarem a sua identidade e sexualidade, ainda não plenamente conscientes das consequências dos seus actos, não apenas para o mundo exterior, mas, sobretudo, as consequências do trauma com que teriam de viver o resto da vida. Estas raparigas não são monstros, mas há monstros entre elas, e há um monstro dentro de cada uma delas.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: drama, terror, canibais, O Senhor das Moscas/Lord of the Flies, Better Call Saul
domingo, 24 de abril de 2022
The Green Inferno / Inferno Canibal (2013)
[contém spoilers, conteúdo chocante]
O nome diz tudo. Um grupo de estudantes activistas parte para a Amazónia peruana para salvar a floresta e acabam comidos por índios canibais. Basta dizer que o realizador é Eli Roth, o mesmo de “Hostel”, para se ter uma ideia do nível de sangue e tripas que se pode esperar disto. É chocante, mas quem assiste a “The Walking Dead” está mais do que habituado a ver gente comida viva. As outras pessoas não devem ver isto de maneira nenhuma.
Se o filme fosse só isto, um filme de terror com muito gore para chocar e causar repulsa, se calhar a crítica ficava por aqui ou nem havia crítica. Mas depois o filme mete-se em questões éticas bizarras, armado em filme sério, e espalha-se completamente ao comprido.
Por onde começar? Estes activistas querem salvar a floresta porque várias companhias petrolíferas descobriram gás no subsolo e preparam-se para arrasar tanto a floresta como uma aldeia indígena sem contacto com a civilização. O plano das companhias petrolíferas é ir lá e matar os índios todos. Bem, as coisas não se passam assim. As companhias petrolíferas falam com os governos e são os próprios governos que lá vão desalojar os índios. A premissa de que estes índios nunca tiveram contacto com a civilização também me parece completamente absurda. No século XXI até os índios da Amazónia têm um smartphone e podem muito bem estar a ler este artigo. Os “índios peruanos” aqui retratados vivem numa suposta “bolha” isolada, mas por outro lado estão a par dos mercenários das companhias petrolíferas que os querem eliminar. Então, em que ficamos? Têm contacto com a civilização ou não têm?
A tribo não é apenas canibal como também extremamente sádica. Aqui vai um spoiler, mas tem de ser. Não se limitam a matar a primeira vítima (o activista mais gordinho, claro). Primeiro arrancam-lhe um olho, depois o outro. Depois a língua. Depois cortam-lhe uma perna, depois a outra. Depois um braço, depois o outro. Só por último lhe cortam a cabeça, enquanto o desgraçado ainda está consciente. O torso, qual peito de peru gigante, vai então ao forno para assar. Os outros activistas assistem a tudo, presos numa gaiola igual à das galinhas e dos porcos. (Eu disse que não é para toda a gente. Por outro lado, talvez muita gente veja isto e se torne vegetariano, e o filme já terá servido para alguma coisa.) Toda a aldeia está decorada com cabeças cortadas e partes de corpos em decomposição, supostamente todos os estranhos que a tribo consegue capturar. Mais tarde até somos informados de que os mercenários sabem disto, o que significa que o governo também sabe. Melhor desculpa para acabar com esta tribo, seja de que maneira for? Não estamos nos séculos de obscuridade. Até as ditaduras são regimes de lei e ordem. Os índios são cidadãos do país a que pertencem, não vivem à margem da lei. Assassinos e criminosos vão para a cadeia, não se deixam à solta. As crianças são tiradas aos pais. Não havia qualquer necessidade de agir furtivamente, com mercenários e tudo. Bastava ir lá a polícia. Qual multiculturalismo qual caraças. Assassinos não têm direito a multiculturalismo. Neste aspecto, o contexto de “Hostel” é muito mais credível, tendo em conta que as máfias de Leste traficam pessoas para fins vários. Neste filme, o contexto é implausível. Mais valia terem usado a ideia das companhias petrolíferas como desculpa para os activistas irem para a selva, e nunca mais falarem do assunto. Que fosse apenas um filme de terror, sem ambições de pensar muito.
O fim é completamente ridículo. Alguém sobrevive (não vou dizer quem), e em vez de denunciar como todos os outros foram massacrados, pelo contrário, diz que os índios são amigáveis e que os trataram muito bem. Momento WTF?!
Então eu explico: a alminha acha que para salvar a floresta é preciso gerar empatia para com os índios (estes mesmos índios). O que é um momento em que o dito cujo não tem nada a ver com as calças. Como diria o outro, uma coisa é uma coisa. Proteger selvagens canibais é outra coisa completamente diferente. Acabei o filme a pensar: mas o que é que eu acabei de ver, qual é o argumento que o realizador quer estabelecer? Porque isto não tem pés nem cabeça (o que é consentâneo, afinal, com o conteúdo canibal). Há pessoas que deviam dedicar-se ao que fazem bem, porno-tortura, e não se meterem em coisas que não percebem. Tudo isto foi tão completamente estúpido que não posso dar mais do que a nota abaixo. Não recomendo este filme a ninguém, nem aos amantes da porno-tortura, não por causa dos canibais, mas por causa da estupidez. Por outro lado, este é daqueles filmes que convém ver para não nos esquecermos do que é um filme mau, muito mau.
10 em 20 (nota meramente técnica, o resto não vale nada)
domingo, 2 de fevereiro de 2020
Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite
Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.
Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:
«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»
Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros.
Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:
«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»
Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:
«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»
E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:
«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»
A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.
Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
Os Canibais, de Álvaro do Carvalhal
Na forma de conto fantástico, “Os Canibais” é na verdade uma feroz crítica social. Quer-me parecer que a crítica não é apenas ao óbvio: a importância das aparências e a ganância, mas mais do que isto talvez já me escape nos dias de hoje.
A acção passa-se entre a alta sociedade portuguesa do século XIX. “Suponha o baile — se lhe apraz, mesmo por comodidade ou propriedade — suponha-o em Lisboa”, diz o narrador, que já tinha começado o conto com uma crítica irónica ao pensamento literário da época: “Disse a crítica pela boca de Boileau: Rien n’est beau que le vrai”, isto é, só o verdadeiro é belo. [E esta já é uma tradição de séculos entre nós --só o realismo interessa-- o que é um dos factores que explica a falta de literatura gótica e fantástica em Portugal. Ainda hoje, note-se, na cabeça de muitos intelectuais, só o realismo é sério. Veja-se até o prémio Nobel, sempre atribuído a autores que retratam sociedade e política. A Fantasia, a Ficção Científica, o Fantástico em geral, são considerados devaneios inferiores. Salva-se o Realismo Mágico quando bem embrulhado em ditaduras. E isto explica porque é que Tolkien nunca ganhou o Nobel. E está tudo dito.]
Álvaro do Carvalhal vai citar a ideia de que “só o verdadeiro é belo” para se lançar num conto que é completamente Fantástico, se bem que nem sempre coerente. Eu fiquei com algumas dúvidas quanto ao que de facto aconteceu.
A jovem Margarida, bela e senhora do seu nariz, apaixona-se pelo misterioso visconde de Aveleda. Margarida é muito cortejada (“Ela era o ídolo acatado de todos os crentes”) mas não corresponde ninguém. Álvaro do Carvalhal bem sublinha que não quer dar a moral da história, mas eu vejo aqui algo do ditado “quem muito escolhe pouco acerta”. O visconde, desde o momento em que aparece, denuncia logo que não é um homem vulgar. Melancólico e desencantado, não diz duas frases seguidas que não sejam góticas: “O cego adivinha as maravilhas da natureza e adora-as, mas sem poder contemplá-las. Eu sou como o cego, Margarida; adoro-a, sem poder mais nada.” O visconde adverte Margarida de que não o ame, deixando adivinhar qualquer tragédia que nunca revela, mas por fim até ele cede à sedução de Margarida e acabam por casar.
Entra aqui em cena um outro personagem, D. João, que diz amar Margarida, embora tudo nos leve a perceber que é desejo de conquista e orgulho ferido que o move. D. João queria cortejá-la mas Margarida desdenha-lhe os avanços. D. João é um Don Juan (seja o nome propositado ou não), habituado a ter as mulheres que quer. É através deste personagem que Álvaro do Carvalhal faz a crítica mais severa, descrevendo-o como um produto da sociedade, julgando que são os seus talentos pessoais, em vez da grande fortuna, que lhe abrem todas as portas. “O prostíbulo, voragem que a lei sanciona, foi a arena borrifada com o vinho de suas primeiras proezas. Cansado enfim de se estorcer na crápula, no húmido chão do lupanar, volveu os despertados apetites para a recatada burguesia. Se lhe resistia a inocência, a palavra dinheiro, pronunciada com voz anelante por lábios torpes, abandonava o pudor aos soltos caprichos do mancebo. E muitas foram as envergonhadas pequenas, que lhe venderam a virgindade em beijos frios, em dilúvios de sentidas lágrimas.”
Mas tirando a crítica social, não percebi que papel D. João realmente teve nos acontecimentos. O orgulho ferido leva-o a intentar o assassinato do visconde, nomeadamente no dia do casamento, mas antes de o chegar a fazer já a tragédia se tinha desenrolado.
Eu cheguei a pensar, até devido ao título do conto, que o visconde seria um vampiro ou algo do género. O que o visconde realmente é, prefiro que o autor o descreva: “Fez um movimento. Ressoaram estalos como de molas. Horror! Sobre a poltrona caiu um corpo mutilado, disforme, monstruoso. Pernas, braços, os próprios dentes do visconde, brancos como formosos fios de pérolas, tombaram sobre os felpudos tapetes da Turquia, e perderam-se nas dobras de seu robe de chambre, que naturalmente se lhe desprendeu dos ombros. O infeliz era um fenómeno, um aborto estupendo, que em nossos dias valeria muito dinheiro a quem quisesse especular. Era ele poeta de mais para isso. A tudo porém dera remédio a civilização de seu tempo. Afortunados tempos!”
Isto acima descrito aconteceu na noite de núpcias, em frente da horrorizada Margarida. Antes, ele tinha-a lembrado da sua promessa: “prometeste seguir-me ao cemitério, se lá fosse minha morada…” Margarida lança-se da janela e morre, de cabeça esmagada num banco do jardim. O visconde, de coração partido, atira-se à fogueira para morrer queimado.
D. João, que entra no quarto neste preciso momento na intenção de matar o visconde (ou o casal?) foge também. Mas, ao descobrir que Margarida tinha morrido, dá um tiro no “coração”, numa intenção de morrer que eu não percebi muito bem. Achei demais para um homem movido pelo orgulho ferido que de facto não amava Margarida mas a ideia de a possuir como a todas as outras. Mas as motivações das personagens não são o aspecto mais trabalhado deste conto. Diria mesmo mais, este é um conto satírico disfarçado de conto de horror, em que as acções das personagens se destinam a realçar a sátira. Nem sei se devíamos mesmo sentir simpatia pelo pobre visconde e pelo seu atrevimento e ingenuidade de julgar que Margarida o podia aceitar como era, ou se o autor estava a gozar connosco também.
Não vou revelar a parte que dá nome ao conto mas asseguro que não é publicidade enganosa. A seguir, acontece aqui uma espécie de piada que de forma nada subtil nos informa de que o dinheiro compra tudo, até a consciência.
Mas fiquei a perguntar-me: seria só isto que o autor queria dizer, que me parece tão óbvio e batido, até para a altura? O problema da escrita satírica, e neste caso o autor chega mesmo a gozar com o próprio conto, é que só faz rir quem está por dentro da piada. Era preciso dizer ou mostrar muito mais para que se entendesse plenamente a piada mais de dois séculos depois. Nunca esperei canibalismo literal deste conto, mas o título fez-me pensar num “canibalismo” simbólico em que os personagens se destroem mutuamente. Afinal, porque é que os pais e irmãos de Margarida são “canibais” a nível simbólico? Porque são iguais aos outros e também teriam prostituído a filha ao D. João ou ao visconde ou a outro qualquer, não fosse ela tão senhora do seu nariz? Era só isto? Já que o objectivo é a sátira, eu esperava mais de um título tão forte. E não gostei mesmo nada da ligeireza do fim, quase uma anedota. O autor é demasiado gozão para o meu gosto. Mas justiça lhe seja feita, o conto consegue cenas verdadeiramente tenebrosas (rebuscadas que sejam). Tudo o resto sou eu que estou mal habituada a um terror mais moderno e consistente.
sábado, 17 de novembro de 2018
The Colony / A Colónia (2013)
Durante a primeira hora deste filme pensei que ia ver algo de muito bom. O final desaponta. Custa-me avaliar “The Colony” de forma negativa devido a essa primeira hora em que estive verdadeiramente interessada. Neste caso, mais vale fingir que não vi o fim.
Num futuro próximo, o aquecimento global provoca uma nova Idade do Gelo. Para sobreviver, a humanidade refugia-se em colónias subterrâneas, onde existem outras ameaças para além do planeta glacial do exterior. A comida é escassa e racionada. A doença propaga-se mais depressa no ambiente fechado e dizima os poucos sobreviventes.
Os doentes são colocados em quarentena. Na falta de melhoras, é-lhes oferecida a escolha de “dar uma volta” lá fora ou ser executado com um tiro. Na colónia 7, onde se passa a acção, o braço direito do homem que comanda passa logo à execução dos desgraçados, sem dar escolha. O chefe da colónia, (Laurence Fishburne, o Morpheus de “The Matrix”) discorda destes métodos mas já não tem coragem, ele próprio, de disparar contra as pessoas doentes e deixa a “tarefa” nas mãos do outro. Tudo isto já é muito dramático e intenso e promete conflito ético que baste para o filme todo.
Neste momento, a colónia 7 recebe um pedido de socorro da colónia 5, seguido de silêncio. Um grupo de auxílio parte imediatamente, percorrendo uma grande distância na neve. Quando chegam à colónia 5 encontram um bando de canibais que está em processo de comer todos os habitantes. O grupo de socorro não está preparado para uma ameaça destas. Conseguem escapar mas ingenuamente deixam um rasto de pegadas na neve que guia os canibais direitinhos à colónia 7. Segue-se o confronto.
No seu início, A Colónia lembra-nos vários outros filmes. Desde logo, “The Thing”, pelo ambiente gelado e opressivo. E “The Road” e “The Walking Dead”, por causa dos canibais, ou “30 Dias de Noite”, ou “O Dia Depois de Amanhã”. Muito prometedor. A cena em que o grupo de socorro chega à colónia atacada é verdadeiramente arrepiante. As “pancadas” que se ouvem ao longe lembram-nos inconscientemente o barulho de um talhante a cortar carne mas só percebemos quando vemos. Muito bem feito.
Se o filme tivesse acabado aqui, não tinha nada de mal a dizer. Infelizmente, todo este potencial é desperdiçado quando o confronto final transforma “The Colony” num vulgaríssimo filme de acção. Com algum gore pateta, devo mesmo dizer. Um dos habitantes da colónia bate tanto com um pé de cabra na cabeça de um canibal que esta já devia estar feita em puré, e mesmo assim ele não morre.
O que me leva à queixa principal. A certa altura um dos personagens da colónia 7 diz aos outros que tencionam fugir: “Se conseguirem sobreviver lá fora não conseguem escapar àquelas coisas.” E tem razão, porque o bando de canibais é coisificado. Melhor, é monstrificado. Não são vampiros nem zombies, são seres humanos, mas é-lhes retirada toda a humanidade. Ao fazer isto, o filme torna-se numa guerra entre bons e “monstros”, quando podia ser outra coisa muito mais profunda (“The Road”). E foi uma desilusão.
Aconselho, mesmo assim, a primeira hora do filme.
Nota para os amantes do “Sobrenatural”: neste filme aparecem duas caras conhecidas desta série. Julian Richings, que fez de Morte (uma das melhores interpretações da Morte, se não a melhor, que eu já vi em cinema ou televisão). E Lisa Berry, a Ceifeira Billie. Ambos memoráveis. Pena que neste filme os actores não tenham tido papéis tão bons. De tudo o que faz “Sobrenatural” uma série sólida, a qualidade dos actores e das suas interpretações contribui grandemente para o nosso deleite.
Quanto a “The Colony”, queria dar mais mas só posso dar
13 em 20



