Para as pessoas da minha geração, Sandokan, o Tigre da Malásia, não precisa de apresentações.
"Sandokan: The Pirate Prince" é o remake de 2025, uma adaptação dos livros de Emilio Salgari. Tal como no original, Sandokan é um pirata, mas nesta versão ele ainda não sabe que é o herdeiro de um líder nativo cuja tribo foi chacinada pelos britânicos.
Depois de assaltar um navio, Sandokan e a sua tripulação são perseguidos pelo mercenário e caçador de piratas James Brooke. Ferido, Sandokan dá à costa e é encontrado por Marianne, filha rebelde do cônsul britânico, que o leva para casa. Sandokan apresenta-se como mercador atacado por piratas, mas James Brooke suspeita dele. Quando é desmascarado, Sandokan consegue fugir, raptando Marianne como refém. Entretanto, James Brooke tinha pedido Marianne em casamento e agora já não quer apanhar os piratas só por dinheiro e prestígio. Durante a viagem com Sandokan, Marianne apaixona-se por ele, e o resto já sabem. Ou talvez não saibam, porque a história é ligeiramente diferente. Depois de ver a primeira temporada, é possível que o final não seja aquele que conhecemos.
"Sandokan, o Tigre da Malásia"
Esta série de 1976, que por cá passou primeiro a preto e branco e só nos anos 80 foi repetida a cores, causou um grande impacto no nosso imaginário. Cães foram chamados Sandokan, pessoas alcunhadas de Sandokan, miúdos mascarados de Sandokan muito depois de a série ser exibida. Havia espadas do Sandokan à venda, acho que ainda andei com uma. Era uma verdadeira loucura que atingia crianças, jovens e adultos.
O que eu não sabia, e que só descobri agora, é que a loucura não foi só cá, foi na Europa toda, com espectadoras da minha idade a confessarem publicamente que queriam casar com Sandokan e espectadores que o idolatravam como herói de acção.
Muita gente (como eu) ainda se lembra da música, o que é um bocadinho espantoso porque a série original só teve 6 episódios. Será que a música também passava na rádio? Descobri que há um disco:
Fiquei perfeitamente estarrecida quando pesquisei que o original era de 1976. Tinha eu 4 anos. Da maneira que recordo o enredo, as imagens e até os nomes das personagens, tinha ideia de ter visto a série mais tarde. Muito embora as memórias de infância tenham tendência a ficar marcadas de forma mais permanente do que o filme que vimos na semana passada, acredito que me lembro muito melhor por causa dos livrinhos.
Na altura em que não havia gravadores de vídeo nem botão de rewind, vendiam estes pequenos livrinhos com o resumo das séries da televisão. Existia um grande negócio à volta disso porque os livrinhos eram baratos, acessíveis, com muitas imagens e pouco texto, e encontravam-se em qualquer papelaria. Deve ser também por isso que só me lembro da série a cores.
O novo Sandokan
É claro que não me lembro da série original assim tão bem, mas reparei em algumas diferenças. Fiquei com a impressão, pelo menos, de que o Sandokan de 1976 era muito mais uma série de aventuras de capa e espada, não obstante o romance com Marianne, e que este novo Sandokan é muito mais romântico e centrado na protagonista feminina, à semelhança, por exemplo, de "Outlander", e igualmente dirigido ao público feminino, motivo pelo qual passa no AXN White e não no AXN. Ao contrário da ficção romântica e erótica da actualidade, contudo, não há cenas de sexo.
As cenas de acção são igualmente inócuas. Não há muito sangue nem nada de chocante, e as mortes são no mínimo irrealistas, do tipo "adeus, meu amor", e morreu. Nos dias que correm isto é raro, nomeadamente se considerarmos que este novo "Sandokan" pode ser descrito como "Spartacus" encontra "Black Sails", mas sem o sexo e a violência.
Penso que os criadores quiseram ser fiéis ao original e fazer uma série que pode ser vista por toda a família, tal como foi vista por miúdos e graúdos na altura. Pessoalmente, acho que a intenção é bonita e que respeita as nossas memórias de infância. Quem preferir sexo e violência tem muito por onde escolher.
Mas "Sandokan: The Pirate Prince" segue uma narrativa em tudo moderna, com desenvolvimento de personagem, flashbacks, backstories. Os vilões, à excepção do sultão, são complexos e tridimensionais. James Brooke devia ser um vilão mas torna-se um galã romântico com a real possibilidade de rivalizar com Sandokan. Yanez de Gomera (Eanes), o português da tripulação de Sandokan, era padre e é-nos dado a ver porque deixou de ser.
Os espectadores mais novos vão achar estranho que se ouça uma certa música nos momentos mais épicos. Pois, é essa música, a música de Sandokan. A música que nunca nos saiu da cabeça. Pode parecer muito datado mas é de propósito.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: drama, aventura, acção, romântico, Sandokan, Spartacus, Black Sails




Sem comentários:
Enviar um comentário