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domingo, 24 de janeiro de 2021

Christ the Lord The Road to Cana, de Anne Rice

Tanto a dizer! Como já tinha referido ao fazer a crítica ao primeiro livro desta série, “Christ The Lord Out Of Egypt”, fui daquelas que estremeceu de medo ao saber que Anne Rice estava a escrever a vida de Jesus. E em primeira pessoa, para ser ainda mais controverso.
Este segundo livro veio tranquilizar-me completamente de que Anne Rice adoptou uma postura respeitosa e reverente, recontando os episódios bíblicos da perspectiva de Yeshua como alguém que lá esteve e os viveu. Nada é esquecido, mas tudo é desenvolvido de maneira que nos surpreende como se nem conhecêssemos a história.
O livro começa não com a última mas com a primeira tentação de Cristo: uma rapariga. Yeshua é agora um homem de trinta anos, carpinteiro de profissão, tal como o pai José e os irmãos adoptivos, de mãos calejadas do trabalho árduo a lixar tábuas e assentar chãos em casas mais ricas do que aquela onde mora a sua família em Nazaré. Yeshua tem um sonho com Avigail, a rapariga, sua parente afastada que o ama. Mas Yeshua afasta o sonho com a conclusão: talvez isto não seja algo para o filho de Deus conhecer.
Nesta altura Yeshua ainda não compreende qual é exactamente o seu propósito divino (especificamente, aquilo que tem de fazer), mas sabe que o tem e sabe quem é.
Anne Rice descreve a vida prosaica de Jesus e da sua família alargada, uma família normal da Palestina ocupada por Roma, mas é quando explora personagens extraordinários que a escrita de Anne Rice brilha. Nenhum personagem poderia ser mais extraordinário do que Jesus, Deus encarnado para alguns, apenas divino para outros. Anne Rice transmite-nos esta dimensão divina em Yeshua mas faz-nos ao mesmo tempo empatizar com o homem. Yeshua é acima de tudo um homem bom, um homem decente, a quem não queremos que aconteça mal nenhum.
Quando chegamos à parte de João Batista no Jordão, a minha vontade era gritar à personagem: não vás! Se vais, é o princípio do teu fim! Fica em Nazaré, casa com a Avigail, esquece lá os pecados do mundo que não são culpa tua. Sê feliz porque mereces.
E aqui eu estaria a falar como o Tentador, o que não é nada bom para a minha pessoa.
Por falar em Tentador, mais uma vez o ponto alto do livro é quando este aparece para tentar Jesus após os quarenta dias no deserto. Anne Rice tem experiência a escrever do ponto de vista de diabos, mas nunca fica claro se Memnoch é o diabo ou apenas um diabo. Aqui, sem dúvida nenhuma, é mesmo o Diabo, Lúcifer, Satanás, o tentador do Jardim do Éden. Lúcifer aparece a Jesus fisicamente igual a ele, mas vestido como um rei. Tal como no primeiro livro, existe em Lúcifer um misto de curiosidade, medo e inveja, mas também atracção, que o torna muito complexo. (Este Lúcifer recordou-me o vampiro Armand no seu primeiro encontro com Louis e Lestat. Ou melhor, e mais certo, o vampiro Armand é que terá sido inspirado na ideia que Anne Rice faz do Diabo, o que é completamente natural tendo em conta a personagem.)
Lúcifer não está ali para antagonizar Yeshua nem para o levar a desistir. Lúcifer pensa que Yeshua vai liderar um exército contra Roma e, sendo o Príncipe deste mundo (está na Bíblia), oferece a sua ajuda. Yeshua rejeita-o, é claro, e Lúcifer tem um ataque de cólera:
“Vais amaldiçoar o dia em que me recusaste! Não vais conseguir fazer isto sem mim! Vais morrer numa cruz romana.”
Lúcifer estava enganado quanto ao propósito do homem cujo nascimento esteve rodeado de “maravilhas e sinais”, mas ao dizer isto Lúcifer não está a fazer uma ameaça. Está a deixar um aviso.
O livro termina na altura em que Yeshua já assumiu o seu papel divino e começa a chamar a si os apóstolos. Jesus diz a Pedro: “Segue-me e far-te-ei um pescador de homens”. Mateus diz a Yeshua: “José contou-me os prodígios e sinais que aconteceram quando nasceste. Se me deres permissão, gostava de os escrever”. E escreveu. Gostei muito que o jovem rico a quem Jesus diz “se queres vir comigo, abandona as tuas riquezas e segue-me” não fosse um estranho qualquer como no episódio bíblico. Aqui ainda tem mais peso. E surpreendeu-me o casamento de Canaã, as bodas de outra personagem que nunca me passaria pela cabeça. Não vou revelar para não estragar a surpresa.
Gostei do surgimento da verdadeira Maria de Magdala, possessa, de quem Jesus expulsa os demónios. (Ao contrário do mito popular, Maria Madalena não era prostituta. O mito decorreu da confusão com outra Maria que também seguia Jesus.) É tudo tão bem encadeado que os episódios bíblicos ganham vida sem nunca perderem solenidade. Anne Rice está a superar-se com esta obra.
Ou melhor, estava. Agora que eu estava a gostar mesmo muito da sua interpretação da vida de Cristo, e decidida a ler o resto até ao fim, Anne Rice já anunciou que não vai continuar a série, originalmente planeada para quatro livros, devido à potencial controvérsia que os livros seguintes poderiam gerar.
Compreendo perfeitamente a posição da autora. Qualquer interpretação da vida de Cristo é polémica. Este mesmo livro, onde eu pessoalmente não encontrei nada de desrespeitoso, pode ser encarado como blasfemo por algum fundamentalista só porque Yeshua pensou (e nada mais fez senão pensar) no que seria uma vida normal com Avigail. Noutros tempos, escrever (e ler) um livro destes era caso para sermos queimados vivos na fogueira. Por isso compreendo perfeitamente a posição de Anne Rice de estar farta de lançar pérolas a porcos. Tenho esperança de que ela tenha continuado a série, nem que seja em segredo, para ser publicada postumamente quando já ninguém a puder chatear. É triste, em pleno século XXI, que fundamentalismos religiosos continuem a obstruir a criação artística a ponto de levarem um autor a perder a paciência e a deixar de escrever.
Recomendo muito os dois livros existentes. Lamento não termos os seguintes.



terça-feira, 26 de abril de 2016

“Christ The Lord Out Of Egypt”, de Anne Rice


Christ The Lord Out Of Egypt é uma novela de ficção de Anne Rice em que esta descreve os primeiros anos de Jesus, na primeira pessoa. Isto é, o próprio Jesus nos conta o relato intimista do período entre os seus 7 anos, idade em que voltou do Egipto para Nazaré, e durante o espaço do ano seguinte, até à visita ao Templo de Jerusalém onde, diz a Bíblia, Jesus teria ficado a discutir a Lei com os maiores sábios entre os Rabis.
Na verdade, a Bíblia não diz mais do que isto sobre a criança Jesus. Sabemos que, após a matança dos inocentes, Maria e José, avisados por um anjo num sonho de José, fugiram com o menino para o Egipto, de onde só regressaram após a morte do rei Herodes. Sabemos que Jesus aprendeu o ofício de carpinteiro, como José. Sabemos que a família visitou o Templo em Jerusalém onde Jesus ficou para trás, a debater com os Rabis do Templo, e quando a família, já desesperada, finalmente o encontrou, Jesus terá dito: "Porque me procuram? Não sabem que estive na casa do meu Pai?"
Anne Rice baseou-se também em evangelhos apócrifos, e inclui uma extensa nota em que descreve o grande trabalho de pesquisa que fez sobre a época, e os trabalhos académicos e religiosos que consultou sobre a vida de Jesus enquanto criança. Para os não-crentes, este livro servirá, no mínimo, para acompanhar a vida de um rapazinho e sua família nessa altura conturbada da Palestina.
Eu sou crente (gosto de dizer que tento ser Cristã, e que "tento ser" porque ser Cristão é muito difícil) e quando ouvi dizer que Anne Rice ia pôr de lado os vampiros para se dedicar a escrever a vida de Cristo, que estava "farta de escuridão e queria escrever sobre a luz", até estremeci de medo. Demorei muito tempo a preparar-me psicologicamente para o que ia ler, se bem conheço Anne Rice, temendo encontrar nestas páginas os envolvimentos românticos e controversos entre Jesus e Maria Madalena, entre Jesus e João (o apóstolo), entre Jesus e Judas... Se bem conheço Anne Rice.
Foi uma agradável surpresa que este primeiro livro da série tenha sido completamente inocente de tudo isto que imaginei. Mas polémico o suficiente, como teria sempre de ser polémica uma qualquer interpretação da vida de Jesus, criança ou adulto.
A polémica começa logo na primeira frase. Jesus fala na primeira pessoa e diz-nos que naquela idade, aos 7 anos, "what did I know?". E aqui começa a controvérsia. Anne Rice apresenta-nos um menino completamente alheio à sua natureza divina. O que não é de somenos importância, porque o debate sobre a divindade do Cristo é um assunto muito sério entre os teólogos. Este menino Jesus que Anne Rice nos apresenta não é divino, na minha opinião, mas humano, completamente humano. Sentimos por ele a empatia que podemos sentir por qualquer outra criança na situação de tentar perceber os eventos trágicos que rodearam o seu nascimento, os segredos que a família prefere guardar dele, os seus esforços, finalmente recompensados, de encontrar respostas e compreender quem é.
Jesus não tem qualquer intuição de quem é. Intrigam-no os milagres que realiza, as curas, as ressurreições, os milagres menores como pedir que deixe de chover e a chuva lhe obedecer. Intriga-o que da sua família não encontre nenhuma explicação, que mais perplexos do que ele Maria e José o aconselhem a guardar em segredo o seu poder e a não falar dele a ninguém. Jesus é uma criança muito confusa. Em certas passagens, Jesus é um menino aterrorizado pela guerra que atravessa Israel na sequência da morte do rei Herodes. Não era esta a minha ideia de Jesus, nem em criança, mas a representação de Anne Rice parece-me razoável. (Mesmo assim, não sei se concordo. Não era assim que via Jesus e não será assim que passarei a vê-lo.) Mas reconheci Jesus em certas passagens. Quando chegam a Nazaré, e alheio aos horrores da guerra à sua volta, o menino sente uma paz que transcende todo o pensamento: a paz de Cristo. Quando no regresso ao Templo Jesus deseja tanto entrar no Santo dos Santos, onde Jeová está presente, que os pensamentos o transportam até lá, numa viagem transcendental muito à maneira oriental, para lá do pátio, para lá do véu, para lá do Santo dos Santos, e ainda mais além, até Deus. Sem saber, sem imaginar, que naquele momento nada existe de mais divino naquele Templo do que a sua pessoa, e que o Templo, que o Jesus-criança admira e acha tão glorioso, e que o Santo dos Santos, nada são perante o Rei dos Céus que se senta à direita do Pai. Como é que Jesus poderia não o saber, não o intuir? Como poderia faltar-lhe algo da omnisciência divina que vem do Pai? O Jesus-criança de Anne Rice é acima de tudo humano, um Jesus-humano que faz milagres sem querer, por quem todos nos podemos enternecer, mas Anne Rice deve saber (por muito bem intencionada, como eu completamente acredito que o estivesse, porque se sente na obra uma humildade e uma espiritualidade de quem acredita no que está a dizer) que esta não é uma interpretação livre de controvérsia.
Outro problema que encontrei nesta obra é a personagem de Maria. José é exactamente o que eu esperava dele, sem tirar nem pôr. Anne Rice preferiu enveredar pela tradição católica de Maria sempre virgem, indicando que o casamento com José nunca foi consumado, nem antes de Jesus nem depois de Jesus, e que os irmãos de Jesus, de que fala a Bíblia, são irmãos adoptivos, um deles do primeiro casamento de José e alguns outros primos órfãos que sendo criados por Maria podiam mais tarde ter sido chamados de irmãos de Jesus. Em suma, Maria, puríssima, nunca conheceu carnalidade. Ora... (Não, nem vou por aí.) O que direi de Maria, sem perceber se Anne Rice fez isto de propósito ou não, é que me parece uma jovem mulher à beira de um ataque de nervos. É certo que ela dá o consentimento ao anjo "Faça-se em mim conforme a vontade do Senhor", mas tudo o resto me dá a entender que Maria tem um calado rancor ao que lhe aconteceu, ao que lhe estragou a reputação e a vida, ao que lhe estragou o casamento. Tenho a sensação, à medida que vou lendo, que a qualquer momento Maria vai agarrar os cabelos e desatar a gritar histericamente. Não vejo nela, nada de nada, a Maria Sereníssima. Sinceramente, até tive pena da personagem. Não sabemos, da Bíblia, quem era Maria na intimidade, mas sempre a imaginei alguém profundamente religioso, uma jovem tão devotada a Deus que foi por isso a escolhida, a abençoada entre as mulheres, o que na Idade Média se chamava uma "mística", uma santa, com visões e tudo. A Maria de Anne Rice também não percebe muito bem o que lhe aconteceu. E a minha sensação, errada ou não, é de que não gosta do que lhe aconteceu.
Outro aspecto digno de nota, pela sua possibilidade de polémica, é a família de Jesus. Não faço ideia de como era a espiritualidade dos judeus na época de Cristo, mas a família de Jesus, segundo o livro, era tão religiosa que nos nossos dias lhe chamaríamos fanática. Toda a vida daquela família, das orações da manhã às orações da noite, revolvia em torno das Escrituras, da Lei, da sinagoga. Seria fácil, para os críticos, atribuírem àquilo que hoje nos parece fanatismo as visões de anjos, a influência religiosa no pequeno Jesus, a sua inevitável conclusão de que é o Filho de Deus, o seu delírio religioso que o levaria à execução como Rei dos Judeus. Partidários desta opinião considerarão que os milagres foram alucinações ou pura e simplesmente não aconteceram.
Mas arriscando tudo isto, a própria Anne Rice diz, na nota de autora:
 "I wanted to write the life of Jesus Christ. I had known that years ago. But now I was ready. I was ready to do violence to my career. I wanted to write the book in the first person. Nothing else mattered. I consecrated the book to Christ. I consecrated myself and my work to Christ. I didn't know exactly how I was going to do it."
Mas fez, e explica porque o fez, quase como numa necessidade, digo eu, de proclamar desta forma o evangelho, o que é um dever de todos os cristãos, da maneira que ela sabe fazer melhor, pela escrita.
Não sei, não faço ideia, se a leitura deste livro terá alguma influência nos não-crentes. Em mim, teve apenas a influência que aqui exponho, o confronto entre as minhas próprias ideias sobre a Sagrada Família e a interpretação de Anne Rice, mas a minha opinião quase não conta porque Anne Rice, no meu caso, está a pregar para o coro (eu já estou convertida). Não aconselho este livro aos leitores do trabalho mais bem conhecido de Anne Rice, as Vampire Chronicles, se acharam que os momentos religiosos não tinham ali razão de ser. Não aconselho a quem leu Memnoch e não gostou por achar o livro demasiado religioso. Christ The Lord Out Of Egypt é só religioso, e quem não estiver interessado em religião não conseguirá, acho eu, suportar as cerca de 120 páginas a contar a vida da criança-Jesus. Posso estar enganada, mas não me parece. Aconselho exactamente aos outros, aos que leram Memnoch e gostaram, aos crentes, aos que se interessam por religião.
Por falar em Memnoch, e como não podia deixar de ser, digo eu que conheço Anne Rice, um dos episódios mais empolgantes do livro é quando Jesus tem um sonho perturbador com um ser lindíssimo e alado que lhe coloca questões a que o próprio Jesus não sabe responder. O ser alado também não sabe quem ele é, o que demonstra o grau de afastamento entre Lúcifer e os planos divinos. Pois, claro, este ser alado é Lúcifer, e basta ele aparecer para reconhecermos o melhor de Anne Rice em todo o seu esplendor. Anne Rice escreve melhor sobre a escuridão. Nada a fazer.
Mas não sei se esta obra é exactamente o que ela disse, uma "obra sobre a Luz". Eu achei-a algo triste e até abaladora, aqui e ali. E pensei, quando vi o reduzido tamanho do livro, que era pequeno. Mas o conteúdo, estranhamente, tão intenso e tão profundo, torna-o grande, imenso. Fiquei convencida, e tenciono ler os livros seguintes desta série apesar de todas as minhas reservas quanto à interpretação pessoal da autora.




quinta-feira, 14 de março de 2013

Gotika: arquivos Abril 2004

abril 08, 2004

Memnoch the Devil - o livro

De Anne Rice.

Foi difícil sair do estado de choque. Não é todos os dias que nos fazem pensar. “Memnoch the Devil” fez-me pensar porque o tema - agora tenho a certeza absoluta! - é de uma importância fundamental para a minha existência.
Contemplei o horror. Não o medo. Pior do que medo, o choque, depois o horror, e por fim a repugnância. Questionei, ah! pois questionei, porque não pude deixar de o fazer.
Há duas teorias que me arrepiam. Uma, a de que Deus não existe porque não há provas. Como se a electricidade não existisse antes de haver provas de que existia. Essa posição só revela a mesma atitude de avestruz da outra atitude que diz “Deus existe porque sim”.
E a verdade é que ninguém tem provas de que Deus existe e ninguém tem provas de que Deus não existe. Facto.
Logo, ateístas e fundamentalistas são avestruzes de cabeça enterrada na areia. COBARDES. Ambos têm medo de questionar, e se?... E se?... E eu questiono-me, todos os dias, questiono-me. Prefiro a horrível verdade à doce certeza.

Aqui há tempos, dizia-me o Mangas, do Tapor: “Deus tem mais em que pensar do que no teu gato”.
É interessante como as coisas vêm e vão.
E se for pior que isso? Muito pior que isso?

Afinal, o que diz Memnoch? Memnoch é o verdadeiro nome do Diabo, e é o Diabo que conta a história. E nesta história, o Diabo é o bom da fita. Mas esse facto é irrelevante. A teoria é de Anne Rice ou, pelo menos, foi exposta por ela. É a teoria que me perturba.
E o que diz o livro de tão assustador? Diz isto:

1, Deus existe.
2, Deus não quer saber de nós para nada.

Vou contar, para que se perceba. Deus existe e criou a Matéria. Foi uma experiência. A Criação foi uma experiência. E a Terra transformou-se num bonito jardim, e Deus e os anjos observavam e gostavam do que viam. Dos vegetais a evolução passou aos animais, e a Natureza mostrou o seu ciclo de vida e morte, de presas e predadores, e de sofrimento. Mas de repente os seres viventes tinham rosto, como os Anjos (as criaturas foram criadas à imagem de Deus), e as criaturas morriam e os Anjos inquietavam-se. E Deus observava o resultado da experiência. Por fim, as criaturas evoluíram ao ponto que nós chamamos homo sapiens sapiens - nós - e as criaturas continuavam a sofrer e a morrer. E Deus observava o resultado da experiência.
Os Anjos começavam a ficar perturbados com o sofrimento que testemunhavam na Terra. Mas de repente aperceberam-se de algo pior. A matéria tinha gerado algo de invisível que era a alma. Os seres humanos tinham desenvolvido uma alma. E quando morriam na carne, essa alma recusava-se a morrer e ficava a pairar em torno da Terra. Algumas almas não sabiam que estavam mortas. Outras sabiam, e sofriam. Outras arranjavam maneira de voltar a comunicar com os vivos, através de seres humanos mais dotados para o espiritual, que falavam por elas.
Outras ainda, conseguiam voltar a nascer, matando o espírito da criança em quem reencarnavam - Alan Kardec deve estar a dar voltas no túmulo como eu estou a dar voltas à cabeça...
Outras almas pura e simplesmente se desvaneciam e desapareciam para sempre.
Foi Memnoch, o anjo que mais tarde se tornou o Diabo, quem chamou a atenção de Deus para o assunto, de que haviam almas a sofrer à volta da Terra. Resposta de Deus: “E porque é que eu me havia de importar com isso?” Para Deus, tudo o que evoluía da sua Criação fazia parte da Natureza. Até as almas. E a Natureza é cruel mas o importante é o efeito geral, a beleza de toda a Criação.
Na Terra, os seres humanos sentiam que havia um Deus, e adoravam-no. E pediam-lhe misericórdia através de sacrifícios. Sacrifícios de carneiros, sacrifícios de crianças... Sacrifícios para adorar a um Deus de quem não sabiam nada excepto que o sentiam. Sacrifícios para o apaziguar. E Deus observava os resultados da sua experiência.
Os Anjos observavam com horror o acumular das almas dos mortos em redor da Terra, almas perdidas, desesperadas, sem rumo. Mas a magnificência da Criação sobrepunha-se a tudo o resto. E continuavam a adorar o Criador de todas aquelas maravilhas.
Alguns anjos, contudo, vieram mais à Terra e aperceberam-se do sofrimento dos homens que morriam e não tinham nenhuma esperança excepto vaguear em torno da Terra, na escuridão, quando eles, os Anjos, tinham o Paraíso para onde voltar. E tiveram pena das almas. E puseram o caso perante Deus.
Deus tomou o pleito como um desafio, e chamou ao Anjo que tinha mais pena das almas o seu Acusador (Satanás), o próprio Memnoch. Mas autorizou-lhe que fosse buscar algumas almas desses mortos para o Céu. Mais uma experiência.
Memnoch encontrou almas tão dilaceradas pelo sofrimento que amaldiçoavam o dia em que tinham nascido. E algumas outras almas em pura contemplação e desespero. Mas quem é que ele escolheu para convencer Deus a levar as almas dos humanos para o Paraíso? As almas dos mortos que contemplavam a Criação com gratidão, sem pedir nada, sem questionar nada, simplesmente as almas que estavam felizes por terem o privilégio de ter vivido alguns anos na Terra e se darem por contentes.
Ou seja, as almas dóceis e gratas, as almas que não questionavam, as almas que aceitavam o estado de coisas e davam graças pela Criação. Essas almas foram admitidas no Paraíso.
Quem é Deus aqui? Um Ser arrogante, despótico, regalado com a contemplação da sua Obra como um desses pintores que se acha um génio e corre a pontapés quem o critica.
Mas, calma, há pior!... Depois de ter aberto as portas do Céu a essas primeiras almas, Deus aceitou o desafio do diabo (porque nessa altura já tinha expulso Memnoch do Céu porque “não confias em mim, meu anjo”) e veio à Terra feito homem, o Cristo.

(Belo tema pascal, não?)

Mas mesmo no seu martírio, Deus nunca esqueceu que era Deus. Deus nunca percebeu como o ser humano vive e morre sem esperança. Deus sabia que após a morte voltaria a ser o Todo-Poderoso.
Pior. Deus aproveitou toda a mitologia humana do deus que era morto e renascia na primavera para a incarnar Ele próprio. Tal como o babilónio Marduk, o egípcio Osiris e o romano Dionísio, Deus foi morto e ressuscitou. Deus alimentou-se dos mitos humanos para provar a sua teoria. E a Sua teoria é que o sofrimento é bonito como um pôr-do-sol e que o homem só chega a ele - só se aperfeiçoa - através do sofrimento. E pôs ali o exemplo, em Cristo.
Mas Memnoch contesta. E contesta porquê? Porque muitas das almas dilaceradas pelo sofrimento estão demasiado revoltadas no momento da morte para apreciarem a Criação Divina. E, o que é mais grave, este Deus não é justo. Entram no Paraíso aqueles que lhe derem graças pela sua magnífica Criação, independentemente das suas acções aqui na Terra.
O assassino e a vítima, o explorador e o escravo, entram aqueles que o bajularem e se curvarem diante dele.
Não há Justiça. Não há Justiça absolutamente nenhuma.


Descobri a minha natureza
Foi aqui que me passei. Foi aqui que o vampiro Lestat começou a enlouquecer. Porque ele próprio esperava o castigo. O vampiro Lestat era um descrente que no fim do livro continua a dizer que tudo o que viu foi uma ilusão, apesar de não ter a total certeza... Imaginem o que isto faz a um crente!
Não há Justiça? De repente isto atingiu-me como uma faca na barriga.
É uma possibilidade. E agora percebo que aquilo de que tenho fome e sede é de Justiça.

Voltemos ao livro. Anne Rice foi criada católica desde pequena. Como muitos intelectuais educados no Catolicismo - sei lá o que fazem às crianças na catequese! - algo ali correu mal.
Primeiro, Anne Rice, como um bom católico, não distingue Deus de Jesus Cristo. Anne Rice fala de ter imaginado, em pequena (pela voz de Lestat), serem-lhe cravados os pregos nas mãos e nos pés, como a Jesus. E isto bateu-me forte. Bateu-me forte porque tive uma amiga - ok, namoradita - que me disse, quando eu lhe perguntei porque é que ela acreditava em Deus, “Imaginas o que é pegarem num prego e espetarem-to nas mão direita, e depois na mão esquerda, e depois nos pés juntos, assim...?” - e fez a posição dos pés de Cristo na cruz. Lembro-me de ter ficado estupefacta. Não, nunca tinha pensado nisso. Ela fez-me pensar. E de repente, anos, mas muitos anos depois, volto a ler o mesmo no livro de uma americana muito mais velha do que a minha amiga.
Mas que raio? O que raio dizem às crianças na catequese?... Estou horrorizada! Mas evidentemente que essas pessoas só podem crescer a odiar Deus!
Porque raio a minha amiga e Anne Rice imaginaram que os pregos eram cravados nas mãos delas? Eu já imaginei muitas formas de morte, também, mas nunca a de Cristo!
E agora acredito - no sentido de concordar - que as crianças não devem ser carregadas com religião. Têm tempo de a descobrir por si se assim quiserem, depois de adultos. A religião é uma coisa de adultos. Jamais admitirei que impinjam religião às crianças, jamais!
Se bem que há crianças como eu que pedi aos meus pais para ter aulas de Moral e Religião na escola primária, porque EU queria. Assim é outra história. Deixaram-me tê-las, e ainda bem. Porque eu tinha curiosidade. Porque, como já devem ter percebido, o sobrenatural atrai-me como o íman atrai o ferro. Mas isso sou eu. Eu entro e saio da religião quando quero. Sempre foi assim. Cuidado com as vossas crianças. A religião não é para todos!

Por esta altura devem estar a pensar “mas no que raio é que esta gaja acredita?”...
E agora percebo que acredito em tudo. OK, é uma forma de falar. Quero com isto dizer que tenho a mente aberta. Admito todas as possibilidades. Admito que depois da morte possa não haver nada. Absolutamente NADA. Admito que depois da vida possa haver outra vida. Admito a hipótese neste livro, e daí o choque, a revolta, o murro na barriga que me pôs a ver estrelas.
Claro que tenho as minhas suspeitas. E digo “suspeitas” porque nesta matéria ninguém pode ter certezas. Escusam de vir para os comentários dizer que Deus não existe e que Deus existe porque perdem o vosso tempo.
NÃO HÁ PROVAS. Admitam e poupem-me aos argumentos batidos.
As minhas suspeitas estendem-se no sentido da teoria da reencarnação. Adorava dizer-vos porquê. Acontece que tem sido um acumular de leituras e experiências ao longo da vida - e nessa altura não tinha um blog, logo, não registei... :)
No entanto, sou Católica, baptizei-me depois de adulta, e não penso que a teoria da reencarnação colida de alguma forma com a doutrina católica. Quando dizem, no Credo, “acredito na ressurreição da carne”, o que é isso senão a reencarnação?... Quem é que ressuscita na carne? Quantos ressuscitados na carne já viram? Jesus? Mas Jesus é um caso especial. E mesmo assim, não sabemos se ressuscitou na carne, nem importa. De outra forma, estamos a falar de quê? Do Dia do Juízo Final? Quando todos os mortos se levantaram das campas? (Oh, o horror!)
Por acaso tenho muitas dúvidas aqui atravessadas quanto ao Dia do Juízo Final, o Armagedão e a Segunda Vinda de Cristo. Dúvidas que a Igreja Católica diz que são Mistérios. O que não me satisfaz. Porque eu questiono. Podem excomungar-me à vontade. Continuarei a questionar.
Isto interessa-me. Falem-me de modo racional. Continuam a falar-me em Mistérios e eu continuo a sorrir para mim mesma, pensando “Sabem tanto ou menos do que eu”. Acontece que eu quero mesmo saber. Toda a vida quis saber.
Mas a teoria da reencarnação, faz sentido. Faz mesmo TODO o sentido.
De resto, a religião em que se adora Deus, é irrelevante.
E é nisto que eu acredito - acreditar no sentido de “concordar”.


De volta ao livro
Posso dizer-vos que quando acabei de ler - e foi uma leitura frenética, obcecada (já deu para ver que eu sou de obsessões), ininterrupta, febril, até dolorosa - só pensava em tudo de contrário que tinha lido na Bíblia. Aliás, durante a leitura, por minutos parava, de olhar perdido na parede e alma violentada, e dizia a mim própria: “Não pode ser. Não é isto que diz a Bíblia.” E ao mesmo tempo, toda a minha inteligência me dizia que a Bíblia foi escrita por homens, homens supostamente sob inspiração divina, mas que nada me garantia que não fossem apenas homens alucinados a tentar acreditar num Deus Bom, no Deus em que eu acredito. E se fosse tudo imaginação? E se eu também imagino?
“Quem beber de Mim terá a Vida Eterna”. “Venham a mim os que têm sede de Justiça”.
O pior não é Deus não existir. O pior é Deus existir e não querer saber da sua Criação. Porque nós, humanos, amamos a nossa descendência, os nossos filhos. Não nos passa pela cabeça a ideia de um Deus que não ama os seus filhos. E no entanto... quem nos garante? Deus nem sequer é humano!
Aí está o horror, o grande horror! “Feitos à semelhança de Deus”, mas até que ponto? E se for, como diz o livro, “feitos à semelhança de Deus” no sentido antropomórfico, de ter cabeça, corpo e quatro membros? E de resto, mais nada?...
E se Deus for mais insensível do que eu? Do que nós?... E se Deus for um Deus como sugere o Mangas, que não só tem mais que fazer do que pensar no meu gato mas também em nós todos... E nós somos para ele como o meu gato é para a maioria das pessoas... É a Natureza.
Todos nós, abandonados, criados e abandonados pelo Criador.
Quem nos garante?... Nada nos garante. Facto.
Estou a disposta a lutar pelos factos. Não pelas quimeras, por isso nem tiro o cu do sofá, mas pelos factos.
E se a Criatura ultrapassou Deus em Ética? E se a Criatura tem mais Moral do que o Criador?


Anne Rice e o Deus Louco
Voltemos à “Rainha dos Malditos”. Como em qualquer saga, só se compreende o todo se se ler o princípio e o fim. E o meio.
Tal como já disse, é difícil perceber “A Rainha dos Malditos” sem ler os primeiros dois livros. Mas lendo este livro é ainda mais fácil.
Imaginem que são vampiros. Como tal, a vossa existência está dependente do primeiro vampiro. Se esse vampiro morrer, vocês morrem. Imaginam agora que esse primeiro vampiro quer destruir-vos. Têm duas escolhas: destrui-lo e morrer ou não o destruir e morrer também. Akasha, a Rainha dos Malditos, é uma criatura estúpida, que quer utilizar a mitologia humana para se fazer passar pela Rainha dos Céus, a Deusa pagã, a Maria cristã, para ser adorada, quando ela não passa de um assassina hipócrita que quer fazer crer que a sua violência é um meio de impor o Bem. Para isso, é preciso eliminar 99% dos seres humanos de sexo masculino para pôr termo à violência. Mas ela esquece-se de uma coisa: não há paz imposta pela guerra. Ela é uma espécie de George Bush e de Al-Quaeda ao mesmo tempo. A personificação de todos os pesadelos. Quem manda em nós é estúpido que nem uma porta.
Não há escolha. Há aceitação. Há uma deusa poderosa e destruidora à solta e apenas podem aceitar o vosso destino. É a vossa história de terror.

Com este Deus louco e insensível de Memnoch, Anne Rice coloca-nos a todos debaixo da mesma história de terror. E se?... Quem é que vai garantir que não?
Poupem-me, já vos disse, os comentários batidos. Não me torturem com os argumentos que já toda a gente ouviu.
E se Deus for um cientista genial mas avesso às críticas ao Seu trabalho? Deus nos livre! Deus nos livre de Deus! Porque nesse caso, como diz Lestat, “estamos entregues a seres loucos!”.
Lestat que acaba perdido de doido no fim do livro. Nem sequer é um crente. Mas é como vos digo. Se isto é inferno para os descrentes, é o rasgar ao meio do coração dos crentes.
Um Deus que não se importa? Que se importa menos com o sofrimento da sua Criação do que nós choramos pelos nosso filhos? Não é humano! Mas Deus não é humano. E tudo isto pode bem ser verdade. E tudo isto é demasiado horrendo para acreditar, e no entanto, antes a verdade que a doce ilusão.
Não gosto de ser surpreendida, muito menos gosto de ter surpresas desagradáveis. Deste modo, terei muito mais prazer em qualquer coisinha melhor do que eu imaginava. Mas jamais imaginei tamanho horror. E vai-me levar um tempo a lembrar porque tenho fé em Deus.
Hoje fui ao meu jardim ver o pôr-do-sol, contemplar a Criação, e acabei por rezar. Conhecem melhor sítio? Não pedi sinais. Tal como não corri para a Igreja, nem voltei a ler os evangelhos como me apeteceu. Como vos disse, foi tudo escrito por homens. Não é por aí que serei convencida. Nem foi isso que me convenceu. Vai demorar algum tempo a lembrar-me do que me fez ter fé.
Este livro abalou a minha fé. Este livro abalou-me.
Por isso, é certamente um bom livro. E viva o Jardim Selvagem de Lestat onde só a Beleza e a Arte são leis indiscutíveis. Se ao menos eu pudesse acreditar nisso... Mas eu quero Justiça. Tenho sede de Justiça. Se não acreditasse na Justiça, seria um monstro como Lestat é um monstro. É por isso que gosto tanto dele e me identifico tanto com o personagem? Pobre de mim!... É mesmo por isso! Sem fé, eu seria mais um monstro neste Jardim Selvagem.
Mas não me conformo. Não, não me conformo. Mesmo que nós seres humanos, por ironia do Destino que Anne Rice tenha exposto a Verdade sem querer, não passemos de fantasmas revoltados, estou disposta a lutar pela Justiça Aqui e Depois, e Sempre, não porque isso dê sentido à minha vida, mas porque é o correcto a fazer.
As leis éticas que me regem estão dentro de mim, não fora. Não em qualquer credo ou religião. Mas dentro de mim. Nasci para o Bem. Ponto final.


É verdade... No fim do livro, a nossa hárpiazinha, Armand, e apesar de saber tudo que aqui expus, Armand converte-se a Cristo. Era uma consciência demasiado pesada. Eram demasiados crimes e demasiado Mal para ele carregar - até ele! Fico feliz por ele ter admitido. Não fico feliz pela forma como se converteu. Como eu disse, eu nasci para o Bem. Acho que aprendi a amar um inimigo.
E não posso dizer mais nada sem revelar o fim do livro. Se fosse uma obra muito conhecida, poderia dizê-lo. Sendo assim, não faço aos outros o que não gostaria que me fizessem a mim.

Enfim, acho que já perceberam, é um livro que aconselho a ler.

Publicado por _gotika_ em 09:07 AM | Comentários: (11)


Comentários: filmes e livros e livrarias

Mas diz-me uma coisa em relação ao "Queen of The Damned": suponho que o argumento do filme tenha fugido imenso ao livro, verdade? (...)Enviado por jesusrocks em abril 7, 2004 02:33 PM

Não vi o filme. Pelo que vi do trailer, no site do filme (link no post anterior), e pelos comentários do produtor posso dizer que sim, que o filme é uma pálida imagem do livro. Mas compreendo que tenha que ser assim. “A Rainha dos Malditos” é um livro muito extenso, que explora a vida de muitos personagens em grandes espaços de tempo. Era preciso resumir. É claro que se cometeram erros imperdoáveis. Não havia necessidade de atribuir a criação do vampiro Lestat ao vampiro Marius. Quiseram cobrir também um pouco do livro “O Vampiro Lestat” e falharam. Ou melhor, atabalhoaram. E também não era necessário construir uma história de amor entre Jesse e Lestat quando a grande paixão de Lestat é por Louis... Ah, pois é!
Continuo a pensar que quem não leu os dois livros anteriores não percebe nada do que se passa na “Rainha dos Malditos”. As vampire chronicles são uma saga, como “As Brumas de Avalon”. Acho que isto diz tudo.
E eu tenho uma certa queda por sagas...

Geralmente não gosto das traduções (por exemplo a do "Dracula" de Bram Stoker não está nada bem conseguida) e encontrar livros na língua inglesa por aqui é complicado. Enviado por jesusrocks em abril 7, 2004 02:33 PM

Não sei onde moras mas em Lisboa tens a Livraria Buchholz e a Livraria Britânica. (Se alguém conhece sítios onde encontrar livros na língua original - de preferência baratos ou em segunda mão - faz favor de dizer nos comentários) Mesmo por causa disso, resolvi pedir um cartão de crédito (nunca na vida tinha tido necessidade dele) para encomendar compras do estrangeiro através da internet. Parece estranho mas acaba por sair mais barato, o que não deixa de ser sintomático...

Publicado por _gotika_ em 04:29 AM | Comentários: (3)