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domingo, 22 de março de 2020

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2 / Amanhecer - Parte 2 (2012)


[contém spoilers; revela o fim]

Quinto e último episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e Bella-a-rapariga-que-nasceu-para-ser-vampira (diz ela). Este foi o melhor dos filmes Twilight e não apenas pela razão mais óbvia: acabou! Estou livre! Adeus!
Não, “Breaking Dawn Part 2” surpreendeu-me porque pela primeira vez desde que vejo os filmes desta série não achei uma autêntica seca, e teve uma batalha e tudo… isto é, mais ou menos. Mas para não estragar nada, e se ainda houver uma alminha que não conheça o final, é melhor parar de ler JÁ e voltar a esta crítica depois de ler/ver o fim. Não digam que não avisei.
Mas agora sem ironia, este foi realmente o meu filme preferido da série, e tudo por causa dos Vulturi. Os Vulturi é que deram vida (e morte) a esta seca toda.
Mas antes disso, tudo aquilo em que me enganei na crítica anterior:
Julguei que o ponto alto desta segunda parte de “Breaking Dawn” fosse o momento em que Bella teria de explicar ao pai o crescimento anómalo de Renesme. Pois bem, isto nem sequer foi abordado como deve ser. Disseram ao pai de Bella que a menina era uma sobrinha, e ele também não achou estranho que a miúda crescesse como se tivesse sido feita em laboratório. Nem quando Jacob lhe mostra que existem lobisomens aquele palerma decide perguntar à filha se Bella era agora uma lobisomem (lobismulher?) também. Que decepção, ó pai da Bella! Julgava-te muito mais esperto!
Outra coisa em que me enganei foi ao supor que os Vulturi estavam interessados na Renesme. Nada mais errado. Eles estavam interessados era na Alice, a tal que tem os poderes psíquicos de ver o futuro. Ora, eu nem me tinha apercebido de que a Alice era uma personagem importante! Imaginem o meu choque!
Mas o enredo principal centra-se mesmo em torno de Renesme (a quem Jacob, seu auto-nomeado protector, dá a alcunha de Ness, o que leva Bella a zangar-se com ele por lhe ter dado a alcunha do monstro de Loch Ness... Ora, Bella, e mesmo assim é muito mais bonito do que o nome que puseste à tua filha, ó criatura com falta de gosto!).
E aqui, meus amigos, temos um enredo “Claudia”. Uma vampira que eu nunca vi na vida mas que é a Althea de “Fear the Walking Dead”, e aparentemente parente dos Cullen (?), vai visitá-los e fica chocada ao ver uma criança entre eles. Imediatamente, vai fazer queixinhas aos Vulturi de que os Cullen fizeram uma criança vampira. Isto é proibido e os Vulturi partem de imediato para destruir a criança e os Cullen também (excepto a Alice, a quem querem capturar devido aos seus dons).
Ora, isto é o enredo de “Entrevista com o Vampiro”, parte Claudia, com algumas variações. Se até aqui eu desconfiava que os Vulturi tinham sido inspirados no vampiro Armand de Anne Rice, agora tenho a certezinha absoluta. E que se tirem daqui as devidas conclusões. Também me enganei ao julgar que os Vulturi iam ter alguma curiosidade científica quanto a Renesme. Não, isto é mesmo e apenas “Armand do Thèâtre des Vampires quer esturricar Claudia porque é proibido fazer vampiros tão jovens”.


Mas não me enganei quanto ao facto de Renesme não ter sido a primeira “híbrida”. Era óbvio que não podia ser. Desde quando é que, na possibilidade de existir sexo entre humanos e vampiros, este não seria experimentado? O inverosímil é que nem os Cullen nem os Vulturi (nem qualquer outro dos “antigos”) tivessem conhecimento de casos anteriores. É que não devia haver apenas um ou dois ao longo dos milénios. Devia haver dúzias. Tudo isto foi mal pensado e abre mais um buracão na história.
Renesme não é exactamente uma vampira***, e o equívoco podia muito bem ser resolvido com uma conversa se os malvados Vulturi estivessem para isso. Mas não estão, e segue-se uma batalha entre eles e os amigos dos Cullens, com a ajuda dos lobisomens.
Aqui encontrei mais uma incoerência. Jacob diz que as alcateias vão querer lutar, mas por alma de quem? Porque “nunca tiveram medo de vampiros”, diz ele, e é verdade, mas não seria muito mais lógico que não se envolvessem e deixassem os vampiros matarem-se uns aos outros? Afinal, ainda no filme passado eram eles quem queria destruir a abominação Renesme… Porque é que mudaram de ideias? Jacob é agora o lobo alfa (o que manda) e ninguém nos informou? Não se percebe.
***Quanto a Renesme, a ideia é que a miúda é metade-vampira metade-humana. O que é que isto significa? Que ela tanto pode viver de sangue como de comida? Mas precisa de sangue ou não precisa? Porque se não precisa não é vampira. Mas se é, e se deixar de beber sangue, perde os poderes vampíricos? Sinceramente, não sei nem quero saber. E espero bem que não haja uma sequela a contar as aventuras de Renesme.
Então, de volta ao filme, chegamos à batalha e as coisas ficam bastante graves. Quando eu vi a cabeça decepada do Carlisle Cullen julguei que ia ser muito a sério. E pensei: “Tu queres ver?! Que morre o Edward, que morre a Bella, que morrem todos e só se safa a Renesme porque é salva pelo Jacob?” E de repente tudo se tornou mais empolgante. Suficiente para redimir a saga inteira. Começou a batalha. Parecia uma batalha dos “Vikings”, com tantas cabeças cortadas. Morreram vampiros importantes. Morreram lobos. Lágrimas vieram-me aos olhos e o meu coração partiu-se… Mas, afinal, nada disto aconteceu. Exactamente assim: não houve batalha nenhuma. Foi tudo uma visão que a tal Alice inspirou ao líder dos Vulturi. No fim vão-se embora antes que haja batalha.
Também já na última versão dos “Ficheiros Secretos” fizeram o mesmo: ah, não era o fim do mundo, era só uma visão. Truque baixo que defrauda as expectativas do espectador. Pior que isto só o sonho infame de “Dallas”, em que uma temporada inteira foi um sonho.
E assim terminou a saga Twilight… Ah, não, há mais. Outra coisa que eu esperava ansiosamente era que o Jacob finalmente se libertasse da Bella e disto tudo. Em vez disso, torna-se protector da filha da Bella, o que já é suficientemente doentio. Mas no fim, mesmo no fim, Alice tem outra visão. Jacob e Renesme abraçados, ela já adulta, tão juntinhos que me pareceram um casal. Eu não quis acreditar no que vi. E pensei: “Desliga lá a mente ordinária, que isto que viste foi só fraternal”. Mas fiquei tão incomodada que fui à internet procurar. E então não é mesmo verdade que o Jacob espera que a Renesme cresça (sete anos apenas, porque ela cresce depressa) e se tornam um casal romântico?! Uma coisa é o Edward andar atrás da Bella que é 80 anos mais nova do que ele, mas até fecho os olhos. Muito diferente é alguém que tem sobre uma criança o papel paternal de um tio e que a certa altura deixa de ser paternal para se tornar… o quê? Já seria suficientemente mau que ele esperasse pela filha na impossibilidade de ter a mãe, mas acompanhar essa criança desde bebé? Sou só eu, ou acontece aqui algo de muito errado? Pelo menos podiam separá-los e podiam encontrar-se muito tempo depois, sem que o Jacob alguma vez lhe tivesse mudado a fralda. Pobre Jacob, o que fizeram à personagem dele, uma das mais interessantes da saga. Desde o primeiro livro (aquele que li), Jacob sempre me pareceu o único com alguma coisa na cabeça. Eu estava a torcer para que ele se libertasse desta relação a três (ou a quatro?) mas nem essa sorte eu tive.
Não admira que Twilight tenha dado origem a coisas mais doentias ainda (50 Sombras de Grey e sabe-se lá mais o quê).

Este abraço

E assim acabou a saga com um sabor a pedofilia que era completamente dispensável. Vou fingir que não vi isto. Melhor, vou fingir que nunca vi esta saga. E vou dar mais um pontinho porque é o último filme:

13 em 20

Acabou! Acabou!


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Seventh Son / O Sétimo Filho (2014)


Durante os primeiros 5 ou 10 minutos ainda julguei que este podia ser um filme sério. Bem, depende do que se entende por “seriedade”, porque “O Sétimo Filho” é um filme dirigido a uma camada infanto-juvenil e nesse aspecto faz o que deve e merece esta críticazinha.
Papás e mamãs, este filme é ideal para miúdos entre os 8 e os 13, com umas pipocas e uma coca-cola (sem açúcar), e não é tão infantil que não possa ser visto pela família toda. É Fantasia, os efeitos especiais mais parecem um jogo de vídeo, as mortes não são realistas, o sexo é implícito mas não se vê nada, não há sangue, os personagens caem de um precipício umas três vezes (sem exagero) e nem sequer torcem um tornozelo.
Mas, como dizia, cheguei a pensar que isto ia ser um filme sério devido à presença de Julianne Moore, aqui a fazer de rainha das bruxas, e quando Julianne Moore aparece rouba a cena inteira. É certo, não lhe dão muitos desafios com esta “rainha das bruxas”, mas Julianne Moore, muito profissionalmente, quase consegue transformar este “desenho-animado” numa personagem de carne e osso. O outro protagonista (o caçador) é Jeff Bridges.
Da mesma forma, Kit Harington (sim, esse, o Jon Snow da “Guerra dos Tronos”) também faz aqui uma aparição durante os primeiros minutos do filme. Não dura muito, coitado, pois é apanhado pela rainha das bruxas que tem o poder de se transformar em dragão, e aqui é Jon Snow quem se lixa. (Fez-me rir, admito.)
A história é do mais cliché que há. Um velho caçador de monstros (tipo Van Helsing), último representante de uma ordem de cavaleiros criada para esse fim, procura um novo aprendiz que tem de ser o sétimo filho de um sétimo filho. O seu último aprendiz (o tal “Jon Snow”) demorou dez anos a treinar mas agora o caçador não tem tempo para estar com “formações” porque se aproxima a Lua Vermelha, altura em que a rainha das bruxas e outros monstros têm mais poder e se preparam para fazer Maldades. Nunca nos é dito que Maldades exactamente, excepto que Julianne Moore se quer vingar das cidades que queimam bruxas; e as cidades queimam bruxas porque estas atacam as cidades; e as bruxas atacam as cidades porque estas queimam bruxas… e já estão a ver a pescadinha de rabo na boca. A missão do caçador e do aprendiz é destruir a Bruxa Má e seus lacaios antes que estes façam as tais Maldades.
Honra lhe seja feita, o filme tentou dar alguma complexidade aos personagens. Vem-se a descobrir que afinal o caçador esteve perdidamente apaixonado pela rainha das bruxas mas não resultou (drama!) e o novo aprendiz é filho de uma bruxa (Boazinha) e também se apaixona por uma jovem bruxa (igualmente Boazinha). Mas nenhum destes conflitos é aprofundado, fica tudo pela rama. Já o final não é tão cliché como é costume nestes casos. Quem acaba por derrotar a rainha das bruxas não é o caçador mas sim a própria irmã dela (mãe da jovem bruxa) para proteger a filha.
Em suma, é um enredo que pode ser acompanhado pela família toda sem nunca traumatizar os miúdos e sem aborrecer muito os adultos. A performance de Julianne Moore salva isto tudo, e entre os maus efeitos especiais até temos um que é interessante, um dos Maus que é inspirado num deus hindu e que tem quatro braços, e consequentemente luta com quatro espadas. Foi algo que nunca tinha visto.
E é tudo. “O Sétimo Filho” é um filme decente para uma matiné e não há mais nada a dizer.

12 em 20 (para miúdos dos 8 aos 13 anos)



domingo, 5 de janeiro de 2020

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 1 / Amanhecer - Parte 1 (2011)


Quarto episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e sua amantíssima esposa Senhora-Dona-Bella-Cullen.
O filme não perde tempo. Arranca logo com o casamento. Eu sempre pensei que eles não se casassem tão depressa, que houvesse mais peripécias antes disso. Mas a Bella não quer outra coisa senão ser vampira, e afinal há a ameaça dos Vulturi, por isso faz sentido.
O Jacob, pobre Jacob, nem assim a tira da cabeça. Continua um cachorrinho atrás dela. Será que no último filme/livro este desgraçado sem auto-estima vai finalmente partir para outra? Eu estou a torcer para que sim.
Edward e Bella vão passar a lua-de-mel no Rio de Janeiro, onde descobrimos que Edward sabe falar português. Não percebi nada do que ele disse, mas enfim, pelo menos arranha. Não ficam muito tempo no Rio. Afinal a lua-de-mel vai ser numa ilha privada dos Cullen.
E depois acontece a cena da cama. Na noite de núpcias, Edward consegue partir a cama toda. Ora, eu não costumo pedir pormenores quando o que se passa é normal, mas isto é tudo menos normal! Como é que aquela cama acabou naquele estado? Sim, queria ver isso. Ao pormenor.
Admito que já sabia da cena da cama porque uma amiga me tinha contado. Fartámo-nos de rir as duas. Não sei como é que isto não acabou num Scary Movie. (Para quem não sabe, “Scary Movie” é uma série de filmes-paródia aos filmes de terror. Não costumam ter muita piada.) Esta cena da cama é já de si uma anedota, só precisava de ser condimentada.
Em resultado, e como estão numa ilha isolada onde não há IKEA para comprar camas baratas, Edward e Bella passam o resto da lua-de-mel a jogar xadrez. Pobre Bella. Eu fiquei aborrecida só de assistir.
Mas tudo isto para chegarmos ao verdadeiro enredo do filme: a gravidez de Bella. E é uma gravidez digna de um “Rosemary’s Baby”, ou pior ainda, em que a gestação progride a um ritmo vertiginoso. Os vampiros estão surpreendidos que isto pudesse acontecer e também não sabem o que vai sair dali. Mas Bella quer o bebé, por muito monstro que seja. O que é natural. Vão lá dizer a uma mãe que o seu bebé é um monstro.
Agora fiquei muito curiosa para ver como é que ela explica isto ao pai dela. “Olá pai, cheguei da minha lua-de-mel de duas semanas. Aqui tens a tua neta.” Vai ser o ponto alto de toda a saga para mim.
Os lobisomens decidem que este monstro não pode existir e querem ir matar a Bella. Pouca curiosidade científica da parte dos lobisomens, para quem é lobisomem. A primeira vez que um vampiro tem um filho com uma humana e não querem saber o que vai nascer? Mas os lobisomens de Twilight têm esta característica xenófoba de achar que todos são monstros menos eles, como já assinalei na crítica ao filme anterior.
Por falar em lobisomens, e como também já disse do filme anterior, aquela reunião de lobisomens em estado lobo e a falar inglês entre eles é algo entre o infantil e o ridículo. Percebo como é que pode funcionar nos livros em que as falas telepáticas têm de ser verbalizadas, mas nos filmes resulta muito mal. Teria sido melhor que os lobisomens se reunissem em estado humano, e sempre se evitava mais um bocadinho de CGI mal conseguido.
A princípio Jacob quer matar o Edward, mas depois o amor fala mais alto e decide antes proteger a Bella e o bebé, como já se esperava, e agora não estou a ver o que é que possa acontecer de interessante no último filme. (Tirando a parte em que têm de explicar isto ao pai da Bella, isso eu quero ver!)
Mas esperem, o filme ainda não acabou. Já corriam os créditos finais e eu já estava com o dedo no “apagar”, quando acontece a cena mais interessante do filme todo e eu quase a perdia! Por um minuto ou dois aparecem os Vulturi, os vampiros mais riceanos e vilanescos desta saga e por isso os únicos que me fazem vibrar alguma coisa, dizendo entre eles que os Cullen têm algo que eles querem. Aposto que é a Renesme, a filha da Bella. E devem querê-la porque são vilanescos e malvados, mas pelo menos têm curiosidade científica. Estes Vulturi devem mesmo ter sido inspirados no vampiro Armand. Só pode.
E sim, a pobre criança chama-se Renesme. Não bastando ser filha de dois vampiros, ainda tem de viver com este nome o resto da vida possivelmente imortal. Ninguém merece.

Enfim, o que dizer de sério sobre isto tudo? O filme nunca apresenta uma explicação sobre esta gravidez, mas se é possível, e um pouco mais atrás ainda, se os vampiros podem fazer sexo com humanos, então duvido muito que Renesme tenha sido a primeira vez. De certeza já devia ter acontecido e os Cullen teriam conhecimento disso.
Na mitologia clássica, um vampiro é um morto que se levanta do túmulo por meios sobrenaturais (diabólicos ou outros) sustentados pelo sangue das suas vítimas. (“O sangue é a vida.”) Os vampiros de Twilight parecem-me cada vez menos “mortos” e sobrenaturais e cada vez mais seres humanos geneticamente modificados pelo tal “veneno” (vírus?) que os transforma em imortais com força e rapidez sobre-humanas. Mas fica a questão. Se não estão mortos (Edward produziu um bebé, por isso definitivamente não está morto) porque é que precisam de sangue? O propósito do sangue é mesmo esse, sustentar a vida sobrenatural do vampiro através da ingestão da vida das vítimas simbolizada no sangue. Se não existe esta necessidade sobrenatural, porque é que os vampiros de Twilight são vampiros?
Mas de certeza ninguém quis saber de nada disto.


12 em 20



segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Alien: Covenant (2017) / Prometheus (2012)


Alien: Covenant (2017)

Como faço muitas vezes, comecei a ver este filme sem saber quase nada sobre ele. Nem que era de Ridley Scott, nem que era um filme da série Aliens, nem que era a sequela de “Prometheus”. (Da sinopse e título pensei que era a história de colonos espaciais que encontram uma civilização alienígena hostil.) Não saber nada de um filme (ou livro) permite-me absorver a obra sem expectativas ou ideias preconcebidas. E admito que fiquei agradavelmente surpreendida quando percebi que ia ser um filme da série Aliens. Até cerca de metade do filme gostei bastante. E de repente o filme tornou-se confuso. Comecei a ter a sensação de que tinha perdido um episódio. Efectivamente, perdi, porque ainda não tinha visto “Prometheus”.
Então a história é esta. A nave espacial Covenant dirige-se a um sistema solar distante na intenção de o colonizar. Mas, durante o caminho, recebe uma transmissão humana, vinda de um planeta tão propício à vida que é completamente compreensível que a missão decida investigar e, talvez, estabelecer-se mesmo ali.
Mas a transmissão é uma armadilha. E de quem? Ora, é esta a parte em que seria preciso conhecer o que aconteceu em “Prometheus” e em que comecei a ficar confusa.
“Alien: Covenant” começa muito ao estilo de “Odisseia no Espaço” (ou filmes semelhantes da altura, até nas roupas que parecem ter saído dos anos 70) com o criador de um andróide muito evoluído, e este próprio andróide, David, a terem uma discussão altamente filosófica sobre quem devia servir quem uma vez que o andróide é eterno e o criador é mortal.
Muda a cena, estamos na nave Covenant. Esta nave tem um andróide, que eu julguei que era o tal David (são iguais) mas afinal não era. Instala-se a confusão na minha cabeça.
A tripulação da nave desce ao tal planeta, onde começam a ser infectados pelo nosso alien do costume (afinal não fui assim tão enganada pela sinopse, simplesmente o alienígena hostil não é um desconhecido) através de esporos que entram pelo nariz, boca, ouvidos e outras reentrâncias do corpo humano. Mas a maneira como sai é a mesma: buraco entre as costelas e lá vai ele.
Entretanto, já andam pelo menos dois aliens adultos à solta ainda antes que a pobre tripulação perceba muito bem o que lhe está a acontecer. Quando estão a ser atacados, eis que entra em cena o primeiro andróide, David, o tal da primeira cena, com armamento que afugenta os aliens.
E aqui parece que o filme deixou o universo Aliens e entrou no universo O Senhor dos Anéis. David vem coberto com uma manta encapuzada à elfo, de longos cabelos loiros, no papel do estranho misterioso e cheio de poderes sobre-humanos que oferece ajuda.
Só percebi que era um andróide quando ele se volta para o andróide da nave e lhe chama “irmão”, e só aí percebi que o andróide da nave não era o mesmo do princípio.
Ok, avançamos. A tripulação é levada para as ruínas de uma cidadela completamente rodeada de cadáveres carbonizados (a lembrar Pompeia) e ninguém se lembrou de perguntar ao tal David o que raio se tinha passado ali. Entretanto, este explicava que era o único sobrevivente da nave Prometheus, dada como perdida, e a fonte da transmissão que leva ali a tripulação da Covenant.
O filme continua dividido em dois a partir daqui: por um lado, os recém-chegados da Covenant protagonizam um filme Aliens como estamos habituados, eles a fugir, os aliens a comê-los, enquanto que os dois andróides se retiram para mais uma conversa filosófica como se nada se passasse lá fora.
E aconteceu-me outro momento de grande confusão. O novo andróide, o tal David, subitamente aparece de cabelo preto e cortado, e quase igual ao outro, e durante toda a cena eu não percebi que era o mesmo actor a contracenar consigo próprio! Aqui tenho de dar os parabéns ao actor Michael Fassbender que me convenceu completamente de que era duas personagens diferentes a ponto de enganar os meus olhos. (Mas deixem-me explicar o motivo principal da minha confusão, que foi o cabelo loiro. Isto é explicado no filme anterior, “Prometheus”. Quem conhece os andróides de Aliens não lhes nota qualquer vestígio de vaidade ou vontade de ser diferente. Mas David, aparentemente, foi o primeiro andróide a ser criado e é muito mais humanizado do que os outros, o que se revela um problema. Sim, David decidiu mudar de visual. E isto baralhou-me tanto que passei o filme a tentar perceber quem era quem. Mas lá consegui apanhar o fio à meada e até adivinhei a reviravolta final.)
Fazendo justiça a Ridley Scott, se eu tivesse visto “Prometheus” primeiro esta confusão não se punha porque David é completamente inesquecível. O que só vem reforçar a ideia de que os filmes são episódios e precisam um do outro, e não aconselho ninguém a ver “Alien: Covenant” antes de “Prometheus”. A sensação de “episódio perdido” persiste até ao fim do filme. Comecei a ficar com a impressão de que “Alien: Covenant” se tinha passado antes mesmo do primeiro Alien, que este tal David é que tinha manipulado geneticamente a raça de aliens até estes se transformarem nos aliens que viemos a conhecer nas aventuras da Ripley, mas tudo isto apenas como hipótese e sem lhe conhecermos as motivações. Este David, neste filme, aparece como um Dr. Frankenstein apaixonado pelo seu monstro, um filme dentro de outro filme. Mas um filme que termina no Aliens “habitual”, com todas as reviravoltas que esperamos desta saga. Se alguém tem o direito de inovar é mesmo Ridley Scott, realizador do “Alien” original, mas parece-me que ele tentou fazer a sua “Odisseia no Espaço” ao mesmo tempo que dava à audiência a dose de aliens de que esta estava à espera. Se resultou? Bem, é uma boa dose de aliens com todos os condimentos habituais, mas “Alien: Covenant” continua a parecer dois filmes que só por coincidência se interceptam e no meu caso com um “episódio perdido” pelo meio. Por este motivo, culpa minha que não vi “Prometheus” antes, abstenho-me de dar nota por agora.



Prometheus (2012)

“Prometheus” não é a dose habitual de Aliens. É um filme filosófico e ambicioso sobre a origem da vida, especialmente sobre os motivos do criador e a sua relação com as criaturas que concebeu.
O filme começa quando uns arqueólogos, na Terra, descobrem gravuras rupestres que apontam para uma raça estelar semelhante à humana e para um sistema solar longínquo que, segundo estes acreditam, é o lar dos nossos Criadores, a quem chamam os Engenheiros. Esta descoberta leva-os a uma viagem ao tal planeta dos Engenheiros, na esperança de conhecerem a espécie que deu origem à raça humana.
Enquanto a tripulação dorme na nave que a transporta até lá, voltamos a encontrar o andróide David (o mesmo de “Alien: Covenant”) e percebemos porque é que ele pinta o cabelo. David pinta o cabelo de louro depois de ver “Lawrence da Arábia”, o seu herói. E um andróide com um herói é um andróide com personalidade. David é, indubitavelmente, o personagem principal, um andróide com um complexo de superioridade em relação aos seres humanos que o criaram e que o tratam como a um robô sem sentimentos nem intelectualidade. David está chateado e tem motivos para estar chateado.
Ao chegarem ao planeta dos supostos Engenheiros, hominídeos gigantes que nos teriam criado à sua imagem, mas agora aparentemente extintos, David encontra, primeiro que todos, uma outra criação dos Engenheiros, uns estranhos micróbios cuja finalidade desconhece. Mas começa imediatamente a testá-los nos humanos, especialmente nos humanos que o tratam pior.
Há muitas cenas arrepiantes neste filme, mas na minha opinião a pior de todas é a operação à barriga. Não faltam outras, igualmente de arrepiar os cabelos. Ninguém vai sair deste filme insatisfeito nesse departamento. Os efeitos especiais são particularmente convincentes.
Mas como este não é um filme de aliens qualquer, a nossa curiosidade é conduzida para esta raça de gigantes que supostamente nos criou. Após pesquisarem as instalações que os Engenheiros deixaram no planeta, a tripulação da Prometheus percebe que este não é um lar mas uma base militar, e carregadinha de armas de destruição maciça (o micróbio alien). Visualizando gravações de imagens, percebem que os Engenheiros se preparavam para voltar à Terra com o objectivo de destruir a humanidade que eles próprios criaram.
Mas se dúvidas houvesse, David o andróide descobre que um dos Engenheiros ainda está no complexo, vivo, numa câmara de hipersono. A tripulação acorda-o e tenta estabelecer comunicação com ele, mas o gigante não quer conversas e desata a matar toda a gente que apanha. Não bastando fugir dos aliens, agora têm de fugir dele também.
Voltemos ao princípio. Filme filosófico e ambicioso em que a humanidade se confronta com o seu criador. Este criador, aparentemente, mudou de ideias e resolveu destruir a sua criação. Que moral, ensinamento, conclusão tiramos daqui?
“Porque é que queres saber porque é que eles mudaram de ideias? É irrelevante. Não compreendo.”, pergunta David à arqueóloga.
“Não compreendes porque tu és um robô e eu sou um ser humano”, responde ela.
Ainda bem que eu também sou um ser humano porque eu também queria muito saber porque é que os Engenheiros se deram ao trabalho de criar a humanidade para depois a destruir. Isto é, posso tecer milhentas conjecturas sozinha, mas o filme não oferece nenhuma. Temos de ficar com esta ideia “interessa-nos porque somos seres humanos”. Fraquinho, muito fraquinho. Eu esperava, no mínimo, uma teoria. Um motivo. Afinal ficamos na mesma.
De igual forma, não percebi o Engenheiro suicida que se mata com uma dose de micróbios alien no princípio do filme enquanto vê a nave do seu povo afastar-se. Dá ideia de que foi o único que ficou no planeta, mas afinal não, porque havia outro em hipersono. A única pista sobre este suicida é uma menção no genérico final como aquele que se “sacrifica”, o que ainda é mais confuso. Do que vimos nas tais imagens deixadas por eles, tiveram de fugir à pressa porque as experiências com aliens não correram bem. (A única parte que se percebe perfeitamente, conhecendo nós os aliens como os conhecemos.) Então quando é que isto (o suicídio/sacrifício) aconteceu? Terá sido neste planeta, como parece dar a entender, ou no deles, ou na Terra, ou noutro lado qualquer? Mais uma vez podia pôr-me aqui a tecer conjecturas, mas o filme não dá respostas. “Alien: Covenant”, a sequela, também não nos explica mais sobre esta raça de gigantes excepto o massacre que se vê na tal cidadela de que falei acima. E que mais uma vez nos deixa sem saber nada.
As únicas respostas que temos, tanto em “Prometheus” como em “Alien: Covenant”, são sobre a origem dos aliens. Afinal começaram como micróbios (ou esporos, não percebi bem) e foram sendo geneticamente manipulados (e evoluindo por eles próprios, igualmente, com a ajuda dessa manipulação), primeiro pelos Engenheiros e depois pelo próprio David, antes de serem o alien que conhecemos da nave Nostromo. Uma coisa é certa, no entanto: até como micróbios os aliens eram extremamente mortíferos, se não mais, porque não se viam a olho nu e mesmo assim entravam no corpo do hospedeiro e faziam aquilo que se sabe.

Gostei mais de “Prometheus” do que de “Alien: Covenant”, e gostei mais ao segundo visionamento. A primeira vez que vi fiquei confusa, a perguntar-me o que me tinha escapado. Afinal não me escapou nada, mas estes dois filmes têm ar de trilogia incompleta. As intenções são claras, fazer um paralelo entre a nossa criação, ou mitologia dessa criação, com a criação dos aliens, e de como acabamos todos por ser espécies a competir pela vida num universo indiferente, abandonados por um Criador que não se importa. Muito existencialista. Mas parece-me que Ridley Scott queria dizer mais e ainda não foi desta que conseguiu. A existência e motivação dos Engenheiros é interessante e misteriosa e merecia um filme só para eles. Até sem aliens.
Também gostei muito de toda a imagética criada em “Prometheus”, a começar pela primeira cena. Só é pena deixar tantas perguntas a que a sequela também não responde.
Fiquei interessada e fui investigar. Parece que Scott prevê realizar outro filme ainda só denominado “Untitled Alien Prequel". Por mim, que venham mais. Que venham todos.


Alien: Covenant
14 em 20

Prometheus
15 em 20


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Noah / Noé (2014)

 

Esta é a história bíblica de Noé e do dilúvio, versão Senhor dos Anéis com preocupações ecológicas.
Qualquer filme sobre acontecimentos bíblicos é um filme altamente escrutinado. Quem os faz também sabe disto. Depois é uma questão de perceber se o realizador quer seguir tudo à letra (“A Paixão de Cristo”) ou ser “criativo”. Aqui foram um bocadinho mais criativos, na minha modestíssima opinião, do que um filme bíblico devia ser. Não é que não compreenda as preocupações ecológicas para tornar o filme actual e relevante, mas não era preciso pôr esta gente antediluviana a disparar armas de fogo.
Há mais. Por exemplo, os anjos caídos (sim, os tais que seguiram Lúcifer) transformaram-se em pedregulhos animados a lembrar os Entes de Tolkien (porquê, oh, porquê?) e ajudaram Noé a proteger a Arca dos maus. (Se Jeová soubesse que Noé estava a ser ajudado por demónios nem Noé se safava.) Matusalém (Anthony Hopkins, com a sua cara sinistra de Anthony Hopkins), na Bíblia o homem que viveu mais anos em toda a humanidade (969 anos, não é brincadeira) e avô de Noé, tem poderes mágicos que fariam inveja a um Gandalf. Se calhar aprendeu-os dos demónios? Ai se Jeová soubesse disto tudo, Deus os livrasse! É só ler o Velho Testamento para perceber que Jeová Deus dos Exércitos não gostava nada de magias nem de feiticeiros. Mas quem fez o filme não se ralou nada com isso.
Quando se vê um filme sobre Noé, é natural esperar grandes efeitos especiais em duas vertentes principais: os animais e o dilúvio propriamente dito. E com isto falo de efeitos especiais de grande envergadura, daqueles tão caros que obrigam a que só se faça um filme sobre Noé de 50 em 50 anos. Nos animais, fiquei decepcionada. Muito pouco, poucochinho. Poucos animais, pouco detalhados, vistos ao longe. Eu queria ver os bigodes dos leões e os pêlos nas trombas dos elefantes. Fiquei desapontada. Já o dilúvio, a princípio não se distingue de uma chuvada normal. Fica um bocadinho melhor com os geisers (as águas da terra) e as vagas que finalmente cobrem o horizonte. A imagem da Terra vista do espaço, completamente envolta em furacões, como se fosse uma fotografia de satélite, também foi algo de inesperado e original num filme inspirado em temas bíblicos.
Porque convenhamos, um filme destes, quando não segue a história à letra, fica reduzido aos efeitos especiais. Todo aquele drama que acontece dentro da Arca, com Noé a querer matar as netas recém-nascidas (Jesus, que homem tão mau), armado em mais jeovista do que Jeová, completamente fanático e tarado, tipo líder de culto que decide matar todos os seguidores, isso nunca acontece na Bíblia nem nada que se pareça. Aquilo foi tudo para dar que fazer à miúda do Harry Potter. Só para repor a verdade, todos os filhos de Noé já tinham esposas antes de entrarem na Arca. E não entrou nenhum “homem mau” na Arca a matar os animais. Se isso acontecesse, na Bíblia, aparecia-lhe logo um daqueles anjos exterminadores de Sodoma e Gomorra e da Páscoa do Egipto que lhe ensinaria o significado da expressão “o temor de Deus”. Melhor gente foi fulminada por muito menos. A mulher de Ló, transformada numa estátua de sal só porque olhou para trás. Nunca, mas nunca, o Criador permitiria que se destruísse parte da sua criação que ele já tinha deliberado salvar. (Na altura Deus intervinha. Agora é que não.)
A única coisa em que o filme conseguiu acertar foi em convencer-nos da maldade dos contemporâneos de Noé. Existe uma cena bastante perturbadora que parece mesmo uma visão do inferno em todo o seu esplendor medieval, com fogo e tudo. Mais apropriada num cenário pós-apocalíptico mas completamente eficaz.
Onde o filme errou completamente foi na caracterização de uma das “personagens” principais desta história, o Deus do Velho Testamento, aquele que mandou o dilúvio. De forma alguma aqueles demónios seriam perdoados e admitidos de volta ao Céu. Basta ler o Génesis, o Êxodo, e quem não gosta do Velho Testamento que leia os Evangelhos e atente no que Jesus diz de Lúcifer e afins, culminando no Apocalipse/Revelação (o lago de fogo). Que história é que estavam mesmo a contar, afinal?
“Noé” não seguiu o relato bíblico e o fim soou mais vazio do que era claramente a intenção. A grande história de Noé e do dilúvio é a explicação da relação de Deus com os homens. De como Deus perdeu a cabeça com a humanidade e decidiu destruir quase tudo para começar de novo, e no fim arrependeu-se. É este o significado do arco-íris. Mas, ao arrepender-se, foi o momento em que Deus começou a decidir parar de intervir, e, consequentemente, a começar a afastar-se. Foi dado livre-arbítrio à humanidade, mas que faz a humanidade com esse livre-arbítrio quando Deus se afasta? Este é que é o grande tema filosófico do dilúvio, mais filosófico até do que religioso porque não é preciso ser-se crente para o compreender.
“Noé”, o filme, deixou Deus de lado e reduziu tudo isto a um duelo entre maus e menos maus. Ainda por cima a armar-se ao Senhor dos Anéis.
Sinceramente, não gostei.

12 em 20 (os pontos são para os efeitos especiais)

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Victor Frankenstein (2015)

 

Como adorei o livro original “Frankenstein” de Mary Shelly (o que me surpreendeu tendo em conta o que conhecia da história através das versões de Hollywood), raramente deixo passar uma adaptação.
Esta é mais uma, e aposta na espectacularidade gótica e vitoriana dos cenários e guarda-roupa. A personagem principal não é Victor Frankenstein mas sim o seu assistente, Igor (não é o seu nome verdadeiro mas não vou dizer como é que ele adoptou esse nome), um palhaço corcunda com amor pela medicina que Victor resgata de um circo onde este é maltratado. Ora acontece que este desgraçado é corcunda porque tem um abcesso nas costas e Victor consegue tratá-lo e oferecer-lhe uma vida normal. Mais tarde, Victor dirá que Igor foi a sua melhor criação. Considerando o enredo do filme, até tem razão.
Para quem leu o livro, a breve aparição e destino da criatura criada por Frankenstein é insultuosa. Este filme nunca foi sobre a criatura mas sobre a relação de amizade de Victor e Igor, e mesmo assim é um filme vazio, fútil, muito espectáculo e pouco conteúdo. As próprias personagens raramente se conseguem mostrar tridimensionais. Victor é o génio louco. Igor é o assistente agradecido. Lorelei é a cara bonita que é necessária num filme onde todos os personagens são homens. O monstro/criatura é o colosso abrutalhado e quase invulnerável que volta à vida com uma tendência para atacar toda a gente que vê à frente.
Qualquer semelhança com o livro original é quase coincidência. Este é um filme para ver quando não se tem mais que fazer, e vê-se muito depressa porque não há nada aqui para pensar. Recomendo antes a leitura do livro original de Mary Shelly, esse sim, genial.

13 em 20 (pelos cenários e efeitos especiais)


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Event Horizon / O Enigma do Horizonte (1997)


Este é daqueles que se vi não me lembro. Personagens genéricas e uma ameaça que fica sempre inexplicada parecem ser os ingredientes perfeitos para causar amnésia cinematográfica.
Até o enredo é mais ou menos igual a tantos outros do género: uma equipa de socorro é enviada em busca da nave de exploração espacial Event Horizon, seguindo um sinal que esta envia de algures em órbita de Saturno. Assim que vemos o aspecto da nave Event Horizon percebemos logo que isto vai ser um filme de terror inspirado no “Alien”. Meu dito meu feito, o filme não é exactamente subtil. Até a equipa de socorro nos recorda as tripulações dos vários “Aliens”, o tipo de pessoas que está ali porque é um emprego como outro qualquer e no fundo o que queriam era uma reforma antecipada. Gostei das cenas em que quase todos os membros da equipa fumam uma cigarrada antes de entrarem nos tanques de stasis (?). É datado, mas é giro. Também gostei de terem explicado o conceito de FTL (velocidade Faster Than Light) que implica causar uma “dobra” no contínuo espaço-tempo. Tudo ficção científica, bem entendido, mas como era 1997 ainda se deram ao trabalho de explicar. Actualmente a ficção científica usa o termo FTL a torto e a direito e pessoas como eu, que não conhecem estes termos nem sabem o que significam, ficam ali à nora a tentar perceber a acção, ou desistem. O que me leva a esta reflexão: uma ficção científica que não se dirija a um nicho muito específico de conhecedores devia ter em conta uma audiência mais interessada na história e personagens e menos nos aspectos científicos. Quanto mais a ficção científica se dirige a um nicho, mais aliena o público leigo.
Mas voltando ao filme. As coisas começam a acontecer como é previsível neste género horror sci-fi. A Event Horizon é uma nave fantasma, toda a sua tripulação está morta, alguns corpos andam mesmo ali a vogar nos corredores devido à ausência de gravidade. Enquanto exploram a nave, os membros da equipa da socorro começam a ter alucinações estranhas com pessoas que lhe são caras, algumas já falecidas. Resolvendo que se passa algo de anormal e perigoso, decidem ir-se embora, mas aqui entra em cena o cientista louco/malvado (Sam Neill). Acontece que foi ele quem desenhou a nave, dotando-a de um mecanismo capaz de criar o seu próprio buraco negro de modo a viajar no espaço mais depressa. Mas aparentemente a Event Horizon visitou outra dimensão e não regressou sozinha. Trouxe consigo forças maléficas que querem apossar-se dos recém-chegados. Que forças maléficas são estas e para onde querem levar a nave de volta? Para o inferno. Não, não é uma forma de dizer. O filme quer-nos convencer de que a nave foi ao inferno e voltou. (É tranquilizador saber que algures na infinitude do espaço, até do outro lado de um buraco negro, ainda se aplicam as regras da nossa civilização judaico-cristã.)
As tais forças maléficas apoderam-se da mente do cientista (ou será que ele já era assim?) e a partir daqui este faz o papel de sabotar a fuga dos outros. O resto do filme é a tripulação da nave de socorro a lutar pela vida.
“Event Horizon” não prima pela originalidade mas enche o olho em termos de efeitos especiais e cenários. É o tipo de filme que se via no grande écran (quando ainda havia grande écran, mas já em extinção) a comer pipocas. Uma crítica que li chamou-lhe uma espécie de “Shining via Aliens”, e é de facto uma descrição muito apta. Durante quase todo o filme me recordei de “The Shining”, especialmente na cena em que um dos tanques de stasis se enche de sangue, explode, e jorra sangue por todo o lado, como o célebre elevador do hotel Overlook. Fiquei foi sem perceber se o tanque aconteceu mesmo ou se foi outra alucinação. Na verdade, fiquei sem perceber grande coisa excepto que o inferno é muito mau e pode estar do outro lado de um buraco negro, e que o Génesis bíblico tinha razão: o homem não deve querer saber tanto como Deus ou será castigado. Mas acho que até já estou a tirar conclusões a mais por mim própria e a tornar o filme mais interessante do que é. “Event Horizon” aposta principalmente no espectáculo, com muitos cenários, muitas explosões, muito sangue e afins, mas na verdade é um filme vazio que não deixa lembranças.


14 em 20


segunda-feira, 4 de março de 2019

Risen / Ressureição (2016)

 

Clavius é um tribuno do exército romano incumbido por Pôncio Pilatos de provar que o corpo de Jesus foi roubado pelos discípulos.
Ao contrário de outros “filmes pascais” do mesmo género, este filme surpreendeu-me e penso que é capaz de agradar até ao ateu que nunca vê este tipo de coisas.
O filme começa com a legenda “Deserto da Judeia, 33 DC”, não nos revelando em que parte dos acontecimentos é que estamos. Logo de seguida, num flashback, Clavius e os soldados romanos lutam contra um grupo de insurgentes liderados por Barrabás. Aqui podemos pensar que foi Clavius quem prendeu Barrabás para o levar à cena bíblica em que Pilatos lava as mãos, mas em vez disso Barrabás morre na escaramuça. É Clavius quem o mata. E esta é uma maneira muito inteligente de o filme nos informar de que Cristo já foi crucificado.
Clavius é imediatamente chamado por Pilatos devido à situação em Jerusalém. Pilatos é um homem com o cargo em perigo. O imperador Tibério está para chegar em questão de dias e Pilatos não pode dar-se ao luxo de deixar transparecer que as rebeliões judaicas não estão completamente controladas. Os seguidores de Jesus, na perspectiva dos romanos, são uma facção de insurgentes e é fulcral que o corpo do seu líder não desapareça do túmulo, alimentado a profecia de que Jesus ressuscitaria. Quando o corpo desaparece mesmo, apesar das medidas de segurança reforçadas, Clavius começa a investigar quem o roubou.
Clavius investiga com a competência e o método de um verdadeiro detective dos nossos dias. Examinando cadáveres, seguindo pistas, pagando a informadores. Toda esta parte parece tanto um policial que quase nos esquecemos de que é um filme de inspiração bíblica. Mas num bom sentido, original e cheio de suspense. Clavius é tão bom detective que não só consegue descobrir a sala onde os onze apóstolos estão todos reunidos, como até encontra o que nunca lhe passou pela cabeça encontrar: o próprio Jesus ressuscitado. Tal como o apóstolo Tomé, que entra na sala e diz a Jesus que não acreditava se não visse, Clavius viu e agora tem de acreditar.
Este aspecto da ressurreição de Jesus, em que ele é visto pelos apóstolos em carne e osso, não é controverso por acaso. O filme trata-o com a maior naturalidade, sem grande misticismo para lá do implícito. Clavius é convidado a acreditar mas o filme acaba sem que se tenha decidido. O que fará depois fica em aberto. Não é costume um filme tipicamente pascal ser tão moderno sem deixar de respeitar a narração bíblica.

Nota pessoal: foi uma surpresa reconhecer a cara de Cliff Curtis (o Travis Manawa de ”Fear the Walking Dead”) no Cristo crucificado e ressuscitado. Agora vou ficar com umas associações estranhas na cabeça.

Dentro do género de filme de inspiração bíblica,

16 em 20


domingo, 27 de janeiro de 2019

The Twilight Saga: Eclipse (2010)


Terceiro episódio de Edward o-vampiro-que-brilha e Bella a-rapariga-que-só-quer-ser-vampira. E agora também temos Jacob o-lobisomem-que-quer-comer-a-Bella-no-melhor-dos-sentidos.
Fiquei um pouco confusa logo a começar. Nunca me passou pela cabeça que a situação com a vampira Victoria (a ruiva que aprendeu a correr por entre as árvores num ângulo de 90º como na Matrix) não estivesse já resolvida. Isto é que é tenacidade. Victoria quer mesmo muito vingar-se por causa de coisas que aconteceram no primeiro livro/filme e de que eu já não me lembro. Mas recordo que foi o bando da Victoria que se meteu com os Cullen por isso ela não tem razão nenhuma. As pessoas têm mesmo de aprender a desprender-se e partir para outra. Victoria precisa de ler um livrinho de auto-ajuda.
Victoria continua obcecada em matar Bella para que Edward sinta a dor de perder um amor, como ela sentiu. E também dá muito jeito ao enredo principal, porque obriga os vampiros e os lobisomens a fazer uma aliança para se revezarem a proteger Bella.
Entretanto, e depois sabemos que foi Victoria também, alguém cria um exército de vampiros recém-transformados (a quem chamam recém-nascidos) para atacar os Cullen em grande escala. Na mitologia de Twilight os vampiros são fisicamente mais fortes quando são transformados há pouco tempo. Geralmente é o oposto, o que faz com que os vampiros muito antigos sejam praticamente invencíveis. Esta ideia de maior fragilidade física mas de aquisição de outras capacidades é interessante e foge aos lugares comuns do mito do vampiro.
Por falar em mitologia, neste filme temos um flashback que nos explica como começou a animosidade entre os lobisomens e os vampiros. Mas temos também a resposta à questão que coloquei na crítica ao filme anterior, New Moon: os lobisomens têm consciência do que fazem enquanto lobos? Sim, têm. E conseguem, efectivamente, transformar-se quando querem, sem qualquer influência lunar. Até há uma cena em que os lobisomens vão a um encontro com os vampiros em forma de lobos porque se sentem mais seguros assim. (É uma cena algo ridícula, se não mesmo infantil, em que de repente temos os vampiros a combinar estratégia com os lobos silenciosos -- também era melhor se falassem! -- enquanto Bella faz festinhas ao lobo Jacob. Por falar nisso, o CGI dos lobos não é nada realista. Parece um desenho animado para crianças.)

 Eu também gosto muito de animais.

Ora, como dizia na crítica anterior, isto é problemático. Se os lobisomens têm consciência do que fazem como lobos são tão maus como os vampiros e não têm autoridade moral para se sentirem superiores. Duvido que esta questão existencial alguma vez seja abordada no universo Twilight mas fica a minha nota.
Também disse que estava a torcer pelo Jacob, mas neste filme o jovem lobisomem está a passar pela fase “parva” e não podia estar a sair-se pior com a Bella. Mas que outra coisa esperar? O rapazinho tem 16 ou 17 anos, ainda tem muito que aprender sobre como encantar o sexo oposto. O Edward tem 90 anos de lábia e anda atrás de uma miúda do liceu. Desculpem, fãs, factos são factos. Pobre Jacob, não tem a mínima hipótese.
O envolvimento dos Vulturi é, como sempre, o que mais gosto na saga. Porque me lembram os vampiros Riceanos, claro está. Armand ficaria orgulhoso destes Vulturi.
Não percebi, no filme, de que matéria são feitos os vampiros. Pedra, gelo, é por isso que brilham? É o que parece no filme, ou é culpa dos efeitos especiais. (Akasha foi durante séculos uma vampira “petrificada” mas isso era porque não se alimentava. Quando voltou à “vida” parecia completamente de carne e osso.) Quando os vampiros de Twilight são decapitados não há sangue a jorrar e carne à mostra. Parecem objectos partidos, o que lhes retira a humanidade. Como é que podemos ter pena de uma boneca partida? É isto que Bella quer ser?
Por último, nunca é explicado o título do filme. Qual eclipse? Penso que se referem ao exército que era liderado por um testa-de-ferro aparentemente criado por Victoria. Desta forma, ela estava “eclipsada” atrás dele. Será? Eu acho rebuscadíssimo mas não encontro outra explicação. Talvez o livro tenha explicado melhor.

12 em 20

domingo, 20 de janeiro de 2019

The 9th Life of Louis Drax / O Misterioso Louis Drax (2016)


[contém spoilers]

Louis Drax parece ser o miúdo mais azarado do mundo. Quando desta vez cai de um precipício, a equipa médica pronuncia-o morto. Algumas horas depois, na morgue, quase a ser colocado numa arca frigorífica, Louis acorda por momentos e de seguida mergulha num coma profundo. Para investigar o fenómeno, é chamado o dr. Allan Pascal, especialista em coma infantil.
A acreditar na mãe do miúdo, a bela e frágil Natalie, tudo indica que foi o pai de Louis quem o empurrou do precipício durante um piquenique em que celebravam o aniversário do filho. O casal estava separado e após o acidente o pai do miúdo desaparece, o que convence toda a gente da sua culpa.
Entretanto, um romance desenvolve-se entre Natalie e o médico, cujo casamento também já não andava bem. É então que coisas estranhas começam a acontecer.
“The 9th Life of Louis Drax” apresenta-nos um mistério que merece ser desvendado, mas não é o que promete. Na verdade, o filme é uma salada russa de realismo mágico (muito devendo a “Pan’s Labyrinth” e ao mais recente “A Vida de Pi”), investigação policial e promessas de sobrenatural. Infelizmente, nada disto se interliga de forma satisfatória e o filme falha redondamente. Saliento aquela cena em que o médico segue um monstro marinho pelos corredores do hospital. Isto é tenso e digno de um filme de terror. Mas nunca percebemos qual é o objectivo desta cena porque afinal o médico acorda e não passa de um pesadelo. Era só para nos assustar gratuitamente. Estas coisas repetem-se constantemente no filme. É para acreditarmos que o miúdo em coma possuiu o médico enquanto este dormia, e que o fez escrever mensagens? Porque neste caso a coisa ainda é mais sinistra.
Gostei da revelação de quem é o “monstro marinho” (Aaron Paul, conhecido como Jesse Pinkman em “Breaking Bad”), a projecção psicológica em que Louis encontra a verdade.
A verdade, infelizmente, não podia ser mais prosaica. Não me importo de a dizer aqui uma vez que a meio do filme já toda a gente percebeu menos o médico. Até é bastante interessante observar como ele é manipulado. Nem o intelecto o salva. Enfeitiçado pelo charme da femme fatale Natalie, é o último a acreditar que foi ela quem causou os “acidentes” ao filho. Isto chama-se Munchausen by proxy. [Há tradução em português?] Munchausen by proxy é também uma patologia praticamente desconhecida entre nós, o que torna este filme acima de tudo educativo e recomendo a toda a gente.
Afinal o miúdo não era misterioso. Todo o ambiente surrealista que o rodeia (alucinação, técnica cinematográfica, sonho?) acaba por não ter relevância narrativa. Sim, é verdade, no fim o monstro marinho explica tudo em termos mais simples para o miúdo perceber. Mas nada que não tenhamos percebido já.
Esta foi uma tentativa ambiciosa e alternativa de abordar uma patologia ainda pouco conhecida. É de louvar, mas não funcionou tão bem como devia.

13 em 20

domingo, 30 de dezembro de 2018

Pompeii / Pompeia (2014)

 

Neste tipo de filmes-desastre, geralmente, o personagem principal é o desastre em si. Tudo o resto são personagens secundárias que só ali estão para enfrentar a calamidade. Foi uma surpresa que Pompeia não tenha sido assim. A história é tão interessante que a certas alturas até me esqueci completamente do Vesúvio.
Tive muitas vezes a sensação de estar a assistir a um épico à antiga, daqueles dos anos áureos de Hollywood, com perseguições em quadrigas e tudo. E não é todos os dias que vemos Jack Bauer vestido de Senador romano. Elegantíssimo, e malvadíssimo, como fica tão bem a Kiefer Sutherland.


A história não é original. Milo é o único sobrevivente de uma revolta Celta esmagada pelos invasores Romanos. Feito escravo, é agora um gladiador famoso a quem levam precisamente para a arena de Pompeia nas vésperas da erupção do Vesúvio. Por coincidência, Pompeia é visitada nessa mesma altura pelo homem que massacrou a sua tribo e os seus pais. Assim que o vê, Milo só pensa em vingança.
Nota acerca dessa cena inicial em que Milo, ainda criança, assiste à decapitação da sua mãe. É sempre difícil dizer se foi propositado ou não, mas é tão semelhante que não pode deixar de lembrar o início de “Conan o Bárbaro” (o de 1982, com Arnold Schwarzenegger). Muitas partes do enredo podiam também ter saído da série "Spartacus". O dono dos gladiadores chega mesmo a dizer: “Estes trácios só dão problemas.” E de facto, 100 anos antes, um certo trácio conhecido por Spartacus deu água pela barba aos romanos. Mas sabemos como isso acabou. Na arena, os gladiadores já não falam em revolta. Atticus, o campeão, acredita mesmo (ou quer acreditar) que lhe falta apenas uma vitória para lhe ser concedida a liberdade. Para tal, tem de combater com o Celta (Milo) e derrotá-lo. Nenhum dos dois tem qualquer interesse em matar o outro, mas é a vida de um gladiador.
Este enredo é bastante interessante por si só. Mas sabemos que um personagem “oculto” não tarda a intervir e a estragar os planos a toda a gente. Nesta altura estamos a torcer para que o vulcão expluda e safe os dois gladiadores.
A história é cativante mas isto não quer dizer que os personagens sejam muito desenvolvidos. Num filme-desastre, histórico, cheio de acção e efeitos especiais de grande magnitude, alguma coisa teria de ficar para trás. Os personagens são apenas desenvolvidos o suficiente para contar a história mas não deixam de ser bidimensionais. Os vilões são maus como as cobras. As personagens dividem-se entre opressores e oprimidos. A família aristocrática de Pompeia, para ser mais simpática ao espectador, é também oprimida pelo poder imperial. Cássia, a heroína, manifesta-se contra os jogos na arena, para sabermos que alguns romanos são “bonzinhos”. Não há tempo para muito mais.
Lamento dizer que os efeitos especiais me desapontaram, nomeadamente os da destruição da cidade e os da tsunami. Nota-se que é feito por computador, e quando se nota é mau. (Se nos lembrarmos da destruição da arena em "Spartacus", por exemplo, foi muito mais realista do que aquilo que acontece aqui.) Os efeitos especiais do vulcão, ao menos isso, já são realistas o bastante. Mesmo assim esperava mais.
Também não gostei dos clichés debitados a torto e a direito. Já basta que as personagens sejam bidimensionais. Os diálogos não precisavam de ser tão fracos.
O final surpreendeu-me. Não pensei que tivessem coragem de acabar assim. Neste aspecto, o filme diverge muito do fim “clássico”.
Pompeia não será certamente um dos filmes da minha vida mas vê-se bem e é mais original do que dava a entender a princípio.


14 em 20

domingo, 16 de dezembro de 2018

Poseidon / Aventura do Poseidon (2006)


Vi o primeiro “Poseidon” quando era miúda e foi daqueles filmes que me marcaram para toda a vida. De roer as unhas do princípio ao fim. Agora já não roo as unhas, mas este “Poseidon” de 2006 causou-me quase o mesmo efeito do primeiro.
Remake do filme de 1972 ("The Poseidon Adventure"), a história é igual: na véspera de Ano Novo, o cruzeiro de luxo Poseidon é atingido por uma onda gigante que vira o navio ao contrário. Um grupo de pessoas, apesar de desaconselhadas pelo capitão, decide encontrar a saída pelas hélices, que agora estão a descoberto. Entretanto, os passageiros e tripulação que se mantiveram onde estavam, à espera de socorro, são tragados pelas águas e pelos incêndios.
Classificado como filme-desastre, “Poseidon” tem elementos de puro terror: sobreviventes a tentar escapar de um ambiente hostil em que a morte espreita a cada esquina. Não deve haver cenário mais espectacular e aterrador do que um grande navio virado ao contrário, a encher-se de água, rodeado de mar profundo. (Excepto talvez um ambiente ainda mais hostil: uma nave espacial no espaço.) Depressa o percurso se torna opressivo e escuro, desorientador, e todos os perigos espreitam os sobreviventes: cabos eléctricos em carga, explosões, mobília e máquinas aos tombos, as grandes hélices ainda a trabalhar, e, nunca esquecendo, a água a subir cada vez mais depressa atrás deles, garantindo que não há retorno.
Não há tempo para respirar neste filme. É uma corrida desesperada até à única saída possível.
Tenho apenas uma queixa a apontar sobre o fim. Depois disto tudo, os sobreviventes têm à sua espera um salva-vidas aberto e em perfeitas condições, exactamente onde precisam dele. Curiosamente, é também o único salva-vidas que se vê em redor do navio. Isto é demasiado conveniente [quase um deus ex machina] e rouba algo do heroísmo que os sobreviventes demonstram até esse momento. Não custava nada terem feito com que houvesse mais dificuldade em chegar ao salva-vidas e teria sido o fim perfeito.
A última cena, em que vemos o navio vir à tona, virar-se, erguer a proa e por fim desaparecer na sepultura das águas profundas, é tão aterradora quanto bela. Para ver isto é que muita gente fez fila para o “Titanic”.

Por que é um filme bastante bem feito, de prender a respiração do princípio ao fim,

16 em 20


sábado, 8 de dezembro de 2018

Dracula Untold / Drácula: A História Desconhecida (2014)


Em vez de “untold” e “história desconhecida”, o subtítulo devia ser “versão alternativa que a malta inventou”. Com isto em mente, dói menos ver este filme.
Então, por onde começar? Historicamente, o filme é inqualificável. Começa por ser a história do verdadeiro Vlad (mais ou menos) com datas e tudo. Mas depressa percebemos que este personagem é tudo menos Vlad. Vlad Tepes foi um monstro de sadismo. Um dos maiores entre os mais infames monstros da humanidade. O protagonista deste filme é um amor. Um marido amantíssimo, um pai meigo e extremoso. Um herói que se sacrifica pelos outros. Sem dúvida um personagem pelo qual apetece torcer.
Quem me conhece sabe que não gosto nada de misturas entre a realidade histórica e a ficção mirabolante. A romantização de um personagem histórico para efeitos dramáticos é admissível numa obra biográfica, desde que não seja tão excessiva que fuja à realidade. Neste caso, e em casos idênticos, mais valia terem enveredado pelo género Fantasia e criado um personagem original. Até porque já estamos todos fartos das mesmas histórias repetidas vez após vez. Eu, pelo menos, estou fartíssima.
Já que historicamente não há ponta por onde se pegue, vou falar do Vlad Drakul, o vampiro.
Os turcos estão à porta, ameaçando invadir o principado da Valáquia. Vlad descobre que numa gruta na montanha existe um vampiro com enorme poder e força sobrenatural. Sem capacidade de responder à ameaça turca, Vlad procura este vampiro para lhe pedir os mesmos poderes. Esta cena na gruta lembra muito a cena do Mestre na série The Strain (ou será o contrário?). O vampiro, um homem que vendeu a alma ao Diabo em troca de imortalidade, dá-lhe o seu sangue, mas Vlad tem de resistir à tentação do vampirismo durante três dias para não se transformar em vampiro também. Por isso, Vlad tenciona derrotar os turcos em três dias. (Historicamente, um insulto para ambas as partes do conflito.) Para tal, Vlad ataca os exércitos turcos com nuvens de morcegos. Sim, leram bem. Morcegos verdadeiros. (Como se já não bastasse o preconceito e a maldade que certos animais sofrem da parte de pessoas ignorantes, ainda há estes filmes idiotas a ajudarem à superstição. Os morcegos não fazem mal a ninguém. Comem insectos e são muito úteis ao ecossistema.) Quando os morcegos não chegam para derrotar os turcos (porque é que será?) Vlad decide aceitar o vampirismo de modo a transformar outros súbditos em vampiros. Com os morcegos e uma dúzia de vampiros consegue derrotar os turcos em três dias, mas não sem sacrifício.
Toda esta história dos “super-poderes” (domínio sobre os morcegos, poder de atrasar o nascer do dia, o próprio Vlad a transformar-se numa nuvem de morcegos) ficaria melhor num filme de super-heróis. Talvez o Homem-Morcego. Tive a sensação de que estava a ver um filme Disney, sanitizado para um público de 13 anos. Até a prata age sobre ele como a kriptonite no Super-Homem. Não há uma única cena que não passe este crivo infanto-juvenil. Toda a gente pode ver à vontade. Não há aqui nenhum empalamento ou outra malfeitoria mais desagradável.
Mas pelo contrário, e incompreensivelmente, a cena em que Vlad bebe o sangue da mulher que ama (a pedido dela e em circunstâncias completamente heróicas) não podia ser mais absurda. Esta era a cena que devia ter sido romântica. Ela é a grande paixão da vida dele. A sua esposa, a mãe do seu filho. E está a morrer. Vlad atira-se-lhe ao pescoço como um lobisomem. Não, não, não. Está tudo errado neste filme. Tudo. Errado.
O fim é decalcado de “Drácula de Bram Stoker”. Só falta a frase “atravessei oceanos de tempo para te encontrar” mas há outra semelhante.
De repente aparece o primeiro vampiro (o que criou Drácula) não se percebe muito bem de onde nem porquê, com a ameaça mais assustadora do filme: uma sequela. Este filme nem devia ter visto a luz do dia quanto mais uma sequela!
Não percebo mesmo qual foi o objectivo deste filme. Não foi um bom Vlad, não foi um bom Drácula. Foi uma manta de retalhos de filmes anteriores e bem melhores. Vi porque sou vampiro-dependente. Não aconselho a ninguém.
Só por causa dos actores, que bem se esforçaram em dar vida a este enredo estapafúrdio, dou

11 em 20



sábado, 17 de novembro de 2018

The Colony / A Colónia (2013)


Durante a primeira hora deste filme pensei que ia ver algo de muito bom. O final desaponta. Custa-me avaliar “The Colony” de forma negativa devido a essa primeira hora em que estive verdadeiramente interessada. Neste caso, mais vale fingir que não vi o fim.
Num futuro próximo, o aquecimento global provoca uma nova Idade do Gelo. Para sobreviver, a humanidade refugia-se em colónias subterrâneas, onde existem outras ameaças para além do planeta glacial do exterior. A comida é escassa e racionada. A doença propaga-se mais depressa no ambiente fechado e dizima os poucos sobreviventes.
Os doentes são colocados em quarentena. Na falta de melhoras, é-lhes oferecida a escolha de “dar uma volta” lá fora ou ser executado com um tiro. Na colónia 7, onde se passa a acção, o braço direito do homem que comanda passa logo à execução dos desgraçados, sem dar escolha. O chefe da colónia, (Laurence Fishburne, o Morpheus de “The Matrix”) discorda destes métodos mas já não tem coragem, ele próprio, de disparar contra as pessoas doentes e deixa a “tarefa” nas mãos do outro. Tudo isto já é muito dramático e intenso e promete conflito ético que baste para o filme todo.
Neste momento, a colónia 7 recebe um pedido de socorro da colónia 5, seguido de silêncio. Um grupo de auxílio parte imediatamente, percorrendo uma grande distância na neve. Quando chegam à colónia 5 encontram um bando de canibais que está em processo de comer todos os habitantes. O grupo de socorro não está preparado para uma ameaça destas. Conseguem escapar mas ingenuamente deixam um rasto de pegadas na neve que guia os canibais direitinhos à colónia 7. Segue-se o confronto.
No seu início, A Colónia lembra-nos vários outros filmes. Desde logo, “The Thing”, pelo ambiente gelado e opressivo. E “The Road” e “The Walking Dead”, por causa dos canibais, ou “30 Dias de Noite”, ou “O Dia Depois de Amanhã”. Muito prometedor. A cena em que o grupo de socorro chega à colónia atacada é verdadeiramente arrepiante. As “pancadas” que se ouvem ao longe lembram-nos inconscientemente o barulho de um talhante a cortar carne mas só percebemos quando vemos. Muito bem feito.
Se o filme tivesse acabado aqui, não tinha nada de mal a dizer. Infelizmente, todo este potencial é desperdiçado quando o confronto final transforma “The Colony” num vulgaríssimo filme de acção. Com algum gore pateta, devo mesmo dizer. Um dos habitantes da colónia bate tanto com um pé de cabra na cabeça de um canibal que esta já devia estar feita em puré, e mesmo assim ele não morre.
O que me leva à queixa principal. A certa altura um dos personagens da colónia 7 diz aos outros que tencionam fugir: “Se conseguirem sobreviver lá fora não conseguem escapar àquelas coisas.” E tem razão, porque o bando de canibais é coisificado. Melhor, é monstrificado. Não são vampiros nem zombies, são seres humanos, mas é-lhes retirada toda a humanidade. Ao fazer isto, o filme torna-se numa guerra entre bons e “monstros”, quando podia ser outra coisa muito mais profunda (“The Road”). E foi uma desilusão.
Aconselho, mesmo assim, a primeira hora do filme.

Nota para os amantes do “Sobrenatural”: neste filme aparecem duas caras conhecidas desta série. Julian Richings, que fez de Morte (uma das melhores interpretações da Morte, se não a melhor, que eu já vi em cinema ou televisão). E Lisa Berry, a Ceifeira Billie. Ambos memoráveis. Pena que neste filme os actores não tenham tido papéis tão bons. De tudo o que faz “Sobrenatural” uma série sólida, a qualidade dos actores e das suas interpretações contribui grandemente para o nosso deleite.

Quanto a “The Colony”, queria dar mais mas só posso dar

13 em 20

sábado, 3 de novembro de 2018

World War Z / WWZ: Guerra Mundial (2013)


O grande problema deste filme de zombies é que não tem zombies. Há um vírus tipo “28 Dias Depois”. Assim que alguém é mordido por um infectado, transforma-se em “zombie” em 12 segundos. 12 segundos! Nos casos mais demorados, 10 minutos. Não, isto não são zombies. Um zombie é um cadáver que come vivos. Estas pessoas não são cadáveres porque nunca chegaram a morrer.
Pior um pouco, em vez de ficarem mais lentos, os supostos cadáveres adquirem tanta força e velocidade que se nota perfeitamente que algumas imagens foram aceleradas por computador. Estes “zombies” são mais Incríveis Hulks ou algo do género.
E depois temos o enredo. Um ex-agente das Nações Unidas (nunca sabemos o que ele fez ao certo, excepto que era um durão), Brad Pitt (isto é, “Gerry Lane” interpretado por Brad Pitt, mas quem é que se interessa do nome do personagem quando Brad Pitt está no écran e não se chama “Louis”?), retirado da vida activa para se dedicar à mulher e duas filhas, uma destas com asma (mas isto nunca tem importância nenhuma), é o típico ex-militar dos filmes de acção que decide merecer o repouso do guerreiro. O personagem não passa disso, um Action Man a fazer de bom marido e pai extremoso. Como acontece nos filmes de acção, por razões e acasos ele acaba por ser chamado de volta ao seu trabalho quando há uma crise. E resolve-a. E aqui temos o enredo de filme de acção que já vimos ad nauseam.
World War Z até tem umas cenas interessantes no princípio, a lembrar o melhor de "The Walking Dead" e "Fear the Walking Dead". (Faço um parêntesis para realçar como "The Walking Dead" se tornou o mais alto patamar de comparação em tudo o que toca a zombies. Tirando o primeiro filme de George Romero, “A noite dos Mortos Vivos” de 1968, realmente não vi melhor e há que admitir.) São as cenas em que se percebe que algo está mal mas ainda não se sabe o que é. Como aquele engarrafamento em que a família está dentro do carro e começa a ver motos da polícia a avançar por entre o tráfego e transeuntes aterrorizados a fugir na direcção inversa.
Infelizmente, toda esta tensão se perde quando o protagonista observa um “mordido” a transformar-se em “algo” (recuso dizer zombie) em apenas 12 segundos. Catrapás, já estás! A partir daqui o filme torna-se num daqueles enredos em que um herói é enviado a várias partes do mundo à procura do paciente zero, de uma vacina ou de uma cura. Torna-se definitivamente um filme de acção. Como bom filme de acção, não morre ninguém importante. Afinal, o herói tem de salvar a família para que tudo acabe bem.
Entretanto, vi supostos zombies a correr mais depressa do que os vivos, a escalarem muros e arranha-céus (!) tipo formigas umas atrás das outras, e a morderem tudo e todos sem nunca pararem para comer alguém. Mas que?!... Será que as pessoas que fizeram o filme alguma vez viram um filme de zombies? Sim, viram. Na verdade, sendo um filme de 2013, em que "The Walking Dead" já liderava audiências, se calhar até nem queriam fazer um filme de zombies, mas os zombies já estavam na moda e aqui está isto. Um filme que eu vi no engodo de ter zombies. Se me dissessem que era um filme de acção com pessoas infectadas por um vírus raivoso talvez não visse, pois não?
A este filme falta tudo o que é preciso para meter medo. É verdade, as últimas cenas são tensas, mas como já sabemos que ali está um típico herói de acção ninguém acredita que lhe aconteça alguma coisa. Afinal, ele tem de salvar o mundo!
O que nos mete medo, no zombie, é o horror de um cadáver humano que se reanima, podre e malcheiroso, para comer os vivos. (Simboliza, a bem ver, o horror da própria morte. Todos somos cadáveres a prazo). O que temos em World War Z são pessoas infectadas com um vírus raivoso. Sendo assim, preferi “28 Dias Depois”. Pelo menos é mais original. Os apreciadores de zombies não perdem nada se ignorarem World War Z.



12 em 20

sábado, 27 de outubro de 2018

Sanctum (2011)

 

Um grupo de espeleólogos aventureiros monta uma operação num complexo de cavernas inexploradas. A princípio está tudo tão bem organizado que até parece turismo de aventura. Até que um ciclone inesperado inunda as cavernas. A partir daqui os mergulhadores presos na gruta ficam com a saída bloqueada e começa uma desesperada luta pela sobrevivência. Este filme é inspirado em acontecimentos reais.
Por alguma razão, pensei que Sanctum ia ter ameaças sobrenaturais. Devia estar a confundir com outro parecido, The Descent. Sendo assim, é apenas um filme-desastre com elementos de terror, um terror muito velhinho: o de ser enterrado vivo. Enterrados vivos já estão todos, dentro de um sistema de grutas sem conhecerem a saída. Ou morrem por falta de oxigénio ou morrem afogados. A grande experiência destes espeleólogos não é suficiente na luta contra as cavernas. As mortes não são gratuitas.
O filme é muito competente a mostrar-nos a urgência, o perigo, a claustrofobia dos espaços apertados dentro e fora de água. É daqueles filmes que nos deixam sem fôlego porque temos a tendência de conter a respiração quando os personagens estão a mergulhar sem oxigénio.
As personagens não são fascinantes mas é impossível não torcerá por Josh, filho adolescente do espeleólogo principal, o único que não está ali de sua vontade mas porque o seu pai acha interessante levá-lo com ele nas expedições como “actividade de férias”. Pobre miúdo. Do que percebemos do filme, a mãe do miúdo já não é viva, ou o pai do miúdo estaria em mais apuros fora da gruta quando ela soubesse a que perigos aquele pai anda a expor o filho.
Tirando esta relação pai-filho, não há muito mais para comentar a nível de personagens. Os sobreviventes tentam desesperadamente encontrar outra saída, a caverna continua a inundar-se, os espaços são cada vez mais apertados, o material e os alimentos começam a ser perdidos no percurso ou a ficar inutilizados. O desastre é inevitável. Resta saber quem sobrevive.
E afinal não é necessária a ameaça sobrenatural. Basta o instinto de sobrevivência que acaba por virar uns contra os outros, tornando uma má situação numa situação ainda pior.

É um filme que vai agradar aos amantes de aventura que também gostam de terror (algumas mortes são bastante chocantes). Um daqueles que nos deixa agarrados ao écran do princípio ao fim.



15 em 20


Nota: Este filme teve ainda mais impacto em mim depois do recente incidente na Tailândia. Agora percebo que tipo de estreitos eles tiveram de vencer, debaixo de água, em que tinham de retirar o equipamento para passar. Não é para amadores. Aqueles miúdos tiveram mesmo muita sorte.

sábado, 20 de outubro de 2018

Ugetsu / Contos da Lua Vaga (1953)

 

O cinema japonês clássico é uma das minhas paixões “secretas”. Não sei explicar porquê. Talvez porque são sempre relatos de crueldade e servidão em que a sensibilidade sobressai de forma mais pungente do que nos filmes ocidentais. Uma sensibilidade muito japonesa que ainda se nota nos filmes modernos, até nos de terror.
Tenho a certeza de que já tinha visto “Contos da Lua Vaga”, filme de Kenji Mizoguchi de 1953. (Recordo-me de um ciclo de cinema japonês que passou na RTP2 há muitos anos, em que vi bastante filmografia da época.) Deve ter sido há demasiado tempo para lembrar e voltei a ver. Não me arrependi.
Não são filmes para toda a gente. Quem não conseguir abstrair-se do preto e branco e da actuação exagerada dos actores (como se estivessem no teatro), ou quem não conseguir “entrar” na cultura que serve de pano de fundo, dificilmente gostará do género. Nada aqui é Hollywood, e ainda bem.
“Contos da Lua Vaga” é um filme moral sobre a ambição e a ganância. Genjuro é um camponês pobre e humilde, casado e pai de um filho pequeno, que vive num casebre contíguo ao da sua irmã, Ohama, também casada com Tobei, igualmente camponês. A acção passa-se no século XVI, durante uma guerra civil. Genjuro domina a arte da olaria e aproveita a passagem dos exércitos para vender os seus trabalhos no mercado. Faz tanto dinheiro que nunca mais pensa nutra coisa. Por seu lado, o cunhado Tobei mete na cabeça que quer ser um samurai porque não quer ser pobre toda a vida. Ambas as esposas advertem contra a ambição em demasia mas, apesar dos riscos que correm em tempo de guerra, aceitam acompanhar Genjuro ao mercado para venderem mais olaria.
Fazem o caminho de barco, para evitarem os exércitos que andam a pilhar as aldeias, mas o rio também não é livre de perigos. Depois de avisados de que existem por ali piratas, Genjuro deixa a mulher e o filho em segurança, na margem do rio, e continua a viagem. Tobei e Ohama seguem com ele.
No mercado, fazem grande sucesso. A olaria de Genjuro é magnífica. Genjuro sonha em comprar sedas para presentear a sua esposa mas Tobei pega na sua parte e vai comprar uma armadura e uma lança que lhe permitam entrar ao serviço de um senhor da guerra. Ohama vai atrás dele, mas não o encontra. Perdida em terreno desconhecido, é emboscada por soldados que a violam. A cena da violação, que não se vê, é um dos exemplos desta sensibilidade nipónica de que falava a início. Ficamos na dúvida do que acontece, mas as dúvidas são esclarecidas quando um dos soldados lhe atira dinheiro como despedida. Acrescentado, ao abuso, injúria.
Entretanto, no mercado, Genjuro é abordado pela nobre dama Wakasa e sua aia que lhe fazem uma grande encomenda a ser entregue na casa senhorial. Quando Genjuro lá chega as coisas ficam estranhas. A dama Wakasa começa a seduzi-lo com cortesias e cantigas de requinte nobre e Genjuro não tem força para resistir. A aia ajuda-o a perceber o que tem de fazer: casar com Wakasa, imediatamente. Enfeitiçado, Genjuro esquece a mulher e o filho e fica sob o domínio de Wakasa. Nem repara, ao entrar na casa, que a entrada parece completamente abandonada. Sim, é uma casa assombrada. Wakasa, a aia, até as criadas, são todas fantasmas.
Entretanto, Tobei consegue tornar-se um homem importante ao serviço de um samurai. A sua única intenção é voltar a casa, para mostrar à mulher Ohama como está rico e prestigiado. Pelo caminho, os vassalos pedem-lhe que pare e descanse num bordel do caminho. Onde encontra Ohama, forçada à prostituição agora que ficou destituída de tudo pelos exércitos inimigos.
Ainda sob o efeito de Wakasa, Genjuro vai fazer mais compras para o seu novo lar quando encontra um sábio que o alerta. Incrédulo, descobre que todo o clã de Wakasa foi morto por inimigos e que a sombra da morte paira sobre ele também a não ser que fuja daquela assombração. Genjuro não consegue afastar-se do seu amor fantasma, mas permite que o sábio o exorcize. Quando ele regressa à casa senhorial, Wakasa está mais determinada do que nunca em levá-lo dali, agora que o considera seu marido, para a sua “terra natal”. Mas desta vez Genjuro está protegido do encantamento graças ao exorcismo que recebeu.
Não vou contar o fim. É digno de se ver e reserva ainda muitas surpresas. Os amantes do sobrenatural e do terror vão certamente gostar deste filme.

Para mais informações sobre o filme, em inglês, podem consultar o título original, Ugetsu.

15 em 20

sábado, 13 de outubro de 2018

Frozen / Pânico na Neve (2010)


Três jovens são acidentalmente esquecidos num teleférico de uma estância de esqui. É noite, a temperatura é negativa, há uma tempestade de neve. Mas o frio não é o maior problema deles. Este é um daqueles casos em que o título português se aplica melhor do que o original. Sim, o frio é um problema também, mas o filme nunca se centrou na eventualidade de morrerem de hipotermia. Pelo contrário, se as temperaturas fossem assim tão baixas a história teria acabado muito mais cedo. Esquecidos no teleférico, a descoberto, pendurados a demasiada altura do chão, eles sabem que a estância de esqui vai ficar fechada a semana toda. Ninguém virá procurá-los. Não têm telemóveis com eles. Têm de sair dali ou morrerão de sede, de fome ou de frio, consoante as condições climatéricas a que ficarão expostos.
É um pouco incerto se a distância do chão é suficiente para saltar. Um deles tenta e parte ambas as pernas. Como se não fosse já uma situação terrível, de repente aparece uma alcateia de lobos atraída pelo sangue…
A premissa do filme é muito simples, mas as consequências são dramáticas. Este é um daqueles “podia acontecer a toda a gente” nas circunstâncias erradas. Não precisamos de investir muito nas personagens. O que conhecemos delas antes do acidente é suficiente para percebermos que não são excepcionais. São apenas pessoas normais apanhadas numa situação extrema em que têm de encontrar maneira de sobreviver.
E sim, existem alguns problemas de credibilidade neste filme. Por exemplo, que jovens desta faixa etária não levassem os telemóveis, mesmo arriscando-se a parti-los. Se fosse gente mais velha ainda acreditaria. Gente desta idade, não. Desde quando é que o risco de partir o telemóvel os impede? (Papá compra outro.) Mas de certeza que o filme arranjaria maneira de tornar os telemóveis inoperacionais (falta de rede) e ia dar ao mesmo. Por isso não considero uma falha significativa. Menos credível é que uma estância de esqui estivesse fechada desde domingo à noite até sexta-feira, isto é, a semana inteira, em plena época alta. Há sempre gente de férias, especialmente as pessoas que gostam de esquiar e que marcam as férias de propósito neste período. Isto já faz menos sentido. Mas a presença dos lobos, que também é estranha num local tão frequentado, até pode ser explicada por este lapso regular de actividade da estância. Uma estância, aliás, que devia ser encerrada por motivos de segurança. Bastou balançar um bocadinho o teleférico para saltar o parafuso principal que o mantinha preso à estrutura!
Mas nada disto é impossível e pode resultar de uma simples confluência de azares. Os nossos jovens estavam no sítio errado à hora errada. A partir do momento em que compreendemos a situação ficamos irremediavelmente agarrados ao filme. À medida que o perigo aumenta, temos de ver o final. É impossível não torcer por eles.
“Frozen” é um bom filme de “terror situacional”. Curto, tenso, sem desvios desnecessários, de um suspense de cortar à faca. Gostei e recomendo. O título é que podia ter sido mais bem escolhido.

Nota: os amantes de gore vão preferir ver a versão em DVD, que mostra cenas (não vou revelar de que tipo) que no filme original apenas se ouvem. Pessoalmente, bastou-me ouvir. Aplaudo a decisão de não cair na tentação de mostrar. Neste caso, Adam Green, o realizador, fez uma boa escolha em deixar certos pormenores à imaginação.


15 em 20

sábado, 6 de outubro de 2018

Black Death / Morte Negra (2010)

O ano é 1348. O pano de fundo é o surto de peste bubónica na Inglaterra medieval. Eu esperava um drama histórico à volta da epidemia mas o filme anda mais no género Aventura a piscar o olho à Grimdark Fantasy.
O enredo é muito curto. A mando da igreja, um grupo de cavaleiros dirige-se para uma vila isolada em terreno pantanoso onde, segundo rumores, não só as pessoas são imunes à peste como existe um necromante que ressuscita os mortos. O que só pode significar que têm um pacto com o Diabo, obviamente. O objectivo do líder dos cavaleiros, Ulrich (Sean Bean, Boromir em “O Senhor dos Anéis” e Ned Stark em “Guerra dos Tronos”) é capturar e executar barbaramente esse herege. No caminho, alicia um jovem noviço como guia até à vila recôndita (Eddie Redmayne, que também conhecemos como protagonista da adaptação de ”The Pillars of the Earth”).



Chegando à vila em questão, é óbvio que algo de estranho se passa. Aqui não há pilhas de mortos a queimar ou enterrar. A igreja está abandonada ao pó e às teias de aranha e os residentes converteram-se ao paganismo. A pessoa mais importante da vila parece ser a bela Langiva (Carice van Houten, a Melisandre de “Guerra dos Tronos”). Obviamente, tem de ser uma bruxa.


O filme é brutal e cru do princípio ao fim. Morte não falta (natural ou provocada), violência muito menos, e outras nojices de revirar o estômago como os corpos cobertos de bubões purulentos. O filme salva-se à minha classificação de porno-tortura porque tem o bom gosto de não mostrar todos os pormenores tão explicitamente como podia ter feito. Nos instantes piores, a câmara afasta-se.
O que não quer dizer que este não seja um filme de violência gratuita, ou quase. Chegamos ao fim sem perceber qual era o objectivo. Afinal, por quem é que devíamos torcer? Os cristãos são fanáticos, maus e desleais. Os pagãos são desleais, maus e fanáticos. O jovem monge, o único que prometia ser uma pessoa decente, acaba tão mau como eles. A bruxa, afinal, é apenas uma curandeira que percebe de ervas e drogas. O piscar de olho à Fantasia, que o filme prometia desde o princípio, desfaz-se em explicações sherlockianas: não são ressurreições, são embustes (Teria sido muito mais interessante ter enveredado pelo sobrenatural.) O que sobra então deste filme? Todos são maus, a religião é má, a vida não é boa, a peste é pior. Tudo é negro como a peste.
Mesmo assim, o filme não é muito difícil de se ver graças ao bom gosto de evitar a porno-tortura. Promete mais do que oferece, mas oferece o bastante. No mínimo dos mínimos podemos regalar-nos com os cenários, o guarda-roupa, a fotografia. Tudo muito convincente do período histórico que representa, se não entrarmos em grande minúcia.
E os fãs da “Guerra dos Tronos” vão adorar o confronto entre este quase-Ned Stark e esta quase-Melisandre, disto tenho a certezinha absoluta. Eu, confesso, diverti-me.

13 em 20

sábado, 29 de setembro de 2018

Zero Dark Thirty / 00:30 A Hora Negra (2012)


“00:30 A Hora Negra” é a reconstrução realista da caça ao homem que resultou no assassinato de Osama Bin Laden em 2011. Baseado em testemunhos de pessoas envolvidas, acompanha os operacionais da CIA envolvidos na busca de uma década que terminaria em Abbottabad, Paquistão, onde o terrorista mais procurado do mundo se encontrava escondido.
O filme é isto e pouco mais do que isto. Quase um documentário. Os personagens nunca são aprofundados para além dos seus papéis profissionais. Se calhar porque se baseiam em pessoas reais, heróis americanos, e ainda era/é muito cedo para os mostrar como seres humanos? Talvez. O filme apresenta-nos os factos como eles se passaram, desde a tortura utilizada em prisioneiros nos anos de George W. Bush até à abordagem mais soft da administração Obama. Mas nunca se tenta moralizar o que vemos no écran. Não é esse tipo de filme. Este é um filme para quem quer conhecer mais pormenores do que realmente se passou em Abbottabad e como é que a CIA lá chegou.
É impossível não apontar as semelhanças com “Homeland”. Tal como na série, muito do jargão e técnicas de espionagem caem-nos em cima sem que ninguém os explique. Cabe ao espectador fazer o esforço de acompanhar. Se calhar não teria percebido tanto do filme se não visse a série. Assim, o filme pareceu-me quase um episódio de “Homeland”, apenas sem Carrie Mathison. Ou melhor, sem a Carrie Mathison bipolar, porque a protagonista, obcecada e frenética, lembra Mathison em tudo o resto.
Mas “00:30 A Hora Negra” não é um filme interessado em explorar personagens. É o que é, desde o 11 de Setembro à caça a Bin Laden e às pistas que levaram a CIA a encontrá-lo. Mesmo assim, esperava mais em termos factuais, nomeadamente as reacções das duas administrações da Casa Branca ao desenrolar dos acontecimentos. Sim, esperava ver os bastidores que conduziram a esta célebre foto:



O filme nunca nos mostra as presidências. Foca-se apenas na equipa de operacionais no terreno. Talvez seja muito cedo. Tenho a certeza de que ainda vamos ver uma melhor versão desta operação secreta, mais completa, por perspectivas mais humanas, quando tempo suficiente transformar as pessoas reais em personagens históricas. É uma questão de esperar.


(Este filme não tem nota porque não o encarei como entretenimento.)