Mostrar mensagens com a etiqueta Danse Macabre (livro). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Danse Macabre (livro). Mostrar todas as mensagens

domingo, 20 de outubro de 2024

Pet Sematary, de Stephen King / Pet Sematary (1989) / Pet Sematary (2019)

[contém spoilers]

Obviamente, não li “Pet Sematary” para saber a história. Já conheço a história de trás para a frente e de frente para trás. O que me despertou a curiosidade em finalmente pegar no livro foram as discrepâncias entre as duas adaptações cinematográficas (1989 e 2019).
Para começar, não sou de modo algum imparcial. Considero “Pet Sematary” um dos melhores “contos de fadas” do século XX, uma história que atinge e provoca o âmago da humanidade desde que o homem é homem: a morte, o luto, o desejo de imortalidade e o pavor do fim. Acima de tudo, o nosso pavor de perder os mais queridos, impotentes e revoltados, sabendo que cada morte é um bocadinho de nós que morre com eles. Chamei-lhe “conto de fadas”, embora negro, porque todos os contos de fadas começaram por ser histórias de terror no tempo deles, adaptados e suavizados, como todos os mitos, aos valores e sensibilidades das sociedades que vieram depois. Não é pois de estranhar que o remake de “Pet Sematary” difira tanto do original, em especial no que toca a Church, o gato.
“Pet Sematary”, o livro, foi publicado em 1983 e a primeira adaptação é de 1989. Também não é de estranhar que a primeira adaptação seja a mais fiel ao original, se bem que ela própria já suavizada ao gosto da altura: o original é muito mais brutal. Se eu tenho razão, e se o conto de fadas se perpetuar como um mito, é de esperar sucessivas adaptações no futuro.
Tendo tudo isto em conta, vou começar por alguns pontos do livro que foram autênticos choques para mim, que só tinha visto os filmes.

Norma
Para meu espanto e choque, Norma, a mulher de Jud Crandall, está viva no livro! Juro que quando ouvi Jud a referir-se à esposa, “que estava em casa”, julguei que o velho estava cheché e que continuava a falar com a mulher depois de morta, especialmente uma mulher chamada Norma. Mas não, Norma está mesmo viva no livro, embora seja igualmente velhota e sofra de artrite e do coração. No entanto, Norma morre de AVC logo no início, quase a seguir a Church. Isto quase não é um spoiler porque Norma quase não tem papel. Se calhar só se queria dizer com isto que Jud resistiu à tentação de enterrar a mulher no cemitério Micmac. Há uma cena muito estranha no fim do remake em que Norma fala por outra personagem e diz a Jud que espera por ele no Inferno por causa do que ele lhe fez. Sinceramente, fiquei a pensar que Jud a tinha ressuscitado dos mortos também. Afinal era algo bem mais banal e duvido que seja mesmo Norma a dizer no filme uma versão suavizada do que disse no livro. Fiquei na dúvida se não era o demónio do bosque a falar por ela. Uma senhora tão decente não diria/faria as coisas que disse que fez. Seja como for, compreendo que os dois filmes tenham excluído o pequeno papel de Norma.

Church (Winston Churchill), o gato
O que se passa com o gato no original deixou-me tão mal disposta que se não soubesse o fim acho que punha o livro de lado sem pensar duas vezes. Não me refiro ao atropelamento e à ressurreição nem nada disso. Refiro-me à maneira como o pobre animal foi vítima de maus-tratos injustificáveis. Ao contrário do que vemos nos filmes, Church não regressa imediatamente maléfico como um demónio do inferno. Church volta desengonçado e apático, “sem graça felina” nas palavras de Louis Creed, e, claro, com o cheiro nauseabundo do cemitério Micmac. Por esta razão Ellie Creed, a filha de 6 anos de Louis, começa logo por correr com ele da cama, onde ele costumava dormir com ela. Isto acontece depois de Ellie ter chorado baba e ranho só de pensar que ele podia morrer, o seu querido gato de estimação, um dos motivos que levam Jud e Louis a trazê-lo de volta. A partir do momento em que ele regressa é ignorado por toda a família e maltratado por Louis, que o põe na rua com uma vassoura (!) todas as noites porque tem nojo de lhe tocar (Louis diz que Church já não é um animal mas a “imitação de um gato”). Pôr o gato na rua todas as noites outra vez, depois de este já ter sido atropelado na estrada, é ilógico e cruel. Até Rachel Creed, que queria tanto mandá-lo esterilizar para ele não sair de casa (pressuposto errado, porque mesmo um gato esterilizado continua a fazer tudo o que estava habituado a fazer antes), não parece nada preocupada que o gato ande na rua a noite toda com os camiões a passarem na estrada a grande velocidade. Cage, o bebé de dois anos, puxa-lhe o rabo. Deixa lá, Gage, a tua hora está próxima! Entretanto, Church desenvolve o hábito de trazer para casa ratos e pássaros semi-comidos, esventrados (no estado selvagem os felinos comem primeiro as vísceras), depositando-os perto de Louis. Louis fica tão furioso que começa a dar pontapés ao gato e a atirar-lhe coisas com força. Exactamente assim: pontapés e maus-tratos. As oferendas são para ti, Louis, sua besta! A minha gata, que está muito viva e não veio do cemitério Micmac, mas que é muito mazinha, tinha-te arrancado a cara! Louis racionaliza estes maus-tratos com a “perversidade” da caça de Church, que supostamente antes não caçava tanto, mas, a ser verdade, eu explico o fenómeno com o facto de Church dormir com Ellie em vez de andar a noite toda no bosque. A princípio Church foge e esconde-se mas, a certa altura, com a continuação dos maus-tratos, começa a assanhar-se a sério, e já não era sem tempo. Fiquei chocada, chocada! Que mal é que o animalzinho fez? Foi vítima de negligência dos donos que o deixavam sair de casa, especialmente com uma estrada assassina à porta; foi atropelado e ressuscitado; foi rejeitado por Ellie; foi vítima de maus-tratos e pontapés; é assassinado pelo dono no fim. Chiça! É o suficiente para odiar a família toda.
Não vou ser como aquele leitor enfurecido que mandou uma carta a Stephen King a dizer-lhe que ia para o inferno porque um dos seus personagens matou um cão a pontapé, sei a diferença entre ficção e realidade, mas percebo perfeitamente que a adaptação de 2019 tenha lido a sensibilidade da época e que a morte de Church seria intolerável nos dias de hoje. No entanto, nos anos 80, à data do livro, os animais de companhia ainda não eram vistos como membros da família mas como objectos utilitários e descartáveis. Os filmes tentaram justificar o livro tornando Church maléfico desde que regressa, mas no original Church só se torna efectivamente malévolo e perigoso quando Gage regressa também. O poder do demónio dos bosques que domina o cemitério Micmac age por meio de ambos.

Justiça feita a Zelda
Ao contrário dos filmes, que apresentam Zelda como um monstro, um demónio à espreita dentro de um armário, o livro retrata a irmã de Rachel com mais lógica e veracidade, uma jovem vítima de uma doença terminal e atrozmente dolorosa, de quem Louis Creed diz que estaria já “clinicamente demente” no final. Zelda torna-se uma doente vingativa, que faz chichi na cama de propósito e que torna a vida de Rachel e da mãe de ambas num inferno. Rachel está sozinha com Zelda quando esta morre e corre para a rua a gritar histericamente “Zelda morreu!”, mas Rachel está a rir e a não a chorar. Este alívio, compreensível numa criança de oito anos, transforma-se em culpa e Rachel desenvolve uma verdadeira fobia à morte, não apenas um medo racional mas uma fobia incapacitante. Ao mesmo tempo, Rachel tem tanto medo de vir a ter a mesma doença da irmã que em criança imagina que Zelda virá “buscá-la” em forma de fantasma. O livro é muito mais explícito em demonstrar que estes medos e visões só existem na cabeça de Rachel, não são manifestações da força maligna do bosque.

Livro vs filmes
É difícil dizer isto mas os filmes conseguiram criar imagens mais assustadoras e icónicas do que o original. Por exemplo, fiquei muito desapontada porque no livro não existe a frase “the cemetery is the place where the dead talk, don’t go to the place where the dead walk”. Jud Crandall conta a Louis Creed os episódios do cão Spot e do soldado ressuscitado, mas os relatos não são tão arrepiantes como as cenas do filme de 1989. Por um lado é normal: há casos em que aquilo que nos entra pelos olhos é mais aterrador do que a nossa imaginação poderia conceber (mas nem sempre).
Aproveito para falar do zombie Timothy, o soldado ressuscitado pelo pai uns 15 dias depois de morrer. Timothy não é um zombie como os imaginamos agora (e como o filme de 1989 o apresenta, um autêntico zombie de “The Walking Dead”). Também ele regressa desengonçado e cambaleante, e passa os dias e as noites a andar de um lado para outro, aterrorizando os habitantes da cidade. Quando quatro homens, incluindo Jud, se dirigem a casa do pai dele para “tratar do assunto”, Timothy revela segredos pecaminosos e criminais dos homens que o vão confrontar, segredos que ninguém poderia saber, o que é mais consentâneo com alguém possuído por um demónio. Sinceramente, prefiro a versão do filme.
Da mesma forma, prefiro a versão do filme de 2019, em que não é Gage que morre. No livro, ao regressar, Gage também fala e diz coisas obscenas, coisas sexuais que uma criança de dois anos nem sabe que existem. Sempre achei que Gage como assassino maléfico era uma ideia rebuscada. Sim, um bebé assassino causa mais choque, mas torna-se absurdo (antes de morrer Gage só conseguia dizer “daddy”, e mal). Por outro lado, a “possessão” de Timothy e Gage, no livro, aprofunda melhor a influência da força maligna que está na base do poder do cemitério Micmac. (Parece que é um Wendigo, um mito americano que desconheço e de que só ouvi falar nos episódios de “Sobrenatural”, e também não foi “Pet Sematary” que me esclareceu.)
O que nos leva ao estado mental de Louis Creed quando decide lá enterrar o filho, muito mais perceptível no livro. Louis Creed não é apenas um homem destroçado e em luto, é alguém tresloucado que se sente compelido a fazer algo que sabe que está errado, e no entanto racionaliza e defende a lógica das suas escolhas como a única coisa que pode fazer. A certa altura, ao desenterrar Gage no cemitério, já está tão descontrolado que admite que agora ninguém o conseguiria deter, e se aparecesse alguém Louis simplesmente o mataria com uma pazada na cabeça. Inclusive decide tratar a ressurreição do filho como uma experiência: “se ele vier mau, eu mato-o e pronto”. Assim mesmo, com toda a frieza. Louis Creed está igualmente possuído pela atracção e pelo poder do ser maligno da floresta, algo que não se nota tanto nos filmes mas que é muito claro no livro. Nesta altura Louis Creed recordou-me de Jack Torrance de “The Shining” (do mesmo autor) só que enlouquecido para salvar a família e não para a matar com um machado. Novamente prefiro a abordagem dos filmes, que conseguiram humanizá-lo. Por exemplo, aquela cena do filme de 1989 em que Louis abraça pela última vez o Gage ressuscitado já depois de morto e desata a chorar, não existe no livro. No livro, Louis mata o filho com a mesma frieza clínica com que tinha matado Church, como a aberrações ou experiências falhadas, sem qualquer vestígio de emoção.

“Pet Sematary”, o livro
Como disse no início, este é um conto de fadas negro que até respeita a “regra das três vezes” dos contos de fadas: primeiro veio o gato; segundo veio o miúdo; terceiro veio a mãe. Já li algumas coisas de Stephen King mas, para o meu gosto pessoal, este foi de longe o melhor livro que ele já escreveu. No entanto tenho algumas picuinhices a apontar.
Por exemplo, demasiados pormenores. Não era mesmo preciso saber tudo o que é dito sobre um funeral americano (desde o embalsamamento ao tipo de sepultura). O tio de Louis Creed era um agente funerário e Louis faz questão de relatar o processo todo só para percebermos que é muito difícil roubar uma campa que leva cimento por cima, algo que, no meu conhecimento, não acontece por cá (pelo menos nas campas não perpétuas em que o corpo é exumado alguns anos depois e os ossos são enfiados numa gaveta). Também há muita palha em relação à família de Rachel, aos colegas de Louis na universidade onde ele trabalha, até às histórias passadas dos habitantes da cidade. É boa palha mas é palha, e não se perdia nada se tivesse sido cortada.
Outra coisa de que não gostei, depois de ler dois livros de não-ficção de Stephen King (“Danse Macabre” e “On Writing”), é a voz dele nesta história. Porque é mesmo a voz dele que reconhecemos em Louis Creed. Stephen King veio de uma família trabalhadora na América, não exactamente pobres mas aquilo a que chamaríamos “remediados” (a mãe dele criou os dois filhos sozinha), e parece-me que Stephen King quer recuperar a linguagem dessa América de classe média/baixa. O que acontece é que temos um professor e académico como King a querer falar como um canalizador, o que soa falso e forçado. Pior ainda, não é apenas Louis Creed que se expressa assim em pensamentos (Louis Creed veio de um background semelhante ao de King) mas também Steve, outro colega médico, acaba a soar desta maneira. Talvez, entretanto, esta voz de académico a tentar fingir que é um canalizador, um homem do povo, tenha desaparecido da obra de King. Li coisas mais recentes dele e já não notei esta voz embirrante, mas talvez tenha de ler mais alguma coisa para tirar as dúvidas.
Recomendo a leitura de “Pet Sematary” a toda a gente que gostou da história. Há aqui muitos pormenores sobre a natureza maléfica e a extensão do poder do cemitério Micmac que os filmes apenas tocam ao de leve. No entanto, devido à natureza brutal da história (mais do que nos filmes) não é um livro que me apeteça ler duas vezes.

 

domingo, 22 de setembro de 2024

Cat People / A Felina (1982) / Cat People (1942)

Vi o filme de 82 na adolescência e fiquei aterrorizada. Nunca mais me lembrei dele até ler “Danse Macabre", de Stephen King, em que o autor menciona o “Cat People” de 1942 como uma grande referência do terror no cinema (eu nem sabia que “Cat People” de 1982 era um remake). Curiosamente, “Cat People” (1982) estava a passar num dos canais de televisão e gravei-o logo. “Cat People”, com Nastassia Kinski e Malcolm McDowell, é uma metáfora clara sobre a sexualidade. Irena (Kinski) e Paul (McDowell) são dois irmãos criados em separado, mas ambos sofrem da mesma maldição: quando fazem sexo transformam-se em panteras negras e matam os seus amantes. Para impedir isso, Paul quer que Irena “acasale” com ele, e também é ele quem lhe revela que os pais de ambos eram igualmente irmãos. Esta solução de relações incestuosas impede a mortandade que os torna perseguidos. Irena não acredita em Paul, acha a proposta repugnante e, além disso, está apaixonada por Oliver, curador do jardim zoológico de New Orleans. No entanto, Irena receia no seu íntimo que Paul tenha razão e tenta evitar Oliver a todo o custo.
Confesso que fiquei desapontada porque desta vez o filme não me meteu medo. Isto pode dever-se a várias razões. Primeiro que tudo vejo muitos documentários sobre vida selvagem e sei que os leopardos são animais tímidos e solitários, que evitam o ser humano como a peste, que estão em vias de extinção, e que por serem solitários são bastante frágeis: tal como as chitas, qualquer ferimento pode impedi-los de caçar e não têm um grupo que cace por eles como os leões. Muitas vezes deixam as presas para as hienas e outros predadores sem dar luta para não correrem o risco de ficarem feridos. Isto fez-me simpatizar com os leopardos em vez de ter medo deles.*
* O que não quer dizer de maneira nenhuma que eu não tenha um medo racional de grandes felinos predadores (só se estivesse doida varrida é que não teria, especialmente de leões machos – já viram aquelas bocarras?), mas é um medo racional e não irracional como o medo de lobisomens, que não existem.
Por falar nisso, as “panteras negras” propriamente ditas também não existem, são apenas leopardos de pêlo preto, mas se calhar um leopardo fofinho às bolinhas não causava o mesmo efeito.
A ideia de “cat people” também foi usada em “True Blood”, na forma cómica e satírica típica da série, quando Jason Stackhouse, irmão de Sookie, se envolve com uma família de traficantes de metanfetaminas, white trash de trailer park, também incestuosos e com muitos uncle-daddies, a quem ele chama were-panthers. Não tenho muitas dúvidas de que inspiração tenha vindo deste filme. Em bom português, “True Blood” adorava avacalhar coisas sérias. Mas vou aproveitar a deixa para lhes chamar lobis-panteras também.
Depois disto tudo, não admira que o choque que o filme me causou se tenha diluído. Desta vez prestei mais atenção à parte metafórica em si, completamente sexual (o despertar, os receios, a virgindade, a transformação que tal acarreta, etc), e não consegui achar o filme tão interessante. Pelo contrário, julgo algumas cenas de sexo demasiado gratuitas e sado-maso, e alguns nus integrais de Nastassia Kinski (embora agradáveis de ver, não discuto) incluídos por motivos de “picante” para o público masculino (e feminino) e totalmente dispensáveis. Da mesma forma, o filme é longo demais e muitas outras cenas podiam ter sido cortadas sem se perder nada.
Também não digo que “Cat People” não conserve algumas passagens que me pareceram mais arrepiantes na altura do que agora, mas continuam arrepiantes, como os restos de jantar do lobis-pantera Paul, que não eram antílope… Já quanto às transformações propriamente ditas, podiam ser muito assustadoras em 1982 mas já não me convenceram agora.
O fim é mais triste do que trágico, na minha opinião. Apesar de tudo isto, aconselho a quem nunca viu e faço votos de que fiquem tão aterrorizados como eu da primeira vez.


Cat People (1942)
Ao ler críticas do filme de Nastassia Kinski (sejamos francos, o filme é dela), encontrei elogios rasgados ao original de 1942 e fiquei tão curiosa que fui arranjar o filme. “Cat People” de 1942 é uma obra completamente diferente, e tinha mesmo de ser porque na época certos temas eram proibidos no cinema (e cenas de sexo nem pensar!). Aqui temos uma metáfora muito mais subtil, isto é, subtil à altura, porque agora é clara como água. Irena é uma emigrante sérvia na América que vive aterrorizada por histórias de infância da aldeia onde nasceu sobre bruxas adoradoras do Diabo que tinham o poder de se transformar em panteras quando se exaltavam, excitavam ou zangavam. Irena apaixona-se por Oliver, a quem conhece igualmente no jardim zoológico junto à jaula de um leopardo negro, e eventualmente até chegam a casar, mas Irena recusa qualquer tipo de intimidade com o marido, nem sequer um único beijo. Oliver começa por ser bastante compreensivo e paciente, mas acaba por se apaixonar por uma colega de trabalho, Alice. E é aqui que Irena se passa dos carretos ou, neste caso, vira onça!
Fiquei bastante curiosa porque a senhora que fez a crítica aos dois filmes (que ela viu de seguida, primeiro o de 1942 e depois o de 1982) está completamente convencida de que Irena é lésbica porque não tem intimidade com homens e só se transforma em lobis-pantera quando persegue Alice, mas eu não me precipitaria quanto a isso. Ao contrário do filme de 1982, estas lobis-panteras também se transformam quando se zangam, e a ira até se vê nos olhos de Irena quando ela sabe da amiguinha do marido. Irena pode muito bem não ceder ao marido por medo de o matar, mas pelo fim do filme até está disposta a experimentar uma vida normal, aconteça o que acontecer. Logo, é melhor não ver o que não está lá. O que está neste filme é a completa submissão da mulher ao homem, que, condescendente, a manda para um psiquiatra para a “curar” e que chega a decidir interná-la. Se há um comentário a fazer é este: a sexualidade feminina dependia dos humores masculinos e tudo o que fugia à norma era considerado insanidade. Irena não só pode não ser lésbica como pode ser assexual, isto é, não querer intimidade com ninguém.
Para um filme de 1942 com um orçamento reduzido, “Cat People” tem uma realização de mestre. O jogo de luz e sombras, a preto e branco, é digno de um manual sobre como fazer cinema. Mas a mim agradaram-me sobretudo as cenas das perseguições.
A primeira é tão tensa, mas tão tensa, quando Irena persegue Alice por um parque solitário à noite, que eu provavelmente nem teria reparado que é tudo filmado num cenário de estúdio se Stephen King não tivesse chamado a atenção para esse pormenor (porque na altura não havia tecnologia para filmar à noite no exterior). Sente-se que a qualquer momento Alice vai ser devorada.
A segunda cena, magistral, é a da piscina. Nunca vemos a pantera, mas vemos a sua sombra e ouvimos os seus rugidos. Acredito que a audiência de 1942 deve ter arrancado os braços às cadeiras, de tanta tensão, ou agarrado os braços dos namorados e eles os delas. A cena é completamente arrepiante, até para uma espectadora de 2024.
O fim é duplamente trágico e triste.
O filme está por aí na internet, tentem encontrá-lo. Sim, é um filme datado, mas de qualidade extraordinária.

15 em 20 para ambos os filmes 


domingo, 25 de agosto de 2024

Danse Macabre, de Stephen King

“Danse Macabre” é um livro não ficcional de Stephen King em que o autor se propõe a fazer uma análise da literatura, cinema e televisão no âmbito do terror entre os anos 50 e 80, à mistura com alguns episódios auto-biográficos e bastantes citações das obras mais emblemáticas. Obviamente, como o próprio reconhece, não seria possível incluir tudo sem produzir uma enciclopédia, pelo que muitas das escolhas do autor são forçosamente subjectivas. Concordo com a maioria, não concordo com algumas, mas teria de ser mesmo assim. Como seria de esperar, King escreve de um ponto de vista americano, com referências americanas, e confesso que nunca tinha ouvido falar de alguns comics dos anos 30, 40 e 50 que ele menciona (nem teria como ouvir). Muitas vezes King tem de ir ainda mais atrás, aos séculos XIX, XVIII e antes, para puxar o fio condutor de obras como “Frankenstein”, “Drácula” e precursores mais antigos.
Nunca pensei que o livro fosse tão extenso. Para analisar “Danse Macabre” era preciso escrever outro livro, por isso não vou sequer tentar resumir. Pelo contrário, vou acrescentar!
“Danse Macabre” foi publicado em 1981. Desconheço se Stephen King actualizou os seus pontos de vista com um “Danse Macabre II” (e eu gostava de ler isso), mas o período analisado é dos anos 50 aos 80. Daí até 2024 muita coisa mudou. Por exemplo, as pessoas tornaram-se tão fanáticas por gatos que no remake de “Pet Sematary” o gato é quase a personagem principal (na minha opinião é mesmo a personagem principal e gostava de saber o que Stephen King pensa disto.)
Mas regressando a “Danse Macabre”, Stephen King preconiza a existência de alguns arquétipos do terror a que ele chama O Vampiro, O Lobisomem (mesmo o lobisomem que usa o “pêlo” por dentro, como em “Psycho”), O Fantasma, A Coisa Sem Nome e O Lugar Maldito (The Bad Place). Na opinião dele, o zombie e o vampiro são apenas um só arquétipo porque ambos se alimentam dos vivos. Ora, do meu lugar de espectadora em 2024 não posso concordar. Talvez tenha sido assim até aos anos 80 mas actualmente o vampiro e o zombie são personagens bastante diferentes. O vampiro, hoje em dia, é uma estrela de rock, um símbolo sexual de juventude e beleza eterna, um bad boy carismático e magnético. (Na verdade, sempre foi, desde que Lucy e Mina correram para os braços do Conde, mas talvez seja uma coisa tão feminina que escapou a Stephen King?...) “Danse Macabre” foi publicado antes da explosão dos vampiros de Anne Rice com o filme “Entrevista Com o Vampiro”. Aliás, é significativo que Stephen King não tenha sequer destacado “Interview With The Vampire” como referência, embora o livro seja mencionado no Apêndice. Já nem falo das filas de adolescentes aos gritinhos em cada estreia de “Twilight”, nem dos posters de Robert Pattinson no quarto… (Acreditem, tive de ir pesquisar o nome do actor.) “The Hunger”, com Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon, é igualmente de 1983. Este não é o mesmo vampiro dos filmes Hammer.
Por sua vez, o desgraçado do zombie (e afins) lá se vai arrastando, mas ganhou um protagonismo que já vai em duas décadas com o fenómeno “The Walking Dead”, e também já não é o mesmo zombie de George A. Romero. O zombie dos anos 2000 é quase um adereço em histórias pós-apocalípticas, em distopias em que o verdadeiro inimigo são os outros sobreviventes, onde impera a lei do mais forte e a violência extrema, curiosamente servidas à primeira geração que sabe que não vai ter uma vida tão boa como a dos pais antes deles. São outras as preocupações sociológicas, como as preocupações com a energia e a guerra nuclear dos anos 50 e 60 que Stephen King não deixa de identificar e que produziram toda uma série de filmes de insectos gigantes, por exemplo, e que até deram motivo ao clássico “The Night of The Living Dead” de Romero (1968).
Mas eu não quero mesmo escrever o livro e fico por aqui. Notei uma tendência extremamente exagerada na maneira em que Stephen King tenta explicar que o autor de terror não é um gajo psicologicamente transtornado, psicopata ou imoral, como lhe parece quando lhe perguntam infinitamente se não se importa de “viver dos medos dos outros”. Se calhar tem razão em ser tão defensivo. A pergunta parece-me incompreensível mas deve ser uma provocação americana. Afinal, ninguém é obrigado a ler ou ver terror, tal como ninguém é obrigado a ler ou ver erotismo. Mas é interessantíssimo que a imprensa americana lhe pergunte isto (e a outros autores do mesmo género) a ponto de o irritar.
Aconselho “Danse Macabre” a todos os amantes de terror e, principalmente, a todos os autores do mesmo ofício. O livro é longo mas não parece, está muito bem escrito e nunca aborrece.