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terça-feira, 12 de maio de 2026

Culatra - "Capítulo Primeiro: 1985-1989 / Sombras e Fantasmas" (Pós-80's label)

Segundo o press release, os Culatra foram "provavelmente a primeira banda portuguesa assumidamente gótica". Com actividade entre 1985 e 1992, nunca chegaram a gravar um disco. Esta colectânea, pela Pós-80's, reúne "os registos raros e inéditos do material gravado entre 1985-1989, provenientes de uma maquete, ensaios e um tema ao vivo no RRV".
Não tenho qualquer lembrança dos Culatra (o que não significa que nunca tenha ouvido falar deles). Estou impressionada com a qualidade desta banda de Lisboa que merecia mais reconhecimento, e lamento que tenham acabado sem deixar discografia. A diferença que o Bandcamp teria feito naquela altura! Nestes registos, finalmente trazidos à luz do dia em 2026, encontro influências do melhor da época: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy e outras referências pós-punk incontornáveis. Este é o som que eu recordo do Rock Rendez Vous. A qualidade das gravações é que é fraquinha, como seria de esperar de ensaios, maquetes e música ao vivo.
Para descobrir agora no Bandcamp, já que esta música esperou tanto tempo entre sombras e fantasmas.

According to the press release, Culatra were "probably the first explicitly Portuguese goth band". Even though they were active between 1985 and 1992, a record was never released. This compilation by the Pós-80's label brings together "rare and unreleased recordings from 1985 to 1989, taken from demos, rehearsals, and a live track at the RRV [Rock Rendez Vous]".
I have no recollection of Culatra (which doesn't mean I've never heard of them). I'm impressed by the quality of this Lisbon band, which deserved more recognition, and I regret that they disbanded without leaving a discography. The difference Bandcamp would have made back then! In these recordings, finally brought to light in 2026, I find influences from the best of the era: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy, and other inescapable post-punk references. This is the sound I remember from Rock Rendez Vous. The recording quality is weak, as one would expect from rehearsals, demos and live music.
After waiting so long amidst shadows and ghosts, Culatra’s music can finally be discovered on Bandcamp.

 

pos-80s.bandcamp.com/album/cap-tulo-primeiro-1985-1989

  

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

💜Canções preferidas, álbuns relevantes e descoberta de 2025 / 2025: favourite songs, relevant albums, discovery💜

Há alguns anos que tenho feito esta lista mentalmente, mas, em 2025, para não chegar ao fim do ano e não me lembrar de nada, fui mais esperta e comecei a tomar nota de potenciais canções preferidas desde Janeiro. 
A meio do ano apercebi-me de que devia também ter anotado lançamentos relevantes, aqueles que até podem não incluir uma das minhas canções preferidas mas que merecem atenção e audição.
Este ano recebi uma média de 10 lançamentos por dia nas áreas do gótico, post-punk, darkwave e afins, o que dá uma brutalidade de cerca de 3600 álbuns, singles, EPs e remixes, e ouvi tudo, em muitos casos mais do que uma vez. Mas acontece que sou muito esquisita e selectiva, o que também significa que estas escolhas são, na minha opinião, o melhor do melhor.
Esta é uma lista de canções preferidas de 2025 unicamente segundo o meu gosto pessoal. Se falhou alguma coisa importante, é possível que eu não esteja na mailing list. Por favor deixem em comentários.

For several years now I've been making this list mentally, but, in 2025, I got smarter and I've written down potential favourite songs since January, so I wouldn't forget all about them by the end of the year.
Midway through the year, I realised that I should have also noted down relevant releases, the kind that may not include any of my favourite songs but that do deserve attention and a listen.
This year I received an average of 10 releases a day in the goth, post-punk, darkwave and similar genres, which amounts to a brutality of 3600 or so albums, singles, EPs and remixes, and I've listened to everything, in many cases more than once. The thing is, I’m very picky and selective, which means these choices are, in my opinion, the best of the best.
This is a list of my favourite songs of 2025, based solely on my personal taste. If I've missed anything important, it's very possible that I'm not on that mailing list. Please let me know in the comments.


Canção preferida de 2025 / Favourite song of 2025

💥Valisia Odell - An Arabian Tale💥

Esta canção apanhou-me de surpresa e foi paixão instantânea. Obrigada à malta do Festival Entremuralhas/Extramuralhas por ter trazido Valisia Odell. Já não é a primeira vez que só conheço uma banda porque vem ao festival de Leiria.👍

This song took me by surprise and it was an immediate infatuation. Thank you guys from Festival Entremuralhas/Extramuralhas for bringing Valisia Odell. It's not the first time I've only discovered a band because they have brought them to Leiria's festival.👍


Outras canções preferidas de 2025 / Other favourite songs of 2025

Black Angel - LUXX

Black Rose Burning - Into The Black

Bootblacks - Leipzig (feat. Oskar Carls [VIAGRA BOYS])

Corpus Delicti - Crash

Creux Lies - Apocalypto

Date at Midnight - Useless Love

Echoberyl - Morgana

Gothzilla - DES PER ATE 

Long Night - Ghost

Octavian Winters - Hermine 

Peter Murphy - The Artroom Wonder

Pink Turns Blue - Stay For The Night

Rosa Crux - 1335

Rosetta Stone - Connect The Dots

Talk To Her – PLD

The Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

The Red Moon Macabre - Black Chiffon Melee *

The Red Moon Macabre - Carmilla *

* É muito difícil escolher lançamentos de The Red Moon Macabre porque o projecto tem sido tão prolífico que eu perdi a conta por volta dos 20 álbuns em 3 anos (mas já vai em mais). Tentando ser justa, escolhi uma canção de Janeiro e outra de Novembro. Aproveito para destacar o álbum "Shelley's Monster" (que inclui "Carmilla"), uma homenagem em rock gótico à literatura de terror do século XIX. Está aqui quase tudo: Carmilla, Frankenstein, a Mulher de Branco, Jekyll And Hyde, Varney, Dorian Gray (Drácula não precisa de estar porque The Red Moon Macabre já lhe dedicou vários temas).

* It's very difficult to choose releases from The Red Moon Macabre because the project has been so prolific that I've lost count around the 20 albums in 3 years (but meanwhile it became a lot more). In an attempt to be fair, I chose one song from January and another from November. I'll take this opportunity to highlight the album "Shelley's Monster" (which includes "Carmilla"), a goth rock homage to 19th century horror literature. Almost everything is here: Carmilla, Frankenstein, the Woman in White, Jekyll and Hyde, Varney, Dorian Gray (no need to include Dracula since The Red Moon Macabre already have several songs about him).


Álbuns relevantes / Relevant albums

Black Rose Burning - The Fear Machine

Bootblacks - Paradise 

Corpus Delicti - Liminal 

Merciful Nuns - FINISTERE

Peter Murphy - Silver Shade

Pink Turns Blue - Black Swan

Red Lorry Yellow Lorry - Strange Kind Of Paradise

Rosetta Stone - Dose Makes The Poison

Talk To Her - Pleasure Loss Desire

The Chameleons - Arctic Moon

The Red Moon Macabre - Shelley's Monster

ULTRA SUNN - The Beast In You

Valisia Odell - Shadow of a Dream


Descoberta de 2025 / Discovery of 2025

Lung Overcoat *

* Lung Overcoat foi uma banda efémera que deixou apenas meia dúzia de canções arrepiantemente boas que só/finalmente descobri em 2025.

* Lung Overcoat was an ephemeral band that only released half a dozen chillingly good songs that I only/finally discovered in 2025.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Goth Club Classics

Inspired by DJ Dead Parrot's stream Goth Club Classics, here's my list of club hits circa the early 2000s. I'm missing those that never made it to my music files, but please refresh my memory.
This is my experience, what's yours? 

Alien Sex Fiend - Dead And Buried
Anathema - Fragile Dreams
Bauhaus - Kick In The Eye
Clan of Xymox - Louise 
Corpus Delicti - Saraband
Covenant - Dead Stars
Depeche Mode - Personal Jesus
Die Form - Rain Of Blood
Echo & The Bunnymen - Lips Like Sugar
Fields Of The Nephilim - Moonchild
Front 242 - Headhunter
Heroes Del Silencio - Entre Dos Tierras
Joy Division - Love Will Tear Us Apart
Marilyn Manson - The Beautiful People
Moonspell - Vampiria
New Order - True Faith
Nick Cave & The Bad Seeds - Deanna
Nine Inch Nails - The Perfect Drug
Nitzer Ebb - Join In The Chant
Paradise Lost - Say Just Words
Peter Murphy - Indigo Eyes
Rammstein - Du Hast
Red Lorry Yellow Lorry - Hollow Eyes
Rosetta Stone - Adrenaline
Siouxsie and the Banshees - This Wheel's On Fire
Soft Cell - Sex Dwarf
Suspiria - Glitter
The Chameleons - In Shreds
The Creatures - Exterminating Angel
The Cult - She Sells Sanctuary
The Cure - Burn
The Merry Thoughts - Pale Empress
The Mission - Severina
The Prodigy - Firestarter
The Sisters of Mercy - Lucretia My Reflection
Tiamat - Brighter Than The Sun
Type O Negative - Black No. 1 
Virgin Prunes - Baby Turns Blue
VNV Nation - Darkangel 
Wolfsheim - Once In a Lifetime

 

terça-feira, 5 de julho de 2022

Noir Clubbing

[Originalmente publicado no Pórtico


Este é um post há muito devido, apesar das vicissitudes que o atrasaram. O Club Noir original abriu em Fevereiro de 2011 na Baixa (Rua da Madalena). O Noir Clubbing (novo nome) mudou-se para Alvalade (Rua António Patrício, 13B) em Novembro de 2019. Na verdade, a inauguração só aconteceu em Março de 2020. Entretanto, veio a pandemia. Pior altura não podia haver. Não tive oportunidade de conhecer o novo sítio antes e só consegui ir lá agora.
Sobretudo, tenho a dizer que mudou para melhor! Mais amplo, mais espaço, um bar maior, melhor som e pista de dança. Os habitués vão reconhecer a mobília, mas muito menos “apertada” e com mais lugar para conversar. As paredes estão pintadas em cores claras e decoradas com retratos de ícones da música alternativa. Os espelhos ajudam à ilusão de um espaço mais arejado. Até encontrei uma salinha, ao fundo à esquerda, com mais iluminação e menos som, para quem quiser maior intimismo. Por acaso encontrei-a quando procurava a casa-de-banho, que fica ao fundo à direita.
O bairro circundante é sossegado e longe dos centros barístico-turísticos da capital, o que é sempre uma vantagem para quem vai a este espaço alternativo de propósito sem vontade de ser incomodado por curiosos que lá caem de pára-quedas.
A música em si não mudou. Tudo o que é alternativo tem aqui lugar. Infelizmente, o bar tem de fechar às 4 horas, demasiado cedo, e só abre aos fins-de-semana e vésperas de feriado. Mesmo assim, aconselho uma visita urgente a este novo/antigo local de música alternativa.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Gothzilla - um caso sério

Admito que da primeira vez que ouvi o nome Gothzilla pensei que era uma banda de paródia ou que estavam a brincar comigo. Nada mais injusto. É certo que o nome é cómico, e a banda ficaria mais bem servida com outra versão de The Blackest Darkness of the Bottomless Pit of Doom, mas esta malta tem sentido de humor. Gothzilla vende o que apregoa: gótico puro e duro. “Today Is A Good Day To Die” (álbum de estreia “Catharsis”) foi amor à primeira audição. Do mesmo álbum, “Tightwire” e “Temple Of Sound” bastaram-me uma audição ou duas. Desconhecia completamente esta banda escocesa, que apesar do nome leva o rock gótico muito a sério, e procurei a discografia toda. Do segundo álbum, “The Dark Is Rising”, destaco o tema “Edge Of Forever”, e do terceiro, “Auras”, saliento “The Unknown”. Mas o meu tema preferido é sem dúvida “Ilaria”, em que a voz feminina vem dar aquele tom etéreo que tanto mais me agrada quão mais pesada é a composição.
Se tenho algo a apontar à banda é que por vezes resvala um pouco demais (para o meu gosto) para um registo mais metálico a lembrar Paradise Lost. Nunca é uma crítica comparar alguém a Paradise Lost, mas por mim não resvalava nesse sentido.
Com uma obra já significativa, estes escoceses provam que é possível inovar no rock gótico com boas letras e melodias cativantes, originais, sem copiar ninguém.
Gothzilla foi uma banda que me apanhou de surpresa e que merece ser descoberta com urgência.

Para ouvir (e comprar) aqui:
gothzilla.bandcamp.com


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Música gótica − origens − presente − futuro


Ao longo do tempo, durante a existência do blog Gotika, muita gente me perguntou o que é a música gótica. Também vou dar um link para esclarecer todas as dúvidas, mas antes vamos falar dos precursores da música a que, no período pós-punk, se começou a chamar gótica.
Vem de longe, de muito mais longe do que se pode pensar. Durante o período pandémico e o lockdown, o DJ Cyberpagan foi um dos DJs que começaram a emitir streams no Twitch (para nosso deleite). Este stream que vos trago aqui é uma obra de mestre, reunindo todas ou quase todas as influências que, em conjunto, se cristalizaram mais tarde em algo diferente do punk, entre a vanguarda de uns Bauhaus e a melancolia de uns Joy Division, só para citar alguns dos pioneiros. Esta é uma playlist para conhecedores e amantes do gótico que me surpreendeu por ser tão completa (não me consigo lembrar de uma influência que não esteja aqui representada). Para ouvir, descobrir e reflectir, AQUI.

Mas a partir de agora, quando alguém me perguntar o que é “música gótica”, vou responder com este outro stream da DJ Mortasha Kinski, gótico tradicional que cobre muitos dos grandes em duas horas (fantástico!), e não me perguntem mais vez nenhuma.
AQUI

Mas o gótico não acabou nos anos 80, longe disso. A pandemia teve o efeito positivo de impulsionar uma comunidade internacional no Twitch. Todos em casa e todos juntos, unidos pelo prazer da nossa música.
Passados alguns meses a explorar e descobrir, decidi partilhar os meus streams góticos preferidos, onde se ouve o que de melhor se faz na cena actual (gótica e afins, porque sempre foram os góticos a decidir qual era a música que queriam ouvir, e não o contrário, e quem não compreende isto não compreende nada do movimento). O gótico está muito vivo e em permanente evolução.
Aqui estão os meus preferidos. Espero ver-vos por lá.
Em primeiro lugar quero destacar o único DJ português que emite gótico no Twitch (que eu saiba, e geralmente acompanhado pelo DJ Exploding Boy):


Undead Decadance Party
www.twitch.tv/undead_decadance_party
Descrição: post punk, alternative 80s, goth, darkwave, electro
Festa ocasional. Bandas portuguesas actuais.

DJ Exploding Boy e Dj Yggdrasil

Feita a distinção do DJ da casa, seguem-se, em ordem alfabética:

DJ Acidbitter
www.twitch.tv/acidbitter
Descrição: dark alternative music, goth, post-punk, darkwave, industrial, EBM, synthpop, coldwave, ethereal, shoegaze, dark folk, neoclassical, etc
Este é um stream virado para as novidades que privilegia o vídeo, embora passe clássicos com frequência. O ambiente é bem-humorado e descontraído.




DJ Cyberpagan
www.twitch.tv/dj_cyberpagan
Descrição: goth, death rock, post punk, new & (c)old wave, indie
Assistir a um stream do DJ Cyberpagan pode ter a solenidade de uma aula universitária. Pode ser bastante obscuro, podemos não conhecer a maioria das bandas, mas aprendemos sempre alguma coisa. Até hoje, ainda não aconteceu eu não conhecer uma única banda tocada, mas esteve perto. Aconselho a melómanos que querem descobrir música recente e que não têm medo dos “lados B”. Não aconselho a iniciantes.

 

DJ Cyberpagan e a sua gata Pavučina


Dead Souls Gothic Lounge
www.twitch.tv/dead_souls_gothic_lounge
Descrição: goth rock, darkwave, post punk, industrial, coldwave, minimal synth, death rock, ethereal, neoclassical, shoegaze, witch house, dark 80s and 90s
Possivelmente o stream onde se pode ouvir o gótico / alternativo / etéreo / neoclássico mais obscuro que existe, com tendência igual para as novidades. Não é o único stream que passa post punk sul-americano (incluindo brasileiro) mas é o único onde se passa Mão Morta! Clássicos são raros, e grandes hits muito menos. Recomendo a quem já tenha um bom conhecimento do tipo de música. Não recomendo a iniciantes.


 
Dead Souls Gothic Lounge: DJ Naggaroth e o seu gato Phantom

 

DJ Miz Margo
www.twitch.tv/djmizmargo
Descrição: proto-goth, goth, death rock, dark punk, classic industrial, grave wave, batcave, gothabilly, etc
Miz Margo é uma experiência 100% gótica, quer passe as bandas mais recentes ou os clássicos. Quem gosta de Sisters of Mercy, Fields of the Nephilim, Mission, Christian Death, Cure, Bauhaus, Joy Division, Dead Can Dance, Siouxsie, e os outros todos, é aqui que deve ir primeiro e não será desapontado. Mas conte-se com bandas menos conhecidas e muita música nova.

DJ Miz Margo e o seu gato Squeeks


DJ Mortasha Kinski
www.twitch.tv/mortasha_kinski
Descrição: early 80s, new romantic, post-punk, goth, old industrial and dark wave
Mortasha Kinski passa vários géneros, mas escusado será dizer que prefiro os streams sobretudo inclinados para o gótico e anos 80. Para comprovar, nada como ouvir o link acima.

DJ Mortasha Kinski e o seu morcego (de peluche) Batty

 

The New Order Melb
www.twitch.tv/thenewordermelb
Descrição: gothic, post punk, new wave, industrial, death rock, alternative, dark electronic, the rest
Como o nome indica, este é um stream australiano onde o mundo vai acabar a noite, sábado de manhã, devido à diferença horária. Além do gótico puro e duro e das bandas mais recentes, The New Order Melb faz muitos especiais e tem sempre muitas surpresas. É essencialmente um stream divertido, descontraído e descarado, para os DJs e para nós. A melhor maneira de acabar a sexta-feira ou de começar o fim de semana.

The New Order Melb: DJ Wolf, DJ Anarki e DJ Eris


Xiled Radio
www.twitch.tv/xiledradio
Descrição: industrial, techno, powernoise, goth, shoegaze, synthpop, post-punk, ethereal, IDM, dark ambient, pagan folk, etc
Este é um stream virado sobretudo para novidades onde eu vou para ser desafiada, para ser exposta a música de que geralmente não gosto particularmente tirando alguns temas aqui e ali. O objectivo, como melómana que sou, é conhecer música nova e fora da minha “zona de conforto”, mas bastante dentro do espectro da música alternativa. O stream é muito relaxante e descontraído. 


Xiled Radio e o seu gato Ben


Estes são apenas os meus streams preferidos. Há muitos mais que eu sigo ocasionalmente e mesmo regularmente, e uma infinidade deles dentro do gótico e do alternativo em geral. Os streams de música foram o melhor que aconteceu durante a pandemia e são o sítio ideal onde descobrir música nova para quem não se contenta com os clássicos.


quinta-feira, 27 de maio de 2021

:: Review :: WORLD GOTH DAY 2021 :: Review ::

Sabiam que 22 de Maio é o Dia Internacional do Gótico? Eu também não. (Para dizer a verdade, só começou em 2009.) Foi preciso a pandemia e assistir a streamings estrangeiros para saber que o World Goth Day é cada vez mais celebrado pelo mundo fora. Mas este ano, 2021, foi definitivamente especial. (Podem tirar-nos os bares, mas não nos tiram o gótico.) Emissão em streaming, 24 horas ininterruptas, com DJ sets de todo o mundo.
Sendo que é a primeira vez que faço uma crítica / reportagem de um evento de streaming, vou-me guiar pelas regras da crítica de concertos (só que cada um em sua casa).
Só soube do evento no próprio dia, e só por acaso, uma vez que recentemente tenho andado mais ligada aos eventos de streaming como há muito tempo não andava (por exemplo, deixei de ouvir rádio/podcasts online há anos), desde que tenha tempo. Consegui acompanhar o evento das 18h às 2 e tal da manhã, e só posso dizer que foi um espectáculo. DJs do mundo inteiro, vários estilos de música (dentro do gótico / alternativo, bem entendido), góticos de todo o planeta a assistir aos eventos e a participar no chat, de início com alguma timidez, depois mais abertamente.
Algo que sempre me impressionou desde o meu contacto inicial com a cena é que não importa onde estejamos, de que país e cultura sejamos originários, da Europa aos Estados Unidos, da Austrália à América do Sul, quando nos encontramos sentimos que já nos conhecemos todos uns aos outros desde sempre. Isto nunca senti em mais lado nenhum nem com mais ninguém. Quando comunicamos uns com uns outros, apesar de desconhecidos, sabemos imediatamente do que o outro está a falar. É extraordinário.
Não se pense que os góticos são uns sisudos, porque houve momentos de humor. A certa altura um DJ de New York (DJ Sean Templar) decidiu discursar, agradecer a presença de tanta gente online, desejando que nos divertíssemos e mostrássemos, com o nosso apoio, as nossas “true colours”:
“OUR COLOURS ARE BLACK” Respondeu alguém no chat.
Eu ri-me porque estava a pensar o mesmo. Cores, quais cores? Maior verdade nunca foi dita.
Quem perdeu este evento não fique triste, todos os DJ sets estão no site
www.death-rock.de
para serem ouvidos e apreciados em
www.death-rock.de/2021/05/playlist-world-goth-day-stream-2021-22-05-2021
e noutras plataformas onde os DJs alojaram as suas prestações (é só procurar porque estão disponíveis).
Adoro estes streamings, quer os nacionais como os internacionais, e espero que não acabem, com ou sem pandemia. Dão muito jeito às pessoas que não podem sair por motivos profissionais ou familiares, ou que não podem viajar. É uma janela para o que se faz lá fora e, acima de tudo, uma maneira de conhecer música nova ao mesmo tempo que se passa um bom bocado.
Da nossa parte, fomos representados pelo DJ Yggdrasil, já um veterano dos streamings internacionais. Espero não perder para o ano e prometo anunciar com antecedência. É preciso é que se faça.

 

 

domingo, 25 de outubro de 2020

“A Estranha Morte do Professor Antena”, de Mário de Sá-Carneiro, in “A Dança dos Ossos”

 

[contém spoilers]

“A Estranha Morte do Professor Antena” é o último conto de autores portugueses na colectânea “A Dança dos Ossos”. Tal como “A Confissão de Lúcio”, também de Sá-Carneiro, na antologia em ebook Dentro da Noute” que deu origem a esta edição em papel, “A Estranha Morte do Professor Antena” é a chegada à modernidade numa colecção de clássicos iniciada com “O Defunto” de Eça de Queirós.
Li “A Estranha Morte do Professor Antena” ainda na adolescência e devo confessar que fiquei perturbada. Enquanto que em “A Confissão de Lúcio” temos um surrealismo psicológico (a mulher que desaparece perante os olhos de Lúcio, será que ela existe mesmo ou não passa de uma manifestação da homossexualidade do protagonista?), cheio de segundos sentidos e simbolismos, “A Estranha Morte do Professor Antena” é uma história de terror. Mais propriamente, uma história de ficção científica de terror, embora a explicação científica nunca entre em pormenores, deixando as culpas aos apontamentos (convenientemente) incompletos do Mestre.
É difícil analisar este conto sem o spoiler logo nas primeiras páginas, o spoiler que, afinal, dá título ao conto. O Prof. Antena morre vítima do que é oficialmente um atropelamento. Mas só agora o seu assistente, e narrador da história, vem a público revelar o que realmente aconteceu. O Prof. Antena descobriu uma maneira de viajar entre dimensões paralelas, só que teve o azar de entrar na dimensão errada à hora errada. Algo dessa dimensão o trucidou como a alguém colhido por um comboio. Desde que li este conto nunca mais achei interessante andar por aí a viajar entre dimensões. Sim, foi um conto difícil de esquecer, por muito que a base científica que lhe dá origem peque por insuficiente. Para conto de terror, no entanto, chega e sobra.
Nesta segunda leitura, o que mais me impressionou não foi a morte chocante do Prof. Antena, mas antes a questão das dimensões paralelas. Esta história foi publicada em 1915 (compilação “Céu em Fogo”). Onde é que Sá-Carneiro foi buscar estes conhecimentos científicos? Lovecraft, no mesmo período, arranja maneira de explicar estas coisas com portais abertos por deuses e extraterrestres. Havia sequer hipóteses científicas nesta época sobre dimensões paralelas, pergunto eu que não percebo quase nada do assunto? Mas de repente Mário de Sá-Carneiro fala do Espiritismo, e, por muito que os cientistas de hoje esperneiem de nojo, basta ler “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec, publicado em 1857, para ficar com uma ideia clara de vidas sucessivas em diferentes dimensões, até em diferentes mundos. E, de facto, o Prof. Antena não tenciona ir a uma dimensão “paralela” a esta em termos espaço-temporais; ele pensa que vai para uma dimensão da (sua) vida futura. O que difere da doutrina Espírita, se não estou em erro, é a questão de a vida futura poder decorrer em espaço-tempo simultâneo com a vida presente a ponto de ser possível atravessar de uma para a outra, como nas dimensões alternativas de ”The Man in the High Castle”. Mas outro livro de cariz igualmente espiritualista, “Conversas com Deus”, de Neale Donald Walsch, publicado em 1995, e com a Teoria das Cordas por base/inspiração, afirma que é bem possível que todas as dimensões, passadas, presentes e futuras, existam “agora” e que nós não tenhamos capacidade de as percepcionar. Rebuscado? A Teoria das Cordas também me parece rebuscada, uma coisa de ficção científica. Mas aparentemente há cientistas que trabalham a sério para a provar, bem como a uma Teoria de Tudo. Quem sou eu, ignara, para falar do que não sei?
Isto tudo para dizer que fiquei algo baralhada quanto ao conhecimento de dimensões espaço-temporais que haveria no tempo de Sá-Carneiro. Não era um bocadinho cedo para isto? Nesta altura ainda o Einstein andava a trabalhar na Teoria da Relatividade. Ter-se-á Sá-Carneiro realmente inspirado no Espiritismo?

Aceite a hipótese das vidas sucessivas e, de resto, preocupando-nos apenas com a de hoje e com a de ontem – onde se localizarão essas vidas, quais serão os seus meios?...
«Essas vidas existem sobrepostas, bem como os seus meios» – parece ter concluído o sábio. Unicamente os seres adaptados a uma vida, seriam insensíveis a outra. Assim não a poderiam ver, não a poderiam sentir, embora ela os trespassasse, os entrecruzasse.
(Citação do conto, mas de outra fonte que não “A Dança dos Ossos”.)


A nível espiritualista, acho tudo isto interessantíssimo. A nível científico é que não me interessa tanto. 
A escrita de Mário de Sá-Carneiro é a de um poeta e o seu estilo é tão único quanto a certa altura se torna cansativo. Principalmente as sinestesias e os galicismos, que aparentemente estavam tanto na moda que toda a escrita de Sá-Carneiro se agita* deles. (*Agitar, aqui, é um dos exemplos de galicismo que não devia aqui estar nem faz sentido em português.) É interessante na poesia, embora na minha opinião não deixe de ser batota linguística, mas permite-nos, pelo menos, experiências de dinamização da linguagem: umas que ficam, outras que se perdem. Mas esta linguagem em conto, especialmente quando lemos alguns contos seguidos, e neste conto em particular, não ajuda a criar o tal contexto de credibilidade que uma história de ficção científica de terror precisa. É claro que isto é a minha opinião de leitora do século XX-XXI, mas entretanto o terror escreve-se com uma linguagem mais próxima da realidade, exactamente para convencer o leitor a “acreditar”. Ao ler este conto eu lembro-me constantemente de que é um conto, e um conto escrito por um poeta, e a história perde muito do seu impacto por causa disso. Uma escrita mais científica e este conto seria perfeito. Mas, ressalvo novamente, isto é uma opinião de 2020, de uma leitora amante de um género que evoluiu para a excelência ao longo de um ou dois séculos. Mário de Sá-Carneiro ainda estava no domínio da experiência, de uma escrita “fora da caixa” para a altura, e aí é que está o seu grande mérito. Ademais, conseguiu que a história me perturbasse, sinestesias e galicismos à parte, e não é fácil perturbar uma leitora de Terror de finais do século XX.

“A Dança dos Ossos”
Mais algumas notas sobre a colectânea. Além dos contos já publicados em  “Dentro da Noute” – clicar na etiqueta abaixo para ver comentários a todos os contos portugueses presentes no ebook – a versão impressa inclui uma biografia resumida de cada autor antes do respectivo conto.
Saliento igualmente o excelente prefácio de António Monteiro, onde se debatem as origens da literatura fantástica em português e do género gótico em geral, de que já se falou aqui várias vezes.
Volto a expressar os meus parabéns pela iniciativa e a recomendar este livro a todos os que estão agora a tomar contacto com a literatura fantástica em português, bem como àqueles que a queiram recordar.
O design do Livro B, bem como as lendárias páginas azuis, vão certamente despertar nostalgias.
Para quem ainda não pensou nisso, eis aqui um excelente presente para as pessoas que gostam de literatura gótica. Mas não mo ofereçam a mim porque já tenho um exemplar. ;)


domingo, 30 de agosto de 2020

The Doors / The Doors: O Mito de uma Geração (1991)


I am the Lizard King
I can do anything


Seria extremamente improvável, senão mesmo impossível, que eu não gostasse deste filme. “The Doors” é quase um video clip do princípio ao fim com todos os grandes êxitos. Podia tudo o resto falhar: actuação, cenários, guarda-roupa, direcção, enredo, que eu continuaria agarrada ao filme enquanto a música tocasse. O que não é o caso. Este filme é um 20 em 20, redondo e garrafal, e, estranhamente, é muito difícil dizer seja o que for do que é perfeito.
Val Kilmer encarnou Jim Morrison tão visceralmente que a certa altura eu me esquecia de que estava a ver um actor, especialmente nas cenas em palco. E o que me deixou de boca aberta: Val Kilmer, ele próprio, cantou no filme (embora algumas vezes se ouvisse mesmo a voz de Jim Morrison). Eu, que gosto dos Doors desde miúda, não conseguiria distinguir a diferença se não soubesse. De facto, até tive de ir pesquisar à net se as canções não tinham sido dobradas. Não foram inteiramente. Uma coisa é interpretar um ídolo da música, outra coisa é cantar como ele a ponto de conseguir “enganar” um fã. Porque é que não deram um Óscar a este homem? Val Kilmer transformou-se em Jim Morrison, da cara ao corpo à voz. Não é esse o pináculo do trabalho de um actor?
Por razão igualmente estranhíssima, perdi o filme quando saiu e só agora o vi pela primeira vez. Deve ter sido daqueles que ficaram na categoria “tenho de ver”, e depois o tempo foi passando e nunca mais me lembrei. É uma razão estranhíssima porque, embora não goste de tudo dos Doors, gosto bastante de algumas canções. “When the music’s over” “toca” na minha cabeça frequentemente. Do que gosto mais até é da sonoridade, inconfundível, que sempre me transportou para lá, para este tempo e para esta geração que não é a minha.
Eram os anos 60, o movimento hippie, e ao mesmo tempo que os Doors conseguiam apelar a essa multidão, toda paz e amor e LSD, chegavam também a uma outra, toda raiva e inconformação e LSD. A geração que buscava abrir as “portas da percepção” para fora de um mundo em que muitos jovens iam morrer para o Vietname, em que a utopia hippie degenerou em cultos sangrentos como os de Charles Manson, em que os Kennedys e Martin Luther King eram assassinados.
Jim Morrison viveu o mantra “sex, drugs and rock’n’roll” até ao limite e pelo mesmo mantra morreu. Aos 27 anos, live fast, die young, sê um cadáver bonito.
Admira-me sempre muito quando os Doors não são apontados como percursores do movimento gótico. Mas alguma vez haveria o movimento gótico sem os Doors? Alguma vez haveria o movimento punk sem os Doors? Led Zeppelin? Quais Led Zepellin sem os Doors? Alguma vez viram Jim Morrison em palco, vestido de negro da cabeça aos pés, de corpo serpenteante, voz poderosa e ganas de partir tudo? Alguma vez leram a sua poesia?
“The Doors” mostrou-me o homem e a banda que eu sempre adivinhei que Jim Morrison e os Doors tivessem sido, das tímidas origens ao estrelato e aos fãs em histeria, ao fim trágico que só podia ter sido aquele. De certa forma, era este o filme que eu tinha na cabeça ainda antes de o ver. Jim Morrison, Pamela Courson e os Doors como sempre os imaginei.

20 em 20. Perfeito.

domingo, 17 de maio de 2020

A Dança dos Ossos, edições Livro B


A Dança dos Ossos” é a edição Livro B de um ebook já aqui muito falado, “Dentro da Noute”, organizado por Ricardo Lourenço.
(Basta seguir a etiqueta “Dentro da Noute” para encontrar comentários a todos os contos portugueses desta antologia.)
Embora eu prefira muito mais o título “Dentro da Noute” (assim mesmo, arcaico e tudo), o melhor motivo para mudar o título deste “A Dança dos Ossos” é que um dos contos foi substituído: em vez de “A Confissão de Lúcio”, no original digital, “A Estranha Morte do Prof. Antena”, do mesmo autor Mário de Sá Carneiro (o que faz sentido, uma vez que  “A Confissão de Lúcio” talvez fosse muito extensa para a edição em papel).
“A Dança dos Ossos” está disponível no website da colecção Livro B. Transcrevo de lá o texto introdutório:

As origens da literatura popular luso-brasileira com temáticas de sempre: crime, sobrenatural, romance.

A génese do movimento gótico teve lugar na Alemanha no século XVIII (a balada"Lenore" de Gothfried August Burger é considerada a obra iniciadora do género). Como nunca antes, numa espécie de onda imparável, a moda espalhou-se pela Europa e pelo mundo ocidental em geral. As razões conjugavam-se para justificar esse sucesso: o livro impresso vulgarizava-se e tornava-se acessível em termos de preço; com mais acesso a fontes de escrita e a projectos pioneiros de ensino, uma grande parte da população começou a aceder com maior ou menor facilidade a uma educação básica que antes era simplesmente inexistente; os escritores encontravam, pela primeira vez, um mercado propriamente dito adequando, pela primeira vez na história, a sua produção a uma procura crescente. 

Dessa forma encontra-se no gótico literário a génese da literatura policial, fantástica, da ficção científica, da literatura de acção ou, até, da dita literatura romântica.

No mundo lusófono, traduções de Ann Radcliffe, Fréderic Soulié e muitos dos primeiros best-sellers do gótico chegaram já no século XIX e o movimento, por cá, mesclou-se, de alguma forma, com o ultra-romantismo

Nesta antologia, preparada por Ricardo Lourenço, encontramos uma amostra choruda dos grandes expoentes do género no universo luso-brasileiro, catalogando uma panóplia de temáticas que vieram a marcr toda a literatura popular dos séculos seguintes e que ainda hoje mantém a sua actualidade bem fresca.

Contos e Novelas Portugueses
1. «O Defunto», de Eça de Queirós
2. «A Dama Pé-de-Cabra», de Alexandre Herculano
3. «A Caveira», de Camilo Castelo Branco
4. «A Torre Derrocada», de Alberto Osório de Vasconcelos
5. «O Mistério da Árvore», de Raul Brandão
6. «O Corvo», de Fialho de Almeida
7. «A Feiticeira», de Ana de Castro Osório
8. «A Morta», de Florbela Espanca
9. «Os Canibais», de Álvaro do Carvalhal
10. «Uma Récita do Roberto do Diabo», de Júlio César Machado
11. «O Cadáver», de Beldemónio
12. «Sede de Sangue», de Manuel Teixeira Gomes
13. «A Estranha Morte do Prof. Antena», de Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. «Noite na Taverna», de Álvares de Azevedo
2. «A Dança dos Ossos», de Bernardo Guimarães
3. «Os Porcos», de Júlia Lopes de Almeida
4. «Acauã», de Inglês de Sousa
5. «Violação», de Rodolfo Teófilo
6. «Maibi», de Alberto Rangel
7. «Assombramento», de Afonso Arinos
8. «11 e 20», de Medeiros e Albuquerque
9. «Demônios», de Aluísio Azevedo
10. «O Defunto», de Tomás Lopes
11. «A Causa Secreta», de Machado de Assis
12. «O Bebê de Tarlatana Rosa», de João do Rio
13. «Confirmação», de Gonzaga Duque
14. «Os Olhos que Comiam Carne», de Humberto de Campos

Recomendo a antologia a toda a gente que gosta de literatura gótica (e de literatura portuguesa), especialmente àqueles que ainda não tiveram muito contacto com ela. Aos outros, esta antologia vai com certeza despertar memórias e recordar o motivo pelo qual já temos os nossos autores preferidos.
E aproveito para dar os parabéns ao Ricardo Lourenço pela iniciativa. Desejo muita sorte para esta antologia, e cá fico à espera de mais iniciativas deste tipo, ou de outro.

O Livro B
Saúdo a iniciativa de trazer de volta a colecção Livro B. Estes livrinhos, de tamanho muito pequeno e capa negra (e às vezes páginas azuis de papel muito fino e letra muito pequena), são em grande parte responsáveis pela minha educação literária. Por serem pequenos, eram também baratos. Noutros tempos, nunca ia à Feira do Livro sem trazer uma carrada deles, o que me deu a conhecer autores que de outra forma me teriam passado ao lado. De alguns gostei, com outros fiquei decepcionada, mas o importante é que graças à colecção fui exposta a muitos tipos de escritores e diferentes géneros, encaminhando os meus gostos literários na direcção em que acabariam por solidificar mais tarde.
Por esta educação literária, indescritivelmente superior à que tive na escola, estou muito grata ao Livro B e à sua colecção original. Foi aqui que li “Do Assassínio como uma das Belas-artes” de Thomas de Quincey; “Paraísos Artificiais” de Charles Baudelaire; “Frankenstein” de Mary Shelley; “As Filhas do Fogo” de Gérard de Nerval; “Os Demónios de Randolph Carter” de H. P. Lovecraft; “O Cocheiro da Morte” de Selma Lagerlöf (um dos meus preferidos e um livro que me marcou muito); “O Altar dos Mortos” de Henry James; “O Castelo de Otranto” de Horace Walpole (considerado a primeira obra de literatura gótica); “Os Cisnes Selvagens e Outros Contos” de Hans Christian Andersen, e isto só para recordar os favoritos. Muitos outros li também e, embora não sendo preferidos, deram-me a conhecer contos de autores que me levaram mais tarde a procurar as suas obras mais importantes, como “A Mulher Pobre” de Léon Bloy ou “Carmilla” de Joseph Sheridan Le Fanu. Este sim, é um plano de leitura cinco estrelas.
Vou continuar a ser uma leitora desta nova colecção do Livro B, mas tenho uma crítica a fazer. Estamos na era digital e estas novas edições não incluem o ebook. É pena, para quem como eu desistiu do papel (muitos motivos, desde os ecológicos à falta de espaço e à facilidade de transporte em dispositivos digitais). Já é altura de as editoras portuguesas (não só esta como todas) acompanharem o espírito dos tempos e perceberem que o ebook veio para ficar e muitos leitores já não querem o papel. Ignorar este facto é perderem leitores pagantes, para seu prejuízo. E nosso, também.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite

 

 [spoilers mínimos; não revela o fim]


Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.

Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:

«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»

Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros. 

Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:

«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»

Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um  Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:

«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»

E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:

«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»

A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.

Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Club Noir e Metropolis encerrados ao mesmo tempo

Publicado no Pórtico:

Más notícias para a cena gótica e alternativa de Lisboa. Depois do encerramento do Club Noir na rua da Madalena, agora é o Metropolis Club a fechar as portas no Centro Comercial Imaviz. A festa de despedida do Metropolis é já no próximo sábado 1 de Fevereiro. A ultima noite no Club Noir da rua da Madalena foi a passagem de ano. Ambos os bares tiveram de fechar porque os espaços foram comprados. Para a “construção de apartamentos de luxo”, no caso do Club Noir, para uma “multinacional hoteleira” no caso do Metropolis, como se pode ler nas respectivas páginas de Facebook. O Club Noir promete reabrir em breve em espaço já encontrado em Alvalade. O Pórtico espera novidades.
No caso do Metropolis, a notícia foi em cima da hora mas não é uma surpresa. O bar já esteve fechado há dois anos, de Outubro a Novembro de 2017, por motivos relacionados com o próprio espaço do centro comercial. O Imaviz, nas Picoas, foi na sua época um centro comercial chique e caro (onde António Variações trabalhou num cabeleireiro unissexo Isabel Queiroz do Vale) mas o estado decrépito e cada vez mais lojas fechadas saltavam à vista de quem atravessava regularmente aquele espaço de “centro comercial fantasma” durante estes últimos doze anos de existência do Metropolis.
O Pórtico vai ficar atento e deseja boa sorte às gerências do Club Noir e do Metropolis na busca de espaços alternativos (em duplo sentido).



segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A Confissão de Lúcio, Mário de Sá Carneiro

http://projectoadamastor.org/antologia-dentro-da-noute-contos-goticos

Para quem está a ler a antologia “Dentro da Noute”, chegar a este conto (que encerra a colectânea de contos portugueses) é chegar à modernidade.
“É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou — apenas — os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz — pode ser. Entretanto não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido."
Tirando algumas expressões muito datadas, especialmente de inspiração francesa, “Lúcio” continua a fazer sentido hoje (ou, neste caso, a não fazer sentido). Na primeira pessoa, o personagem Lúcio confessa, ou melhor, não confessa, um crime que não cometeu mas que o manteve na prisão durante dez anos. Uma verdade inverosímil, como o próprio diz, uma sequência de acontecimentos impossíveis, inacreditáveis.
A história passa-se mesmo no final do século XIX, início do XX, numa alta sociedade de artistas portugueses apaixonados por Paris, a cidade venerada de todo o vanguardismo à época. Lúcio, dramaturgo, convive com outros artistas e escritores, todos eles atingidos dessa doença dos ricos chamada “ennui” que se contrai por não se fazer nada na vida senão passear pelos boulevards, viver em hotéis e jantar em restaurantes chiques. Lúcio conhece o poeta Ricardo de Loureiro, com quem estabelece uma íntima amizade. Muitas coisas são ditas entre os dois (o poeta tem ideias muito “estrambóticas”, como diz o conto), mas talvez a mais importante seja a maneira como o poeta declara só ser capaz de amar se “possuir”, logo, como é que pode amar um amigo se não consegue possuir alguém do mesmo sexo? Isto vai causar uma materialização da alma de Ricardo numa figura feminina que se torna amante de Lúcio. Ou seja, pelo menos é esta a “verdade” de que o narrador nos tenta convencer, sabendo ao mesmo tempo que qualquer plausibilidade é impossível.
“Mas ponhamos termo aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E para a clareza, vou-me lançando em mau caminho — parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará — estou certo — a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.
Uma coisa garanto porém: Durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer duma grande soma de factos. E são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não me importa que me acreditem, mas só digo a verdade — mesmo quando ela é inverosímil.”
O próprio narrador nos avisa, pelo excesso, de que não é de confiança. Até que ponto é que o autor não nos quer revelar o tema que o conto trata (a homossexualidade), ou até que ponto o autor não admite que trata este tema, deixo a outro tipo de análise. Um século depois, esta temática “chocante” perdeu-se e o leitor moderno sente-se atraído pelo mistério que Lúcio nos vai relatando, duvidando aqui e ali dos tais pormenores que o narrador prometeu descrever fielmente, questionando a sua sanidade mental (tal como ele nos advertiu), questionando a relevância deste ou daquele acontecimento no total da narrativa. Tive muitas vezes a sensação (e a desconfiança) de estar a ler o relato de um sonho. O que de certa forma me recorda de Kafka, pese embora a diferença de temáticas. Se tantas vezes as histórias pecam por incoerência e falta de sentido, quando é bem feito e apoiado num todo surrealista resulta muito bem. Este é um desses casos e uma leitura que recomendo a toda a gente que ama a literatura.




-§-

Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Sede de Sangue, de Manuel Teixeira Gomes

http://projectoadamastor.org/antologia-dentro-da-noute-contos-goticos

Este conto devia ser daqueles que mais me empolgam. Um vampiro. Um vampiro a sério! Mas infelizmente o conto não me cumpriu as expectativas.
Esta é mais a história de um mirone, o narrador, que do seu escritório, onde escreve para um jornal da terra, tem uma vista privilegiada para a “taberna” de um Sr. Trovas e sua esposa Balbina Catada, “antiga marafona que ele desposara em Lisboa”. Sim, a “taberna” é um bordel, e “marafona”, presumo, era sinónimo de prostituta. (Actualmente, “marafona” significa “mulher feia”. É curioso como as palavras evoluem.)
O narrador passa a maior parte do conto a descrever as “marafonas” (nos dois significados) que trabalham na taberna, até que lá aparece uma bela mulher de raça cigana: “Era uma rapariga de aparência franzina que, airosa, de perna cruzada, arcando divinamente o braço nu, fumava cigarros e falava espanhol. Ao expelir o fumo do cigarro em ténues baforadas toda se encostava para trás e o seio entumecia-se-lhe prodigiosamente debaixo do leve casabeque solto; de entre as fartíssimas madeixas do cabelo, que lhe caía sobre os ombros em lustrosas ondas negras, o rosto emergia oval, puro, mate, iluminado por dois olhos babilónicos, imensos olhos ardentes que fascinavam…”
Ora, esta nova trabalhadora da taberna começa a dizer, repetidamente: “a minha vida está por um fio: não tarda muito que não venha alguém beber-me o sangue”. Por estranho que pareça, ninguém lhe pergunta o que é que ela quer dizer com isto. Não é uma coisa normal de se dizer. Mas um dia, de facto, o nosso narrador/mirone observa a chegada de um estranho homem: “No momento em que o tive quase ao meu lado examinei-o bem: era enorme; era monstruoso! O arcabouço mociço, redondo, com proporções de mó de moinho; os braços grossíssimos, como troncos d’árvore articulados, encurvavam-se a miúdo e ligavam as mãos com um jeito de formidável turquês que se fecha para esmagar qualquer coisa; e as esgalgadas pernas de uma tão maravilhosa elasticidade que só as feras assim as têm. Mas o rosto, então, apavorava: lívido, golpeado pelo farto bigode preto, que lhe caía em compridas, agudas pontas dos dois lados do queixo, e sob as hirsutas sobrancelhas, na profundeza das órbitas cavernosas, ardiam-lhe os olhos desvairadamente…”
O narrador espreita como a cigana e este “gigante” se encontram, como se afastam até uma praia, e como ele efectivamente lhe bebe o sangue. E depois o conto acaba, sem qualquer explicação. “Os médicos que lhe fizeram autópsia, ao dia seguinte, não lhe encontraram pinga de sangue nas veias, mas ninguém suspeitou que um vampiro lho houvesse sugado, pois durante a noite a maré lavajara por muitas horas o cadáver e o sítio onde ele ficara, presumindo-se que assim desaparecera o sangue derramado.”
Há casos em que a falta de explicação valoriza a história, mas este não é desses casos. Afinal, o que foi aquilo tudo? Este homem “monstruoso” era mesmo um vampiro (sobrenatural) ou um assassino qualquer? E se a vítima tinha conhecimento do vampiro (sobrenatural ou não) porque é que aceitava tão placidamente que este lhe viesse beber o sangue? Não saber as respostas a estas perguntas deixou-me frustrada e sem perceber o que é que o conto queria, de facto, contar. A mim parece-me que o autor estava mais interessado em falar das marafonas e da Balbina Catada. Como grande fã de literatura de vampiros, não gostei.




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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O Cadáver, de Beldemónio

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Este é um conto cómico que conseguiu fazer-me rir. Trata da história de um homem que vinha de um baile, “Fernando de Morais, um valsista infatigável de todos os bailes do campo”, pelas bandas do Campo Grande, que nessa altura era mesmo campo e arredores de Lisboa. (Primeira gargalhada.) “De repente, distraído, tropeçando em qualquer coisa de mole, caiu de bruços para a frente, com as mãos estendidas. As suas mãos bateram numa superfície fria e molhada; e quando ele rapidamente se quis firmar para se pôr em pé, encontrou cabelos; o seu olhar já habituado ao escuro reconheceu um cadáver ali estatelado, de ventre para o ar, com a cabeça um pouco de lado, lívida e horrorosa sob o luar alvacento.” Era um homem que tinha sido assassinado. Mas este Fernando, e justificadamente, tem medo de ser acusado do crime se for encontrado junto ao cadáver e desata a fugir espavorido. É muito interessante como ele toma medidas forenses para eliminar todos os vestígios do cadáver, queimando a roupa manchada de sangue, fingindo um semblante calmo e sereno enquanto, intimamente, a paranóia de ser acusado do crime vai aumentando a níveis insuportáveis. Bem diz o conto:
«Se se lembrarem de propalar que furtei sub-repticiamente o zimbório da Estrela, a primeira coisa que tenho a fazer é fugir para o estrangeiro, e justificar-me de lá...»
Segunda gargalhada. E não é que ainda é verdade nos nossos dias? Especialmente para o desgraçado do pobre, que não tem uma firma de advogados que o defendam se for injustamente acusado. Mas se é rico e corrupto, não só não o conseguem prender como ainda se “arrisca” a ser reeleito Presidente de Câmara…
Não vou contar o que acontece a Fernando porque ia estragar a piada. Na verdade, esta história nada mais é do que uma piada desenvolvida em forma de conto. O mais surpreendente é que ainda nos faz rir hoje em dia, duzentos anos depois.
Beldemónio é o pseudónimo de Eduardo Lobo Correia de Barros, cronista, contista, jornalista e tradutor.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Uma Récita do Roberto do Diabo, de Júlio César Machado

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Durante uma exibição da ópera “Roberto do Diabo”, um folhetinista (título que dá a si próprio) é abordado por um companheiro de camarim que lhe relata uma ignominiosa história de parricídio, caso este a queira escrever. O folhetinista interessa-se e o companheiro conta-lhe a história de Ricardo, que mata o pai no único intuito de lhe roubar a herança. Pior do que isso, consegue acusar um inocente do homicídio, inocente este que é enforcado por um crime que não cometeu. Ricardo é o Mal em pessoa. Mas sobrepujado pelos remorsos, acaba por se arrepender.
No drama em palco, temos a história inversa. Roberto é filho de Bertran, que se intitula diabo (“um diabo subalterno, um diabo inferior, um diabo de segunda qualidade, um pobre diabo! A licença com que veio à Terra expira nesse dia; dentro em poucas horas tem de abandonar o filho e voltar às trevas e às chamas, ao fogo e à escuridão, à alegria infernal e à dor maldita!”), e que gosta tanto do seu filho que quer levá-lo para o inferno para não se separar dele.
Este é um conto que promete mais do que oferece. Entretanto, o companheiro do folhetinista confessa que o tal “Ricardo” é ele próprio (o que já todos tínhamos percebido) e promete dar mais pormenores. Contudo, no dia seguinte, o folhetinista descobre que este estranho homem é um louco do manicómio. Ficamos sem saber se a história era verdadeira, se foi uma invenção do louco, se foi o parricídio que o fez enlouquecer. Não aprecio este tipo de fim que não nos dá nada em forma de conclusão. Justifica-se, em certos casos, mas aqui não percebo mesmo porque é que o fim fica “à interpretação do freguês”.
Salvam-se algumas considerações sobre o Bem e o Mal que vão sendo feitas a meio da narrativa. Não há muito mais a dizer sobre este conto e não quero fazê-lo parecer mais interessante do que é.



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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Os Canibais, de Álvaro do Carvalhal

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Na forma de conto fantástico, “Os Canibais” é na verdade uma feroz crítica social. Quer-me parecer que a crítica não é apenas ao óbvio: a importância das aparências e a ganância, mas mais do que isto talvez já me escape nos dias de hoje.
A acção passa-se entre a alta sociedade portuguesa do século XIX. “Suponha o baile — se lhe apraz, mesmo por comodidade ou propriedade — suponha-o em Lisboa”, diz o narrador,  que já tinha começado o conto com uma crítica irónica ao pensamento literário da época: “Disse a crítica pela boca de Boileau: Rien n’est beau que le vrai”, isto é, só o verdadeiro é belo. [E esta já é uma tradição de séculos entre nós --só o realismo interessa-- o que é um dos factores que explica a falta de literatura gótica e fantástica em Portugal. Ainda hoje, note-se, na cabeça de muitos intelectuais, só o realismo é sério. Veja-se até o prémio Nobel, sempre atribuído a autores que retratam sociedade e política. A Fantasia, a Ficção Científica, o Fantástico em geral, são considerados devaneios inferiores. Salva-se o Realismo Mágico quando bem embrulhado em ditaduras. E isto explica porque é que Tolkien nunca ganhou o Nobel. E está tudo dito.]
Álvaro do Carvalhal vai citar a ideia de que “só o verdadeiro é belo” para se lançar num conto que é completamente Fantástico, se bem que nem sempre coerente. Eu fiquei com algumas dúvidas quanto ao que de facto aconteceu.
A jovem Margarida, bela e senhora do seu nariz, apaixona-se pelo misterioso visconde de Aveleda. Margarida é muito cortejada (“Ela era o ídolo acatado de todos os crentes”) mas não corresponde ninguém. Álvaro do Carvalhal bem sublinha que não quer dar a moral da história, mas eu vejo aqui algo do ditado “quem muito escolhe pouco acerta”. O visconde, desde o momento em que aparece, denuncia logo que não é um homem vulgar. Melancólico e desencantado, não diz duas frases seguidas que não sejam góticas: “O cego adivinha as maravilhas da natureza e adora-as, mas sem poder contemplá-las. Eu sou como o cego, Margarida; adoro-a, sem poder mais nada.” O visconde adverte Margarida de que não o ame, deixando adivinhar qualquer tragédia que nunca revela, mas por fim até ele cede à sedução de Margarida e acabam por casar.
Entra aqui em cena um outro personagem, D. João, que diz amar Margarida, embora tudo nos leve a perceber que é desejo de conquista e orgulho ferido que o move. D. João queria cortejá-la mas Margarida desdenha-lhe os avanços. D. João é um Don Juan (seja o nome propositado ou não), habituado a ter as mulheres que quer. É através deste personagem que Álvaro do Carvalhal faz a crítica mais severa, descrevendo-o como um produto da sociedade, julgando que são os seus talentos pessoais, em vez da grande fortuna, que lhe abrem todas as portas. “O prostíbulo, voragem que a lei sanciona, foi a arena borrifada com o vinho de suas primeiras proezas. Cansado enfim de se estorcer na crápula, no húmido chão do lupanar, volveu os despertados apetites para a recatada burguesia. Se lhe resistia a inocência, a palavra dinheiro, pronunciada com voz anelante por lábios torpes, abandonava o pudor aos soltos caprichos do mancebo. E muitas foram as envergonhadas pequenas, que lhe venderam a virgindade em beijos frios, em dilúvios de sentidas lágrimas.”
Mas tirando a crítica social, não percebi que papel D. João realmente teve nos acontecimentos. O orgulho ferido leva-o a intentar o assassinato do visconde, nomeadamente no dia do casamento, mas antes de o chegar a fazer já a tragédia se tinha desenrolado.
Eu cheguei a pensar, até devido ao título do conto, que o visconde seria um vampiro ou algo do género. O que o visconde realmente é, prefiro que o autor o descreva: “Fez um movimento. Ressoaram estalos como de molas. Horror! Sobre a poltrona caiu um corpo mutilado, disforme, monstruoso. Pernas, braços, os próprios dentes do visconde, brancos como formosos fios de pérolas, tombaram sobre os felpudos tapetes da Turquia, e perderam-se nas dobras de seu robe de chambre, que naturalmente se lhe desprendeu dos ombros. O infeliz era um fenómeno, um aborto estupendo, que em nossos dias valeria muito dinheiro a quem quisesse especular. Era ele poeta de mais para isso. A tudo porém dera remédio a civilização de seu tempo. Afortunados tempos!”
Isto acima descrito aconteceu na noite de núpcias, em frente da horrorizada Margarida. Antes, ele tinha-a lembrado da sua promessa: “prometeste seguir-me ao cemitério, se lá fosse minha morada…” Margarida lança-se da janela e morre, de cabeça esmagada num banco do jardim. O visconde, de coração partido, atira-se à fogueira para morrer queimado.
D. João, que entra no quarto neste preciso momento na intenção de matar o visconde (ou o casal?) foge também. Mas, ao descobrir que Margarida tinha morrido, dá um tiro no “coração”, numa intenção de morrer que eu não percebi muito bem. Achei demais para um homem movido pelo orgulho ferido que de facto não amava Margarida mas a ideia de a possuir como a todas as outras. Mas as motivações das personagens não são o aspecto mais trabalhado deste conto. Diria mesmo mais, este é um conto satírico disfarçado de conto de horror, em que as acções das personagens se destinam a realçar a sátira. Nem sei se devíamos mesmo sentir simpatia pelo pobre visconde e pelo seu atrevimento e ingenuidade de julgar que Margarida o podia aceitar como era, ou se o autor estava a gozar connosco também.
Não vou revelar a parte que dá nome ao conto mas asseguro que não é publicidade enganosa. A seguir, acontece aqui uma espécie de piada que de forma nada subtil nos informa de que o dinheiro compra tudo, até a consciência.
Mas fiquei a perguntar-me: seria só isto que o autor queria dizer, que me parece tão óbvio e batido, até para a altura? O problema da escrita satírica, e neste caso o autor chega mesmo a gozar com o próprio conto, é que só faz rir quem está por dentro da piada. Era preciso dizer ou mostrar muito mais para que se entendesse plenamente a piada mais de dois séculos depois. Nunca esperei canibalismo literal deste conto, mas o título fez-me pensar num “canibalismo” simbólico em que os personagens se destroem mutuamente. Afinal, porque é que os pais e irmãos de Margarida são “canibais” a nível simbólico? Porque são iguais aos outros e também teriam prostituído a filha ao D. João ou ao visconde ou a outro qualquer, não fosse ela tão senhora do seu nariz? Era só isto? Já que o objectivo é a sátira, eu esperava mais de um título tão forte. E não gostei mesmo nada da ligeireza do fim, quase uma anedota. O autor é demasiado gozão para o meu gosto. Mas justiça lhe seja feita, o conto consegue cenas verdadeiramente tenebrosas (rebuscadas que sejam). Tudo o resto sou eu que estou mal habituada a um terror mais moderno e consistente.

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Já depois de escrever este artigo, tive curiosidade de ir pesquisar o conto e o autor. Descobri que Álvaro do Carvalhal morreu com apenas 24 anos, em 1868. Isto explica tudo o que apontei acima. Não bastando o talento, a escrita é uma arte que se aperfeiçoa durante toda a vida, mas algumas coisas só se adquirem com a maturidade, nomeadamente a construção de personagens tridimensionais e com as devidas motivações. Não posso deixar de lamentar o potencial perdido com o desaparecimento deste jovem autor.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.