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domingo, 29 de março de 2026

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?) [segunda temporada]


Gostei mais da segunda temporada de "Interview With The Vampire" e vou dizer porquê. Se a primeira temporada parecia outra adaptação do livro ponto por ponto, só que um século mais tarde e com personagens ligeiramente diferentes, na segunda já se percebe que é toda uma adaptação das Vampires Chronicles, incluindo "The Vampire Lestat", "The Vampire Armand", e até livros posteriores como "Merrick" ou "The Queen of the Damned". Assim já se compreende que tenham sido tomadas bastantes liberdades de modo a tornar o fluir da narrativa mais adequado a uma série de televisão, mas questiono algumas escolhas que deturpam e desvirtuam o original.
A começar pela própria natureza dos vampiros. Não consigo aceitar a opção de sexualizar os vampiros como se isto fosse um Young Adult qualquer, quando aquilo que sempre distinguiu os vampiros de Anne Rice foi a sua existência transcendente e "fora da natureza", o que é um aspecto importante e distintivo deste universo vampírico. Igualmente importante é a questão de abdicar do prazer sexual em troca da vida imortal, o que é compensado pelo êxtase superior do sangue, inimaginável para nós humanos. Isto é tão importante que Marius pergunta explicitamente a Armand, antes de o transformar, se está disposto a viver sem o prazer carnal. Não há sexo entre os vampiros, e humanizá-los é banalizá-los. Se calhar é preciso ter lido os livros para compreender a relevância deste ponto no original, mas tenho a certeza de que também funcionaria na série tal como funcionou no filme. Até já ouvi a teoria de que Anne Rice não incluiu homossexualidade explícita para não ser censurada. Balelas. "Entrevista Com o Vampiro" foi publicado em 1976, um livro para adultos, e Anne Rice sempre incluiu o sexo que quis. Aliás, basta ler os livros.
Quanto à adaptação em geral, na segunda temporada algumas coisas são fiéis ao original, outras não, e algumas até me confundiram e tive de ir consultar o enredo dos livros para tirar as dúvidas. Por exemplo, não me lembrava dos diários de Claudia, e com razão, porque só aparecem em "Merrick". Foi uma boa opção inclui-los no contexto da entrevista com Daniel Molloy.
Por outro lado, Louis e Claudia fazem a viagem pela Europa que foi excluída do filme. Depois de atacarem Lestat, Louis e Claudia vão em busca de outros vampiros que lhes ensinem o que Lestat lhes escondeu, e começam precisamente pelas terras da Roménia e arredores, onde há mitos de vampiros. Não me lembro muito bem do que aconteceu no livro porque é quase uma nota de rodapé, mas efectivamente encontraram um tipo de vampiros "imperfeitos" e monstruosos. Isto não foi muito importante no livro, mas na série a viagem acontece durante a Segunda Guerra Mundial, o que fornece logo um pano de fundo bastante mais interessante. 
Quase se pode considerar que a série é uma espécie de história alternativa com os mesmos personagens, ou, em alguns casos, personagens inspirados nos originais.
Por falar nisso...

Lestat
Sam Reid é o melhor Lestat até ao momento. E não é fácil interpretar Lestat, um personagem complexo que tanto seduz como intimida. Tom Cruise conseguiu capturar o aspecto frívolo e narcisista que Louis descrevia, Stuart Townsend fez um bom trabalho como rock star, mas Sam Reid consegue de tal modo encarnar a totalidade do personagem que até arrepia vê-lo no écran. A presença felina de um leão. Encantador, fluido, letal, convencido, poderoso, atormentado, vulnerável, Lestat é tudo isto e mais. Pergunto-me se Sam Reid leu os livros todos ou de que outro modo se preparou, e queria mesmo saber e fazer-lhe a pergunta.
Quanto a Louis, e alguns fãs que me perdoem se preferiam um Louis menos macambúzio, o verdadeiro Louis foi mesmo encarnado por Brad Pitt e contra factos não há argumentos. Nesta segunda temporada também temos o incêndio no Teatro dos Vampiros, mas nada bate a imagem icónica de Brad Pitt entre as chamas.

Louis / Armand / Lestat
Louis e Armand fazem um casal muito fofinho e adorável, mas nunca aconteceu. Depois do Teatro dos Vampiros, Louis e Armand realmente fogem juntos e são companheiros por umas décadas, e acabou. Algumas décadas, em anos de vampiro, é o equivalente a um ano ou dois, se tanto. Se a relação foi mais do que amizade, e é tão irrelevante que nem me lembro, não teve qualquer importância. Louis e Armand estavam ambos fragilizados e a precisar de um ombro amigo. Não me lembro de Armand alguma vez ter expressado paixão assolapada por Louis, e Louis sempre esteve noutra (noutro) e nunca deixou de estar. Nos últimos livros, Louis está efectivamente a viver na casa de Armand em Nova Iorque, mas com isto quero dizer "abancar" e não "viver juntos", aliás, como outros vampiros da intimidade de Armand que também lá moram por ser mais prático. Lestat tinha regressado a New Orleans, e, se bem me lembro, Louis não queria voltar a viver lá, precisamente por causa das memórias de Claudia, embora estivessem ambos de boas relações.
Por falar em Lestat, se alguma vez Lestat e Armand foram amantes teria sido "uma por piedade" da parte de Lestat. Este é um dos conflitos mais relevantes das Vampires Chronicles e central à motivação que levou aos acontecimentos de "Entrevista". Armand conheceu Lestat no século XVIII e ficou muito impressionado, talvez até apaixonado, ou pelo menos apaixonado pelo ideal de liberdade que Lestat representava, mas Lestat não correspondeu. Armand, por despeito, e talvez ciúme de Louis e Claudia, faz o que faz para atingir Lestat. Por seu lado, Lestat sempre escondeu a existência dos vampiros europeus de Louis e Claudia precisamente para os proteger. Só sabemos isto nos livros posteriores a "Entrevista".
Nos livros, Lestat chama a Armand "a harpia", o que é bastante revelador. A série mostra um pouco desta faceta "harpia" de um dos personagens mais perigosos e maquiavélicos das Vampires Chronicles, mas nada que se compare aos livros. Até acho o Armand da série bastante simpático, alguém que age por amor e com quem é fácil empatizar.
Aqui, Armand é na verdade Arun, de Nova Deli (ele diz Deli e não conheço outra), mas nos livros Armand é Andrei, de Kiev. Isto pode não ser relevante se a série preferir não abordar os traumas religiosos de Armand como devoto da Igreja Ortodoxa. Aliás, foi esta cultura cristã que o levou a defender as ideias medievais de que o coven Children of Darkness, o seu clã antes do Teatro dos Vampiros, tinha por missão divina servir a Deus praticando o caminho do Diabo.
De certa forma, compreendo que fazer de Louis e Armand um casal que só se desfaz no fim da entrevista com Molloy, levando Louis a regressar a Lestat, é uma opção narrativa como qualquer outra que funcione num contexto de série. Nos livros, tudo isto demorou séculos. Mas o que vemos na série não é a história original, e, em certos pontos importantes, na minha opinião, afasta-se demasiado dela e perde muito ao fazer isso. Ninguém vai ficar a conhecer a história e a compreender os livros a partir desta série, nem lá perto.

Teatro dos Vampiros e Claudia
E por falar em Teatro dos Vampiros, tinha muitas dúvidas de que isto resultasse num pós-guerra do século XX, mas a série conseguiu mostrar um teatro entre o burlesco e o avant-garde, e o facto é que fiquei convencida. O actor Ben Daniels (a quem eu já conhecia de "O Exorcista", série) faz um papelão como Santiago e vende aquilo tudo.
Já quanto a Claudia, continuo não convencida. Tal como referi na critica à primeira temporada, não faz sentido que o argumento de Armand e dos outros vampiros seja "demasiado nova para existir por conta própria". Aqui Claudia tem 14 anos e o próprio Armand foi transformado algures antes dos 17, motivo pelo qual lhe chamam "o querubim eterno" (e motivo pelo qual Antonio Banderas foi um erro de casting). O argumento não colhe. Podiam ter explorado melhor o conflito precedente que expus acima, mas aqui a série andou completamente a patinar. Afinal, Armand queria ficar com Louis ou estava-se nas tintas se ele fosse condenado à morte? Porque se queria ficar com Louis, Armand, a harpia, o mestre manipulador, teria traído o coven todo antes que o coven pensasse em traí-lo. Não se manipula Armand; Armand é que manipula tudo e todos. A série não está a fazer justiça ao personagem.

Akasha
E aqui está outro mau exemplo de manobrar a história para a "comprimir". A certa altura, na série, Armand e Louis vão os dois matar Lestat. Isto nunca aconteceu. Lestat diz-lhes que não lhe podem tocar porque ele tem o sangue de Akasha. Isto muito menos. Eles sabem que ele tem o sangue de Akasha. Estavam lá os três e quase morreram todos. E Akasha nunca mais é mencionada nem explicada, ainda por cima, a Rainha dos Malditos que tem dois livros, um filme, uma das melhores bandas sonoras jamais realizadas, e milhares de pessoas pelo mundo inteiro a porem o seu nome aos animais de estimação. E Akasha é assim tão vilmente descartada numa cena que nunca aconteceu nem tinha razão para acontecer. Mais um momento em que a série andou a patinar.
Se Lestat já tinha o sangue de Akasha na altura, isso significa que ela já tinha despertado, ou talvez Lestat tivesse sido levado ao Santuário por alguém como Marius? Isto é importante porque ter conhecimento acerca de Akasha (que Lestat não tinha na altura) altera a dinâmica das Vampire Chronicles. Será que ainda vamos ver Akasha despertar (como no filme), ou será que vão transformá-la numa personagem completamente diferente para nos trocar as voltas? E as gémeas? Confesso, neste caso gostava que as gémeas tivessem uma história diferente porque nunca fui grande fã delas nos livros. Mas aquela história no Egipto, isso é para manter! Duvido que mantenham porque é muito chocante. E já agora também podiam dar mais profundidade a Akasha. Sempre achei que aquela motivação de vilã de "matar os homens todos menos Lestat e ser adorada como rainha do Céu" era muito fraquinha. Aliás, "A Rainha dos Malditos", apesar de ter tanta acção, é um dos livros mais fraquinhos da saga. Ora aqui está um caso em que a série me podia agradar e surpreender se desse mais tridimensionalidade às personagens.

Anne Rice só houve uma
Apesar de tudo, não estou completamente pessimista para a terceira temporada. A série teve boas ideias, como o hobbie de fotografia de Louis (se ele desistiria tão facilmente é que já não acredito) ou a presença de um agente da Talamasca. Eu não esperava um agente da Talamasca, mas quando Daniel Molloy pergunta "a que agência é que você pertence, é demasiado pálido para ser Mossad", cheguei logo lá. Isto é ser uma ultra-fã ou, como dizem os miúdos agora, uma nerd. Este agente da Talamasca é Raglan James, e não vou dizer mais nada por causa dos spoilers. Eu queria ver isto, queria mesmo ver isto, embora eu própria concorde que o livro em causa não pode ser adaptado sem modificações.
Se a segunda temporada foi melhor, em abrangência e tom, será que a terceira acerta? Também não estou assim tão optimista. As histórias de Anne Rice são o chamado "character driven", histórias conduzidas pela personalidade da personagem e não ao contrário, e quanto mais alteram as personagens mais riscos correm de criar inconsistências com o original se não partirem para uma história completamente alternativa (o que foi o problema no caso de Claudia, que ficou mal vendido). Criar uma boa história alternativa com estas personagens não é impossível, mas não é para toda a gente. Façam o fan fic que quiserem, mas façam-no bem, e sim, esta série é completamente fan fic. Como disse aqui de outra série, ou vai ser muito bom ou vai ser muito mau. A culpa não vai ser do original.
Por último, regresso a Santiago para sublinhar uma coisa que a série fez bem. Para quem nunca leu os livros, reparem em como Santiago e Armand oferecem a morte como uma tentação sedutora. A vítima deixa de o ser e entrega-se voluntariamente à ideia de que uma morte consciente, uma morte suave e sem dor, é melhor do que uma vida de sofrimento. Os vampiros não fazem isto com hipnose mas com factos e filosofia. E naquele momento o visado rende-se e deseja a morte, e foi esta perspectiva sombria, mas lúcida, que fascinou milhões de fãs das Vampire Chronicles. Não é para toda a gente, mas a série conseguiu transmitir isto.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, mas eu vi duas

PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, Anne Rice, Vampire Chronicles, Interview With The Vampire, The Vampire Lestat, The Vampire Armand, etc

 

domingo, 7 de julho de 2024

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?)

Toda a gente que lê este blog há alguns anos sabe que sou uma FANÁTICA das Vampire Chronicles. Li todos os livros pelo menos duas vezes (excepto o último), vi os dois filmes várias vezes. Há cerca de 15 anos que ouvi falar na produção de “Interview With The Vampire” numa série televisiva e não podia ter ficado mais entusiasmada: finalmente íamos ver a história COMPLETA, com todos os PORMENORES dos livros que fascinaram milhões de fãs em todo o mundo. Falo dos verdadeiros fãs, não daquelas pessoas que viram um filme ou dois e não sabem mais nada da história.
Da mesma forma, não podia ter ficado mais decepcionada, abismada, irritada com a série de que falo aqui e que pode ser tudo menos “Entrevista Com o Vampiro”. Isto não é uma adaptação, isto é fan fic. O que me leva a maior desapontamento ainda com Anne Rice, que sendo produtora executiva teve forçosamente de aprovar todas as alterações. Para quem não sabe, Anne Rice sempre foi contra toda a produção de fan fic (ficção escrita por fãs) do seu trabalho, alegando que deturpavam a história. Mas aparentemente se há dinheiro envolvido já não existe “deturpação”.
O outro problema é: porquê? Porque é que se criou todo um enredo alternativo às Vampire Chronicles quando o original é tão bom e nunca foi adaptado como só uma série de televisão permitiria? Porque é que se quis desiludir milhares de fãs com uma história inferior que atenta contra os elementos mais importantes do original?

Louis de Pointe du Lac
A história começa em 1910. (Porquê, mãezinha, porquê? Porque é que tivemos de perder todo o encanto do século XIX, o século do vampiro?)
Aqui, Louis de Pointe du Lac é crioulo e um proxeneta (dono de bares, casas de prostituição e actividades ilegais em geral). Um Louis crioulo podia ser uma boa ideia, mas a própria questão da raça (incluída por motivos de “diversidade”, algo que nunca teve qualquer relevância no original) coloca contradições gritantes. É Louis quem nos diz que as ruas mal-afamadas de New Orleans eram o único lugar onde um negro podia ser alguém. Por outro lado, o pai dele era dono de uma plantação de açúcar (como no original) que faliu. A família de Louis (mãe, irmã e irmão) é negra e rica. E o pai? Seria branco? Poder-se-á sequer imaginar historicamente que uma família negra pudesse ser dona de uma plantação na Louisiana da altura? * É Louis quem nos diz: não. Então como é que é possível? Mais valia terem retirado completamente a parte da plantação e as coisas faziam mais sentido: Louis de Pointe du Lac, proxeneta, ponto final. (O verdadeiro Louis de Pointe du Lac deve andar às voltas no caixão. Nunca tal criatura sombria e depressiva podia alguma vez estar ligado a negócios de prazer. Aliás, foi esse desprazer com a vida que atraiu Lestat.)
* No segundo visionamento, notei que Louis diz isto sobre a plantação: “Capital acumulado de plantações de açúcar e o sangue de homens que se pareciam com meu bisavô, mas não tinham a sua posição”. Então, a plantação passou para descendentes de escravos? Considerando que seria possível, mesmo assim não invalida a contradição: “as ruas mal-afamadas de New Orleans eram o único lugar onde um negro podia ser alguém”.
Peço desculpa, eu disse que a história começa em 1910. Referia-me ao ano em que Louis conhece Lestat. A série começa nos nossos dias, num dos anos da pandemia, quando Louis, agora instalado no Dubai, convida o jornalista veterano Daniel Molloy para lhe dar uma segunda entrevista 50 anos depois da primeira. Daniel Molloy, que no original também foi transformado em vampiro, está muito mais velho e cínico e sofre de Parkinson. (Esta alteração, por exemplo, não me incomoda muito porque Daniel Molloy nunca foi importante para a história em geral.) Louis, ao que parece, quer corrigir o que disse há 50 anos porque também está mais velho e… mais sábio? Porque mudou de ideias? Porque quer comer Daniel Molloy depois da entrevista? Eu também não sei. A certa altura ambos queimam as gravações em cassete da primeira entrevista, o que não podia ser mais simbólico do que estão a fazer ao trabalho de Anne Rice (com o consentimento da própria). Então este Louis (recuso-me a considerá-lo o “verdadeiro”) começa a contar a história de como era libertino e de como se assumiu como homossexual quando fez sexo com um homem (Lestat). Ui! Isto é mesmo pôr no lixo todos os livros das Vampire Chronicles e deitar-lhes fogo.
Os vampiros de Anne Rice não fazem sexo. O que não quer dizer que não se envolvam em actividades sexuais, mas o êxtase está todo no sangue. Isto não é uma nota de rodapé e não é um pormenor, faz parte da identidade do vampiro de Anne Rice: a imortalidade vem com o preço da perda do prazer sexual, mas o êxtase do sangue supera-o sobremaneira.
Em certos casos, nas Chronicles, alguns vampiros envolvem-se em actividades sexuais com outros vampiros e mortais, o que é sempre representado como uma união profunda, rara, de amor platónico e transcendente, de uma tentativa de voltar a sentir vida. Por exemplo, Lestat e Rowan em “Blood Canticle”. (E sim, temos muitos pormenores bastante explícitos de como estas relações ocorrem, do princípio ao fim. Anne Rice nunca foi exactamente uma púdica.) Transformar isto no mais comezinho da experiência humana é retirar aos vampiros de Anne Rice tudo o que os torna seres únicos e fascinantes, para sempre afastados da humanidade perdida mas nostálgicos por ela, imortais mas amaldiçoados pelo peso da eternidade.
Aliás, a homossexualidade nunca foi escondida nas Chronicles, bem pelo contrário. Muitos vampiros, entre eles Lestat e Marius, assumem-se como bissexuais com todas as letras. Mas Louis nunca o fez e nada nos deu a entender que a sua relação com Lestat não fosse puramente platónica (até ao momento em que Louis o começou a odiar, isto é). A série põe Lestat e Louis a dormirem no mesmo caixão como qualquer casal gay. Isto sim, é fan fic da pior, como certos desenhos que circulam online e que quase me fazem dar razão a Anne Rice quanto à imaginação púbere dos fãs.

Lestat de Lioncourt
Falando no diabo, Lestat é a única personagem que escapa mais ou menos incólume às abominações do enredo. Sam Reid, o actor, consegue personificar o demónio de cabelos loiros como toda a gente o conhece, apesar de o quererem remeter ao papel de marido rabugento que não tem sexo em casa e vai ter com uma amante quando Louis não lhe liga. Isto também é problemático. Lestat nunca se envolve com uma qualquer só pelo sexo. Como no caso de Rowan, o que o atrai a alguns humanos que ele considera extraordinários é um profundo respeito, fascínio e admiração em que o vampiro dá prazer em troca de sangue (ou, no caso contrário, acontecem coisas desagradáveis como em “The Tale of The Body Thief”). Geralmente a amada ou amado são transformados em vampiros também. Não me parece que ele tenha esse respeito imenso pela cantora com que se envolve nesta série.

Claudia
Claudia não é a criança-vampiro de causar pesadelos. É uma miúda de 14 anos, mais ou menos a idade de Armand quando foi transformado. No entanto, com a chegada de Claudia a série começa finalmente a assemelhar-se à dinâmica do original, pelo menos durante uns episódios. Quando a primeira temporada termina, Claudia ainda está viva e o mundo está em plena Segunda Guerra Mundial. Já não são tempos de um Théâtre des Vampires, uma das melhores passagens do livro e do filme. Isto significará que Claudia não morre de todo, o que foi o momento mais dramático e o ponto de não retorno entre Louis e Lestat, já para não falar em Armand? Por outro lado, nesta versão, Armand já não teria razões para destruir Claudia por ser “contra as regras, demasiado nova e dependente para ser um vampiro”. Esta Claudia é bastante auto-suficiente e passa bem por adulta com o vestuário e a maquilhagem apropriada. Aliás, a certa altura ela zanga-se com os “pais” e foge de casa. Nas suas peripécias, conhece outro vampiro de quem se torna amiga e que, tudo dá a entender, a viola de seguida. NÃO! Vampiros não violam vampiros (nem sequer humanos). Primeiro, NÃO CONSEGUEM e não têm prazer sexual. Segundo, a única coisa que lhes interessa noutro vampiro é talvez a amizade, a partilha de um sangue mais potente (como em “Queen of The Damned”), ou a aniquilação do outro por causa do “território de caça”. Obviamente esta gente não leu as Vampire Chonicles e Anne Rice concordou em destruir toda a obra de uma vida. É triste.
Sinceramente, não sei o que estou a ver mas não é “Entrevista Com o Vampiro” de certeza. Pelo menos falaram em Nicholas e Magnus, muito de passagem. Foi pena não terem seguido os livros. Eu teria querido ver o Lestat humano preso na torre, o jovem actor Lestat, e todos os vampiros e vampiras que existiram muito antes de Louis aparecer em cena. O que não queria nada ver era esta abominação. Estou a torcer para que a segunda temporada leve com uma estaca no coração e não apareça à luz do dia. Os verdadeiros fãs fazem melhor em ver o filme do Tom Cruise e do Brad Pitt outra vez.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: NUNCA!

PARA QUEM NÃO GOSTA DE: Anne Rice, The Vampire Chronicles, O Vampiro Lestat, o Vampiro Armand, etc, etc