terça-feira, 26 de maio de 2026
domingo, 24 de maio de 2026
The Witcher (2019 - ?) [quarta temporada]
Depois de elogiar aqui a terceira temporada pela maior clareza do enredo, aborrece-me ter de dizer que a história de "The Witcher" continua a estar mal contada. Durante esta quarta temporada andei tão perdida e confusa que acabei por ir à internet apanhar o fio à meada.
Admito que possa ser culpa minha. Primeiro que tudo, não li os livros. A história não é de todo desinteressante mas nunca me agarrou a ponto de ver com muita atenção. Depois houve o interregno da pandemia e esqueci bastante das temporadas anteriores. As personagens são às catadupas e, tirando um ou outro caso, são tão bidimensionais que não me ficam na memória. O próprio formato da série, que oscila entre episódios focados em personagens e/ou desenvolvimento do enredo, mas muitas vezes empata em monstros-da-semana, também não ajuda. A quarta temporada, por exemplo, não avançou um milímetro na narrativa. Geralt, Yennefer, Vilgefortz e Emhyr andam à procura de Cirilla, e no fim continuam todos sem imaginar onde ela possa estar. Isto não me incomoda pessoalmente. Eles é que sabem a quantidade de enredo que têm e quantos chouriços precisam de encher, e "The Witcher" é uma série de Fantasia que se vê exactamente para encher o olho.
O que me confundiu muito foi o enredo de Emhyr, imperador de Nilfgaard. Na temporada anterior já tinha suspeitado que ele era o pai de Cirilla, suspeita que nesta se confirma. O que não me tinha passado pela cabeça é que ele quisesse Cirilla para casar com ela, devido a uma qualquer profecia de que o filho de ambos vai ser um homem muito poderoso que vai conquistar os reinos todos e trazer glória a Nilfgaard, etc. Isto confundiu-me tanto, e a série explica tão mal, que fui pesquisar para ficar a saber de uma vez por todas. Deixo aqui um resumo escorreito do que descobri, para não ter de ir pesquisar novamente.
A história é longa e cabeluda. Muitos anos antes, Emhyr, também conhecido por Lord Urcheon ou Duny, salvou a vida ao avô de Cirilla, rei de Cintra, e invocou como recompensa a Lei da Surpresa. Esta surpresa foi a Criança-Surpresa Pavetta, filha do rei de Cintra e da sua esposa, a rainha Calanthe. Entretanto, Emhyr foi amaldiçoado para se transformar em porco-espinho. É este Porco-Espinho que conhecemos como Duny na primeira temporada, a quem Geralt ajuda a quebrar a maldição. Em troca, Geralt também invoca a Lei da Surpresa. Duny/Emhyr reclama Pavetta e casa-se com ela, desta união nascendo Cirilla. Cirilla é assim a segunda Criança-Surpresa, para confundir ainda mais, a quem Geralt tem direito. Alegadamente (agora questiono o que realmente aconteceu), Duny/Emhyr e Pavetta morreram num naufrágio, mas afinal Emhyr sobreviveu. Como é pretendente ao trono de Nilfgaard, deixa Cintra, nunca mais quer saber da filha Cirilla e decide ir tomar a coroa que lhe pertence. Anos mais tarde, já imperador de Nilfgaard, ataca Cintra de surpresa, sem que (aparentemente) ninguém o reconheça como Duny, marido de Paveta, pai de Cirilla, apenas alguns anos passados do casamento com Pavetta.
Ora, isto levanta-me tantas perguntas a que "The Witcher", já na quarta temporada, insiste em não responder. Começo pela mais óbvia. Como é que ninguém em Cintra reconheceu Emhyr como imperador de Nilfgaard? Não houve um espião, nem um mercador, nem um viajante, que tenha passado por Nilfgaard e pensado "caramba, este fulano é mesmo cuspido e escarrado a cara do pai da princesa Cirilla!". Só essa curiosidade teria levado as pessoas a falar do assunto. Mas não. Ou, pelo menos, na série, ninguém sabia que Duny e Emhyr eram a mesma pessoa. Nem sequer Geralt, um homem tão viajado, que conhece outros homens tão viajados.
Segundo, Emhyr não deve ser muito esperto. Sendo pai da única herdeira ao trono de Cintra, não teria sido muito mais lógico e eficiente ter-se aproximado da filha, talvez até para a controlar e manipular e tornar-se regente de Cintra quando chegasse a altura? Talvez até para a convencer da tal profecia? Não era muito mais prático ter anexado Cintra dessa maneira em vez de invadir o reino pela força? Nem sequer é uma questão de maquiavelismo, é apenas senso comum. Porque é que ele fingiu que estava morto se lhe era muito mais conveniente ser o pai da princesa de Cintra?
A partir daqui é especulação. Será que Emhyr já conhecia a profecia antes de casar com Pavetta? Será que o naufrágio não foi um acidente? Será que Emhyr nunca quis conhecer Cirilla como criança para não ter problemas em casar com ela depois? Quem tem de responder a isto é a série, e até agora o enredo principal tem saído a conta-gotas. O que me aborrece é que as gotas não estavam a fazer sentido e tive de ir pesquisar para perceber o que se estava a passar. Também não ajuda que Geralt pareça muito mais novo do que realmente é (na série, supostamente, Geralt tem cem anos ou mais) e não me lembro nada da cara de Emhyr quando era Duny o Porco-Espinho. Não me incomoda que o enredo se desenvolva lentamente mas chateia-me quando as coisas não fazem sentido e a história de Emhyr não faz sentido. Ou então o personagem é mesmo muito burro, o que também dava uma boa história, mas não me parece que a série o esteja a retratar assim.
Não sei quantas temporadas vêm a seguir, mas durante estes oito episódios Geralt andou em vão à procura de Cirilla, arranjou uma espécie de "Irmandade do Anel" com dois anões, um gnomo, o bardo, a rapariga da floresta e um vampiro, contou-se a história deles, a irmandade desfez-se a meio do caminho porque alguns decidiram ir à vida deles, Geralt descobriu que afinal nem sabia onde estava Cirilla, e acabou assim. Mas tivemos uma batalha de bruxas e magos com muitas bolas de energia, isso tivemos, e uma batalha numa ponte a lembrar a ponte de Khazad-dûm com uma espécie de Balrog e tudo, e se calhar não é para pedir mais, mas, ao mesmo tempo, esta série podia ser tão melhor se resolvesse os problemas de narrativa. Até dá dor de alma.
Adorei Laurence Fishburne como vampiro, por esta não esperava. Era capaz de ver uma série inteira só com os vampiros lá do sítio, mas vocês já me conhecem.
Curiosamente, o actor que faz de Geralt mudou e não notei que isso tivesse afectado negativamente a temporada. Notei que Geralt diz muito menos "fuck" do que dizia, o que é decepcionante.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: Fantasia, Lord of The Rings, Game of Thrones, magia, vampiros
terça-feira, 19 de maio de 2026
domingo, 17 de maio de 2026
Mayhem / Pandemónio (2017)
Um vírus que retira as inibições provoca uma epidemia de violência extrema. Quando uma firma de advogados sem escrúpulos fica em quarentena, os infectados fazem justiça pelas próprias mãos sabendo que vão beneficiar de impunidade.
Ao ler a sinopse, e ainda mais quando vi Steven Yeun (o Glenn de "The Walking Dead"), pensei que ia ser uma coisa do tipo "28 Days Later". Mas não é. É um filme de acção e comédia que satiriza as grandes corporações de advogados, uma espécie de "Um Dia de Raiva" provocado por um vírus.
Derek Cho é um executivo em ascensão tramado pela colega incompetente que está nas boas graças do dono da firma. Infectado e sem nada a perder, Derek Cho decide mostrar aos accionistas quem tem razão, quer eles queiram quer não. Mas Derek Cho até é boa pessoa. Os sócios da firma, impiedosos de natureza, e igualmente sabendo que o vírus lhes trará impunidade, não hesitam um instante em recorrer ao homicídio.
Violência há de sobra, resta saber se há comédia. Pessoalmente, não achei engraçado. É claro que dá sempre gozo ver esta gente velhaca a pagar pelos seus crimes, mas não há muito mais a esperar daqui.
"Mayhem" é um filme que entretém, em que a violência é demasiado irrealista para se levar a sério, sem conseguir ser tão engraçado como queria ser.
12 em 20
terça-feira, 12 de maio de 2026
Culatra - "Capítulo Primeiro: 1985-1989 / Sombras e Fantasmas" (Pós-80's label)
Segundo o press release, os Culatra foram "provavelmente a primeira banda portuguesa assumidamente gótica". Com actividade entre 1985 e 1992, nunca chegaram a gravar um disco. Esta colectânea, pela Pós-80's, reúne "os registos raros e inéditos do material gravado entre 1985-1989, provenientes de uma maquete, ensaios e um tema ao vivo no RRV".
Não tenho qualquer lembrança dos Culatra (o que não significa que nunca tenha ouvido falar deles). Estou impressionada com a qualidade desta banda de Lisboa que merecia mais reconhecimento, e lamento que tenham acabado sem deixar discografia. A diferença que o Bandcamp teria feito naquela altura! Nestes registos, finalmente trazidos à luz do dia em 2026, encontro influências do melhor da época: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy e outras referências pós-punk incontornáveis. Este é o som que eu recordo do Rock Rendez Vous. A qualidade das gravações é que é fraquinha, como seria de esperar de ensaios, maquetes e música ao vivo.
Para descobrir agora no Bandcamp, já que esta música esperou tanto tempo entre sombras e fantasmas.
According to the press release, Culatra were "probably the first explicitly Portuguese goth band". Even though they were active between 1985 and 1992, a record was never released. This compilation by the Pós-80's label brings together "rare and unreleased recordings from 1985 to 1989, taken from demos, rehearsals, and a live track at the RRV [Rock Rendez Vous]".
I have no recollection of Culatra (which doesn't mean I've never heard of them). I'm impressed by the quality of this Lisbon band, which deserved more recognition, and I regret that they disbanded without leaving a discography. The difference Bandcamp would have made back then! In these recordings, finally brought to light in 2026, I find influences from the best of the era: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy, and other inescapable post-punk references. This is the sound I remember from Rock Rendez Vous. The recording quality is weak, as one would expect from rehearsals, demos and live music.
After waiting so long amidst shadows and ghosts, Culatra’s music can finally be discovered on Bandcamp.
pos-80s.bandcamp.com/album/cap-tulo-primeiro-1985-1989
domingo, 10 de maio de 2026
The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?) [terceira temporada]
[não contém spoilers relevantes]
Adorei esta temporada de "Daryl Dixon"! Há muito tempo que não podia dizer isto de uma spin-off de "The Walking Dead", mas "Daryl Dixon" está a conseguir atingir os objectivos e a divertir os espectadores, e não sou só eu que o digo.
No início, o original "The Walking Dead" pretendia não ser simplesmente mais um filme de zombies para rir e entreter. A série ambicionava ser realista, dramática, filosófica e profunda. E nas primeiras temporadas até conseguiu, muito embora alguns fãs apenas quisessem mais um filme de zombies com muita acção, só para entreter, e tenham chamado telenovela a "The Walking Dead". A série começou a descarrilar quando tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo para agradar a gregos e troianos, o dramático e o acéfalo, e a certa altura decidiu sacrificar o realismo também, primeiro o realismo dramático e logo a seguir o realismo da acção propriamente dita. Isto deu-nos cenas deploráveis como, por exemplo, o tiroteio com Negan, em que apesar da escassez de munições, estabelecida pelo próprio universo da série, houve balas com fartura. Sacrificando a profundidade dos personagens e sacrificando o realismo que o próprio universo estabeleceu, a certa altura já não se aproveitava nada. Até podiam ter metido ali Godzilla sob o pretexto "é uma série de zombies, nada disto é real, vale tudo". Na estrutura interna de uma história não vale tudo; só vale o que o universo ficcional permite. A franchise levou o absurdo ao limite com "Fear The Walking Dead", em que só não apareceu Godzilla porque não calhou, mas houve uma guerra nuclear e uma radioactividade selectiva que só afectava os personagens que dava jeito eliminar.
"Daryl Dixon" também se move nos limites da credibilidade, mas não os ultrapassa de tal forma que não nos convença a acreditar que talvez, se calhar, com muita sorte, Carol até podia ter voado para França em pleno apocalipse zombie.
Na terceira temporada, "Daryl Dixon" abraça o género de aventura e acção de corpo e alma. Os personagens não são bidimensionais, mas o dramatismo ficou definitivamente em segundo plano, e mesmo assim eu gostei e aplaudi. Daryl Dixon num duelo de motas, Daryl Dixon a assaltar um comboio, Daryl Dixon a matar um super-zombie com a bandeira de França (esta é da primeira temporada mas serve como exemplo). Às vezes o despretensiosismo é o melhor remédio e a terceira temporada assumiu-se abertamente como um "western spaghetti". E não é que funciona?
Era uma vez na Galiza
Carol e Daryl chegam à Inglaterra, onde quase toda a gente morreu. O único sobrevivente que encontram, convenientemente, tem um veleiro, e conseguem convencê-lo a levá-los de regresso à América. Mas o único sobrevivente mal sabe velejar. Todos decidem correr o risco e acabam naufragados na Costa da Morte, ali em cima na Galiza.
Ora bem, isto não é Espanha, nem a Espanha actual nem a Espanha passada. Isto parece mais o México com uma pitadinha de sabor local aqui e ali, como os trajes de festa que podem ter vindo de um rancho folclórico minhoto, ou a paisagem ou a arquitectura, ou os candeeiros de rua. Mas se começarmos logo por encarar isto como "Espanha alternativa cruza-se com Mad Max" gostamos muito mais. E a série ajuda-nos a querer acreditar, que é o mais importante.
Daryl e Carol descobrem uma povoação onde se desenrola um amor de Romeu e Julieta. Roberto e Justina são dois jovens que se amam, mas a povoação está sob o controlo de um chefão, servidor do rei de Espanha (não o verdadeiro), que exige o tributo de uma rapariga todos os anos. As raparigas são requeridas para ser casadas com homens importantes ou simplesmente para servirem como criadas. (Aqui, confesso, ao ouvir falar em La Ofrenda, pensei em coisas muito piores.)
As raparigas são seleccionadas através de uma corrida de porcos. (Na Espanha deviam ser touros, mas imagino que isso ia exigir bastante à produção e que muita gente não ia gostar das implicações com touradas, a começar por mim.) Justina é seleccionada e levada para o palácio do rei. A princípio Daryl não se quer meter no assunto, e com alguma razão, mas Carol insiste em resgatar Justina. Entretanto, Daryl e Carol conhecem mais pessoas capazes de velejar, incluindo outro americano que também quer regressar a casa, e só pretendem ficar na povoação até partirem. Mas o envolvimento no resgate de Justina vai levar Daryl por paisagens inóspitas que podiam ter saído de Mad Max, e são aventuras atrás de aventuras: o duelo, o comboio, uma comunidade de leprosos, um teatro de marionetas zombies que me lembrou muito o Teatro dos Vampiros.
Outro apontamento interessante é que a povoação é atacada por um grupo auto-intitulado Os Primitivos, uma espécie de seita niilista que usa máscaras de caveiras de animais chifrudos e quer destruir tudo o que sobreviveu ao apocalipse. Depois de dar algumas voltas à cabeça, lembram-me os Caretos do Entrudo Chocalheiro de Podence, versão pós-apocalíptica. Desconheço onde é que a série se inspirou.
Até sem enredo era bom
Pergunto-me, porque é que eles querem voltar para a América? Daquilo que já vimos, está-se muito melhor na Europa. Sim, existem zombies em todo o lado, e há escassez em todo o lado, mas as coisas deste lado do Atlântico são muito mais civilizadas e pacíficas. Li algumas críticas de americanos que se questionavam exactamente sobre isto. Voltar para quê? Mas acho que todos queremos sempre voltar a casa, não é? É humano.
No entanto, Carol arranja um namorado em Espanha e Daryl receia que o seu desejo de partir à procura de alguma coisa, precisamente o que o colocou nesta situação, não deixe de se manifestar seja onde for. Esta temporada não é forte em temas dramáticos mas temos flashbacks de Merle, o irmão mais velho de Daryl, quando eram crianças. Dá a entender que Daryl está a tomar consciência dos traumas que o fazem deambular de um lado para o outro quando no fundo está a tentar fugir de si mesmo.
Eu julgava que esta seria a última temporada e, confesso, fiquei muito contente quando percebi que ainda não acabou.
"Daryl Dixon" continua a ser uma série que se vê só pelo cenário. Temos Londres e Barcelona pós-apocalipse, temos paisagens deslumbrantes da Costa da Morte, temos o Real Alcázar de Sevilha (com uma arquitectura e decoração árabe tão Mil e Uma Noites que a câmara deu a volta ao salão todo), temos a vila de Sepúlveda. Voltar à América? Não, não. Por esta altura até só quero ver mais aventuras de Daryl e Carol pela Europa toda, em Itália, na Grécia, na Alemanha, na Roménia, nos países nórdicos, onde puder ser.
E, é claro, ia adorar ver zombies no nosso cantinho: zombies no Terreiro do Paço, zombies nos Jerónimos, zombies no Bairro Alto. E para não dizerem que só falo de Lisboa, estou completamente convencida de que a Torre dos Clérigos dava uma batalha épica de zombies. É só ir lá e percebe-se porquê.
❗OFEREÇO-ME COMO FIGURANTE❗
Zombies
Se há uma coisa que a franchise "The Walking Dead" sabe muito bem é que os espectadores estão aqui, principalmente, pelos zombies. Estamos tão "mal habituados" a zombies espectaculares em todos os episódios que quase nos esquecemos de que isto dá trabalho, custa dinheiro, e, acima de tudo, exige uma criatividade formidável. Admiro a inventividade da equipa que constantemente tenta criar zombies diferentes, adaptados ao cenário, à natureza, e até à cultura de cada local, bem como maneiras originais de os matar. Isto não é pequena proeza se tivermos em conta a longevidade da série. Nesta terceira temporada há zombies submarinos, zombies a arder e zombies-marionetas. Mas o que me surpreendeu mais foram as duas cenas em que tanto Daryl como nós, veteranos do apocalipse, nos questionámos por momentos se estávamos a ver zombies ou outra coisa. Não esperava que uma franchise com 16 anos de existência ainda nos conseguisse criar esta sensação de alarme e sobressalto.
Se a próxima temporada correr tão bem, ou superar, esta foi a melhor spin-off a sair de "The Walking Dead".
Por último, um spoiler não relevante mas interessante: Daryl Dixon mata o zombie do rei de Espanha. Isto, na cultura europeia, é significativo. Quem mata um rei é uma de duas coisas: um condenado à morte, se lhe correr mal, ou o novo rei, se lhe correr bem. Simbolicamente, Daryl Dixon já conquistou uma coroa. Por outra perspectiva, a série está a abordar o tema que "The Walking Dead" tem explorado desde o início. Num mundo pós-apocalipse, em que as estruturas da sociedade desmoronaram há muito tempo, qualquer zé-ninguém pode matar o zombie do rei de Espanha sem consequências.
Foi engraçado, porque o sobrevivente inglês também refere que actualmente se pode ir ao palácio de Buckingham e dormir na cama da rainha, e, com alguma sorte, se pode encontrá-la a deambular, zombificada, pelos corredores. Outra maneira de dizer a mesma coisa.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes
PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, pós-apocalíptico
domingo, 3 de maio de 2026
Burial / O Enterro (2022)
Depois do suicídio de Hitler, um grupo de soldados russos tem a missão de transportar o corpo até Moscovo para o apresentar a Estaline. A caminho, são interceptados por uma milícia de nazis que não se resigna ao fim da guerra e fará tudo para resgatar o cadáver e negar a morte do líder.
A ideia até era "interessante", o que aconteceu ao corpo de Hitler, mas o último consenso quanto ao assunto, confirmado por testemunhos de pessoas que estavam no bunker (à altura, pessoal administrativo muito jovem), os corpos de Hitler e Eva Braun foram levados para o exterior e incinerados porque Hitler não queria o seu cadáver profanado como no caso de Mussolini. É claro que pode haver sempre especulações e teorias da conspiração, mas não me parece que este filme as tencionasse alimentar.
Foi essa a minha questão durante o filme todo: qual é o objectivo deste filme?
Durante o percurso, os soldados e os locais são confrontados com algumas atrocidades que aconteceram durante a guerra, nomeadamente a violação de mulheres por parte dos soldados russos e o fanatismo dos nazis. Tudo bem, podia ser um filme de reflexão. Mas está bem feito? Aqui é que está o problema. É tudo feito de forma muito superficial e acaba por ser um filme de tiros. Se não fosse o cadáver de Hitler isto passava como mais um filme de guerra/acção, mas tinham mesmo de ir explorar o assunto, em 2022? Porque me pareceu que usaram o cadáver de Hitler para promover o filme, que de outra forma nem era comentado.
E, mesmo com o cadáver de Hitler, o filme não deixa de ser muito fraquinho. Era melhor terem feito um filme só de tiros, era mais honesto e não enganava ninguém. Não gostei do filme e não gostei da pseudo-profundidade.
11 em 20
domingo, 26 de abril de 2026
Outlander: Blood of My Blood (2025 - ?)
"Outlander: Blood of My Blood" é uma prequela de "Outlander" e dirigido aos fãs do original. Vinte anos antes de Claire passar pelo Círculo de Pedras e encontrar-se na Escócia do século XVIII, o mesmo aconteceu aos pais dela. Henry e Julia Beauchamp conheceram-se por correspondência durante a Primeira Guerra Mundial, casaram e tiveram uma filha, e decidiram ir passear à Escócia numa viagem romântica a dois. Como se percebe em "Outlander", a capacidade de viajar no tempo através das Pedras parece ser hereditária. Por acidente, Henry e Julia deparam-se com as Pedras e são transportados para o século XVIII, exactamente para o local onde Claire vai chegar mais tarde.
Na última temporada de "Outlander" (isto é, a última que eu vi) questionei-me muito sobre como é que funcionava a viagem no tempo através das Pedras. No início achei que era aleatória ou sobrenatural, isto é, que levava as personagens até ao seu "destino", e também não quero que isto se torne científico (precisamente 200 anos antes) porque estraga o romantismo. Mas é o que acontece em "Outlander: Blood of My Blood", em que Henry e Julia são transportados para o tempo de juventude de muitas personagens mais velhas de "Outlander", como Murtagh e Jocasta. Infelizmente para mim, já não me lembrava das primeiras temporadas de "Outlander" e com certeza perdi muitos pormenores sumarentos destas personagens importantes na família e amigos de Jamie.
Henry e Julia chegam separados e ficam separados durante muito tempo. Estariam a poucos quilómetros de distância, mas isto, no século XVIII, podia significar que duas pessoas nunca mais se encontrassem. Henry chega a acreditar que Julia morreu. Julia está grávida e tem de se sujeitar a ser uma serva na casa do laird para proteger a vida do seu filho.
Entretanto, desenrola-se um novo romance. Ellen MacKenzie, filha solteira de um laird falecido recentemente, apaixona-se por Brian Fraser, filho bastardo de outro nobre. A paixão já seria proibida o bastante porque os irmãos de Ellen a querem casar por aliança com outro clã, mas é pior porque os clãs MacKenzie e Fraser são inimigos. Uma espécie de Romeu e Julieta com muito soft-porn.
Henry e Julia vão conseguir reencontrar-se? Ellen e Brian vão ser forçados a abdicar do amor que os une?
"Outlander: Blood of My Blood" é uma série romântica, como o original, e é só para quem gosta destas coisas. É claro que também há a reconstrução histórica, os sotaques, a música folk e as gaitas-de-foles, as paisagens, os castelos, os trajes de época, que enchem o olho e o ouvido, mas é acima de tudo uma história ultra-romântica, onde o realismo fica em segundo plano, e deve ser vista como tal.
Pessoalmente, achei que o enredo é um pouco apressado e que os acontecimentos são muito mais forçados do que no original, mas quem gosta de "Outlander" não vai sair daqui desiludido. Fiquei surpreendida porque comecei a ver a série julgando que seria uma única temporada (não estava a imaginar enredo para mais, tendo em conta o original) mas vai continuar. Que venham então mais mancebos de kilt e donzelas de espartilho sobre a camisa interior branca, kilt e camisa desapertados por dedos sôfregos durante encontros secretos em casebres de pedra rústica nas colinas verdejantes, e...
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: Outlander, séries de época, História, romance
domingo, 19 de abril de 2026
Ouija: Origin of Evil / Ouija: Origem do Mal (2016)
[contém alguns spoilers, não revela o final]
Tendo em consideração que achei o primeiro "Ouija" um filme chato, e bem chato, esta prequela deixou-me de boca aberta. Cá está uma das excepções que confirmam a regra.
Em 1967, uma falsa vidente, viúva e em dificuldades económicas, tenta ganhar a vida a fazer "sessões espíritas" com a ajuda das duas filhas menores. Lina, a filha adolescente, sugere que utilizem uma ouija board para compor o número, coisa que a mãe decide experimentar. Mas a filha mais nova, Doris, tem de facto dons mediúnicos. Com a utilização da ouija board, Doris entra em contacto com espíritos maléficos.
Para começar, só o ambiente de época já faz o filme valer a pena. O enredo centra-se no drama da viúva e das filhas órfãs, e eu fiquei tão interessada que estive sempre a torcer para que o filme resultasse. E resulta, em certa medida. E depois acontecem coisas que nos fazem torcer o nariz.
A certa altura isto parece que vai ser uma coisa tipo "O Exorcista". A miúda fica possuída, um padre quer fazer um exorcismo... Mas depois o filme dá uma reviravolta, como se nos provocasse: "pensavam, não pensavam?" Sim, pensávamos. Geralmente estes truques não funcionam muito bem sem ser pela mão de um mestre. Funciona aqui? Já lá vou.
Estava tudo a correr muito bem. Doris, a miúda, protagoniza algumas cenas que nos deixam realmente inquietos. Não digo que metam medo, mas perturbam. Acho que este filme também beneficia do anterior, uma seca tão grande que os espectadores da prequela não estão à espera de serem minimamente perturbados.
Mas depois a coisa complica-se. Afinal a mãe e as filhas estão a viver numa casa assombrada. Doris está a contactar o espírito de um polaco que sobreviveu aos campos de concentração onde havia um médico nazi que fazia experiências com os prisioneiros. Este polaco sobrevive e vai para a América, onde acaba num hospital psiquiátrico onde reconhece o mesmo médico nazi do campo de concentração que continua a fazer experiências nos pacientes. Coincidência do caraças e azar do caraças. Este tal médico nazi fazia as experiências na casa de Doris e os corpos estão enterrados na cave. São os fantasmas destas vítimas que estão a possuir Doris agora. Ok, aceito. Fantasmas injustiçados e vingativos e isso tudo.
Mas pensemos melhor. A família está a viver na casa estes anos todos, a fazer falsas sessões espíritas, e só agora é que os espíritos se manifestam à miúda, que realmente tem poderes psíquicos, por causa de uma ouija board? Não. Não bate certo.
Esta história também está mal contada. O tal médico nazi é mal aproveitado. Aparentemente, são as vítimas que se estão a manifestar, o médico deve ter morrido e foi enterrado noutro sítio. Desperdício de médico nazi. Ainda vi o filme duas vezes para perceber se me tinha escapado alguma coisa, mas não. Afinal, o médico até podia ter sido parente do pai das miúdas, mas também não.
Também não percebi o fantasma malvado. Este fantasma malvado tem olhos simpáticos. Eu até pensei, sinceramente, que se ia revelar um espírito bom que ia ajudar a família. Há aqui qualquer coisa que não bate certo porque qualquer pessoa de Hollywood (ou até eu) sabe fazer um monstro assustador, e este monstro parece um desenho animado para crianças. Deu-me a entender que metade do filme já estava feita para uma coisa e foi "remendada" para outra. Algo de estranho se passou com este filme, o que é de facto o maior mistério de todos.
Mas funciona? Aí é que está o mistério. Funciona. Até ao final, nem me passou pela cabeça que fosse uma prequela. Mas foi exactamente aqui, no final, quando tentaram estabelecer a ligação entre a prequela e o original, que o filme deixou de fazer sentido. Nem que quisesse explicar, não consigo. Vi duas vezes e não percebo o final. Até tentei fazer um esforço para me lembrar do original, mas mesmo assim não chego lá. Tendo em conta a qualidade surpreendente do todo, talvez isto tenha sido um truque mal conseguido.
Depois de ver o filme descobri que foi realizado por Mike Flanagan. Isso explica a qualidade inesperada desta continuação de um filme medíocre, mas não há aqui nada ao nível de um "The Haunting Of Hill House", nem nada que o valha. Mesmo assim, metade do mistério está explicada. O final desastroso é que não está.
Este ainda não foi o filme de terror com ouija boards que eu queria ver, e há muito que explorar com as ouija boards. "Ouija: Origin of Evil" remete o original para um canto obscuro, mas, conhecendo o realizador como conheço, eu diria que algo aqui correu muito mal e não tem a ver com espíritos do outro mundo.
13 em 20 (que podia ter sido muito mais se não fosse o final desastroso)
PS: O "fantasma malvado" é o actor Doug Jones, que eu só fiquei a conhecer como Barão Afanas em "What We Do In The Shadows", mas já foi o Fauno em "Pan's Labyrinth", a criatura aquática em "The Shape of Water", Count Orlok em "Nosferatu" e o Bye Bye Man em "The Bye Bye Man", entre outros, só que estava sempre irreconhecível.
domingo, 12 de abril de 2026
The Last of Us (2023 - ?) [segunda temporada]
Eu nem ia falar mais sobre "The Last of Us", mas gostei muito de um dos episódios.
Se a primeira temporada me decepcionou, da segunda ainda gostei menos. Continuo a achar a miúda embirrante, desmiolada e insuportável, pondo tudo e todos em risco sem pensar duas vezes. Joel faz muita falta. Na falta de Joel, a série enveredou por um romance adolescente em que uma das miúdas pergunta à outra "como é que avalias o meu beijo de 1 a 10?" Oh, pelo amor da santa.
Infectados continuam a ser escassos. Temos um confronto muito tenso com os cabeças-de-fungo logo nos primeiros episódios e fica por aí. Se calhar fomos mal habituados por "The Walking Dead" com zombies em todos os episódios, mas, por outro lado, isto também é uma série de zombies.
Só estou a escrever sobre a segunda temporada porque o sexto episódio, "The Price", é mesmo muito bom. É um episódio dramático e humano que podia estar numa série completamente diferente, mas é bom, mesmo sem Infectados.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, Young Adult, mundos pós-apocalípticos
domingo, 5 de abril de 2026
There's Something In The Barn / Há Alguma Coisa No Celeiro (2023)
Atenção mamãs e papás, avós e avôs! Este pode ser um bom filme de Natal.
Uma família americana muda-se para a Noruega onde espera ter um Natal de sonho, mas os seus usos e costumes irritam os elfos residentes.
Gravei isto por engano, só pelo título e pela sinopse, pensando que era um filme de terror. Percebi logo que não era, mas já estava gravado... Por outro lado, o título não é inocente. "There's Something In The Barn" contém alguns elementos clássicos de filmes de terror adaptados aos filmes natalícios. Como? O que existe no celeiro são elfos (mas parecem-me mais gnomos) que, quando provocados, se transformam numa autêntica horda viking. A família não cumpre as regras e os gnomos estão zangados. Algumas cenas não são aconselháveis a crianças que ainda não percebem que é tudo a fingir. Num filme a sério, estas mortes seriam pavorosas. Claro que aqui é tudo muito suavizado. Depois de muita violência à americana, a moral da história é bonita: é preciso ter respeito mútuo pelas culturas diferentes da nossa. Não apreciei aquela treta de que a família é que é importante porque não gosto de ensinar mentiras às crianças, e é por isso que detesto filmes natalícios. Mas gostei dos gnomos zangados.
Aconselho este filme como introdução das criancinhas ao Terror.
12 em 20 (dentro do género)
domingo, 29 de março de 2026
Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?) [segunda temporada]
Gostei mais da segunda temporada de "Interview With The Vampire" e vou dizer porquê. Se a primeira temporada parecia outra adaptação do livro ponto por ponto, só que um século mais tarde e com personagens ligeiramente diferentes, na segunda já se percebe que é toda uma adaptação das Vampires Chronicles, incluindo "The Vampire Lestat", "The Vampire Armand", e até livros posteriores como "Merrick" ou "The Queen of the Damned". Assim já se compreende que tenham sido tomadas bastantes liberdades de modo a tornar o fluir da narrativa mais adequado a uma série de televisão, mas questiono algumas escolhas que deturpam e desvirtuam o original.
A começar pela própria natureza dos vampiros. Não consigo aceitar a opção de sexualizar os vampiros como se isto fosse um Young Adult qualquer, quando aquilo que sempre distinguiu os vampiros de Anne Rice foi a sua existência transcendente e "fora da natureza", o que é um aspecto importante e distintivo deste universo vampírico. Igualmente importante é a questão de abdicar do prazer sexual em troca da vida imortal, o que é compensado pelo êxtase superior do sangue, inimaginável para nós humanos. Isto é tão importante que Marius pergunta explicitamente a Armand, antes de o transformar, se está disposto a viver sem o prazer carnal. Não há sexo entre os vampiros, e humanizá-los é banalizá-los. Se calhar é preciso ter lido os livros para compreender a relevância deste ponto no original, mas tenho a certeza de que também funcionaria na série tal como funcionou no filme. Até já ouvi a teoria de que Anne Rice não incluiu homossexualidade explícita para não ser censurada. Balelas. "Entrevista Com o Vampiro" foi publicado em 1976, um livro para adultos, e Anne Rice sempre incluiu o sexo que quis. Aliás, basta ler os livros.
Quanto à adaptação em geral, na segunda temporada algumas coisas são fiéis ao original, outras não, e algumas até me confundiram e tive de ir consultar o enredo dos livros para tirar as dúvidas. Por exemplo, não me lembrava dos diários de Claudia, e com razão, porque só aparecem em "Merrick". Foi uma boa opção inclui-los no contexto da entrevista com Daniel Molloy.
Por outro lado, Louis e Claudia fazem a viagem pela Europa que foi excluída do filme. Depois de atacarem Lestat, Louis e Claudia vão em busca de outros vampiros que lhes ensinem o que Lestat lhes escondeu, e começam precisamente pelas terras da Roménia e arredores, onde há mitos de vampiros. Não me lembro muito bem do que aconteceu no livro porque é quase uma nota de rodapé, mas efectivamente encontraram um tipo de vampiros "imperfeitos" e monstruosos. Isto não foi muito importante no livro, mas na série a viagem acontece durante a Segunda Guerra Mundial, o que fornece logo um pano de fundo bastante mais interessante.
Quase se pode considerar que a série é uma espécie de história alternativa com os mesmos personagens, ou, em alguns casos, personagens inspirados nos originais.
Por falar nisso...
Lestat
Sam Reid é o melhor Lestat até ao momento. E não é fácil interpretar Lestat, um personagem complexo que tanto seduz como intimida. Tom Cruise conseguiu capturar o aspecto frívolo e narcisista que Louis descrevia, Stuart Townsend fez um bom trabalho como rock star, mas Sam Reid consegue de tal modo encarnar a totalidade do personagem que até arrepia vê-lo no écran. A presença felina de um leão. Encantador, fluido, letal, convencido, poderoso, atormentado, vulnerável, Lestat é tudo isto e mais. Pergunto-me se Sam Reid leu os livros todos ou de que outro modo se preparou, e queria mesmo saber e fazer-lhe a pergunta.
Quanto a Louis, e alguns fãs que me perdoem se preferiam um Louis menos macambúzio, o verdadeiro Louis foi mesmo encarnado por Brad Pitt e contra factos não há argumentos. Nesta segunda temporada também temos o incêndio no Teatro dos Vampiros, mas nada bate a imagem icónica de Brad Pitt entre as chamas.
Louis / Armand / Lestat
Louis e Armand fazem um casal muito fofinho e adorável, mas nunca aconteceu. Depois do Teatro dos Vampiros, Louis e Armand realmente fogem juntos e são companheiros por umas décadas, e acabou. Algumas décadas, em anos de vampiro, é o equivalente a um ano ou dois, se tanto. Se a relação foi mais do que amizade, e é tão irrelevante que nem me lembro, não teve qualquer importância. Louis e Armand estavam ambos fragilizados e a precisar de um ombro amigo. Não me lembro de Armand alguma vez ter expressado paixão assolapada por Louis, e Louis sempre esteve noutra (noutro) e nunca deixou de estar. Nos últimos livros, Louis está efectivamente a viver na casa de Armand em Nova Iorque, mas com isto quero dizer "abancar" e não "viver juntos", aliás, como outros vampiros da intimidade de Armand que também lá moram por ser mais prático. Lestat tinha regressado a New Orleans, e, se bem me lembro, Louis não queria voltar a viver lá, precisamente por causa das memórias de Claudia, embora estivessem ambos de boas relações.
Por falar em Lestat, se alguma vez Lestat e Armand foram amantes teria sido "uma por piedade" da parte de Lestat. Este é um dos conflitos mais relevantes das Vampires Chronicles e central à motivação que levou aos acontecimentos de "Entrevista". Armand conheceu Lestat no século XVIII e ficou muito impressionado, talvez até apaixonado, ou pelo menos apaixonado pelo ideal de liberdade que Lestat representava, mas Lestat não correspondeu. Armand, por despeito, e talvez ciúme de Louis e Claudia, faz o que faz para atingir Lestat. Por seu lado, Lestat sempre escondeu a existência dos vampiros europeus de Louis e Claudia precisamente para os proteger. Só sabemos isto nos livros posteriores a "Entrevista".
Nos livros, Lestat chama a Armand "a harpia", o que é bastante revelador. A série mostra um pouco desta faceta "harpia" de um dos personagens mais perigosos e maquiavélicos das Vampires Chronicles, mas nada que se compare aos livros. Até acho o Armand da série bastante simpático, alguém que age por amor e com quem é fácil empatizar.
Aqui, Armand é na verdade Arun, de Nova Deli (ele diz Deli e não conheço outra), mas nos livros Armand é Andrei, de Kiev. Isto pode não ser relevante se a série preferir não abordar os traumas religiosos de Armand como devoto da Igreja Ortodoxa. Aliás, foi esta cultura cristã que o levou a defender as ideias medievais de que o coven Children of Darkness, o seu clã antes do Teatro dos Vampiros, tinha por missão divina servir a Deus praticando o caminho do Diabo.
De certa forma, compreendo que fazer de Louis e Armand um casal que só se desfaz no fim da entrevista com Molloy, levando Louis a regressar a Lestat, é uma opção narrativa como qualquer outra que funcione num contexto de série. Nos livros, tudo isto demorou séculos. Mas o que vemos na série não é a história original, e, em certos pontos importantes, na minha opinião, afasta-se demasiado dela e perde muito ao fazer isso. Ninguém vai ficar a conhecer a história e a compreender os livros a partir desta série, nem lá perto.
Teatro dos Vampiros e Claudia
E por falar em Teatro dos Vampiros, tinha muitas dúvidas de que isto resultasse num pós-guerra do século XX, mas a série conseguiu mostrar um teatro entre o burlesco e o avant-garde, e o facto é que fiquei convencida. O actor Ben Daniels (a quem eu já conhecia de "O Exorcista", série) faz um papelão como Santiago e vende aquilo tudo.
Já quanto a Claudia, continuo não convencida. Tal como referi na critica à primeira temporada, não faz sentido que o argumento de Armand e dos outros vampiros seja "demasiado nova para existir por conta própria". Aqui Claudia tem 14 anos e o próprio Armand foi transformado algures antes dos 17, motivo pelo qual lhe chamam "o querubim eterno" (e motivo pelo qual Antonio Banderas foi um erro de casting). O argumento não colhe. Podiam ter explorado melhor o conflito precedente que expus acima, mas aqui a série andou completamente a patinar. Afinal, Armand queria ficar com Louis ou estava-se nas tintas se ele fosse condenado à morte? Porque se queria ficar com Louis, Armand, a harpia, o mestre manipulador, teria traído o coven todo antes que o coven pensasse em traí-lo. Não se manipula Armand; Armand é que manipula tudo e todos. A série não está a fazer justiça ao personagem.
Akasha
E aqui está outro mau exemplo de manobrar a história para a "comprimir". A certa altura, na série, Armand e Louis vão os dois matar Lestat. Isto nunca aconteceu. Lestat diz-lhes que não lhe podem tocar porque ele tem o sangue de Akasha. Isto muito menos. Eles sabem que ele tem o sangue de Akasha. Estavam lá os três e quase morreram todos. E Akasha nunca mais é mencionada nem explicada, ainda por cima, a Rainha dos Malditos que tem dois livros, um filme, uma das melhores bandas sonoras jamais realizadas, e milhares de pessoas pelo mundo inteiro a porem o seu nome aos animais de estimação. E Akasha é assim tão vilmente descartada numa cena que nunca aconteceu nem tinha razão para acontecer. Mais um momento em que a série andou a patinar.
Se Lestat já tinha o sangue de Akasha na altura, isso significa que ela já tinha despertado, ou talvez Lestat tivesse sido levado ao Santuário por alguém como Marius? Isto é importante porque ter conhecimento acerca de Akasha (que Lestat não tinha na altura) altera a dinâmica das Vampire Chronicles. Será que ainda vamos ver Akasha despertar (como no filme), ou será que vão transformá-la numa personagem completamente diferente para nos trocar as voltas? E as gémeas? Confesso, neste caso gostava que as gémeas tivessem uma história diferente porque nunca fui grande fã delas nos livros. Mas aquela história no Egipto, isso é para manter! Duvido que mantenham porque é muito chocante. E já agora também podiam dar mais profundidade a Akasha. Sempre achei que aquela motivação de vilã de "matar os homens todos menos Lestat e ser adorada como rainha do Céu" era muito fraquinha. Aliás, "A Rainha dos Malditos", apesar de ter tanta acção, é um dos livros mais fraquinhos da saga. Ora aqui está um caso em que a série me podia agradar e surpreender se desse mais tridimensionalidade às personagens.
Anne Rice só houve uma
Apesar de tudo, não estou completamente pessimista para a terceira temporada. A série teve boas ideias, como o hobbie de fotografia de Louis (se ele desistiria tão facilmente é que já não acredito) ou a presença de um agente da Talamasca. Eu não esperava um agente da Talamasca, mas quando Daniel Molloy pergunta "a que agência é que você pertence, é demasiado pálido para ser Mossad", cheguei logo lá. Isto é ser uma ultra-fã ou, como dizem os miúdos agora, uma nerd. Este agente da Talamasca é Raglan James, e não vou dizer mais nada por causa dos spoilers. Eu queria ver isto, queria mesmo ver isto, embora eu própria concorde que o livro em causa não pode ser adaptado sem modificações.
Se a segunda temporada foi melhor, em abrangência e tom, será que a terceira acerta? Também não estou assim tão optimista. As histórias de Anne Rice são o chamado "character driven", histórias conduzidas pela personalidade da personagem e não ao contrário, e quanto mais alteram as personagens mais riscos correm de criar inconsistências com o original se não partirem para uma história completamente alternativa (o que foi o problema no caso de Claudia, que ficou mal vendido). Criar uma boa história alternativa com estas personagens não é impossível, mas não é para toda a gente. Façam o fan fic que quiserem, mas façam-no bem, e sim, esta série é completamente fan fic. Como disse aqui de outra série, ou vai ser muito bom ou vai ser muito mau. A culpa não vai ser do original.
Por último, regresso a Santiago para sublinhar uma coisa que a série fez bem. Para quem nunca leu os livros, reparem em como Santiago e Armand oferecem a morte como uma tentação sedutora. A vítima deixa de o ser e entrega-se voluntariamente à ideia de que uma morte consciente, uma morte suave e sem dor, é melhor do que uma vida de sofrimento. Os vampiros não fazem isto com hipnose mas com factos e filosofia. E naquele momento o visado rende-se e deseja a morte, e foi esta perspectiva sombria, mas lúcida, que fascinou milhões de fãs das Vampire Chronicles. Não é para toda a gente, mas a série conseguiu transmitir isto.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, mas eu vi duas
PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, Anne Rice, Vampire Chronicles, Interview With The Vampire, The Vampire Lestat, The Vampire Armand, etc
domingo, 22 de março de 2026
Ouija / Ouija, o Jogo dos Espíritos (2014)
Uma rapariga suicida-se, aparentemente, depois de usar uma ouija board, mas a sua melhor amiga duvida que tenha sido suicídio. O grupo de amigos reúne-se com a mesma ouija board numa séance para tentar contactá-la, mas o que responde é outra coisa.
Como é que esta premissa foi tão mal aproveitada? Vou já directamente ao ponto. Este filme é chato. Isto nem é um spoiler porque se descobre logo nos primeiros 15 minutos: a rapariga não se suicidou, foi assassinada por um fantasma. A partir daqui, o fantasma começa a matar os amigos um por um e só resta saber quem é que se safa no fim.
É por isso que é chato. Este é o enredo de milhões de filmes mata-adolescentes, só que com um fantasma. O início até prometia. Tanta coisa que se podia fazer com um suicídio causado pelo contacto com o Além. Mas não, teve de ser o mesmo de sempre.
"Ouija" estava a contar muito com a actriz Lin Shaye, a médium de "Insidious", mas não há aqui nada que salve o déjà-vu do enredo. Eu estava com dificuldade em não adormecer.
11 em 20
domingo, 15 de março de 2026
The Leftovers (2014 - 2017)
2% da população mundial desaparece sem deixar rasto: novos, velhos, crianças. Algumas famílias não perdem ninguém, algumas pessoas perdem a família toda. Embora a sinopse nos tente com este mistério, a série é principalmente um drama sobre os sobreviventes.
Ouvi falar de "The Leftovers" em comentários muito elogiosos, mas comecei a perceber que nunca ia ter respostas nenhumas aí pelo terceiro ou quarto episódio, especialmente quando reparei no nome Damon Lindelof nos créditos (criador da série e também de "Lost"). Não costumo deixar histórias a meio mas desta vez ponderei seriamente parar de ver, o que já diz muito. Por descargo de consciência vi a primeira temporada até ao fim. Depois fui ler em mais críticas que efectivamente não há respostas nas três temporadas da série. Então de onde é que vêm os elogios? Bem, para quem quiser um bom drama sobre fé e luto, com personagens da "vida real", complexos e falíveis, a série funciona. Para quem, como eu, foi atraído pelo mistério (e nem vou falar da desonestidade de prometer um mistério destes sem a menor intenção de o resolver), vai ser uma decepção.
Não tenho nada contra um bom drama, ou até um bom drama num qualquer ambiente não realista que sirva apenas de pano de fundo, mas o que me chateou em "The Leftovers" (assim que percebi do que a casa gastava) até nem foi isso.
O drama centra-se em torno de uma família que não tem nada de tão interessante que o mereça excepto precisamente o facto de estar a reagir ao fenómeno do Desaparecimento. A mãe tornou-se niilista e juntou-se ao culto do "Senhor, Dá-me Um Cancro Depressa", uma seita que se veste de branco, faz voto de silêncio e fuma cigarros atrás de cigarros, os Remanescentes Culpados, cujo intuito é não deixar que os Desaparecidos sejam esquecidos.
Aliás, não é o único culto. Por alguma razão, as pessoas estão convencidas de que o Desaparecimento foi o Rapture (uma crença evangélica do Arrebatamento dos justos, em vida, para o Céu), o que também me deixou um pouco perplexa. Ninguém pensou em abdução colectiva por extraterrestres? A certa altura uma personagem (de ainda outro culto) levanta a hipótese de armamento secreto, mas só a deixam dizer uma frase. Neste estado de coisas, um padre trava uma batalha solitária para provar que não foi o Rapture porque algumas das pessoas "levadas" não eram boas. E ainda existe outro culto em torno de um homem que promete curar a dor em troco de compensação monetária.
Isto já são muitos cultos em menos de seis episódios e eu considerei que era americanice a mais para o meu gosto, mas achei piada aos suicidas "passivos" da seita do tabaco. Como fumadora, até a mim fez impressão a quantidade de cigarros que esta gente fumava. Felizmente, muitos dos cigarros estavam apagados e os actores só fingiam que fumavam. Confesso que gostei de Ann Dowd, a Tia Lydia de "The Handmaid's Tale", como líder do culto. Ann Dowd é uma grande actriz e tem jeito para fanática. Se calhar não tinha chegado ao fim da temporada se não fossem os maluquinhos dos cigarros.
Mas o que me chateou mesmo foi a questão dos cães. Com o desaparecimento de alguns donos, os cães abandonados começaram a formar matilhas selvagens. Um homem anda a matá-los a tiro, justificando que "já não são os nossos cães". Ora, isto remete-nos para o excelente princípio de "The Thing", e deixa no ar a hipótese sinistra de que algo de maléfico está a possuir os cães, muito possivelmente relacionado com o Desaparecimento. Mas afinal não. As matilhas caçam nos bosques, nem atacam as pessoas, um dos cães até volta a ser doméstico no fim, e o gajo andava só a praticar tiro ao alvo por desporto. Como sei que a maioria das pessoas não gosta de ver matar cães, e que não havia razão nenhuma para os matar, isto foi só para o efeito de choque e, mais uma vez, a promessa de outro mistério. Como não há mistério nenhum, não estou para levar com crueldade gratuita.
Teria sido melhor e mais honesto, na minha opinião, fazerem um drama sem mistérios, sobrenaturais ou outros, sobre uma família em crise, uma mãe que perdeu o marido e os filhos, um padre em cruzada, um curandeiro, um gajo que mata cães por desporto, e os maluquinhos dos cigarros. Até ficava uma coisa interessante tipo "Twin Peaks" ou "Fargo". Sendo assim, tenho melhor para ver.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: não se perde nada se não se vir, mas muita gente tem a opinião contrária
PARA QUEM GOSTA DE: Lost, mistério, drama, ficção científica (?), sobrenatural (?)
quinta-feira, 12 de março de 2026
domingo, 8 de março de 2026
The Northman / O Homem do Norte (2022)
Amleth, príncipe viking, jura vingar-se do tio que matou o rei e usurpou o trono.
Não quero acreditar que este filme seja de 2022. Este filme lembrou-me "Conan, o Bárbaro" de 1982 (e não sou a única), e isto não é um elogio. Até perdoava se o filme tivesse sido feito algures até ao ano 2000, mas depois de "Vikings" e "The Last Kingdom" como é que alguém pode achar que "The Northman" tenha alguma relevância? Será que o realizador alguma vez viu as séries? Será que viu os filmes de vikings que têm sido feitos entretanto?
"The Northman" não foi feito para ser realista, compreendo isso. Diria mesmo que o realizador viu "Conan, o Bárbaro" quando era pequenino e quis fazer a sua versão. Há aqui muita Fantasia e magia. O herói, Amleth, ouve a profecia de uma vidente e tem de encontrar uma espada "mágica" para matar o tio, e tem de fazê-lo em determinado lugar a determinada hora. Porquê? Porque sim. O tio não é uma criatura sobrenatural e Amleth tem muitas oportunidades de o matar... mas a profecia! Isto é estúpido, mas se fosse só um filme de Fantasia eu deixava passar. Se fosse só um filme de Fantasia, isto era para miúdos. Mas o realizador também quis utilizar rituais e costumes sangrentos dos vikings, pseudo-realistas, pensando que nos chocava, como se nunca tivéssemos visto a porno-tortura de "Vikings".
É por isso que pergunto, qual é a relevância deste filme em 2022, quando já vimos muito melhor Fantasia e muito melhores reconstituições históricas? Até "The 13th Warrior" ("O Último Viking"), com Antonio Banderas, de 1999, é um filme mais interessante e mais relevante. Não percebo um filme destes em 2022.
No meio da patetice, há uns poucos destaques que não salvam o filme mas que o tornam mais suportável. Nicole Kidman faz o melhor que pode do papel que lhe é dado. Alexander Skarsgård (o Eric de "True Blood") provou-me finalmente que é um grande actor numa cena que podia estar num filme de Ingmar Bergman, mas é mesmo lá para o fim. Mal desperdiçado actor e mal desperdiçada cena. Mas também é uma cena que parece ter saído de outro filme e escrita para um personagem que fez uma jornada de herói e que chegou ao seu limite. O pobre Alexander Skarsgård não tem tanta sorte, passa o filme todo no mesmo registo de vingança, sem a menor evolução psicológica.
Björk faz de vidente, mas não a reconheci. Com aquela máscara na cara, nem podia reconhecê-la. Fica aqui a dica para os fãs.
"The Northman" é um filme de 2022 que tenta ser "Conan, o Bárbaro" mas que consegue ter ainda menos interesse cinematográfico, uma mistura falhada de Fantasia e pseudo-realismo, uma coisa que só pode agradar a quem nunca viu os filmes e séries de vikings da última década. Volta, Michael Hirst, estás perdoado.
Só uma última nota de que me lembrei a posteriori. Alexander Skarsgård é irmão de Gustaf Skarsgård (o Floki de "Vikings") e se calhar foi ao papel do irmão que Alexander Skarsgård foi buscar inspiração. Na verdade, aquela cena brutal fazia sentido em "Vikings". Pelo menos sabemos que alguém viu a série antes de entrar neste filme.
11 em 20
sábado, 7 de março de 2026
domingo, 1 de março de 2026
El Cadáver de Anna Fritz / O Cadáver de Anna Fritz (2015)
Anna Fritz, uma actriz jovem e bela, é encontrada morta. Um dos funcionários da morgue convida os amigos para virem espreitar o corpo da celebridade. A partir daqui as coisas vão de mal a pior.
Quando li a sinopse pareceu-me talvez um drama, talvez terror. Este filme espanhol talvez seja as duas coisas e também um thriller, mas o melhor é ver sem spoilers e sem ler nada sobre o enredo, por isso vou calar-me.
Quase dava 20 em 20, mas alguns pormenores relacionados com o funcionamento da morgue retiram alguma credibilidade e precisavam de ser mais bem "vendidos". Também não vou explicar por causa dos spoilers, mas posso garantir que só pensei nisto depois. Durante o filme, fiquei petrificada do princípio ao fim.
17 em 20
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Ena. La reina Victoria Eugenia / Ena, A Rainha Vitória Eugénia (2024 - 2025)
Primeiro que tudo, o título não significa "Ena! A rainha Vitória Eugénia" mas antes "Ena, a rainha Vitória Eugénia". (Sim, eu li "ena!" e fiquei uns segundos a pensar o que é que ela teria feito para merecer o "ena"). Ena era a alcunha da rainha espanhola Vitória Eugénia, neta da rainha Vitória de Inglaterra, avó de Juan Carlos e bisavó do presente rei Filipe VI. Vitória Eugénia foi a consorte do último rei de Espanha antes do interregno, Afonso XIII, exilado em 1931. A acção da série centra-se sobretudo desde o início do século XX até ao pós-Segunda Guerra Mundial.
Confesso que conheço muito mal o período histórico português entre a instauração da República e o Estado Novo, mas do espanhol não conhecia mesmo nada. Por exemplo, nem me passava pela cabeça que Espanha não tivesse participado na Primeira Guerra Mundial, onde nós participámos. Esta série espanhola não explica os factos históricos em profundidade (é mais dirigida a quem já os conhece) mas fiquei a perceber muita coisa em que nunca tinha pensado.
Tive muita pena de Vitória Eugénia. Primeiro, teve de casar com um espanhol. Segundo, teve de viver em Espanha. Terceiro, assim que se casou descobriu que quem mandava no rei era a mãe do rei. Quarto, o marido era um mulherengo inveterado. Mas tudo isto era muito comum nas monarquias à antiga. Rainhas como Vitória Eugénia tinham um único propósito: gerar herdeiros. É claro que a série tentou romantizar a protagonista, mas eu não acredito que uma descendente da rainha Vitória, por jovem e ingénua que fosse, não soubesse muito bem o que esperar do casamento.
Vitória Eugénia, e isso é que eu acho mais fascinante, foi uma mulher do século XIX que viveu todas as revoluções do século XX. Da luz das velas às cidades iluminadas, do coche ao automóvel, dos canhões à bomba atómica, do espartilho ao biquíni. Vitória Eugénia viu o cinema, a televisão, e, embora já não tenha visto o homem na Lua, também assistiu à conquista do espaço. Não consigo imaginar outro período histórico com inovações científicas tão avassaladoras como estas devem ter parecido a quem nasceu no final do século XIX e viveu o século XX. (Como alguém que também mudou de século, e já vamos em 2026, não encontro nada no século XXI que se aproxime desta revolução vertiginosa, tirando a internet ao acesso de todos. Continuamos em evolução, mas o século passado foi uma explosão.) Estes choques tecnológicos não podiam deixar de influenciar também as mentalidades. Vitória Eugénia foi educada à vitoriana e preparada para uma monarquia à antiga, mas uma monarquia à antiga já não tinha lugar na modernidade e a própria Vitória Eugénia queria ser mais do que um enfeite e uma parideira, e efectivamente foi. Dedicou-se sobretudo a causas humanitárias como os hospitais para os pobres, a Cruz Vermelha e os prisioneiros de guerra. De muitas formas, foi já o modelo de rainha próxima e empática que as suas sucessoras europeias viriam a adoptar.
A corrente republicana ditou o exílio de Afonso XIII, e a monarquia só regressou a Espanha em 1975. Como disse, a série não se detém em profundidade a analisar os factos históricos. Afonso XIII, e o seu herdeiro Juan (pai de Juan Carlos), continuaram a escrever a Franco na tentativa de restabelecer a monarquia. Da perspectiva da série, não se consegue perceber se o fizeram em cumplicidade com o regime ou apesar dele. Na verdade, a série aborda o assunto com talvez demasiada leveza, quase como se Afonso XIII e Juan quisessem voltar ao trono só porque sempre foi assim e sempre assim será, haja ditadura ou haja democracia. A certa altura, um personagem até refere que "a Espanha é monárquica" na sua essência. Bem, o facto é que resultou e que a monarquia ainda lá está.
Por outro lado, compreendo que a prioridade de "Ena, A Rainha Vitória Eugénia" tenha sido dramatizar a mulher, retratá-la como esposa, mãe e avó, e não dar uma lição de História. Mesmo assim, aprendi muitas coisas que não sabia.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: Victoria, História, drama, séries de época
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Us / Nós (2019)
Duas famílias estão de férias na praia quando se tornam alvo de ataque por seres misteriosos e assassinos que são iguais a eles.
Spoiler necessário: o filme nunca explica em detalhe, mas estes seres foram criados num laboratório subterrâneo como réplicas (vou chamar-lhes clones) das pessoas originais, numa experiência (tudo indica governamental) para tentar controlar a mente dos cidadãos. Falhada a experiência, os clones foram abandonados à sua sorte, e finalmente subiram à superfície para se vingarem dos originais.
O filme é arrepiante. Estes clones são em tudo idênticos aos originais mas são defeituosos: na fala, nos movimentos, na falta de consciência moral. Na verdade, parecem mais uns "zombies vivos" do que outra coisa. Por alguma razão, estão mentalmente ligados aos originais no exterior e a única forma de se "desligarem" é matando as pessoas de quem são réplicas.
"Us" tem sido agraciado com elogios retumbantes de originalidade que, no meu entender, não merece. Se isto é uma metáfora dos excluídos contra os privilegiados, George Romero já o fez antes, com zombies. A sensação com que fiquei deste filme é de que lhe falta qualquer coisa, uma base minimamente credível. Por exemplo, quando a experiência é cancelada, e sendo uma experiência ilegal e bastante sinistra, porque é que os investigadores deixaram os clones vivos? Também nunca é explicado quantos clones existem, se são apenas milhares naquela cidade costeira ou milhões deles para toda a população americana. Desta forma, não sabemos o que acontece quando o filme acaba: os clones tomaram conta de tudo ou não?
Para quem não fizer perguntas difíceis, "Us" é um slasher quase igual aos outros, mas com clones.
12 em 20
domingo, 8 de fevereiro de 2026
Servant (2019 - 2023)
[contém alguns spoilers]
"Servant" é uma série excepcional que combina terror, thriller psicológico, mistério, comentário social e humor. Porque o enredo vive do suspense não vou poder aprofundá-lo como merece, mas aconselho a toda a gente que gosta do género que veja a série sem spoilers absolutamente nenhuns para maior impacto.
Spoilers
Dorothy e Sean Turner são um casal de classe alta que perdeu um bebé de poucos meses. Dorothy ficou em tal depressão que Sean e o irmão dela, Julian, por sugestão de uma terapeuta, substituem o bebé por um boneco Reborn (um boneco bastante realista). Só que Dorothy não recupera do choque e, em estado de negação, começa mesmo a acreditar que o boneco é o seu filho. Sean e Julian não querem contrariá-la e agem como se o boneco fosse um bebé de verdade. Isto cria um ambiente de casa de doidos, especialmente quando Dorothy, sem que Sean se oponha, contrata uma ama de 18 anos. Leanne, a ama, é daquelas raparigas religiosas de província que não conhecem nada do mundo e cheiram a sabão azul e branco porque até o sabonete seria considerado demasiada vaidade (ou assim imagino que ela cheire). Mas quando Leanne chega, o boneco transforma-se num bebé a sério. Mais do que isso, quando ela está presente o bebé existe, quando ela se afasta o bebé volta a ser um boneco.
Dorothy não se apercebe disto porque sempre acreditou que o boneco fosse o bebé, mas Sean e Julian partem do princípio de que Leanne trouxe uma criança com ela, possivelmente sua. Quando vêm a saber que Leanne cresceu num culto, a Igreja dos Santos Menores, e um tio misterioso vem à procura dela, ainda mais se convencem de que isto tudo é um esquema para fazer chantagem e extorquir dinheiro. O pior é quando Sean, primeiro, e Julian, depois, se apegam também ao novo bebé e já não o querem deixar ir embora.
Mas não é um esquema. Leanne é aquilo a que eu chamo uma bruxa genuína. Não falo de senhoras que lêem o Tarot, percebem de astrologia e têm um gato. Falo de uma bruxa de verdade com poderes de verdade, como se percebe depressa em poucos episódios. O culto é cristão, mas os membros do culto têm muito boas razões para serem crentes. Gostei muito deste "cruzamento" entre os poderes sobrenaturais que geralmente são associados com bruxaria e o zelo cristão de um outro tipo de sobrenaturalidade que não vou revelar.
Agora o comentário social. Dorothy, jornalista televisiva, Sean, Chef de renome, e Julian, com dinheiro de família, vivem num mundo de luxo e privilégio em que tudo pode ser comprado. Neste mundo artificialmente perfeito, trocar um bebé por um boneco parece-lhes aceitável para que a perda não lhes afecte o conforto absoluto. Lidar com a dor não é uma opção. Até pode parecer que os Turner nem sequer estão de luto, que são tão superficiais que vivem numa bolha de ilusão, mas é mais do que isso. Eles não vivem apenas numa ilusão, eles transformaram a ilusão em realidade e a realidade é que se tornou uma ilusão, como um pesadelo que se dissipa à luz do dia. Se existe drama, todas as personagens fingem que não o vivem, e é isto que mais nos choca em "Servant". Será Leanne uma força do bem que os vem obrigar a ser humanos, ou uma força do mal que os vem castigar?
"Servant" é uma produção de M. Night Shyamalan, mas não foi escrito por ele. M. Night Shyamalan tem sido um realizador com grandes sucessos e grandes flops, mas voltou a cair nas minhas boas graças com "The Visit" (20 em 20), que me deixou de cabelos em pé de tão arrepiada. Mesmo assim, não quis pronunciar-me antes de ver a série toda e posso assegurar: "Servant" não desilude.
Agora o humor. No meio desta situação de pesadelo, Julian e Sean, principalmente, protagonizam momentos tão absurdos que quase nos fazem rir. Quase. Julian tem sempre disposição para provar os vinhos vintage na colecção de Sean. Sean é um Chef tão meticuloso que passa o dia a cozinhar e até o pequeno-almoço é gourmet. Na segunda temporada, por exemplo, quando julgam que o bebé foi raptado, decidem distribuir pizzas para que os suspeitos lhes abram a porta. É tudo a fingir, mas nem mesmo assim Sean consegue entregar uma pizza menos do que perfeita. Aliás, aviso já, ver Sean cozinhar abre o apetite. Excepto quando nos repugna, como daquela vez em que faz doce de grilo. Mas que é gourmet, sim é.
"Servant" também é uma série gourmet, daquelas que só se vêem raramente na vida.
Certas semelhanças recordam-me "Shining Vale", série posterior, mas "Shining Vale" era claramente mais voltado para a comédia.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes
PARA QUEM GOSTA DE: terror, thriller, mistério, sobrenatural, Shining Vale
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Fim dos blogs no Sapo
É com tristeza que tomo conhecimento do fim do alojamento dos blogs no Sapo. Foi lá que comecei, em 2003, porque na altura era tudo muito novo (até a própria broadband na internet era uma coisa recente) e o Sapo fazia menos confusão do que o Blogger. Todavia, não fiquei muito tempo. Devido às frequentes sucessões de dias e dias em que a plataforma estava pura e simplesmente em baixo, e aos bugs recorrentes que ninguém se dava ao trabalho de resolver, mudei-me logo para o Blogger em 2004.
Deixo aqui os motivos invocados pelo Sapo, antes que também este texto seja apagado para todo o sempre:
Porque vai ser encerrado o SAPO Blogs?
Tal como o lema que adotámos, acreditamos que os blogs só fazem sentido "com gente dentro". Com cada vez menos pessoas a virarem-se para os blogs como forma de expressão, a blogosfera foi aos poucos cedendo terreno para as redes sociais, que se tornaram o principal ponto de encontro virtual de ideias e pessoas, com impacto em plataformas como a nossa.
Temos orgulho no lugar que o SAPO Blogs ocupa na história da blogosfera portuguesa e agradecemos a todos os que, em algum ponto destes 23 anos, utilizaram o nosso serviço e contribuíram para o seu desenvolvimento.
Mas o Sapo não vai apenas encerrar (ou "descontinuar", esse neologismo tão fofinho), vai apagar os blogs às pessoas.
Se é verdade que a esmagadora maioria dos bloggers iniciais se mudou para as redes, por outro lado aqueles que ficaram mereciam mais respeito. O que também suscita a questão: se cada vez menos gente escreve, custava-lhes assim tanto deixar os conteúdos online, ou pelo menos dar a opção de que os utilizadores pagassem o alojamento?
É curioso, mas não me surpreende. Algum tempo depois de parar de escrever no Sapo, recebi um email a avisar que o meu blog ia ser apagado por inactividade. Como não queria mesmo ficar lá, deixei que apagassem. Verifico que fiz bem em permitir que apagassem na altura, ou seria apagada AGORA, mas esta experiência demonstrou-me desde logo o pouco respeito do Sapo pelos conteúdos que eram lá publicados.
E também me parece que esta desculpa de que "as pessoas foram para as redes" é conversa da tanga. O conteúdo das redes é para consumo de 30 segundos no máximo, textos curtos, imagens e reels. O conteúdo dos blogs é para quem gosta de artigos e opiniões fundamentados, para ler com tempo. São duas coisas completamente diferentes e até podem ser complementares. (Pessoalmente, até fiquei agradecida quando os trolls que andavam sempre aqui nas caixas de comentários se mudaram todos para as redes.) Os conteúdos produzidos nos blogs, por bloggers dedicados que gostam mesmo do que fazem, diminuíram em quantidade mas aumentaram grandemente em qualidade. Mais uma razão para serem respeitados, se o Sapo soubesse dar valor a quem permaneceu por lá.
Não estou a dizer que o Blogger é perfeito. Nota-se que esta plataforma também não está propriamente a investir em desenvolver novas funcionalidades, e as poucas que introduziu muito recentemente não têm qualquer aplicação útil para mim, mas pelo menos existe e é gratuita. Por enquanto.
Desde a minha experiência com o Sapo, ou talvez ainda antes, comecei a manter um back up manual e regular do blog, não me fiando nos ficheiros de exportação automática. Até cheguei a experimentá-los com blogs de teste e não funcionaram.
Perder 20 anos de posts, e 20 anos é uma vida, custa e dói. Por vezes passa-me pela cabeça que o Blogger pode acabar de um momento para o outro, e só o pensamento magoa. Tenho o back up, sim, mas voltar a publicar 20 anos de blog noutra plataforma é inimaginável.
Deixo aqui a minha solidariedade para com todos os bloggers afectados e os meus votos de boa sorte e de que não desistam por causa disto.
Eu também por cá vou andando, enquanto Blogger quiser, amém.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Indochine / Indochina (1992)
Conheço este filme desde que saiu mas penso que nunca tinha visto.
"Indochine" é a história da dona de uma plantação de borracha nos últimos anos da ocupação francesa da Indochina, e também é uma história de amor. Éliane adoptou a pequena Camille, nativa de família rica, a quem acaba por perder para uma paixão condenada.
Segundo a sua cultura, Camille está prometida em casamento desde criança, mas Éliane não pretende obrigá-la à tradição. Uma mulher da família de Camille diz mais ou menos isto, quase de forma premonitória: "Nunca vamos perceber os franceses com os seus amores cheios de paixão, loucura, emoção. Aqui casam-se os jovens e acabou-se." Educada como francesa, Camille atira-se de cabeça para um amor de perdição com um oficial francês. Numa situação de conflito entre os comunistas e os colonos, Camille comete um homicídio e torna-se foragida, mas Éliane nunca deixa de a procurar. É esta a história de amor. É claro que "Indochine" é toda uma metáfora sobre a colonização francesa.
Gostei da maneira como o filme nos mostra as atrocidades do conflito de forma distante, como pano de fundo, sem cair na tentação fácil de chocar. O enredo centra-se sempre nos personagens e, admito, o final surpreendeu-me.
"Indochine" é um grande filme, talvez um bocadinho datado, que recomendo vivamente.
17 em 20
domingo, 25 de janeiro de 2026
The Handmaid's Tale (2017 - 2025)
[contém alguns spoilers]
Blessed be the fruit.
May the Lord open.
Abençoados sejam os frutos da série e que o Senhor abra os olhos de quem quer mantê-los fechados. Não queria dizer isto antes de ver o fim, mas agora estou decididamente convencida de que "The Handmaid's Tale" é uma das melhores séries de todos os tempos e de que um dia será assim reconhecida.
O poder das imagens de "The Handmaid's Tale" já serve para se fazerem protestos silenciosos por mulheres vestidas como Servas, sem que uma palavra precise de ser pronunciada ou mostrada em cartazes. Não é qualquer produto de Hollywood que consegue fazer isto, e, sem desprimor do livro, acredito que o impacto visual da série tenha contribuído inequivocamente para despoletar estas manifestações.
Política e realidade à parte, nem tudo é narrativamente perfeito nas seis temporadas de "The Handmaid's Tale", mas é quase, e este quase é muito importante. Já a nível da cinematografia, da cor, dos enquadramentos, do world building, das interpretações, da criação de um ambiente tão desconhecido e opressivo quanto, ao mesmo tempo, familiar e fascinante, não tenho nada a apontar. Depois de assistirmos à primeira temporada somos imediatamente transportados para lá só de vermos as cambiantes de cor que compõem as cenas, tal como em Gilead o código de cores define quem é quem.
Nesta nota, é engraçado como eles tiveram de filmar durante a pandemia e usaram as máscaras faciais como elemento ainda mais sinistro. "The Walking Dead" também fez isto, mas as polícias de Gilead aparecerem de repente de caras tapadas, como os verdadeiros algozes que são, e as Servas de rosto coberto como símbolo da sua opressão e falta de voz, teve um efeito mais aterrador.
De todas as qualidades da série, porém, talvez uma das mais significativas sejam mesmo as interpretações. Alguns actores tentaram fazer-se o mais repugnantes possível, mesmo sabendo que nunca vamos conseguir olhar novamente para a cara deles sem nos lembrarmos do que foram em "The Handmaid's Tale". Um grande aplauso para eles, principalmente os mais repulsivos.
Depois da quinta temporada, efectivamente a mais importante da série, o final traz-nos uma conclusão sólida, bem construída e merecida. Era minha intenção rever desde o início antes de ver o fim, mas, confesso, não fui capaz. Chateei-me aqui com pessoas que desistiram de ver a série por ser "muito violenta", mas eu vi tudo e li o livro, e não tive coragem de assistir novamente às partes mais perturbadoras, especialmente o ritual badalhoco da Cerimónia. Até para mim, que não gosto de enfiar a cabeça na areia, foi demais. "The Handmaid's Tale" não é um visionamento fácil, mas isto não é entretenimento. É distopia pura e dura, como "1984" ou "Fahrenheit 451", e é exactamente por isso que deve ser visto, para que nunca venha a concretizar-se devido a pessoas que no futuro fechem os olhos à realidade por terem sido demasiado flores de estufa para sequer ponderarem a ficção.
Não queria estar aqui com spoilers, mas depois de seis temporadas tenho alguns comentários finais.
June
Com todo o respeito pelo trauma da personagem, June tornou-se tão insuportável, manipuladora, egoísta e irresponsável na sua obsessão cega de destruir Gilead sem olhar aos meios, que até a sua melhor amiga, Moira, e o seu marido, Luke, desistem de a aturar e ameaçam virar-lhe as costas. Gostei disto, porque de facto June estava prestes a desprezar o que havia de mais valioso na sua vida em prol de uma luta que poderia nunca dar frutos e que nunca deveria sacrificar os que estão e são queridos por causa dos que partiram e já não regressam. Se Moira e Luke tivessem continuado a ser complacentes, se não tivessem tomado uma posição, June nunca abriria os olhos para o que mais se arriscava a perder para além do que já tinha perdido.
Pode-se argumentar que os grandes líderes têm de ser duros e implacáveis como June, mas eu apreciei, depois de tudo o que ela passou, que a tivessem chamado à razão antes que toda a humanidade se esvaísse.
Há uma cena na quinta temporada em que Mark Tuello, diplomata americano, tenta explicar a June que o combate mais importante é pela democracia, ao que June responde "nada disso me interessa sem a minha filha". Nessa altura, Tuello estava a tentar convencer June a ajudar a Resistência, o que ela não queria fazer para não pôr em risco a possibilidade de recuperar a filha, Hannah, por afrontar Gilead. Gostei que a personagem tenha finalmente encontrado o equilíbrio entre o possível e o impossível, entre a combatividade e a aceitação, entre a revolta e a paz de espírito.
Serena Joy e Comandante Lawrence
Serena Joy é provavelmente a personagem mais complexa de "The Handmaid's Tale". Se o Comandante Lawrence é apelidado de o "arquitecto de Gilead", Serena foi uma das suas ideólogas, se não mesmo a "mãe de Gilead". Menosprezada após a morte do marido, Serena passa por uma experiência de quase-Serva que lhe abre os olhos, mas Serena não é apenas uma crente, é uma fundadora, e acaba por regressar a Gilead para tentar mudar o regime que fundou. Nisto entra o papel do Comandante Lawrence, igualmente desgastado, que quer refundar Gilead em New Bethlehem, um empreendimento com os valores de Gilead mas sem a violência e os horrores do original. São ambos ingénuos? Talvez. Mas fundadores são fundadores e ambos acreditavam na validade e nos méritos da sociedade que ajudaram a criar.
Serena Joy tem alguma sorte. Não é sua intenção voltar a casar-se até encontrar o Comandante Wharton, que lhe faz a corte como um autêntico cavalheiro e lhe confessa que há muito tempo se apaixonou por ela. Mas, logo na noite de núpcias, Wharton tem uma Serva à espera deles. Serena argumenta que é fértil, não precisam de uma Serva. Esta passagem demonstra até que ponto os valores de Gilead se deterioraram. As Servas só deviam ser destacadas para casais inférteis, mas por esta altura ter uma Serva já era tão normal como ter escravos nos tempos da escravatura. E aqui acontece um dos melhores desenvolvimentos da sexta temporada. Serena passa-se completamente da cabeça, demonstrando como de facto evoluiu. A princípio pensamos que o Comandante Wharton não lhe vai permitir deixá-lo, mas também nos enganamos. Wharton não é outro Fred e até pondera abdicar da Serva se é essa a vontade de Serena. Wharton é um verdadeiro crente que põe a família e os deveres de procriação acima de todas as coisas, não é um porcalhão como os outros Comandantes. Afinal, Serena não foi tão enganada como parecia. Mas, crente genuíno ou não, Wharton não tem grandeza intelectual para pensar fora da caixa da ideologia.
O mesmo já não se pode dizer do Comandante Lawrence e do Comandante Blaine, prova de que ainda existem homens decentes (quanto possível) em Gilead. Quem desistiu da série não vai ter a satisfação de assistir a como Lawrence e Blaine fazem a folha ao Comandante Putnam, talvez o homem mais asqueroso de "The Handmaid's Tale" (o que é um feito tendo em conta a concorrência).
Desde que Lawrence apareceu, sempre nos questionámos sobre as suas verdadeiras motivações e inclinações. A sexta temporada esclarece-nos. Lawrence é um economista que delineou um modelo racional para enfrentar a crise de natalidade e que se arrepende amargamente por se ter aliado a "um bando de fanáticos religiosos" que lhe deturparam os princípios e estabeleceram a sociedade aberrante de Gilead. Foi bom sabermos disto.
Também foi bom que June e Lawrence não estivessem do mesmo lado da barricada, porque os dois juntos podiam ter destruído o mundo antes de pensarem nas consequências. Teria mesmo sido um casal feito no inferno.
Por falar em casal, ainda tenho esperança de que Serena Joy e Mark Tuello se entendam se ela abrir os olhinhos (e acho que acabou por abrir). Chamem-me romântica mas acho que havia ali qualquer coisa.
Tia Lydia e Mrs. Putnam
Não gostei da maneira como Naomi Putnam se safou com tanta facilidade. Redimida porque devolveu a bebé a Janine? Não estou a ver como. O que me parece é que Naomi desistiu da criança porque ficou viúva e já não tinha paciência para a aturar, aliás, como nunca teve. Naomi não era exactamente uma vilã mas também não era boa. Era uma mulher que se aproveitou da situação para assegurar a posição social e o privilégio, sem nunca se insurgir contra o estado de coisas, sem demonstrar um pingo de empatia pelos desfavorecidos. Penso que isto merecia algum castigo.
Mas, por falar em castigo, o que realmente me deu voltas ao estômago foi como se tentou redimir a Tia Lydia. Vou já dizer que acredito que todas as pessoas não-sociopatas se podem redimir, mas, se Mrs. Putnam se safou facilmente, à Tia Lydia saiu a sorte grande.
Tenho de confessar o nojo, o desprezo, o ódio que eu tenho à Tia Lydia e às outras Tias, mulheres cujo papel na sociedade de Gilead é o de controlar, fazer lavagem cerebral, torturar, submeter, escravizar outras mulheres pela força do dogma, convencê-las de que são abençoadas por serem violadas para servir Deus e o Estado.
Não sei sobre as outras Tias, mas a Tia Lydia, em particular, é burra. Não abriu os olhos nem depois de lhe darem uma tareia por "deixar fugir" algumas Servas. Burra, burra, burra. A Tia Lydia é tão burra que vê um homem bater a um burro e culpa o burro. Mulheres como Serena Joy são fanáticas, mulheres como Naomi Putnam são oportunistas, mas Lydia é burra. Já tínhamos visto antes como Lydia era uma mulher sexualmente frustrada que descarregava e se vingava nas outras, mas na sexta temporada, depois de tudo o que ela já tinha visto e sofrido na pele, só apetece dar-lhe uma tareia ainda maior. Não é que isso lhe curasse a burrice, que é incurável, mas pelo menos levava. A Tia Lydia é o género de mulher que é responsável por perpetuar o abuso dos homens sobre outras mulheres, e isso eu não perdoo. E a burrice ainda perdoo menos.
E para que não se pense que estou a perdoar Serena Joy muito facilmente, não estou. Serena Joy levou muitas tareias psicológicas e intelectuais, aquelas que lhe doem mais. A Tia Lydia safou-se com pouco.
By His hand, under His eye, praised be "The Handmaid's Tale", uma das melhores séries de sempre.
May the Lord open os olhinhos.
Curiosidade: Yvonne Strahovski (Serena Joy) foi a Hannah McKay de "Dexter", a serial killer com quem ele casou, e eu não a reconheci aqui, apesar das cenas escaldantes em "Dexter" e de uma das melhores cenas de sexo/sedução que já vi na vida. Isto é um elogio.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: devia ser obrigatório
PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984 (livro), Fahrenheit 451, Children of Men
The Handmaid’s Tale (2017-?)
The Handmaid’s Tale [terceira temporada]
The Handmaid’s Tale [quarta e quinta temporadas]
The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood






















