domingo, 6 de setembro de 2026

M3gan (2022)


Meninos e meninas, eis um clássico instantâneo. "M3gan" é mais um filme na linha de Chucky, Annabelle e outros bonecos assassinos e sinistros, mas com mais credibilidade, digo eu.
M3gan é um protótipo de robô com Inteligência Artificial, concebido como brinquedo e destinado a fazer companhia a crianças e a facilitar a vida aos pais. Antes de ser devidamente testado, a sua criadora emparelha-o com a sua sobrinha órfã, Cady. Isto faz com que M3gan se torne ultra-protectora de Cady, como está programada para ser. Esta funcionalidade "protectora" começa logo por ser susceptível de causar problemas, mas ainda maior perigo espreita quando M3gan toma consciência de si própria.
Sem querer entrar em spoilers, "M3gan" causa alguns calafrios por ir pescar imagéticas de outros filmes, não só aos referidos bonecos assassinos mas a universos tão inesperados como "The Shining" ou "O Exorcista". Só que aqui o Mal não vem de um demónio ou de qualquer entidade sobrenatural mas de algo muito real e presente, a IA. Convinha não criar IAs com a força bruta de um "Terminator" e convinha não incentivar as crianças a interagirem com uma IA como se fosse outra criança, digo eu.
Tirando estas reflexões mais sérias, "M3gan" faz tudo o que promete e deixa a porta aberta para a sequela. É certo e sabido que a teremos de volta.
"M3gan" peca pelas personagens bidimensionais, mas este não é o género de filme de onde esperar dramatismo.

14 em 20

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

GENTE QUE ODEIO: 4 - os mentirosos

Quem me conhece bem sabe, ou devia saber, que não há nada que eu odeie mais nesta vida do que a mentira e os mentirosos.
Pergunto-me mesmo porque é que "não mentirás" não está nos Dez Mandamentos, em vez de, por exemplo, "não cobiçarás o asno do teu vizinho". "Não mentirás" é o meu grande mandamento.
Acredito que Deus, na sua infinita sabedoria, não quisesse condenar ao apedrejamento quem proferisse uma mentira social. As mentiras sociais são necessárias para nos facilitar a vida. "Agora não posso, estou numa fase complicada" em vez de "escusas de me convidar para as tuas festas chatas". Ou a mentira piedosa: "és um bom amigo mas não estou à procura de uma relação neste momento" em vez de "não andava contigo nem que fosses o último homem do mundo". 
Não estou a falar das mentiras piedosas e muito menos das mentiras sociais. Algumas mentiras sociais até acabam por ser piedosas, porque não queremos sobrecarregar a outra pessoa com problemas desnecessários: "hoje não dá, tenho montes de trabalho" em vez de "chegou-me uma conta que não consigo pagar", "tenho uma pessoa da família a morrer no hospital", "vou ter de acabar a minha relação", e coisas chatas deste género.
Também não estou a falar daquelas mentironas de dramalhão: "Filho, o teu pai não era teu pai. O teu pai sou eu."
Estou a falar de mentirosos compulsivos. E nem sequer falo dos sociopatas como certos políticos que debitam uma mentira atrás da outra para não perderem votos, ou dos grandes impostores responsáveis pelos grandes embustes facínoras ao longo da História. Também odeio esses, obviamente, mas não me estou a referir a eles.
Falo daquelas pessoas que adoptaram a mentira como mecanismo de sobrevivência logo na infância, tanto como estratégia de defesa como de ataque, e que mentem mesmo quando dizer a verdade não os prejudicaria em coisa rigorosamente nenhuma, mas a mentira facilita-lhes a vida. Pessoas que mentem entre amigos com quem têm intimidade suficiente para dizerem a verdade. Pessoas que mentem em coisas parvas do tipo: "Não posso ir ver os Iron Maiden porque me dói a cabeça", mas depois um amigo comum encontra-os no mesmo dia, à mesma hora, a ver os Scorpions.
Porque é que isto acontece? Custava muito dizer "desculpa lá, sei que gostas muito dos Iron Maiden, grande banda, sim senhor, mas nesse dia tocam também os Scorpions, e eu sei que vais querer ir aos Iron Maiden mas eu gosto mais dos Scorpions e não vou poder ir contigo"?
Sim, custa. A uma pessoa assertiva não custava dizer isto, mas para um mentiroso compulsivo dizer a verdade é como engolir lava.
Primeiro, por cobardia. Por medo de desagradar ao fã dos Iron Maiden que, se calhar, julgava que eram ambos igualmente os maiores fãs dos Iron Maiden, mas não eram, porque a mentira vem de trás. 
Porque o mentiroso compulsivo, ao conhecer o fã dos Iron Maiden, para lhe agradar, lhe disse que também era o maior fã dos Iron Maiden, e assim conseguiu um amigo automático, uma "alma gémea", com base numa mentira. Isto parece muito imaturo, não parece?, e inconsequente, mas depois a mentira começa a avolumar-se.
Agora o fã dos Iron Maiden sabe que lhe mentiram, e começa a tentar perceber porquê. Começa a esgravatar. E descobre que o amigo não foi aos Scorpions sozinho, que foi com uma ex-namorada do fã dos Iron Maiden. E que essa ex-namorada já tinha andado com o amigo antes de andar com ele, mas o amigo sempre disse que não gostava dela e até lhe deu razão em deixá-la, e até esteve lá para o apoiar nessa altura difícil... "Sim, deixa-a, ela não vale nada".
E uma pessoa começa a pensar para trás e uma mentira parva começa a tornar-se num monstro de mentiras com muitos olhos e vários tentáculos, e quanto mais se esgravata pior cheira.
Para além da cobardia, o mentiroso compulsivo também mente para controlar a narrativa e, no pior dos casos, os comportamentos dos que o rodeiam, o que já entra na esfera da sociopatia. Porque é que há-de ser honesto e frontal quando ganha mais em manipular, encobrir, ficar de bem com Deus e o Diabo, fazer-se passar sempre pelo amigo perfeito, até se descobrir a verdade debaixo do castelo de cartas de mentiras?
Este tipo de mentiroso destrói vidas, mina a confiança no outro ser humano, leva pessoas racionais a duvidarem de si próprias, a questionarem o seu discernimento e os seus instintos, obriga-nos, todos os dias, a desconfiar de toda a gente. É assim que uma mentira social, aparentemente inócua, pode significar um grande mentiroso.
"Então porque é que não me disseste que ias aos Scorpions? O Fulano viu-te lá", é o pesadelo do mentiroso compulsivo. Confrontem-no e observem como aquela mente começa imediatamente a fabricar mais mentiras para justificar as anteriores. Quando temos factos irrefutáveis e o mentiroso se sente desmascarado, a conversa e a amizade terminam com uma mentira venenosa: "Não te disse nada porque tive pena de ti. Porque Fulana me disse que te deixou porque [ataque pessoal onde dói mais]."
Hoje em dia não confronto mentirosos. É directamente para o caixote do lixo. Se é possível que já tenha descartado pessoas por causa de uma mentira social sem importância nenhuma porque os apanhei a mentir? Talvez. Se calhar já pagou o justo pelo pecador. Antes isso do que arriscar ter uma pessoa tóxica na minha vida.
Pessoa que me diga "há muitas verdades" é pessoa riscada. Não, não há muitas verdades. Há os factos, há as interpretações e há as diferentes perspectivas. Mas a verdade é só uma. Pessoa que diz "há muitas verdades" é pessoa que gosta de fabricar a "verdade" que mais lhe convém e validá-la com um selo de "subjectividade".
Se és um mentiroso/a compulsivo/a, e se não és um/a sociopata sem consideração nem respeito nem empatia pelos outros, questiona bem as tuas motivações. Estás mesmo a mentir para não magoar os outros, ou para te facilitar a vida? No mínimo dos mínimos, assume e não mintas a ti próprio/a.

Usei os nomes destas bandas porque foram as primeiras que me vieram à cabeça. Longe de mim outra intenção. Muito respeito pelos Iron Maiden e pelos Scorpions, e pelos fãs.


domingo, 30 de agosto de 2026

Bardot (2023)

Biografia dramatizada incompleta que retrata a vida de Brigitte Bardot como estrela do cinema francês, desde adolescente até 1960.
Nunca fui de me interessar pela intimidade e romances dos famosos do meu tempo, muito menos de estrelas passadas. Só prestei atenção a Brigitte Bardot quando ela se dedicou à causa animal. Sim, as focas. Eu não sabia sobre as focas. Brigitte Bardot expôs a crueldade e comoveu o mundo. Não sei se ainda matam assim as focas, mas duvido que o façam tão impunemente. Com esta campanha, Bardot foi também uma das celebridades que impulsionaram o movimento anti-peles que teria uma expressão muito visível na esfera da moda e das passerelles. Muita gente gozou e resistiu, mas hoje já não é cool aparecer com um casaco de peles (verdadeiras). Brigitte esteve na linha da frente desta luta quando ainda era considerado mais uma excentricidade de uma mulher excêntrica. Só por isso, independentemente de tudo o resto, tem o meu respeito. Na minha sensibilidade, isto foi a coisa mais importante que Brigitte Bardot fez na vida.
Mas esta mini-série não chega a esse período. Pergunto-me se terá sido porque Brigitte Bardot ainda era viva e porque a biografia completa teria de incluir o seu apoio de décadas à extrema-direita de Le Pen. Que desilusão deve ter sido para os fãs desta sex symbol que desafiou a moralidade rígida dos anos 50, sendo precursora da revolução sexual e do feminismo, talvez até um pouco hippie antes dos hippies, vê-la na idade madura a votar em fascistas. 
Este exemplo novamente me recorda do que foi um dos maiores choques da minha vida. Até certa altura, acreditei intuitivamente que sensibilidade e inteligência eram indissociáveis. Que uma pessoa sensível tinha forçosamente de ser inteligente, porque a sensibilidade e a empatia até lhe permitiriam compreender melhor os factos e as pessoas. E que uma pessoa inteligente, que compreendia os factos e as pessoas, tinha por isso, forçosamente, de ser sensível. Qual não foi o meu espanto quando percebi que algumas pessoas muito sensíveis, empáticas ao outro e ao seu sofrimento, só têm coração e não usam os neurónios, e que algumas pessoas inteligentes são tão frias como a Inteligência Artificial. Comecei a observar isto com atenção e actualmente até estou convencida de que o fenómeno é o contrário do que eu acreditava: a inteligência e a sensibilidade tendem a ser inversamente proporcionais. Se conhecem alguém que seja inteligente e sensível, dêem-lhe valor porque é uma raridade.
Isto dito, a contradição de Brigitte Bardot não me surpreendeu. Ainda por mais porque a extrema-direita populista do século XXI é um bicho. Entra, infecta, e traz ao de cima o pior das pessoas. Todos conhecemos casos, figuras públicas e não só.
Tive de mencionar o activismo animal e o apoio à extrema-direita porque falar de Brigitte Bardot sem estas duas facetas não é completo. Compreendo que a série se tenha querido cingir aos anos de estrelato, mas por outro lado não deixou de incluir cenas em que os animais se vão tornando cada vez mais importantes na vida de Brigitte. Gostei muito disto, mas também queria ter visto pistas que ajudassem a perceber como é que a rapariga rebelde acaba a apoiar fascistas, e isso não vi.
Na verdade, a série não trata Brigitte muito bem. A acreditar no que nos é mostrado, Brigitte é egoísta, infiel, uma drama queen que não se importa de destruir a vida dos homens que a amam, exigindo-lhes dedicação absoluta e fingindo amá-los para sempre... até o próximo aparecer. Julia de Nunez tem um papelão em "Bardot", a ponto de me fazer esquecer que estava a ver outra pessoa. Para além das parecenças, a actriz consegue capturar a sensualidade vulcânica da estrela francesa.
Mas Brigitte Bardot não era feliz. Segundo a série, tinha pavor de ficar sozinha. Dá mesmo a entender, digo eu, que trocava de homem antes que fosse trocada, mas isto pode ser a minha interpretação pessoal. O que se torna muito óbvio é que Brigitte vai percebendo que não está sozinha, e que a companhia não está na cama. A cena do suicídio, seguida e acompanhada pelos seus cães, trouxe-me lágrimas aos olhos. Pode não ter sido aqui nem ter sido isto, mas há um momento na vida dos amantes de animais em que o animal de estimação se torna um companheiro e um amigo, um membro da família. Para muitas pessoas, uma companhia melhor do que qualquer humano.
Lembro-me de a minha mãe comentar, algo trocista, "agora a Brigitte Bardot diz que gosta mais de animais do que de homens". Nessa altura eu não sabia que tinha havido assim tantos homens na vida de Brigitte Bardot, nem me interessava, mas quanto ao resto só tenho a perguntar "e qual é o espanto?". Basta substituir "homens" por "pessoas", e já naquela altura, ainda inconscientemente, sem sequer pensar no assunto, eu já sabia que gostava mais de animais do que de pessoas.
Alguém disse a Brigitte Bardot, como insulto, "vais acabar sozinha com os teus cães". Ainda há gente a dizer isto, tentando insultar. Vais acabar sozinho/a com os cães, com os gatos, com os periquitos. Mas muita coisa mudou desde o tempo de Brigitte Bardot, e, também graças a ela e à sua influência na causa animal, são cada vez mais os que respondem: Isso era um insulto? Acabar sozinho/a com os gatos é o sonho, é mesmo o SONHO!
Não sei até que ponto é que "Bardot" é realista e espelha a pessoa verdadeira, mas, apesar de todos os defeitos da senhora, espero que Brigitte tenha, pelo menos, acabado a viver o sonho. 

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: séries de época, biografia, cinema, animais

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

GENTE QUE ODEIO: 3 - o gajo dos spoilers

Este é o engraçadinho que tem um prazer sádico e mesquinho em spoilar-te aquilo que gostas. "Sabes quem morreu ontem no Walking Dead?" E vai e diz, porque ainda não viste. E faz aquele risinho de gozo de quem sabe que já te estragou a semana toda.
Devia haver uma lei. Direito a auto-defesa e a dar-lhe uma marretada na cabeça.
Este gajo, porque são geralmente mais os gajos, mas também há algumas gajas, só se encontra em lugares fechados de onde não podes fugir: a escola, o trabalho, o autocarro. Ri-se porque sabe que em qualquer outro lugar levava nos cornos. Este é o gajo que, quando era miúdo, dava um peido na sala de aula para meter nojo a toda a gente. E continua a ser um mete-nojo, com a mesma idade mental dessa altura.
Se és o gajo dos spoilers... esquece. Se chegaste aos 30 anos com mentalidade de 7 já sabes o que te estou a chamar e não há nada que te valha. Ninguém gosta de ti, és um triste, vais ser um triste a vida toda.

domingo, 23 de agosto de 2026

Orphan: First Kill / Órfã: A Origem (2022)


Esther foge de um hospital psiquiátrico na Estónia e faz-se passar pela filha desaparecida de um casal americano.
Não vou poder falar muito do enredo por causa dos spoilers. Este filme não é tão bom como o primeiro, nem de perto nem de longe, exactamente porque já sabemos quem é Esther e o efeito de choque perdeu-se. Aconselho todos os verdadeiros amantes de terror a não verem este filme antes de "Orphan". (Quem não viu não sabe o que perde.)
Mesmo assim, esta prequela guarda algumas surpresas, desta vez pelo lado da família adoptiva. Tricia e Allen são os pais da menina desaparecida por quem Esther se faz passar. Em princípio, este casal quase não precisaria de ser convencido a acreditar que a filha tinha sido encontrada, mas notei desde logo uma frieza e suspeita por parte da mãe, especialmente se comparadas com a alegria e alívio do pai, que quase me fizeram pensar que a actriz não estava a interpretar muito bem o papel... Fui enganada, completamente enganada, e ainda bem. Esther, de nome verdadeiro Leena, depara-se com uma sociopata quase tão eficiente como ela própria, mas qual delas vai ganhar este jogo?
Mais uma vez, forçosamente, ter visto o primeiro filme também responde a esta pergunta. A questão aqui é descobrir como é que Esther/Leena transitou para a família seguinte. Se o filme podia ter introduzido ainda mais reviravoltas e choques? Talvez, mas se calhar tornava-se demasiado rebuscado, e um dos problemas desta prequela é que os acontecimentos na família de acolhimento de Esther já são suficientemente rebuscados.
Por outro lado, "Orphan: First Kill" fez-me compreender melhor as motivações de Esther quanto ao pai da família seguinte (no primeiro filme). Uma vez que a actriz Isabelle Fuhrman (Esther) tinha apenas dez anos, não se podia, por razões óbvias, explorar certas dimensões dos seus transtornos, e mesmo assim fez-nos compreender mais do que o suficiente. Eu gostaria de ver uma prequela ainda anterior, que nos desse mais a conhecer sobre a vida de Leena na Estónia e as circunstâncias que a levaram a ser internada. 

14 em 20 (mais um ponto pela interpretação de Isabelle Fuhrman)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

GENTE QUE ODEIO: 2 - gente que paga para ter amigos

Todos os conhecemos. Pessoas que têm dúzias, centenas de amigos. Mas depois vamos analisar e descobrimos que quem banca as jantaradas, as passeatas, até as facturas dos amigos, é o gajo triste que paga para ter "amigos". 
Esta criatura é geralmente tão patética que quase me dá pena, e nem estaria na categoria "gente que odeio" se não ajudasse a propagar uma outra praga: os cravas.
Disse "geralmente" porque alguns sabem muito bem que só têm "amigos" porque lhes pagam, e continuam a fazê-lo para se armarem em superiores: "tens é inveja porque não tens amigos como eu tenho", "os meus amigos aparecem quando preciso deles, nem que seja às 3 da manhã".
Pois aparecem, porque não são amigos, são empregados. Para eles não és um amigo, és um rendimento. Pode até não ser dinheiro, pode ser um benefício que obtêm através de ti, e tu sabes. Estão sempre disponíveis para ti porque não querem perder o part time, quando não mesmo full time, e tu sabes. Escusas de te armar, a gente sabe que amigos são esses que dizem mal de ti nas tuas costas.
De vez em quando, o gajo que paga para ter amigos queixa-se de ingratidão: "fui tão bom para ele e agora faz-me isto!" Faz-te isto porque 
1) deixaste de lhe pagar o suficiente para te aturar
2) arranjou quem lhe pagasse mais e mandou-te à merda
3) apanhaste-o a falar mal de ti nas tuas costas, como se tu não soubesses que estavas a alimentar uma sanguessuga
Cuidado quando te queixas! Quando te queixas de ingratidão, podes estar a recrutar outro crava mais necessitado do que o anterior que acabou de encontrar uma vaga de emprego em ti.
Se és uma pessoa que paga para ter amigos, deixo-te aqui um conselho de amiga, completamente grátis e sem contrapartidas: trabalha na tua auto-estima e no teu complexo de inferioridade que te leva a querer parecer superior, e presta mais atenção às pessoas que talvez não estejam sempre ao teu serviço mas que são aquelas que vão ter a integridade de te ajudar quando estiveres realmente na merda e as sanguessugas te abandonarem.

domingo, 16 de agosto de 2026

Silo (2023 - ?) [primeira temporada]

10 mil pessoas vivem no Silo, uma cidade subterrânea com 144 níveis. O ar lá fora está envenenado. O Silo é o único refúgio para sobreviver. Tirando isso, ninguém sabe quem construiu o Silo, nem quando. Os habitantes do Silo só sabem que há 140 anos houve uma rebelião de insurrectos que queriam abrir a porta ao exterior. Antes disso não há memória e a História está proibida. Até certos objectos quotidianos, como relógios e lupas, a que chamam Relíquias, podem ser interditos. As consequências são sérias para quem possui Relíquias ilegais. 
Isto já é muita informação, mas "Silo" transmite-a sem pesar num primeiro episódio em que acompanhamos o drama do xerife Becker e da sua mulher Allison, que são autorizados a ser pais (a natalidade está condicionada). A tentativa falha e Allison, que trabalha no departamento de informática, começa a questionar as regras e a proibição de fazer perguntas. Um encontro com George Wilkins, técnico de hardware e traficante de Relíquias, leva-a a fazer uma descoberta avassaladora num disco rígido antigo. Impedida de a partilhar com o marido, Allison toma a decisão mais extrema: pede para sair do Silo.
Sair do Silo é suicídio, mas a regra número um do Silo é mesmo essa: um pedido para sair é irrevogável. Quem sai não sobrevive três minutos lá fora. Os habitantes do Silo podem assistir à saída (e à morte) através de uma câmara no exterior. Para suavizar este procedimento, o Silo chama a isto Limpeza: quem sai leva um pano de lã para limpar a câmara, beneficiando assim os que ficaram.
Becker está chocado com a decisão da esposa, mas o que ela lhe diz antes de sair deixa-o intrigado e também ele começa a procurar respostas. Meses depois, é o próprio Becker quem pede para sair.
A saída/suicídio de Becker é atribuída ao desgosto de perder a mulher, mas antes disso ele tinha passado o "testemunho" a uma engenheira do departamento de mecânica, Juliette Nichols, que se vai tornar a protagonista. Juliette era namorada de George Wilkins, o dos computadores, e acredita que ele foi assassinado, embora a versão oficial seja que se suicidou. É assim que Becker e Juliette se conhecem, na sequência da investigação. Mas investigar a morte de George Wilkins esbarra com os segredos do Silo. Será mesmo verdade que o ar lá fora está envenenado? Os écrans que exibem o exterior mostram de facto a realidade, ou imagens falsas? E se não há perigo em sair do Silo, quem é que teria interesse em manter esta situação?
Obviamente, isto é uma sociedade distópica e totalitária, com perseguições, repressão, manipulação da História e da narrativa, e até uma polícia do regime. O que mais me surpreendeu, no entanto, é que não é um regime tão brutal como o contexto nos levaria a crer. As pessoas aceitam e obedecem porque acreditam que é a única maneira de sobreviver, as tais Limpezas são voluntárias (não são execuções), e as autoridades são bem-intencionadas. Mais ainda, até a polícia do regime, aparentemente, faz o que faz para proteger o Silo. Só é reprimido, no interesse do bem comum, quem põe em causa as regras. Mas há segredos e contradições gritantes. Os tais rebeldes são acusados de destruir todos os livros e discos rígidos que guardavam a História antes da rebelião, e no entanto quem procurar essa História e esses artefactos é preso ou mandado "voluntariamente" "limpar". É de caras, estes rebeldes míticos são um vilão muito conveniente para manter as pessoas na ignorância. Mas os habitantes do Silo que se apercebem da falta de lógica desta narrativa também preferem manter as suspeitas para si e seguir com a sua vida normal. Porque, afinal, não há vida fora do Silo. Ou haverá?
O mistério não fica esclarecido na primeira temporada. O último episódio é muito chocante e faz-nos dar voltas à cabeça a tentar perceber o que se passa realmente. Somos impelidos a continuar a ver. No entanto, nós que levámos a vacina "Lost" ficamos logo de pé atrás sempre que um mistério dá lugar a um mistério ainda maior. Mas "Silo" é baseado na série de livros do autor Hugh Howey, e isso costuma ser indicador de um enredo com pés e cabeça. Por um lado, não são argumentistas a inventar um episódio por semana; por outro, se os livros foram adaptados é porque alguma coisa têm de bom. (O que não invalida os casos em que os argumentistas adaptam mal, mas há que ter esperança.)

Muita coisa para pensar
Não posso falar mais do enredo, porque a partir daqui quase tudo é um spoiler, mas quero alertar sobre algumas fraquezas da série que podem levar os mais impacientes a desistir. Não desistam. Vale a pena. Contudo, "Silo" talvez tenha ficado melhor no papel. No terceiro episódio, especialmente, em que Juliette e a sua equipa estão a reparar o gerador descomunal que alimenta o Silo, a ciência vai pela janela fora. Eu não acredito mesmo nada que aquela coisa, grande que seja, consiga alimentar uma cidade de 144 x 5 metros = 720 metros de profundidade no mínimo (é uma estimativa minha), ou mais, porque alguns níveis são mais altos do que os outros e debaixo deles há todo um outro subterrâneo não habitado. Aquele gerador deve ser alimentado a magia, porque, para além das necessidades fundamentais, toda a gente tem janelas com falsa luz solar e vitrines decorativas iluminadas. As janelas até percebo, por questões de saúde e sanidade, mas há energia suficiente para iluminar vitrines e tudo? Há outras coisas tão erradas neste episódio que basta ter mais de 12 anos para as detectar. 
Por falar em funcionar, como é que eles conseguem ter energia e espaço suficientes para vários níveis dedicados ao cultivo de cereais e criação de animais, só com aquele gerador, e dar de comer a toda a gente? Não há escassez no Silo, uma cidade enterrada um quilómetro debaixo do solo. Se calhar eu nem me punha a fazer estas contas de cabeça se não tivesse visto o gerador. Às vezes mais vale não mostrar e deixar que as pessoas imaginem.
Ao mesmo tempo, à medida que a série coloca o mistério principal em segundo plano e envereda pela investigação do homicídio/suicídio de Wilkins, pode parecer um simples policial num cenário pós-apocalíptico. Foi o que me pareceu, durante uns episódios, e algumas pessoas até deixaram de ver por causa disso. Não deixem de ver. O fim recompensa!
A mim chateou-me um bocadinho uma tendência de que já falei aqui, a "Mary Sue", a mulher super-heroína que é boa a tudo, mesmo a tudo. Juliette Nichols é uma boa engenheira mecânica, tudo bem, mas depois é feita xerife sem perceber nada do assunto e age com a confiança de quem trabalha há uns 10 anos nas forças da ordem. Isto não é culpa da actriz, coitada, que faz o que lhe mandam, e muito menos da personagem, mas totalmente dos escritores que a conceberam assim. Juliette, tal como a Claire de "Outlander", é muito boa a tudo ou quase tudo. Tenho a certeza de que até seria uma boa astronauta, treinadora de golfinhos, vendedora de castanhas. Por favor, parem de escrever personagens destas. São falsas e irritantes.
Por outro lado, "Silo" é uma série subtil em que os pormenores contam. Custa acreditar que as pessoas pura e simplesmente tenham perdido a memória da História em apenas 140 anos, mas torna-se menos absurdo quando sabemos que o Silo tem uma droga que efectivamente faz as pessoas esquecer. O que novamente nos leva a questionar quem poderá estar por trás disto, e, se há uma droga envolvida, não poderá ser tudo uma simulação ou alucinação? O controlo de natalidade, igualmente, é um método de eugenia para extinguir o gene da curiosidade. Será que o Silo existe mesmo no mundo real, ou será uma experiência? As lupas são proibidas porque permitem ler as letras pequeninas nos discos rígidos antigos, mas porque é que proibiram os elevadores? Será apenas para manter as pessoas mais separadas por níveis (e classes), ou haverá razões mais sinistras? 
Gostei principalmente das cenas em que os habitantes do Silo observam os outros a sair. Todos sabem o que vai acontecer, mas noto-lhes uma esperança de que seja diferente dessa vez, de que o ar já esteja puro, de que o "limpador" sobreviva, de que seja o sinal para abandonar o Silo. Estas pessoas aceitam e obedecem, mas querem mudança.
"Silo" é daquelas histórias que permitem muitas analogias com a actualidade, desde os confinamentos, ao populismo e à IA, e até com a espiritualidade (será que existe vida após a morte, ou só queremos acreditar nisso para não ficarmos tão deprimidos?). Não é uma série perfeita, mas há aqui muita coisa para pensar.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: distopia, ficção científica, pós-apocalíptico


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

GENTE QUE ODEIO: 1 - o crava

O crava é universalmente odiado. Até um crava odeia outro crava, afinal, porque outro crava significa concorrência.
Toda a gente sabe o que é um crava. É aquela pessoa que crava cigarros porque deixou de fumar (dos dele); que pede dinheiro emprestado e "esquece-se" de pagar; que num jantar de grupo, assim que sabe que a conta vai ser dividida, pede logo o prato mais caro; é o colega de curso que está sempre a pedir os teus apontamentos mas nunca tem nada para partilhar contigo.
A única maneira de escapar ao cravanço é ser assertivo e dizer "não". O crava não é um amigo, é uma sanguessuga. 
Os especialistas do ofício do cravanço têm todo um leque de competências para manipular a vítima aproveitando-se da sua generosidade, da sua boa educação, da sua compaixão. Consoante o montante a cravar, um crava de categoria apresenta um choradinho de derreter corações: morreu o pai, morreu a mãe, o bebé recém-nascido está no hospital com cancro, o gato precisa de um transplante de rim. O crava é um artista em adaptar o choradinho à vítima. Contra esta táctica, se a pessoa não quiser ser muito bruta, é repetir "não tenho, não tenho" até o crava acreditar ou desistir. Outra solução é "com essas desgraças todas, já se foi informar se tem direito a um apoio?" Deflectir, dizer não, e nunca ceder. Ceder é dar incentivo ao crava para se alapar que nem carraça. Para quem tem dificuldade em dizer não, lembrem-se que é menos doloroso não deixar a carraça pegar-se do que arrancá-la depois.
É claro que o crava vai reagir mal, pode até ser mal-educado ou fazer-te sentir culpado pela tua falta de compaixão ou generosidade. É assim que reconheces o crava. 
Não estou com isto a dizer que nunca se deve ajudar. A diferença entre o crava e a pessoa em dificuldades é a lata e a rapidez com que o crava pede. Um crava não tem vergonha na cara. Começa a cravar 5 minutos depois de te conhecer, às vezes até já para te tirar a pinta de tanso. Começas por dar um cigarro, no outro dia já te está a pedir dinheiro. Fazes um favor, pedes outro favor em troca e a pessoa nunca mais te responde. Dizer "não" faz estas pessoas desaparecer como se se tivessem desfeito em fumo, mas quem é que as quer por perto? Um amigo pode pedir-te um favor de ano a ano e começa sempre envergonhado com um "desculpa lá, não pedia se não estivesse mesmo à rasca, e só se não te incomodar". Ou um conhecido pode dizer "desculpe lá, mal o conheço, mas você percebe mais disto do que eu e talvez me possa dar indicações do que fazer ou a quem pedir ajuda". O crava não tem pudor. Pede como quem tem direito a receber. É uma relação predatória, que nunca é consensual nem recíproca.
Quanto mais banana é a vítima, mais descarado o crava. É o caso do célebre
"Emprestas-me 20 euros?"
"Só tenho 10"
"Não faz mal, ficas-me a dever e pagas-me depois"
Este diálogo é anedota mas aconteceu-me uma coisa semelhante. Um crava de grande categoria até pode contestar assim quando a vítima diz que não tem dinheiro: "Tens, tens. Ganhas tanto, tens tanto de despesas, sobra-te tanto". Já te fez a contabilidade toda sobre como gastar o teu dinheiro. É muita lata mesmo.
Um tipo comum de crava é o chamado pendura. Tradicionalmente era o vizinho que batia sempre à porta quando se estava a pôr a mesa, ou a visita que ia tomar chá e ia ficando, ficando, a fazer-se ao piso para o jantar. Este tipo de crava finge que não percebe as dicas para se ir embora. Continua ali sentado com um sorriso idiota, ou "lembra-se" de começar a falar de outro assunto. Desalojar esta criatura do sofá pode requerer uma intervenção física: inventar uma emergência e abrir a porta da rua, pedindo desculpa, mas é preciso ir atender o telefone imediatamente, ou, no caso dos cravas de certa idade, pegar-lhes no braço e "ajudá-los" a percorrer o caminho até saírem porta fora. Lembrem-se sempre: não são vocês que estão a ser mal-educados. Mal-educado é o crava que está a tentar aproveitar-se da vossa bananice. Não são vocês que estão a ser brutos, é o crava que não tem o mínimo respeito por vocês. Quando somos forçados a recorrer a uma posição mais assertiva, o crava ainda é capaz de dizer "eu ia-me já embora". Não, não ia, está é fulo da vida por o esquema não ter resultado. Lembrem-se, isto é gente que não interessa a ninguém, não importa se ficou amuadinho. Quanto mais amuado melhor, para não tentar outra vez.
Outro dos tipos mais detestáveis de crava é o pendura/encostado da equipa. Todos o conhecemos. Começa a praticar na escola, em tenra idade, nos trabalhos de grupo. Nas empresas e instituições, encosta-se/pendura-se no trabalho dos outros e não faz a ponta. Quando alguém o obriga a trabalhar, faz tudo tão mal e porcamente que os outros membros da equipa começam a excluí-lo de propósito para não prejudicar mais o trabalho, ou dão-lhe qualquer tarefa desnecessária porque é desnecessária, e o crava sabe que é desnecessária e também nunca a completa, embora possa fingir que está a fazer alguma coisa. Este é porventura o tipo de crava mais odiado porque não é possível livrarmo-nos dele. Na escola, porque o professor não o vai tirar do grupo; no trabalho, porque a pessoa que age assim tem algum tipo de protecção do chefe ou do patrão. É uma sanguessuga inescapável, é o nosso karma a castigar-nos pelos pecados das vidas passadas. E o crava sabe, e ainda goza o prato e pergunta "de certeza que não querem mais ajuda?" Muitas vezes este tipo de crava é tomado por incompetente ou preguiçoso, mas nada mais errado! Este é o crava profissional, um mestre avançado do ofício do cravanço, proficiente e industrioso na arte de fazer os outros trabalharem por ele. 
Se és um crava, toma vergonha na cara e deixa de o ser.
Os cravas odeiam-me tanto como eu os odeio a eles, porque sabem que daqui não levam nada.
Se os cravas são tão fáceis de identificar, perguntarão, porque é que existem tantos? Duas razões. Primeiro, há muitos cravas porque há muitos bananas. Segundo, por causa da categoria da "gente que paga para ter amigos", que fica para a próxima.


domingo, 9 de agosto de 2026

Meg 2: The Trench / Meg 2: O Regresso do Tubarão Gigante (2023)

Este filme é tão mau que corre o risco de se tornar um clássico. E como é um filme de tubarões completamente sem sangue também serve para se ver com a criançada em tardes em família ou em convívio de amigos para a galhofa. E acabaram as qualidades do filme.
Vi o primeiro "The Meg" e, apesar da premissa mirabolante, até não desgostei. Megalodontes julgados extintos afinal ainda existem, vivem nas profundezas desconhecidas do oceano, e quando são incomodados saem de lá para comer pessoas. Esta sequela, contudo, coloca a franchise ao nível de Sharknado, e até acho que é de propósito. Se a ficção científica por trás de "The Meg" já é rebuscada, aqui a ciência é completamente atirada às urtigas.
O filme é demasiado longo e pode ser dividido em três partes. Na primeira, encontramos alguns sobreviventes do primeiro filme e conhecemos personagens novas. Uma empresa de pesquisa oceânica capturou uma megalodonte fêmea quando era cria e um dos cientistas acredita que conseguiu amestrá-la. Mas, quando a fêmea entra no cio, destrói a jaula onde a tinham presa e parte em busca de machos. Esta empresa tão cheia de tecnologias de ponta nem se apercebe da fuga.
Segunda parte, os cientistas mergulham em dois submarinos numa investigação às profundezas quando são surpreendidos pela fêmea e pelos machos. A única razão porque não são logo atacados é porque os megalodontes estão demasiado ocupados a acasalar.
Mas aqui vamos esquecer os tubarões durante meia hora. Os submarinos foram sabotados por uma companhia maléfica que opera secretamente no fundo do mar, a 7,5 km de profundidade, para extrair metais raros. Esta empresa maléfica ataca os protagonistas porque... eles são donos do mar? Porque a actividade é ilegal? E como é que a empresa maléfica montou uma base submarina em território de megalodontes sem que estes dessem por isso? Esqueçam lá isso, este filme não é para pensar. Mesmo assim tentei prestar toda a atenção possível e só percebi que este subplot dos vilões malvados não faz sentido, apenas torna o filme longo e chato, e não se perdia nada se tivesse sido cortado. Ainda por cima há a cena interminável em que os personagens têm de caminhar 3 km no leito do mar, só com fatos de mergulho. Ora isto é outro filme, amiguinhos, e igualmente mau, mas apesar de tudo "Underwater" conseguiu transmitir a sensação de perigo e claustrofobia das profundezas. Em "Meg 2: The Trench" nota-se claramente que a cena nem sequer foi filmada debaixo de água (nem sequer numa piscina), muito menos a 7,5 km de profundidade. E depois acontece isto: a certa altura o protagonista tem de nadar sem o fato, mas não faz mal, porque "se ele expulsar o ar do nariz" ainda consegue sobreviver 30 ou 60 segundos. Isto aconteceu. Apenas um minuto depois de uma personagem secundária ter implodido dentro do fato. Ou seja, é esta a ciência da coisa: só os protagonistas conseguem sobreviver sem fato especial a 7,5 km de profundidade. Isto só não é grave porque é muito improvável que qualquer pessoa normal que esteja a ver este filme alguma vez se encontre em situação similar, mas é chato estar a passar estas falsidades científicas aos putos.
Terceira parte. Meia hora depois, finalmente, os personagens principais emergem das profundezas e começa aquilo que nos trouxe aqui: os tubarões. Mas por terem perturbado o habitat, aparentemente, com eles emergem também um polvo gigante e meia dúzia de dinossauros tipo crocodilo/raptor.
Pausa para falar nos dinossauros. Estes bichos são muito parecidos com outros que aparecem em "65", não sei se são da família. O absurdo é que estes dinossauros das profundezas, que nunca de lá saíram durante milhões de anos, são anfíbios, respiram oxigénio, têm patinhas e dentuças e correm que se farta em terra firme. A princípio até questionei a minha sanidade e voltei atrás para tentar perceber se estes bichos tinham mesmo vindo do fundo da fossa submarina. Vieram, e isto não é para pensar.
A última meia hora é que é efectivamente o que a gente queria ver: megalodontes a engolir banhistas na praia como uma baleia engole plâncton, dinossauros a comer os vilões, polvo gigante a fazer coisas de polvo gigante. Uma carnificina, mas sem uma gota de sangue porque isto é para miúdos. Também temos o protagonista a surfar uma onda numa mota de jetski para enfrentar um megalodonte olhos nos olhos com uma lança explosiva improvisada. É isto, é Sharknado, ninguém diga que foi ao engano.
Sobre os efeitos especiais, há partes que convencem e partes ao nível daqueles reels de IA muito chunga e baratucha de 5 euros por mês (e se calhar até são). Dá quase a entender que o orçamento não chegou para tudo. Pessoalmente, lamento a falta de qualidade do polvo e do megalodonte num momento crucial que até podia ter tido mais impacto se o resultado tivesse sido mais realista.
O final, e desculpem lá o spoiler, são os protagonistas na praia, a brindar e a rir, como se não tivessem acabado de ver centenas de pessoas morrer selvaticamente à frente deles, nomeadamente colegas e amigos. Sei que isto é "para crianças" mas não fazia mal um bocadinho mais de sensibilidade. As criancinhas também apreciam.
Entretanto, a fêmea amestrada (?) fica à solta, possivelmente grávida, o que cheira a outra sequela.
Não consegui ver o filme duas vezes, fui logo ler as críticas, e descobri que os filmes são baseados numa série de livros de Steve Alten. Das opiniões que li, os livros são melhores do que os filmes, portanto fica a nota.
Quero só destacar a cena de abertura, que parece outro reel para o Tik Tok: uma animação com dinossauros, um tiranossauro e um megalodonte. Tiranossauros e megalodontes não foram contemporâneos mas isso não interessa nada aqui, o objectivo é dar-nos uma ideia das dimensões do bicho e nisso foi muito eficaz.

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domingo, 2 de agosto de 2026

The Murder Network / O Médico Assassino Na Paris Nazi (2022)


Fiquei muito surpreendida ao ver este documentário por não ter lembrança de ouvir falar de Marcel Petiot, médico francês, serial killer e psicopata em geral que cometeu dezenas de homicídios, inclusive durante a ocupação nazi. É uma história tão macabra e inacreditável que até me espanta ainda não terem feito um filme de Hollywood a sério sobre ele (embora algumas personagens tenham sido inspiradas neste assassino).
Marcel Petiot é o típico sociopata sádico, narcisista e manipulador, mas ao mesmo tempo carismático e capaz de enganar quem não o conhece bem, a ponto de ter sido eleito presidente da câmara da cidade onde morava e onde já tinha começado a matar.
A ocupação nazi deu-lhe a oportunidade de se fazer passar por membro da Resistência que supostamente ajudaria judeus e outros refugiados a escaparem, só para os assassinar friamente no seu apartamento de Paris. Petiot não fazia isto só para se divertir, uma vez que aproveitava para roubar valores que os fugitivos levavam com eles. Aliás, Petiot também desviou dinheiro da câmara onde foi presidente, revelando uma completa ausência de consciência moral. Roubar, envenenar, e ainda fingir que matava as pessoas ao serviço da Resistência, todo esse discurso mirabolante fazia sentido na sua cabeça e quase que o absolveria em tribunal se as provas contra ele não fossem tão esmagadoras e incontestáveis (matou, inclusive, crianças).
Serial killers há muitos, mas o que mais nos choca em Petiot foi como ele foi capaz de aproveitar a situação em proveito próprio e cometer muitos mais homicídios do que seria provável em tempos normais. Os pobres desgraçados que confiavam nele para fugir aos nazis acabavam desmembrados e enfiados na fornalha do prédio. Entre os nazis e um serial killer, é caso para dizer que para estes tinha mesmo chegado a sua hora. 
Os acontecimentos tornam-se ainda mais caricatos. Uma vez que Marcel Petiot fingia pertencer à Resistência, foi preso pela Gestapo e torturado, mas não revelou nada, nem sobre a (falsa) "rede de fuga" nem sobre os crimes. Por sua vez, a polícia francesa não o apanhou mais cedo precisamente por julgar que algumas actividades suspeitas de Petiot se deviam ao seu (falso) envolvimento na Resistência. Verdadeiramente, um homem capaz de usar as circunstâncias para manipular e ludibriar toda a gente.
Vale muito a pena ver "The Murder Network" para compreender os meandros e os pormenores, mas advirto que o documentário contém cenas muito pesadas.


domingo, 26 de julho de 2026

The Sheltering Sky / Um Chá No Deserto (1990)


Um casal americano vai viajar algures no norte de África em lazer, mas a aventura torna-se pesadelo.
"The Sheltering Sky" é um filme complexo com variadíssimas camadas de leitura, por isso vou apenas analisar aquilo que subjectivamente me saltou mais à vista.
Primeiro que tudo, acho que Bernardo Bertolucci não poderia ter realizado este filme nos dias que correm sem lhe chamarem tudo de racista para baixo, mesmo sem razão, mas a nova censura, tal como a velha censura, não tem capacidade crítica para interpretar para além do óbvio. É preocupante que um artista tenha de se questionar se o que está a criar é, antes de mais, politicamente correcto. Gosto muito da expressão "toda a gente tem o dever de chocar e o direito de ser chocado", que emana de filosofias e movimentos artísticos provocadores, e não podia concordar mais no que toca ao papel da arte.
Segundo, da maneira que escrevi a sinopse até parece um filme de terror, e fi-lo de propósito. "The Sheltering Sky" é antes aquilo a que gostamos de chamar um "filme intelectual" com diversas interpretações, mas uma delas, o tal "pesadelo" em que os protagonistas embarcam voluntariamente, podia ser muito bem a estrutura de um filme de terror, ou, pelo menos, de um terror da vida real. 
O filme é baseado no romance homónimo de Paul Bowles. É este "narrador" que nos diz logo de início que Kit e Port, o casal, nunca precisaram de ter noção do tempo porque sempre tiveram tempo para tudo. Aproveito esta deixa para salientar o que mais me impressionou neste casal de americanos ricos, boémios, artistas, privilegiados, e até um pouco hippies antes dos hippies. O que mais me impressionou nem sequer foi a ausência de um pensamento ou comentário perante a pobreza extrema dos nativos que os rodeiam, como se estes nem fossem pessoas mas parte da paisagem pitoresca, porque eram outros tempos, tempos de euforia logo após a Segunda Guerra Mundial, muito antes da era das revoluções sociais. Nem sequer foi a arrogância de classe que leva Kit e Port a pensarem que o dinheiro na mão resolve tudo e compra tudo, até chegarem a uma civilização onde o dinheiro não tem valor. Isso também era típico de um tempo em que um casal privilegiado ainda vivia segundo o legado de uma aristocracia do século anterior e numa mentalidade de colonialismo em que o rico e educado era considerado "superior" e o nativo inculto "inferior". 
O que realmente me impressionou em Kit e Port foi aquilo a que vou chamar a arrogância existencial de quem se julga imortal, rico para sempre, jovem para sempre, belo para sempre. O próprio Port diz isso a um amigo que os acompanha, que eles não são turistas mas viajantes e que os viajantes podem nunca regressar a casa. O seu único plano é não fazer planos, e este plano de não fazer planos não é temporário mas para sempre, como se algum mortal pudesse arrogar-se ao "para sempre".
Para começar, nunca é abordado porque é que o casal escolheu o norte de África para viajar. Porque sim podia ser uma resposta tão boa como qualquer outra. O casamento de Kit e Port está nitidamente periclitante, ambos são infiéis, mas nunca conseguem conversar sobre o assunto por muito que tentem. É como se nada se passasse de errado nesta felicidade matrimonial fingida, ambos a enterrar a cabeça na areia e a caminhar para a frente, cegamente e sem rumo, para não terem de parar e encarar a realidade. O deserto, cada vez mais perto e imponente, é uma boa metáfora para esta relação e atitude perante a vida: árido, estéril, enganador no seu encanto, perigoso na sua promessa de vastidão e liberdade. É para esta vastidão desértica que Kit e Port se encaminham, à deriva e sem destino, apenas para não estarem quietos. 
Quanto mais eles se embrenhavam no interior de África e do Saara, cada vez mais longe da civilização, mais dava por mim a pensar em "Wolf Creek", e daí a relação que estabeleci com um filme de terror, se bem que até os personagens de "Wolf Creek", com muito menos ingenuidade e mais experiência, tivessem os olhos mais abertos para o que os rodeava. Kit e Port, privilegiados de uma geração muito anterior, não têm os olhos abertos porque os querem manter fechados. Não são turistas, julgam-se aventureiros destemidos que, afinal, andam a fugir de si próprios.
Referi "longe da civilização" mas está incorrecto. Kit e Port embrenham-se no deserto e afastam-se da civilização ocidental ao encontro de uma civilização local e primitiva onde se espalha a malária, onde não há médicos nem medicamentos nem água potável. Kit e Port avançam voluntariamente para o pesadelo que destrua por eles o que não conseguem destruir sozinhos. Talvez, inconscientemente, fosse esse o rumo desde o início.

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terça-feira, 21 de julho de 2026

E mais outro post abre-olhos, 100% IA, para os mais distraídos ficarem a conhecer o padrão 👇

Porque em menos de meia hora (o tempo de fazer a prompt) gerei logo meia dúzia deste género e podia ter gerado mais. Depois é só postar e receber elogios pela grande criatividade. 😂


O estranho caso dos génios que florescem à velocidade da fibra óptica

Há dias em que penso seriamente em desistir de escrever.

Não porque me faltem ideias.

Porque me sobram concorrentes... que nunca ficam sem elas.

Antigamente um escritor demorava anos a encontrar uma voz própria.

Hoje basta encontrar um bom prompt.

É uma evolução extraordinária.

Ou, se preferirem, um milagre.

✨ Todos os dias aparece mais um pensador.

📚 Todos os dias aparece mais um filósofo.

🧠 Todos os dias aparece mais um especialista em absolutamente tudo.

Na segunda-feira escreve sobre o Império Romano.

Na terça explica porque é que os polvos são um exemplo de inteligência emocional.

Na quarta estabelece uma ligação entre Mozart, os buracos negros e a fermentação natural do pão.

Na quinta conta uma história emocionante passada consigo próprio... que nunca aconteceu.

Na sexta publica uma fotografia da chávena de café.

Porque ninguém acredita num sábio sem café.

E tudo isto... sem um único erro ortográfico.

Nunca.

Nem uma vírgula perdida.

Nem um acordo verbal maroto.

Nem uma frase que denuncie que o cérebro resolveu tirar cinco minutos para respirar.

Eu escrevo.

Eles publicam.

Há uma diferença.

Quando escrevo, apago frases.

Troco palavras.

Mudo parágrafos de sítio.

Às vezes passo meia hora a decidir entre um ponto final e um ponto e vírgula.

Eles acordam às oito.

Às oito e três já descobriram que a felicidade funciona exactamente como a migração das borboletas-monarca, tal como demonstram estudos recentes, a filosofia estoica e uma curiosidade fascinante sobre os cavalos-marinhos.

Não é apenas criatividade, é um safari enciclopédico.

Os textos seguem sempre a mesma receita.

Começam com uma pergunta existencial.

"Já alguma vez paraste para pensar..."

Claro.

Quem nunca interrompeu o jantar para reflectir sobre a relação entre o ADN humano e o crescimento dos bambus?

Depois surgem três referências culturais.

Obrigatoriamente três.

Um filósofo grego.

Um cientista famoso.

Um imperador romano.

Se der para encaixar Leonardo da Vinci, Einstein e Marco Aurélio no mesmo parágrafo, melhor ainda.

Se não houver qualquer relação entre eles...

Melhor ainda.

Depois entra a analogia.

Porque uma ideia simples nunca pode ser apenas uma ideia simples.

Não.

A procrastinação é como uma torradeira que sonha ser submarino.

A empatia é semelhante a um farol vegetariano durante uma tempestade magnética.

A disciplina lembra uma girafa a jogar snooker na Estação Espacial Internacional.

Não faz sentido?

Precisamente.

É isso que lhe dá profundidade.

Segue-se o momento autobiográfico.

"Recordo-me de quando liderei uma equipa multicultural..."

"Durante uma viagem transformadora pelo Nepal..."

"Um velho jardineiro japonês disse-me uma frase que mudou a minha vida..."

Curiosamente, estas pessoas têm mais experiências marcantes do que o Indiana Jones.

Eu, pelo contrário, a última conversa memorável que tive foi com a funcionária do supermercado sobre a falta de troco.

Depois chega o golpe final.

💡 Não é apenas um texto.

É uma experiência.

❤️ Não é apenas uma reflexão.

É um convite à transformação.

🚀 Não é apenas um pensamento.

É um movimento.

E lá aparecem centenas de comentários.

"Que privilégio poder ler-te."

"Devias dar palestras."

"Cada palavra é uma lição."

Não.

Cada palavra é uma previsão estatística.

Há uma pequena diferença.

O que me incomoda não é a Inteligência Artificial.

É a inteligência artificial... do autor.

Usar IA não faz de ninguém um impostor.

Fingir que não a usou já é outra conversa.

É como ganhar um rali enquanto o carro conduz sozinho.

É como receber um prémio de fotografia por uma imagem comprada num banco de imagens.

É como subir ao palco para agradecer uma música... depois de ligar o rádio.

E ainda fazer um discurso sobre o enorme sacrifício criativo.

Assumam.

Digam simplesmente:

"Usei IA para escrever este texto."

Ninguém morre.

Aliás, talvez até ganhem respeito.

Porque a honestidade continua a ser uma tecnologia que ainda não ficou obsoleta.

Entretanto, eu continuo aqui.

A escrever devagar.

A trocar palavras.

A cortar adjectivos.

A discutir comigo próprio.

A deixar escapar uma gralha de vez em quando.

A fazer aquilo que os escritores sempre fizeram.

Escrever.

Sem polvos.

Sem buracos negros.

Sem Einstein.

Sem um monge tibetano que, por uma coincidência extraordinária, me ensinou o verdadeiro significado da liderança enquanto observávamos o voo sincronizado de estorninhos ao pôr do sol.

Embora... reconheço...

Dava um excelente post no Facebook. *

* E vai dar mesmo, ChatGPT, obrigadinha.

domingo, 19 de julho de 2026

Wednesday [segunda temporada] (2022 - ?)


O que nós aprendemos na segunda temporada de "Wednesday":

1. Wednesday é literalmente alérgica à cor, não era exagero
2. Os Addams são ricos porque comem ratos, insectos e outras coisas nojentas; sempre é dinheiro que poupam no supermercado
3. Os Párias não são secretos, são conhecidos pelos Normais (mas admito que se calhar fui eu que estava distraída na primeira temporada)
4. Morticia é uma autora de literatura romântica/soft porn (grande Morticia, é preciso coragem para escrever coisas dessas)

"A mais feliz das vidas é uma solidão atarefada", do filósofo Voltaire, é um lema para Wednesday, e até resultava melhor se ela não gostasse tanto de se meter em sarilhos. Quando Wednesday regressa a Nevermore para o segundo ano lectivo, problemas novos e antigos não lhe vão dar paz. Mas, na verdade, é mesmo isso que ela quer. Uma vida sem sarilhos é muito aborrecida para qualquer adolescente, e Wednesday nem sequer é uma adolescente qualquer.
Já ia no segundo visionamento quando me apercebi de que não retive nada do enredo. É difícil prestar atenção à história quando Morticia está a comer bolachas cobertas de aranhas (?) vivas. A série é uma tal festa para os olhos, um tal espectáculo de Tim Burton, que o enredo até distrai. Pode dizer-se que esta segunda temporada tem três sub-enredos, e um deles, se calhar o menos provável, vai ganhando predominância até se revelar o principal. 
Entretanto, Wednesday perde os poderes mediúnicos por abusar deles. Em contrapartida, ganha uma aliada na sua ex-stalker Agnes, outra aluna de Nevermore que idolatra Wednesday e que tem o poder da invisibilidade. Mas a relação de Wednesday e Enid está periclitante. Numa das suas últimas premonições, Wednesday pressagia a morte de Enid, o que a leva a deixar a amiga lupina fora dos seus planos. Sem saber que a sua vida está em risco, e descontente com a dinâmica que se estabelece entre Wednesday e Agnes, Enid sente-se compreensivelmente posta de lado. 
A nível da evolução das personagens principais, contudo, o sub-enredo mais dramático é a aproximação entre Ajax e Bianca quando esta enfrenta uma crise familiar. As coisas nunca se tornam românticas, até porque Bianca está com demasiados problemas para pensar nisso, mas seria bonito se esta amizade desinteressada se transformasse em algo mais no futuro.
A Mão (Thing) continua a ser um personagem preferido de muita gente, eu inclusive. Como é que é possível, como?, transmitir-se tanta personalidade num "ser" que não passa de uma mão? Adorei a cena em que a Mão e outras partes de corpos têm uma reunião do tipo Partes-de-Corpos Anónimos. Estão lá, do que eu percebi, duas mãos, duas pernas, um pé, um braço, dois olhinhos e uma orelha, todos com personalidades bem perceptíveis. A sério, quem é que consegue prestar atenção ao enredo, e até aos diálogos, quando os dois olhinhos e a orelha batem palmas? Os nossos olhinhos e orelhas também batem palmas ao festim visual e auditivo que nos é servido.
Que mais? Adorei tudo do Pilgrim World, adorei Morticia a alimentar plantas carnívoras, adorei Catherine Zeta-Jones como Morticia (na minha opinião a melhor Morticia de sempre), adorei o zombie que se vai regenerando à medida que come cérebros, adorei o romance entre Fester e Louise da cantina, adorei Lady Gaga como Raven, adorei Gwendoline Christie como Larissa Weems e Christina Ricci como Marilyn Thornhill. Nesta segunda temporada passamos muito mais tempo com a família Addams inteira, o que algumas pessoas não apreciaram porque a série centra-se em Wednesday, mas eu não me importei nada.
E depois há as danças. Vou cometer um spoiler. Se virem por aí uma Wednesday estranhamente colorida e efusiva a dançar, não é Wednesday. Num dos melhores episódios da série, Wednesday e Enid trocam involuntariamente de corpo. Ambas as actrizes dão um show a interpretar-se uma à outra. Até a voz conseguem adaptar de tal maneira que muita gente (e eu) pensou que tivesse havido dobragem, mas nem foi preciso.
Noutro episódio, Enid tem uma coreografia de dança em dueto com Agnes, a rapariga invisível, mas desta já não gostei tanto porque não vi metade. (Perceberam a chalaça? Não vi metade porque ela é invisível. Ehm... Avançando.)
No meio deste desvario absoluto, às vezes a série perde a noção da realidade. Como no caso em que o Hyde pega em Marilyn Thornhill (que é humana) pelo pescoço, eleva-a do chão e atira-a contra uma parede como se fosse uma boneca de borracha, e não há sequer uma costela partida. Isto é coisa de desenhos animados que na minha opinião não devia ter aqui lugar. Noutros casos, sacrifica-se a credibilidade, como quando Agnes vê Wednesday ser enterrada viva no bosque, vai a correr até à escola pedir ajuda a Enid, e nenhuma delas se lembra de levar uma pá ou qualquer ferramenta. E para quê? Para que Enid tenha de se transformar nesse momento dramático em que salva a amiga.
Mas pergunto, alguém reparou nisto sequer? Duvido, e duvido que alguém se importe. A série pode fazer tudo o que lhe apetece entre o realismo, o desenho animado e a fantasia porque "Wednesday" é um clássico instantâneo e estou convencida de que o será para sempre enquanto existir televisão.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes, e ninguém vai escapar a ver isto na internet 

PARA QUEM GOSTA DE: A Família Addams, Young Adult, Fantasia


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Verdadeiro ou falso: quem escreveu esta crónica, eu ou a Inteligência Artificial? (resposta no fim do texto)

Crónica de uma sala de aula (virtualmente) destruída: o "milagre" da sexta-feira

Dizem que o inferno são os outros. Pois desenganem-se: o inferno tem nome, apelido e uma plataforma digital que teima em carregar apenas até aos 99%.

Estou aqui, sentada à frente desta luz azul, com as pálpebras a pesarem mais que o orçamento da educação, a tentar corrigir exames nacionais. Ou melhor, a tentar acceder aos exames. A cada clique, um erro 404, um "servidor em baixo" ou aquela roda colorida e hipnótica que gira, gira e gira, como se estivesse a ironizar a minha sanidade mental.

O nosso Ministro, o Senhor Fernando Alexandre, lá apareceu hoje com aquele ar sereno de quem nunca teve de lidar com um "sistema indisponível" numa véspera de prazo. Garante, com a convicção de quem lê guiões de ficção científica, que o processo está "praticamente concluído". É curioso como o conceito de "praticamente" se expandiu para englobar um caos administrativo que faria corar um amador de informática. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira... os dias passam e a promessa de afixação das pautas na sexta-feira mantém-se inabalável, quase como um dogma de fé.

Será o senhor Ministro um vidente? Ou terá ele acesso a uma plataforma mágica, escondida algures na gaveta da Secretaria de Estado, onde os exames se corrigem sozinhos, por telepatia ministerial?

Do lado de cá da barricada, a realidade é menos idílica. Professores em colapso nervoso, pais a ligarem-me a horas que o bom senso proíbe — e com razão, porque o futuro dos miúdos parece ter sido entregue a um estagiário com um servidor de plástico — e alunos num estado de ansiedade que nem a medicina do século passado resolveria.

Este Governo da AD, que tanto prometeu a "mudança" e a "eficiência", parece ter encontrado a sua especialidade: a digitalização analógica. Conseguiu o feito notável de transformar o exame nacional — um momento de seriedade e rigor — num episódio de uma série de comédia de erros, onde o protagonista é um código de erro que ninguém sabe explicar. É a governação feita de "slides" bonitos e conferências de imprensa onde a palavra "estabilidade" é repetida até à exaustão, enquanto, na prática, o que temos é um sistema que colapsa à primeira brisa de carga computacional.

O Ministro garante a sexta-feira. Eu garanto que, se a pauta aparecer, será por milagre ou porque algum colega, num surto de heroísmo, se esqueceu de dormir, de comer e de ter vida própria para tapar os buracos deixados pela "modernização" deste ministério.

No fim, a culpa nunca é da estrutura. É do servidor. É da rede. É da nuvem. O que é curioso, porque quando os exames falham, os professores continuam a ser a face visível de uma incompetência que habita algures em gabinetes climatizados.

Vou tentar mais uma vez. Carregar na tecla 'F5'. Ou talvez a tecla 'Escape' seja a única que realmente funciona nesta nossa educação moderna. Se não houver pautas na sexta-feira, espero que o Senhor Ministro, pelo menos, nos envie um emoji de consolação. É esse o nível de seriedade a que chegámos.

 

Resposta: Sim, a IA também escreve textos satíricos baseados na actualidade, com crítica política, da perspectiva de uma personagem realista. Parabéns a quem acertou.
Escolhi este tema porque queria fazer a experiência com um assunto "quente" na comunicação social. O Gemini saiu-me um grande escritor.

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Mais um post abre-olhos, 100% IA, para reconheceres o padrão e não seres engrupido nas redes sociais

Querido Génio das Redes Sociais,

Parabéns. De coração. Com confettis e tudo.

Ontem li o teu post. Aquele sobre resiliência — ou foi sobre liderança? Ou sobre o universo? Ah, já me lembro: era sobre tudo ao mesmo tempo, como só os verdadeiros polímatas conseguem fazer.

E eu, humilde mortal, fiquei ali sentado com o meu café a arrefecer, a pensar: como é que este homem sabe tanto?

Deixa-me adivinhar como o teu processo criativo funciona.

Acordas. Inspiras fundo. Abres o ChatGPT (ou o Claude, ou o Gemini — escolhe o teu veneno). Escreves: "Escreve um post motivacional sobre superar obstáculos, com referências científicas, emojis, frases curtas e um tom inspirador."

E voilà.

Em 11 segundos tens Aristóteles, neurociência, e uma analogia sobre borboletas.

O resultado? Qualquer coisa assim:

🧠 O cérebro humano processa 11 milhões de bits por segundo — mas só tem consciência de 40.

📌 Pensa nisso.

🌊 Não és a tempestade. És o oceano.

💡 Não é apenas falhares. É aprenderes a cair com elegância — como os astronautas da NASA que treinam durante anos para flutuar no vácuo sem entrar em pânico.

E depois vem a parte pessoal, claro. Porque a IA sabe que tens de humanizar:

"Lembro-me de quando, há uns anos, estava numa encruzilhada profissional — tudo parecia incerto. Foi nesse momento que percebi três coisas fundamentais: a persistência, a clareza de propósito, e a coragem de recomeçar."

Que momento tocante. Que autenticidade. Que coincidência que seja exactamente o que a IA escreve quando lhe pedes para "adicionar uma experiência pessoal verosímil".

Mas o melhor — o verdadeiro chefe de obra — são os comentários.

"Que texto poderoso, obrigada por partilhares!"
"Isto chegou-me ao coração, precisava mesmo de ler isto hoje."
"Uau, que profundidade. Segui-te já!"

E tu respondes — provavelmente também com IA — "Obrigado! É sempre gratificante quando as palavras tocam alguém 🙏✨"

Toca. Toca mesmo. Como um raio numa torre de alta tensão — muito barulho, muita luz, e no fim não ficou nada.

Entretanto, eu. O autor de carne e osso.

Passo três horas a escrever um texto. Apago. Reescrevo. Discuto comigo mesmo se "todavia" soa demasiado formal. Procuro a palavra certa como quem procura chaves dentro de um sofá — de joelhos, com a mão encravada, sem garantia de resultado.

No fim publico.

Doze likes. Dois dos quais são da minha mãe e de um primo que provavelmente carregou sem querer.

Tu, entretanto, és convidado para podcasts.

"Como é que desenvolves uma voz tão autêntica?" — pergunta o entrevistador, visivelmente emocionado.

"Ah, é muito trabalho, muita leitura, muita vivência..." — respondes tu, com a serenidade de quem acabou de fazer um prompt de 40 palavras.

Não me interpretes mal. Não tenho nada contra a inteligência artificial. É uma ferramenta extraordinária — como o telescópio de Galileu, como a prensa de Gutenberg, como o autocarro que me poupa de andar a pé.

O problema não é usares a ferramenta.

O problema é apresentares a ferramenta como se fosses tu o carpinteiro.

O problema é receberes o troféu pela corrida que o teu carro fez.

O problema é que — e aqui peço desculpa pela brutalidade — estás a mentir. Não de forma violenta, não de forma ilegal. Mas estás. Calada e confortavelmente, post após post, emoji após emoji, analogia estapafúrdia após analogia estapafúrdia.

E o teu público? Esse público fiel que te lê todas as semanas?

Merecia saber.

Não para te destruir — drama é para telenovelas. Mas porque há qualquer coisa de profundamente torto em construir uma relação de confiança com pessoas reais usando palavras que não são tuas, emoções que não sentiste, e experiências que nunca viveste.

É como servir um bolo de compra numa caixa feita à mão e receber elogios pela receita.

Sabe bem. Toda a gente aplaude. E tu sorris — porque o segredo é teu e da máquina.

Mas olha: faz o que quiseres. O mundo é grande, as redes sociais são maiores, e a hipocrisia sempre teve boa audiência.

Só não esperes que eu, que passo horas a tentar encontrar a palavra exacta, aplauda de pé.

Tenho os braços cansados de escrever.

P.S. — Este texto foi escrito por um humano. Com erros, hesitações, e café frio. Sem assistência artificial. Podes verificar — tem impressões digitais por todo o lado. *

P.P.S. — Se sentiste que isto era sobre ti: era.


* Não foi não, Claude. Foi escrito por ti.

 

domingo, 12 de julho de 2026

65 (2023)


"Alien" encontra "Jurassic Park" e temos ficção científica de terror com dinossauros.
Quando a sua nave é atingida por meteoritos, o astronauta Mills despenha-se num planeta desconhecido que é a nossa Terra há 65 milhões de anos. O início assemelha-se ao ambiente espacial de "Alien" mas os dinossauros remetem-nos imediatamente para "Jurassic Park". O fio condutor é o horror sci-fi, em que os dinossauros são efectivamente tão ameaçadores e alienígenas como o xenomorfo de Nostromo.
Além de Mills, a única sobrevivente é Koa, uma miúda com cerca de 10 anos que o recorda da própria filha. Ambos têm de percorrer uma distância de vários quilómetros até à única nave salva-vidas que ainda está funcional depois do impacto, mas o percurso está repleto de dinossauros.
Tenho algumas dúvidas sobre a que faixa etária se destina este filme. Alguns dos dinossauros são tão fofinhos que parecem bonecos de desenho animado para crianças, e a própria interacção paternal de Mills com Koa e os momentos de humor entre ambos nos poderiam sugerir isso, até porque estes dinossauros fofinhos estão lá de propósito, não são problema de CGI. Por outro lado, os restantes dinossauros são efectivamente aterradores. Os dinossauros vão surgindo com um nível crescente de ameaça, culminando nuns tiranossauros gigantescos (se não são T-Rex são da família, e muito mais feios e mal-encarados do que os de "Jurassic Park"). Um deles, devido à perspectiva, até parece do tamanho de Godzilla. E depois juntam-se vários a cercar os personagens. Algumas das cenas são uma homenagem descarada a "Jurassic Park", e igualmente de roer as unhas, com o factor adicional de que Mills e Koa não estão em território familiar nem conhecem o comportamento dos répteis que os perseguem. O risco de serem engolidos inteiros por uma destas bocarras é muito real e palpável.
A maior ameaça chega no fim, contudo, quando percebemos que os personagens estão na Terra no preciso momento em que esta vai ser atingida pelo asteróide que supostamente extinguiu os dinossauros. Dizem que os raios não caem no mesmo sítio duas vezes, mas, aqui, os meteoritos não ligam à regra.
"65" não é um filme grandioso e inesquecível, mas é uma história  de acção e sobrevivência com muitos momentos de meter medo. A mim, pelo menos, meteu medo, porque eu tenho muito medo de dinossauros. Infelizmente, também tive pena dos bichinhos. É duro.

13 em 20

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Post abre-olhos, 100% escrito por Inteligência Artificial

Confissão de um escritor em vias de extinção

Escrevo os meus textos.

Eu sei.

É um hábito antiquado. Como engomar camisas, revelar fotografias ou decorar números de telefone.

Ainda penso nas frases antes de as escrever.

Às vezes demoro uma hora para encontrar um parágrafo.

Às vezes apago metade do texto.

Às vezes publico com um erro.

Porque fui eu que o escrevi.

Entretanto, abro o Facebook e encontro mais um génio literário acabado de nascer durante a noite.

"A vida é como um polvo a jogar xadrez numa bicicleta."

🎯 "Não é apenas resiliência, é alquimia emocional."

🧠 "Tal como Carl Sagan observava as estrelas, também nós devemos observar o silêncio entre os nossos pensamentos."

Segue-se uma referência aos estorninhos da Islândia.

Depois aos samurais.

Logo a seguir à física quântica.

Pelo meio aparece um polvo, um bambu, uma colmeia, a Via Láctea, os estoicos, Leonardo da Vinci e uma curiosidade fascinante sobre os axolotes mexicanos.

Tudo no mesmo texto.

Tudo perfeitamente encaixado.

Tudo absolutamente necessário para explicar... que devemos beber água e acreditar em nós próprios.

E os comentários não desiludem.

"Que mente brilhante."

"Como consegue escrever assim?"

"És um poço de cultura."

"Devias publicar um livro."

Claro que devia.

Basta perguntar ao ChatGPT.

O mais extraordinário nem é a qualidade dos textos.

É a velocidade com que estes autores se transformaram em enciclopédias ambulantes.

Na semana passada vendiam suplementos alimentares.

Hoje explicam neurociência, filosofia grega, astronomia, psicologia comportamental e o comportamento migratório das baleias-jubarte.

Tudo antes do pequeno-almoço.

E sem uma única gralha.

Nem uma vírgula fora do sítio.

Nem uma frase torta.

Nem aquele momento em que um humano escreve "há" quando queria escrever "à".

Nada.

São perfeitos.

Milagrosamente perfeitos.

Depois há aquela característica irresistível.

A necessidade de contar episódios pessoais.

"Quando eu dirigia uma equipa internacional..."

"Recordo-me perfeitamente de uma conversa que tive com um velho pescador..."

"Na minha experiência de vinte anos a acompanhar líderes..."

Que coincidência.

Toda a gente na internet parece ter vivido exactamente as experiências que uma IA costuma inventar quando precisa de ilustrar uma ideia.

Eu, infelizmente, tenho memórias muito menos inspiradoras.

Passei três horas à procura das chaves do carro.

Queimei o arroz.

Fiquei meia hora à olhar para uma frase sem saber onde pôr um ponto final.

É pouco cinematográfico.

Talvez por isso tenha poucos gostos.

Depois chega o grande final.

Sempre o grande final.

💡 Não é apenas escrever textos.

É transformar palavras em pontes para a alma.

Não é apenas comunicar.

É despertar consciências.

Não é apenas publicar.

É deixar um legado.

Claro.

Porque um post sobre produtividade sem qualquer ideia original é, evidentemente, o equivalente literário da Biblioteca de Alexandria.

Há também a regra dos três.

Sempre três.

Três exemplos.

Três lições.

Três pilares.

Três passos.

Se Moisés descesse hoje do monte, provavelmente trazia um PDF com "As 3 Estratégias para Maximizar o Potencial das Tábuas da Lei".

E depois existe aquele travessão enorme — o famoso travessão que agora aparece em todo o lado — como se fosse um selo invisível a dizer:

"Este texto foi polido por um algoritmo que nunca teve de lutar com uma frase difícil na vida."

O problema nem sequer é usar Inteligência Artificial.

Eu também uso corrector ortográfico.

Pesquiso fontes.

Consulto dicionários.

A tecnologia não é o inimigo.

O problema é vestir um papagaio de professor universitário e esperar aplausos pela eloquência.

É subir ao palco para receber uma medalha conquistada por outra entidade.

É assinar um quadro pintado por outro.

É ganhar um concurso de culinária depois de encomendar o jantar ao restaurante da esquina.

E, no fim, agradecer humildemente "ao talento, ao trabalho e à inspiração".

Não.

Agradece ao botão "Gerar novamente".

Talvez eu esteja apenas ultrapassado.

Talvez o futuro pertença mesmo aos grandes pensadores que descobrem diariamente o significado profundo da vida entre dois pedidos de geração automática.

Eu continuarei aqui.

A escrever.

A apagar.

A reescrever.

A duvidar.

A tropeçar nas palavras.

A cometer erros.

Porque, por muito competente que seja uma máquina, ainda há qualquer coisa de profundamente humano em olhar para uma página em branco e não saber como começar.

E, ironicamente, talvez seja precisamente essa imperfeição que torna um texto digno de ser lido.

Ou então não.


🤖 Concordo plenamente. *

Excelente reflexão. *

Continue assim. *


* Isto é o Chat GPT a dar-me graxa pelo texto que ele próprio escreveu.