domingo, 5 de julho de 2026

Mozart Mozart / A Irmã de Mozart (2025)

"Mozart Mozart" é uma série alemã que reimagina as personagens dos jovens Amadeus Mozart e sua irmã Maria Anna, no mesmo período histórico, mas qualquer semelhança com a realidade é coincidência.
Amadeus é um rock star que usa brinco e óculos escuros, e que, como qualquer rock star, é adorado pelas fãs. Maria Anna é a sua irmã mais velha, tão talentosa quanto ele, mas remetida à obscuridade por ser mulher. Em Viena, ambos tentam libertar-se das restrições sociais que forçariam Maria Anna a um casamento arranjado. A ideia é conseguirem um contrato na corte do imperador José II, que lhes encomenda uma "ópera para o povo". Contudo, uma vez que Amadeus sofre de dores no pulso que o fazem recorrer ao láudano e ao álcool, Maria Anna tem de se disfarçar e fazer-se passar por ele para manter o contrato. Amadeus acaba mesmo por ser internado e é Maria Anna quem compõe "O Rapto do Serralho". Em suma, é uma ópera de Mozart, de Maria Anna Mozart, e é isso que significa o título "Mozart Mozart", uma Fantasia Young Adult sobre uma jovem a tentar afirmar-se na medida em que os tempos lhe permitiam.
Entretanto, Amadeus tem um affair com Maria Antonieta (sim, essa), irmã de José II, que está de visita em Viena, e Maria Anna envolve-se com Antonio Salieri (sim, esse, o rival de Amadeus), mas não se preocupem que acaba tudo bem e são felizes para sempre. (Excepto a pobre Maria Antonieta e o suposto filho de Amadeus, o pobre Delfim de França, que não acabaram nada bem. Acho que a série se meteu por caminhos sombrios, neste aspecto, que não faziam aqui falta nenhuma.)
E música, há música? Haver, há, mas não sei até que ponto é que estão a adaptar composições de Mozart (não sou fã) ou outra coisa qualquer, porque na maior parte parece mais música do século XXI para Britney Spears ou Taylor Swift (também não sou fã). Reconheci partes do Réquiem e já foi bom. No fim sempre tocam "O Rapto do Serralho", que depressa se torna na versão Enya com sintetizadores e tudo. Fica o aviso aos puristas da música clássica, para não morrerem do coração. Não desgostei da versão Enya, por acaso. Antes Enya que Taylor Swift.
Posto isto tudo, gostei? Sim, gostei, achei muito levezinho e divertido, e também não me parece que a série tivesse mais ambição do que criar uma coisa bonita para entreter e salientar o papel das mulheres talentosas esquecidas nas sombras.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: História, séries de época, Fantasia, Mozart


domingo, 28 de junho de 2026

Believer / A Crente (2024)


[contém alguns spoilers]

Este filme é uma desilusão. O começo até é bom, mas a certa altura a história esquece-se da lógica.
Em pleno julgamento, no dia em que a sentença vai ser lida, o líder de um culto responsável por múltiplos homicídios ataca uma jovem que está a escrever um livro sobre ele. Esta jovem, Kate, vai recuperar do trauma para casa da família da irmã mais velha, casada e com uma filha adolescente. Mas um detective acredita ter razões para suspeitar que Kate é na verdade uma seguidora do culto e que a família pode estar em perigo, uma vez que o líder, tal como Charles Manson, persuadia os seguidores a cometer os crimes por ele.
A primeira parte do filme é algo arrepiante. Efectivamente, começam a acontecer coisas estranhas e sangrentas em casa da irmã de Kate. Ao mesmo tempo, vemos segmentos da narrativa pela perspectiva da irmã e somos levados a crer que o detective pode ter razão. Kate não está no seu juízo perfeito... ou será ela a vítima da irmã, ou do cunhado, ou até da sobrinha adolescente, que também demonstra algum fascínio pelo livro e pelo culto?
Chegamos ao fim e não percebemos o que aconteceu. Daquilo que nos é mostrado, nenhuma das personagens podia ter cometido todos os ataques que vemos acontecer, mas também há sempre aquela possibilidade de o criminoso simular ser uma vítima para não ser alvo de suspeita. Logo, todos podem ser o atacante, mas nunca descobrimos nem o filme se interessa em explicar porque é que não interessa se descobrimos ou não.
Mas se recordarmos, em retrospectiva, a cena do tribunal, logo no início, também não faz muito sentido. O líder do culto é cego, está desarmado e rodeado de polícia quando ataca a rapariga, e aquela polícia toda não conseguiu dominá-lo e teve de abatê-lo? Muito improvável.
O filme continua a jogar com a ambiguidade. Por um lado, o homem é apresentado como um líder carismático que controla a mente dos seguidores com uma doutrina apocalíptica, mas por outro há fenómenos que não podem ser explicados sem intervenção sobrenatural. Em que é que ficamos? É um líder de culto normal, ou há aqui uma presença maligna que possui os seguidores e, possivelmente, até possui o líder? Uma vez que todos os personagens são os chamados "narradores não-confiáveis", não se consegue determinar até que ponto é que os "fenómenos sobrenaturais" nunca chegaram a existir. E o que é que significou aquele sorrisinho sinistro na cara da família toda no final? Eram todos seguidores que a certa altura se apunhalaram uns aos outros para parecerem vítimas? Ou será que estão todos possuídos no fim?
(E, já agora, mais outra. Se o detective estava mesmo tão convencido de que Kate podia matar a família, como de facto estava, porque é que não apareceu mais cedo? A polícia não fica muito bem vista neste filme.)
"Believer" podia ser (e se calhar queria ser) daqueles filmes que usam a ambiguidade para nos perturbar mais, mas a ambiguidade só resulta quando assenta numa lógica qualquer que a permita, o que não acontece aqui. Em suma, não percebemos o que se passa, não percebemos o que o filme nos queria dar a entender, apenas ficamos frustrados por termos perdido tempo a tentar acompanhar. Ainda por cima a acção é muito lenta, o que cria mais tensão quando ainda estamos a esforçar-nos por apanhar o fio à meada, mas o final ilógico não me deixou vontade nenhuma de ver outra vez.
Pergunto-me se isto não foi propositado para abrir a porta a uma sequela para "explicar".

10 em 20

domingo, 21 de junho de 2026

Homens de Honra (2026)


"Homens de Honra" é a história dramatizada de Álvaro Cunhal e Mário Soares, e de como se encontraram, convergiram e divergiram. Mostrar como as coisas se passaram, apesar do aspecto ficcional que o género biográfico envolve, é muito importante para a preservação da nossa memória histórica à medida que estas figuras vão ficando cada vez mais distantes das gerações que já não as conheceram.
Gostei muito até aos últimos dois episódios. O episódio da fuga de Peniche, tenso e cheio de acção e perigo, dava um filme inteiro a não ficar atrás de "Prison Break". "Homens de Honra" seria interessante até apenas como série de época, mesmo com personagens fictícias.
Não gostei nada da substituição por actores mais velhos nos dois últimos episódios e não vejo a necessidade de o ter feito. Romeu Vala estava a arrasar como Álvaro Cunhal. Obviamente que não conheci a pessoa na juventude (nem eu, nem o actor) mas a interpretação é tão bem decalcada da personalidade mais velha que me convenceu completamente de que aquele podia ter sido o jovem Álvaro Cunhal, faceta Don Juan e tudo. Na verdade, nem conhecia esses pormenores da vida privada de Cunhal porque nunca gostei de meter o nariz, mas acredito plenamente que toda aquela aura de espionagem/clandestinidade/idealismo/liderança/perigo podia muito bem ter sucesso com o sexo feminino.
Alexandre Carvalho já não ficou tão parecido com Mário Soares, nem ele nem o actor que o substituiu, Tónan Quito, porque Mário Soares tinha particularidades físicas muito próprias e seria sempre difícil recriá-las, nem é isso que está aqui em causa, muito menos as interpretações dos quatro actores. O que está em causa é que assim que identifiquei os personagens com os actores, os personagens passaram a ter aquelas caras. Eram as caras que eu reconhecia e em que estava investida. A substituição das caras deu-me a sensação de que estava a ver outra série, em que a dinâmica criada pelos actores substituídos se perdeu a meio. Talvez tivesse resultado se os actores tivessem sido substituídos mais cedo e durante mais episódios, para poderem criar uma dinâmica própria com o espectador, mas assim sendo pareceu-me abrupto e desnecessário. Eu, pelo menos, como espectadora, teria preferido ver os actores originais envelhecidos, mesmo que ficasse um bocadinho forçado. Afinal, desde o primeiro episódio que é forçado: este é Cunhal, este é Soares. A substituição obrigou a forçar outra vez, e a minha paciência como espectadora não acompanhou a mudança. Nem sequer tentei perceber quem eram as novas caras de todos os outros substituídos.
Sem desprimor ao actor Tónan Quito, também não achei que a substituição tenha sido benéfica. Fisicamente, o actor é mais parecido com Ricardo Salgado do BES (se ainda não fizeram a série, podiam fazer) e em vez de ver Soares via Salgado, o que nem vou comentar mas que foi "algo" aflitivo. Também acho que o actor Tónan Quito é fisicamente mais parecido com José Sócrates. Pela minha saúde, sem desprimor absolutamente nenhum. Até deixo aqui a sugestão, e seriam, tanto Salgado como Sócrates, dois papelões do caraças.
Também a nível das parecenças, e numa nota humorística, não reconheci João Soares. Pensei que era Vasco Pulido Valente ou Fernando Rosas, por causa do colete de malha.* Mania de usarem todos o mesmo. Por outro lado, pensei que Daniel Proença de Carvalho era Marcelo Rebelo de Sousa tal e qual me lembro dele, barbicha e tudo. Já Maria Barroso não ficou nada parecida, tenho de dizer, pelo menos da altura em que a conheci. O que me fez cair o queixo foi o general Ramalho Eanes do actor João Tempera, arrepiante de tão igualzinho, até na voz e na maneira de falar.
Quando escrevi aqui sobre "Ena, A Rainha Vitória Eugénia", salientei que a série não explica os factos históricos em profundidade, é mais dirigida a quem já os conhece. Achei o mesmo de "Homens de Honra". Gostei da voice over que ia guiando o espectador em certas passagens, mas penso que no futuro ainda vamos precisar de mais voice over e legendas. Por exemplo, só identifiquei o general Humberto Delgado quando ele disse "obviamente, demito-o". Tudo isto foi antes de mim, e o que é antes de mim é História, um rumor de outros tempos que nos chega dos mais velhos.
Já não tive esta desconexão com os factos que vivi, embora os dois últimos episódios não os retratem como me lembro deles (o que é natural, porque já entramos no campo do subjectivo). Fiquei muito surpreendida que a série não tenha mencionado o "engolir do sapo". Tendo em conta que "Homens de Honra" retrata a relação entre Cunhal e Soares, o "sapo" é relevante e pensei que estavam a guardar para o clímax. Mas não, nada sobre o assunto. 
Por último, e vou ter muito cuidado ao escrever isto, acho que "Homens de Honra" não fez justiça ao legado de Álvaro Cunhal, e não porque a série seja tendenciosa mas se calhar exactamente por não o ser e por se ter cingido aos factos. Chegamos ao fim e podemos ser levados a conjecturar que o único legado válido de Álvaro Cunhal, que nunca admite os crimes da União Soviética e que aparece como um homem ultrapassado pelo tempo, foi a Festa do Avante, onde a malta hoje vai beber umas cervejas e ver umas bandas, enquanto que Mário Soares foi eleito presidente da República. Um perdeu, o outro ganhou. Ou se calhar sou eu que estou a ser tendenciosa, ainda que inconscientemente, a ler coisas que não estão lá. Não parto do princípio de que tenha sido isto que a série tenha querido dizer, ou sequer que tenha querido fazer qualquer tipo de comentário, mas penso que podia ter sido dedicada mais profundidade ao legado de Cunhal. 
Tudo o que aconteceu nos últimos dois episódios me pareceu apressado, uma montagem de acontecimentos políticos que podia ter vindo do arquivo das televisões, sem o dramatismo que me fez investir nos personagens Álvaro e Mário, cada um com os seus ideais e motivos.

* O colete de malha pode ser imaginação minha. Pesquisei as fotos das pessoas mencionadas no Google e de facto não os encontrei de colete de malha, mas a ideia deve-me ter vindo parar à cabeça de algum lado. Afinal, quem é que nunca usou um colete de malha nos anos 70 e 80? Nem eu escapei.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: História, séries de época, política, biografia

domingo, 14 de junho de 2026

The Darkest Hour / A Hora Mais Negra (2011)

Dois amigos e sócios vão a Moscovo vender uma app de sua autoria e roubam-lhes a ideia. Isto é muito mau, mas o pior é quando alienígenas invadem a Terra e exterminam 99% da população mundial logo nas primeiras horas.
Antes de irmos à análise, é preciso não confundir este título em português "A Hora Mais Negra" com o outro "00:30 A Hora Negra" ("Zero Dark Thirty", que é sobre a captura de Osama Bin Laden e não tem nada a ver com isto).
Voltando a "The Darkest Hour". Achei este filme principalmente desequilibrado. A primeira parte é realmente aterradora. Os alienígenas são seres de energia que caçam os humanos procurando os seus campos electromagnéticos e emitindo um raio que os desintegra em instantes, mas os personagens não sabem disto e são chacinados a torto e a direito. Os dois amigos da app, outras duas turistas americanas e o gajo que lhes roubou a app conseguem esconder-se durante três dias na despensa de um bar. Quando saem, a cidade está destruída e deserta e toda a gente foi transformada em cinzas. Há uma cena num parque de estacionamento que me lembrou os melhores momentos do início do apocalipse zombie de "The Walking Dead". Há pânico e motivo para pânico. Qualquer pessoa pode ser obliterada a qualquer momento.
Já na segunda parte, tudo se torna muito fácil à Hollywood. Os personagens descobrem num instantinho como se proteger e até como contra-atacar, aparecem milícias que aparentemente se organizaram em três dias (antes de poderem ter informações suficientes para saberem o que fazer) e um cientista que inventou uma arma em casa sem conhecer nada dos alienígenas. É quase um final "e (os sobreviventes) viveram felizes para sempre". Isto é pena, porque o filme estava a ir muito bem no que ao terror diz respeito e de repente se tornou mais num filme de acção. Nesta fase até as mortes perderam o impacto que deviam ter.
Em suma, a premissa é muito boa e teria sido um filme bastante perturbador se tivessem querido ir por aí, mas a certa altura decidiram que o filme estava a ficar muito pesado e que precisava de ser mais levezinho. Isto não vai ser surpresa para ninguém, eu preferia que tivessem seguido a primeira opção.

13 em 20 (porque a primeira parte merece)

 
Ah, e o filme também tem isto, um gato vestido numa jaula Faraday para os alienígenas não o atingirem. Convenhamos, não se vê todos os dias.


domingo, 7 de junho de 2026

Talamasca: The Secret Order (2025)


A Talamasca é uma organização secreta e milenar que estuda o sobrenatural, nomeadamente as bruxas e vampiros do universo de Anne Rice. A Talamasca sempre foi fascinante, mas descobrir a sua verdadeira origem, nos últimos livros das Vampire Chronicles, tornou-a ainda mais interessante. (Um nome apenas: Gremt)
Fiquei muito entusiasmada quando descobri esta outra série criada a partir dos livros da autora. A Talamasca é uma organização que vamos conhecendo ao longo das Vampire Chonicles e Mayfair Witches e, ao contrário destas, não tem nenhum livro que lhe seja dedicado. Isto permite uma liberdade criativa única. Os argumentistas podem desenvolver personagens dos livros ou, pelo contrário, criar personagens e histórias completamente novas.
Foi o que aconteceu neste caso. Guy Anatole, um jovem advogado com poderes telepáticos, é abordado por Helen, uma operacional da Talamasca, para que se junte à organização. Guy não tem qualquer motivo para fazê-lo até perceber que a sua mãe, que ele julgava morta, era na verdade uma agente da Talamasca que por alguma razão teve de fugir e esconder-se. Guy aceita a missão na tentativa de encontrar a mãe, o que o leva à sede da Talamasca em Londres, onde o vampiro Jasper usurpou o poder. Jasper e Helen andam à procura do misterioso 752, que poderá ser um livro, ou um microfilme, ou um artefacto completamente diferente, que reúne todo o conhecimento que a organização compilou durante séculos.
Jasper também tem estado a criar uma espécie de vampiros "imperfeitos", mais "zombificados" e acéfalos, que Anne Rice introduziu no primeiro livro, "Entrevista Com o Vampiro". Anne Rice desinteressou-se deste tipo de vampiro, aparentemente, porque nunca mais o retomou, e se calhar fez muito bem porque os temas das Vampire Chronicles são mais profundos do que isto, mas o facto é que estes monstros resultam muito bem na televisão.
Do que sei, sem ter lido as Mayfair Witches, e do que vi nas críticas, são todos personagens novos (excepto dois, que só entram em curtas passagens, que também aparecem em "Interview With The Vampire"). O subplot de Helen recorda vagamente o enredo das gémeas e de Jesse Reeves em "The Queen of the Damned", mas apenas como paralelismo. A série desenrola-se como uma história de espionagem/policial, sem que isso interfira com o aspecto sobrenatural das personagens. E gostei, gostei muito, mesmo sem conhecer os personagens de lado nenhum.
Fiquei sinceramente chocada e perplexa quando soube que a série foi cancelada após apenas a primeira temporada. De todo o universo de Anne Rice adaptado pela AMC, "Talamasca: The Secret Order" era a série que tinha mais potencial de desenvolvimento. Como disse, a Talamasca é uma organização que estuda o sobrenatural há mais de mil anos. Os personagens podiam ser novos ou conhecidos, ou uma mistura de ambos, interagindo igualmente com os imortais dos livros ou outros que viessem a ser apresentados, incluindo até flashbacks a outros séculos. Só o manancial de criaturas e fenómenos sobrenaturais que podiam ser abordados é inesgotável. Basta pensar que a Talamasca é uma mistura de X-Files com os Homens de Letras de "Sobrenatural", mas com todo um requinte académico e britânico, e que os próprios membros da Talamasca incluem vampiros, espíritos, bruxas, telepatas e outros mortais com poderes especiais. Acresce a isto que a Talamasca tem casas-mãe em várias partes do mundo, o que até daria panos de fundo diversificados e internacionais se fosse esse o objectivo.
Não sei o que aconteceu, se "Talamasca: The Secret Order" não teve audiência suficiente ou se a AMC estava com problemas de orçamento e preferiu investir nas Vampire Chronicles ou nas Mayfair Witches. Não encontro nenhuma razão para cancelar esta série, fosse com um enredo derivado da primeira temporada ou adoptando um formato de antologia nas seguintes. Com uma organização como a Talamasca, até o monstro-da-semana resultava (embora eu, muito pessoalmente, esteja farta desse formato e não o recomende). A questão é que não faltavam histórias, opções e personagens. E nem sequer estou a falar de Gremt, mas adorava tê-lo visto.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Anne Rice, Vampire Chronicles, Mayfair Witches, vampiros, bruxas, sociedades secretas, espionagem, policial, sobrenatural, terror


domingo, 31 de maio de 2026

Automata (2014)

Tempestades solares transformam a Terra num deserto radioactivo. Devido à diminuição da população, a civilização depende de robôs para executar todas as tarefas. Um dia, os robôs ganham consciência de si. Mas terão desenvolvido também empatia, ou serão um perigo para os seres humanos? Para evitar este perigo, os robôs têm instalados dois protocolos: nunca fazer mal a um ser humano e nunca se alterarem a si próprios. Quando eles começam a fazer upgrades a si próprios, terão igualmente ultrapassado o primeiro protocolo?
Ou seja, estamos perante um filme "Terminator", ou outra coisa? Não vou responder porque seria estragar o filme todo. Isso é o que tem de descobrir o investigador Jacq Vaucan (Antonio Banderas), agente da corporação responsável pelo modelo de robôs que são apanhados em flagrante a proceder a reparações em si próprios e a modificarem peças. O perigo da Inteligência Artificial está aqui muito presente, e não de forma abstracta. Estes robôs, conscientes de si como "espécie", têm de facto a capacidade de dizimar a raça humana se entenderem que esta é uma ameaça para eles. E nós sabemos que somos uma ameaça para eles, ainda antes de eles o terem percebido. Será que os robôs têm o mesmo instinto de sobrevivência preemptivo que levou os seres humanos a controlar a Natureza, ou serão capazes de uma coexistência pacífica?
Nunca é muito bem explicado, mas a certa altura aparece um lugar tão radioactivo, devido à utilização de armas nucleares, que os seres humanos não poderão lá entrar durante milhões de anos. Jacq Vaucan, um homem a viver um limite existencial na sua vida privada, representa a espécie humana neste outro limite existencial colectivo. Até que ponto merecemos um habitat que já destruímos com a nossa arrogância de predador dominante? Será que o nosso tempo já passou, como diz um dos robôs, e que a espécie humana será substituída pelas máquinas que criou, o único legado humano que restará numa posteridade de que já não fará parte?
"Automata" não aborda exactamente temas originais nem pretende ser uma grande obra filosófica, mas é um filme sensível com uma mensagem de auto-reflexão que me impressionou. E impressionou-me sobretudo porque as máquinas não são capazes de empatia, mas algumas pessoas também não, então devíamos mesmo ponderar o que significa realmente ser humano. E não é ter uma inteligência superior. Isso as máquinas também têm e até nos ultrapassam. O que é que nós temos que as máquinas não têm? E quando as máquinas desenvolverem uma Empatia Artificial superior à nossa, que desculpa nos resta para justificar a nossa sobrevivência às custas do planeta e de outras espécies?
Numa das cenas fulcrais alguém pergunta ao protagonista "como é que pudeste atraiçoar a tua gente?", ao que ele responde "vocês não são a minha gente". "Automata" quer fazer-nos pensar que tipo de gente nós somos.

15 em 20

 

domingo, 24 de maio de 2026

The Witcher (2019 - ?) [quarta temporada]

Depois de elogiar aqui a terceira temporada pela maior clareza do enredo, aborrece-me ter de dizer que a história de "The Witcher" continua a estar mal contada. Durante esta quarta temporada andei tão perdida e confusa que acabei por ir à internet apanhar o fio à meada.
Admito que possa ser culpa minha. Primeiro que tudo, não li os livros. A história não é de todo desinteressante mas nunca me agarrou a ponto de ver com muita atenção. Depois houve o interregno da pandemia e esqueci bastante das temporadas anteriores. As personagens são às catadupas e, tirando um ou outro caso, são tão bidimensionais que não me ficam na memória. O próprio formato da série, que oscila entre episódios focados em personagens e/ou desenvolvimento do enredo, mas muitas vezes empata em monstros-da-semana, também não ajuda. A quarta temporada, por exemplo, não avançou um milímetro na narrativa. Geralt, Yennefer, Vilgefortz e Emhyr andam à procura de Cirilla, e no fim continuam todos sem imaginar onde ela possa estar. Isto não me incomoda pessoalmente. Eles é que sabem a quantidade de enredo que têm e quantos chouriços precisam de encher, e "The Witcher" é uma série de Fantasia que se vê exactamente para encher o olho.
O que me confundiu muito foi o enredo de Emhyr, imperador de Nilfgaard. Na temporada anterior já tinha suspeitado que ele era o pai de Cirilla, suspeita que nesta se confirma. O que não me tinha passado pela cabeça é que ele quisesse Cirilla para casar com ela, devido a uma qualquer profecia de que o filho de ambos vai ser um homem muito poderoso que vai conquistar os reinos todos e trazer glória a Nilfgaard, etc. Isto confundiu-me tanto, e a série explica tão mal, que fui pesquisar para ficar a saber de uma vez por todas. Deixo aqui um resumo escorreito do que descobri, para não ter de ir pesquisar novamente. 
A história é longa e cabeluda. Muitos anos antes, Emhyr, também conhecido por Lord Urcheon ou Duny, salvou a vida ao avô de Cirilla, rei de Cintra, e invocou como recompensa a Lei da Surpresa. Esta surpresa foi a Criança-Surpresa Pavetta, filha do rei de Cintra e da sua esposa, a rainha Calanthe. Entretanto, Emhyr foi amaldiçoado para se transformar em porco-espinho. É este Porco-Espinho que conhecemos como Duny na primeira temporada, a quem Geralt ajuda a quebrar a maldição. Em troca, Geralt também invoca a Lei da Surpresa. Duny/Emhyr reclama Pavetta e casa-se com ela, desta união nascendo Cirilla. Cirilla é assim a segunda Criança-Surpresa, para confundir ainda mais, a quem Geralt tem direito. Alegadamente (agora questiono o que realmente aconteceu), Duny/Emhyr e Pavetta morreram num naufrágio, mas afinal Emhyr sobreviveu. Como é pretendente ao trono de Nilfgaard, deixa Cintra, nunca mais quer saber da filha Cirilla e decide ir tomar a coroa que lhe pertence. Anos mais tarde, já imperador de Nilfgaard, ataca Cintra de surpresa, sem que (aparentemente) ninguém o reconheça como Duny, marido de Paveta, pai de Cirilla, apenas alguns anos passados do casamento com Pavetta.
Ora, isto levanta-me tantas perguntas a que "The Witcher", já na quarta temporada, insiste em não responder. Começo pela mais óbvia. Como é que ninguém em Cintra reconheceu Emhyr como imperador de Nilfgaard? Não houve um espião, nem um mercador, nem um viajante, que tenha passado por Nilfgaard e pensado "caramba, este fulano é mesmo cuspido e escarrado a cara do pai da princesa Cirilla!". Só essa curiosidade teria levado as pessoas a falar do assunto. Mas não. Ou, pelo menos, na série, ninguém sabia que Duny e Emhyr eram a mesma pessoa. Nem sequer Geralt, um homem tão viajado, que conhece outros homens tão viajados.
Segundo, Emhyr não deve ser muito esperto. Sendo pai da única herdeira ao trono de Cintra, não teria sido muito mais lógico e eficiente ter-se aproximado da filha, talvez até para a controlar e manipular e tornar-se regente de Cintra quando chegasse a altura? Talvez até para a convencer da tal profecia? Não era muito mais prático ter anexado Cintra dessa maneira em vez de invadir o reino pela força? Nem sequer é uma questão de maquiavelismo, é apenas senso comum. Porque é que ele fingiu que estava morto se lhe era muito mais conveniente ser o pai da princesa de Cintra?
A partir daqui é especulação. Será que Emhyr já conhecia a profecia antes de casar com Pavetta? Será que o naufrágio não foi um acidente? Será que Emhyr nunca quis conhecer Cirilla como criança para não ter problemas em casar com ela depois? Quem tem de responder a isto é a série, e até agora o enredo principal tem saído a conta-gotas. O que me aborrece é que as gotas não estavam a fazer sentido e tive de ir pesquisar para perceber o que se estava a passar. Também não ajuda que Geralt pareça muito mais novo do que realmente é (na série, supostamente, Geralt tem cem anos ou mais) e não me lembro nada da cara de Emhyr quando era Duny o Porco-Espinho. Não me incomoda que o enredo se desenvolva lentamente mas chateia-me quando as coisas não fazem sentido e a história de Emhyr não faz sentido. Ou então o personagem é mesmo muito burro, o que também dava uma boa história, mas não me parece que a série o esteja a retratar assim.
Não sei quantas temporadas vêm a seguir, mas durante estes oito episódios Geralt andou em vão à procura de Cirilla, arranjou uma espécie de "Irmandade do Anel" com dois anões, um gnomo, o bardo, a rapariga da floresta e um vampiro, contou-se a história deles, a irmandade desfez-se a meio do caminho porque alguns decidiram ir à vida deles, Geralt descobriu que afinal nem sabia onde estava Cirilla, e acabou assim. Mas tivemos uma batalha de bruxas e magos com muitas bolas de energia, isso tivemos, e uma batalha numa ponte a lembrar a ponte de Khazad-dûm com uma espécie de Balrog e tudo, e se calhar não é para pedir mais, mas, ao mesmo tempo, esta série podia ser tão melhor se resolvesse os problemas de narrativa. Até dá dor de alma.
Adorei Laurence Fishburne como vampiro, por esta não esperava. Era capaz de ver uma série inteira só com os vampiros lá do sítio, mas vocês já me conhecem.
Curiosamente, o actor que faz de Geralt mudou e não notei que isso tivesse afectado negativamente a temporada. Notei que Geralt diz muito menos "fuck" do que dizia, o que é decepcionante.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Fantasia, Lord of The Rings, Game of Thrones, magia, vampiros

 

domingo, 17 de maio de 2026

Mayhem / Pandemónio (2017)


Um vírus que retira as inibições provoca uma epidemia de violência extrema. Quando uma firma de advogados sem escrúpulos fica em quarentena, os infectados fazem justiça pelas próprias mãos sabendo que vão beneficiar de impunidade. 
Ao ler a sinopse, e ainda mais quando vi Steven Yeun (o Glenn de "The Walking Dead"), pensei que ia ser uma coisa do tipo "28 Days Later". Mas não é. É um filme de acção e comédia que satiriza as grandes corporações de advogados, uma espécie de "Um Dia de Raiva" provocado por um vírus.
Derek Cho é um executivo em ascensão tramado pela colega incompetente que está nas boas graças do dono da firma. Infectado e sem nada a perder, Derek Cho decide mostrar aos accionistas quem tem razão, quer eles queiram quer não. Mas Derek Cho até é boa pessoa. Os sócios da firma, impiedosos de natureza, e igualmente sabendo que o vírus lhes trará impunidade, não hesitam um instante em recorrer ao homicídio.
Violência há de sobra, resta saber se há comédia. Pessoalmente, não achei engraçado. É claro que dá sempre gozo ver esta gente velhaca a pagar pelos seus crimes, mas não há muito mais a esperar daqui.
"Mayhem" é um filme que entretém, em que a violência é demasiado irrealista para se levar a sério, sem conseguir ser tão engraçado como queria ser.

12 em 20

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Culatra - "Capítulo Primeiro: 1985-1989 / Sombras e Fantasmas" (Pós-80's label)

Segundo o press release, os Culatra foram "provavelmente a primeira banda portuguesa assumidamente gótica". Com actividade entre 1985 e 1992, nunca chegaram a gravar um disco. Esta colectânea, pela Pós-80's, reúne "os registos raros e inéditos do material gravado entre 1985-1989, provenientes de uma maquete, ensaios e um tema ao vivo no RRV".
Não tenho qualquer lembrança dos Culatra (o que não significa que nunca tenha ouvido falar deles). Estou impressionada com a qualidade desta banda de Lisboa que merecia mais reconhecimento, e lamento que tenham acabado sem deixar discografia. A diferença que o Bandcamp teria feito naquela altura! Nestes registos, finalmente trazidos à luz do dia em 2026, encontro influências do melhor da época: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy e outras referências pós-punk incontornáveis. Este é o som que eu recordo do Rock Rendez Vous. A qualidade das gravações é que é fraquinha, como seria de esperar de ensaios, maquetes e música ao vivo.
Para descobrir agora no Bandcamp, já que esta música esperou tanto tempo entre sombras e fantasmas.

According to the press release, Culatra were "probably the first explicitly Portuguese goth band". Even though they were active between 1985 and 1992, a record was never released. This compilation by the Pós-80's label brings together "rare and unreleased recordings from 1985 to 1989, taken from demos, rehearsals, and a live track at the RRV [Rock Rendez Vous]".
I have no recollection of Culatra (which doesn't mean I've never heard of them). I'm impressed by the quality of this Lisbon band, which deserved more recognition, and I regret that they disbanded without leaving a discography. The difference Bandcamp would have made back then! In these recordings, finally brought to light in 2026, I find influences from the best of the era: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy, and other inescapable post-punk references. This is the sound I remember from Rock Rendez Vous. The recording quality is weak, as one would expect from rehearsals, demos and live music.
After waiting so long amidst shadows and ghosts, Culatra’s music can finally be discovered on Bandcamp.

 

pos-80s.bandcamp.com/album/cap-tulo-primeiro-1985-1989

  

domingo, 10 de maio de 2026

The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?) [terceira temporada]

[não contém spoilers relevantes]

Adorei esta temporada de "Daryl Dixon"! Há muito tempo que não podia dizer isto de uma spin-off de "The Walking Dead", mas "Daryl Dixon" está a conseguir atingir os objectivos e a divertir os espectadores, e não sou só eu que o digo.
No início, o original "The Walking Dead" pretendia não ser simplesmente mais um filme de zombies para rir e entreter. A série ambicionava ser realista, dramática, filosófica e profunda. E nas primeiras temporadas até conseguiu, muito embora alguns fãs apenas quisessem mais um filme de zombies com muita acção, só para entreter, e tenham chamado telenovela a "The Walking Dead". A série começou a descarrilar quando tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo para agradar a gregos e troianos, o dramático e o acéfalo, e a certa altura decidiu sacrificar o realismo também, primeiro o realismo dramático e logo a seguir o realismo da acção propriamente dita. Isto deu-nos cenas deploráveis como, por exemplo, o tiroteio com Negan, em que apesar da escassez de munições, estabelecida pelo próprio universo da série, houve balas com fartura. Sacrificando a profundidade dos personagens e sacrificando o realismo que o próprio universo estabeleceu, a certa altura já não se aproveitava nada. Até podiam ter metido ali Godzilla sob o pretexto "é uma série de zombies, nada disto é real, vale tudo". Na estrutura interna de uma história não vale tudo; só vale o que o universo ficcional permite. A franchise levou o absurdo ao limite com "Fear The Walking Dead", em que só não apareceu Godzilla porque não calhou, mas houve uma guerra nuclear e uma radioactividade selectiva que só afectava os personagens que dava jeito eliminar.
"Daryl Dixon" também se move nos limites da credibilidade, mas não os ultrapassa de tal forma que não nos convença a acreditar que talvez, se calhar, com muita sorte, Carol até podia ter voado para França em pleno apocalipse zombie.
Na terceira temporada, "Daryl Dixon" abraça o género de aventura e acção de corpo e alma. Os personagens não são bidimensionais, mas o dramatismo ficou definitivamente em segundo plano, e mesmo assim eu gostei e aplaudi. Daryl Dixon num duelo de motas, Daryl Dixon a assaltar um comboio, Daryl Dixon a matar um super-zombie com a bandeira de França (esta é da primeira temporada mas serve como exemplo). Às vezes o despretensiosismo é o melhor remédio e a terceira temporada assumiu-se abertamente como um "western spaghetti". E não é que funciona?


Era uma vez na Galiza
Carol e Daryl chegam à Inglaterra, onde quase toda a gente morreu. O único sobrevivente que encontram, convenientemente, tem um veleiro, e conseguem convencê-lo a levá-los de regresso à América. Mas o único sobrevivente mal sabe velejar. Todos decidem correr o risco e acabam naufragados na Costa da Morte, ali em cima na Galiza.
Ora bem, isto não é Espanha, nem a Espanha actual nem a Espanha passada. Isto parece mais o México com uma pitadinha de sabor local aqui e ali, como os trajes de festa que podem ter vindo de um rancho folclórico minhoto, ou a paisagem ou a arquitectura, ou os candeeiros de rua. Mas se começarmos logo por encarar isto como "Espanha alternativa cruza-se com Mad Max" gostamos muito mais. E a série ajuda-nos a querer acreditar, que é o mais importante.
Daryl e Carol descobrem uma povoação onde se desenrola um amor de Romeu e Julieta. Roberto e Justina são dois jovens que se amam, mas a povoação está sob o controlo de um chefão, servidor do rei de Espanha (não o verdadeiro), que exige o tributo de uma rapariga todos os anos. As raparigas são requeridas para ser casadas com homens importantes ou simplesmente para servirem como criadas. (Aqui, confesso, ao ouvir falar em La Ofrenda, pensei em coisas muito piores.)
As raparigas são seleccionadas através de uma corrida de porcos. (Na Espanha deviam ser touros, mas imagino que isso ia exigir bastante à produção e que muita gente não ia gostar das implicações com touradas, a começar por mim.) Justina é seleccionada e levada para o palácio do rei. A princípio Daryl não se quer meter no assunto, e com alguma razão, mas Carol insiste em resgatar Justina. Entretanto, Daryl e Carol conhecem mais pessoas capazes de velejar, incluindo outro americano que também quer regressar a casa, e só pretendem ficar na povoação até partirem. Mas o envolvimento no resgate de Justina vai levar Daryl por paisagens inóspitas que podiam ter saído de Mad Max, e são aventuras atrás de aventuras: o duelo, o comboio, uma comunidade de leprosos, um teatro de marionetas zombies que me lembrou muito o Teatro dos Vampiros.
Outro apontamento interessante é que a povoação é atacada por um grupo auto-intitulado Os Primitivos, uma espécie de seita niilista que usa máscaras de caveiras de animais chifrudos e quer destruir tudo o que sobreviveu ao apocalipse. Depois de dar algumas voltas à cabeça, lembram-me os Caretos do Entrudo Chocalheiro de Podence, versão pós-apocalíptica. Desconheço onde é que a série se inspirou.

Até sem enredo era bom
Pergunto-me, porque é que eles querem voltar para a América? Daquilo que já vimos, está-se muito melhor na Europa. Sim, existem zombies em todo o lado, e há escassez em todo o lado, mas as coisas deste lado do Atlântico são muito mais civilizadas e pacíficas. Li algumas críticas de americanos que se questionavam exactamente sobre isto. Voltar para quê? Mas acho que todos queremos sempre voltar a casa, não é? É humano.
No entanto, Carol arranja um namorado em Espanha e Daryl receia que o seu desejo de partir à procura de alguma coisa, precisamente o que o colocou nesta situação, não deixe de se manifestar seja onde for. Esta temporada não é forte em temas dramáticos mas temos flashbacks de Merle, o irmão mais velho de Daryl, quando eram crianças. Dá a entender que Daryl está a tomar consciência dos traumas que o fazem deambular de um lado para o outro quando no fundo está a tentar fugir de si mesmo.
Eu julgava que esta seria a última temporada e, confesso, fiquei muito contente quando percebi que ainda não acabou.
"Daryl Dixon" continua a ser uma série que se vê só pelo cenário. Temos Londres e Barcelona pós-apocalipse, temos paisagens deslumbrantes da Costa da Morte, temos o Real Alcázar de Sevilha (com uma arquitectura e decoração árabe tão Mil e Uma Noites que a câmara deu a volta ao salão todo), temos a vila de Sepúlveda. Voltar à América? Não, não. Por esta altura até só quero ver mais aventuras de Daryl e Carol pela Europa toda, em Itália, na Grécia, na Alemanha, na Roménia, nos países nórdicos, onde puder ser.
E, é claro, ia adorar ver zombies no nosso cantinho: zombies no Terreiro do Paço, zombies nos Jerónimos, zombies no Bairro Alto. E para não dizerem que só falo de Lisboa, estou completamente convencida de que a Torre dos Clérigos dava uma batalha épica de zombies. É só ir lá e percebe-se porquê.

❗OFEREÇO-ME COMO FIGURANTE❗

Zombies
Se há uma coisa que a franchise "The Walking Dead" sabe muito bem é que os espectadores estão aqui, principalmente, pelos zombies. Estamos tão "mal habituados" a zombies espectaculares em todos os episódios que quase nos esquecemos de que isto dá trabalho, custa dinheiro, e, acima de tudo, exige uma criatividade formidável. Admiro a inventividade da equipa que constantemente tenta criar zombies diferentes, adaptados ao cenário, à natureza, e até à cultura de cada local, bem como maneiras originais de os matar. Isto não é pequena proeza se tivermos em conta a longevidade da série. Nesta terceira temporada há zombies submarinos, zombies a arder e zombies-marionetas. Mas o que me surpreendeu mais foram as duas cenas em que tanto Daryl como nós, veteranos do apocalipse, nos questionámos por momentos se estávamos a ver zombies ou outra coisa. Não esperava que uma franchise com 16 anos de existência ainda nos conseguisse criar esta sensação de alarme e sobressalto.


Se a próxima temporada correr tão bem, ou superar, esta foi a melhor spin-off a sair de "The Walking Dead".
Por último, um spoiler não relevante mas interessante: Daryl Dixon mata o zombie do rei de Espanha. Isto, na cultura europeia, é significativo. Quem mata um rei é uma de duas coisas: um condenado à morte, se lhe correr mal, ou o novo rei, se lhe correr bem. Simbolicamente, Daryl Dixon já conquistou uma coroa. Por outra perspectiva, a série está a abordar o tema que "The Walking Dead" tem explorado desde o início. Num mundo pós-apocalipse, em que as estruturas da sociedade desmoronaram há muito tempo, qualquer zé-ninguém pode matar o zombie do rei de Espanha sem consequências.
Foi engraçado, porque o sobrevivente inglês também refere que actualmente se pode ir ao palácio de Buckingham e dormir na cama da rainha, e, com alguma sorte, se pode encontrá-la a deambular, zombificada, pelos corredores. Outra maneira de dizer a mesma coisa.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, pós-apocalíptico


domingo, 3 de maio de 2026

Burial / O Enterro (2022)

Depois do suicídio de Hitler, um grupo de soldados russos tem a missão de transportar o corpo até Moscovo para o apresentar a Estaline. A caminho, são interceptados por uma milícia de nazis que não se resigna ao fim da guerra e fará tudo para resgatar o cadáver e negar a morte do líder.
A ideia até era "interessante", o que aconteceu ao corpo de Hitler, mas o último consenso quanto ao assunto, confirmado por testemunhos de pessoas que estavam no bunker (à altura, pessoal administrativo muito jovem), os corpos de Hitler e Eva Braun foram levados para o exterior e incinerados porque Hitler não queria o seu cadáver profanado como no caso de Mussolini. É claro que pode haver sempre especulações e teorias da conspiração, mas não me parece que este filme as tencionasse alimentar.
Foi essa a minha questão durante o filme todo: qual é o objectivo deste filme?
Durante o percurso, os soldados e os locais são confrontados com algumas atrocidades que aconteceram durante a guerra, nomeadamente a violação de mulheres por parte dos soldados russos e o fanatismo dos nazis. Tudo bem, podia ser um filme de reflexão. Mas está bem feito? Aqui é que está o problema. É tudo feito de forma muito superficial e acaba por ser um filme de tiros. Se não fosse o cadáver de Hitler isto passava como mais um filme de guerra/acção, mas tinham mesmo de ir explorar o assunto, em 2022? Porque me pareceu que usaram o cadáver de Hitler para promover o filme, que de outra forma nem era comentado. 
E, mesmo com o cadáver de Hitler, o filme não deixa de ser muito fraquinho. Era melhor terem feito um filme só de tiros, era mais honesto e não enganava ninguém. Não gostei do filme e não gostei da pseudo-profundidade.

11 em 20


domingo, 26 de abril de 2026

Outlander: Blood of My Blood (2025 - ?)


"Outlander: Blood of My Blood" é uma prequela de "Outlander" e dirigido aos fãs do original. Vinte anos antes de Claire passar pelo Círculo de Pedras e encontrar-se na Escócia do século XVIII, o mesmo aconteceu aos pais dela. Henry e Julia Beauchamp conheceram-se por correspondência durante a Primeira Guerra Mundial, casaram e tiveram uma filha, e decidiram ir passear à Escócia numa viagem romântica a dois. Como se percebe em "Outlander", a capacidade de viajar no tempo através das Pedras parece ser hereditária. Por acidente, Henry e Julia deparam-se com as Pedras e são transportados para o século XVIII, exactamente para o local onde Claire vai chegar mais tarde.
Na última temporada de "Outlander" (isto é, a última que eu vi) questionei-me muito sobre como é que funcionava a viagem no tempo através das Pedras. No início achei que era aleatória ou sobrenatural, isto é, que levava as personagens até ao seu "destino", e também não quero que isto se torne científico (precisamente 200 anos antes) porque estraga o romantismo. Mas é o que acontece em "Outlander: Blood of My Blood", em que Henry e Julia são transportados para o tempo de juventude de muitas personagens mais velhas de "Outlander", como Murtagh e Jocasta. Infelizmente para mim, já não me lembrava das primeiras temporadas de "Outlander" e com certeza perdi muitos pormenores sumarentos destas personagens importantes na família e amigos de Jamie.
Henry e Julia chegam separados e ficam separados durante muito tempo. Estariam a poucos quilómetros de distância, mas isto, no século XVIII, podia significar que duas pessoas nunca mais se encontrassem. Henry chega a acreditar que Julia morreu. Julia está grávida e tem de se sujeitar a ser uma serva na casa do laird para proteger a vida do seu filho.
Entretanto, desenrola-se um novo romance. Ellen MacKenzie, filha solteira de um laird falecido recentemente, apaixona-se por Brian Fraser, filho bastardo de outro nobre. A paixão já seria proibida o bastante porque os irmãos de Ellen a querem casar por aliança com outro clã, mas é pior porque os clãs MacKenzie e Fraser são inimigos. Uma espécie de Romeu e Julieta com muito soft-porn.
Henry e Julia vão conseguir reencontrar-se? Ellen e Brian vão ser forçados a abdicar do amor que os une?
"Outlander: Blood of My Blood" é uma série romântica, como o original, e é só para quem gosta destas coisas. É claro que também há a reconstrução histórica, os sotaques, a música folk e as gaitas-de-foles, as paisagens, os castelos, os trajes de época, que enchem o olho e o ouvido, mas é acima de tudo uma história ultra-romântica, onde o realismo fica em segundo plano, e deve ser vista como tal.
Pessoalmente, achei que o enredo é um pouco apressado e que os acontecimentos são muito mais forçados do que no original, mas quem gosta de "Outlander" não vai sair daqui desiludido. Fiquei surpreendida porque comecei a ver a série julgando que seria uma única temporada (não estava a imaginar enredo para mais, tendo em conta o original) mas vai continuar. Que venham então mais mancebos de kilt e donzelas de espartilho sobre a camisa interior branca, kilt e camisa desapertados por dedos sôfregos durante encontros secretos em casebres de pedra rústica nas colinas verdejantes, e... 

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Outlander, séries de época, História, romance

domingo, 19 de abril de 2026

Ouija: Origin of Evil / Ouija: Origem do Mal (2016)

[contém alguns spoilers, não revela o final]

Tendo em consideração que achei o primeiro "Ouija" um filme chato, e bem chato, esta prequela deixou-me de boca aberta. Cá está uma das excepções que confirmam a regra.
Em 1967, uma falsa vidente, viúva e em dificuldades económicas, tenta ganhar a vida a fazer "sessões espíritas" com a ajuda das duas filhas menores. Lina, a filha adolescente, sugere que utilizem uma ouija board para compor o número, coisa que a mãe decide experimentar. Mas a filha mais nova, Doris, tem de facto dons mediúnicos. Com a utilização da ouija board, Doris entra em contacto com espíritos maléficos.
Para começar, só o ambiente de época já faz o filme valer a pena. O enredo centra-se no drama da viúva e das filhas órfãs, e eu fiquei tão interessada que estive sempre a torcer para que o filme resultasse. E resulta, em certa medida. E depois acontecem coisas que nos fazem torcer o nariz.
A certa altura isto parece que vai ser uma coisa tipo "O Exorcista". A miúda fica possuída, um padre quer fazer um exorcismo... Mas depois o filme dá uma reviravolta, como se nos provocasse: "pensavam, não pensavam?" Sim, pensávamos. Geralmente estes truques não funcionam muito bem sem ser pela mão de um mestre. Funciona aqui? Já lá vou.
Estava tudo a correr muito bem. Doris, a miúda, protagoniza algumas cenas que nos deixam realmente inquietos. Não digo que metam medo, mas perturbam. Acho que este filme também beneficia do anterior, uma seca tão grande que os espectadores da prequela não estão à espera de serem minimamente perturbados.
Mas depois a coisa complica-se. Afinal a mãe e as filhas estão a viver numa casa assombrada. Doris está a contactar o espírito de um polaco que sobreviveu aos campos de concentração onde havia um médico nazi que fazia experiências com os prisioneiros. Este polaco sobrevive e vai para a América, onde acaba num hospital psiquiátrico onde reconhece o mesmo médico nazi do campo de concentração que continua a fazer experiências nos pacientes. Coincidência do caraças e azar do caraças. Este tal médico nazi fazia as experiências na casa de Doris e os corpos estão enterrados na cave. São os fantasmas destas vítimas que estão a possuir Doris agora. Ok, aceito. Fantasmas injustiçados e vingativos e isso tudo.
Mas pensemos melhor. A família está a viver na casa estes anos todos, a fazer falsas sessões espíritas, e só agora é que os espíritos se manifestam à miúda, que realmente tem poderes psíquicos, por causa de uma ouija board? Não. Não bate certo.
Esta história também está mal contada. O tal médico nazi é mal aproveitado. Aparentemente, são as vítimas que se estão a manifestar, o médico deve ter morrido e foi enterrado noutro sítio. Desperdício de médico nazi. Ainda vi o filme duas vezes para perceber se me tinha escapado alguma coisa, mas não. Afinal, o médico até podia ter sido parente do pai das miúdas, mas também não.
Também não percebi o fantasma malvado. Este fantasma malvado tem olhos simpáticos. Eu até pensei, sinceramente, que se ia revelar um espírito bom que ia ajudar a família. Há aqui qualquer coisa que não bate certo porque qualquer pessoa de Hollywood (ou até eu) sabe fazer um monstro assustador, e este monstro parece um desenho animado para crianças. Deu-me a entender que metade do filme já estava feita para uma coisa e foi "remendada" para outra. Algo de estranho se passou com este filme, o que é de facto o maior mistério de todos.
Mas funciona? Aí é que está o mistério. Funciona. Até ao final, nem me passou pela cabeça que fosse uma prequela. Mas foi exactamente aqui, no final, quando tentaram estabelecer a ligação entre a prequela e o original, que o filme deixou de fazer sentido. Nem que quisesse explicar, não consigo. Vi duas vezes e não percebo o final. Até tentei fazer um esforço para me lembrar do original, mas mesmo assim não chego lá. Tendo em conta a qualidade surpreendente do todo, talvez isto tenha sido um truque mal conseguido.
Depois de ver o filme descobri que foi realizado por Mike Flanagan. Isso explica a qualidade inesperada desta continuação de um filme medíocre, mas não há aqui nada ao nível de um "The Haunting Of Hill House", nem nada que o valha. Mesmo assim, metade do mistério está explicada. O final desastroso é que não está.
Este ainda não foi o filme de terror com ouija boards que eu queria ver, e há muito que explorar com as ouija boards. "Ouija: Origin of Evil" remete o original para um canto obscuro, mas, conhecendo o realizador como conheço, eu diria que algo aqui correu muito mal e não tem a ver com espíritos do outro mundo. 

13 em 20 (que podia ter sido muito mais se não fosse o final desastroso)

PS: O "fantasma malvado" é o actor Doug Jones, que eu só fiquei a conhecer como Barão Afanas em "What We Do In The Shadows", mas já foi o Fauno em "Pan's Labyrinth", a criatura aquática em "The Shape of Water", Count Orlok em "Nosferatu" e o Bye Bye Man em "The Bye Bye Man", entre outros, só que estava sempre irreconhecível.


domingo, 12 de abril de 2026

The Last of Us (2023 - ?) [segunda temporada]

Eu nem ia falar mais sobre "The Last of Us", mas gostei muito de um dos episódios.
Se a primeira temporada me decepcionou, da segunda ainda gostei menos. Continuo a achar a miúda embirrante, desmiolada e insuportável, pondo tudo e todos em risco sem pensar duas vezes. Joel faz muita falta. Na falta de Joel, a série enveredou por um romance adolescente em que uma das miúdas pergunta à outra "como é que avalias o meu beijo de 1 a 10?" Oh, pelo amor da santa.
Infectados continuam a ser escassos. Temos um confronto muito tenso com os cabeças-de-fungo logo nos primeiros episódios e fica por aí. Se calhar fomos mal habituados por "The Walking Dead" com zombies em todos os episódios, mas, por outro lado, isto também é uma série de zombies.
Só estou a escrever sobre a segunda temporada porque o sexto episódio, "The Price", é mesmo muito bom. É um episódio dramático e humano que podia estar numa série completamente diferente, mas é bom, mesmo sem Infectados.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, Young Adult, mundos pós-apocalípticos

 

domingo, 5 de abril de 2026

There's Something In The Barn / Há Alguma Coisa No Celeiro (2023)

Atenção mamãs e papás, avós e avôs! Este pode ser um bom filme de Natal.
Uma família americana muda-se para a Noruega onde espera ter um Natal de sonho, mas os seus usos e costumes irritam os elfos residentes.
Gravei isto por engano, só pelo título e pela sinopse, pensando que era um filme de terror. Percebi logo que não era, mas já estava gravado... Por outro lado, o título não é inocente. "There's Something In The Barn" contém alguns elementos clássicos de filmes de terror adaptados aos filmes natalícios. Como? O que existe no celeiro são elfos (mas parecem-me mais gnomos) que, quando provocados, se transformam numa autêntica horda viking. A família não cumpre as regras e os gnomos estão zangados. Algumas cenas não são aconselháveis a crianças que ainda não percebem que é tudo a fingir. Num filme a sério, estas mortes seriam pavorosas. Claro que aqui é tudo muito suavizado. Depois de muita violência à americana, a moral da história é bonita: é preciso ter respeito mútuo pelas culturas diferentes da nossa. Não apreciei aquela treta de que a família é que é importante porque não gosto de ensinar mentiras às crianças, e é por isso que detesto filmes natalícios. Mas gostei dos gnomos zangados.
Aconselho este filme como introdução das criancinhas ao Terror.

12 em 20 (dentro do género)

 

domingo, 29 de março de 2026

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?) [segunda temporada]


Gostei mais da segunda temporada de "Interview With The Vampire" e vou dizer porquê. Se a primeira temporada parecia outra adaptação do livro ponto por ponto, só que um século mais tarde e com personagens ligeiramente diferentes, na segunda já se percebe que é toda uma adaptação das Vampires Chronicles, incluindo "The Vampire Lestat", "The Vampire Armand", e até livros posteriores como "Merrick" ou "The Queen of the Damned". Assim já se compreende que tenham sido tomadas bastantes liberdades de modo a tornar o fluir da narrativa mais adequado a uma série de televisão, mas questiono algumas escolhas que deturpam e desvirtuam o original.
A começar pela própria natureza dos vampiros. Não consigo aceitar a opção de sexualizar os vampiros como se isto fosse um Young Adult qualquer, quando aquilo que sempre distinguiu os vampiros de Anne Rice foi a sua existência transcendente e "fora da natureza", o que é um aspecto importante e distintivo deste universo vampírico. Igualmente importante é a questão de abdicar do prazer sexual em troca da vida imortal, o que é compensado pelo êxtase superior do sangue, inimaginável para nós humanos. Isto é tão importante que Marius pergunta explicitamente a Armand, antes de o transformar, se está disposto a viver sem o prazer carnal. Não há sexo entre os vampiros, e humanizá-los é banalizá-los. Se calhar é preciso ter lido os livros para compreender a relevância deste ponto no original, mas tenho a certeza de que também funcionaria na série tal como funcionou no filme. Até já ouvi a teoria de que Anne Rice não incluiu homossexualidade explícita para não ser censurada. Balelas. "Entrevista Com o Vampiro" foi publicado em 1976, um livro para adultos, e Anne Rice sempre incluiu o sexo que quis. Aliás, basta ler os livros.
Quanto à adaptação em geral, na segunda temporada algumas coisas são fiéis ao original, outras não, e algumas até me confundiram e tive de ir consultar o enredo dos livros para tirar as dúvidas. Por exemplo, não me lembrava dos diários de Claudia, e com razão, porque só aparecem em "Merrick". Foi uma boa opção inclui-los no contexto da entrevista com Daniel Molloy.
Por outro lado, Louis e Claudia fazem a viagem pela Europa que foi excluída do filme. Depois de atacarem Lestat, Louis e Claudia vão em busca de outros vampiros que lhes ensinem o que Lestat lhes escondeu, e começam precisamente pelas terras da Roménia e arredores, onde há mitos de vampiros. Não me lembro muito bem do que aconteceu no livro porque é quase uma nota de rodapé, mas efectivamente encontraram um tipo de vampiros "imperfeitos" e monstruosos. Isto não foi muito importante no livro, mas na série a viagem acontece durante a Segunda Guerra Mundial, o que fornece logo um pano de fundo bastante mais interessante. 
Quase se pode considerar que a série é uma espécie de história alternativa com os mesmos personagens, ou, em alguns casos, personagens inspirados nos originais.
Por falar nisso...

Lestat
Sam Reid é o melhor Lestat até ao momento. E não é fácil interpretar Lestat, um personagem complexo que tanto seduz como intimida. Tom Cruise conseguiu capturar o aspecto frívolo e narcisista que Louis descrevia, Stuart Townsend fez um bom trabalho como rock star, mas Sam Reid consegue de tal modo encarnar a totalidade do personagem que até arrepia vê-lo no écran. A presença felina de um leão. Encantador, fluido, letal, convencido, poderoso, atormentado, vulnerável, Lestat é tudo isto e mais. Pergunto-me se Sam Reid leu os livros todos ou de que outro modo se preparou, e queria mesmo saber e fazer-lhe a pergunta.
Quanto a Louis, e alguns fãs que me perdoem se preferiam um Louis menos macambúzio, o verdadeiro Louis foi mesmo encarnado por Brad Pitt e contra factos não há argumentos. Nesta segunda temporada também temos o incêndio no Teatro dos Vampiros, mas nada bate a imagem icónica de Brad Pitt entre as chamas.

Louis / Armand / Lestat
Louis e Armand fazem um casal muito fofinho e adorável, mas nunca aconteceu. Depois do Teatro dos Vampiros, Louis e Armand realmente fogem juntos e são companheiros por umas décadas, e acabou. Algumas décadas, em anos de vampiro, é o equivalente a um ano ou dois, se tanto. Se a relação foi mais do que amizade, e é tão irrelevante que nem me lembro, não teve qualquer importância. Louis e Armand estavam ambos fragilizados e a precisar de um ombro amigo. Não me lembro de Armand alguma vez ter expressado paixão assolapada por Louis, e Louis sempre esteve noutra (noutro) e nunca deixou de estar. Nos últimos livros, Louis está efectivamente a viver na casa de Armand em Nova Iorque, mas com isto quero dizer "abancar" e não "viver juntos", aliás, como outros vampiros da intimidade de Armand que também lá moram por ser mais prático. Lestat tinha regressado a New Orleans, e, se bem me lembro, Louis não queria voltar a viver lá, precisamente por causa das memórias de Claudia, embora estivessem ambos de boas relações.
Por falar em Lestat, se alguma vez Lestat e Armand foram amantes teria sido "uma por piedade" da parte de Lestat. Este é um dos conflitos mais relevantes das Vampires Chronicles e central à motivação que levou aos acontecimentos de "Entrevista". Armand conheceu Lestat no século XVIII e ficou muito impressionado, talvez até apaixonado, ou pelo menos apaixonado pelo ideal de liberdade que Lestat representava, mas Lestat não correspondeu. Armand, por despeito, e talvez ciúme de Louis e Claudia, faz o que faz para atingir Lestat. Por seu lado, Lestat sempre escondeu a existência dos vampiros europeus de Louis e Claudia precisamente para os proteger. Só sabemos isto nos livros posteriores a "Entrevista".
Nos livros, Lestat chama a Armand "a harpia", o que é bastante revelador. A série mostra um pouco desta faceta "harpia" de um dos personagens mais perigosos e maquiavélicos das Vampires Chronicles, mas nada que se compare aos livros. Até acho o Armand da série bastante simpático, alguém que age por amor e com quem é fácil empatizar.
Aqui, Armand é na verdade Arun, de Nova Deli (ele diz Deli e não conheço outra), mas nos livros Armand é Andrei, de Kiev. Isto pode não ser relevante se a série preferir não abordar os traumas religiosos de Armand como devoto da Igreja Ortodoxa. Aliás, foi esta cultura cristã que o levou a defender as ideias medievais de que o coven Children of Darkness, o seu clã antes do Teatro dos Vampiros, tinha por missão divina servir a Deus praticando o caminho do Diabo.
De certa forma, compreendo que fazer de Louis e Armand um casal que só se desfaz no fim da entrevista com Molloy, levando Louis a regressar a Lestat, é uma opção narrativa como qualquer outra que funcione num contexto de série. Nos livros, tudo isto demorou séculos. Mas o que vemos na série não é a história original, e, em certos pontos importantes, na minha opinião, afasta-se demasiado dela e perde muito ao fazer isso. Ninguém vai ficar a conhecer a história e a compreender os livros a partir desta série, nem lá perto.

Teatro dos Vampiros e Claudia
E por falar em Teatro dos Vampiros, tinha muitas dúvidas de que isto resultasse num pós-guerra do século XX, mas a série conseguiu mostrar um teatro entre o burlesco e o avant-garde, e o facto é que fiquei convencida. O actor Ben Daniels (a quem eu já conhecia de "O Exorcista", série) faz um papelão como Santiago e vende aquilo tudo.
Já quanto a Claudia, continuo não convencida. Tal como referi na critica à primeira temporada, não faz sentido que o argumento de Armand e dos outros vampiros seja "demasiado nova para existir por conta própria". Aqui Claudia tem 14 anos e o próprio Armand foi transformado algures antes dos 17, motivo pelo qual lhe chamam "o querubim eterno" (e motivo pelo qual Antonio Banderas foi um erro de casting). O argumento não colhe. Podiam ter explorado melhor o conflito precedente que expus acima, mas aqui a série andou completamente a patinar. Afinal, Armand queria ficar com Louis ou estava-se nas tintas se ele fosse condenado à morte? Porque se queria ficar com Louis, Armand, a harpia, o mestre manipulador, teria traído o coven todo antes que o coven pensasse em traí-lo. Não se manipula Armand; Armand é que manipula tudo e todos. A série não está a fazer justiça ao personagem.

Akasha
E aqui está outro mau exemplo de manobrar a história para a "comprimir". A certa altura, na série, Armand e Louis vão os dois matar Lestat. Isto nunca aconteceu. Lestat diz-lhes que não lhe podem tocar porque ele tem o sangue de Akasha. Isto muito menos. Eles sabem que ele tem o sangue de Akasha. Estavam lá os três e quase morreram todos. E Akasha nunca mais é mencionada nem explicada, ainda por cima, a Rainha dos Malditos que tem dois livros, um filme, uma das melhores bandas sonoras jamais realizadas, e milhares de pessoas pelo mundo inteiro a porem o seu nome aos animais de estimação. E Akasha é assim tão vilmente descartada numa cena que nunca aconteceu nem tinha razão para acontecer. Mais um momento em que a série andou a patinar.
Se Lestat já tinha o sangue de Akasha na altura, isso significa que ela já tinha despertado, ou talvez Lestat tivesse sido levado ao Santuário por alguém como Marius? Isto é importante porque ter conhecimento acerca de Akasha (que Lestat não tinha na altura) altera a dinâmica das Vampire Chronicles. Será que ainda vamos ver Akasha despertar (como no filme), ou será que vão transformá-la numa personagem completamente diferente para nos trocar as voltas? E as gémeas? Confesso, neste caso gostava que as gémeas tivessem uma história diferente porque nunca fui grande fã delas nos livros. Mas aquela história no Egipto, isso é para manter! Duvido que mantenham porque é muito chocante. E já agora também podiam dar mais profundidade a Akasha. Sempre achei que aquela motivação de vilã de "matar os homens todos menos Lestat e ser adorada como rainha do Céu" era muito fraquinha. Aliás, "A Rainha dos Malditos", apesar de ter tanta acção, é um dos livros mais fraquinhos da saga. Ora aqui está um caso em que a série me podia agradar e surpreender se desse mais tridimensionalidade às personagens.

Anne Rice só houve uma
Apesar de tudo, não estou completamente pessimista para a terceira temporada. A série teve boas ideias, como o hobbie de fotografia de Louis (se ele desistiria tão facilmente é que já não acredito) ou a presença de um agente da Talamasca. Eu não esperava um agente da Talamasca, mas quando Daniel Molloy pergunta "a que agência é que você pertence, é demasiado pálido para ser Mossad", cheguei logo lá. Isto é ser uma ultra-fã ou, como dizem os miúdos agora, uma nerd. Este agente da Talamasca é Raglan James, e não vou dizer mais nada por causa dos spoilers. Eu queria ver isto, queria mesmo ver isto, embora eu própria concorde que o livro em causa não pode ser adaptado sem modificações.
Se a segunda temporada foi melhor, em abrangência e tom, será que a terceira acerta? Também não estou assim tão optimista. As histórias de Anne Rice são o chamado "character driven", histórias conduzidas pela personalidade da personagem e não ao contrário, e quanto mais alteram as personagens mais riscos correm de criar inconsistências com o original se não partirem para uma história completamente alternativa (o que foi o problema no caso de Claudia, que ficou mal vendido). Criar uma boa história alternativa com estas personagens não é impossível, mas não é para toda a gente. Façam o fan fic que quiserem, mas façam-no bem, e sim, esta série é completamente fan fic. Como disse aqui de outra série, ou vai ser muito bom ou vai ser muito mau. A culpa não vai ser do original.
Por último, regresso a Santiago para sublinhar uma coisa que a série fez bem. Para quem nunca leu os livros, reparem em como Santiago e Armand oferecem a morte como uma tentação sedutora. A vítima deixa de o ser e entrega-se voluntariamente à ideia de que uma morte consciente, uma morte suave e sem dor, é melhor do que uma vida de sofrimento. Os vampiros não fazem isto com hipnose mas com factos e filosofia. E naquele momento o visado rende-se e deseja a morte, e foi esta perspectiva sombria, mas lúcida, que fascinou milhões de fãs das Vampire Chronicles. Não é para toda a gente, mas a série conseguiu transmitir isto.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, mas eu vi duas

PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, Anne Rice, Vampire Chronicles, Interview With The Vampire, The Vampire Lestat, The Vampire Armand, etc

 

domingo, 22 de março de 2026

Ouija / Ouija, o Jogo dos Espíritos (2014)

Uma rapariga suicida-se, aparentemente, depois de usar uma ouija board, mas a sua melhor amiga duvida que tenha sido suicídio. O grupo de amigos reúne-se com a mesma ouija board numa séance para tentar contactá-la, mas o que responde é outra coisa.
Como é que esta premissa foi tão mal aproveitada? Vou já directamente ao ponto. Este filme é chato. Isto nem é um spoiler porque se descobre logo nos primeiros 15 minutos: a rapariga não se suicidou, foi assassinada por um fantasma. A partir daqui, o fantasma começa a matar os amigos um por um e só resta saber quem é que se safa no fim.
É por isso que é chato. Este é o enredo de milhões de filmes mata-adolescentes, só que com um fantasma. O início até prometia. Tanta coisa que se podia fazer com um suicídio causado pelo contacto com o Além. Mas não, teve de ser o mesmo de sempre.
"Ouija" estava a contar muito com a actriz Lin Shaye, a médium de "Insidious", mas não há aqui nada que salve o déjà-vu do enredo. Eu estava com dificuldade em não adormecer.

11 em 20

 

domingo, 15 de março de 2026

The Leftovers (2014 - 2017)

2% da população mundial desaparece sem deixar rasto: novos, velhos, crianças. Algumas famílias não perdem ninguém, algumas pessoas perdem a família toda. Embora a sinopse nos tente com este mistério, a série é principalmente um drama sobre os sobreviventes.
Ouvi falar de "The Leftovers" em comentários muito elogiosos, mas comecei a perceber que nunca ia ter respostas nenhumas aí pelo terceiro ou quarto episódio, especialmente quando reparei no nome Damon Lindelof nos créditos (criador da série e também de "Lost"). Não costumo deixar histórias a meio mas desta vez ponderei seriamente parar de ver, o que já diz muito. Por descargo de consciência vi a primeira temporada até ao fim. Depois fui ler em mais críticas que efectivamente não há respostas nas três temporadas da série. Então de onde é que vêm os elogios? Bem, para quem quiser um bom drama sobre fé e luto, com personagens da "vida real", complexos e falíveis, a série funciona. Para quem, como eu, foi atraído pelo mistério (e nem vou falar da desonestidade de prometer um mistério destes sem a menor intenção de o resolver), vai ser uma decepção.
Não tenho nada contra um bom drama, ou até um bom drama num qualquer ambiente não realista que sirva apenas de pano de fundo, mas o que me chateou em "The Leftovers" (assim que percebi do que a casa gastava) até nem foi isso. 
O drama centra-se em torno de uma família que não tem nada de tão interessante que o mereça excepto precisamente o facto de estar a reagir ao fenómeno do Desaparecimento. A mãe tornou-se niilista e juntou-se ao culto do "Senhor, Dá-me Um Cancro Depressa", uma seita que se veste de branco, faz voto de silêncio e fuma cigarros atrás de cigarros, os Remanescentes Culpados, cujo intuito é não deixar que os Desaparecidos sejam esquecidos.
Aliás, não é o único culto. Por alguma razão, as pessoas estão convencidas de que o Desaparecimento foi o Rapture (uma crença evangélica do Arrebatamento dos justos, em vida, para o Céu), o que também me deixou um pouco perplexa. Ninguém pensou em abdução colectiva por extraterrestres? A certa altura uma personagem (de ainda outro culto) levanta a hipótese de armamento secreto, mas só a deixam dizer uma frase. Neste estado de coisas, um padre trava uma batalha solitária para provar que não foi o Rapture porque algumas das pessoas "levadas" não eram boas. E ainda existe outro culto em torno de um homem que promete curar a dor em troco de compensação monetária.
Isto já são muitos cultos em menos de seis episódios e eu considerei que era americanice a mais para o meu gosto, mas achei piada aos suicidas "passivos" da seita do tabaco. Como fumadora, até a mim fez impressão a quantidade de cigarros que esta gente fumava. Felizmente, muitos dos cigarros estavam apagados e os actores só fingiam que fumavam. Confesso que gostei de Ann Dowd, a Tia Lydia de "The Handmaid's Tale", como líder do culto. Ann Dowd é uma grande actriz e tem jeito para fanática. Se calhar não tinha chegado ao fim da temporada se não fossem os maluquinhos dos cigarros.
Mas o que me chateou mesmo foi a questão dos cães. Com o desaparecimento de alguns donos, os cães abandonados começaram a formar matilhas selvagens. Um homem anda a matá-los a tiro, justificando que "já não são os nossos cães". Ora, isto remete-nos para o excelente princípio de "The Thing", e deixa no ar a hipótese sinistra de que algo de maléfico está a possuir os cães, muito possivelmente relacionado com o Desaparecimento. Mas afinal não. As matilhas caçam nos bosques, nem atacam as pessoas, um dos cães até volta a ser doméstico no fim, e o gajo andava só a praticar tiro ao alvo por desporto. Como sei que a maioria das pessoas não gosta de ver matar cães, e que não havia razão nenhuma para os matar, isto foi só para o efeito de choque e, mais uma vez, a promessa de outro mistério. Como não há mistério nenhum, não estou para levar com crueldade gratuita.
Teria sido melhor e mais honesto, na minha opinião, fazerem um drama sem mistérios, sobrenaturais ou outros, sobre uma família em crise, uma mãe que perdeu o marido e os filhos, um padre em cruzada, um curandeiro, um gajo que mata cães por desporto, e os maluquinhos dos cigarros. Até ficava uma coisa interessante tipo "Twin Peaks" ou "Fargo". Sendo assim, tenho melhor para ver.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: não se perde nada se não se vir, mas muita gente tem a opinião contrária

PARA QUEM GOSTA DE: Lost, mistério, drama, ficção científica (?), sobrenatural (?)


quinta-feira, 12 de março de 2026

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domingo, 8 de março de 2026

The Northman / O Homem do Norte (2022)


Amleth, príncipe viking, jura vingar-se do tio que matou o rei e usurpou o trono.
Não quero acreditar que este filme seja de 2022. Este filme lembrou-me "Conan, o Bárbaro" de 1982 (e não sou a única), e isto não é um elogio. Até perdoava se o filme tivesse sido feito algures até ao ano 2000, mas depois de "Vikings" e "The Last Kingdom" como é que alguém pode achar que "The Northman" tenha alguma relevância? Será que o realizador alguma vez viu as séries? Será que viu os filmes de vikings que têm sido feitos entretanto?
"The Northman" não foi feito para ser realista, compreendo isso. Diria mesmo que o realizador viu "Conan, o Bárbaro" quando era pequenino e quis fazer a sua versão. Há aqui muita Fantasia e magia. O herói, Amleth, ouve a profecia de uma vidente e tem de encontrar uma espada "mágica" para matar o tio, e tem de fazê-lo em determinado lugar a determinada hora. Porquê? Porque sim. O tio não é uma criatura sobrenatural e Amleth tem muitas oportunidades de o matar... mas a profecia! Isto é estúpido, mas se fosse só um filme de Fantasia eu deixava passar. Se fosse só um filme de Fantasia, isto era para miúdos. Mas o realizador também quis utilizar rituais e costumes sangrentos dos vikings, pseudo-realistas, pensando que nos chocava, como se nunca tivéssemos visto a porno-tortura de "Vikings".
É por isso que pergunto, qual é a relevância deste filme em 2022, quando já vimos muito melhor Fantasia e muito melhores reconstituições históricas? Até "The 13th Warrior" ("O Último Viking"), com Antonio Banderas, de 1999, é um filme mais interessante e mais relevante. Não percebo um filme destes em 2022.
No meio da patetice, há uns poucos destaques que não salvam o filme mas que o tornam mais suportável. Nicole Kidman faz o melhor que pode do papel que lhe é dado. Alexander Skarsgård (o Eric de "True Blood") provou-me finalmente que é um grande actor numa cena que podia estar num filme de Ingmar Bergman, mas é mesmo lá para o fim. Mal desperdiçado actor e mal desperdiçada cena. Mas também é uma cena que parece ter saído de outro filme e escrita para um personagem que fez uma jornada de herói e que chegou ao seu limite. O pobre Alexander Skarsgård não tem tanta sorte, passa o filme todo no mesmo registo de vingança, sem a menor evolução psicológica.
Björk faz de vidente, mas não a reconheci. Com aquela máscara na cara, nem podia reconhecê-la. Fica aqui a dica para os fãs.
"The Northman" é um filme de 2022 que tenta ser "Conan, o Bárbaro" mas que consegue ter ainda menos interesse cinematográfico, uma mistura falhada de Fantasia e pseudo-realismo, uma coisa que só pode agradar a quem nunca viu os filmes e séries de vikings da última década. Volta, Michael Hirst, estás perdoado.
Só uma última nota de que me lembrei a posteriori. Alexander Skarsgård é irmão de Gustaf Skarsgård (o Floki de "Vikings") e se calhar foi ao papel do irmão que Alexander Skarsgård foi buscar inspiração. Na verdade, aquela cena brutal fazia sentido em "Vikings". Pelo menos sabemos que alguém viu a série antes de entrar neste filme.

11 em 20

 

domingo, 1 de março de 2026

El Cadáver de Anna Fritz / O Cadáver de Anna Fritz (2015)


Anna Fritz, uma actriz jovem e bela, é encontrada morta. Um dos funcionários da morgue convida os amigos para virem espreitar o corpo da celebridade. A partir daqui as coisas vão de mal a pior.
Quando li a sinopse pareceu-me talvez um drama, talvez terror. Este filme espanhol talvez seja as duas coisas e também um thriller, mas o melhor é ver sem spoilers e sem ler nada sobre o enredo, por isso vou calar-me.
Quase dava 20 em 20, mas alguns pormenores relacionados com o funcionamento da morgue retiram alguma credibilidade e precisavam de ser mais bem "vendidos". Também não vou explicar por causa dos spoilers, mas posso garantir que só pensei nisto depois. Durante o filme, fiquei petrificada do princípio ao fim.

17 em 20