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domingo, 7 de julho de 2024

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?)

Toda a gente que lê este blog há alguns anos sabe que sou uma FANÁTICA das Vampire Chronicles. Li todos os livros pelo menos duas vezes (excepto o último), vi os dois filmes várias vezes. Há cerca de 15 anos que ouvi falar na produção de “Interview With The Vampire” numa série televisiva e não podia ter ficado mais entusiasmada: finalmente íamos ver a história COMPLETA, com todos os PORMENORES dos livros que fascinaram milhões de fãs em todo o mundo. Falo dos verdadeiros fãs, não daquelas pessoas que viram um filme ou dois e não sabem mais nada da história.
Da mesma forma, não podia ter ficado mais decepcionada, abismada, irritada com a série de que falo aqui e que pode ser tudo menos “Entrevista Com o Vampiro”. Isto não é uma adaptação, isto é fan fic. O que me leva a maior desapontamento ainda com Anne Rice, que sendo produtora executiva teve forçosamente de aprovar todas as alterações. Para quem não sabe, Anne Rice sempre foi contra toda a produção de fan fic (ficção escrita por fãs) do seu trabalho, alegando que deturpavam a história. Mas aparentemente se há dinheiro envolvido já não existe “deturpação”.
O outro problema é: porquê? Porque é que se criou todo um enredo alternativo às Vampire Chronicles quando o original é tão bom e nunca foi adaptado como só uma série de televisão permitiria? Porque é que se quis desiludir milhares de fãs com uma história inferior que atenta contra os elementos mais importantes do original?

Louis de Pointe du Lac
A história começa em 1910. (Porquê, mãezinha, porquê? Porque é que tivemos de perder todo o encanto do século XIX, o século do vampiro?)
Aqui, Louis de Pointe du Lac é crioulo e um proxeneta (dono de bares, casas de prostituição e actividades ilegais em geral). Um Louis crioulo podia ser uma boa ideia, mas a própria questão da raça (incluída por motivos de “diversidade”, algo que nunca teve qualquer relevância no original) coloca contradições gritantes. É Louis quem nos diz que as ruas mal-afamadas de New Orleans eram o único lugar onde um negro podia ser alguém. Por outro lado, o pai dele era dono de uma plantação de açúcar (como no original) que faliu. A família de Louis (mãe, irmã e irmão) é negra e rica. E o pai? Seria branco? Poder-se-á sequer imaginar historicamente que uma família negra pudesse ser dona de uma plantação na Louisiana da altura? * É Louis quem nos diz: não. Então como é que é possível? Mais valia terem retirado completamente a parte da plantação e as coisas faziam mais sentido: Louis de Pointe du Lac, proxeneta, ponto final. (O verdadeiro Louis de Pointe du Lac deve andar às voltas no caixão. Nunca tal criatura sombria e depressiva podia alguma vez estar ligado a negócios de prazer. Aliás, foi esse desprazer com a vida que atraiu Lestat.)
* No segundo visionamento, notei que Louis diz isto sobre a plantação: “Capital acumulado de plantações de açúcar e o sangue de homens que se pareciam com meu bisavô, mas não tinham a sua posição”. Então, a plantação passou para descendentes de escravos? Considerando que seria possível, mesmo assim não invalida a contradição: “as ruas mal-afamadas de New Orleans eram o único lugar onde um negro podia ser alguém”.
Peço desculpa, eu disse que a história começa em 1910. Referia-me ao ano em que Louis conhece Lestat. A série começa nos nossos dias, num dos anos da pandemia, quando Louis, agora instalado no Dubai, convida o jornalista veterano Daniel Molloy para lhe dar uma segunda entrevista 50 anos depois da primeira. Daniel Molloy, que no original também foi transformado em vampiro, está muito mais velho e cínico e sofre de Parkinson. (Esta alteração, por exemplo, não me incomoda muito porque Daniel Molloy nunca foi importante para a história em geral.) Louis, ao que parece, quer corrigir o que disse há 50 anos porque também está mais velho e… mais sábio? Porque mudou de ideias? Porque quer comer Daniel Molloy depois da entrevista? Eu também não sei. A certa altura ambos queimam as gravações em cassete da primeira entrevista, o que não podia ser mais simbólico do que estão a fazer ao trabalho de Anne Rice (com o consentimento da própria). Então este Louis (recuso-me a considerá-lo o “verdadeiro”) começa a contar a história de como era libertino e de como se assumiu como homossexual quando fez sexo com um homem (Lestat). Ui! Isto é mesmo pôr no lixo todos os livros das Vampire Chronicles e deitar-lhes fogo.
Os vampiros de Anne Rice não fazem sexo. O que não quer dizer que não se envolvam em actividades sexuais, mas o êxtase está todo no sangue. Isto não é uma nota de rodapé e não é um pormenor, faz parte da identidade do vampiro de Anne Rice: a imortalidade vem com o preço da perda do prazer sexual, mas o êxtase do sangue supera-o sobremaneira.
Em certos casos, nas Chronicles, alguns vampiros envolvem-se em actividades sexuais com outros vampiros e mortais, o que é sempre representado como uma união profunda, rara, de amor platónico e transcendente, de uma tentativa de voltar a sentir vida. Por exemplo, Lestat e Rowan em “Blood Canticle”. (E sim, temos muitos pormenores bastante explícitos de como estas relações ocorrem, do princípio ao fim. Anne Rice nunca foi exactamente uma púdica.) Transformar isto no mais comezinho da experiência humana é retirar aos vampiros de Anne Rice tudo o que os torna seres únicos e fascinantes, para sempre afastados da humanidade perdida mas nostálgicos por ela, imortais mas amaldiçoados pelo peso da eternidade.
Aliás, a homossexualidade nunca foi escondida nas Chronicles, bem pelo contrário. Muitos vampiros, entre eles Lestat e Marius, assumem-se como bissexuais com todas as letras. Mas Louis nunca o fez e nada nos deu a entender que a sua relação com Lestat não fosse puramente platónica (até ao momento em que Louis o começou a odiar, isto é). A série põe Lestat e Louis a dormirem no mesmo caixão como qualquer casal gay. Isto sim, é fan fic da pior, como certos desenhos que circulam online e que quase me fazem dar razão a Anne Rice quanto à imaginação púbere dos fãs.

Lestat de Lioncourt
Falando no diabo, Lestat é a única personagem que escapa mais ou menos incólume às abominações do enredo. Sam Reid, o actor, consegue personificar o demónio de cabelos loiros como toda a gente o conhece, apesar de o quererem remeter ao papel de marido rabugento que não tem sexo em casa e vai ter com uma amante quando Louis não lhe liga. Isto também é problemático. Lestat nunca se envolve com uma qualquer só pelo sexo. Como no caso de Rowan, o que o atrai a alguns humanos que ele considera extraordinários é um profundo respeito, fascínio e admiração em que o vampiro dá prazer em troca de sangue (ou, no caso contrário, acontecem coisas desagradáveis como em “The Tale of The Body Thief”). Geralmente a amada ou amado são transformados em vampiros também. Não me parece que ele tenha esse respeito imenso pela cantora com que se envolve nesta série.

Claudia
Claudia não é a criança-vampiro de causar pesadelos. É uma miúda de 14 anos, mais ou menos a idade de Armand quando foi transformado. No entanto, com a chegada de Claudia a série começa finalmente a assemelhar-se à dinâmica do original, pelo menos durante uns episódios. Quando a primeira temporada termina, Claudia ainda está viva e o mundo está em plena Segunda Guerra Mundial. Já não são tempos de um Théâtre des Vampires, uma das melhores passagens do livro e do filme. Isto significará que Claudia não morre de todo, o que foi o momento mais dramático e o ponto de não retorno entre Louis e Lestat, já para não falar em Armand? Por outro lado, nesta versão, Armand já não teria razões para destruir Claudia por ser “contra as regras, demasiado nova e dependente para ser um vampiro”. Esta Claudia é bastante auto-suficiente e passa bem por adulta com o vestuário e a maquilhagem apropriada. Aliás, a certa altura ela zanga-se com os “pais” e foge de casa. Nas suas peripécias, conhece outro vampiro de quem se torna amiga e que, tudo dá a entender, a viola de seguida. NÃO! Vampiros não violam vampiros (nem sequer humanos). Primeiro, NÃO CONSEGUEM e não têm prazer sexual. Segundo, a única coisa que lhes interessa noutro vampiro é talvez a amizade, a partilha de um sangue mais potente (como em “Queen of The Damned”), ou a aniquilação do outro por causa do “território de caça”. Obviamente esta gente não leu as Vampire Chonicles e Anne Rice concordou em destruir toda a obra de uma vida. É triste.
Sinceramente, não sei o que estou a ver mas não é “Entrevista Com o Vampiro” de certeza. Pelo menos falaram em Nicholas e Magnus, muito de passagem. Foi pena não terem seguido os livros. Eu teria querido ver o Lestat humano preso na torre, o jovem actor Lestat, e todos os vampiros e vampiras que existiram muito antes de Louis aparecer em cena. O que não queria nada ver era esta abominação. Estou a torcer para que a segunda temporada leve com uma estaca no coração e não apareça à luz do dia. Os verdadeiros fãs fazem melhor em ver o filme do Tom Cruise e do Brad Pitt outra vez.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: NUNCA!

PARA QUEM NÃO GOSTA DE: Anne Rice, The Vampire Chronicles, O Vampiro Lestat, o Vampiro Armand, etc, etc


domingo, 24 de janeiro de 2021

Christ the Lord The Road to Cana, de Anne Rice

Tanto a dizer! Como já tinha referido ao fazer a crítica ao primeiro livro desta série, “Christ The Lord Out Of Egypt”, fui daquelas que estremeceu de medo ao saber que Anne Rice estava a escrever a vida de Jesus. E em primeira pessoa, para ser ainda mais controverso.
Este segundo livro veio tranquilizar-me completamente de que Anne Rice adoptou uma postura respeitosa e reverente, recontando os episódios bíblicos da perspectiva de Yeshua como alguém que lá esteve e os viveu. Nada é esquecido, mas tudo é desenvolvido de maneira que nos surpreende como se nem conhecêssemos a história.
O livro começa não com a última mas com a primeira tentação de Cristo: uma rapariga. Yeshua é agora um homem de trinta anos, carpinteiro de profissão, tal como o pai José e os irmãos adoptivos, de mãos calejadas do trabalho árduo a lixar tábuas e assentar chãos em casas mais ricas do que aquela onde mora a sua família em Nazaré. Yeshua tem um sonho com Avigail, a rapariga, sua parente afastada que o ama. Mas Yeshua afasta o sonho com a conclusão: talvez isto não seja algo para o filho de Deus conhecer.
Nesta altura Yeshua ainda não compreende qual é exactamente o seu propósito divino (especificamente, aquilo que tem de fazer), mas sabe que o tem e sabe quem é.
Anne Rice descreve a vida prosaica de Jesus e da sua família alargada, uma família normal da Palestina ocupada por Roma, mas é quando explora personagens extraordinários que a escrita de Anne Rice brilha. Nenhum personagem poderia ser mais extraordinário do que Jesus, Deus encarnado para alguns, apenas divino para outros. Anne Rice transmite-nos esta dimensão divina em Yeshua mas faz-nos ao mesmo tempo empatizar com o homem. Yeshua é acima de tudo um homem bom, um homem decente, a quem não queremos que aconteça mal nenhum.
Quando chegamos à parte de João Batista no Jordão, a minha vontade era gritar à personagem: não vás! Se vais, é o princípio do teu fim! Fica em Nazaré, casa com a Avigail, esquece lá os pecados do mundo que não são culpa tua. Sê feliz porque mereces.
E aqui eu estaria a falar como o Tentador, o que não é nada bom para a minha pessoa.
Por falar em Tentador, mais uma vez o ponto alto do livro é quando este aparece para tentar Jesus após os quarenta dias no deserto. Anne Rice tem experiência a escrever do ponto de vista de diabos, mas nunca fica claro se Memnoch é o diabo ou apenas um diabo. Aqui, sem dúvida nenhuma, é mesmo o Diabo, Lúcifer, Satanás, o tentador do Jardim do Éden. Lúcifer aparece a Jesus fisicamente igual a ele, mas vestido como um rei. Tal como no primeiro livro, existe em Lúcifer um misto de curiosidade, medo e inveja, mas também atracção, que o torna muito complexo. (Este Lúcifer recordou-me o vampiro Armand no seu primeiro encontro com Louis e Lestat. Ou melhor, e mais certo, o vampiro Armand é que terá sido inspirado na ideia que Anne Rice faz do Diabo, o que é completamente natural tendo em conta a personagem.)
Lúcifer não está ali para antagonizar Yeshua nem para o levar a desistir. Lúcifer pensa que Yeshua vai liderar um exército contra Roma e, sendo o Príncipe deste mundo (está na Bíblia), oferece a sua ajuda. Yeshua rejeita-o, é claro, e Lúcifer tem um ataque de cólera:
“Vais amaldiçoar o dia em que me recusaste! Não vais conseguir fazer isto sem mim! Vais morrer numa cruz romana.”
Lúcifer estava enganado quanto ao propósito do homem cujo nascimento esteve rodeado de “maravilhas e sinais”, mas ao dizer isto Lúcifer não está a fazer uma ameaça. Está a deixar um aviso.
O livro termina na altura em que Yeshua já assumiu o seu papel divino e começa a chamar a si os apóstolos. Jesus diz a Pedro: “Segue-me e far-te-ei um pescador de homens”. Mateus diz a Yeshua: “José contou-me os prodígios e sinais que aconteceram quando nasceste. Se me deres permissão, gostava de os escrever”. E escreveu. Gostei muito que o jovem rico a quem Jesus diz “se queres vir comigo, abandona as tuas riquezas e segue-me” não fosse um estranho qualquer como no episódio bíblico. Aqui ainda tem mais peso. E surpreendeu-me o casamento de Canaã, as bodas de outra personagem que nunca me passaria pela cabeça. Não vou revelar para não estragar a surpresa.
Gostei do surgimento da verdadeira Maria de Magdala, possessa, de quem Jesus expulsa os demónios. (Ao contrário do mito popular, Maria Madalena não era prostituta. O mito decorreu da confusão com outra Maria que também seguia Jesus.) É tudo tão bem encadeado que os episódios bíblicos ganham vida sem nunca perderem solenidade. Anne Rice está a superar-se com esta obra.
Ou melhor, estava. Agora que eu estava a gostar mesmo muito da sua interpretação da vida de Cristo, e decidida a ler o resto até ao fim, Anne Rice já anunciou que não vai continuar a série, originalmente planeada para quatro livros, devido à potencial controvérsia que os livros seguintes poderiam gerar.
Compreendo perfeitamente a posição da autora. Qualquer interpretação da vida de Cristo é polémica. Este mesmo livro, onde eu pessoalmente não encontrei nada de desrespeitoso, pode ser encarado como blasfemo por algum fundamentalista só porque Yeshua pensou (e nada mais fez senão pensar) no que seria uma vida normal com Avigail. Noutros tempos, escrever (e ler) um livro destes era caso para sermos queimados vivos na fogueira. Por isso compreendo perfeitamente a posição de Anne Rice de estar farta de lançar pérolas a porcos. Tenho esperança de que ela tenha continuado a série, nem que seja em segredo, para ser publicada postumamente quando já ninguém a puder chatear. É triste, em pleno século XXI, que fundamentalismos religiosos continuem a obstruir a criação artística a ponto de levarem um autor a perder a paciência e a deixar de escrever.
Recomendo muito os dois livros existentes. Lamento não termos os seguintes.



domingo, 22 de março de 2020

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2 / Amanhecer - Parte 2 (2012)


[contém spoilers; revela o fim]

Quinto e último episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e Bella-a-rapariga-que-nasceu-para-ser-vampira (diz ela). Este foi o melhor dos filmes Twilight e não apenas pela razão mais óbvia: acabou! Estou livre! Adeus!
Não, “Breaking Dawn Part 2” surpreendeu-me porque pela primeira vez desde que vejo os filmes desta série não achei uma autêntica seca, e teve uma batalha e tudo… isto é, mais ou menos. Mas para não estragar nada, e se ainda houver uma alminha que não conheça o final, é melhor parar de ler JÁ e voltar a esta crítica depois de ler/ver o fim. Não digam que não avisei.
Mas agora sem ironia, este foi realmente o meu filme preferido da série, e tudo por causa dos Vulturi. Os Vulturi é que deram vida (e morte) a esta seca toda.
Mas antes disso, tudo aquilo em que me enganei na crítica anterior:
Julguei que o ponto alto desta segunda parte de “Breaking Dawn” fosse o momento em que Bella teria de explicar ao pai o crescimento anómalo de Renesme. Pois bem, isto nem sequer foi abordado como deve ser. Disseram ao pai de Bella que a menina era uma sobrinha, e ele também não achou estranho que a miúda crescesse como se tivesse sido feita em laboratório. Nem quando Jacob lhe mostra que existem lobisomens aquele palerma decide perguntar à filha se Bella era agora uma lobisomem (lobismulher?) também. Que decepção, ó pai da Bella! Julgava-te muito mais esperto!
Outra coisa em que me enganei foi ao supor que os Vulturi estavam interessados na Renesme. Nada mais errado. Eles estavam interessados era na Alice, a tal que tem os poderes psíquicos de ver o futuro. Ora, eu nem me tinha apercebido de que a Alice era uma personagem importante! Imaginem o meu choque!
Mas o enredo principal centra-se mesmo em torno de Renesme (a quem Jacob, seu auto-nomeado protector, dá a alcunha de Ness, o que leva Bella a zangar-se com ele por lhe ter dado a alcunha do monstro de Loch Ness... Ora, Bella, e mesmo assim é muito mais bonito do que o nome que puseste à tua filha, ó criatura com falta de gosto!).
E aqui, meus amigos, temos um enredo “Claudia”. Uma vampira que eu nunca vi na vida mas que é a Althea de “Fear the Walking Dead”, e aparentemente parente dos Cullen (?), vai visitá-los e fica chocada ao ver uma criança entre eles. Imediatamente, vai fazer queixinhas aos Vulturi de que os Cullen fizeram uma criança vampira. Isto é proibido e os Vulturi partem de imediato para destruir a criança e os Cullen também (excepto a Alice, a quem querem capturar devido aos seus dons).
Ora, isto é o enredo de “Entrevista com o Vampiro”, parte Claudia, com algumas variações. Se até aqui eu desconfiava que os Vulturi tinham sido inspirados no vampiro Armand de Anne Rice, agora tenho a certezinha absoluta. E que se tirem daqui as devidas conclusões. Também me enganei ao julgar que os Vulturi iam ter alguma curiosidade científica quanto a Renesme. Não, isto é mesmo e apenas “Armand do Thèâtre des Vampires quer esturricar Claudia porque é proibido fazer vampiros tão jovens”.


Mas não me enganei quanto ao facto de Renesme não ter sido a primeira “híbrida”. Era óbvio que não podia ser. Desde quando é que, na possibilidade de existir sexo entre humanos e vampiros, este não seria experimentado? O inverosímil é que nem os Cullen nem os Vulturi (nem qualquer outro dos “antigos”) tivessem conhecimento de casos anteriores. É que não devia haver apenas um ou dois ao longo dos milénios. Devia haver dúzias. Tudo isto foi mal pensado e abre mais um buracão na história.
Renesme não é exactamente uma vampira***, e o equívoco podia muito bem ser resolvido com uma conversa se os malvados Vulturi estivessem para isso. Mas não estão, e segue-se uma batalha entre eles e os amigos dos Cullens, com a ajuda dos lobisomens.
Aqui encontrei mais uma incoerência. Jacob diz que as alcateias vão querer lutar, mas por alma de quem? Porque “nunca tiveram medo de vampiros”, diz ele, e é verdade, mas não seria muito mais lógico que não se envolvessem e deixassem os vampiros matarem-se uns aos outros? Afinal, ainda no filme passado eram eles quem queria destruir a abominação Renesme… Porque é que mudaram de ideias? Jacob é agora o lobo alfa (o que manda) e ninguém nos informou? Não se percebe.
***Quanto a Renesme, a ideia é que a miúda é metade-vampira metade-humana. O que é que isto significa? Que ela tanto pode viver de sangue como de comida? Mas precisa de sangue ou não precisa? Porque se não precisa não é vampira. Mas se é, e se deixar de beber sangue, perde os poderes vampíricos? Sinceramente, não sei nem quero saber. E espero bem que não haja uma sequela a contar as aventuras de Renesme.
Então, de volta ao filme, chegamos à batalha e as coisas ficam bastante graves. Quando eu vi a cabeça decepada do Carlisle Cullen julguei que ia ser muito a sério. E pensei: “Tu queres ver?! Que morre o Edward, que morre a Bella, que morrem todos e só se safa a Renesme porque é salva pelo Jacob?” E de repente tudo se tornou mais empolgante. Suficiente para redimir a saga inteira. Começou a batalha. Parecia uma batalha dos “Vikings”, com tantas cabeças cortadas. Morreram vampiros importantes. Morreram lobos. Lágrimas vieram-me aos olhos e o meu coração partiu-se… Mas, afinal, nada disto aconteceu. Exactamente assim: não houve batalha nenhuma. Foi tudo uma visão que a tal Alice inspirou ao líder dos Vulturi. No fim vão-se embora antes que haja batalha.
Também já na última versão dos “Ficheiros Secretos” fizeram o mesmo: ah, não era o fim do mundo, era só uma visão. Truque baixo que defrauda as expectativas do espectador. Pior que isto só o sonho infame de “Dallas”, em que uma temporada inteira foi um sonho.
E assim terminou a saga Twilight… Ah, não, há mais. Outra coisa que eu esperava ansiosamente era que o Jacob finalmente se libertasse da Bella e disto tudo. Em vez disso, torna-se protector da filha da Bella, o que já é suficientemente doentio. Mas no fim, mesmo no fim, Alice tem outra visão. Jacob e Renesme abraçados, ela já adulta, tão juntinhos que me pareceram um casal. Eu não quis acreditar no que vi. E pensei: “Desliga lá a mente ordinária, que isto que viste foi só fraternal”. Mas fiquei tão incomodada que fui à internet procurar. E então não é mesmo verdade que o Jacob espera que a Renesme cresça (sete anos apenas, porque ela cresce depressa) e se tornam um casal romântico?! Uma coisa é o Edward andar atrás da Bella que é 80 anos mais nova do que ele, mas até fecho os olhos. Muito diferente é alguém que tem sobre uma criança o papel paternal de um tio e que a certa altura deixa de ser paternal para se tornar… o quê? Já seria suficientemente mau que ele esperasse pela filha na impossibilidade de ter a mãe, mas acompanhar essa criança desde bebé? Sou só eu, ou acontece aqui algo de muito errado? Pelo menos podiam separá-los e podiam encontrar-se muito tempo depois, sem que o Jacob alguma vez lhe tivesse mudado a fralda. Pobre Jacob, o que fizeram à personagem dele, uma das mais interessantes da saga. Desde o primeiro livro (aquele que li), Jacob sempre me pareceu o único com alguma coisa na cabeça. Eu estava a torcer para que ele se libertasse desta relação a três (ou a quatro?) mas nem essa sorte eu tive.
Não admira que Twilight tenha dado origem a coisas mais doentias ainda (50 Sombras de Grey e sabe-se lá mais o quê).

Este abraço

E assim acabou a saga com um sabor a pedofilia que era completamente dispensável. Vou fingir que não vi isto. Melhor, vou fingir que nunca vi esta saga. E vou dar mais um pontinho porque é o último filme:

13 em 20

Acabou! Acabou!


domingo, 5 de janeiro de 2020

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 1 / Amanhecer - Parte 1 (2011)


Quarto episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e sua amantíssima esposa Senhora-Dona-Bella-Cullen.
O filme não perde tempo. Arranca logo com o casamento. Eu sempre pensei que eles não se casassem tão depressa, que houvesse mais peripécias antes disso. Mas a Bella não quer outra coisa senão ser vampira, e afinal há a ameaça dos Vulturi, por isso faz sentido.
O Jacob, pobre Jacob, nem assim a tira da cabeça. Continua um cachorrinho atrás dela. Será que no último filme/livro este desgraçado sem auto-estima vai finalmente partir para outra? Eu estou a torcer para que sim.
Edward e Bella vão passar a lua-de-mel no Rio de Janeiro, onde descobrimos que Edward sabe falar português. Não percebi nada do que ele disse, mas enfim, pelo menos arranha. Não ficam muito tempo no Rio. Afinal a lua-de-mel vai ser numa ilha privada dos Cullen.
E depois acontece a cena da cama. Na noite de núpcias, Edward consegue partir a cama toda. Ora, eu não costumo pedir pormenores quando o que se passa é normal, mas isto é tudo menos normal! Como é que aquela cama acabou naquele estado? Sim, queria ver isso. Ao pormenor.
Admito que já sabia da cena da cama porque uma amiga me tinha contado. Fartámo-nos de rir as duas. Não sei como é que isto não acabou num Scary Movie. (Para quem não sabe, “Scary Movie” é uma série de filmes-paródia aos filmes de terror. Não costumam ter muita piada.) Esta cena da cama é já de si uma anedota, só precisava de ser condimentada.
Em resultado, e como estão numa ilha isolada onde não há IKEA para comprar camas baratas, Edward e Bella passam o resto da lua-de-mel a jogar xadrez. Pobre Bella. Eu fiquei aborrecida só de assistir.
Mas tudo isto para chegarmos ao verdadeiro enredo do filme: a gravidez de Bella. E é uma gravidez digna de um “Rosemary’s Baby”, ou pior ainda, em que a gestação progride a um ritmo vertiginoso. Os vampiros estão surpreendidos que isto pudesse acontecer e também não sabem o que vai sair dali. Mas Bella quer o bebé, por muito monstro que seja. O que é natural. Vão lá dizer a uma mãe que o seu bebé é um monstro.
Agora fiquei muito curiosa para ver como é que ela explica isto ao pai dela. “Olá pai, cheguei da minha lua-de-mel de duas semanas. Aqui tens a tua neta.” Vai ser o ponto alto de toda a saga para mim.
Os lobisomens decidem que este monstro não pode existir e querem ir matar a Bella. Pouca curiosidade científica da parte dos lobisomens, para quem é lobisomem. A primeira vez que um vampiro tem um filho com uma humana e não querem saber o que vai nascer? Mas os lobisomens de Twilight têm esta característica xenófoba de achar que todos são monstros menos eles, como já assinalei na crítica ao filme anterior.
Por falar em lobisomens, e como também já disse do filme anterior, aquela reunião de lobisomens em estado lobo e a falar inglês entre eles é algo entre o infantil e o ridículo. Percebo como é que pode funcionar nos livros em que as falas telepáticas têm de ser verbalizadas, mas nos filmes resulta muito mal. Teria sido melhor que os lobisomens se reunissem em estado humano, e sempre se evitava mais um bocadinho de CGI mal conseguido.
A princípio Jacob quer matar o Edward, mas depois o amor fala mais alto e decide antes proteger a Bella e o bebé, como já se esperava, e agora não estou a ver o que é que possa acontecer de interessante no último filme. (Tirando a parte em que têm de explicar isto ao pai da Bella, isso eu quero ver!)
Mas esperem, o filme ainda não acabou. Já corriam os créditos finais e eu já estava com o dedo no “apagar”, quando acontece a cena mais interessante do filme todo e eu quase a perdia! Por um minuto ou dois aparecem os Vulturi, os vampiros mais riceanos e vilanescos desta saga e por isso os únicos que me fazem vibrar alguma coisa, dizendo entre eles que os Cullen têm algo que eles querem. Aposto que é a Renesme, a filha da Bella. E devem querê-la porque são vilanescos e malvados, mas pelo menos têm curiosidade científica. Estes Vulturi devem mesmo ter sido inspirados no vampiro Armand. Só pode.
E sim, a pobre criança chama-se Renesme. Não bastando ser filha de dois vampiros, ainda tem de viver com este nome o resto da vida possivelmente imortal. Ninguém merece.

Enfim, o que dizer de sério sobre isto tudo? O filme nunca apresenta uma explicação sobre esta gravidez, mas se é possível, e um pouco mais atrás ainda, se os vampiros podem fazer sexo com humanos, então duvido muito que Renesme tenha sido a primeira vez. De certeza já devia ter acontecido e os Cullen teriam conhecimento disso.
Na mitologia clássica, um vampiro é um morto que se levanta do túmulo por meios sobrenaturais (diabólicos ou outros) sustentados pelo sangue das suas vítimas. (“O sangue é a vida.”) Os vampiros de Twilight parecem-me cada vez menos “mortos” e sobrenaturais e cada vez mais seres humanos geneticamente modificados pelo tal “veneno” (vírus?) que os transforma em imortais com força e rapidez sobre-humanas. Mas fica a questão. Se não estão mortos (Edward produziu um bebé, por isso definitivamente não está morto) porque é que precisam de sangue? O propósito do sangue é mesmo esse, sustentar a vida sobrenatural do vampiro através da ingestão da vida das vítimas simbolizada no sangue. Se não existe esta necessidade sobrenatural, porque é que os vampiros de Twilight são vampiros?
Mas de certeza ninguém quis saber de nada disto.


12 em 20



domingo, 27 de janeiro de 2019

The Twilight Saga: Eclipse (2010)


Terceiro episódio de Edward o-vampiro-que-brilha e Bella a-rapariga-que-só-quer-ser-vampira. E agora também temos Jacob o-lobisomem-que-quer-comer-a-Bella-no-melhor-dos-sentidos.
Fiquei um pouco confusa logo a começar. Nunca me passou pela cabeça que a situação com a vampira Victoria (a ruiva que aprendeu a correr por entre as árvores num ângulo de 90º como na Matrix) não estivesse já resolvida. Isto é que é tenacidade. Victoria quer mesmo muito vingar-se por causa de coisas que aconteceram no primeiro livro/filme e de que eu já não me lembro. Mas recordo que foi o bando da Victoria que se meteu com os Cullen por isso ela não tem razão nenhuma. As pessoas têm mesmo de aprender a desprender-se e partir para outra. Victoria precisa de ler um livrinho de auto-ajuda.
Victoria continua obcecada em matar Bella para que Edward sinta a dor de perder um amor, como ela sentiu. E também dá muito jeito ao enredo principal, porque obriga os vampiros e os lobisomens a fazer uma aliança para se revezarem a proteger Bella.
Entretanto, e depois sabemos que foi Victoria também, alguém cria um exército de vampiros recém-transformados (a quem chamam recém-nascidos) para atacar os Cullen em grande escala. Na mitologia de Twilight os vampiros são fisicamente mais fortes quando são transformados há pouco tempo. Geralmente é o oposto, o que faz com que os vampiros muito antigos sejam praticamente invencíveis. Esta ideia de maior fragilidade física mas de aquisição de outras capacidades é interessante e foge aos lugares comuns do mito do vampiro.
Por falar em mitologia, neste filme temos um flashback que nos explica como começou a animosidade entre os lobisomens e os vampiros. Mas temos também a resposta à questão que coloquei na crítica ao filme anterior, New Moon: os lobisomens têm consciência do que fazem enquanto lobos? Sim, têm. E conseguem, efectivamente, transformar-se quando querem, sem qualquer influência lunar. Até há uma cena em que os lobisomens vão a um encontro com os vampiros em forma de lobos porque se sentem mais seguros assim. (É uma cena algo ridícula, se não mesmo infantil, em que de repente temos os vampiros a combinar estratégia com os lobos silenciosos -- também era melhor se falassem! -- enquanto Bella faz festinhas ao lobo Jacob. Por falar nisso, o CGI dos lobos não é nada realista. Parece um desenho animado para crianças.)

 Eu também gosto muito de animais.

Ora, como dizia na crítica anterior, isto é problemático. Se os lobisomens têm consciência do que fazem como lobos são tão maus como os vampiros e não têm autoridade moral para se sentirem superiores. Duvido que esta questão existencial alguma vez seja abordada no universo Twilight mas fica a minha nota.
Também disse que estava a torcer pelo Jacob, mas neste filme o jovem lobisomem está a passar pela fase “parva” e não podia estar a sair-se pior com a Bella. Mas que outra coisa esperar? O rapazinho tem 16 ou 17 anos, ainda tem muito que aprender sobre como encantar o sexo oposto. O Edward tem 90 anos de lábia e anda atrás de uma miúda do liceu. Desculpem, fãs, factos são factos. Pobre Jacob, não tem a mínima hipótese.
O envolvimento dos Vulturi é, como sempre, o que mais gosto na saga. Porque me lembram os vampiros Riceanos, claro está. Armand ficaria orgulhoso destes Vulturi.
Não percebi, no filme, de que matéria são feitos os vampiros. Pedra, gelo, é por isso que brilham? É o que parece no filme, ou é culpa dos efeitos especiais. (Akasha foi durante séculos uma vampira “petrificada” mas isso era porque não se alimentava. Quando voltou à “vida” parecia completamente de carne e osso.) Quando os vampiros de Twilight são decapitados não há sangue a jorrar e carne à mostra. Parecem objectos partidos, o que lhes retira a humanidade. Como é que podemos ter pena de uma boneca partida? É isto que Bella quer ser?
Por último, nunca é explicado o título do filme. Qual eclipse? Penso que se referem ao exército que era liderado por um testa-de-ferro aparentemente criado por Victoria. Desta forma, ela estava “eclipsada” atrás dele. Será? Eu acho rebuscadíssimo mas não encontro outra explicação. Talvez o livro tenha explicado melhor.

12 em 20

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

New Moon / Lua Nova (2009)


Segundo capítulo das aventuras de Edward o-vampiro-que-cintila e Bella a-rapariga-que-só-pensa-no-Edward.
Um dos motivos porque a saga Twilight foi tão mal recebida pelos verdadeiros amantes de vampiros foi na verdade um equívoco gerado pelo marketing à série. Um desfasamento de expectativas. Embora tenha elementos sobrenaturais, Twilight pertence mais ao género romântico do que a qualquer outro. O facto de ter vampiros e lobisomens é quase irrelevante. Se os substituíssemos por grupos rivais o enredo seria exactamente o mesmo. Esta é, acima de tudo, uma história romântica, e os amantes de horror que não apreciam o género romântico não vão encontrar aqui satisfação.
As minhas razões para continuar a seguir a saga são mais obcecadas. Sou de tal forma uma viciada em vampiros que muito raramente consigo resistir e vejo tudo: do muito bom ao muito mau. Para quem não é alérgico a histórias românticas, a saga Twilight vê-se.

Sempre desconfiei de vampiros que brilham
Depois dos acontecimentos do primeiro livro, que puseram Bella em perigo, Edward decide finalmente fazer a coisa certa e deixar de andar atrás de miúdas de liceu. Mas fá-lo mal. Em vez de revelar os seus verdadeiros motivos, arma-se em “todo-bom” e diz a Bella que esta não é digna dele. Grande estafermo. Eu já não gostava do Edward, mas neste filme começo mesmo a detestá-lo. Sem mais explicações, desaparece, deixando a miúda bastante deprimida por uns meses. Mas na verdade Edward não rompeu completamente, como devia ter feito se era mesmo esse o objectivo. Continuou em contacto com Bella através da ligação psíquica, o que pessoalmente achei de muito mau gosto. (Se vais, vai. Não vás pela metade.) Desta forma, nunca lhe permite recuperar e ultrapassar a relação. O que é mais grave, Bella fica à mercê dos inimigos dos Cullen, na ausência destes, e começa a ser perseguida por vampiros vingativos. Outra má onda. Não a deviam ter deixado sozinha nestas circunstâncias. Nomeadamente Edward sabe o que se passa (através da tal ligação psíquica) e nem isso o leva a mexer o traseiro para ir resolver problemas que são da família dele. (Estão a ver porque é que o detesto?)

Vampiros vs lobisomens
Felizmente, Bella torna-se mais próxima de Jacob, o índio. Admito que sempre gostei deste personagem. Sempre que ele aparecia no livro original, era uma lufada de ar fresco. Jacob parece ser o único que pensa e diz coisas com pragmatismo, e além disso tem sentido de humor. É difícil não torcer por ele. (Mas só aqui entre nós acho que a Bella não o merece.)
Quando se aproximam, Jacob ainda não sabe que é lobisomem. Mas atingiu a idade e as transformações começam a acontecer. (Coitada da Bella, também admito que não pode haver rapariga mais azarada. Ou se apaixona por vampiros ou lobisomens.)
Os lobisomens de Twilight, à semelhança dos vampiros, também não obedecem aos cânones. Não precisam da noite nem da Lua Cheia para se transformarem. Não sei se o livro explica melhor, mas fiquei com dúvidas. Conseguem transformar-se quando lhes apetece ou apenas quando se enfurecem? A Lua Cheia terá alguma influência, ou nenhuma? E até que ponto têm consciência humana na fase lobo? Se percebi bem, são responsáveis por alguns homicídios que a polícia da terra andava a investigar. Mas Jacob parece reconhecer Bella na fase de lobisomem, o que é problemático do ponto de vista da consistência. (Se como “lobo” tem este grau de consciência, também é responsável pelos homicídios.) Também não cheguei a perceber porque é que há rivalidade entre vampiros e lobisomens. O filme não explica, simplesmente apresenta como facto. Nos Diários do Vampiro, pelo menos, são apresentados como inimigos naturais porque uma dentada de lobisomem mata um vampiro. Aqui, não percebo qual é a rivalidade (e não me quero pôr a conjecturar). Afinal, não são todos monstros? Até deviam dar-se bem, penso eu. No primeiro livro/filme já havia aversão dos índios para com os Cullen, mas pensei que se devia apenas a saberem que eram vampiros. Afinal a aversão é outra.
É Jacob que lá está quando é preciso salvar Bella. Começa a estabelecer-se entre eles uma relação maior do que amizade. E eu a torcer por ele, obviamente.
Mas a relação não chega a ter tempo de se desenvolver. Em busca de adrenalina, e porque é jovem e não pensa (e para tentar que Edward a contacte psiquicamente), Bella decide mergulhar de um penhasco. Alice, a irmã adoptiva de Edward e vampira médium, tem uma visão deste mergulho e julga que Bella se tentou suicidar. Aqui acontece uma peripécia um bocadinho forçada. Sem confirmar que Bella está morta, Edward acredita apenas na visão de Alice e decide ir entregar-se a um clã de vampiros na Itália, os Volturi, que matam aqueles que quebram as regras. A primeira de todas é que os vampiros não devem expor-se aos seres humanos (brilhando ao sol). Nesta tentativa de suicídio à Romeu (porque não consegue viver num mundo onde Bella não viva), Edward decide quebrar as regras para que o matem. Mas eu acho isto um pouco precipitado. A própria Alice diz que nem sempre vê tudo. Porque é que o Edward acredita numa visão sem se certificar? Pelo menos ia ao funeral, não? Mas assim é mais dramático.
Bella e Alice chegam mesmo a tempo de o salvar, mas os tais Volturi exigem que ela seja transformada porque sabe demais. Isso, ou morta. Mais uma vez, Edward arranja-lhe problemas. Bravo, Edward vampiro-brilhante! E a Bella deixou o Jacob para isto!
Estes Volturi lembram-me os vampiros de Anne Rice, no tempo do coven do Cemitério dos Inocentes e do Teatro dos Vampiros. A qualquer altura, esperava que o vampiro Armand entrasse pela sala.

 Armand, Lestat e Louis não estavam disponíveis para participar no filme.

Tal como os vampiros de Armand, também estes se julgam a autoridade vampírica e gostam das suas regrazinhas. São os piores. O filme consegue um momento de quase-terror quando um grupo de turistas é guiado para dentro do palácio dos Volturi para lhes servir de refeição. Como é que eles explicariam todos estes desaparecimentos, pergunto-me? Levantar suspeitas também é contra as regras. Mas o filme não é sobre isto.
O facto é que Bella quer ser vampira. Desde o início do filme, não fala de outra coisa. Até me perguntei: mas esta miúda nunca leu Anne Rice? Aparentemente não, porque no mundo de Twilight não existem as Vampire Chronicles. Bella não quer ser vampira para ser imortal, nem para ser jovem para sempre, nem para ter poderes especiais. Nada disso. Bella quer ser vampira para ficar mais próxima de Edward. A princípio ele rejeita a ideia (única coisa em seu favor) mas acaba por concordar (lá se foi a coisa).

E assim terminaram duas horas de filme. Não imagino quando verei a continuação. Acompanho por uma questão de curiosidade e cultura “geral”, como acompanhei o Harry Potter. (De outra forma, como é que ia perceber as referências culturais da gente mais nova?) Comparando entre ambos os fenómenos, desgosto menos do Twilight. Pelo menos tem vampiros. E pronto, é só isto.


13 em 20 (ponto extra porque os Volturi me lembraram outras vampiragens)




sábado, 30 de março de 2013

Gotika: arquivos Abril 2004

abril 26, 2004

“O Vampiro Armand” - o livro

Pois é. O rapazinho foi violado.

Até que ponto o abuso sexual na infância ou na adolescência pode justificar o (mau) comportamento da vítima depois de adulta?
Por exemplo, até que ponto pesa na defesa de um pedófilo o facto de ele próprio ter sido vítima de abuso?
Sei que estou a afastar-me do “caso Armand” propriamente dito, mas dentro em breve esta temática estará a ferver na comunicação social cá da terra.

A leitura da autobiografia de Armand não me fez mudar de ideias em relação à personagem. De origem russa, Armand era em vida um talentoso pintor de ícones religiosos cuja ambição se resumia a ser admitido no mosteiro para o qual trabalhava. Durante uma viagem que teve de fazer por imposição do pai, é raptado e acaba por ser vendido como escravo sexual a um bordel da Veneza renascentista. Teria uns 14, 15 anos e uma beleza invulgar que o levava a ser confundido com uma rapariga. Inconformado com o seu destino, recusa-se a colaborar com os seus novos donos e entra no que hoje chamamos greve de fome.
Por alguma razão que o livro não explica muito bem, chama a atenção de Marius, um vampiro muito antigo que, assumindo plenamente a sua vida de homem da Renascença, se dedicava à pintura, à leitura e às artes em geral. É Marius que o resgata e o leva para o seu palácio onde criava e educava outros aprendizes a quem estava destinada uma vida de fausto e importância.
No entanto, Armand é especial. Torna-se amante de Marius e apercebe-se facilmente que o seu amo possuía poderes inexplicáveis que não tencionava partilhar. De facto, Marius foi coerente e recusou sempre transformar Armand num vampiro até ao momento em que o jovem é ferido de morte numa briga. É assim que Armand se torna num ser das trevas.
Mas Armand nunca apreciou a educação que recebia. Não via o interesse da filosofia e da história, era um aluno tão preguiçoso antes como depois de perder a mortalidade. E a chama da fé, que antes lhe dera uma razão para viver, estava também extinta debaixo do sofrimento.
Mesmo assim, esses dias em Veneza são tempos de felicidade. Até à noite em que o palácio de Marius é destruído por uma seita de vampiros que se acreditam servos do diabo ao serviço do plano divino. Tinham por missão, com que justificavam a sua existência no mundo, aplicar na terra os castigos infernais, para glória de deus. Viviam nas sombras, debaixo dos cemitérios em terreno “impuro”, vestidos de trapos e cobertos de sujidade, obedecendo a regras muito específicas sobre as vítimas que podiam fazer (por exemplo, não atacar quem usasse um crucifixo) e a criação de novos vampiros. Aos olhos da seita, Marius era um herege, um fora-da-lei, que merecia a destruição por se atrever a viver no meio da Humanidade. Por pouco não conseguiram o seu intento (Marius é bastante mutilado mas sobrevive). Os aprendizes são assassinados. Apenas Armand é poupado, sob pena de se converter às regras da seita. Pensando que o seu amo estava morto, Armand acaba por ir viver em Paris, como líder do coven do Cemitério dos Inocentes, durante uma longa noite de três séculos. A sua personalidade torna-se cada vez mais fria à medida que se entrega à amargura da sua existência.
Quando Lestat, outro “herege”, chega a Paris na sua exuberante inocência - porque Lestat não conhece as regras - provoca escândalo entre a seita e Armand faz o que pode para o eliminar. Mas não é bem sucedido. Pelo contrário, é Lestat quem consegue subverter as mentes dos vampiros da seita e dispersar os seus membros pelo novo mundo das Luzes.
É a partir daqui que se forma o célebre Teatro dos Vampiros, em que Armand, o mais velho, assume também uma liderança hesitante. O seu coração já não conhecia o amor, nem pelos outros nem por ele próprio.
No fim do livro, Armand tenta aproximar-se de Deus mas volta a não ser bem sucedido. Os amigos questionam-se e questionam-no. Duvidam da sua fé. Não faz sentido. O próprio não consegue explicar a sua ânsia, a sua necessidade do divino. E desta vez é uma Sede que Armand não consegue extinguir, provavelmente porque não sabe onde ir beber.

O “dossier Cláudia”
Conheci uma pessoa que dizia que não há uma verdade mas várias verdades. Cada um tem a sua verdade.
Tretas. A verdade é só uma. As mentiras é que podem ser muitas.
Afinal, quem é que matou a vampira Cláudia? Louis acusa Lestat. Lestat diz “Não fui eu, foi Armand”. O que diz Armand? “Não fui eu, foram os meus seguidores, esses malandros”. Uma vez que esses seguidores já foram, muito convenientemente, reduzidos a cinzas pelo fogo da vingança de Louis, já não podem dizer nada em sua defesa. Arquiva-se a investigação por falta de provas? Não me parece.
Louis estava fechado no calabouço. Não podia ser o autor do crime. Lestat remete a culpa para Armand e Armand nunca a devolve. Chega até a confessar a Louis que de facto, sim, tinha sido ele a ordenar a morte de Cláudia.
Penso que as contradições são suficientes para decretar a prisão preventiva e deitar fora a chave. Não contente com isso, na sua autobiografia Armand aparece com uma história ainda mais estapafúrdia. Que sim, que tinha tentado ajudar Cláudia. A pedido desta, que ambicionava acima de tudo ter o corpo da mulher que jamais tinha sido, tentou proceder a uma operação cirúrgica de transplante da cabeça de Cláudia para o corpo de uma vampira adulta. O resultado foi previsivelmente desastroso e mantido em segredo até este momento em que Armand descreve como, enfiado no seu laboratório qual Frankenstein, se pôs a brincar aos médicos:

Ah, que grande desastre, a mulher monstruosa com cabeça de criança, incapaz de falar, dançando num círculo frenético, o sangue a golfar da sua boca a estremecer, os olhos revirados, os braços a bater como ossos partidos de asas invisíveis.

Como se não bastasse ter sido assada ao sol...
Aliás, Anne Rice já havia avisado, n’”A Rainha dos Vampiros”, que Armand se dedicava a experiências que envolviam ratos e microondas. Um doce de pessoa.
Quer-me parecer que só em “Merrick”, livro em que o fantasma de Cláudia é invocado, é que vamos saber ao certo, pela própria, quem é que raio matou a vampira Cláudia. De outro modo, ficamos como em relação a Laura Palmer, outro dos grandes mistérios da ficção do século XX.

Optimismo evanescente
A escrita de Anne Rice começa a pintar um quadro cada vez mais pessimista ao longo dos anos 90. Recorde-se que nos anos 80 se vivia uma onda de optimismo e esperança, talvez mesmo de euforia, hipoteticamente comparável à dos anos 60 - mas não sei, não sou desse tempo. O mundo assistia, maravilhado, à queda do muro de Berlin, à extinção da URSS e ao fim da guerra fria. Parecia ter saído de cima das nossas cabeças a ameaça constante da aniquilação nuclear. Deu-se início a programas de desarmamento multilateral. Parecia que o mundo só podia caminhar na boa direcção, que todos os medos do século XX estavam definitivamente enterrados e que a Humanidade ia entrar no terceiro milénio num clima de paz e harmonia.
A ilusão durou pouco, apenas o tempo de as novas potências militares medirem forças. Logo no princípio dos anos 90 se percebeu que os problemas a leste tinham acabado de começar e no Iraque ninguém via o barril de pólvora que ia dar resultados ainda mais tarde. A crise económica fez-se sentir, os mercados ficaram deprimidos, a exploração aumentou e a qualidade de vida degradou-se. Esperava-se uma nova vaga cíclica de optimismo na alvorada desta década de 2000 mas os atentados de 11 de Setembro atiraram o mundo para as brumas de um novo e desconhecido negrume na figura da ameaça terrorista. O mundo retrocedeu em vez de avançar. Só o futuro dirá o quanto.
É interessante como em 1988, nas palavras do vampiro Marius a Akasha, Rainha dos Vampiros, este defende veementemente a sua inabalável confiança na evolução da Humanidade como um todo. Em 1998, o mesmo Marius está convencido que esta mesma confiança não passava de mais uma ilusão, de uma fé tão irracional como qualquer religião:

Armand, eu disse essas coisas porque tinha de me agarrar a essa verdade. Eram um credo, o credo do racional, o credo do ateu, o credo do lógico, o credo do sofisticado senador romano que tem de fechar os olhos à realidade nauseabunda do mundo à sua volta porque se fosse a admitir o que via na maldade dos seus irmãos e irmãs, enlouqueceria.
(...)
Mas eu estava enganado no meu optimismo, estava a ser ignorante, tão ignorante quanto acusava os outros de serem, e recusava-me a ver os verdadeiros horrores que me rodeavam, o pior deste século, este século de racionalidade, que foi o pior que alguma vez existiu no mundo.


Marius, o grande humanista, torna-se mais pessimista que eu. (Desconfio do homem mas acredito na Humanidade.)
Estou ansiosa por ler a escrita de Anne Rice depois do 11 de Setembro de 2001, e sinto que ficarei decepcionada se, das duas uma, o pessimismo não se tornar em desespero ou, pelo contrário, a necessidade de refúgio na consolação divina não se tornar omnipresente. Ficarei decepcionada se a escrita for igual. Mas será que o pode ser?

Pensamentos
A escrita pela mão de Armand (embora tecnicamente a autobiografia tenha sido ditada ao vampiro David) é bastante diferente do discurso a que Lestat nos habituou. Muito mais seco e objectivo, resume alguns pensamentos dignos de reflexão nas seguintes palavras:

Os vampiros não querem verdadeiramente companhia. Querem o amor de outros imortais, sim, sempre, e precisam dele, e precisam dos profundos laços de lealdade que inevitavelmente crescem entre aqueles que se recusam a tornar-se inimigos. Mas não desejam companhia.

Faz-me pensar até que ponto os seres humanos não deviam copiar-lhes o exemplo a fim de darem o verdadeiro valor às pessoas que os rodeiam. Não pela companhia, que qualquer um pode fazer a qualquer outro, mas pela especial amizade, quando existe, que é tão rara de encontrar.

Publicado por _gotika_ em 11:04 PM | Comentários: (7)



abril 28, 2004

Anne Rice é uma ganda tia

Vem isto a propósito do comentário de Goldmundo:

Há qualquer coisa de narcisico no amor dos vampiros que me não deixa admirá-lo muito (talvez mais no Lestat: tão cedo não esquecerei a cena em que ele, aterrorizado pelo primeiro encontro com Memnoch, encontra os seus pares para pensar, antes de mais, em como eles estavam elegantes...).

Hehehe!
Não sei se a culpa será tanto de Lestat como da sua autora. É verdade que esta é a mais vaidosa de todas as personagens das vampire chronicles mas Anne Rice insiste em descrever as roupagens das criaturas até à mais nauseabunda exaustão. Confesso que desatino com isso, até porque é nada mais nada menos que o reflexo de uma certa literatura americana à Jackie Collins, em que todos são ricos, todos são bonitos, todos se vestem “muito bem” (por “muito bem” entenda-se roupas caras de lojas para a classe alta-alta).
Da mesma forma, são descritos todos os pormenores das belas mansões, castelos, palácios, cruzeiros, hotéis, e respectivos quadros, obras de arte, candeeiros, carpetes (quase sempre persas), mobiliário antigo ou moderno, e uma carrada de outras futilidades que não têm nenhum interesse excepto o comercial.
Acontece que na sociedade americana vende-se melhor a “literatura” que descreve a vida dos ricos. É um pouco como as telenovelas brasileiras (e infelizmente também as portuguesas) que vão enchendo os olhos do povão com um estilo de vida que parece tão ficcional como a própria existência do vampiro Lestat. E devia ser, devia ser ficcional. Num mundo onde morre tanta gente de fome é um crime dar 40 contos por uma camisa como eu vi nas Amoreiras já há uns 15 anos. Bem, devem ser camisas para vampiros.
Acontece que Anne Rice é uma grande espertalhona, uma espécie de Paula Bobone da literatura de terror, e recorde-se que a senhora até já escreveu literatura erótica sob o pseudónimo de A. N. Roquelaure. É uma senhora que se sabe vender. E se o povão prefere ler histórias sobre vampiros ricos, não os façamos pobres!
Deste modo, acontecem descrições como a clássico episódio em que Lestat acorda, levanta-se do seu caixão forrado a cetim (caixão, no século XX?...), veste ao espelho um fato de cor x ou y e coloca uma gravata a combinar. Ora, coloca uma gravata para quê?! Acaso trabalha num banco? É daquelas coisas que não cabem na cabeça de ninguém. Do ponto de vista pura e simplesmente literário, a dor ainda é maior. Lestat é um artista. Se vestisse plumas e lantejoulas e uma peruca ruiva era mais normal que o fato e gravata. Já ao vampiro David, que viveu toda a sua existência no século XX e sempre se vestiu assim, compreende-se a predilecção por fatos tradicionais.
Louis acaba por ser a única personagem que faz sentido por não ligar ao luxo e Armand também não faz grande questão, embora Anne Rice o ponha a descrever as botas e o casaco de veludo e a camisa de renda. Mas nem Louis nem Armand são os heróis. O herói, de facto, veste-se nas lojas mais caras de Nova Iorque.
E o novo-riquismo destes livros? Aqui, todas as pulseiras e anéis são de ouro e as pedras são mesmo preciosas. São diamantes, esmeraldas, rubis... Bem, uma bimbalhice de bradar aos céus. Era mesmo preciso pôr estes vampiros a usar carradas de anéis de ouro como as varinas e os patos-bravos da construção civil? Não percebo que necessidade têm os americanos em particular de imaginar estilos de vida tão falhos de criatividade.
E sim, aborrece-me este chafurdar num luxo bacoco que tem tanta importância para um vampiro como para uma mosca pousar em merda servida em bandeja de prata.
Questiono-me se Anne Rice será uma “tia” em versão americana ou se só o faz por uma questão de lucro. Ainda havia mais por onde sugar. Por exemplo, arranjar patrocínios para as personagens: “Armand é vestido por Hugo Boss”; “O vampiro Lestat tem o patrocínio do seguro DentAll - a saúde dos seus dentes”; “Maharet (que usa olhos falsos) tem o patrocínio das Multiópticas”; “Chicco veste a vampira Cláudia - Chicco, onde há um bebé”.
É por isso que me escandaliza que a literatura tenha de absorver estes insultos... Mas é como digo, a senhora sabe vender-se.

Publicado por _gotika_ em 06:57 PM | Comentários: (8)


quarta-feira, 6 de março de 2013

Gotika: arquivos Abril 2004

abril 02, 2004

O meu afilhado nasceu!

Não vou explicar a extensão deste “afilhadanço”, apenas que fui eu que dei a ideia e que fico contente por ver que ele escreve!
Ele escreve de uma maneira que é só dele e de mais ninguém e eu achei que não devia escrever para a gaveta, ou pior, não escrever sequer.
Hoje ele já tem tudo a funcionar, tudo certinho, faltam lá visitantes.
Por isso, se puderem, dêem um saltinho a esta Ribeira Negra.

Sou a madrinha. Babada!

Publicado por _gotika_ em 10:17 PM | Comentários: (7)


Armand, a hárpia

E pronto, vamos lá cascar outra vez no vampiro Armand.
(Ao mesmo tempo, aproveitando para cascar em todos os “vampiros Armands” que por aí há, e não são poucos! Por isso, se alguém estiver a ler e enfiar a carapuça...)

À segunda vez que Anne Rice (na figura de Lestat) associa a personagem de Armand a uma hárpia, confesso que me despertou a curiosidade e tive de ir pesquisar. Em toda a galeria de monstros da antiguidade não me lembrava exactamente do que era a hárpia.
E era então um monstro com tronco de mulher, asas, pés de abutre, longas garras e face pálida e esfomeada. Originalmente a hárpia era um símbolo da Justiça, uma criatura criada pelos deuses para atormentar os malfeitores, mas degenerou numa criatura maléfica por si só. Na “Odisseia” de Homero, as hárpias eram ventos que arrastavam os marinheiros para longe. Na Idade Média, a hárpia transformou-se no símbolo da ganância e do diabo, e a ideia prevaleceu. Na língua inglesa, significa uma pessoa vil, implacável e extorcionista. Enfim, só palavras meigas.
Cá está ela, a hárpia:



Por outro lado, a figura delicada de Armand lembra um anjo de Caravaggio. Aposto tudo que era neste que Anne Rice estava a pensar, e pelo que vi nos sites dedicados às vampire chronicles, não sou a única:

(São Mateus e o Anjo)

Temos então um lobo na pele de cordeiro, o que por si só é muitíssimo perigoso. Pela altura de “A Rainha dos Malditos”, Armand já tem um largo cadastro no sentido exacto da palavra.
É engraçado que uma vez li na Boa Estrela algo que me deixou os cabelos em pé e que quis transcrever aqui mas depois o tempo passou e... O que interessa é que se aplica agora. Entre várias medidas para ter sucesso na vida, uma delas era: “Tente descobrir o que as pessoas vão querer antes de elas descobrirem o que querem. Fazer alianças multiplica o poder. Faça com que as outras pessoas o ajudem e colaborem, unindo-se em direcção ao mesmo alvo”. Eu chamo a isto “manipulação”, mas de um ponto de vista muito realista, sim, isto funciona. Lembro-me de ter pensado que se para ter sucesso na vida tivesse de seguir aqueles 50 conselhos - como é que a Boa Estrela publica um artigo tão pouco edificante ainda não percebi - nunca teria sucesso porque prezo muito a minha consciência. É que eu tenho uma, e pesa-me.
Agora, que a manipulação e o intriguismo resultam, se resultam!
Não sei se o vampiro Armand lê a Boa Estrela, ou talvez tenha nascido ensinado. Todos nascemos com um dom especial.
Pois o dom de Armand é o poder. Mudam as circunstâncias, mudam os ideais, mas Armand tem o dom de “ficar sempre do lado certo”. Qualquer político devia ver em Armand uma inspiração.
Mais do que o intriguista que separa os amigos para seu proveito, Armand é sempre e toda a vida o líder do coven dos vampiros “civilizados”. Como o consegue? Quase por artes mágicas, torna-se na personificação da lei em vigor no momento - o Estado, podemos assim dizer - e chama a si os que temem viver na insegurança. Lestat não faz parte de coisa nenhuma e Louis está sempre tão ocupado a ter pena de si próprio que nem se apercebe que existe um mundo além do seu umbigo. Armand deseja os dois porque possivelmente tem uma certa inveja de não precisarem de quem lhes diga o que fazer. A liberdade é um conceito que Armand não compreende. Na sua ânsia de sobreviver, não se terá esquecido de viver? Que existência triste.
Quando Lestat foi criado, Armand tinha um coven de vampiros que viviam debaixo do cemitério e se dedicavam ao satanismo. Isto porque alguém lhes disse que era assim que deviam fazer, e alguém estipulou as regras que seguiam há séculos. Por ignorância, Lestat acaba por mostrar aos vampiros da altura que havia alternativa. E isso destruiu o pequeno mundo de Armand. O que fazer agora? Os vampiros revoltavam-se, queriam ser livres.
Primeiro, ainda destruiu uns quantos. Depois pensou duas vezes, deitou fora as suas roupas medievais, transformou-se num cavalheiro do século XVIII e voltou a liderar o coven do Teatro dos Vampiros - onde estavam os sobreviventes... de ele próprio.
Virar a casaca! Esse magnífico dom que já transformou maoístas em sociais-democratas! Pois...
Primeiro, Armand tenta seduzir Lestat para o seu grupinho de “discípulos de Armand” ... Mas Lestat nunca acreditou muito nele. Talvez porque antes de o seduzir, Armand o quis incinerar numa pira de fogo? Pormenores.
Por altura do encontro com Louis, o nosso Armand era o dono e senhor do Teatro dos Vampiros. Tinha também um escravo humano, uma espécie de guloseima fora das refeições, que matou num instante quando conheceu Louis. Afinal, este não era importante. Louis foi importante por uns tempos, mas depois também perdeu o interesse. Então já lhe podia dizer a verdade. Antes não era conveniente.
Depois da “fase Louis”, Armand não perdeu muito tempo a encontrar outra vítima. Lembram-se do jornalista que entrevista Brad Pitt em “Entrevista com o Vampiro”? Chama-se Daniel Molloy e também é uma criatura adorável. Ainda era humano e já me inspirava arrepios. Dele só se vê cobardia: tem medo de Louis e tem medo da morte, e tem medo de Armand quando este o começa a perseguir. O que quer dele o vampiro? Aprender sobre o século XX. Sente-se desactualizado, está a perder o poder. Durante anos leva a cabo o seu assédio de hárpia esfomeada até que Daniel confessa que está apaixonado pelo Mal. O Mal que há em Armand. E Daniel quer ser também o Mal. Ser um vampiro. Ser imortal. Nunca questiona a ética desse seu desejo.
É de facto uma bela amostra de ser humano, não haja dúvida!
Por fim lá consegue o que deseja, e o entrevistador do vampiro torna-se vampiro também. “A minha herança de Louis”, diz Armand.
Este prepara tudo para um grande coven onde, como não podia deixar de ser, ele é que manda. Mas também não teve o melhor dos resultados...

Apesar de tudo, reconheço que a hárpia tem os seus encantos. Armand não faz vítimas ao acaso. Senta-se e espera que as pessoas que desejam morrer cheguem até ele. Essa parte é amorosa!
Ainda não li o livro todo dedicado ao vampiro Armand (mas já cá o tenho, yes!) e já algo me diz que ainda me vou arrepender desta maledicência. Com certeza tanta perversidade e falta de moral tem uma origem. Nas entrelinhas quase que se adivinha: na sua adolescência como humano, Armand foi vendido a um bordel onde terá sofrido os calvários deste mundo e do outro. Ainda vamos chegar à conclusão que Armand é uma espécie de “menino da Casa Pia”...
Será desculpa suficiente?

Publicado por _gotika_ em 10:00 PM | Comentários: (2)