domingo, 17 de maio de 2020

“A Dança dos Ossos”, edições Livro B


A Dança dos Ossos” é a edição Livro B de um ebook já aqui muito falado, “Dentro da Noute”, organizado por Ricardo Lourenço.
(Basta seguir a etiqueta “Dentro da Noute” para encontrar comentários a todos os contos portugueses desta antologia.)
Embora eu prefira muito mais o título “Dentro da Noute” (assim mesmo, arcaico e tudo), o melhor motivo para mudar o título deste “A Dança dos Ossos” é que um dos contos foi substituído: em vez de “A Confissão de Lúcio”, no original digital, “A Estranha Morte do Prof. Antena”, do mesmo autor Mário de Sá Carneiro (o que faz sentido, uma vez que  “A Confissão de Lúcio” talvez fosse muito extensa para a edição em papel).
“A Dança dos Ossos” está disponível no website da colecção Livro B. Transcrevo de lá o texto introdutório:

As origens da literatura popular luso-brasileira com temáticas de sempre: crime, sobrenatural, romance.

A génese do movimento gótico teve lugar na Alemanha no século XVIII (a balada"Lenore" de Gothfried August Burger é considerada a obra iniciadora do género). Como nunca antes, numa espécie de onda imparável, a moda espalhou-se pela Europa e pelo mundo ocidental em geral. As razões conjugavam-se para justificar esse sucesso: o livro impresso vulgarizava-se e tornava-se acessível em termos de preço; com mais acesso a fontes de escrita e a projectos pioneiros de ensino, uma grande parte da população começou a aceder com maior ou menor facilidade a uma educação básica que antes era simplesmente inexistente; os escritores encontravam, pela primeira vez, um mercado propriamente dito adequando, pela primeira vez na história, a sua produção a uma procura crescente. 

Dessa forma encontra-se no gótico literário a génese da literatura policial, fantástica, da ficção científica, da literatura de acção ou, até, da dita literatura romântica.

No mundo lusófono, traduções de Ann Radcliffe, Fréderic Soulié e muitos dos primeiros best-sellers do gótico chegaram já no século XIX e o movimento, por cá, mesclou-se, de alguma forma, com o ultra-romantismo

Nesta antologia, preparada por Ricardo Lourenço, encontramos uma amostra choruda dos grandes expoentes do género no universo luso-brasileiro, catalogando uma panóplia de temáticas que vieram a marcr toda a literatura popular dos séculos seguintes e que ainda hoje mantém a sua actualidade bem fresca.

Contos e Novelas Portugueses
1. «O Defunto», de Eça de Queirós
2. «A Dama Pé-de-Cabra», de Alexandre Herculano
3. «A Caveira», de Camilo Castelo Branco
4. «A Torre Derrocada», de Alberto Osório de Vasconcelos
5. «O Mistério da Árvore», de Raul Brandão
6. «O Corvo», de Fialho de Almeida
7. «A Feiticeira», de Ana de Castro Osório
8. «A Morta», de Florbela Espanca
9. «Os Canibais», de Álvaro do Carvalhal
10. «Uma Récita do Roberto do Diabo», de Júlio César Machado
11. «O Cadáver», de Beldemónio
12. «Sede de Sangue», de Manuel Teixeira Gomes
13. «A Estranha Morte do Prof. Antena», de Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. «Noite na Taverna», de Álvares de Azevedo
2. «A Dança dos Ossos», de Bernardo Guimarães
3. «Os Porcos», de Júlia Lopes de Almeida
4. «Acauã», de Inglês de Sousa
5. «Violação», de Rodolfo Teófilo
6. «Maibi», de Alberto Rangel
7. «Assombramento», de Afonso Arinos
8. «11 e 20», de Medeiros e Albuquerque
9. «Demônios», de Aluísio Azevedo
10. «O Defunto», de Tomás Lopes
11. «A Causa Secreta», de Machado de Assis
12. «O Bebê de Tarlatana Rosa», de João do Rio
13. «Confirmação», de Gonzaga Duque
14. «Os Olhos que Comiam Carne», de Humberto de Campos

Recomendo a antologia a toda a gente que gosta de literatura gótica (e de literatura portuguesa), especialmente àqueles que ainda não tiveram muito contacto com ela. Aos outros, esta antologia vai com certeza despertar memórias e recordar o motivo pelo qual já temos os nossos autores preferidos.
E aproveito para dar os parabéns ao Ricardo Lourenço pela iniciativa. Desejo muita sorte para esta antologia, e cá fico à espera de mais iniciativas deste tipo, ou de outro.

O Livro B
Saúdo a iniciativa de trazer de volta a colecção Livro B. Estes livrinhos, de tamanho muito pequeno e capa negra (e às vezes páginas azuis de papel muito fino e letra muito pequena), são em grande parte responsáveis pela minha educação literária. Por serem pequenos, eram também baratos. Noutros tempos, nunca ia à Feira do Livro sem trazer uma carrada deles, o que me deu a conhecer autores que de outra forma me teriam passado ao lado. De alguns gostei, com outros fiquei decepcionada, mas o importante é que graças à colecção fui exposta a muitos tipos de escritores e diferentes géneros, encaminhando os meus gostos literários na direcção em que acabariam por solidificar mais tarde.
Por esta educação literária, indescritivelmente superior à que tive na escola, estou muito grata ao Livro B e à sua colecção original. Foi aqui que li “Do Assassínio como uma das Belas-artes” de Thomas de Quincey; “Paraísos Artificiais” de Charles Baudelaire; “Frankenstein” de Mary Shelley; “As Filhas do Fogo” de Gérard de Nerval; “Os Demónios de Randolph Carter” de H. P. Lovecraft; “O Cocheiro da Morte” de Selma Lagerlöf (um dos meus preferidos e um livro que me marcou muito); “O Altar dos Mortos” de Henry James; “O Castelo de Otranto” de Horace Walpole (considerado a primeira obra de literatura gótica); “Os Cisnes Selvagens e Outros Contos” de Hans Christian Andersen, e isto só para recordar os favoritos. Muitos outros li também e, embora não sendo preferidos, deram-me a conhecer contos de autores que me levaram mais tarde a procurar as suas obras mais importantes, como “A Mulher Pobre” de Léon Bloy ou “Carmilla” de Joseph Sheridan Le Fanu. Este sim, é um plano de leitura cinco estrelas.
Vou continuar a ser uma leitora desta nova colecção do Livro B, mas tenho uma crítica a fazer. Estamos na era digital e estas novas edições não incluem o ebook. É pena, para quem como eu desistiu do papel (muitos motivos, desde os ecológicos à falta de espaço e à facilidade de transporte em dispositivos digitais). Já é altura de as editoras portuguesas (não só esta como todas) acompanharem o espírito dos tempos e perceberem que o ebook veio para ficar e muitos leitores já não querem o papel. Ignorar este facto é perderem leitores pagantes, para seu prejuízo. E nosso, também.


domingo, 10 de maio de 2020

La guerre des trônes, la véritable histoire de l'Europe / A verdadeira guerra dos tronos


Como o nome indica, este documentário aproveita o sucesso da série para nos apresentar a História da França à moda da “Guerra dos Tronos”: batalhas sangrentas, envenenamentos, traições e facadas nas costas, sexo escandaloso. E muita, muita ambição.
De forma modesta e engraçada, até o genérico final tenta “imitar” o da “Guerra dos Tronos”, mas com castelos a sério. Achei giro, mas também podiam ter feito uma brincadeira com os brasões das principais famílias: o Leão, a Flor-de-Lis, as Rosas…
Porque, de certa forma, o documentário acerta em cheio. É esta História, a História real (e não apenas a História medieval), que inspira os escritores de Fantasia. Com mais ou menos dragões, com mais ou menos magia, vai-se a ver e tudo começa aqui, nos livros de História, mais ou menos transformada de acordo com a imaginação do autor. Porque a História é interessante, mas há sempre maneira de a reinventar ainda mais interessante.
O documentário conta o enredo muito depressa em quatro episódios, desde a Guerra dos Cem Anos (que afinal duraram mais tempo: 1337-1453) até Francisco I de França (1494-1547), e eu fiquei com uma grande vontade de ver aquilo tudo numa série propriamente dita, com os personagens bem desenvolvidos e os acontecimentos bem mostrados. É claro que já foram feitas adaptações cinematográficas e televisivas deste ou daquele personagem e/ou acontecimento histórico, mas assim, numa extensão de tempo tão longa e com um enredo que se vai entrelaçando de personagem em personagem, do princípio ao fim, desta maneira nunca vi. E gostava muito de ver.
Depois de andar por aí na net a pesquisar este documentário descobri que deve ter tido sucesso, porque fizeram mais temporadas. Por este motivo não sei se esta crítica vai ser justa, por isso ressalvo que a seguir me refiro à primeira temporada. A série focou-se demasiado na História de França para se poder chamar “História da Europa”. A não ser que voltem atrás, agora nas temporadas seguintes, porque nem sequer mencionaram alguns dos episódios mais sumarentos da História: os Bórgias, os Médicis, o fanático Savonarola, e o meu querido Maquiavel. Como é que é possível fazer uma História da Europa à moda da “Guerra dos Tronos” e não falar de Maquiavel? Parafraseando: “Mais vale ser temido do que amado, porque os homens traem quem amam, mas obedecem a quem temem”. Até a Daenerys Targarien sabe disto e nunca leu “O Príncipe”.
(E, já agora, podiam também falar daquele paisinho da ponta da Europa que teve um império mas perdeu-o por causa de um rei adolescente que quis ir caçar mouros. Foi um massacre, maior do que a Batalha dos Bastardos.)
Gostei muito deste documentário e queria ver mais. Boa ideia terem feito mais temporadas.
“A Verdadeira guerra dos tronos” passou na RTP2.

RTP2, repete lá isto mais vezes e, já agora, passa as novas temporadas!

domingo, 3 de maio de 2020

Deepwater Horizon / Horizonte Profundo - Desastre no Golfo (2016)


 

Exactamente como o título indica, este filme é a dramatização do maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos. Em Abril de 2010, a plataforma de exploração petrolífera Deepwater explodiu, matando 11 pessoas e derramando crude no Golfo Do México. De acordo com o filme, o acidente teve por causa a ganância da BP (a quem pertencia a plataforma), que, perante o atraso nos prazos, se recusou a realizar todos os testes necessários para garantir a segurança da operação.
O filme faz tudo o que precisa de fazer para nos explicar o que está a acontecer, até para quem (como eu) nunca viu uma plataforma petrolífera na vida. Percebi sempre o que se estava a passar, os riscos que se estavam a avolumar e os aspectos técnicos da explosão.
As personagens são bem desenvolvidas o suficiente para nos importarmos com elas, embora neste tipo de filmes não seja costume aprofundá-las muito porque se tratam de pessoas reais, vivas ou mortas, de quem não se pode revelar ou fantasiar demasiado.
“Deepwater Horizon” é um filme catástrofe explicativo, eficiente e direito ao assunto, que nos ajuda a perceber o desastre. Como disse, um filme que faz tudo o que devia fazer.

13 em 20

domingo, 26 de abril de 2020

Ice Age: Continental Drift / A Idage do Gelo: Deriva Continental (2012)


Porque é que eu estou agarrada a esta série? Se calhar porque me faz chorar a rir.
Só a primeira sequência, em que o nosso amigo Esquilo da Bolota consegue partir o continente Pangeia e dar início à deriva continental, fez-me rir de lagriminhas nos olhos.
Será que os miúdos apanham estas piadas todas? Porque isto tudo me parece demasiado sofisticado para miúdos. Lembra-me uma vez em que a minha tia me levou a ver um filme supostamente para miúdos. Foi uma seca. No fim ela perguntou-me o que é que eu tinha achado e eu respondi: “Não percebi nada.” Mas a minha tia tem tendência para os filmes intelectuais. Quando eu tinha 15 anos levou-me a ver um filme de Fellini, “O Navio”, e desta vez já percebi tudo, mas não é o meu género. Isto para dizer que muito possivelmente não ia achar graça nenhuma a “Ice Age” quando era miúda. Mas agora gosto mesmo muito. Faço questão de ver a versão original (e não a dobrada em português) para não perder uma única piada.
Além do humor, o que me prende à série já são as personagens. É claro que estes mamutes, que esta preguiça, que este tigre dente-de-sabre, são tão humanos como nós.
Peaches (filha de Manny, o tal mamute que no princípio pensava que era o último mamute do mundo, e de Ellie) já é uma adolescente que quer andar com rapazes. “Só no dia em que eu morrer!”, responde Manny, um pouco ultra-possessivo, “Melhor ainda, três dias depois de eu morrer para ter a certeza de que estou morto!”
Peaches, como qualquer boa adolescente, ignora o que o pai diz e foge para ir ter com os “rapazes” estilosos da manada. Entretanto, o seu amigo ouriço, Louis, tem uma paixão platónica e desesperada por Peaches. Coitado do ouriço, é tão pequeno que Peaches o pode transportar na tromba, mas o amor é cego.
Sid, a preguiça optimista, recebe a visita inesperada da família toda: pai, mãe, irmão, tio e avó idosa. Sid, que foi abandonado pela família, fica radiante ao vê-los. É o seu ingénuo optimismo. A família só apareceu para abandonar a velha com ele, e logo de seguida desaparece outra vez. Pobre Sid. Isto é para os miúdos perceberem que nem todas as famílias são perfeitas.
E depois temos Diego, o dente-de-sabre, que finalmente encontra um interesse romântico, mas penso que este enredo só vai ser desenvolvido em próximos episódios.
Só não gosto quando eles começam com as canções. Palavra de honra, nunca gostei de musicais, nem para adultos, e assim que eles começam a cantar fico atacada de urticária. Felizmente foi só uma canção.
Gostei da parte sobrenatural em que Manny, Sid e Diego, à deriva num iceberg, se cruzam com umas lindíssimas sereias que os querem atrair até elas. Só que estas sereias são uns monstros marinhos que podiam perfeitamente ter saído de Lovecraft. Sim senhor, educar os miúdos em Lovecraft desde pequeninos. Aprovo!
As personagens são sólidas e cativantes e já as acompanho há tempo suficiente que me importo com tudo o que lhes acontece. Mas não quero enganar ninguém. A personagem com quem me identifico mais, desde que o conheço, e foi amor à primeira vista, é mesmo o Esquilo da Bolota (Scrat). Anti-social e obcecado pela Bolota amada, o mundo todo podia partir-se à sua volta que Scrat não vê mais nada nem ninguém. Eu também sou assim, seja o que aconteça à minha volta, sempre obcecada e incansavelmente a perseguir a minha Bolota (os meus projectos, isto é, só para clarificar).
Em “Deriva Continental”, e depois de partir o mundo, Scrat encontra um mapa do tesouro para uma ilha repleta de bolotas. Nada o consegue deter de encontrar esse mundo idílico e bolótico. E encontra mesmo, e é assim que o Esquilo da Bolota consegue também afundar a Atlântida. Como é que é possível não chorar a rir?
Já sou fã da série e vou ver todos os filmes que saírem. Lamento não ter gostado tanto de “Dawn of the Dinosaurs”, não sei bem porquê. Mas “Continental Drift” é novamente “Ice Age” no seu melhor.

15 em 20 (para filme de animação)

A sequência inicial em que o Esquilo da Bolota parte o mundo, e agora digam-me que não é de chorar a rir: AQUI.

domingo, 19 de abril de 2020

(The Adventures of) Merlin / Merlin (2008–2012)


[contém spoilers; revela o final]

Hesitei muito em fazer a crítica a esta série (as cinco temporadas), porque basicamente só tenho a dizer mal, mas cá vai. “Merlin” deve ser a série mais mal feita que eu já vi na vida. Quando comecei a ver os primeiros episódios julguei, palavra de honra, que era uma série muito antiga, daquelas que se faziam nos anos 80, tipo “Os Três Duques” ou “Buck Rogers”, destinadas a um público muito jovem e estruturadas em episódios do género “aventura da semana” sem que tivessem qualquer história de fundo a desenvolver-se ao longo da série. “Merlin” começou assim, pelo menos, e assim se manteve até ao final da terceira temporada.
Fiquei muito desapontada logo com o primeiro episódio. Esperava um drama arturiano e saiu-me uma série infanto-juvenil sobre o jovem feiticeiro Merlin que embirra com o jovem príncipe Arthur, mas que acaba por se tornar criado dele. Para terem uma ideia, nada aqui é realista nem segue a história clássica. Estes acontecimentos deviam ter acontecido no século V mas Camelot parece uma cidade do século XVII, inclusive com um físico da corte, Gaius. Guinevere não é uma nobre mas sim uma criada de Morgana. Morgana não é meia-irmã de Arthur mas sim uma protegida de Uther, o rei. Ao ver isto, percebi que ia ser uma versão para crianças do conto arturiano, em que todos os personagens são amigos e lutam contra o vilão da semana. E de certa forma até foi. Em quase todos os episódios, estes quatro partiam em aventuras, derrotavam os maus e voltavam a casa.
Agora vamos à história principal de “Merlin”, que durante três temporadas serviu apenas de móbil para este ou aquele enredo semanal. Uther, o actual rei de Camelot, tem ódio à magia. Logo no primeiro episódio um qualquer desgraçado é decapitado por praticar magia (mas não se preocupem porque não se vê nada de perturbador; aliás, as espadas de Camelot têm o condão de serem enfiadas numa qualquer barriga e saírem como entraram, sem uma gota de sangue. Sinceramente, acho que nunca vi sangue nesta série, do princípio ao fim, apesar das batalhas e do elevado número de mortos nas últimas temporadas. Neste aspecto, a série nunca perdeu o seu cariz infantil. E as mortes nunca foram realistas, excepto a última, mas já lá vamos.) Uther é um rei fanático em relação à magia, justificando que em tempos esta foi usada para grandes males, o que o levou a fazer a Grande Purga em que matou toda a gente que tinha dons mágicos: homens, mulheres e crianças. Só isto já dá uma ideia do tipo de homem que aqui está. O que descobrimos depois, e o que o torna execrável, é que Uther é também um grande hipócrita. Quando se vê em apertos, e apesar da sua própria lei anti-magia, o hipócrita recorre a quem o salve, mesmo com magia.
Mas, como se não bastasse, Uther é também um péssimo pai para Arthur, sempre e constantemente a deitá-lo abaixo. Quase todos os episódios eu acabava a abanar a cabeça e a dizer “Pobre Arthur” e admito que foi isto que me agarrou à série. Pobre Arthur, eu só queria que finalmente aquele desgraçado tivesse uma chance de ser feliz. Desgraçadamente, tudo lhe aconteceu e todos lhe mentiram e o traíram a torto e a direito, até aqueles que o amavam e o queriam proteger.
A Merlin é atribuído, desde o primeiro episódio, o destino de proteger Arthur. Quem lho diz é o Dragão, o último da sua espécie, aprisionado nas masmorras de Uther para servir de exemplo da sua cruzada anti-magia. Honra seja feita a “Merlin”, este é um dragão como deve ser, um dragão sábio e falante, cheio de profecias e segredos, que não tem nada a ver com as criaturas acéfalas da “Guerra dos Tronos”. Isto é que é um dragão, um dragão à Tolkien. E durante a série inteira o Dragão foi a única personagem coerente. Já as outras…
Desde cedo se percebeu que Arthur e Guinevere iam mesmo casar um com o outro. Ora, isto é problemático porque Guinevere é uma serva. E Uther, evidentemente, opõe-se. O homem é tão mau que mandou matar o pai de Guinevere só porque este falou com um feiticeiro, e ameaçou expulsar Guinevere de Camelot quando percebeu que Arthur tinha sentimentos por ela. Mas, estranhamente, por culpa dos autores da série que a escreveram tão mal, Guinevere aceita isto tudo, inclusive a execução do próprio pai, como se nada fosse. Por fim, depois da morte de Uther, a série lá arranjou maneira de os casar, justificando que o povo de Camelot só queria que o seu novo rei, Arthur, fosse feliz. Se é uma série infanto-juvenil, aceita-se.
Mas esta Guinevere, não é só para dizer mal por dizer, é uma oferecida. Não houve ninguém a quem ela não se tivesse feito. A Merlin, logo no dia em que o conheceu. A Lancelot, o primeiro grande amor da vida dela. Até a Gawaine, quando o viu. Quando ela diz a Arthur “eu sempre te amei”, deve ser para rir. Sempre o amou, ou ficou com ele porque foi o único que, pelo contrário, a amou sempre, ou porque ele ia ser rei? É que tudo isto pareceu muito mal para o lado da Guinevere. E mais uma vez eu abanei a cabeça: pobre Arthur!
E depois temos Morgana. A princípio ela era boa pessoa, amiga de Arthur, de Gaius e de Guinevere. Chegou a ir com eles em aventuras em que arriscou a vida para os salvar. Ao mesmo tempo, Morgana vai descobrindo que também ela tem dons mágicos, o que a coloca numa situação periclitante perante Uther, que chega mesmo a enfiá-la numa masmorra e tudo indica que até a mandava matar se fosse preciso. Começa assim a revolta de Morgana contra Uther e ninguém pode dizer que não é justificada. Mas de repente, golpe de teatro!, os autores da série decidem que Morgana afinal não é apenas uma protegida de Uther, que é mesmo uma filha ilegítima (logo, meia-irmã de Arthur, como na história clássica), e para lhe salvar a vida Uther até recorre à magia certa vez. Então, Uther, não estavas disposto a mandá-la matar quando desconfiaste que ela tinha magia? Esqueceste-te de que ela é tua filha? Os autores da série, de certeza, esqueceram-se, ou nunca tiveram intenção de a tornar filha de Uther.
Isto é apenas um das dúzias de exemplos de como os escritores da série andaram a patinar, como se não soubessem para onde levar a história e o que queriam fazer da série. Efectivamente, o maior problema de “Merlin” é que a série não parece ter sido previamente planeada, que não sabe a quem se destina e para onde se dirige. Cheguei a pensar para com os meus botões que cada episódio era dado a escrever a um escritor diferente que não sabia o que os outros estavam a fazer, naquele improvisanço de que depois se “dava um jeito”. Se, pelo contrário, isto foi tudo pensado de propósito, nem sei o que dizer. Mas duvido mesmo muito que o tenha sido.
Um outro exemplo que me irritou solenemente: desde os primeiros episódios que Arthur disse que um certo soberano vizinho a Camelot, um tal de Odin, o queria matar porque Arthur tinha matado o filho dele. Isto foi dito e esquecido, mas umas temporadas depois Arthur voltou a dizer: “Odin odeia-me porque eu matei o filho dele”. Só nunca disse quando e como. Foi na guerra? Foi um acidente? Foi em legítima defesa? Foi a jogar aos dardos?... Quanto mais falavam do assunto mais curiosa eu ficava. Lá para as últimas temporadas algum dos escritores decidiu fazer um episódio em que o tal Odin captura Arthur e o quer matar porque, claro está, ele matou o filho dele. E eu pensei, “finalmente!, vamos saber o que é que aconteceu”. Pois. Não. Nem assim. Arthur é salvo por Merlin no último instante, como acontece sempre nesta série, e agora é ele que vai matar Odin. E eu quase gritei à televisão: “Não, gaita, não o mates antes de ele dizer como é que mataste o filho dele! Ou diz tu! Alguém diga!” Ninguém disse. E nunca fiquei a saber como é que o tal filho do Odin foi morto, e se havia legítimas razões para vingança ou se o Odin estava apenas a ser casmurro. Ora, não é assim que se conta uma história. Isto é fazer de propósito para alienar os espectadores que estão a tentar importar-se com aquilo que estão a ver.
A série continuou a fazer isto regularmente. Coisas que eram mencionadas e nunca explicadas, profecias que só apareciam quando davam jeito, partes importantes do enredo que não eram contadas nem mostradas. Por exemplo, quando de repente se inventou, lá para a quarta temporada, que havia uma profecia de que seria um druida a matar Arthur. “Estranhamente”, nunca se ouviu falar desta profecia antes, porque os escritores nunca tinham pensado nela. Outro exemplo: já depois de Morgana se tornar uma vilã tomamos conhecimento de que um outro soberano vizinho a Camelot (cujo nome nem apareceu o suficiente para eu me lembrar) a manteve aprisionada durante dois anos. Isto é importante, não?! Muito importante. Mas isto só foi dito, en passant, no episódio em que ele entrou, com um flashback de 10 segundos de Morgana acorrentada numa cela. Como foi capturada, porque é que foi aprisionada, como escapou, nunca saberemos. Até parece que nada disto é importante. Eu tive a sensação de ter perdido esse episódio, mas de facto não perdi porque os vi todos. Mais uma vez a série a fazer todo o seu possível para não nos importarmos com as personagens. Não há nada pior, ao contar uma história, do que fazer com que os espectadores não a percebam. Foi exactamente o que aconteceu aqui.
Bem, pelo menos isto explicou porque é que o dragão da Morgana é deficiente, pobrezinho, o que já não é mau, senão isto ficava sem explicação também... Mas já estou a pôr o carro à frente dos bois.
Morgana, como disse, torna-se 100% vilã. A revolta contra Uther compreende-se, mas depois de ele morrer Morgana transfere a sua raiva contra Arthur, de quem sempre foi amiga, sem que se perceba muito bem porquê. O próprio lhe pergunta, em dois episódios diferentes: “Morgana, o que te aconteceu?” Ao que ela responde: “Cresci.” Fraca motivação para quem era capaz de arriscar a vida por Arthur, antes mesmo de saber que ele era seu irmão, a quem Arthur nunca fez nenhum mal, que de repente a faz querer roubar-lhe o trono e dizer coisas como “quero que os lobos lhe comam a carcaça e que os corvos lhe furem os olhos”. É muito forte para quem não tem motivos para odiar desta maneira. (Mas honra seja feita à actriz Katie McGrath, ela conseguiu adaptar-se à transformação da personagem e vendeu-nos muito bem a sua vilania.)
O que aconteceu a Morgana foi antes isto: a “Guerra dos Tronos” estava a ter o sucesso que se sabe e de repente os autores de "Merlin" decidiram copiar, e vai de transformar a Morgana numa vilã horrorosa, como Daenerys e Cercei. Até lhe arranjaram um dragão! A última temporada é mesmo um plágio descarado, com cenários a lembrar a Muralha e Winterfell, onde até aparece “Ser Davos” (Liam Cunningham), vestido com roupa que, não estou a ironizar, deve ter sido alugada directamente ao guarda-roupa da “Guerra dos Tronos”.
Foi por esta altura, a quinta temporada, que comecei a ver por hate watching mesmo. Só para gozar e dizer mal. Mas foi também na quinta temporada que a série finalmente encontrou um rumo, tarde demais mas encontrou, abandonando a faceta infanto-juvenil e perdendo o medo de se tornar sombria. Foram os melhores episódios, e mesmo assim não foram bons.
Até chegarmos aos três últimos episódios. Estes sim, foram bons, até parece uma série diferente, onde os acontecimentos têm peso e consequência, onde as personagens não mudam de personalidade conforme a vontade dos autores. Onde conseguimos, finalmente, importarmo-nos com elas. Confesso que vi estes três últimos episódios colada ao écran.
Mas, no fim, a série voltou a deixar a desejar. Embora a mim, pessoalmente, tenha satisfeito, li algumas críticas de fãs que ficaram completamente destroçados. E têm razão, e vou explicar porquê.
Grande spoiler, ou talvez não: Arthur morre no fim. Quem conhece a história clássica já sabe disto, e que é uma história muito mais trágica do que na série (Arthur é assassinado pelo seu próprio filho Mordred, filho de Arthur e da sua meia-irmã Morgana), mas tendo em conta como a série aligeirou a história a níveis infanto-juvenis penso que os fãs do início tinham legitimidade para esperar um final diferente. Afinal, Arthur e Morgana nunca dormem juntos, Mordred não é filho deles, Arthur casa com uma criada por amor, porque é que raio não podiam engendrar um fim feliz? A série prometeu que ia ser ligeira e no fim partiu o coração aos fãs.
Eu própria, no último episódio, não acreditei que Arthur ia morrer. Sempre julguei que Merlin inventasse algo à última da hora (como a série sempre fez) que o salvasse. De outra maneira teria logo desatado a chorar quando Arthur começou a revirar os olhos, a morte mais realista de toda a série. Mesmo assim, quando ele morreu mesmo, afectou-me, confesso. Os actores Colin Morgan (Merlin) e Bradley James (Arthur) conseguiram, às vezes contra a má qualidade da própria série, convencer-nos de uma amizade que se foi desenvolvendo ao longo de cinco temporadas e que atinge o seu auge épico neste último episódio. Quando Merlin grita, guturalmente, em lágrimas incontroláveis, a invocar o Dragão, é também já um grito de dor e luto, e eu arrepiei-me.
E é por causa deste momento arrepiante que estou a fazer esta crítica. Não posso, de modo algum, recomendar a série, nem sequer a última temporada, que igualmente padeceu de soluços constantes, mas recomendaria os três últimos episódios. Talvez não bastem para mostrar como esta amizade evoluiu até chegar onde chegou, mas quem ficar interessado pode sempre ir ver do princípio.
Pobre Arthur, nunca teve mesmo uma chance. Da mesma forma, o talento dos actores merecia uma série à altura deles, mas infelizmente não a tiveram. Os três últimos episódios que me colaram ao écran não poderiam nunca salvar cinco temporadas de uma série sem rumo que não sabia o que queria nem para onde queria ir. Quando foi, já ia tarde.



domingo, 12 de abril de 2020

Pet Sematary / Cemitério Vivo (1989)


Gravei este filme ao engano, porque o canal anunciava que era a remake de 2019. Não, era o original de 1989, mas não me importei porque gosto mesmo muito deste filme. Já o vi umas quatro ou cinco vezes, duas delas no cinema, e quanto mais o vejo mais gosto dele.
“Pet Sematary”, adaptação do livro homónimo de Stephen King, pode parecer superficialmente um filme sobre zombies, mas da forma que eu o vejo é tudo menos isso. É uma história profunda e filosófica sobre a morte, o luto, e a dor tão intolerável que leva quem perdeu um ente querido a fazer o proibido para o ter de volta. Várias vezes me vieram as lágrimas aos olhos.
Não vou contar a história, até porque por esta altura já toda a gente viu o filme, mas vou salientar quando no início a filha do casal se revolta ao perceber que o seu gato, Church, ia morrer um dia. “Ele ainda vai estar vivo quando andares no liceu”, diz-lhe o pai, “parece-me uma vida bem longa”. “Não me parece nada longa”, responde a miúda, e tem razão: “Já sei, quem faz as regras é Deus. Se Deus quer um gato que o arranje! Que não me leve o meu gato!”
O que a miúda diz reflecte a grande questão que pesa sobre a humanidade desde que a homem pré-histórico se sentou  à volta da fogueira e começou a pensar no assunto. A vida é muito curta. Por longa que seja, é sempre muito curta. Deus e a religião, se quisermos ser incréus, foram invenções da humanidade para solucionar o problema da mortalidade. Morremos, mas a religião diz-nos que, de alguma forma, ressuscitamos, neste mundo ou no outro. Nada é mais difícil para um ser pensante do que a aceitar a efemeridade da vida, e de que tudo continua mas já não estaremos cá para ver o futuro.
A revolta começa na infância, quando as crianças vêem morrer os seus animais de companhia. Continua pela fase adulta, enquanto o homem tenta encontrar a explicação ou a conformação que lhe apazigue esta angústia existencial. Para alguns, como o médico do filme, nada existe após a morte. Podemos mesmo condená-lo por tentar trazer à vida o seu filho bebé, e, apesar dos resultados, insistir ainda em ressuscitar a sua esposa? Pergunto mesmo mais: quem não faria o mesmo naquela situação? O solo do coração de um homem é emperdernido, diz o filme, e nada o demove.
O filme propriamente dito está muito bem feito e continua actual (não percebo os motivos do remake, mas logo comentarei quando o vir), tirando os exageros típicos da época: aquela parte de Zelda, com o cliché "Vou-te apanhar!", era perfeitamente dispensável. E a cena em que o bebé luta corpo a corpo com o pai adulto -- que ridículo e que cena péssima, péssima! Mesmo assim, um bom filme do princípio ao fim, mas por causa destas cenas não é o filme perfeito que podia ser.

17 em 20



domingo, 5 de abril de 2020

Only Lovers Left Alive / Só os amantes sobrevivem (2013)


Cheguei a este filme através da música de Jozef van Wissem, quando este veio tocar ao festival Fade In 2019 (Leiria). A banda sonora é tão boa que quando descobri que “Only Lovers Left Alive” era um filme de vampiros, ainda por cima, tive de ver.
E o filme não desaponta no que diz respeito à música. Diria mesmo o contrário, que às vezes o filme tem tanta música que mais parece um videoclip e se eu quisesse ver videoclips ia ao YouTube.
Mas não é este o grande problema do filme. Ninguém jamais me vai ouvir dizer mal de personagens tridimensionais e bem construídas, como é o caso. O que falta a este filme é outra coisa igualmente crucial. Este filme não tem história. Ou não tem história que chegue, o que vai dar ao mesmo. É um filme-retrato, que se vê pela estética e pelo “ambiente” criado e por interesse nos personagens, à maneira daqueles filmes europeus em que dois personagens se sentam à mesa da cozinha e discutem Filosofia, mas não é o meu tipo de filme. Se os personagens não fossem vampiros muito provavelmente eu nem teria visto o filme até ao fim.
Mas vamos então ao pouco de história que “Only Lovers Left Alive” nos apresenta. Os protagonistas são um casal de vampiros, Eve e Adam, ela a viver em Marrocos, ele a viver numa zona deserta de Detroit, consequência do fecho das fábricas. Nunca se explica porque é que não estão a viver juntos, se aparentemente ainda se amam como no princípio, mas talvez como vampiros tenham tanto tempo à sua frente que estas separações temporárias são normais. Eve é alegre, entusiástica, apaixonada pela vida. Adam é melancólico, filosófico, introvertido. Como acontece aos vampiros muito antigos, Adam frequentemente se deixa cair no ennui de existir, e desta vez chega mesmo a mandar fazer uma bala de madeira para se suicidar. Eve percebe-lhe a depressão e viaja até ele, num voo nocturno, as malas cheias de livros em vez de roupa. Se a paixão de Eve são os livros, a de Adam é a música, bem como outras engenhocas científicas. A casa de Adam é um pesadelo de desarrumação, mais parecendo uma oficina caótica, com peças e fios e aparelhos em todo o lado, até na banheira e no frigorífico (desligado). Eve e Adam vivem à parte da humanidade (a quem chamam zombies, a nós!), observando de longe a passagem dos séculos e os progressos e retrocessos da sociedade. Bons vampiros, daqueles que se alimentam nos bancos de sangue dos hospitais, não fazem vítimas. Mas têm um problema. O sangue dos seres humanos está cada vez mais contaminado, o que leva os vampiros a adoecer e até mesmo à morte. Esta contaminação nunca é explicada de forma explícita, mas tanto pode ser drogas como SIDA como até a dieta do ser humano moderno. Penso que sejam drogas, porque a certa altura um deles diz que o sangue veio de alguém ligado à música, logo, “era de esperar”. Drogas é a hipótese mais provável.
O filme não tem realmente muito enredo. A certa altura a irmã mais nova de Eve, Ava, igualmente vampira e antiga mas com uma irresponsabilidade e um egoísmo de adolescente, visita o casal em Detroit e faz uma vítima. Eve e Adam têm de se ver livres do corpo, mas entretanto foram vistos com a vítima e têm de fugir para Marrocos. Onde os espera outro problema. O médico que arranjava sangue puro para Eve entretanto já não está lá, e pela primeira vez no filme Eve e Adam estão em grandes apuros.
E então o filme acaba. E fez-me pensar: “Era só isto?” Agora que estava bom, que Eve e Adam tinham de recomeçar do zero e arranjar outra rede de apoio, acaba assim? Pelo menos façam uma sequela.
“Only Lovers Left Alive” é um filme-retrato que vai agradar certamente aos amantes de vampiros, especialmente aos amantes de vampiros riceanos, que compensa em ambiente e banda sonora o que peca por falta de enredo. Eu, confesso, esperava mais, e gostaria muito de ver uma continuação.

15 em 20



domingo, 29 de março de 2020

Predators / Predadores (2010)


Quem acompanha a saga Predador já sabe tudo sobre ele: quem é o Predador, o que faz e o que quer. A dificuldade, sequela após sequela, é continuar a fornecer o que já se espera da série com alguma dose de originalidade. Este filme de 2010 consegue ambas as coisas.
Desta vez, o Predador não vem ao nosso planeta. Antes rapta daqui algumas “presas” e leva-as para outro planeta, onde, por assim dizer, tem uma “reserva de caça”. Como nós sabemos, o Predador não gosta de presas fáceis e indefesas, por isso os escolhidos são um grupo heterogéneo de militares e mercenários e assassinos. O Predador não fez uma escolha moral, e entre estes temos pessoas boas, más e assim-assim. E nem sempre os bons e os maus são aqueles que o parecem, algo que o filme manobrou muito bem e que nos consegue surpreender com alianças e traições inesperadas.
Os elementos de sucesso dos filmes anteriores são usados de forma inovadora. Por exemplo, a batalha épica do filme original, homem em tronco nu contra o Predador, armado apenas com uma catana, é aqui elegantemente recordada, desta vez com um capanga da máfia japonesa Yakuza armado apenas com uma espada de samurai. Não vence, mas também não perde.
Até há tempo para a nostalgia, quando alguém relata a história do único comando que sobreviveu ao Predador, em 1987, nas florestas da Guatemala. E de repente uma pessoa sente-se tão velha por se lembrar tão bem disto como se tivesse sido ontem.
Ao contrário do Alien, um colonizador “animalizado” com que não conseguimos estabelecer qualquer empatia, o Predador é um extraterrestre inteligente a quem podemos compreender. O Predador é um caçador. O nosso azar é que as presas somos nós. Mas a um caçador nós reconhecemos algo de humano (ou desumano, conforme as opiniões), e ele também nos reconhece a inteligência e o mérito a nós. Alianças entre homem e Predador são possíveis, e o Predador, como vemos aqui, é mais fiável do que muitos humanos. (Descobrimos, neste filme, que entre os próprios Predadores nem todos são iguais, que existe alguma forma de conflito entre eles, e, já se sabe, “inimigo do meu inimigo meu amigo é”.)
Gostei deste filme em que as personagens são bastante mais desenvolvidas do que é costume em filmes de acção. O cast de actores é excelente. Fiquei bastante surpreendida ao ver Adrien Brody num papel de acção, tendo em conta que Brody até já ganhou o Óscar de Melhor Actor com o filme “O Pianista”. Eis a prova de que um filme de acção não precisa de ter actores abrutalhados e com poucos diálogos, como era típico nos anos 80. Outra presença de vulto é Laurence Fishburne, que aqui aparece num papel a lembrar um Gollum sem o Anel.
“Predadores” conseguiu surpreender-me pela positiva, com acção inteligente do princípio ao fim e boas interpretações que dão profundidade a uma sequela de que já não era provável esperar tanto.

15 em 20


domingo, 22 de março de 2020

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2 / Amanhecer - Parte 2 (2012)


[contém spoilers; revela o fim]

Quinto e último episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e Bella-a-rapariga-que-nasceu-para-ser-vampira (diz ela). Este foi o melhor dos filmes Twilight e não apenas pela razão mais óbvia: acabou! Estou livre! Adeus!
Não, “Breaking Dawn Part 2” surpreendeu-me porque pela primeira vez desde que vejo os filmes desta série não achei uma autêntica seca, e teve uma batalha e tudo… isto é, mais ou menos. Mas para não estragar nada, e se ainda houver uma alminha que não conheça o final, é melhor parar de ler JÁ e voltar a esta crítica depois de ler/ver o fim. Não digam que não avisei.
Mas agora sem ironia, este foi realmente o meu filme preferido da série, e tudo por causa dos Vulturi. Os Vulturi é que deram vida (e morte) a esta seca toda.
Mas antes disso, tudo aquilo em que me enganei na crítica anterior:
Julguei que o ponto alto desta segunda parte de “Breaking Dawn” fosse o momento em que Bella teria de explicar ao pai o crescimento anómalo de Renesme. Pois bem, isto nem sequer foi abordado como deve ser. Disseram ao pai de Bella que a menina era uma sobrinha, e ele também não achou estranho que a miúda crescesse como se tivesse sido feita em laboratório. Nem quando Jacob lhe mostra que existem lobisomens aquele palerma decide perguntar à filha se Bella era agora uma lobisomem (lobismulher?) também. Que decepção, ó pai da Bella! Julgava-te muito mais esperto!
Outra coisa em que me enganei foi ao supor que os Vulturi estavam interessados na Renesme. Nada mais errado. Eles estavam interessados era na Alice, a tal que tem os poderes psíquicos de ver o futuro. Ora, eu nem me tinha apercebido de que a Alice era uma personagem importante! Imaginem o meu choque!
Mas o enredo principal centra-se mesmo em torno de Renesme (a quem Jacob, seu auto-nomeado protector, dá a alcunha de Ness, o que leva Bella a zangar-se com ele por lhe ter dado a alcunha do monstro de Loch Ness... Ora, Bella, e mesmo assim é muito mais bonito do que o nome que puseste à tua filha, ó criatura com falta de gosto!).
E aqui, meus amigos, temos um enredo “Claudia”. Uma vampira que eu nunca vi na vida mas que é a Althea de “Fear the Walking Dead”, e aparentemente parente dos Cullen (?), vai visitá-los e fica chocada ao ver uma criança entre eles. Imediatamente, vai fazer queixinhas aos Vulturi de que os Cullen fizeram uma criança vampira. Isto é proibido e os Vulturi partem de imediato para destruir a criança e os Cullen também (excepto a Alice, a quem querem capturar devido aos seus dons).
Ora, isto é o enredo de “Entrevista com o Vampiro”, parte Claudia, com algumas variações. Se até aqui eu desconfiava que os Vulturi tinham sido inspirados no vampiro Armand de Anne Rice, agora tenho a certezinha absoluta. E que se tirem daqui as devidas conclusões. Também me enganei ao julgar que os Vulturi iam ter alguma curiosidade científica quanto a Renesme. Não, isto é mesmo e apenas “Armand do Thèâtre des Vampires quer esturricar Claudia porque é proibido fazer vampiros tão jovens”.


Mas não me enganei quanto ao facto de Renesme não ter sido a primeira “híbrida”. Era óbvio que não podia ser. Desde quando é que, na possibilidade de existir sexo entre humanos e vampiros, este não seria experimentado? O inverosímil é que nem os Cullen nem os Vulturi (nem qualquer outro dos “antigos”) tivessem conhecimento de casos anteriores. É que não devia haver apenas um ou dois ao longo dos milénios. Devia haver dúzias. Tudo isto foi mal pensado e abre mais um buracão na história.
Renesme não é exactamente uma vampira***, e o equívoco podia muito bem ser resolvido com uma conversa se os malvados Vulturi estivessem para isso. Mas não estão, e segue-se uma batalha entre eles e os amigos dos Cullens, com a ajuda dos lobisomens.
Aqui encontrei mais uma incoerência. Jacob diz que as alcateias vão querer lutar, mas por alma de quem? Porque “nunca tiveram medo de vampiros”, diz ele, e é verdade, mas não seria muito mais lógico que não se envolvessem e deixassem os vampiros matarem-se uns aos outros? Afinal, ainda no filme passado eram eles quem queria destruir a abominação Renesme… Porque é que mudaram de ideias? Jacob é agora o lobo alfa (o que manda) e ninguém nos informou? Não se percebe.
***Quanto a Renesme, a ideia é que a miúda é metade-vampira metade-humana. O que é que isto significa? Que ela tanto pode viver de sangue como de comida? Mas precisa de sangue ou não precisa? Porque se não precisa não é vampira. Mas se é, e se deixar de beber sangue, perde os poderes vampíricos? Sinceramente, não sei nem quero saber. E espero bem que não haja uma sequela a contar as aventuras de Renesme.
Então, de volta ao filme, chegamos à batalha e as coisas ficam bastante graves. Quando eu vi a cabeça decepada do Carlisle Cullen julguei que ia ser muito a sério. E pensei: “Tu queres ver?! Que morre o Edward, que morre a Bella, que morrem todos e só se safa a Renesme porque é salva pelo Jacob?” E de repente tudo se tornou mais empolgante. Suficiente para redimir a saga inteira. Começou a batalha. Parecia uma batalha dos “Vikings”, com tantas cabeças cortadas. Morreram vampiros importantes. Morreram lobos. Lágrimas vieram-me aos olhos e o meu coração partiu-se… Mas, afinal, nada disto aconteceu. Exactamente assim: não houve batalha nenhuma. Foi tudo uma visão que a tal Alice inspirou ao líder dos Vulturi. No fim vão-se embora antes que haja batalha.
Também já na última versão dos “Ficheiros Secretos” fizeram o mesmo: ah, não era o fim do mundo, era só uma visão. Truque baixo que defrauda as expectativas do espectador. Pior que isto só o sonho infame de “Dallas”, em que uma temporada inteira foi um sonho.
E assim terminou a saga Twilight… Ah, não, há mais. Outra coisa que eu esperava ansiosamente era que o Jacob finalmente se libertasse da Bella e disto tudo. Em vez disso, torna-se protector da filha da Bella, o que já é suficientemente doentio. Mas no fim, mesmo no fim, Alice tem outra visão. Jacob e Renesme abraçados, ela já adulta, tão juntinhos que me pareceram um casal. Eu não quis acreditar no que vi. E pensei: “Desliga lá a mente ordinária, que isto que viste foi só fraternal”. Mas fiquei tão incomodada que fui à internet procurar. E então não é mesmo verdade que o Jacob espera que a Renesme cresça (sete anos apenas, porque ela cresce depressa) e se tornam um casal romântico?! Uma coisa é o Edward andar atrás da Bella que é 80 anos mais nova do que ele, mas até fecho os olhos. Muito diferente é alguém que tem sobre uma criança o papel paternal de um tio e que a certa altura deixa de ser paternal para se tornar… o quê? Já seria suficientemente mau que ele esperasse pela filha na impossibilidade de ter a mãe, mas acompanhar essa criança desde bebé? Sou só eu, ou acontece aqui algo de muito errado? Pelo menos podiam separá-los e podiam encontrar-se muito tempo depois, sem que o Jacob alguma vez lhe tivesse mudado a fralda. Pobre Jacob, o que fizeram à personagem dele, uma das mais interessantes da saga. Desde o primeiro livro (aquele que li), Jacob sempre me pareceu o único com alguma coisa na cabeça. Eu estava a torcer para que ele se libertasse desta relação a três (ou a quatro?) mas nem essa sorte eu tive.
Não admira que Twilight tenha dado origem a coisas mais doentias ainda (50 Sombras de Grey e sabe-se lá mais o quê).

Este abraço

E assim acabou a saga com um sabor a pedofilia que era completamente dispensável. Vou fingir que não vi isto. Melhor, vou fingir que nunca vi esta saga. E vou dar mais um pontinho porque é o último filme:

13 em 20

Acabou! Acabou!


domingo, 8 de março de 2020

Bates Motel


[crítica à primeira temporada]

Quando ouvi falar de uma série chamada “Bates Motel” e baseada no filme “Psycho”, pensei que o enredo seria: um episódio, um hóspede, um homicídio. Tipo “Dexter”.
A série tenta ser muito mais ambiciosa do que isso. O problema é se consegue atingir o que se propôs. Acabei de ver a primeira temporada e ainda não estou convencida.
“Bates Motel” pretende ser uma prequela de “Pshyco”, anacronicamente passada nos nossos dias, com um Norman Bates adolescente antes de ser o serial killer que conhecemos de Hitchcock. E qual é a figura chave na vida dele que o tornou assim? A mãe, claro está. Esta história é tanto sobre Norma Bates (a mãe), se não mais, como sobre Norman. Os próprios nomes, óbvios, dizem-nos como Norma é possessiva para com o filho. Norman é dela, Norma, e de mais ninguém. Mas esta Norma da série não é a bruxa má que se adivinha do filme (já explicarei porque digo isto).
Na primeira cena da série, o pai de Norman está morto na garagem num acidente muito suspeito. Como consequência desta morte, Norma e Norman mudam-se para a pequena vila costeira de White Pine Bay, onde ela pretende reconstruir a sua vida explorando o motel que comprou com o dinheiro do seguro de vida. Este é logo o primeiro mistério da série. A morte do pai de Norman parece tudo menos um acidente e o dinheiro do seguro dá muito jeito. Como sabemos quem é Norman Bates a nossa tendência é pensar que foi ele… até conhecermos a mãe. E Norma começa a matar, embora em legítima defesa, logo no primeiro episódio.
Não há volta a dar, Norma torna-se uma personagem ainda mais fulcral do que Norman. A interpretação de Vera Farmiga é uma força da natureza. Norma é manipuladora, emotiva, dramática e algo destrambelhada. É o próprio Norman quem a descreve melhor, numa cena em que exasperado lhe grita: “Tu és maluca!” E ela é maluca. Sabem aquelas pessoas que quanto mais se querem desenvencilhar de uma má situação, mais se embrulham? É o caso.
Mas se Norma é maluca, quem sai aos seus não degenera: Norman é mais maluco do que ela. Norman é tão “maluco” que nem sabe que é maluco. Tal como no filme, o adolescente Norman já sofre de episódios dissociativos com “apagões” em que não se lembra do que fez, à mistura com alucinações que muitas vezes nos fazem questionar se aquilo que estamos a ver está mesmo a acontecer ou se se passa apenas na cabeça dele. (Se calhar a intenção da série não era criar esta ambiguidade, mas a partir do momento em que o protagonista alucina conversas e situações a nossa dúvida é inevitável.) O domínio de Norma sobre ele é tanto manipulativo como impróprio. Norma não se parece aperceber (ou não quer admitir) que o filho já tem 17 anos. Prestes a perder o controlo sobre tudo na sua vida, Norma usa Norman como o seu ponto de apoio, quando devia ser ao contrário, ao mesmo tempo que este Norman quase adulto quer fazer tudo para ajudar a mãe, criando entre ambos uma relação de co-dependência com que muitos espectadores se vão identificar de certeza (excepto, espero eu, a parte em que Norma se vai deitar na cama com o filho como se este tivesse 3 anos).


Como se não bastasse todo este drama (direi mesmo patologia) que mãe e filho trazem com eles, White Pine Bay também não é um lugar muito seguro onde se viver. Aparentemente uma vila pacata à beira-mar, toda a economia de White Pine Bay gira em torno de criminalidade em vários graus, desde o cultivo de marijuana ao tráfico de escravas sexuais. E tudo, parece, com o conhecimento do xerife Romero (Nestor Carbonell, o Richard Alpert de “Lost”), que sabe muito mais do que dá a entender. Há até teorias de que é ele o grande Chefão do crime todo, o que nunca é confirmado na primeira temporada mas não me admiraria mesmo nada. Esta “vila pacata cheia de segredos” tem feito com que “Bates Motel” seja comparado a “Twin Peaks” e até a “Breaking Bad” (por causa das actividades criminais em cada canto), mas na minha opinião as semelhanças começam e acabam aí.

Várias séries dentro da mesma série, mas no mau sentido
Um dos grandes problemas da primeira temporada, embora com certeza tenha sido feito de propósito não fossem os espectadores aborrecerem-se, é que às vezes parece que estamos a ver séries diferentes na mesma série.
Se não, vejamos. Nesta versão, Norman tem um meio-irmão mais velho, Dylan, filho de Norma e de um relacionamento anterior ao pai de Norman (este relacionamento também é um mistério). Dylan, no meio desta maluquice toda, é um gajo normal. E por ser normal, saiu de casa o mais cedo possível e tem uma relação distante e conflituosa com a mãe. Mas, ao perder o emprego, vê-se obrigado a ir morar com ela em White Pine Bay. Nota-se que Dylan é um jovem desenrascado, mas talvez por pobreza (ele próprio se queixa que nunca tinham dinheiro para nada) não parece ter estudos. Ao chegar a White Pine Bay arranja um trabalho justamente com o gangue da marijuana, e é tão bom no que faz que é logo promovido. Mas apesar da sua ocupação criminal, Dylan acaba por revelar-se um jovem sensível e amigo do irmão, talvez a única influência normal na vida dele, que quer afastá-lo da influência tóxica de Norma. É impossível não gostar de Dylan. O próprio Norman começa por não gostar muito dele (especialmente porque Dylan odeia Norma) mas Dylan acaba mesmo por conquistá-lo com amizade, conselhos e companheirismo. Acompanhar Dylan é como ver outra série, uma série de drama e crime em que um jovem tenta desenrascar-se como pode.
Depois, temos um sub-enredo Young Adult à volta da escola nova de Norman. As miúdas populares da escola, por alguma razão, engraçam com ele, e uma delas, Bradley, até dorme com ele num momento vulnerável da vida dela. Norman julga que é o início de uma relação séria, mas afinal o sexo não significou nada para Bradley. (Alerta Norman Bates: aos 17 anos já foi seduzido, usado e descartado por uma rapariga bonita e inacessível… o que obviamente o deixa magoado. Mas magoado a ponto de querer matar todas as mulheres bonitas? Ainda não.) Ao mesmo tempo, Norman conhece Emma, uma rapariga com uma doença pulmonar grave, que, esta sim, tem um grande fraquinho por Norman, embora não seja correspondida. É através dela que Norman se envolve na descoberta das escravas sexuais chinesas que são traficadas em White Pine Bay, sendo que o motel era uma base de operações para os traficantes. Todo este sub-enredo é típico de Young Adult, em que os adolescentes se metem em aventuras que são areia a mais para a camioneta deles.


E depois temos toda a maluquice de Norma, que contagia quem contracena com ela e que muitas vezes transforma a série numa comédia negra (ou apenas comédia?). O problema é que não se percebe se o objectivo destas cenas era mesmo serem cómicas, ou se ficaram tão disparatadas que nos deixam a pensar se é para rir ou não.
Todos estes sub-enredos podiam funcionar perfeitamente, mas em “Bates Motel” simplesmente não encaixam muito bem, criando a tal sensação de que foi tudo ali pespegado com fita-cola e que estamos a ver “filmes” diferentes no mesmo filme.

Um sub-enredo muito falhado
Mas ainda sobre as escravas sexuais, foi onde a série meteu mesmo a pata na poça. Um assunto grave como este devia ser tratado com a maior seriedade, mas “Bates Motel” tratou-o com uma leviandade quase cómica. Quando deixou de interessar ao enredo principal, o sub-enredo das escravas sexuais desapareceu num instante. A escrava sexual foi, aparentemente, abatida a tiro nos bosques por um dos vilões, sem que víssemos a morte, sem que nunca mais ninguém se importasse com ela nem em descobrir o seu corpo. Pobre escrava sexual, não passou de um filler para encher episódios. Muito mau, muito mau.
O actor que faz de Deputy Shelby, o traficante de escravas, também não podia ter sido mais mal escolhido. É nada menos do que Mike Vogel (que eu conheço principalmente como protagonista de outra péssima série, “Under the Dome”; quando é que dão um papel como deve ser a este actor, que merecia muito melhor do que isto?).


Ora, basta olhar para Mike Vogel. Isto não é um homem que precise de manter uma escrava chinesa presa na cave. Isto é um homem que deve ter uma fila de mulheres à porta daqui até à China. [Sim, também estou a ser leviana, mas não resisti à piada.] Na vida real, a procura de escravas sexuais não tem nada a ver com necessidades e/ou atractivos físicos dos abusadores, mas com factores muito mais desviantes, entre eles o desejo de domínio absoluto sobre a vítima e o sadismo. Este Deputy Shelby devia ser um tipo asqueroso e sádico, mas não é nada do que vemos aqui (ou não tivemos tempo de ver porque a personagem nunca chegou a ser desenvolvida como devia ser.) O pobre actor bem tenta, o melhor que pode, transmitir este factor asqueroso à sua personagem, mas nunca teve muito com que trabalhar. Em vez de um traficante de pessoas, os seus diálogos eram mais adequados a um criminoso vulgar, um traficante de droga, por exemplo. O Deputy Shelby foi a personagem mais mal conseguida num cast que, pelo contrário, nos apresenta personagens bastante sólidas e credíveis. Mais valia terem arranjado antes uma rede de exploração de trabalho de imigrantes ilegais, o que é igualmente mau, mas não tão mau como o rapto e violação de mulheres.
Este sub-enredo das escravas sexuais foi tão mal feito, e as críticas foram tantas, que se calhar os autores da série nem o quiseram corrigir e acabaram com ele abruptamente.

Os bons momentos superam os maus
O que funciona muito bem é a dinâmica entre Norma e Norman, e até mesmo Dylan, quando a família disfuncional se encontra dentro de portas.


Aqui nota-se que “Bates Motel” foi pensado a partir de “Psycho”, com o infame cenário exterior e interior da casa e do motel, e os personagens vestidos num guarda-roupa tão retro que podia bem passar pelos anos 60, e principalmente aquelas televisões antiquíssimas onde Norman gosta de ver filmes a preto e branco. [O maior mistério da série, na minha opinião, é como é que eles conseguem manter aquelas televisões a funcionar quando há muito tempo que a minha pifou e mandar arranjar uma televisão daquelas fica mais caro do que comprar um plasma, já para não falar que essas televisões não tinham entrada para cabo nem gravador de vídeo, só para antena analógica, então como é que Norman consegue ver os filmes a preto e branco se não tem um canal “Memória”?] O pai de Emma é também um taxidermista que ensina Norman a embalsamar animais, o que faz sentido com o filme. E algumas vezes os realizadores da série filmam certas cenas com um toquezinho de Hitchcock que resulta muito bem, como daquela vez em que Norma encontra um cadáver autopsiado na sua cama e desata a gritar histericamente, algo que podia ter feito parte do filme original ou de filmes da mesma época, ou a cena em que Bradley rejeita Norman, sozinhos, rodeados de nevoeiro, e não deve ter havido um espectador que não tenha pensado que era ali, que era já, que Norman a estrangulava de raiva.
Mas Norman é um miúdo adorável, por quem torcemos, com quem não é difícil empatizar porque sabemos que durante os episódios dissociativos ele não tem consciência do que faz. Por exemplo, Norman encontra uma cadelinha abandonada e quer logo ficar com ela, mesmo quando Norma não aprova. Quando a cadela morre atropelada (isto foi para manipular os nossos sentimentos) Norman fica devastado e leva-a ao pai de Emma para a embalsamar. Como é que não se gosta de um miúdo assim?
E depois existe ainda um outro sub-enredo, em que uma professora de Literatura de Norman, de trinta anos no máximo, bonita e sexy, se interessa demasiado por ele. Em todas as cenas em que estão juntos sempre me pareceu que aquilo era ainda mais impróprio do que a relação super imprópria de Norman com a mãe. Abraços e festinhas na cara? Isto, comigo, e esse professor/professora era logo denunciado ao Conselho Directivo. Não admira que o pobre Norman fique traumatizado com as mulheres. É preciso ter azar com tantas malucas na vida dele. No fim da temporada, esta professora aparece degolada depois de uma cena em que Norman a vê mudar de roupa (talvez de propósito à frente dele), expondo uma lingerie super sexy. Mas se pensam que isto é um spoiler, pois não é! Porque antes disto a vemos ter uma violenta discussão ao telefone com um ex-namorado que parece estar a ameaçá-la (e que, segundo outras pistas, também deve estar ligado às actividades criminais da terra). Norman estava em casa da professora antes de ela morrer e volta para casa muito perturbado, com um dos seus “apagões”, mas nada nos garante que tenha sido o seu primeiro homicídio. Conhecendo a série e as suas voltas e reviravoltas, não me admirava nada que tivesse sido antes o tal ex. Mas esse é um mistério para a segunda temporada.
A verdade é que “Bates Motel” devia ser a prequela de como Norman Bates se transforma num assassino e estamos todos à espera do momento inevitável em que ele comece a matar. O maior problema da série é que não se está a ver como é que vão transformar aquele miúdo adorável num serial killer. Não é preciso ser um grande psicólogo para perceber que o problema do Norman Bates do “Psycho” era a repressão sexual e a educação puritana que recebeu. Aquela cena do duche, a faca e a mulher nua, tudo aquilo é sexualidade reprimida. E não é difícil de imaginar a Norma Bates do filme como uma daquelas mulheres para quem o sexo é algo de sujo e pecaminoso, sempre a dizer ao filho “aquelas ordinárias, olha como se comportam agora, sem decência nenhuma, isto não é de boas raparigas, não dês o desgosto à tua mãe de andar com essas galdérias, etc”. Ora, a Norma da série não é nada disto e repressão sexual é coisa que não existe naquela casa. Pelo contrário, eu diria mesmo que existe descontracção sexual a mais. Tanto da parte de Norma, sexualmente muito activa sem o esconder dos filhos, como da miúda da escola que dormiu com Norman e não significou nada, como da parte da professora que anda sempre vestida como uma mulher fatal. A temática sexual paira sempre sobre o enredo nas suas formas mais extremas (desde a parte das tais escravas sexuais até às alusões ora subtis ora explícitas de incesto, passando pela violação mostrada logo no primeiro episódio e muito realista), às vezes de forma dramática e bem feita, outras vezes não tão bem conseguida. Será por aí que a psique frágil de Norman vai ser afectada? É que uma mãe destrambelhada não chega para fazer um serial killer. A própria série o prova com o caso de Dylan, filho da mesma mãe e criado na mesma maluquice.
“Bates Motel” é uma série com muitos desequilíbrios e altos e baixos, mas estranhamente viciante, talvez devido à solidez dos personagens. Os momentos bons superam os maus e conseguimos seguir a história com interesse por muitos desvios mal pensados que nos surjam ao caminho. Além disso, a série vale a pena nem que seja só pela performance fantástica de Vera Farmiga, que eu não conhecia (embora o nome não me fosse estranho uma vez que conheço a irmã mais nova, Taissa Farmiga, de “American Horror Story”). Fiquei fã.

domingo, 1 de março de 2020

La Morte Amoureuse (1836) / Clarimonde, de Théophile Gautier


“Clarimonde” (publicado inicialmente em 1836 com o título “La Morte Amoureuse”)  é um conto clássico a não perder por todos os amantes de vampiros. Nunca nos é dito claramente quando se passa, mas tudo aponta para o século XIX, talvez mais cedo. Um jovem padre, no momento da sua ordenação, é fascinado pela bela Clarimonde que o observa na igreja. A partir daí, cada vez mais enredado pelos seus encantos (ou encantamentos?), o jovem, já ordenado, começa a viver com ela um estranho idílio: quando dorme, ele é o nobre Romuald, rico e dissoluto, vivendo com a sua amante em Veneza; quando o nobre dorme, volta a ser de novo o pobre presbítero. Como diz o protagonista, Romuald deixa de saber se é um nobre a sonhar que é padre, ou um padre a sonhar que é nobre. Mas a verdade é que são felizes. Uma felicidade apenas perturbada por escura sombra quando Romuald percebe que de noite Clarimonde lhe bebe o sangue, mantendo assim a sua vida e beleza eterna. Pois Clarimonde já morreu há muito tempo.
Não posso contar mais nada porque o conto é muito curto, mas o fim é à Van Helsing. Recorda-nos vividamente o momento em que os personagens de “Drácula” descobrem Lucy, morta-viva, no túmulo, e a destroem.
Ou melhor, o Van Helsing de Bram Stoker é que poderá ter sido inspirado aqui, uma vez que “Drácula” é de 1897, sessenta anos posterior a “Clarimonde”. Isto não quer dizer que o conto de Théophile Gautier tenha sido fonte de inspiração para Stoker, nem é obrigatório que o seja, visto que muitas vezes duas histórias semelhantes podem ter sido inspiradas por outra ainda mais antiga (geralmente do folclore) sem que qualquer dos autores conheça a obra um do outro. De qualquer das formas, as semelhanças saltam à vista.
“Clarimonde” está disponível em inglês no Projecto Gutenberg.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O Céu e o Inferno, de Allan Kardec


“O Céu e o Inferno” é o quarto livro de Allan Kardec na explanação da doutrina Espírita, seguindo “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns” e “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
[Aproveito para fazer desde já o disclaimer do costume: não conheço nem jamais tive contacto com a religião Espírita dos nossos dias, pelo que não posso ter qualquer opinião sobre esta. Este artigo (tal como os anteriores) debruça-se unicamente sobre os livros e a doutrina neles apresentada sob um ponto de vista filosófico moderno.]
Allan Kardec era um homem de intelecto brilhante e um escritor talentoso. Neste livro, é um verdadeiro prazer como ele prova por A mais B (teologicamente) o absurdo que é o Inferno de fogo onde as almas ardem sem se consumir. Eu até consegui rir-me.
Mas depois Kardec sai-se com esta:
Sem nos remontarmos aos tempos primitivos, olhemos em torno a gente do campo e perscrutemos os sentimentos de admiração que nela despertam o esplendor do Sol nascente, do firmamento a estrelada abóbada, o trino dos pássaros, o murmúrio das ondas claras, o vergel florido dos prados. Para essa gente o Sol nasce por hábito, e uma vez que desprende o necessário calor para sazonar as searas, não tanto que as creste, está realizado tudo o que ela almejava; olha o céu para saber se bom ou mau tempo sobrevirá; que cantem ou não as aves, tanto se lhe dá, desde que não desbastem da seara os grãos; prefere às melodias do rouxinol, o cacarejar da galinhada e o grunhido dos porcos; o que deseja dos regatos cristalinos, ou lodosos, é que não sequem nem inundem; dos prados, que produzam boa erva, com ou sem Flores.
Ò Kardec, ias tão bem! Então o homem do campo é um bruto sem sensibilidade artística que não sabe apreciar o canto das aves, a beleza do nascer do sol, o suave burburinho dos regatos? Nunca ouviste, ò Kardec, as músicas e os poemas da gente do campo, mesmo analfabeta, passados oralmente de geração em geração?
Só por causa disso, ficas já condenado a uma vida no campo para corrigires esse snobismo que só te fica mal. E como a vida no campo até é bem pacata e saudável, de certeza que até vais gostar e não te condeno a nada de desagradável. (Muito boa gente paga férias em quintas, a tratar da galinhada, para descontrair do stress da cidade.)
Mas encontramos este snobismo de classe alta parisiense do século XIX muitas vezes ao longo do livro, uma marca inequívoca da época. Um dos Espíritos que se comunica com a sociedade de Paris, depois de exortar à caridade, diz mesmo algo assim: “abstende-vos de vícios e de luxos no vosso trajar, cingindo-vos ao necessário à vossa posição…” Isto é, quem tem posição social pode gastar mais um bocadinho em roupa, a caridade que se lixe, para não fazer má figura na “boa” sociedade. Já o pobre, que não tem “posição” a manter, pode andar todo esfarrapado que não faz mal. Ó Espírito, Espírito, olha nem sei que te dizer. Há muito bom Espírito aqui encarnado que também acha que a caridadezinha o há-de salvar, com conta peso e medida, que uma pessoa de posição não pode andar por aí de ténis chineses e sem roupa de marca.
Enfim, fica o reparo, e avancemos. O Espiritismo não aceita a ideia de um inferno de fogo (Kardec prova a sua impossibilidade) nem de um Céu de eterna contemplação com anjinhos a tocar harpa.
Sobre o inferno, Kardec diz algo que a minha mãe sempre disse também: “naquele tempo os homens eram tão maus que tinham de ser assustados com o inferno para não fazerem tantas maldades”. É o que Kardec diz, que numa fase anterior de progresso Deus permitiu que as ideias do inferno de fogo se mantivessem porque os homens ainda não tinham capacidade de compreender conceitos mais abstractos.
Segundo Kardec, o Purgatório é aqui na Terra. Permito-me discordar. Isto aqui é mais do que o Purgatório; é o Inferno mesmo. Mas Kardec não viu. Sempre houve horrores, em todas as épocas, mas Kardec não viu as duas guerras mundiais. Não viu os campos de extermínio. Não viu Hiroxima e Nagasaki. Não viu o Vietname e o Cambodja. Não viu a Síria e o Estado Islâmico. Não viu os glaciares a derreter, os fogos na Austrália. Estes sim, verdadeiros infernos, de fogo e tudo.
Depois de ler já bastantes livros de Kardec, confesso que gostaria imenso de ter com ele uma conversa pós-isto-tudo e pós-existencialismo. Os acontecimentos do século XX fizeram muita gente voltar as costas a Deus de forma irreversível. Tenho percebido, dos livros, que Kardec estava convencido de que o Espiritismo ia tornar-se uma doutrina de massas. Não tornou, mas por outro lado nunca antes a ideia da reencarnação (e do karma, por via oriental) foi tão generalizada. O que eu dava para saber a opinião de Kardec sobre isto também. E quem sabe, se a teoria de Kardec é verdadeira, um dia ainda teremos essa conversa.
Em suma, no Espiritismo não existe o inferno de fogo mas existem expiações, no mundo material e no mundo espiritual, consoante as más obras do Espírito, algumas tão difíceis que nada devem às do inferno clássico. Os Espíritos mais aperfeiçoados não vão para um Céu de contemplação e de inércia, antes têm missões e ocupações na manutenção do universo.
Explicados os pontos doutrinais, chegamos à parte mais interessante do livro (direi mesmo de todos os livros de Kardec) que são as comunicações dos Espíritos. Algumas delas davam romances. Uns dizem-se felizes, outros estão em sofrimentos vários, outros estão assim-assim. Mas o que mais me interessa é a condição dos suicidas. O Espiritismo não podia ser mais severo para com eles, quase como se fosse o maior pecado que uma pessoa possa cometer. Se eu fosse de censurar livros, toda esta secção sobre o suicídio podia bem ser extirpada porque se chega às mãos de uma pessoa deprimida ainda lhe inspira o suicídio mais depressa. Temos de entender esta parte à luz da época, antes da Psicologia. O suicida é o mais severamente censurado porque perdeu a esperança, porque não acreditou na Bondade de Deus. É mais censurado, acredite-se, do que o ateu que não acredita sequer em Deus. Porque acreditar em Deus e perder a esperança na sua Bondade é considerada a afronta mais grave ao Altíssimo. (A eutanásia, mesmo em casos de grande sofrimento, é igualmente condenada porque o sofrimento é considerado uma prova a suportar com resignação para que o Espírito consiga expiar faltas passadas e progredir.)
Ora bem, sendo assim, e como já sei que me está reservado um “lugarzinho” no abismo e nas trevas e no isolamento, vou aproveitar para falar agora enquanto me deixam. Se eu acreditasse em Deus à luz desta e de outras doutrinas semelhantes (a católica incluída), também acharia que Deus é um grande sádico. Vejamos, Deus cria uma alma imperfeita já no intuito de a submeter a diversas e dolorosas provações para que esta se aperfeiçoe e atinja a perfeição, sem lhe dar hipótese de abandonar o “jogo”. Enquanto Ele, Deus, assiste. Oh, sim, Deus dá o livre-arbítrio ao homem de se aperfeiçoar ou não. O homem tem toda a liberdade… para fazer o que Ele quer. Se não fizer, leva na cabeça até aprender que Deus é Bom e se submeter à sua Bondade. Malta que não acha que Deus é Bom, malta que acha que Deus não existe ou que não precisa Dele, para o abismo das trevas com eles, que é uma espécie de solitária com privação sensorial. Não, estas ideias de Deus já não fazem sentido nos dias de hoje. Hoje, o homem exige escolher uma determinada via porque a deseja (mesmo que seja a via do Bem) e não admite a imposição de Deus. Pode, inclusive, desejar seguir a via do Bem sem aceitar qualquer deus, cristão ou outro.
A Justiça de Deus é muito bonita quando falha a dos homens, mas nada disto resolve a questão de fundo, que é a de um Criador originar criaturas imperfeitas para as submeter a provas e castigos (com ou sem o conceito do Pecado Original e da Queda, que ao fim de contas vai dar ao mesmo argumento). Nem explica como é que um Deus de Bondade cria um mundo em que tudo o que vive tem de se alimentar de tudo o que vive para sobreviver. Quem é que achou que isto era uma boa ideia? Que mal fizeram os bichinhos para serem comidos vivos, para por sua vez alimentar outros bichinhos? Que Mal fizeram eles a Deus? Outra pergunta que os Espíritas do século XIX não acharam relevante. Como se dizia acima, “os homens eram tão maus, etc”. Os do século XIX ainda tinham muito caminho a percorrer também.
Por outro lado, na altura não se conhecia o que se conhece agora sobre psicopatas sem empatia, e eu adoraria ouvir o que é que os Espíritos “modernos” têm a dizer a isto.
Quanto ao Céu, nesta doutrina, ou melhor, a progressão de um Espírito a um ponto em que já não é obrigado a encarnar, também tenho algumas dúvidas. Este estado só seria atingido quando o Espírito está depurado de todas as imperfeições. Ora, não sendo imperfeito pode ter ganhado qualidades, mas perdeu as imperfeições inerentes à natureza humana. E de facto a doutrina classifica estes Espíritos mais como na categoria dos anjos (ou quase, conforme o depuramento), o que implica o fim da sua humanidade e o começo de uma nova forma de existência. Onde é que fica a individualidade nisto tudo? O que é o Espírito depois de ser humano quando já não o é? Tem ainda livre-arbítrio, na prática, ou só consegue fazer o Bem? E perdendo todas as imperfeições, tem ainda a capacidade de escolher o Mal? E se ainda tem capacidade (livre-arbítrio) para o Mal, poderá mesmo considerar-se perfeito em virtude? É que não é simples.
O Céu segundo o Espiritismo é muito mais apelativo do que o clássico, beatitude e contemplação eternas que, convenhamos, seria uma seca. Tal como existem diversos níveis de expiação, também existem vários níveis de Além “menos mau” onde se agregam os Espíritos em semelhantes fases de progresso. E todos me suscitam dúvidas. Não sei, não sei mesmo, se quero passar a eternidade rodeada de pessoas. Já dizia o outro, “o Inferno são os outros”, e a ideia de sair daqui para continuar rodeada de pessoas, que só servem para me provocar cólicas e cabelos brancos, subitamente faz-me achar o tal “lugarzinho” um local mais agradável. Porque também já dizia o outro, “antes o Inferno contigo do que o Céu sem ti”. O que eu quero mesmo, e muitas outras pessoas também, Deus está farto de saber. Nos dias em que este livro foi escrito isso nem era considerado uma possibilidade. Mas eu confio que as coisas mudaram, e agora que ninguém me venha acusar de falta de Fé e de duvidar da Bondade de Deus.
Mas há dias, confesso, em que desejo que os ateus tenham razão e não haja nada depois da morte, nem Céu, nem Inferno, nem reencarnações. Só o desligar do cérebro e o fim. Eu dou-me bem com esta ideia, mas há quem não a suporte (especialmente se a vida é madrasta) e qualquer religião que forneça esperança é melhor do que a falta dela.

“O Céu e o Inferno” de Allan Kardec, para além de documento histórico valioso, oferece motivos de reflexão às pessoas sem ideias dogmáticas que se interessam por estas coisas da espiritualidade. Às outras, não dirá nada.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

João Moura maltrata animais

O choque! O horror! Ouvi ontem esta notícia e não consigo conter-me de vir aqui falar disto. Geralmente não se dá pontapés em alguém que já está no chão, mas este caso merece todas as farpas que o ferrem (e mais coisas que o f….).
Então não é que o homem fazia criação de galgos e que os tinha num estado que faria chorar de piedade o mais insensível? Oh choque! Oh espanto! Um senhor tão famoso, tão rico, com uma herdade e tudo! Quem diria que um homem que ganha a vida a torturar animais fosse capaz desta brutalidade? Estou chocada, chocada!
Em depoimentos não sei a quem, outra organização que tortura animais como ele, João Moura disse que os “cães estão magros”. É verdade, mas, pelo contrário, o farpilheiro João Moura está gordo.


E com o melhor interesse do senhor em mente, visto que a obesidade não é saudável e provoca morte precoce, sugiro desde já a dieta ideal a aplicar-lhe. Chamo-lhe a dieta “copo de água” e é infalível para perder peso. Um copo de água ao pequeno-almoço, um copo de água ao almoço, um copo de água ao jantar. (Só copos de água, nada mais, nem sequer chá ou café.) À noite não bebe nada para não abusar das calorias. Em dois meses, no máximo, garanto que João Moura ficará em forma como nunca antes. Com alguma sorte, a dieta até acaba antes dos dois meses.
Tudo pela saúde alheia, porque eu sou boazinha.
Podia também receitar uma dieta para ganhar empatia e vergonha na cara, mas neste caso não fariam efeito enquanto houver tanta porcaria gordura a bloquear os neurónios do paciente. Fica pois a dieta de água, a aplicar até fazer efeito definitivo.

https://sicnoticias.pt/pais/2020-02-20-Associacao-divulga-video-dos-caes-do-cavaleiro-Joao-Moura







domingo, 9 de fevereiro de 2020

Seventh Son / O Sétimo Filho (2014)


Durante os primeiros 5 ou 10 minutos ainda julguei que este podia ser um filme sério. Bem, depende do que se entende por “seriedade”, porque “O Sétimo Filho” é um filme dirigido a uma camada infanto-juvenil e nesse aspecto faz o que deve e merece esta críticazinha.
Papás e mamãs, este filme é ideal para miúdos entre os 8 e os 13, com umas pipocas e uma coca-cola (sem açúcar), e não é tão infantil que não possa ser visto pela família toda. É Fantasia, os efeitos especiais mais parecem um jogo de vídeo, as mortes não são realistas, o sexo é implícito mas não se vê nada, não há sangue, os personagens caem de um precipício umas três vezes (sem exagero) e nem sequer torcem um tornozelo.
Mas, como dizia, cheguei a pensar que isto ia ser um filme sério devido à presença de Julianne Moore, aqui a fazer de rainha das bruxas, e quando Julianne Moore aparece rouba a cena inteira. É certo, não lhe dão muitos desafios com esta “rainha das bruxas”, mas Julianne Moore, muito profissionalmente, quase consegue transformar este “desenho-animado” numa personagem de carne e osso. O outro protagonista (o caçador) é Jeff Bridges.
Da mesma forma, Kit Harington (sim, esse, o Jon Snow da “Guerra dos Tronos”) também faz aqui uma aparição durante os primeiros minutos do filme. Não dura muito, coitado, pois é apanhado pela rainha das bruxas que tem o poder de se transformar em dragão, e aqui é Jon Snow quem se lixa. (Fez-me rir, admito.)
A história é do mais cliché que há. Um velho caçador de monstros (tipo Van Helsing), último representante de uma ordem de cavaleiros criada para esse fim, procura um novo aprendiz que tem de ser o sétimo filho de um sétimo filho. O seu último aprendiz (o tal “Jon Snow”) demorou dez anos a treinar mas agora o caçador não tem tempo para estar com “formações” porque se aproxima a Lua Vermelha, altura em que a rainha das bruxas e outros monstros têm mais poder e se preparam para fazer Maldades. Nunca nos é dito que Maldades exactamente, excepto que Julianne Moore se quer vingar das cidades que queimam bruxas; e as cidades queimam bruxas porque estas atacam as cidades; e as bruxas atacam as cidades porque estas queimam bruxas… e já estão a ver a pescadinha de rabo na boca. A missão do caçador e do aprendiz é destruir a Bruxa Má e seus lacaios antes que estes façam as tais Maldades.
Honra lhe seja feita, o filme tentou dar alguma complexidade aos personagens. Vem-se a descobrir que afinal o caçador esteve perdidamente apaixonado pela rainha das bruxas mas não resultou (drama!) e o novo aprendiz é filho de uma bruxa (Boazinha) e também se apaixona por uma jovem bruxa (igualmente Boazinha). Mas nenhum destes conflitos é aprofundado, fica tudo pela rama. Já o final não é tão cliché como é costume nestes casos. Quem acaba por derrotar a rainha das bruxas não é o caçador mas sim a própria irmã dela (mãe da jovem bruxa) para proteger a filha.
Em suma, é um enredo que pode ser acompanhado pela família toda sem nunca traumatizar os miúdos e sem aborrecer muito os adultos. A performance de Julianne Moore salva isto tudo, e entre os maus efeitos especiais até temos um que é interessante, um dos Maus que é inspirado num deus hindu e que tem quatro braços, e consequentemente luta com quatro espadas. Foi algo que nunca tinha visto.
E é tudo. “O Sétimo Filho” é um filme decente para uma matiné e não há mais nada a dizer.

12 em 20 (para miúdos dos 8 aos 13 anos)



domingo, 2 de fevereiro de 2020

Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite

 

 [spoilers mínimos; não revela o fim]


Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.

Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:

«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»

Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros. 

Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:

«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»

Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um  Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:

«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»

E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:

«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»

A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.

Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.