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domingo, 12 de novembro de 2023

The Wire (2002 - 2008)

Vi esta série policial por uma questão de arqueologia televisiva. Volta e meia, ao ler críticas a “The Shield”, a “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, lá me aparecia uma menção a “The Wire”: “The Wire” isto e “The Wire” aquilo. Acabei por ver por curiosidade. Três episódios depois ponderei seriamente desistir. É sobre uma equipa de polícias a tentar apanhar uma rede de traficantes de droga de rua que usam pagers (pagers!) e cabines telefónicas (cabines telefónicas!) para contactarem uns com os outros. A série começa por volta de 2002 ou 2003, após o 11 de Setembro, e a maioria dos recursos foram deslocados para o contraterrorismo. Os polícias vêem-se gregos e têm de preencher catadupas de papelada para requisitar uma escuta telefónica (the wire) e descobrir o código que os traficantes utilizam. O humor (?) é questionável e impregnado do que hoje chamamos “masculinidade tóxica”. A série é tão datada que parece algo dos anos 80 ou 90. Mesmo assim, porque sou paciente, continuei a ver para perceber de onde vinham tantos elogios. “The Wire” tem cinco temporadas, cada uma com um enredo mais ou menos independente, e a história só começa a “aquecer” lá pelo meio de cada uma delas. Cada uma das temporadas traz consigo uma catrefada de personagens novos e eu também me vi grega para os distinguir e entrar na nova história.
Aqui vou parar para fazer a minha distinção no que toca a séries policiais: as de entretenimento e as dramáticas. Chamo entretenimento a séries em que os polícias bons apanham um criminoso por episódio, e é só isso. Uma série policial dramática, por outro lado, segue os polícias “para casa”, mostra-nos os seus problemas e a sua intimidade, torna-os tridimensionais em vez de máquinas de apanhar meliantes. (“Mentes Criminosas” começou assim mas as últimas temporadas descambaram na fórmula psicopata-da-semana, e isto só para falar de uma série que eu via porque geralmente não vejo séries sem uma grande componente dramática).
Da minha experiência como espectadora, a avozinha das séries policiais dramáticas foi “Hill Street Blues” (“A Balada de Hill Street”, 1981 - 1987). Aqui os polícias eram mesmo de carne e osso, tinham amantes e problemas de alcoolismo, e os meliantes não eram necessariamente vilões.
“The Wire” segue esta nobre tradição, o que só lhe fica bem, mas na minha opinião perde-se demais a tentar contar histórias tão díspares como as dos traficantes e dos toxicodependentes, as dos estivadores do cais que estão a ficar sem empregos, as dos putos dos bairros pobres que se vêem sem alternativa senão ir vender droga para a esquina, a do declínio da imprensa escrita e, por último, um enredo sobre ambições políticas e corrupção que nunca me conseguiu interessar. Tudo muito dramático e realista, sem dúvida, mas demasiado fracturado para ser coeso.
Fiquei completamente chocada quando consultei as datas de “The Shield”, que eu julgava uns dez anos posterior, e percebi que “The Wire” e “The Shield” são contemporâneos (2002 - 2008). “The “Wire” é uma série de qualidade, não há dúvida, mas não chega aos calcanhares de “The Shield”, uma história mais chocante, mais escorreita, com princípio meio e fim (coisa que “The Wire” ameaçava nunca vir a ter). Vic Mackey não punha escutas. Vic Mackey entrava por ali dentro e partia cabeças roubava a droga e o dinheiro, e ainda arranjava maneira de prender os traficantes à mesma. Vic Mackey e a sua Strike Team já não eram só polícias: eram os vilões. (Um deles matou o companheiro com uma granada!)
Daqui a “Breaking Bad” (2008 - 2013) foi um passo. Em “Breaking Bad” já não acompanhamos a acção pela perspectiva dos polícias: passámos completamente para o outro lado e torcemos pelos “maus da fita” (se é que o são, porque é debatível).
Tudo isto para dizer que penso que os elogios a “The Wire” se devem mais aos temas abordados, principalmente os temas políticos fracturantes na sociedade americana, do que propriamente à narrativa, enredo e personagens (se bem que alguns personagens tenham conseguido espaço “para respirar” e crescer, como Stringer Bell, o traficante de rua que acabou a gerir o negócio como se fosse o CEO de uma multinacional: isto sim, é um vilão de carne e osso!).
Vale a pena ver “The Wire” para compreender o panorama que nos trouxe a “Breaking Bad” e ao que está para vir, mas aviso já que é preciso alguma paciência para chegar à parte boa da história. Por exemplo, quando um detective decide “inventar” um serial killer para arrancar recursos da Câmara Municipal para apanhar uma rede de traficantes. Grande trapalhada quando mete os jornais também, e um jornalista tão inescrupuloso como o detective decide inventar notícias sobre o mesmo serial killer (inexistente). Mas para chegar aqui, ó Céus, foi preciso paciência!

Uma última curiosidade: em "The Wire" temos a oportunidade de ver um jovem Seth Gilliam a contracenar com Chad Coleman (respectivamente Padre Gabriel e Tyreese Williams em "The Walking Dead"). Aqui Seth Gilliam faz o papel de Sargento Carver, um durão que lhe assentava como uma luva. Talvez isto explique porque é que "The Walking Dead" foi buscar o Sargento Carver quando já ninguém suportava o Padre Gabriel?... Sinceramente, não me recordo de os dois personagens se encontrarem em "The Walking Dead" mas parece que também contracenaram juntos.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Hill Street Blues (A Balada de Hill Street), The Shield, Breaking Bad, Better Call Saul, dramas policiais


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Breaking Bad




Algo se passa de muito errado na minha vida se foi preciso o Dean do Sobrenatural falar desta série para eu perceber que Breaking Bad me ia interessar. (Errado, talvez, mas não é nada de novo. Acho que é mesmo karma.)
Breaking Bad também é uma história em que os personagens têm muitas oportunidades e razões para ponderar o que se passa de errado nas suas vidas.
A sinopse não é suficientemente esclarecedora. Não é apenas um professor de química que decide virar-se para o "dark side" e tornar-se traficante de droga. É muito mais do que isso! É simplesmente uma das melhores séries de todos os tempos, a nível de enredo, a nível de cinematografia, a nível de diálogos, a nível de personagens. A nível de tudo, mas mesmo de tudo! Não há elogios suficientes para descrever esta série.
A história começa quando Walter White, um pacato professor de meia-idade que lecciona química de liceu a alunos desinteressados e apáticos, descobre que tem cancro nos pulmões. O que não pode ser mais injusto porque o homem nunca fumou um cigarro em toda a sua vida. Mal pago e frustrado, Walt podia ter sido um químico brilhante e reconhecido, potencial candidato a um Nobel, mas por motivos de relacionamentos pessoais não participou do sucesso da empresa que co-fundou com os seus colegas de universidade. Um sucesso que não teria sido conseguido sem a genialidade de Walt, e nunca se percebe muito bem porque é que este se resigna à vida de professor de liceu quando podia ter sido tanto mais, mas esta é uma questão que não interessa a Breaking Bad aprofundar, ou que reserva ao espectador decidir.
Walter White, quando o conhecemos, parece pelo menos satisfeito com a sua vida de professor e com o seu casamento com Skyler, dona de casa. O casal, em tudo normalíssimo, tem um filho adolescente com paralisia cerebral e, de repente, um bebé-surpresa a caminho. Para manter o estilo de vida a que a família está habituada, Walt vê-se obrigado a arranjar um emprego depois das aulas a lavar carros para um chefe absolutamente execrável. E subitamente, o cancro, quando a situação financeira da família já é desastrosa. Mais do que com o cancro, Walt preocupa-se com o futuro da mulher e dos filhos. No que é uma crítica feroz ao sistema de saúde norte-americano, o seguro de saúde não cobre todos os tratamentos que precisa, e Walt pondera nem sequer tentar tratar-se. (A crítica repete-se mais tarde na série, quando volta a ser dinheiro da droga a suprir a fisioterapia de um agente do FBI, necessária após um ataque sofrido em consequência da profissão, cujo seguro não chega para cobrir.)
Coincidentemente, Walt é cunhado de Hank, polícia da DEA, casado com Marie, irmã de Skyler. Para animar o cunhado, Hank convida-o a acompanhá-lo numa rusga destinada a apanhar um fabricante de metanfetamina. Não o conseguem apanhar, mas Walt reconhece no meliante um seu antigo aluno. Vê-o fugir e não diz nada à polícia, porque de repente as rodinhas daquele cérebro já começaram a funcionar. Walt começou a fazer contas à vida, e ao dinheiro que não tinha, e aos empregos onde não lhe dão o devido valor que nem chegam para garantir que Skyler e os filhos tenham uma vida confortável após a sua morte, e entretanto descobre que a anfetamina dá dinheiro, muito dinheiro, até a anfetamina de má qualidade que circula nas ruas! Walt sabe que consegue fazer uma anfetamina melhor, genial, pura, científica, e as rodinhas do cérebro começam a girar.
Com a ajuda do antigo aluno, Jesse Pinkman, Walt inicia-se no processo de fabricar anfetamina e o produto, Blue Ice, pode ser descrito como o Nobel da droga. Os problemas começam quando Walt e Jesse têm de vender o produto. A princípio até é engraçado, quando "contratam" três estarolas como dealers, três atrofiados em quem eu não confiava nem para me comprarem o passe. Mas lá vai resultando, e Walt e Jesse fazem mais dinheiro do que alguma vez na vida tinham imaginado. E porque fazem dinheiro, e o Blue Ice se torna conhecido, e dão nas vistas, tornam-se imediatamente alvos: da polícia, e, pior, do cartel lá do sítio, mesmo ali ao lado da fronteira com o México!
E é aqui que as coisas começam a correr mal, muito mal, de mal a pior, como diz o Dean do Sobrenatural, é aqui que as coisas começam "a correr Breaking Bad", à medida que Walt e Pinkman se metem em situações ao mesmo tempo rocambolescas e arrepiantes que tanto nos fazem rir como nos põem a roer as unhas. Os amantes de humor negro não podem perder esta série, nem que seja por causa do casal de agarrados que rouba uma caixa de Multibanco, e depois a mulher zanga-se com o marido e... Só visto. Felizmente, não se "vê" exactamente, ou realisticamente, e é por isso que certas cenas de extrema violência, embora nunca tratada com leviandade, nos conseguem fazer rir. Por exemplo, o que acontece a Gus Fring, e que obviamente não vou revelar. Não me lembro de outra cena em filme ou televisão que me tenha feito reagir assim, sem saber se ficar em choque ou se desatar às gargalhadas. Breaking Bad é uma série assim tão boa!

Alguém se lembra desta senhora?
Até consigo imaginar Vince Gilligan, criador da série, a ver essa outra série igualmente genial que era Weeds, de cariz mais alternativo e humorístico, e pensar que o que faltava a Weeds era a versão hard. Breaking Bad é a versão hard da comédia soft de Weeds. Em Weeds, nada é tão dramático, nada é tão desesperado. Nancy Botwin, a dona de casa viúva e desesperada, mete-se no negócio da marijuana por motivos bem mais levianos do que Walter White. Nancy Botwin é uma sociopata, quer manter o estatuto e o nível de vida, mas fá-lo também por rebeldia anti-sistema, a hippie "crescida" que acredita que a marijuana deve ser legalizada. (De Nancy Botwin, ou dos autores da série, a grande mensagem é: legalizem já!) Não há ninguém naquela série que não fume o seu charro.


Breaking Bad, pelo contrário, é um hino anti-drogas. Com as devidas distâncias, porque não estamos a falar de drogas leves, basta ver aquela cena em que eles preparam heroína numa colher, com sumo de limão e tudo, para uma pessoa ponderar se quer mesmo enfiar aquela porcaria nas veias. Ou as cenas em que sob efeito da anfetamina Jesse Pinkman tem autênticos surtos psicóticos de paranóia, o que também não deve ser nada divertido. Admito, eu própria, que quando Walter começou a ter dificuldade em respirar, ou quando se via o cancro nas radiografias, me faltava o ar a mim também! E olhei para o meu cigarro aceso com pouca vontade o fumar, proeza que nenhum aviso, nenhum programa, nenhum documentário, consegue provocar-me! (Mas passou-me depressa.)
É impossível não comparar Weeds e Breaking Bad, mas atenção, as aventuras de Walter White e Jesse Pinkman não são só para rir, e não são para todos! Breaking Bad é acima de tudo uma série dramática, cheia de acção e humor, mas essencialmente dramática. Na minha opinião, alguns episódios até conseguem ser bastante aborrecidos, e refiro-me especialmente a todas aquelas partes da "vida em família", Walt e a mulher e o filho e os churrascos com a cunhada e o cunhado, que não é o motivo por que as pessoas vêem a série, mas até essas secas, que o são, vão ser fundamentais mais tarde quando todos esses personagens são sugados para o grande buraco negro que Walt andava a criar em laboratório.

A pseudo-gótica
Nesta série não faltam personagens interessantes. Pelo contrário, quase todas elas mereciam a sua própria série (como o conseguiu o advogado Saul Goodman, em "Better Call Saul", que ainda não vi mas obviamente tenciono ver.) Falarei apenas das que me interessaram mais.


Raramente odeio uma personagem como odiei a Jane, a quem não consigo parar de chamar Lydia porque tudo nela me lembra a miúda do Beetlejuice. (Mas da Lydia do Beetlejuice eu gosto, e parece-me que alguém naquela série também gosta porque mais tarde aparece uma personagem sinistra que realmente se chama Lydia. Coincidência? Não acredito.) Odiei a Jane assim que a vi! Foi visceral! Toda vestida de preto, armada em gótica, era só estilo, mas o que é que a menina ouve com o Pinkman? Hiphop. O que é que ela ouve sozinha? Não se sabe, nem sequer a vemos a ouvir música. Na vida real chamar-lhe-ia poseur, mas acredito piamente que os escritores da série não fazem a mais pequena ideia sobre a cena gótica mas acharam que era giro meter uma gótica na série, e saiu isto. Isto irrita-me, porque vem perpetuar uma série de estereótipos sobre os góticos. Que se vestem de preto por rebeldia contra os pais, que aquilo é tudo fachada, que são todos uns drogados. Ainda por cima numa série como Breaking Bad, uma série bem feita e realista, onde vários nichos da sociedade são bem retratados (desde a  cena hiphop, à vida de subsistência e criminalidade dos toxicodependentes lá do sítio, até à ritualidade religiosamente bizarra dos cartéis). Mas aqui, falharam. Mais uma vez, servem-nos uma pseudo-gótica a dar a entender ao mundo que ser gótico é vestir de preto, pintar o cabelo de preto, e ter uma atitude arrogante como o caraças! E ainda por cima, sob o efeito da droga, a moça é violenta a ponto de exibir tendências criminosas. Obrigadinha, Breaking Bad, pelo mau serviço!
Por outro lado, Jane "Beetlejuice" é uma toxicodependente em recuperação, o que pode desculpar em parte o "efeito poseur". Até concebo como realista que antes da droga Jane "Beetlejuice" tenha tido alguma simpatia pela cena gótica, mas quando a vemos na série a única coisa de gótico que ainda tem são as roupas que usa, e absolutamente mais nada! Acredito que alguém na série tenha conhecido alguém assim, ou aparentemente assim. Eu conheci alguém assim, antes e depois da droga, e o que vi não foi bonito. Quem sai já não é o mesmo que entrou. Parte da mente ficou por lá. As drogas fazem muito mal à cabeça, que ninguém se iluda! (Nunca é demais dizê-lo, não vá cair no esquecimento.)
Jane "Beetlejuice", por caricatura que seja, foi a parte mais irritante de Breaking Bad.

Skyler White
Passei a série toda a tentar decidir se devia odiá-la ou se me merecia empatia. Comecei logo por detestá-la. Skyler parecia-me uma espécie de Nancy Botwin com mais problemas de dinheiro, o mesmo tipo de dona de casa totalmente dependente do marido a nível financeiro, mas tão mandona e controladora que até a mim me irritava! Nas mãos dela, Walter White parecia um banana. Mas Walter White, como se vem a perceber, não é um banana, e durante muito tempo conseguiu manter a mulher na completa ignorância do que andava a fazer. Isto confundiu-me. O que é que um génio como Walt podia ter visto naquela parvalhona? Como é que aqueles dois podiam acabar juntos e permanecer juntos?! Bem, isto foi antes de ela descobrir tudo. (Desculpem o spoiler lá para o meio da série.) E então Skyler revela-se. A mulher é uma fera manipuladora! Pior do que o marido! Assim percebe-se o que é que viram um no outro e como é que se aturaram durante tanto tempo, Skyler a mandar, Walter a fingir que Skyler mandava. Entre um e outro, venha o diabo e escolha. 


Ainda assim, Skyler não é uma sociopata. Nunca o é, e somos levados tentar imaginar as suas motivações. Na minha opinião, a razão por que Skyler aceita participar em tanta coisa e durante tanto tempo é afinal a mais simples, e é esta:


O que nos leva imediatamente a tecer comparações com outra série notável, mas num registo mais trágico e sem o humor de Breaking Bad, que foi The Shield:

The Shield, a cena crucial em que Vic Mackey e colegas são corrompidos pela raiz de todo o mal. (Lamento a má qualidade da imagem, não consegui encontrar melhor.)

Não preciso de explicar o que salta à vista e não sou a única a fazer o paralelo. Sem revelar demais, posso até adiantar que os últimos episódios de Breaking Bad me lembraram os últimos episódios de The Shield. Qualidade trepidante até ao fim!
Tal como os polícias de The Shield, pelo menos a princípio, Walter e Skyler não agem por ganância. Não amam o dinheiro e não querem ficar ricos. São pessoas reais, normais, com empregos normais e contas para pagar, e salários que não chegam para pagar as contas. Pessoas reais, a quem de repente aparece à frente uma montanha de dinheiro. Vou fazer filosofia e perguntar se será mesmo a ganância a raiz de todo o mal, ou se não haverá um mal ainda pior do que o amor ao dinheiro, a necessidade do dinheiro? Não falo da mais mísera pobreza, nem é preciso. Falo da pobreza da sociedade moderna, em que a pobreza não é a falta de sapatos mas a necessidade de ter os sapatos adequados, o carro adequado, o telemóvel adequado, a escola dos filhos adequada, e todas essas "necessidades" que somos obrigados a satisfazer para não sermos párias, sem no entanto precisarmos delas. E de repente... uma montanha de dinheiro! A solução para todos os problemas que o dinheiro pode pagar.
Consigo censurar a Skyler? Não consigo. No lugar dela, apoiaria o Walt como ela apoiou e participaria em tudo o que ela participou? É fácil dizer que não. Mas eu não tenho uma montanha de dinheiro à minha frente.

Jesse Pinkman
Chegamos ao duo terrível. Tentei compreender Jesse Pinkman, prestei atenção aos episódios em que interage com os pais, o irmão, as namoradas, o filho da namorada, e não consigo compreender Jesse Pinkman. Isto não quer dizer que ache o personagem irrealista ou bidimensional, apenas que deve ser aquele tipo de pessoa com quem eu não me relaciono nem me passaria pela cabeça relacionar-me. Por outro lado, às vezes, Jesse não me parece assim tão estúpido como certas decisões dão a entender e fico com a sensação de que calhou à personagem Jesse ser "sacrificada" a bem do enredo, ora com atitudes impulsivas, quando a série precisa de acção, ora com abismos de depressão suicida lá pelo meio das temporadas em que são necessários episódios menos evolutivos. 


Parece-me que o personagem sofre com isto, embora  mal se note, mas nunca chego a perceber exactamente quem é Jesse Pinkman. Afinal ele queria o dinheiro, ou não queria o dinheiro? Ou queria, a princípio, e foi o primeiro a perceber que o dinheiro não traz a felicidade? Mas Jesse Pinkman não tem responsabilidades, não tem filhos, não tem contas para pagar. Jesse Pinkman é um miúdo crescido que queria dinheiro para comprar brinquedos e se fartou dos brinquedos que comprou. A montanha de dinheiro não exerce atracção em quem não precisa dela.

Walter White
Também passei a série toda a questionar-me se Walter White é um sociopata ou um homem desesperado numa situação desesperada. No fim, ele próprio o admite, fez tudo por si próprio, mas quando ele admite nós já sabíamos. O homem é um monstro!
Também aqui, como em Dexter, fomos manipulados a sentir empatia pelo pacato professor de liceu que tem cancro e só quer garantir uma vida confortável à família depois de morrer. Não imaginávamos, nos primeiros episódios, o que Heisenberg iria significar depois. Realisticamente, até se poderia conceber que Walter tenha sido um sociopata funcional a vida toda. Não sabemos, porque não vimos e se calhar não era nada de interessante para ver, mas há-os para aí muitos. Na sombra de Skyler, solar e controladora, até um Heisenberg em potencial podia passar perfeitamente despercebido. Não é implausível. 
Mas Walter White é um sociopata ficcional, tal como Dexter, e a ficção manipulou-nos. Desde o episódio em que o pacato professor de química desata a lançar bombas de fósforo no quartel-general do drug lord lá do sítio, e Heisenberg se auto-inventa, sabemos que estamos na presença de um super-herói. Mais tarde, percebemos que é um anti-herói. Um dos melhores super-anti-heróis que a ficção já imaginou! Este é o homem que sabe fazer veneno indetectável, mas também consegue detonar bombas à distância, e este é o homem que raramente precisa de matar com as próprias mãos porque consegue manipular alguém para o fazer por ele. Heisenberg é um dos personagens mais perigosos que já apareceram na ficção! Ainda mais perigoso porque ninguém desconfia dele, e ele sabe disso. Neste aspecto, recorda-me o mítico Keyser Söze de "Os Suspeitos do Costume" (os autores da série só foram buscar aos melhores), mas Heisenberg existe mesmo, em carne e osso.
Mas somos manipulados. Até ao fim, somos manipulados. Queremos sentir empatia pelo homem que tosse e que encara a morte de frente com coragem, queremos acreditar que é um homem desesperado que só quer deixar dinheiro à família. Queremos sentir empatia mesmo quando já sabemos que ele não sentiria empatia por nós, que sem pensar duas vezes nos metia também num barril cor-de-rosa. Queremos acreditar que é um homem desesperado mesmo quando temos à frente todas as provas em contrário, queremos acreditar que naquelas circunstâncias todos nós faríamos o que ele faz, que na face da morte há um Walter White à espera de despertar em cada um de nós, mas sabemos que não. Porque o homem é um monstro, mas nós não somos, e só conseguimos amar um monstro quando fechamos os olhos à sua monstruosidade. E é assim que Breaking Bad nos manipula, do primeiro ao último episódio, e encantados na canção do bandido deixamo-nos convencer.


 Obrigada, Dean do Sobrenatural! 




sábado, 31 de janeiro de 2009

"The Shield"


"The Shield", conhecido entre nós como "O Protector", é a melhor série policial que já vi nos últimos anos desde a velhinha e inovadora "Balada de Hill Street" ("Hill Street Blues" no original). Tem passado na TVI, felizmente a horas muito tardias porque o nível de violência pode ser de facto traumatizante, e não tem tido o destaque que merece. "The Shield" não é apenas uma série policial mas um autêntico tratado sobre o Bem e o Mal e um espectáculo de bons actores, por onde passaram discretamente Glenn Close e Forest Whitaker (vencedor do Oscar para melhor actor em "O Último Rei da Escócia"), este particularmente brilhante na cena em que confronta o chefe da polícia com o discurso "Vic Mackey está a mijar... a mijar para todos nós... e nós abrimos a boca e bebemos?", entre um elenco de ilustres desconhecidos que a série tornou inesquecíveis.
De facto, é preciso estômago para ver todos os episódios sem pestanejar, e não acredito que alguém os digira sem abalar as suas certezas mais profundas. "The Shield" conta a história de uma equipa especial da esquadra de Farmington, Los Angeles, denominada Strike Team e concebida para actuar no território dos gangues mais violentos da história dos Estados Unidos. O que em a "Balada de Hill Street", passada em Nova Iorque nos anos 80, era apenas preocupante, em "The Shield", 20 anos depois, já se tornou num filme de terror em que crianças são recrutadas, inimigos queimados vivos, cortados à catanada, arrastados pela estrada presos a um carro. É um Iraque, ou pior, ali tão perto de Hollywood. A juntar a isto, ou por isto mesmo, os polícias da Strike Team não são os justiceiros normais que se vêem nas séries policiais. Nem sequer lhes chamaria apenas "polícias corruptos" porque seria pouco. Pelo contrário, atrever-me-ia a dizer que a Strike Team é uma autêntica quadrilha: do assassinato ao roubo, passando pela mais diabólica manipulação emocional, de pouca coisa se abstiveram todos os diabos que por lá passaram, sempre a resguardo do valioso distintivo, na ruas, e não deixando vestígios incriminatórios para os chefes da esquadra. Durante anos, tanto no tempo ficcional da série como na período real da sua exibição, os predadores da máquina perfeita de trucidar criminosos que compõem a Strike Team, e aqui está a parte interessante, acabam inevitavelmente por se devorar uns aos outros, e aqui está a parte perversa, devoram-se uns aos outros as devagarinho, pedaço a pedaço, até à sobrevivência de apenas o mais forte.
O pior, mesmo o pior, é que como seres humanos damos por nós a torcer por uma cambada de assassinos, ora este, ora aquele, até pelo que matou o colega à traição com uma granada. Chama-se empatia. De onde vem a nossa capacidade de empatizar com o horror é a grande pergunta que nos pomos no fim de cada episódio e que nos faz querer bater com a cabeça na parede, tal como muitos deles fazem de vez em quando porque é caso para isso. É esse o grande mérito do criador, Shawn Ryan.
Mas se é a história da Strike Team que acaba por viciar o espectador mais incauto, o tipo de casos paralelos com que se confrontam os polícias no seu dia-a-dia são de deixar qualquer um de cabelos em pé. Não se percebe muito bem se é a série que é perversa ou se apenas retrata os recantos mais sombrios do ser humano, mas de uma coisa temos a certeza: observadas no grande plano da lente propositadamente trémula de "The Shield", todas as personagens são doentes e retorcidas, e toda essa verdade nos é dada a ver pelo génio do realizador desta série aparentemente tão discreta como violentamente perturbadora.
A TVI apenas mostrou até ao fim da sexta temporada mas há uma sétima. Aconselho a toda a gente que perdeu alguns episódios, ou não deu sequer por isso, a pôr os vídeos a gravar se for preciso e ver, no dia seguinte, que o inferno pode ser mesmo aqui e agora.