quinta-feira, maio 19, 2005

Um grito na noite

Estava na cama mas não conseguia dormir. Já tomei tantos comprimidos que tenho a boca seca. Até agora foram 6 lorenins.
São 4 da manhã e estive deitada 45 minutos.
Desatei a chorar. Então resolvi vir escrever, para nao estar no escuro a chorar e a pensar que se não há vida após a morte então isto tudo não vale a pena e prefiro morrer já.
Este é o primeiro emprego a sério, o primeiro bom emprego que eu tenho em 4 anos. Entretanto, a doença - porque agora já não tenho o outro nome a dar-lhe - crescia como um monstro nas brumas.

Delayed Sleep Phase Syndrome
Síndrome da Fase de Sono Atrasado

Durante anos me queixei da precaridade do meu emprego. E agora que tenho uma possibilidade, uma verdadeira possibilidade, vejo o meu próprio cérebro trair-me. Vejo-me numa situação desesperada porque este mês, pela primeira vez na vida, fui eu quem teve de pagar as contas.
E vejo-me na iminência de perder ou ter de deixar o melhor emprego que tive em 4 anos. E começo a ver-me doente e incapaz de manter um emprego.
E, sim, isto está a deprimir-me e não é razão para menos.
O meu próprio corpo conspira contra mim.
A minha mãe tem uma pensão de miséria que não lhe permite pagar as contas e depende do meu ordenado. Está muito velha para trabalhar. A família é pobre e só temos dívidas de herança.
Era por isso que chorava e só me apetece chorar. Mais dois comprimidos e sei lá a que horas acordo amanhã.
Penso em não aparecer mais. Só isso, desaparecer.
Penso muito em desaparecer. Não é que eu deseje morrer mas não vejo ajuda da Medicina e não quero viver assim, na miséria, para o resto da vida.
Estou a chorar neste preciso momento.
Pensei que vir aqui escrever ajudasse a desabafar. Não sei se ajuda. Mas pelo menos é o fim de um silêncio em que muita gente tem vivido até aqui, mergulhados em narcóticos e em álcool (que comigo não funciona).
Neste momento não estou a tomar anti-depressivos. Até não tinha razão para estar deprimida. Até agora. Estou a faltar ao trabalho uma vez por semana e, apesar de me estar a ser descontado do ordenado, por muito tolerante que o patrão seja isto não pode continuar assim. Porque isto não é uma gripe que passe em duas semanas. Porque isto não é ecomicamente viável.
Podem perguntar-se porque só escrevo à note, porque não tento dormir e escrever à tarde?
Porque o meu cérebro só funciona a 100% à noite. De dia está zombificado.
Todos os posts que aqui têm lido às 10 da manhã e pensado ingenuamente que eu me tinha levantado cedo foram escritos ANTES de eu me deitar. Essa é a hora em que de facto me apago e vou para a cama de forma natural.
Todos estes anos de precaridade não me deixaram perceber que os meus ciclos de sono estavam a ficar cada vez mais descontrolados.
Nos últimos meses tenho conseguido manter as coisas sob controle, talvez porque o cansaço do dia, a que já não estava habituada, me pusesse a dormir mais cedo. Mas como tudo o que cria habituação, já nem o cansaço do dia faz efeito. E o meu ciclo de sono natural voltou a impor-se, de forma mais violenta do que nunca.
O que é uma pena porque agora tinha tudo para deixar de ser infeliz.
E vejo bem que vou perder tudo.
E só me restam as lágrimas.

Mais dois comprimidos. Mais uma centena de neurónios que se vão.

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