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quinta-feira, 4 de março de 2010

Agarrei-me ao vampiro

Não é todos os dias que me apetece escrever mas hoje deu-me para isto.
Dantes, havia em Lisboa a Feira Popular. Podia ser muito bimbo mas eu gostava de ir beber sangria e ver as caras das pessoas quando andavam naquelas maluquices perigosas. Eu nunca andava. Só gostava de me sentar a beber sangria a observar as suas expressões de terror, a ouvir os seus gritos, a escutar os comentários. Digam o que disserem, era impagável. Gostava muito da Feira Popular e lamento que tenha desaparecido (em mais um negócio da China que ninguém percebe).
Mas avançando. Como disse, não gostava de andar em coisa nenhuma, nem sequer no Comboio Fantasma. Minto. Gostava de uma coisa em que se praticava a pontaria. Antes de beber sangria, claro, hahaha!
Tirando esse divertimento bélico (ah, que saudades de dar uns tirinhos!), só me atrevi a ir a outra coisa. Nos últimos anos da Feira montaram um espectáculo chamado A Casa do Terror, ou algo assim. Era de facto uma casa, com actores vestidos a preceito, cuja missão era meter medo aos visitantes. A ideia era espanhola. Desafiada por um amigo, lá me atrevi a experimentar, certa de que com a minha experiência em filmes de terror não me ia acagaçar. Afinal, tinha 26 anos, e já umas sangrias a acompanhar! Podia lá ter medo daquilo, certo?!... À porta estava um vampiro, vestido à conde Drácula, muito a rigor, que era o cicerone. Era quase tão sinistro como um gótico. Quase. O que estragava tudo era o colete vermelho e a camisa branca. (Vampiros amadores!)
Enfim, entrei, com um grupo de pagantes, e depois disseram-me que ao subir umas escadas não reparei na miúda do Exorcista que se retorcia algures a um canto sombrio. Estava a olhar para onde, pergunto-me eu? Possivelmente para o vampiro.
Em grande escuridão, penetrámos num cemitério. Do silêncio, começámos a ouvir sussurros, e depois algo nos tocou. Eram zombies. E bem caracterizados que eles estavam! Aquela gente era mesmo do teatro e fazia o seu papel! Sentíamo-nos no teledisco "Thriller" do Michael Jackson. Fiquei um bocado nervosa mas não tive medo. Faltava algo de essencial para me meter medo. Faltava o cheiro. Sem o cheiro da putrefacção e da morte, o meu cérebro distinguiu claramente que nada daquilo era real. Lá sorri e continuei.
Então o vampiro voltou a aparecer, naquele que devia ser o momento da metade da expedição, e avisou-nos: "A partir daqui ainda se pode voltar para trás! Quem não sair agora, já não sai!"
Isto também era para meter medo, mas quanto mais olhava para ele mais contente eu ficava. (Acho que o actor não estava a achar graça nenhuma ao meu carinho pela sua pessoa, mas lá deve ter percebido "esta é gótica, tou lixado, nem vale a pena insistir!")
Passámos a um corredor, e foi aí que se deu o mais estranho. Se os zombies não me convenceram, por falta do cheiro, algo mudou quando comecei a ouvir, nitidamente, um rosnar. Um rosnar ALTO e ameaçador, e percebi que do outro lado da porta estava um lobisomem. Reparem, eu não o vi sequer. Senti-me tomada de tal terror, só por ouvir o som, que me voltei para trás, e pedi desculpa ao meu amigo, e disse ao vampiro: "Eu quero sair! Eu quero sair! Por onde é, por onde é?!"
Acho que o vampiro se desiludiu comigo. Mas foi assim, agarrei-me ao vampiro, para longe do barulho, e ele guiou-me pela "passagem secreta" para a rua. "Cuidado com as aranhas!", dizia, sempre no seu papel, mas eu não largava era o vampiro.
Nunca me arrependi de voltar para trás. Queria ter medo, e tive medo. Missão cumprida.
O meu amigo ainda passou por alguns sustos, o último dos quais foi ser recebido pelo homem louco com a motoserra de "Texas Chainsaw Massacre", mas até a isso assisti em segunda mão. Quando a porta se abriu, ouvi a serra, e ouvi os gritos, e senti medo também. E nem sequer já lá estava.
Reparem como é curiosa esta coisa do medo, que vem dos sentidos todos, do cheiro, da audição, dos sentimentos, e principalmente da imaginação. Quanto menos se vê, mais se imagina. Quanto mais se imagina, mais assustador se torna. Eu não vi lobisomem nenhum. Eu imaginei-o. Naquele momento, "acreditei" tanto nele que tive medo e voltei para trás, com medo do que ia ver. Com medo de ver o meu pior pesadelo. Esse, o meu pior pesadelo, jamais o veria, porque apenas existia na minha cabeça. Mas naquele momento existiu, e dei por bem gasto o dinheiro do bilhete.
E depois, podia lá perder a oportunidade de ser guiada à "segurança" pelo braço de um "vampiro"?... Só se fosse muito louca!
Todos pagavam o mesmo, mas nem todos usufruíam os mesmos prazeres.