sábado, fevereiro 14, 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror IV

Herbert West: Reanimator
Este é um dos contos mais populares e popularizados de Lovecraft, mais ainda do que "The Mountains of Madness". Toda a gente já viu a história no cinema, repetida vezes sem conta em filmes igualmente inumeráveis: um cientista descobre um soro que devolve a vida aos mortos. A vida, mas não a personalidade. Estes voltam, mas "alterados" como só o mestre Stephen King descreveu mais tarde. Então o que temos? Zombies. Carradas de zombies. Mortos-vivos. Braços e pernas saltitantes. Cabeças rolantes. Toda essa palhaçada. Agora parece-nos engraçado mas não o seria certamente na época em que Lovecraft o escreveu.

["Reanimator" é também o nome de uma famosa música dos Fields of the Nephilim que, como vimos antes, muito foram buscar ao universo do autor. Um conhecedor de ambas as obras vai encontrar um manancial de referências, em que McCoy mistura o universo onírico e assombrado de Lovecraft com a análise psicológica dos nossos dias.]

O tema já não era novo quando o autor lhe pegou. Aliás, o próprio Lovecraft cita os mestres antigos quando começa esta história -- publicada originalmente em fascículos, razão pela qual é feito um sumário do enredo anterior a cada novo capítulo -- com uma citação do Conde Drácula: "To be dead, to be truly dead, must be glorious. There are far worse things awaiting man than death."
O primeiro "reanimador" famoso foi o cientista "Frankenstein", de Mary Shelley, mas o resultado acaba por ser bem diferente e é isso que interessa salientar. Enquanto o monstro de Frankenstein (que não tem nome) é uma criatura feita de partes de vários mortos mas que almeja uma existência humana e é por isso rejeitado pela sociedade, -- uma perspectiva muito "feminina" capaz de levar o mais sensível às lágrimas -- os zombies de H. P. Lovecraft, numa versão a que nos dias de hoje chamamos "gore", pensam mais em comer a carne dos vivos e voltar a esgravatar na terra do cemitério. Não há aqui nada de "choramingas". São zombies, são maus, e comem criancinhas.
Pior que eles só o seu criador, Herbert West, um verdadeiro monstro digno das experiências nazis mais atrozes (mas antes dos nazis), diametralmente o oposto do torturado cientista Frankenstein, cheio de remorsos pela sua obra blasfema.
Herbert West, que nos é descrito pelo seu assistente, só tem uma preocupação na vida: arranjar cadáveres frescos, muito frescos, para que o soro actue antes que o cérebro perca demasiadas células e comprometa a existência inteligente. Quando lhe faltam os defuntos a tempo e horas, qualquer visitante que bata à porta se torna candidato à experiência. Este médico mata primeiro para ressuscitar depois.
Mas, porque os seus mortos-vivos não são totalmente desprovidos de inteligência, um dia há-de beber o seu próprio veneno.
Delicioso. Imperdível. Satisfação garantida!


Imprisioned with the Pharaohs
Um ilusionista cuja especialidade é o escapismo, como Houdini, vai visitar o Cairo onde a sua "magia" de espectáculo é particularmente testada. Traído por uma armadilha montada pelos beduínos do deserto, é lançado para dentro de um enorme poço que estaria debaixo da Esfinge, amarrado, de mãos e pés atados e olhos vendados. Cabe-lhe primeiro escapar das amarras. Depois... tem de fugir das múmias.
É uma história interessante e exótica mas particularmente indicada para quem gosta do antigo Egipto, pirâmides e mitologia. A ideia é inteligente (a esfinge afinal existe e é real) mas não me convenceu. Certamente haverá quem goste mais do género.


In the Vault
Já esta, é uma história muito mais cómica do que tétrica -- ou ambas as coisas. Parece daqueles contos da avózinha para assustar criancinhas e fazer-lhes perceber os males da preguiça. Senão vejamos. Coveiro de profissão, era um homem habituado a tratar os mortos como se fossem um lixo aborrecido que o seu trabalho tratava de empacotar e enterrar. Não era um coveiro muito competente. Os caixões que fazia eram frágeis. Alguns eram demasiado pequenos para o seu destinatário mas o coveiro lá se encarregava de fazer "caber tudo", nem que para isso tivesse de serrar os pés... Certa vez até enterrou os restos de alguém na sepultura de outrém. Não que o homem fosse má pessoa, mas para ele a missão de enterrar os mortos não passava de um ofício como outro qualquer em que não punha muito brio.
Devido ao seu desleixo, e porventura um copo a mais ao almoço, certa tarde de Sexta Feira Santa ficou preso do lado de dentro de um sepulcro onde estavam alguns dos seus caixões e respectivos "clientes". Negligente, o coveiro tinha deixado que o tempo enferrujasse a fechadura e agora via-se grego para abrir a porta a partir de dentro. Mas não tinha medo da sua situação. De tal modo não tinha medo que se pôs logo a pensar na solução para o contratempo, e esta passava por pegar num martelo que por ali tinha e abrir mais a estreita janela sobre o portão do jazigo. Para lá chegar, empilhou os caixões todos uns sobre os outros (com os respectivos ocupantes lá dentro) e fez deles uma escada. Quando estava quase a conseguir esgueirar-se pela abertura, perto da meia noite, o seu negligente trabalho traiu-o mais uma vez: os caixões eram tão fracos que cederam sobre o seu peso e o pobre diabo ficou pendurado da janela. Mesmo assim, e com muito esforço para levantar todo o peso da sua pança, ia quase a sair do túmulo quando lhe agarraram pelos tornozelos. Alguém que não gostou que lhe serrassem os pés...


Nyarlathotep

I do not recall distinctly when it began, but it was months ago. The general tension was horrible. To a season of political and social upheaval was added a strange and brooding apprehension of hideous physical danger; a danger widespread and all-embracing, such a danger as may be imagined only in the most terrible phantasms of the night. I recall that the people went about with pale and worried faces, and whispered warnings and prophecies which no one dared consciously repeat or acknowledge to himself that he had heard. A sense of monstrous guilt was upon the land, and out of the abysses between the stars swept chill currents that made men shiver in dark and lonely places. There was a daemoniac alteration in the sequence of the seasons--the autumn heat lingered fearsomely, and everyone felt that the world and perhaps the universe had passed from the control of known gods or forces to that of gods or forces which were unknown.

Não deixa de ser curioso como tantos escritores e tão distintos apanham no "ar" o vento das trevas e o traduzem em ficção mal sabendo que escrevem profecias. Agitação social e alterações climáticas... e depois vem o fim.
Nyarlathotep ("the crawling chaos"), ou o mensageiro do caos, é uma personagem sinistra e sobrenatural que povoa toda a obra de Lovecraft. Grande e perigoso hipnotizador, leva qualquer pessoa que o ouve a ingressar a grande massa humana que deambula pelo mundo sem norte, uma imensa vaga de "mortos-vivos" ou autómatos, enquanto a civilização se desmorona em ruínas abrindo caminho para o domínio dos Outros Deuses.
Pela sua visionária actualidade, arrepia pensar que este conto foi escrito em 1920.


The Cats of Ulthar
Quando comecei a ler Lovecraft perguntou-me um conhecedor: "E qual é a tua história preferida?". "Tenho de ler mais", respondi. Mas, afinal, já sabia a resposta. Lovecraft tinha um grande amor por gatos. Eu também. E a história é esta e reza assim:
Havia um execrável casal de velhos, que odiava gatos, e que os apanhava e torturava até à morte de formas cruéis. Ouviam-se de noite os gritos arrepiantes dos bichinhos.
Um dia passaram saltimbancos por Ulthar, muito versados em artes mágicas. Um deles era ainda quase uma criança, um pobre rapaz órfão cujo melhor amigo e companhia era um gatinho também de pouca idade. De noite, em Ulthar, o gatinho foi apanhado e torturado e morto pelo casal de velhos malvados.
Na noite seguinte, depois da partida dos saltimbancos, algo aconteceu. Todos os gatos de Ulthar desapareceram. Os habitantes da cidade, que temiam a maldade dos velhos, julgaram o pior e choraram pelos seus amigos de estimação. Mas no outro dia, de manhã, todos os gatos voltaram para casa, gordos, satisfeitos, lambendo os bigodes como se depois de uma boa refeição. Dos velhos, só restavam os ossos. Os gatos de Ulthar comeram-nos.
É por isso que até hoje, em Ulthar, existe uma lei em que é expressamente proibido matar um gato.


The Dream Quest of Unknown Kadath
Esta é uma das histórias em que figura o personagem recorrente Randolph Carter, o grande herói de H. P. Lovecraft, que na sua demanda do sobrenatural terá sido uma espécie de Fox Mulder com os seus Ficheiros Secretos.

 
 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)

Randolph Carter é referido em algumas aventuras mas é neste conto que se aproxima mais dos terríveis deuses (aqui chamados "the Great Ones") que povoam o universo do sonho. Kadath seria a cidade onde os deuses habitam, apenas vislumbrada no sono profundo, e para a alcançar Randolph Carter vai ter de se debater com inúmeros adversários fantásticos, e contar com a ajuda de alguns amigos poderosos no mundo do sonho que também são personagens de outros contos de Lovecraft, como o rei Kuranes de Celepahis, o "ghoul" Richard Pickman ou... o exército dos gatos de Ulthar! Devo confessar que toda esta bizarria me passaria ao lado até ao momento em que Lovecraft invoca, precisamente, o exército dos gatos de Ulthar, que combatem ferozmente para salvar Randolph Carter dos terríveis seres "assapados" do lado oculto da Lua. Mas isto é o quê? Um conto para crianças? Devo dizer que fiquei imensamente decepcionada e não aconselho a ninguém que comece a leitura do autor por esta história excepto se gostar muito, muito, mesmo muito!, de fantasia. Para os iniciados, é uma pequena maravilha conhecer o destino do artista Richard Pickman e do vagabundo Kuranes fora dos limites do mundo físico. Mas, na minha honesta opinião, a única parte realmente à altura de Lovecraft é o encontro final de Carter com Nyarlathotep, "the Crawling Chaos", o mensageiro do caos, que lhe explica que essa cidade porque tanto anseia não é mais do que um reflexo dourado das suas próprias memórias da infância passada em Boston. E dizendo isto, que pode ser verdade ou mais uma artimanha para o desviar do seu objectivo, Nyarlathotep estende-lhe outra armadilha de que o herói tem de se livrar. Nyarlathotep é a personagem que em Lovecraft mais se assemelha ao Diabo: tentador, elegante, eloquente... mas mentiroso e cruel. E esta é a única razão porque a história acaba com algum interesse.


Continua.

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1 Comentários:

Blogger Marcos Sá disse...

Estou feliz em saber que há gente que valorize a literatura do horror... Lovecraft, Poe, King... isso é muito bom.

Desculpa entrar assim, sou professor de línguas e de literatura do horror e acabei de criar um blog sobre isso... gostaria de unir forças com outros leitores e críticos dessas maravilhosas obras...

Dá uma passada lá... abraços

22/6/09 16:07  

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