sexta-feira, julho 25, 2008

Movimento gótico: Uma Perspectiva III

Through the cables and the underground now
The faceless breathless calls
This is babel, sensurround now
This place is death with walls

Too much contact, no more feeling
The sound around them all
Acid on the floor so she walk on the ceiling
And the body electric flashes on the bathroom wall
And the body electric flashes on the bathroom wall
Crawling to the corners where the idiot children call
See the body flashing on the bathroom wall


Sisters Of Mercy, "Body Electric"


"Gótico, o que é isso?", perguntei eu, ofendida.
"É um movimento musical britânico, que começou em Leeds. Foi de lá que vieram os Sisters, os Nephilim, e outros. Os góticos vestem-se de preto e cabedal, pintam o cabelo de preto, usam óculos escuros, têm o cabelo à punk... Assim como a Siousxie. Tudo muito exagerado, muito negro", respondeu ele, e deve ter olhado para mim, com a minha saia de ganga dos anos 80 e a minha blusinha branca e pensado duas vezes se a sua intuição não se teria enganado. Assim descrita, a coisa e os seus seguidores pareciam-me uma palhaçada, mais uma maneira de dar nas vistas como tantas outras. Ainda hoje prefiro uma certa sobriedade e evito a extravagância. Uma questão de gosto pessoal, nada mais. Mas logo desde essa altura fiquei muito curiosa em relação aos tais góticos e à coincidência de eu gostar de uma série de bandas de que eles também gostavam. A música era demasiado escassa para nutrir preconceitos. Havia que esburacar onde cheirasse a minhoca. A partir daí, compilações góticas em K7 começaram a chegar à minha caixa de correio com uma frequência mais e mais certeira. E nessa altura aprendi uma grande lição que ainda partilho quando as pessoas me falam da suposta "inutilidade" dos rótulos:
Qual inutilidade? Os rótulos são úteis e poupam imenso tempo... e dinheiro! Dinheiro até pode haver para gastar em bandas que se ouvem uma vez, mas o tempo é escasso e a morte espreita. Há que despachar.
Não sei quando e como me comecei a vestir de preto também. Por um lado, sempre gostei de preto. Por outro, toda a gente se vestia de preto. Digamos que foi um processo em que a roupa velha foi sendo substituída, peça a peça, nos ciganos da Feira da Ladra, por essa massa de negrume que se tornou o meu guarda roupa. Quanto mais negro, mais olhava ao espelho e me descobria. Isto numa altura em que as pessoas nos chamavam bruxas por causa de uma saia comprida e de uma t-shirt! Como era fácil chocar a sociedade portuguesa dos anos 80! Não que eu quisesse chocar. Acho que, ao contrário dos punks, nenhum de nós queria chocar ninguém. Só queríamos que nos deixassem em paz na nossa infelicidade adolescente. Não estávamos ali para mudar o mundo. Já sabíamos que não nos deixariam mexer uma palha no sistema corrompido. Enquanto se esperava pela morte, só desejávamos inebriar-nos "na cor poente de um céu inflamado" (Mão Morta).

Oub'lá que tás a fazer?
Quero é que te vás foder!
Qual é a tua identidade?
Perdi aí pla cidade!


Mão Morta, "Oub'lá"


A 2 de Junho de 1989, poucos minutos depois de Adolfo Luxúria Canibal ter dado uma facada na perna durante o concerto, estava eu a entrar no Rock Rendez Vous e a ver o sangue e a pensar que fazia parte dos adereços e a aplaudir em êxtase. Não, não me lembro da data. Naquela altura estava lá em estado de me lembrar de pormenores! Estou a guiar-me por uma biografia dos Mão Morta que me deram recentemente, em que Adolfo é citado ao Académico, em 1993, sobre essa mesma noite: "O ambiente na sala estava pesadíssimo, havia necessidade de aplacar um bocado as coisas e eu pensei que o sangue poderia acalmá-los... o sangue assusta. Afinal o sangue acabou por ser demais, e aí é que eu vi que tinha feito asneira".
O ambiente era pesado? Pensando bem, sim, pois era. Mas era tão pesado e opaco e a tensão cortava-se tanto às fatias que se nem dava por isso. O que estávamos a fazer era mesmo assim, pioneiro e perigoso, a desbravar na noite caminhos novos. Não havia enlatados de abertura fácil. Tudo era novo. Tudo era emoção. Tudo era loucura e excesso.
Se me perguntarem hoje onde era o Rock Rendez Vous, lamento não vos poder guiar até lá mas juro que não faço a mínima ideia. O palco onde tantas vezes vi Mão Morta e Pop Dell'Arte e Mler If Dada era longe e fora do mundo, como Avalon, tão fantasmagórico que não me admiro de já não existir como se nunca tivesse passado de um sonho. Era um espaço de alma onde se ia para nos perdermos e para nos voltarmos a encontrar (como disse Andrew Eldritch, dos Sisters of Mercy, do espaço de luz, fumo e som entre a banda e o palco onde a plateia desses remotos primeiros anos teve o privilégio de dar mais noite à noite). Era tudo novidade, era tudo a primeira vez, a primeira pedra, o primeiro passo. Sentíamos que estávamos a fazer algo original, que não obedecia à cultura que nos tentavam insistentemente enfiar pela garganta abaixo, que éramos uma imensa minoria que pela primeira vez saía do buraco taciturno e se cruzava, e se reconhecia, e se reflectia.
Mas hoje ainda vos poderia levar à Tertúlia, onde havia a Jukebox do meu tempo na rua do Diário de Notícias, e dizer: "foi aqui"! Espaço onde se fumava haxixe e se observava, com curiosidade tão ingénua quanto científica, como a heroína ceifava os primeiros toxicodependentes de Portugal, os pioneiros, como nós, e uns quantos jovens "vencidos da vida" ouviam Bauhaus e Joy Division e ensaiavam passos de dança pequenos e curtos, para trás e para a frente, movimento de meninas a que um amigo dessa altura chamava "moscas". Que sabia ele? Nada. Faltava muito para se separarem as águas. Andava tudo misturado. Os vangs, os pseudo intelectuais, os drogados, os artistas, os falhados do futuro. Só tínhamos uma coisa em comum: não éramos com os demais; éramos de facto diferentes.
Mas nem tudo foram rosas. Naquela altura o revivalismo era feito do punk. Ai de quem não gostasse de punk! Eu nunca gostei de punk, muito menos de rockabilly, mas levei dele tão maciças injecções que fiquei alérgica para o resto da vida. Pregavam comigo num bar existente num prédio da 24 de Julho que penso já ter sido demolido, junto ao actual IADE a que nós chamávamos apenas "a gaiola", isto muito antes de a 24 de Julho estar na moda, o bar Oceano, cheio de skinheads e rockabillies (que, tal como os actuais metaleiros, também não se vestiam de preto) e ali levava com actuações de bandas punk que até doíam aos ossos.
Por outro lado, amigos normais arrastavam-me para discotecas da moda, onde se abria a pista de dança a uma certa hora como se houvesse hora para tudo, e levava com techno pop e Prince e INXS e os "Contentores" dos Xutos & Pontapés a noite toda. (Mesmo assim, menos doloroso que o punk.)
Estava também na moda abrir bares começados por "K". A certa altura terminava-se a noite no Kremlin, onde ainda se ouvia Cure. A vanguarda estava mesmo na crista da onda. Quase a chegar aos anos 90, ninguém podia prever o perigo que corria a música alternativa em geral quando toda a gente se apercebeu de que o que estava a dar era o Bairro Alto e ser vanguardista. E nesse momento chegou tudo: os bimbos, os normais, os betos.
Juro que até as putas da rua da Atalaia se puseram na alheta quando chegaram os betos! Pudera, com a quantidade de putas que de repente invadiu as ruas à caça de marido rido, a competição era desleal! Os velhinhos da aguardente e do futebol do Estádio acabaram por desaparecer também. Os preços das bebidas subiram exponencialmente. Em princípios dos anos 90, o Incógnito tornava-se um sítio fino com preços a condizer. O Kremlin começou a passar música de martelos, uma infecção chamada techno de que descendeu mais tarde o trance. E também o Sudoeste, antes bar de música de vanguarda e hoje coisa nenhuma. A Jukebox fechou e tornou-se num bar de betalhada e gajos de camisa às riscas e camisola às costas. Chegou também a xungaria, que abandonou as tardes de matinés e apareceu atrás das "gaijas". Agora, graças a nós, já era "bem" sair à noite. Os papás já deixavam. E assim, durou pouco, muito pouco, a descoberta selvagem antes da decadência turística.
Em menos de dois ou três anos, mataram o Bairro Alto vadio. Por essa altura eu já não perdia tempo a desdenhar rótulos e frequentava um bar do Estoril chamado KGB que não existiu durante muito tempo mas enquanto durou só passava música gótica. Cumprindo a profecia, sempre me tornei fan incondicional de Fields of the Nephilim. Foi no KGB que passei algumas das melhores noites a ouvi-los, e aos outros nomes do gótico do anos 80 que actualmente são clássicos mas naquele tempo eram o que acabava de sair da editora.
Conseguem imaginar? Uma máquina de fumo, figuras negras a dançar ou apenas sentadas por ali, sozinhos ou a conversar, nos rostos o mesmo desespero e melancolia adolescente que antes não saía dos quartos escuros mas ali se podia demonstrar sem medo dos olhares porque ninguém olhava, e por trás a voz poderosa de Carl McCoy:

you're tempting me to all of life
and all it's pleasure
take me to the dream
to the highs and the depths of my soul
here we free thoughts inside
giving up for giving time
but a world without end
where no soul can descend
there will be no sumertime
how lost life's been
afraid of waking up
so afraid to take the dream
shapes of angels the night casts
lie dead but dreaming
in my past
and they're here
they want to meet you
they want to play with you
so take the dream
can't break free and I hear them call
they want to plague you
they're here once more
they want to lay with you
they want to take you
to the shame of your past
take the dream
take me lead me far away
take me there I'll fade away
but I can't hide and I cannot die
I take the dream
we're but fools of our fate
on this earth I shall wait
by the roots of my soul
I am loosing control
take the dream
the sleepers in you
shapes of angels so deep within you
feel your soul drowning
unloosen your soul
drowning in waters of reality
tell me what is reality
tell me tell me thought of god
do dreams fall from god
tell me what dreams may come
break free thoughts all gone
we've all come down
take me there you're my ticket out of here
all come down
take me out of here
take me there


Fields Of The Nephilim, "Sumerland (What Dreams May Come)"

Às vezes também penso que foi um sonho.

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