segunda-feira, agosto 01, 2005

Mais um apontamento para os night owls

Muitas vezes, a dificuldade em adormecer deriva também de uma coisa chamada "performance stress". Aquilo que faz um cantor perder a voz quando sobe ao palco devido ao elevado nível de ansiedade. O que neste caso seria afonia histérica. Mas vocês percebem a ideia. Aconteceu-me várias vezes ter responsabilidades no dia seguinte a que não podia faltar de maneira nenhuma e o próprio peso dessa responsabilidade me manter acordada. Houve alturas, na faculdade, em que fui fazer exames sem dormir uma hora sequer com medo de adormecer e não acordar. Mas depois ia para casa e dormia, porque a missão estava cumprida... e eu estava exausta.

Esta nota é para reflexão das outras pessoas nocturnas que lêem este blog e para os médicos ignorantes que deviam saber estas coisas e não sabem e que deviam estar a ler este blog porque supostamente são especialistas mas aparentemente não têm tempo para ler porque estão muito ocupados a extorquir dinheiro a pessoas a quem não sabem ajudar.
(Aquele grande filho da puta!... Mas "a vingança é minha, diz o Senhor". Há quem pague em dinheiro, há quem pague em karma.)

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8 Comentários:

Blogger Goldmundo disse...

"Performance stress" é exactamente o que eu tenho. Há muito tempo que se tiver coisas inadiáveis para fazer antes das dez horas não adormeço (não me deito sequer). Associado a isso há, infelizmente, outro mecanismo, que é o de um sono induzido como "fuga": insónia até madrugada + sono pesado que resiste a uma bateria de despertadores.

Quanto aos médicos portugueses, inteiramente de acordo. E isso não se aplica a doenças "minoritárias". Os casos de cancro, por exemplo, são assustadores. Ai de quem não possa voar para Londres no primeiro dia. E são raríssimos os médicos que dizem isso. País estranho.

1/8/05 13:35  
Blogger gotika disse...

Quando aconteceu o meu caso com o neurologista especialista, desabafei com alguém que me parece que o país já esteve menos atrasado mas que o atraso se está a acentuar novamente em comparação com os avanços dos anos 90. Isso nota-se em todos os campos (lá está, a necessidade do choque tecnológico) mas é absolutamente mais grave que aconteça na saúde.
Afinal não temos choque tecnológico mas temos tratamento de choque.
Por falar nisso, o neurologista especialista falou-me em tratamento de choque para casos de psicose. Eu apenas levantei uma sobrancelha e pensei "e lobotomiazinha, não vai?".

2/8/05 01:20  
Blogger Goldmundo disse...

Gotika, duas coisas. Primeiro: a medicina é uma ciência que implica actualização (estudo) diários. O estudo diário implica, por sua vez, ou uma mentalidade germânica/protestante de "dever" ou... gostar daquilo que se faz. Desconfio que com a "subida" das notas de acesso, etc - isto é, a partir do momento em que para entrares em medicina tens de ter vinte valores em tudo - esses dois grupos foram afastados por um novo tipo de gente.

No geral tambéma acho que há um problema na formação científica dos licenciados - essencialmente, na forma de raciocinar e pesquisar. Aí sou absolutamente reaccionário. O que acho que aconteceu foi o seguinte: até 1960 o "professor" era tipicamnte o "velho sábio" isolado. A sua cultura de base era uma mistura de cultura geral com cultura clássica (o tempo dos médicos-escritores, dpos matemáticos-historiadores, etc). Nos anos 60, esses pacatos senhores foram submergidos por uma vaga de adolescentes que debitavam coisas sobre marx, freud, sartre e amigos, com conversas sobre "superestruturas", "relações de classe" e "epistemologias dinâmicas". Isto ainda antes do 25 de Abril. Com a revolução, as "grelhas de interpretação" da realidade fornecidas pelas "ideologias" deram pano para mangas: a faculdade de economia do Porto - na altura, a única do país - teve até meados dos anos 80 uma maioria absoluta de professores e alunos da área que actualmente corresponde ao "Bloco"; as faculdades de letras (História, por exemplo) discutiam a aplicação da "luta de classes" ao Paleolítico. A ligação com a "base cultural" anterior quebrou-se completamente.

Quando a revolução cultural acalma (digamos, o período Cavaquista) o mundo estava diferente: a internet começava; o domínio americano era completo, mesmo nas "letras". Não dominar o inglês era impensável.

A transição não foi feita, como não foi feito tudo o mais.

Há uns anos, um amigo meu tinha a mãe com uma doença degenerativa. Ele desconfiou que fosse Alzheimer. O médico negava, dizia "os sintomas não são esses". O meu amigo passou uma noite na internet e levou centenas de páginas americanas com descriçõe detalhadas de sintomas. O médico não lia suficientemente bem o inglês. Era Alzheimer, sim.

Maré negra.

2/8/05 16:43  
Blogger gotika disse...

"O médico não lia suficientemente bem o inglês."

Acredito plenamente.
Também acho que é defeito da formação que eles têm. Podem ter 20 a tudo mas as matérias a que têm vinte não lhes servem para a profissão.
São pessoas capazes de decorar uma lista telefónica. Se viste o "Rainman" (em portugês, "Encontro de Irmãos") sabes que isso não serve de muito...
Eu acho que também consigo decorar uma lista telefónica. Mas tenho mais que fazer.
Desconfio de pessoas que não têm mais que fazer do que decorar listas telefónicas, principalmente numa altura tão socialmente excitante da vida como a adolescência.
Vou evitar médicos formados a partir dos anos 80.

Quanto à tua análise dos professores, posso dizer com certeza que não percebo do que falas porque a minha área é diferente e os temas abordados nem raiavam o que dizes... Estranho.

2/8/05 22:46  
Blogger Glass Rose disse...

Bem, eu concordo convosco em alguns aspectos, infelizmente. A diferença é que eu vejo a situação de dentro. Estou no primeiro ano de medicina e não, não consigo decorar a lista telefónica. Pelo contrário, chumbei redondamente a anatomia, disciplina que odeio visceralmente e cujo livro pode ser comparado a uma lista telefonica. No entanto tive das melhores notas a outras cadeiras que exigem mt raciocínio em que geralmente a taxa de reprovação é enorme (quimica, por exemplo).
O ensino está mal, está. Não desenvolve as competências que eu considero necessárias para exercer bem a profissão. A maioria dos alunos tem uma atitude conformista, não questionam coisa alguma. É o espirito critico que falta desenvolver ali. Eu vejo pelos meu colegas. É triste, devo dize-lo, num ano inteiro não consegui ter uma conversa inteligente com nunhum deles. Têm menos cultura que o meu irmao de 15 anos.
Desde os meus 14 anos que quero ser psiquiatra. Ainda hesitei se seguiria psicologia ou medicina, mas optei pela segunda. Não sei até que ponto fiz bem.
Uma coisa que me irrita nos estudantes de medicina é esta obsessão em manter a distância. Como se fossem obrigados a não sentir,a não se envolver minimamente, e isso caracteriza um bom médico.
Não consigo conceber tal coisa. Eu não sou assim e nao seria assim nem que quizesse (e não quero).
Se calhar tou no curso errado...

Já agora, eu também tenho dificuldade em adormecer. Tal como disse o goldmundo, fico acordada até altas horas e adormeço profundamente de manhã...
O último exame que fiz passei a noite em claro. E nao estava nervosa...n sei pq nao consigo dormir.
Noto esta situação piorar com o passar do tempo.

3/8/05 20:16  
Blogger gotika disse...

Estou contente por finalmente encontrar uma médica que vai tratar de MIM! :D
Que tal uma tesezinha em DSPS? Só fazia bem.

5/8/05 03:16  
Blogger gotika disse...

Já para não dizer que deve ser a primeira! Não dão notas pela originalidade? Ou o factor originalidade não conta em medicina? Peço desculpa pela ideia que faço dos médicos, mas tenho para mim que originalidade e criatividade não contam na Faculdade de Medicina, e há uma alergia à palavra "novidade". Dá muito trabalho a estudar. "Novidade" é para os jornalistas.
Errado. Ser médico é passar a vida toda a estudar. E no caso ds médicos, nem se podem queixar que os estudos não valem a pena, ao contrário de muito boa gente que tirou cursos tão ou mais difíceis e anda aí nos call centers a fazer pela vida.
Anatomia é giro. Acredita. Sei que não é muito entusiasmante para uma futura psiquiatra, mas eu também tive de fazer duas cadeiras de matemática e também não gostei. (E não me serve para nada. Pelo menos anatomia serve para qualquer coisa.)

5/8/05 03:21  
Blogger Goldmundo disse...

A matemática aparece nos sítios mais inesperados, não é? É um pouco estranho. Acho que está aí - bem como no "português" - o maior equívoco dos programas de ensino.

6/8/05 12:57  

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