domingo, 24 de abril de 2022

The Green Inferno / Inferno Canibal (2013)

[contém spoilers, conteúdo chocante]

O nome diz tudo. Um grupo de estudantes activistas parte para a Amazónia peruana para salvar a floresta e acabam comidos por índios canibais. Basta dizer que o realizador é Eli Roth, o mesmo de “Hostel”, para se ter uma ideia do nível de sangue e tripas que se pode esperar disto. É chocante, mas quem assiste a “The Walking Dead” está mais do que habituado a ver gente comida viva. As outras pessoas não devem ver isto de maneira nenhuma.
Se o filme fosse só isto, um filme de terror com muito gore para chocar e causar repulsa, se calhar a crítica ficava por aqui ou nem havia crítica. Mas depois o filme mete-se em questões éticas bizarras, armado em filme sério, e espalha-se completamente ao comprido.
Por onde começar? Estes activistas querem salvar a floresta porque várias companhias petrolíferas descobriram gás no subsolo e preparam-se para arrasar tanto a floresta como uma aldeia indígena sem contacto com a civilização. O plano das companhias petrolíferas é ir lá e matar os índios todos. Bem, as coisas não se passam assim. As companhias petrolíferas falam com os governos e são os próprios governos que lá vão desalojar os índios. A premissa de que estes índios nunca tiveram contacto com a civilização também me parece completamente absurda. No século XXI até os índios da Amazónia têm um smartphone e podem muito bem estar a ler este artigo. Os “índios peruanos” aqui retratados vivem numa suposta “bolha” isolada, mas por outro lado estão a par dos mercenários das companhias petrolíferas que os querem eliminar. Então, em que ficamos? Têm contacto com a civilização ou não têm?
A tribo não é apenas canibal como também extremamente sádica. Aqui vai um spoiler, mas tem de ser. Não se limitam a matar a primeira vítima (o activista mais gordinho, claro). Primeiro arrancam-lhe um olho, depois o outro. Depois a língua. Depois cortam-lhe uma perna, depois a outra. Depois um braço, depois o outro. Só por último lhe cortam a cabeça, enquanto o desgraçado ainda está consciente. O torso, qual peito de peru gigante, vai então ao forno para assar. Os outros activistas assistem a tudo, presos numa gaiola igual à das galinhas e dos porcos. (Eu disse que não é para toda a gente. Por outro lado, talvez muita gente veja isto e se torne vegetariano, e o filme já terá servido para alguma coisa.) Toda a aldeia está decorada com cabeças cortadas e partes de corpos em decomposição, supostamente todos os estranhos que a tribo consegue capturar. Mais tarde até somos informados de que os mercenários sabem disto, o que significa que o governo também sabe. Melhor desculpa para acabar com esta tribo, seja de que maneira for? Não estamos nos séculos de obscuridade. Até as ditaduras são regimes de lei e ordem. Os índios são cidadãos do país a que pertencem, não vivem à margem da lei. Assassinos e criminosos vão para a cadeia, não se deixam à solta. As crianças são tiradas aos pais. Não havia qualquer necessidade de agir furtivamente, com mercenários e tudo. Bastava ir lá a polícia. Qual multiculturalismo qual caraças. Assassinos não têm direito a multiculturalismo. Neste aspecto, o contexto de “Hostel” é muito mais credível, tendo em conta que as máfias de Leste traficam pessoas para fins vários. Neste filme, o contexto é implausível. Mais valia terem usado a ideia das companhias petrolíferas como desculpa para os activistas irem para a selva, e nunca mais falarem do assunto. Que fosse apenas um filme de terror, sem ambições de pensar muito.
O fim é completamente ridículo. Alguém sobrevive (não vou dizer quem), e em vez de denunciar como todos os outros foram massacrados, pelo contrário, diz que os índios são amigáveis e que os trataram muito bem. Momento WTF?!
Então eu explico: a alminha acha que para salvar a floresta é preciso gerar empatia para com os índios (estes mesmos índios). O que é um momento em que o dito cujo não tem nada a ver com as calças. Como diria o outro, uma coisa é uma coisa. Proteger selvagens canibais é outra coisa completamente diferente. Acabei o filme a pensar: mas o que é que eu acabei de ver, qual é o argumento que o realizador quer estabelecer? Porque isto não tem pés nem cabeça (o que é consentâneo, afinal, com o conteúdo canibal). Há pessoas que deviam dedicar-se ao que fazem bem, porno-tortura, e não se meterem em coisas que não percebem. Tudo isto foi tão completamente estúpido que não posso dar mais do que a nota abaixo. Não recomendo este filme a ninguém, nem aos amantes da porno-tortura, não por causa dos canibais, mas por causa da estupidez. Por outro lado, este é daqueles filmes que convém ver para não nos esquecermos do que é um filme mau, muito mau.

10 em 20 (nota meramente técnica, o resto não vale nada)

 

domingo, 17 de abril de 2022

Day of the Dead (2021 - ?)

Admito que sou doidinha por ver o início de um apocalipse zombie. As primeiras suspeitas, nunca levadas a sério quando são relatadas. O primeiro zombie, em “Fear the Walking Dead”, a avançar direito a uma bonita casa suburbana pelo caminho entre os relvados impecáveis. Rick Grimes a sair do hospital e a encontrar uma menina zombie com uma boneca ainda na mão. A confusão das autoridades, sem saberem o que fazer. Por fim, o desagregar da sociedade que “Fear the Walking Dead” nos prometeu mas não cumpriu o suficiente.
Depois desta fase inicial os sobreviventes aprendem a viver com os zombies, aprendem a evitá-los e matá-los, e cai tudo numa rotina que raramente passa do mesmo. “Day of the Dead” é uma série despretensiosa do canal SyFy que retrata o primeiro dia da invasão zombie. Infelizmente, as críticas arrasaram a série, no meu entender injustamente. Em grande parte porque usa o título homónimo do filme de George A. Romero, o que, concordo, não era necessário.
Toda a acção se passa no mesmo dia, numa pequena cidade americana em que há eleições para decidir quem será o novo Mayor e em que se prepara um casamento. Um dia normal como todos os outros. Mas, entretanto, uma companhia de extracção de gás faz uma determinada perfuração que encontra algo estranho: um homem (zombie) atado no fundo de uma gruta que nunca devia ter sido aberta. Alguém chama um detective incauto, que é mordido. Começa a infestação.
Mas estes zombies não são os mesmos de “The Walking Dead”. Não morrem com uma bala na cabeça, não morrem com coisa nenhuma. Só se pode rebentá-los com explosivos, prendê-los ou atrasá-los com tiros nos joelhos. Outra coisa interessante: alguns dos zombies mais “frescos” retêm algo das memórias de quem são/foram, o que não se vê muitas vezes. E os zombies mais frescos não se arrastam; correm. Os habitantes da pequena cidade oscilam entre a incredulidade e o terror.
Este não é um dramalhão como “The Walking Dead”, mas tem drama que baste. Os dez episódios permitem explorar e desenvolver as personagens, inclusive os vilões, que se movem naquela área cinzenta em que lhes conseguimos compreender as razões. Os momentos de humor são mesmo engraçados e inesperados, mas sem abusar. Há mortes com fartura, algumas bastante violentas, mas a série não quis entrar demasiado por aí. Esta é uma série em que, mais do que mortos a comer os vivos, os vivos se tentam organizar para derrotar os mortos, o que não vai ser fácil, porque para conseguirem unir-se nessa causa comum têm de esquecer os conflitos que a pequena cidade foi acumulando ao longo dos anos.
“Day of the Dead” entretém bastante e tem momentos de verdadeiro terror, especialmente no princípio, quando ainda ninguém acredita nos zombies. Quanto a estes, não são, de longe, tão bons como os de Nicotero, mas também estão bem caracterizados e são convincentes.
Não posso concordar com as críticas negativas e aconselho a toda a gente que gosta de zombies, com um drama à mistura que não pretende traumatizar-nos para toda a vida. Mesmo assim, é duvidoso que a série seja renovada, apesar de lançar as bases para isso a uma escala maior. De certa forma, tenho pena. Gostava de ver mais. Mas se era para pior (e nestes casos quase sempre é) mais vale ficar por aqui.


terça-feira, 12 de abril de 2022

Gothzilla - um caso sério

Admito que da primeira vez que ouvi o nome Gothzilla pensei que era uma banda de paródia ou que estavam a brincar comigo. Nada mais injusto. É certo que o nome é cómico, e a banda ficaria mais bem servida com outra versão de The Blackest Darkness of the Bottomless Pit of Doom, mas esta malta tem sentido de humor. Gothzilla vende o que apregoa: gótico puro e duro. “Today Is A Good Day To Die” (álbum de estreia “Catharsis”) foi amor à primeira audição. Do mesmo álbum, “Tightwire” e “Temple Of Sound” bastaram-me uma audição ou duas. Desconhecia completamente esta banda escocesa, que apesar do nome leva o rock gótico muito a sério, e procurei a discografia toda. Do segundo álbum, “The Dark Is Rising”, destaco o tema “Edge Of Forever”, e do terceiro, “Auras”, saliento “The Unknown”. Mas o meu tema preferido é sem dúvida “Ilaria”, em que a voz feminina vem dar aquele tom etéreo que tanto mais me agrada quão mais pesada é a composição.
Se tenho algo a apontar à banda é que por vezes resvala um pouco demais (para o meu gosto) para um registo mais metálico a lembrar Paradise Lost. Nunca é uma crítica comparar alguém a Paradise Lost, mas por mim não resvalava nesse sentido.
Com uma obra já significativa, estes escoceses provam que é possível inovar no rock gótico com boas letras e melodias cativantes, originais, sem copiar ninguém.
Gothzilla foi uma banda que me apanhou de surpresa e que merece ser descoberta com urgência.

Para ouvir (e comprar) aqui:
gothzilla.bandcamp.com


domingo, 10 de abril de 2022

Pedro e Inês (2018)

“Pedro e Inês”, adaptação do romance de Rosa Lobato Faria “A Trança de Inês”, retrata a lendária paixão de D. Pedro e D. Inês de Castro (ou melhor, do mesmo Pedro e da mesma Inês) em três momentos temporais distintos: o século XIV, quando tudo aconteceu, o presente, e uma sociedade distópica que tanto pode ser o presente como o futuro, mas que me cheirou fortemente a África ou América do Sul e aos cultos tipo Jim Jones.
Em todos estes universos a paixão proibida de Pedro e Inês repete-se de maneiras diferentes, transmitindo um fatalismo trágico que os apaixonados não conseguem superar em nenhuma das três “vidas” distintas. Terá sido uma alusão a uma relação kármica tão forte que nem a reencarnação a consegue resolver? Ficará a cargo do misticismo de cada um.
Gostei principalmente da reconstrução histórica no séc. XIV, muito embora toda aquela cena tétrica tão bem nossa conhecida, o desenterrar de Inês e a sua coroação e beija-mão post-mortem, segundo alguns historiadores, nunca terá acontecido. Terá sido uma lenda fabricada em narrativas espanholas a partir do séc. XVI. A lenda sobreviveu porque queremos acreditar nela, porque é romântica, trágica e chocante, digna de uma “Guerra dos Tronos” se se escrevesse Fantasia Grim Dark na altura.
Por falar nesta cena, é de todas a mais artística do filme. Enquanto D. Pedro imagina uma Inês adormecida e bela, toda a corte a vê como o cadáver apodrecido que realmente está sentado no trono.
Gostei, sinceramente, dos monólogos do Pedro da nossa época enquanto internado no hospital psiquiátrico. Acreditem ou não, as palavras de Rosa Lobato Faria soam-me a Mão Morta no melhor da poesia de Adolfo Luxúria Canibal. Só por isso já vale a pena ver o filme, que recomendo vivamente.

O problema crónico do som
Este filme sofre do mesmo problema que já apontei aqui em “Perdidos”. Ora o som está muito alto (quando há música) ou está muito baixo (nos diálogos). Estive eu a fazer o papel de Normalizer, com o comando na mão, ora levantando o som, ora baixando, até quase ficar com uma tendinite. Amiguinhos, eis o conselho de uma amadora destas coisas dos Editores de Som: existe um efeito, chamado Normalizer, que coloca o som dentro de parâmetros inferiores e superiores. É só usar! Se a mancha de som estiver muito larga, é porque o som está muito alto; se a mancha estiver estreita, é porque está muito baixo.
Vão dizer-me que é um efeito propositado e uma opção estética. Estética uma ova; inestética e irritante, isso sim. Os únicos filmes que utilizam esta técnica de propósito são os filmes de terror que usam o som para pregar sustos, e isto são os filmes maus! Escutem os bons filmes e digam-me lá se o espectador precisa de andar a fazer de Normalizer com o comando!
Felizmente, a narração de Pedro está no volume ideal, o que salva esta desgraça sonora. A narração de Pedro é mesmo o melhor do filme.

(14 em 20, que podia ter sido mais, mas o problema do som foi irritante e amador e arrancou-me demasiadas vezes ao filme)


domingo, 3 de abril de 2022

The Girl in the Spider's Web / A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha (2018)


O título em português está errado: não é a rapariga que é apanhada na teia de aranha, é a rapariga que se mete na teia de aranha. Lisbeth Salander, hacker e justiceira, gosta de se meter em sarilhos. Este filme é um sucedâneo da saga de romances e filmes de que aqui falei na mini-série “Millennium 1 - Os homens que odeiam as mulheres” (2010). Perdi os restantes, mas parece que não perdi grande coisa.
A história é mínima: Salander tem de roubar um programa chamado Firefall, capaz de controlar todas as armas nucleares do mundo, a pedido do próprio ex-empregado da NSA que o criou, quando este percebe que fazer um programa tão perigoso não foi boa ideia. Lisbeth consegue roubar o programa, mas imediatamente começa a ser perseguida por um grupo de terroristas/criminosos sem escrúpulos. Basicamente, um filme de acção.
O que o distingue dos típicos filmes de acção é uma quantidade pornográfica (o adjectivo não é inocente) de sexualidade hardcore, quando não envolve mesmo sadismo e pedofilia. Ou seja, filme de acção com sexo pesado, gratuito, e perversões de pôr os cabelos em pé.
Lisbeth Salander já não é uma pessoa, é uma super-heroína. Uma das críticas que li comparava o filme aos típicos James Bond, para terem uma ideia. E Lisbeth, além de inteligente, tem uma sorte do caraças, é preciso dizê-lo.
Quando o grupo criminoso lhe invade o apartamento, Lisbeth tem uma sala de pânico preparada onde se esconder. Quando os assaltantes lhe explodem o apartamento, por sorte, Lisbeth estava num banho de imersão e consegue escapar às chamas dentro da água da banheira (que devia ter fervido, tendo em conta a explosão que foi, mas adiante…).
A fugir à polícia que acorre ao acontecimento, de mota, Lisbeth é encurralada e tem de saltar de uma ponte para o rio. Mas não há azar, porque é a Suécia e o rio está congelado. Sem derrapar nem nada, desaparece com a mota depois de atravessar o rio.
Mas o momento mais sortudo é quando os criminosos conseguem finalmente apanhá-la e drogá-la com uma dose letal de sedativo (?). Lisbeth está numa casa de banho do apartamento de um pai e filho pequeno. A última coisa que consegue fazer é alcançar um cesto em cima do lavatório, de onde convenientemente salta um tubo de anfetaminas que ela imediatamente toma para combater o efeito do sedativo, sobrevivendo assim, e em tão boas condições que minutos depois já está a conduzir, em perseguição do carro dos maus. Ora bem, porque toda a gente tem tubos de anfetaminas receitadas pelo médico, e toda a gente as deixa à mão de semear em cima do lavatório, especialmente quando se tem miúdos pequenos. Não é o que toda a gente faz? É claro que ela sabia que ia encontrar ali anfetaminas que a safassem, ao lado da pasta de dentes, que é onde se põem as anfetaminas para estarem mesmo a jeito.
A partir daqui o filme perdeu toda a seriedade para mim e desatei a rir para dentro, porque nem sequer é engraçado para rir para fora.
Só quero falar ainda da vilã. O outro tinha razão, porque é uma vilã mesmo à James Bond. Por exemplo, anda sempre vestida de vermelho, como o Diabo, para a gente perceber bem que ela é má. Tentar assassinar a irmã não chega.
Enfim, que dizer? É um filme muito mau, com uma história fraquinha e diálogos “martelados” à força, em que ninguém parece um ser humano. Mais disto não, obrigada. Pena, porque a mini-série “Millennium 1 - Os homens que odeiam as mulheres” é muito boa e diferente dos clichés de Hollywood. A rapariga que se mete na teia de aranha só tem o que merece.

(12 em 20, porque adorei o luxo daqueles apartamentos suecos, espaçosos, aquecidos e mobilados com o minimalismo da IKEA)

domingo, 27 de março de 2022

Godzilla (1998)

Quando estava a escrever recentemente sobre “Godzilla” (2014), li algumas críticas de ódio sobre a versão de 1998. Sinceramente, não me lembrava de o filme ser assim tão mau, e, como por acaso este anda a passar novamente num dos canais que frequento, decidi ver outra vez.
De facto, tendo em conta os efeitos especiais à época, o filme não é assim tão mau. É verdade que mete muitas cenas à “Aliens” e à “Jurassic Park” (na altura toda a gente queria mostrar que sabia fazer dinossauros), e que tem muito de “o herói salva-se sempre”, mas comparando este último cliché com o verdadeiro abuso do filme de 2014, o de 1998 até escapa melhor.
No filme de 1998, Godzilla, ou melhor, Gojra (o seu nome japonês), é uma espécie de dinossauro gigante e assexuado que pode pôr ovos sem precisar de parceiro. Eu acho que Godzilla é uma fêmea. Porque só pode ser uma fêmea! É tão óbvio.
Continuo a dizer que o bichinho não tem culpa de ser grande e pisar arranha-céus. Qual é a reacção das pessoas quando descobrem este primeiro exemplar de uma espécie nova? Matar, matar, matar! Nem sequer há uma tentativa de compreender. Incomoda-nos, mata-se. O filme de 2014 é igual. Nos dois, estou a torcer pelo bichinho. Não é que não compreenda que Godzilla seria de facto uma ameaça considerável à segurança das pessoas. É que Godzilla representa ela própria a consequência dos ataques egoístas à Natureza (neste caso, os testes nucleares) e, ao mesmo tempo, todas as espécies vítimas da arrogância humana perante o planeta.
“Godzilla” de 1998 ainda se vê muito bem e não é tão mau como o pintaram.

13 em 20


domingo, 20 de março de 2022

The Incredible Tide, de Alexander Key


Admito que fui à procura deste livro assim que descobri que foi a base de inspiração dos desenhos animados “Conan, o rapaz do futuro”, tão queridos da minha infância. Não fiquei desapontada. Se os desenhos animados estão cheios de exagero, de infantilidades, de super-poderes, “The Incredible Tide” é uma história realista e adulta, entre o mundo pós-apocalíptico, a ficção científica e a distopia.
Conan é realmente um rapaz do futuro, mas um rapaz muito mais vulnerável do que aquele que conhecemos. A Terceira Guerra Mundial aconteceu. Ambos os lados beligerantes insistiram em usar armas magnéticas para destruir as cúpulas magnéticas que protegiam as cidades de ataques, ignorando os avisos do Professor Briac Roa. (O livro foi publicado em 1970, em plena guerra fria; de certeza o autor queria referir-se às armas nucleares.) O que conseguiram com o uso das armas magnéticas foi a inversão dos pólos da Terra (como no filme “2012”), destruindo o planeta. Os poucos sobreviventes a esta gigantesca tsunami (o mar que cobriu os continentes) são aqueles que conseguiram refugiar-se em picos elevados.
Conan, ainda muito jovem, vai dar a um destes refúgios, sozinho, sem utensílios. Para sobreviver tem de construir tudo pela força braçal. Alguns anos depois é de facto um adolescente forte, mas devido ao esforço físico que a própria sobrevivência lhe exigiu.
No pós-guerra, um poder assume-se, intitulado a New Order, que tem como sede a cidade de Industria e procura incessantemente o Professor Briac Roa, o último cientista capaz de produzir a energia de que Industria precisa desesperadamente. Esta New Order é tão tirânica como se podia esperar de um regime único num mundo apocalíptico e o Professor faz tudo para lhes fugir.
Entretanto, Conan é “resgatado”, ou melhor, capturado, e levado para Industria onde, para sua surpresa, encontra o Professor disfarçado debaixo dos narizes da New Order sem que ninguém desconfie.
O Professor tem planos de se reunir à sua família, noutro refúgio chamado High Harbor. É aqui que entra outra das melhores personagens, a sua neta Lana. Lana conseguiu desenvolver uma espécie de comunicação telepática com os animais, especialmente com os pássaros. O Professor e a filha dele, por outro lado, conseguem comunicar telepaticamente um com o outro.
Juntos, num barco construído pelo Professor, atravessando oceanos tão novos como desconhecidos, e perante uma estranha ameaça climática chamada a “época dos nevoeiros”, Conan e o Professor vivem a aventura de chegar a High Harbor perseguidos pela New Order e por outro perigo iminente. Acontece que a cidade de Industria está sobre uma falha tectónica e não tarda a cair para o mar, o que vai provocar uma tsunami gigantesca. Conan e o Professor têm de chegar a terra antes dela.
Eu estava realmente a gostar até chegarmos ao fim: o fim é tão abrupto que me perguntei se a minha edição estava completa. Mas parece que sim, está mesmo completa, e o final não faz justiça ao resto. Mesmo assim, uma boa leitura para quem gosta de aventura, ficção científica, distopia e mundos pós-apocalípticos.

“Conan, o rapaz do futuro”


Não podia acabar sem falar do desenho animado que me levou a ler “The Incredible Tide”. É claro que não esperava o mesmo, mas comparativamente fiquei desiludida. O papel de Lana é muito mais extenso no desenho animado de Hayao Miyazaki. Senti também a falta de Monsley, personagem de “Conan” que não entra no livro. Acontece que Monsley era a minha personagem preferida, o meu primeiro contacto com uma vilã “cinzenta”, como se diz agora. Monsley trabalha para Industria e persegue Conan e os amigos. Extremamente traumatizada pela tsunami a que sobreviveu quando era criança, tem momentos de vulnerabilidade que a tornam empática. Recordo perfeitamente a cena fulcral em que a tsunami se aproxima e Monsley fica paralisada. Conan, que tem à disposição um submarino para escapar à onda assassina, arrisca a vida para sair do submarino, pega nela ao colo e leva-a para segurança, o que inicia uma nova dinâmica entre Monsley e os heróis. A personagem mais parecida, no livro, é Doctor Manski, uma pesquisadora completamente devotada à New Order que abre os olhos quando percebe que o regime que serve não é inteiramente benévolo. Mas Manski não tem a profundidade de uma Monsley, na minha opinião a melhor adição que “Conan, o rapaz do futuro” fez à história original.
Apesar de tudo isto, gostei de rever estas personagens de infância, se bem que em versão adulta e num livro muito sério. Aconselho a todos os fãs de “Conan, o rapaz do futuro”, e aos outros também.


domingo, 13 de março de 2022

Brightburn / Brightburn – O Filho do Mal (2019)


E se o Clark Kent/Super-Homem fosse do Mal? Parece ser esta a premissa de “Brightburn”, nome de uma pequena localidade atingida por um meteorito. Um casal que vive ali perto assiste à queda. Acontece que este casal andava há muito tempo a tentar ter filhos sem o conseguir. Qual não é a surpresa deles quando dentro do meteorito está uma nave espacial, e dentro desta um bebé!
Que desculpa arranjaram para dizer que foi uma adopção, não se vê. Assistimos aos primeiros anos de infância do miúdo, aparentemente tão normal e amoroso como todos os outros.
Mas, ao chegar à puberdade, algo muda. Em sonhos, o miúdo começa a falar uma língua alienígena e é guiado, como sonâmbulo, à nave que os pais adoptivos têm escondida numa cave no celeiro. Primeiro, o miúdo descobre que tem uma força sobre-humana. Os outros super-poderes vai desenvolvendo depois. E são os super-poderes do Super-Homem, só que o miúdo é mau como as cobras e não tem uma pinga de empatia. Tal como na história do Super-Homem, só há uma “kriptonite” capaz de o ferir: o material de que é feita a nave que o trouxe à Terra.
A certa altura os próprios pais adoptivos se apercebem de que trouxeram o Mal para casa, e a mãe até descobre que apenas o metal da nave espacial vai conseguir deter este psicopata, mas irão a tempo?
A premissa é interessante e faz um filme de terror como deve ser, embora me lembre muito “The Omen”, versão Super-Homem. Achei que os pais adoptivos se voltaram muito depressa contra o filho, especialmente o pai. A mãe foi a última a abrir os olhos (como costuma acontecer), mas também já estava de pé atrás. Para pais desesperados que queriam tanto ter um filho e que amavam mesmo o miúdo como se fosse deles, podiam ter continuado em negação mais um bocadinho e dado mais luta às evidências. Não é todos os dias que se acredita que a nossa criança amorosa é um monstro.
O filme deixa tudo em aberto para uma sequela, como já é típico.
Gostei, apesar dos clichés, e os amantes de terror não vão sair daqui desapontados. Mas, advirto, muito do filme vai parecer déjà vu para quem já viu imensos filmes idênticos.

(13 em 20, mais pela originalidade da premissa do que por outra coisa)


domingo, 6 de março de 2022

The Dark Mirror, de Juliet Marillier

E se o rei Arthur e Morgan le Fey não tivessem sido meio-irmãos? E se uma história de amor entre os dois não fosse impossível? Foi esta a premissa que me lembrou esta história, quer tenha sido feito de modo consciente ou inconsciente.
“The Dark Mirror” é o primeiro livro da trilogia The Bridei Chronicles. Bridei, filho segundo de um rei, é enviado ainda criança para casa do druida Broichan, conselheiro do rei de Fortriu, para ser educado por este como seu filho adoptivo. Bridei é instruído em todos os tipos de conhecimento, mas sente que algo lhe falta. Quando, numa noite enluarada de Solstício de inverno, é colocada à porta do druida uma estranha trouxa com uma bebé, Bridei recolhe-a e sente que é seu dever cuidar da menina, um presente da deusa Shining One (a Lua). Bridei percebe imediatamente que Tuala (como ele lhe chama, e que significa “princesa”) não é humana, que veio dos Good Folk, mas isso não o dissuade. Os leitores da trilogia Sevenwaters recordarão esta espécie misteriosa pelo nome de Fair Folk, e que nem sempre são de fiar. O mesmo pensa o druida Broichan, que faz todos os possíveis para separar Bridei e Tuala à medida que ambos vão crescendo.
Sem que Bridei saiba, Broichan faz parte de um conselho secreto que pretende prepará-lo para ser o novo rei quando o actual falecer sem deixar descendência. Bridei tem de se afirmar como homem de pensamento e como guerreiro, e no entender de Broichan não há lugar para Tuala, uma rapariga dos Good Folk, na vida do filho adoptivo. O que se torna complicado quando, já ambos em idade casadoira, Bridei e Tuala se apaixonam… À medida que são afastados, e que Bridei é cada vez mais conduzido para o cerne das intrigas políticas, Tuala sente-se tentada a voltar para a sua espécie, os Good Folk, recordando o momento em que Morgana de Avalon procura refúgio entre as fadas. Quem vencerá? Broichan e a ambição, ou o amor dos dois apaixonados?
Devo dizer que estou cada vez mais impressionada com a evolução na escrita da autora. Se critiquei bastante o primeiro livro, “Daughter of the Forest”, aqui quase não encontro nada para criticar. Bem, talvez uma coisinha. Apesar de Bridei e Tuala serem instruídos e precoces, achei que falavam demasiado como dois adultos em vez de se expressarem como as crianças que eram ainda. Não é que a autora não saiba fazer diálogos de crianças. Uma das passagens mais engraçadas é quando dois miúdos dão cabo da paciência a Tuala:
“Porque é que tens a pele tão branca?”
“És uma bruxa?”
“Consegues transformar-me numa lagartixa?”
É assim que as crianças se expressam, inocentemente e sem rodeios, e isto não quer dizer que não consigam falar de coisas muito sérias. Simplesmente achei que Bridei e Tuala podiam ter falado assim enquanto eram crianças.
“The Dark Mirror” não é muito bom para leitores impacientes. O começo é lento, talvez demasiado lento para quem quer acção logo nas primeiras páginas. As coisas só começam a “aquecer” lá pelo segundo terço da história. Mas vale muito a pena esperar e confiar na autora. Algo que me esqueci de referir quando fiz a crítica à trilogia Sevenwaters, e que deve ser o meu aspecto preferido da obra de Marillier, é que podemos contar sempre com um ou mais momentos perturbadores, daqueles que nos gelam a espinha. Aqui não é excepção, e não vou sequer dizer do que se trata para não criar spoilers na parte mais tensa do livro. São elementos tão pesados que podiam bem figurar numa história de terror. Isto pode não agradar a toda a gente que lê Fantasia Romântica, mas a mim delicia certamente. Se Marillier me conquistou, foi especialmente por aqui.
É preciso também ter em conta que o enredo de “The Dark Mirror” é bastante complexo. Se a trilogia Sevenwaters se passa entre meia dúzia de personagens, aqui temos uma ou várias cortes para memorizar, fora os diversos locais onde se passa a acção, com muitas personagens, vários reis e rainhas e princesas e outros nobres e homens de armas importantes, já para não falar nos druidas e sacerdotisas. Até um padre aparece na história, o primeiro que encontro em Marillier. É mesmo muita gente. Cabe ao leitor ter atenção para perceber quais são os personagens verdadeiramente importantes e agarrar-se a eles para não perder o fio à meada. Marillier faz bem o seu trabalho ao apresentar-nos cada um de sua vez, como deve ser.
O fim surpreendeu-me, confesso. Estava à espera de um cliffhanger. Estou demasiado habituada às séries de televisão, pelos vistos. O final foi satisfatório, embora se adivinhe que a história ainda só começou. Mal posso esperar para ler o resto.


domingo, 27 de fevereiro de 2022

The Golem / A Lenda de Golem (2018)

No século XVII, uma pequena aldeia judaica, isolada e auto-suficiente, escapa a um surto de peste. Os vizinhos acusam os judeus de causarem a peste com “feitiços”. Um dos lordes da região, com uma filha às portas da morte, ameaça-os de que os matará todos se não lhe curarem a filha.
Hanna, uma das mulheres da aldeia que estuda a Cabala em segredo, conjura um Golem do pó da terra com o objectivo de este os proteger. É um mito do judaísmo que a Cabala conteria o segredo com que Deus criou Adão do barro. O que o Golem não possui, no entanto, é uma alma, e só obedece à ama que o criou.
A princípio o plano resulta. O Golem conjurado tem uma aparência de rapazinho como o filho de Hanna que morreu nessa idade. E é tão mortífero que consegue manter a aldeia em segurança da ameaça. Mas depressa o Golem se vira também contra todos os que fazem Hanna sofrer, quer ela queira quer não.
Avisada para destruir a criatura, Hanna forma com ele um laço maternal tão forte que tudo acaba por ir longe demais.
Mais do que um filme de terror, eu diria que “A Lenda de Golem” é um drama interessante com elementos fantásticos, ou lendários, do folclore judaico, e uma pitada do mito de Frankenstein: não cabe ao Homem fazer de Deus.

15 em 20