domingo, 6 de março de 2022

The Dark Mirror, de Juliet Marillier

E se o rei Arthur e Morgan le Fey não tivessem sido meio-irmãos? E se uma história de amor entre os dois não fosse impossível? Foi esta a premissa que me lembrou esta história, quer tenha sido feito de modo consciente ou inconsciente.
“The Dark Mirror” é o primeiro livro da trilogia The Bridei Chronicles. Bridei, filho segundo de um rei, é enviado ainda criança para casa do druida Broichan, conselheiro do rei de Fortriu, para ser educado por este como seu filho adoptivo. Bridei é instruído em todos os tipos de conhecimento, mas sente que algo lhe falta. Quando, numa noite enluarada de Solstício de inverno, é colocada à porta do druida uma estranha trouxa com uma bebé, Bridei recolhe-a e sente que é seu dever cuidar da menina, um presente da deusa Shining One (a Lua). Bridei percebe imediatamente que Tuala (como ele lhe chama, e que significa “princesa”) não é humana, que veio dos Good Folk, mas isso não o dissuade. Os leitores da trilogia Sevenwaters recordarão esta espécie misteriosa pelo nome de Fair Folk, e que nem sempre são de fiar. O mesmo pensa o druida Broichan, que faz todos os possíveis para separar Bridei e Tuala à medida que ambos vão crescendo.
Sem que Bridei saiba, Broichan faz parte de um conselho secreto que pretende prepará-lo para ser o novo rei quando o actual falecer sem deixar descendência. Bridei tem de se afirmar como homem de pensamento e como guerreiro, e no entender de Broichan não há lugar para Tuala, uma rapariga dos Good Folk, na vida do filho adoptivo. O que se torna complicado quando, já ambos em idade casadoira, Bridei e Tuala se apaixonam… À medida que são afastados, e que Bridei é cada vez mais conduzido para o cerne das intrigas políticas, Tuala sente-se tentada a voltar para a sua espécie, os Good Folk, recordando o momento em que Morgana de Avalon procura refúgio entre as fadas. Quem vencerá? Broichan e a ambição, ou o amor dos dois apaixonados?
Devo dizer que estou cada vez mais impressionada com a evolução na escrita da autora. Se critiquei bastante o primeiro livro, “Daughter of the Forest”, aqui quase não encontro nada para criticar. Bem, talvez uma coisinha. Apesar de Bridei e Tuala serem instruídos e precoces, achei que falavam demasiado como dois adultos em vez de se expressarem como as crianças que eram ainda. Não é que a autora não saiba fazer diálogos de crianças. Uma das passagens mais engraçadas é quando dois miúdos dão cabo da paciência a Tuala:
“Porque é que tens a pele tão branca?”
“És uma bruxa?”
“Consegues transformar-me numa lagartixa?”
É assim que as crianças se expressam, inocentemente e sem rodeios, e isto não quer dizer que não consigam falar de coisas muito sérias. Simplesmente achei que Bridei e Tuala podiam ter falado assim enquanto eram crianças.
“The Dark Mirror” não é muito bom para leitores impacientes. O começo é lento, talvez demasiado lento para quem quer acção logo nas primeiras páginas. As coisas só começam a “aquecer” lá pelo segundo terço da história. Mas vale muito a pena esperar e confiar na autora. Algo que me esqueci de referir quando fiz a crítica à trilogia Sevenwaters, e que deve ser o meu aspecto preferido da obra de Marillier, é que podemos contar sempre com um ou mais momentos perturbadores, daqueles que nos gelam a espinha. Aqui não é excepção, e não vou sequer dizer do que se trata para não criar spoilers na parte mais tensa do livro. São elementos tão pesados que podiam bem figurar numa história de terror. Isto pode não agradar a toda a gente que lê Fantasia Romântica, mas a mim delicia certamente. Se Marillier me conquistou, foi especialmente por aqui.
É preciso também ter em conta que o enredo de “The Dark Mirror” é bastante complexo. Se a trilogia Sevenwaters se passa entre meia dúzia de personagens, aqui temos uma ou várias cortes para memorizar, fora os diversos locais onde se passa a acção, com muitas personagens, vários reis e rainhas e princesas e outros nobres e homens de armas importantes, já para não falar nos druidas e sacerdotisas. Até um padre aparece na história, o primeiro que encontro em Marillier. É mesmo muita gente. Cabe ao leitor ter atenção para perceber quais são os personagens verdadeiramente importantes e agarrar-se a eles para não perder o fio à meada. Marillier faz bem o seu trabalho ao apresentar-nos cada um de sua vez, como deve ser.
O fim surpreendeu-me, confesso. Estava à espera de um cliffhanger. Estou demasiado habituada às séries de televisão, pelos vistos. O final foi satisfatório, embora se adivinhe que a história ainda só começou. Mal posso esperar para ler o resto.


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