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domingo, 10 de maio de 2020

La guerre des trônes, la véritable histoire de l'Europe / A verdadeira guerra dos tronos


Como o nome indica, este documentário aproveita o sucesso da série para nos apresentar a História da França à moda da “Guerra dos Tronos”: batalhas sangrentas, envenenamentos, traições e facadas nas costas, sexo escandaloso. E muita, muita ambição.
De forma modesta e engraçada, até o genérico final tenta “imitar” o da “Guerra dos Tronos”, mas com castelos a sério. Achei giro, mas também podiam ter feito uma brincadeira com os brasões das principais famílias: o Leão, a Flor-de-Lis, as Rosas…
Porque, de certa forma, o documentário acerta em cheio. É esta História, a História real (e não apenas a História medieval), que inspira os escritores de Fantasia. Com mais ou menos dragões, com mais ou menos magia, vai-se a ver e tudo começa aqui, nos livros de História, mais ou menos transformada de acordo com a imaginação do autor. Porque a História é interessante, mas há sempre maneira de a reinventar ainda mais interessante.
O documentário conta o enredo muito depressa em quatro episódios, desde a Guerra dos Cem Anos (que afinal duraram mais tempo: 1337-1453) até Francisco I de França (1494-1547), e eu fiquei com uma grande vontade de ver aquilo tudo numa série propriamente dita, com os personagens bem desenvolvidos e os acontecimentos bem mostrados. É claro que já foram feitas adaptações cinematográficas e televisivas deste ou daquele personagem e/ou acontecimento histórico, mas assim, numa extensão de tempo tão longa e com um enredo que se vai entrelaçando de personagem em personagem, do princípio ao fim, desta maneira nunca vi. E gostava muito de ver.
Depois de andar por aí na net a pesquisar este documentário descobri que deve ter tido sucesso, porque fizeram mais temporadas. Por este motivo não sei se esta crítica vai ser justa, por isso ressalvo que a seguir me refiro à primeira temporada. A série focou-se demasiado na História de França para se poder chamar “História da Europa”. A não ser que voltem atrás, agora nas temporadas seguintes, porque nem sequer mencionaram alguns dos episódios mais sumarentos da História: os Bórgias, os Médicis, o fanático Savonarola, e o meu querido Maquiavel. Como é que é possível fazer uma História da Europa à moda da “Guerra dos Tronos” e não falar de Maquiavel? Parafraseando: “Mais vale ser temido do que amado, porque os homens traem quem amam, mas obedecem a quem temem”. Até a Daenerys Targarien sabe disto e nunca leu “O Príncipe”.
(E, já agora, podiam também falar daquele paisinho da ponta da Europa que teve um império mas perdeu-o por causa de um rei adolescente que quis ir caçar mouros. Foi um massacre, maior do que a Batalha dos Bastardos.)
Gostei muito deste documentário e queria ver mais. Boa ideia terem feito mais temporadas.
“A Verdadeira guerra dos tronos” passou na RTP2.

RTP2, repete lá isto mais vezes e, já agora, passa as novas temporadas!

domingo, 19 de abril de 2020

(The Adventures of) Merlin / Merlin (2008–2012)


[contém spoilers; revela o final]

Hesitei muito em fazer a crítica a esta série (as cinco temporadas), porque basicamente só tenho a dizer mal, mas cá vai. “Merlin” deve ser a série mais mal feita que eu já vi na vida. Quando comecei a ver os primeiros episódios julguei, palavra de honra, que era uma série muito antiga, daquelas que se faziam nos anos 80, tipo “Os Três Duques” ou “Buck Rogers”, destinadas a um público muito jovem e estruturadas em episódios do género “aventura da semana” sem que tivessem qualquer história de fundo a desenvolver-se ao longo da série. “Merlin” começou assim, pelo menos, e assim se manteve até ao final da terceira temporada.
Fiquei muito desapontada logo com o primeiro episódio. Esperava um drama arturiano e saiu-me uma série infanto-juvenil sobre o jovem feiticeiro Merlin que embirra com o jovem príncipe Arthur, mas que acaba por se tornar criado dele. Para terem uma ideia, nada aqui é realista nem segue a história clássica. Estes acontecimentos deviam ter acontecido no século V mas Camelot parece uma cidade do século XVII, inclusive com um físico da corte, Gaius. Guinevere não é uma nobre mas sim uma criada de Morgana. Morgana não é meia-irmã de Arthur mas sim uma protegida de Uther, o rei. Ao ver isto, percebi que ia ser uma versão para crianças do conto arturiano, em que todos os personagens são amigos e lutam contra o vilão da semana. E de certa forma até foi. Em quase todos os episódios, estes quatro partiam em aventuras, derrotavam os maus e voltavam a casa.
Agora vamos à história principal de “Merlin”, que durante três temporadas serviu apenas de móbil para este ou aquele enredo semanal. Uther, o actual rei de Camelot, tem ódio à magia. Logo no primeiro episódio um qualquer desgraçado é decapitado por praticar magia (mas não se preocupem porque não se vê nada de perturbador; aliás, as espadas de Camelot têm o condão de serem enfiadas numa qualquer barriga e saírem como entraram, sem uma gota de sangue. Sinceramente, acho que nunca vi sangue nesta série, do princípio ao fim, apesar das batalhas e do elevado número de mortos nas últimas temporadas. Neste aspecto, a série nunca perdeu o seu cariz infantil. E as mortes nunca foram realistas, excepto a última, mas já lá vamos.) Uther é um rei fanático em relação à magia, justificando que em tempos esta foi usada para grandes males, o que o levou a fazer a Grande Purga em que matou toda a gente que tinha dons mágicos: homens, mulheres e crianças. Só isto já dá uma ideia do tipo de homem que aqui está. O que descobrimos depois, e o que o torna execrável, é que Uther é também um grande hipócrita. Quando se vê em apertos, e apesar da sua própria lei anti-magia, o hipócrita recorre a quem o salve, mesmo com magia.
Mas, como se não bastasse, Uther é também um péssimo pai para Arthur, sempre e constantemente a deitá-lo abaixo. Quase todos os episódios eu acabava a abanar a cabeça e a dizer “Pobre Arthur” e admito que foi isto que me agarrou à série. Pobre Arthur, eu só queria que finalmente aquele desgraçado tivesse uma chance de ser feliz. Desgraçadamente, tudo lhe aconteceu e todos lhe mentiram e o traíram a torto e a direito, até aqueles que o amavam e o queriam proteger.
A Merlin é atribuído, desde o primeiro episódio, o destino de proteger Arthur. Quem lho diz é o Dragão, o último da sua espécie, aprisionado nas masmorras de Uther para servir de exemplo da sua cruzada anti-magia. Honra seja feita a “Merlin”, este é um dragão como deve ser, um dragão sábio e falante, cheio de profecias e segredos, que não tem nada a ver com as criaturas acéfalas da “Guerra dos Tronos”. Isto é que é um dragão, um dragão à Tolkien. E durante a série inteira o Dragão foi a única personagem coerente. Já as outras…
Desde cedo se percebeu que Arthur e Guinevere iam mesmo casar um com o outro. Ora, isto é problemático porque Guinevere é uma serva. E Uther, evidentemente, opõe-se. O homem é tão mau que mandou matar o pai de Guinevere só porque este falou com um feiticeiro, e ameaçou expulsar Guinevere de Camelot quando percebeu que Arthur tinha sentimentos por ela. Mas, estranhamente, por culpa dos autores da série que a escreveram tão mal, Guinevere aceita isto tudo, inclusive a execução do próprio pai, como se nada fosse. Por fim, depois da morte de Uther, a série lá arranjou maneira de os casar, justificando que o povo de Camelot só queria que o seu novo rei, Arthur, fosse feliz. Se é uma série infanto-juvenil, aceita-se.
Mas esta Guinevere, não é só para dizer mal por dizer, é uma oferecida. Não houve ninguém a quem ela não se tivesse feito. A Merlin, logo no dia em que o conheceu. A Lancelot, o primeiro grande amor da vida dela. Até a Gawaine, quando o viu. Quando ela diz a Arthur “eu sempre te amei”, deve ser para rir. Sempre o amou, ou ficou com ele porque foi o único que, pelo contrário, a amou sempre, ou porque ele ia ser rei? É que tudo isto pareceu muito mal para o lado da Guinevere. E mais uma vez eu abanei a cabeça: pobre Arthur!
E depois temos Morgana. A princípio ela era boa pessoa, amiga de Arthur, de Gaius e de Guinevere. Chegou a ir com eles em aventuras em que arriscou a vida para os salvar. Ao mesmo tempo, Morgana vai descobrindo que também ela tem dons mágicos, o que a coloca numa situação periclitante perante Uther, que chega mesmo a enfiá-la numa masmorra e tudo indica que até a mandava matar se fosse preciso. Começa assim a revolta de Morgana contra Uther e ninguém pode dizer que não é justificada. Mas de repente, golpe de teatro!, os autores da série decidem que Morgana afinal não é apenas uma protegida de Uther, que é mesmo uma filha ilegítima (logo, meia-irmã de Arthur, como na história clássica), e para lhe salvar a vida Uther até recorre à magia certa vez. Então, Uther, não estavas disposto a mandá-la matar quando desconfiaste que ela tinha magia? Esqueceste-te de que ela é tua filha? Os autores da série, de certeza, esqueceram-se, ou nunca tiveram intenção de a tornar filha de Uther.
Isto é apenas um das dúzias de exemplos de como os escritores da série andaram a patinar, como se não soubessem para onde levar a história e o que queriam fazer da série. Efectivamente, o maior problema de “Merlin” é que a série não parece ter sido previamente planeada, que não sabe a quem se destina e para onde se dirige. Cheguei a pensar para com os meus botões que cada episódio era dado a escrever a um escritor diferente que não sabia o que os outros estavam a fazer, naquele improvisanço de que depois se “dava um jeito”. Se, pelo contrário, isto foi tudo pensado de propósito, nem sei o que dizer. Mas duvido mesmo muito que o tenha sido.
Um outro exemplo que me irritou solenemente: desde os primeiros episódios que Arthur disse que um certo soberano vizinho a Camelot, um tal de Odin, o queria matar porque Arthur tinha matado o filho dele. Isto foi dito e esquecido, mas umas temporadas depois Arthur voltou a dizer: “Odin odeia-me porque eu matei o filho dele”. Só nunca disse quando e como. Foi na guerra? Foi um acidente? Foi em legítima defesa? Foi a jogar aos dardos?... Quanto mais falavam do assunto mais curiosa eu ficava. Lá para as últimas temporadas algum dos escritores decidiu fazer um episódio em que o tal Odin captura Arthur e o quer matar porque, claro está, ele matou o filho dele. E eu pensei, “finalmente!, vamos saber o que é que aconteceu”. Pois. Não. Nem assim. Arthur é salvo por Merlin no último instante, como acontece sempre nesta série, e agora é ele que vai matar Odin. E eu quase gritei à televisão: “Não, gaita, não o mates antes de ele dizer como é que mataste o filho dele! Ou diz tu! Alguém diga!” Ninguém disse. E nunca fiquei a saber como é que o tal filho do Odin foi morto, e se havia legítimas razões para vingança ou se o Odin estava apenas a ser casmurro. Ora, não é assim que se conta uma história. Isto é fazer de propósito para alienar os espectadores que estão a tentar importar-se com aquilo que estão a ver.
A série continuou a fazer isto regularmente. Coisas que eram mencionadas e nunca explicadas, profecias que só apareciam quando davam jeito, partes importantes do enredo que não eram contadas nem mostradas. Por exemplo, quando de repente se inventou, lá para a quarta temporada, que havia uma profecia de que seria um druida a matar Arthur. “Estranhamente”, nunca se ouviu falar desta profecia antes, porque os escritores nunca tinham pensado nela. Outro exemplo: já depois de Morgana se tornar uma vilã tomamos conhecimento de que um outro soberano vizinho a Camelot (cujo nome nem apareceu o suficiente para eu me lembrar) a manteve aprisionada durante dois anos. Isto é importante, não?! Muito importante. Mas isto só foi dito, en passant, no episódio em que ele entrou, com um flashback de 10 segundos de Morgana acorrentada numa cela. Como foi capturada, porque é que foi aprisionada, como escapou, nunca saberemos. Até parece que nada disto é importante. Eu tive a sensação de ter perdido esse episódio, mas de facto não perdi porque os vi todos. Mais uma vez a série a fazer todo o seu possível para não nos importarmos com as personagens. Não há nada pior, ao contar uma história, do que fazer com que os espectadores não a percebam. Foi exactamente o que aconteceu aqui.
Bem, pelo menos isto explicou porque é que o dragão da Morgana é deficiente, pobrezinho, o que já não é mau, senão isto ficava sem explicação também... Mas já estou a pôr o carro à frente dos bois.
Morgana, como disse, torna-se 100% vilã. A revolta contra Uther compreende-se, mas depois de ele morrer Morgana transfere a sua raiva contra Arthur, de quem sempre foi amiga, sem que se perceba muito bem porquê. O próprio lhe pergunta, em dois episódios diferentes: “Morgana, o que te aconteceu?” Ao que ela responde: “Cresci.” Fraca motivação para quem era capaz de arriscar a vida por Arthur, antes mesmo de saber que ele era seu irmão, a quem Arthur nunca fez nenhum mal, que de repente a faz querer roubar-lhe o trono e dizer coisas como “quero que os lobos lhe comam a carcaça e que os corvos lhe furem os olhos”. É muito forte para quem não tem motivos para odiar desta maneira. (Mas honra seja feita à actriz Katie McGrath, ela conseguiu adaptar-se à transformação da personagem e vendeu-nos muito bem a sua vilania.)
O que aconteceu a Morgana foi antes isto: a “Guerra dos Tronos” estava a ter o sucesso que se sabe e de repente os autores de "Merlin" decidiram copiar, e vai de transformar a Morgana numa vilã horrorosa, como Daenerys e Cercei. Até lhe arranjaram um dragão! A última temporada é mesmo um plágio descarado, com cenários a lembrar a Muralha e Winterfell, onde até aparece “Ser Davos” (Liam Cunningham), vestido com roupa que, não estou a ironizar, deve ter sido alugada directamente ao guarda-roupa da “Guerra dos Tronos”.
Foi por esta altura, a quinta temporada, que comecei a ver por hate watching mesmo. Só para gozar e dizer mal. Mas foi também na quinta temporada que a série finalmente encontrou um rumo, tarde demais mas encontrou, abandonando a faceta infanto-juvenil e perdendo o medo de se tornar sombria. Foram os melhores episódios, e mesmo assim não foram bons.
Até chegarmos aos três últimos episódios. Estes sim, foram bons, até parece uma série diferente, onde os acontecimentos têm peso e consequência, onde as personagens não mudam de personalidade conforme a vontade dos autores. Onde conseguimos, finalmente, importarmo-nos com elas. Confesso que vi estes três últimos episódios colada ao écran.
Mas, no fim, a série voltou a deixar a desejar. Embora a mim, pessoalmente, tenha satisfeito, li algumas críticas de fãs que ficaram completamente destroçados. E têm razão, e vou explicar porquê.
Grande spoiler, ou talvez não: Arthur morre no fim. Quem conhece a história clássica já sabe disto, e que é uma história muito mais trágica do que na série (Arthur é assassinado pelo seu próprio filho Mordred, filho de Arthur e da sua meia-irmã Morgana), mas tendo em conta como a série aligeirou a história a níveis infanto-juvenis penso que os fãs do início tinham legitimidade para esperar um final diferente. Afinal, Arthur e Morgana nunca dormem juntos, Mordred não é filho deles, Arthur casa com uma criada por amor, porque é que raio não podiam engendrar um fim feliz? A série prometeu que ia ser ligeira e no fim partiu o coração aos fãs.
Eu própria, no último episódio, não acreditei que Arthur ia morrer. Sempre julguei que Merlin inventasse algo à última da hora (como a série sempre fez) que o salvasse. De outra maneira teria logo desatado a chorar quando Arthur começou a revirar os olhos, a morte mais realista de toda a série. Mesmo assim, quando ele morreu mesmo, afectou-me, confesso. Os actores Colin Morgan (Merlin) e Bradley James (Arthur) conseguiram, às vezes contra a má qualidade da própria série, convencer-nos de uma amizade que se foi desenvolvendo ao longo de cinco temporadas e que atinge o seu auge épico neste último episódio. Quando Merlin grita, guturalmente, em lágrimas incontroláveis, a invocar o Dragão, é também já um grito de dor e luto, e eu arrepiei-me.
E é por causa deste momento arrepiante que estou a fazer esta crítica. Não posso, de modo algum, recomendar a série, nem sequer a última temporada, que igualmente padeceu de soluços constantes, mas recomendaria os três últimos episódios. Talvez não bastem para mostrar como esta amizade evoluiu até chegar onde chegou, mas quem ficar interessado pode sempre ir ver do princípio.
Pobre Arthur, nunca teve mesmo uma chance. Da mesma forma, o talento dos actores merecia uma série à altura deles, mas infelizmente não a tiveram. Os três últimos episódios que me colaram ao écran não poderiam nunca salvar cinco temporadas de uma série sem rumo que não sabia o que queria nem para onde queria ir. Quando foi, já ia tarde.



domingo, 9 de fevereiro de 2020

Seventh Son / O Sétimo Filho (2014)


Durante os primeiros 5 ou 10 minutos ainda julguei que este podia ser um filme sério. Bem, depende do que se entende por “seriedade”, porque “O Sétimo Filho” é um filme dirigido a uma camada infanto-juvenil e nesse aspecto faz o que deve e merece esta críticazinha.
Papás e mamãs, este filme é ideal para miúdos entre os 8 e os 13, com umas pipocas e uma coca-cola (sem açúcar), e não é tão infantil que não possa ser visto pela família toda. É Fantasia, os efeitos especiais mais parecem um jogo de vídeo, as mortes não são realistas, o sexo é implícito mas não se vê nada, não há sangue, os personagens caem de um precipício umas três vezes (sem exagero) e nem sequer torcem um tornozelo.
Mas, como dizia, cheguei a pensar que isto ia ser um filme sério devido à presença de Julianne Moore, aqui a fazer de rainha das bruxas, e quando Julianne Moore aparece rouba a cena inteira. É certo, não lhe dão muitos desafios com esta “rainha das bruxas”, mas Julianne Moore, muito profissionalmente, quase consegue transformar este “desenho-animado” numa personagem de carne e osso. O outro protagonista (o caçador) é Jeff Bridges.
Da mesma forma, Kit Harington (sim, esse, o Jon Snow da “Guerra dos Tronos”) também faz aqui uma aparição durante os primeiros minutos do filme. Não dura muito, coitado, pois é apanhado pela rainha das bruxas que tem o poder de se transformar em dragão, e aqui é Jon Snow quem se lixa. (Fez-me rir, admito.)
A história é do mais cliché que há. Um velho caçador de monstros (tipo Van Helsing), último representante de uma ordem de cavaleiros criada para esse fim, procura um novo aprendiz que tem de ser o sétimo filho de um sétimo filho. O seu último aprendiz (o tal “Jon Snow”) demorou dez anos a treinar mas agora o caçador não tem tempo para estar com “formações” porque se aproxima a Lua Vermelha, altura em que a rainha das bruxas e outros monstros têm mais poder e se preparam para fazer Maldades. Nunca nos é dito que Maldades exactamente, excepto que Julianne Moore se quer vingar das cidades que queimam bruxas; e as cidades queimam bruxas porque estas atacam as cidades; e as bruxas atacam as cidades porque estas queimam bruxas… e já estão a ver a pescadinha de rabo na boca. A missão do caçador e do aprendiz é destruir a Bruxa Má e seus lacaios antes que estes façam as tais Maldades.
Honra lhe seja feita, o filme tentou dar alguma complexidade aos personagens. Vem-se a descobrir que afinal o caçador esteve perdidamente apaixonado pela rainha das bruxas mas não resultou (drama!) e o novo aprendiz é filho de uma bruxa (Boazinha) e também se apaixona por uma jovem bruxa (igualmente Boazinha). Mas nenhum destes conflitos é aprofundado, fica tudo pela rama. Já o final não é tão cliché como é costume nestes casos. Quem acaba por derrotar a rainha das bruxas não é o caçador mas sim a própria irmã dela (mãe da jovem bruxa) para proteger a filha.
Em suma, é um enredo que pode ser acompanhado pela família toda sem nunca traumatizar os miúdos e sem aborrecer muito os adultos. A performance de Julianne Moore salva isto tudo, e entre os maus efeitos especiais até temos um que é interessante, um dos Maus que é inspirado num deus hindu e que tem quatro braços, e consequentemente luta com quatro espadas. Foi algo que nunca tinha visto.
E é tudo. “O Sétimo Filho” é um filme decente para uma matiné e não há mais nada a dizer.

12 em 20 (para miúdos dos 8 aos 13 anos)



segunda-feira, 29 de julho de 2019

Game of Thrones / A Guerra dos Tronos (final)


[crítica ao FIM; spoilers do último episódio]


Então, quem é que se sentou no Trono de Ferro? Ninguém.
A maioria das críticas são unânimes e eu concordo: durante as duas últimas temporadas foi tudo a correr, de plot point em plot point, sem tempo para aprofundar personagens. A maior vítima desta pressa foi a pobre Daenerys, transformada num monstro em 30 segundos para andar com o enredo para a frente. Nem a actriz nem a personagem mereciam isto. A ideia que tentou ser vendida é que Daenerys enlouqueceu, mas o que passou não foi convincente, nem como loucura nem como evolução natural da personagem. Daenerys não pareceu louca, pareceu monstruosa. Conseguiram transformar a Daenerys no Hitler, basta olhar para este cenário:


Só falta a suástica de 5 metros de altura. Heil!
Outro personagem desnecessariamente atropelado na pressa de chegar ao fim foi Jaime. O desgraçado ia a caminho da redenção, e até compreendo que tenha regredido a meio do caminho. Mas não em meia hora, por amor de Deus! E qual foi a necessidade daquilo com a Brienne (tirando fan service, isto é?) Se queria voltar para a irmã, que voltasse. Mas o que se passou foi que o personagem não sabia o que queria, não sabia quem queria, não sabia o que estava a fazer nem para onde se virar. Coitado, transformado em barata tonta. Merecia um fim mais consistente, quer se redimisse ou não. Mas os criadores da série estavam cheios de pressa para ir fazer outra coisa qualquer (que algo me diz que não vou ver).


O que mais não fez sentido
Perdi qualquer esperança de que o fim da série fizesse sentido quando acabaram com o Night King daquela maneira (o rei dos zombies, para quem não sabe). Este é um desgosto pessoal, admito, porque eu estava realmente a torcer pelos zombies. Talvez não esperasse que vencessem, mas nunca pensei que dessem tão pouca luta. Uma batalha, um episódio, uma ninja adolescente. E assim acabou a maior ameaça de Westeros em milhares de anos, a razão da existência da Muralha, a primeiríssima cena da série. Enfim, nem tenho palavras. Foi mesmo uma desilusão. Nem cheguei a perceber afinal o que é que os zombies queriam. Houve um episódio que explica que a criação deles foi uma espécie de feitiço contra o feiticeiro, mas isso não explica qual era a ambição que os movia. Os zombies não paravam de aumentar as fileiras do seu exército dos mortos. Para quê? O objectivo era invadir o Sul. Porquê? Num dos episódios raptaram um bebé e transformaram-no num deles. Com que objectivo? Por que raio precisavam de um bebé? Só “porque sim” não é resposta. Agora nunca vou perceber para que é que queriam o bebé.
Não pretendo ler a saga de George R. R. Martin, mas, quando e se o homem a escrever a história dos zombies, seria um livro que me interessaria. E talvez possa vir daí a minha conclusão consistente. Mas para isso é preciso que Martin escreva e é melhor não esperar de pé.
Depois desta correria desenfreada, chegámos finalmente ao último episódio. E deste, confesso, gostei da primeira parte (que tem a duração de um episódio inteiro). Especialmente a cena dramática entre a Daenerys e o Jon Snow. Até gostei do dragão! Foi das raras vezes em toda a série que de facto me importei com os personagens. Admito que me surpreendi por ter gostado tanto, porque quase tudo o que aconteceu em “A Guerra dos Tronos” teve principalmente um efeito de choque (o Red Wedding, a morte da princesa Shireen, o sadismo de Joffrey e de Ramsay, as fogueiras de Melisandre, as execuções-por-dragão de Daenerys, tudo porno-tortura) mas a isto eu senti. Finalmente, Jon Snow conseguiu pôr a funcionar o Tico e o Teco e agiu com a cabeça. Teria tido mais pena da Daenerys, mas depois de a transformarem no Hitler em 30 segundos já não deu para empatizar grande coisa.
Já a segunda parte do último episódio foi um festival de disparate. Bran? Eu já me tinha esquecido de que Bran era um personagem. E aquela reunião de nobres(?) e outras pessoas com o Torgo Nudho? Quem era aquela gente que ali apareceu do nada? Custava alguma coisa apresentarem-nas? Alguns descobri quem eram a ler críticas. Outros ficarão para sempre no mistério do meu desinteresse. Afinal, isto era a Guerra dos Tronos. O mínimo que se pode esperar é que o espectador reconheça os sobreviventes.
O fim foi completamente incoerente. Torgo Nudho não ia esperar sei lá quanto tempo por um julgamento com gente que não lhe diz nada. Assim que Torgo Nudho virasse costas, Jon Snow não ia para a Muralha. E qual Muralha? O próprio Jon Snow pergunta “ainda há uma Muralha?”, e com ele nós todos. Já não há Night King, nem sequer cavalos zombies e dragões de gelo. O que é que alguém vai fazer para a Muralha?
Bran e Sansa só acabaram como acabaram, os donos do pedaço, porque o verdadeiro Rei devia ter sido o irmão/primo deles. Essa é que é a verdade e devia ter sido a conclusão lógica da história.

Os vencedores
Apesar de tudo isto, algumas personagens conseguiram conquistar-me. Tyrion, não é novidade, sempre foi o meu preferido. Embora no fim tenha tido momentos de burrice que não fazem justiça ao personagem (e Varys, idem) quando decidiu agir com honra e coragem em vez de ser inteligente. Só se safou graças ao Jon Snow, que foi mais esperto. Não deixa de ser irónico.


Sansa nunca foi preferida do público desde o início mas eu sempre vi nela o potencial daquilo em que se tornou. Se se pode dizer que alguém ganhou a Guerra dos Tronos, esse alguém é Sansa, não apenas sobrevivente mas vencedora, não apenas uma Lady mas uma Rainha. Gostei.


Também gostei da última tirada de Samwell Tarly, sugerindo dar voz ao povo para escolher os seus governantes. Momento brilhante de alguém à frente do seu tempo. Infelizmente, ninguém lhe ligou nenhuma.


Arya, a miúda ninja, não sei o que lhe aconteceu mas perdi completamente o interesse por ela. Lembra-me aquela cena d’“Os Diários do Vampiro” em que eles desligam a humanidade. Foi o que me pareceu, que ela desligou a humanidade e se tornou uma espécie de super-Arya. Super-heróis não são o meu género e nunca serão.
Mas, no meio disto tudo, uma personagem cresceu no meu coração. Brienne de Tarth, que a princípio era bidimensional e irrelevante, nas últimas temporadas tornou-se uma mulher de carne-e-osso, não apenas uma mulher “que queria ser homem” mas alguém que amou (um homem que não a merecia), que sofreu, e que se elevou ao abandono com a maior das dignidades. Não sou daquelas que só fica satisfeita quando as personagens têm um final romântico mas, se Brienne quiser pensar no assunto, há sempre o Tormund. Depois de amestrado, e com maneiras à mesa, quem sabe, ainda se encontram para tomar um copo?


Tormund, o “gigante” (gigante entre aspas, porque nesta série há gigantes a sério) voltou para o norte, para lá da Muralha, de coração partido. Mas estar longe não é estar morto.
Para minha felicidade, Ghost (o lobo ou direwolf) também foi com ele. Esteve difícil, mas o bicho safou-se. Ainda bem, nesta série que se fartou de matar animais. Quem é que, não sendo um serial killer com nostalgia pela infância, quer ver isso?


Em suma, uma boa cena dramática (Tyrion, Daenerys, Jon Snow, Drogon) não basta para compensar a enorme frustração que foi assistir ao final desta série. Eu até não sou uma daquelas fãs “die hard”, não estou desiludida e em lágrimas, mas não é por isso que não tenho direito a um final que faça sentido. Desde que os criadores da série ficaram sem os livros para os guiar o enredo foi por água abaixo e nunca mais se elevou ao nível das primeiras temporadas.  Resta-nos esperar pelo Martin, se entretanto ele não perdeu o interesse em escrever o resto.



Primeira parte da crítica à série até à quinta temporada AQUI

Segunda parte da crítica à série até à quinta temporada AQUI


segunda-feira, 3 de junho de 2019

The Terror


[spoilers mínimos; não revela o final]


Esta é a melhor série de terror que eu vi nos últimos tempos, se calhar mesmo na vida toda, e está a passar "abaixo do radar" sem ninguém lhe ligar nenhuma. Antes de mais, é preciso divulgá-la: passa na AMC. Se a virem, agarrem-na, gravem-na, devorem-na. Se não a virem, vão atrás dela. Esta série de extraordinária qualidade é imperdível.

"Em 1845, dois navios da Marinha Real zarparam de Inglaterra numa tentativa de encontrarem uma passagem navegável no Árctico. Eram os navios tecnologicamente mais avançados da sua era. Os últimos a vê-los foram baleeiros europeus na Baía de Baffin, aguardando o bom tempo para entrarem no labirinto do Árctico. Ambos os navios desapareceram."


    [preâmbulo de abertura de “The Terror”]

Por estranho que nos possa parecer agora, HMS Terror era mesmo o nome de um navio. O nome explica-se por ter sido um navio de guerra antes de ser remodelado para a exploração polar. O seu outro companheiro de viagem, o HMS Erebus, também foi baptizado a partir de uma das zonas do inferno clássico, o Hades. Com nomes agourentos como estes, quase nos perguntamos quem é que no seu perfeito juízo levaria estes navios para uma expedição perigosíssima de onde podiam muito bem não regressar?
Estes nomes são reais, tal como são reais os nomes dos tripulantes da expedição que tinha por objectivo descobrir uma passagem para a Ásia através Círculo Polar Árctico, a norte do Canadá: a passagem Noroeste, que seria muito rápida e prática em termos comerciais. Houve várias expedições anteriores para a encontrar, sem êxito, até à vez de Sir John Franklin (esta conhecida como "a expedição perdida de Franklin") com resultados desastrosos. Todos os 129 tripulantes foram dados como perdidos.
 "The Terror" faz excelente uso destes nomes verídicos, bons demais para desperdiçar, excepto esta ou aquela mudança de ocupação. Além dos próprios barcos, temos um Tenente Gore ("Gore" é o título apropriado do episódio em que este tenente tem um fim... que não conto), um Mr. Morfin (que, coitado, morre com tantas dores que implora que lhe dêem um tiro, mas não há morfina para Mr. Morfin), e um Mr. Goodsir (cirurgião assistente na série e na vida real), que os escritores aproveitaram logo para ser o homem mais decente naqueles dois navios.
A série é baseada no romance homónimo de Dan Simmons, publicado em 2007, antes de ambos os navios naufragados terem sido descobertos, o Erebus em 2014 e o Terror em 2016, muito longe do local onde se julgava terem sido abandonados. Novamente, bom demais para desperdiçar. Foram feitas algumas alterações à história para acomodar as novas informações que a descoberta trouxe à luz. E que informações! A história nem precisa de sobrenatural para ser um dos relatos mais horríficos das aventuras navais da época vitoriana, ou de todos os tempos.
Esta série não é para todos. É extremamente deprimente, e os últimos episódios, principalmente, têm cenas de um canibalismo tão realista que algumas pessoas talvez não consigam suportar. Não digo isto como spoiler mas como aviso: pode ser demais!


Um acto de húbris
No verão de 1846, os dois navios aventuram-se em águas do Árctico. O líder da expedição, Sir John Franklin, comanda o Erebus, mas é ao Terror que devemos prestar toda a atenção. O Capitão Francis Crozier, comandante do Terror e navegador com experiência em zonas polares, não gosta dos sinais preocupantes que vê no gelo. Imediatamente avisa Sir Franklin para não continuarem em frente, que fazê-lo será “um acto de húbris” de terríveis consequências. Franklin simplesmente o ignora. Em Setembro, do dia para noite, ambos os navios ficam encarcerados no gelo. Não um dia ou dois, ou sequer meses, mas por dois anos. Os navios eram tidos por capazes de suportar essas condições. Levavam provisões bastantes para durar três anos, enlatados e sumo de limão (contra o escorbuto), e tinham aquecimento central. Tal como o Titanic era “insubmersível”, também estes navios tinham tudo o que era preciso para resistir aos invernos polares. O que não tinham era um plano B. Em vão esperaram o degelo da primavera, mas uma série de anos mais frios do que o normal não derreteu o gelo.
O Capitão Francis Crozier volta a advertir Sir Franklin que deve enviar imediatamente uma equipa para pedir socorro, o que este volta a negar. Desta vez Franklin vai mais longe, acusando Crozier de ser um homem sem fé em Deus, um pessimista, um homem de vícios (Crozier, de facto, é alcoólico). Enviar tal equipa serviria apenas para desmoralizar a tripulação e admitir o fracasso, e Franklin nem quer ouvir falar disso.
Crozier leva uma rebocada tal que noutras circunstâncias era capaz de pedir a demissão e virar-lhe as costas, mas estes são oficiais da Royal Navy e estão isolados no Pólo Norte. O que Crozier faz é ignorar as ordens de Franklin e preparar a equipa em segredo, tencionando liderá-la ele próprio para que os homens que o acompanham possam dizer que apenas obedeceram às suas ordens e não sejam acusados de insubordinação. Caso tenham sucesso, isto é. Crozier já sabe que a expedição está perdida. Agora só importa salvar a tripulação. Antes que Crozier consiga realizar os seus planos, contudo, Sir Franklin morre. O capitão Crozier, segundo em comando, torna-se assim no líder da expedição e pode enviar a equipa sem incorrer em motim. O que não lhes vai servir de muito.
Crozier resume o tema da série na sua frase acima: um acto de húbris. É a arrogância que condena esta expedição. A arrogância de Sir Franklin, espelho da soberba do Império Britânico, que recusa admitir derrota quando já são as vidas dos tripulantes que estão em jogo. É a arrogância britânica que nem considera aprender com o povo Inuit como melhor sobreviver naquelas condições, encarando-os, pelo contrário, como selvagens que nada têm a oferecer ao poderio naval de Sua Majestade. É a arrogância civilizacional do Império Britânico que envia homens para condições extremas com equipamentos inadequados e uniformes impróprios para o clima, a quem falta o discernimento em assegurar o socorro caso algo corra mal. Nada pode correr mal nos planos científicos e metódicos do império. O único resultado só pode ser o sucesso. Outra coisa não se admite nem sequer se pondera.
O que acontece de seguida é uma lenta descida aos infernos. Os enlatados eram de má qualidade. Deficientemente soldados, os que não apodreceram continham níveis de chumbo que, segundo os cientistas que há décadas estudam a expedição, terão lentamente intoxicado os tripulantes. O que terá também explicado a loucura e os comportamentos irracionais que mais tarde foram depreendidos dos acampamentos abandonados. Esgotadas as outras provisões, os enlatados tornaram-se o único veneno que os homens tinham para comer. O frio, a fome, o escorbuto e a tuberculose também colheram o seu número de vítimas.
Isolados num deserto de gelo impiedoso e de terra pedregosa, não havia para onde fugir nem tinham meios adequados para tal. Os longos invernos de noite permanente, a crescente escassez de provisões, a continuada falta do degelo, levam os homens a cair no desespero e na loucura. Por fim abandonam os barcos e tentam escapar por terra, mas também não têm melhor sorte. É uma derradeira luta pela sobrevivência, mas a doença e a fome já os tinham enfraquecido ao ponto de não retorno. Segue-se o motim e a carnificina.
Como se tudo isto não bastasse, logo de início, ainda Sir John Franklin é vivo, um estranho animal, que julgam um urso polar mas de tamanho enorme e características estranhas, é avistado pelos homens. Tentam abatê-lo, mas, desgraçadamente, atingem acidentalmente um shaman Inuit (que, vimos a saber mais tarde, é quem mantém o monstro sob controlo). O shaman morre, e apesar das súplicas da sua filha, que o acompanha, os britânicos não cumprem os ritos fúnebres que ela exige. Em vez disso, o shaman é atirado sem cerimónia por um buraco de água no gelo. E aqui, na série, fizeram-na bonita. Este “urso” é um Espírito Guardião do Árctico e do povo Inuit, o Tuunbaq, um espírito em forma animal. Agora que profanaram o corpo do shaman, estão todos marcados. O Tuunbaq não distingue entre bons e maus. Mas diga-se de passagem, os “bons”, aqui, são muito poucos, como se verá no decorrer da história.


Personagens inesquecíveis
Poder-se-á pensar, erradamente, que a história perde o interesse logo nos primeiros minutos, quando se sabe que não sobrevive ninguém. Nada mais enganador. As tripulações do Erebus e do Terror tiveram várias hipóteses de escapar. Mesmo quando tudo já parecia negro, ainda havia esperança. Não para todos, os que já estavam demasiado doentes, mas para alguns houve sempre esperança até ao fim. O mais fascinante, a certa altura, não é perceber o como e o porquê de se terem perdido mas, pelo contrário, de não se terem salvo.
As personagens são excepcionais e é impossível não torcer por algumas. Um dos melhores trunfos desta série é como se pega nestes nomes de um manifesto e se criam personagens de carne e osso com quem conseguimos empatizar.
Vou começar pelo líder da expedição, Sir John Franklin (Ciarán Hinds, que os leitores mais novos conhecem de “Guerra dos Tronos” mas que eu lembro melhor ainda como Júlio César em “Rome”). Franklin parece um homem ambicioso, arrogante, até não muito competente (principalmente quando, em flashbacks, percebemos que é Lady Jane Franklin, sua mulher, quem o manipula), mas na duração de um ou dois episódios compreendemos que é afinal um homem sincero, profundamente religioso, que não é hipócrita e acredita no que diz. Um homem optimista, mais do que devia, que se preocupa acima de tudo com a moral da tripulação. Apesar da sua falta de discernimento, o objectivo nunca foi sacrificar homens por ambição, mas sim conduzi-los ao triunfo último da expedição. Franklin nada mais admite senão o triunfo, e acaba por ser essa a sua falha trágica. Até seria digno de pena se a sua cegueira não tivesse consequências tão horríveis. E Franklin não é o único culpado desta cegueira. Homem do seu tempo e do apogeu do Império Britânico, nele reflecte-se toda uma cultura que o criou. A mesma cultura que, ultimamente, também o vitimou.
Depois temos o Capitão James Fitzjames (Tobias Menzies, igualmente no elenco de “Guerra dos Tronos” e igualmente em “Rome” no papel de Brutus), que a princípio parece um daqueles homens balofos de vaidade que são “só garganta” e cobardia. Pois este foi uma surpresa! Em circunstâncias em que a maioria fugiria ou sujaria as calças, mostra uma coragem extraordinária a enfrentar o Tuunbaq. Prova de que nem tudo é o que parece à primeira vista, e Fitzjames não é de todo um cobarde.
Quem nunca me enganou foi o Capitão Crozier (Jared Harris, mais conhecido pelo seu papel em “Mad Men”), cínico, melancólico e pessimista, mesmo quando os longos meses no Árctico o mergulham no extremo do alcoolismo. Daqui eu sempre esperei grandes coisas, e elas vieram.
E depois temos o “talentoso” Mr. Hickey (Adam Nagaitis), sem dúvida a maior manipulação a que fomos submetidos em termos de personagens. Mr. Hickey é um tripulante simpático com quem empatizamos imediatamente, um homem do povo e um homossexual que é perseguido por sê-lo. Como não torcer por ele, a parte mais fraca? Jamais acreditaríamos, nos primeiros episódios, no que ele se vai tornar já a seguir. E eu também não vou contar, mas foram feitas comparações ao Coronel Kurt de “Apocalipse Now” e eu concordo que anda por aí. No fim, também a Mr. Hickey foi a arrogância que o perdeu. Ou melhor, que se perdeu a si próprio. Fantástico desempenho! Espero ver este actor muito mais vezes.
Chegamos então ao melhor personagem da história. Se não o grande herói (mas não parece que esta história tenha heróis), o coração de “The Terror”, Mr. Goodsir (Paul Ready). Ao contrário de Mr. Hickey, eu embirrei logo com este personagem. Muito bonzinho, demasiado bonzinho. E depois veio o golpe fatal que me fez mesmo detestá-lo. Ao desconfiar que os enlatados estão a envenenar os homens com chumbo, Mr. Goodsir começa a dá-los a comer ao macaquinho do falecido Sir Franklin. (Sim, havia um macaquinho de estimação a bordo, para se perceber até que ponto este comandante achava que a expedição era um passeio pelo gelo.) O macaco enlouquece e morre, e é aí que Mr. Goodsir percebe que não podem continuar a comer das latas. Episódio após episódio, este personagem conquistou-me, e da embirração e da antipatia tornou-se aquele pelo qual torci mais. (Porque, na verdade, mais tarde ou mais cedo o macaco tinha de começar a comer das latas também, tal como os homens, mesmo depois de saberem que estavam contaminadas. Dessa forma, não foi apenas uma experiência científica. Era só uma questão de tempo. Pelo menos o pobre macaco morreu de morte "natural", ao contrário do cão...) Mr. Goodsir, mais tarde tratado como Dr. Goodsir, tem um nome que lhe assenta como uma luva. A bondade não é falsa e acabou por comover o meu coração empedernido que me faz desconfiar deste tipo de pessoa.


Goodsir é bom autenticamente, porque sim, porque não pode ser de outra forma. A certa altura torna-se amigo da filha do shaman, a quem chamam apenas Lady Silence (não vou explicar porquê), e numa última escolha Goodsir tem a oportunidade de deixar tudo para trás e ir com ela. A mim só me apetecia gritar-lhe: Vai! Foge! Nem penses duas vezes! Foi tudo muito rápido e Mr. Goodsir talvez precisasse de mais tempo para tomar essa decisão, que o afastaria do dever para com os camaradas, da Inglaterra, da carreira científica. É muito a pesar a um homem que vive para a ciência encarar a ideia de viver como os Inuit, no gelo primitivo. Mas torcei por ele até ao fim, mesmo até ao fim, para que visse a luz.
Não me lembro de uma série que me tenha conseguido fazer mudar de ideias sobre os personagens sem que haja grandes revelações ou reviravoltas pelo meio. Não foram eles que mudaram. O que mudou foi a minha percepção deles, porque os observei desde o ponto de partida, porque aprendi a conhecê-los, porque “senti” com eles a longa e imparável descida ao desespero.


O Tuunbaq
É consenso geral entre a crítica que o Tuunbaq foi o aspecto menos bem conseguido desta série. Mas dizer isto é dizer que o Tuunbaq destoa porque é “apenas” bom no que é de resto uma obra-prima. (Mas verdade seja dita, o CGI do monstro não é muito bom. Li algures que é muito difícil reproduzir um mamífero em computador. Por exemplo, os tigres de “The Walking Dead” e de “A Vida de Pi”, em que até nos momentos mais realistas se nota que não são animais a sério. O Tuunbaq sofre do mesmo problema. Conscientes desta limitação, os realizadores da série evitam mostrá-lo muito perto e muitas vezes, o que foi mesmo a melhor opção.)
Não era necessário acrescentar o Tuunbaq a uma tragédia verídica, e muita gente não gostou da ideia, mas confesso que não vi o Tuunbaq como somente um monstro e se calhar por isso apreciei a sua inclusão. Muito cedo se percebe que não é um urso polar. Uma das primeiras coisas em que reparei na sua fisionomia, muita perturbadora, é que este “urso-espírito” tem cara de pessoa. Isso mesmo. Cara de pessoa. O Tuunbaq não foi completamente explicado e existem muitas interpretações, mas aqui vai a minha: o Tuunbaq é o espelho do mal da humanidade que é seu dever aniquilar. O verdadeiro Mal que rodeia os sobreviventes da expedição não está fora, está dentro, e o Tuunbaq tem a cara humana do Mal. Outra interpretação defende que o Tuunbaq consome a alma das suas vítimas, e que o Mal consumido nessas almas foi a sua perdição. Não desgosto desta teoria porque bate certo com o tema geral de “The Terror”. Até ao próprio Tuunbaq, é a arrogância que o perde. Mais olhos do que barriga e isso tudo. Talvez tenha levado a vingança longe demais sem dar ouvidos aos shamans. Talvez tenha comido arrogância a mais, a arrogância dos intrusos, e como eles, e pelo mesmo motivo, condenou-se a si próprio.


Para ver e rever
“The Terror” mistura o drama naval com o terror. Se alguém duvida que pode ser feito, é só assistir. Não tenho senão elogios a dizer, desde a magnífica cinematografia (tão depressa o gelo branco e o céu escuro como o solo de pedra solta e os horizontes cinzentos de um sol implacável, já para não falar do detalhe e realismo do interior dos barcos) às excelentes performances dos actores que conseguem diálogos de dez minutos sem que se note o passar do tempo.
Uma nota especial para o som, que adquire tal importância, como, por exemplo, no ruído incessante do gelo a esmagar lentamente os barcos, que aconselho que se ouça com auscultadores (na falta de surround). É uma experiência única por si só. Até o genérico é uma obra de arte. Não bastando a perícia dos efeitos sonoros, saliento ainda a música sombria e sinistra do compositor Marcus Fjellström (falecido em 2017 com a idade de 38 anos).
Se há apenas uma coisa de confuso na série é a grande semelhança entre todos os personagens. Todos homens, da mesma idade, todos de uniforme, todos Mr. Isto ou Mr. Aquilo, todos com cortes de barba e cabelo idênticos, como é de esperar neste ambiente naval. Demora um bocado a conseguir distingui-los. Pelo fim da série, à medida que o elenco diminui, começamos a ter uma melhor percepção de quem é quem. Vai ser uma satisfação ver de novo e associar, desde o princípio, as caras e os nomes dos que chegaram ao fim e captar todos os pormenores de personalidade que me escaparam quando a tripulação ainda estava mais ou menos intacta.
É uma série difícil de se ver, sem dúvida, deprimente e pessimista, mas com momentos de uma beleza tão imensa que quase compensa o horror quando ele acontece. É mesmo caso para recordar uma das características do gótico: a beleza do horrível.


Adenda
Depois de escrever este artigo já tive oportunidade de ver de novo o primeiro episódio. Confirmo: ainda é mais interessante à segunda vez. Quem diria, de uma ficção baseada em acontecimentos reais de que já sabemos o resultado? Fantástica série.


sábado, 6 de outubro de 2018

Black Death / Morte Negra (2010)

O ano é 1348. O pano de fundo é o surto de peste bubónica na Inglaterra medieval. Eu esperava um drama histórico à volta da epidemia mas o filme anda mais no género Aventura a piscar o olho à Grimdark Fantasy.
O enredo é muito curto. A mando da igreja, um grupo de cavaleiros dirige-se para uma vila isolada em terreno pantanoso onde, segundo rumores, não só as pessoas são imunes à peste como existe um necromante que ressuscita os mortos. O que só pode significar que têm um pacto com o Diabo, obviamente. O objectivo do líder dos cavaleiros, Ulrich (Sean Bean, Boromir em “O Senhor dos Anéis” e Ned Stark em “Guerra dos Tronos”) é capturar e executar barbaramente esse herege. No caminho, alicia um jovem noviço como guia até à vila recôndita (Eddie Redmayne, que também conhecemos como protagonista da adaptação de ”The Pillars of the Earth”).



Chegando à vila em questão, é óbvio que algo de estranho se passa. Aqui não há pilhas de mortos a queimar ou enterrar. A igreja está abandonada ao pó e às teias de aranha e os residentes converteram-se ao paganismo. A pessoa mais importante da vila parece ser a bela Langiva (Carice van Houten, a Melisandre de “Guerra dos Tronos”). Obviamente, tem de ser uma bruxa.


O filme é brutal e cru do princípio ao fim. Morte não falta (natural ou provocada), violência muito menos, e outras nojices de revirar o estômago como os corpos cobertos de bubões purulentos. O filme salva-se à minha classificação de porno-tortura porque tem o bom gosto de não mostrar todos os pormenores tão explicitamente como podia ter feito. Nos instantes piores, a câmara afasta-se.
O que não quer dizer que este não seja um filme de violência gratuita, ou quase. Chegamos ao fim sem perceber qual era o objectivo. Afinal, por quem é que devíamos torcer? Os cristãos são fanáticos, maus e desleais. Os pagãos são desleais, maus e fanáticos. O jovem monge, o único que prometia ser uma pessoa decente, acaba tão mau como eles. A bruxa, afinal, é apenas uma curandeira que percebe de ervas e drogas. O piscar de olho à Fantasia, que o filme prometia desde o princípio, desfaz-se em explicações sherlockianas: não são ressurreições, são embustes (Teria sido muito mais interessante ter enveredado pelo sobrenatural.) O que sobra então deste filme? Todos são maus, a religião é má, a vida não é boa, a peste é pior. Tudo é negro como a peste.
Mesmo assim, o filme não é muito difícil de se ver graças ao bom gosto de evitar a porno-tortura. Promete mais do que oferece, mas oferece o bastante. No mínimo dos mínimos podemos regalar-nos com os cenários, o guarda-roupa, a fotografia. Tudo muito convincente do período histórico que representa, se não entrarmos em grande minúcia.
E os fãs da “Guerra dos Tronos” vão adorar o confronto entre este quase-Ned Stark e esta quase-Melisandre, disto tenho a certezinha absoluta. Eu, confesso, diverti-me.

13 em 20

sábado, 5 de maio de 2018

Vikings


(crítica às primeiras duas temporadas)


Como diria Kurt Vonnegut, um elemento primordial de uma boa história é ter pelo menos um personagem por quem torcer. Não precisa de ser o protagonista. Até pode ser o vilão. Há casos em que os personagens são todos tão maus, moralmente falando, que uma pessoa torce pelo vilão que tem mais hipóteses de acabar com eles. Como na Guerra dos Tronos, em que estou a torcer pelos zombies desde a primeira temporada. E depois há casos em que o vilão é mais interessante e moralmente superior do que os protagonistas, como Battlestar Galactica, em que igualmente comecei torcer pelos Cylons desde a primeira temporada.
E depois há coisas como Vikings, em que não se consegue torcer por ninguém. Ninguém. Ninguém. Nem protagonistas nem vilões, ninguém merece nada de mim. São todos tão maus, moralmente falando, que dou por mim a ver a série como visita de estudo ao século VIII: as roupas, as casas, a tecnologia (ou falta dela). E pouco mais. Vikings, série original do canal História, foi promovida como reconstrução histórica mas já me causou dúvidas bastantes para não a considerar assim tão rigorosa que se deva levar muito a sério.
Não me refiro ao protagonista. Ragnar Lothbrok é uma figura tão histórica como mítica. Tudo indica que existiu um Ragnar, mas os pormenores são tão lendários (até contraditórios) que não se sabe onde acaba a realidade dos relatos e começa a ficção dos sucessivos cronistas. Um pouco como o nosso Viriato. Existiu (?...), mas não se sabe quase nada sobre ele. O tipo de personagem histórica e lendária completamente propícia a ser romanceada.
O que me causa perplexidade é a tentativa de fazer os vikings tão monstruosos que custa ver seres humanos naquela gente. Um pouco como noutros séculos se descreviam os selvagens canibais. Tenho encontrado críticas bizarras em que se dizem coisas do género “a sociedade viking é-nos completamente estranha, mas conseguimos reconhecer nas personagens traços humanos e comuns como a luxúria, a inveja, a ambição”. Estas coisas são ditas para sublinhar a humanidade dos personagens. Isto é que é bizarro. Parece que estamos a ver uma série sobre alienígenas que até têm algumas coisas em comum connosco, humanos. Mas a verdade é que as críticas são bizarras porque a série se presta a isso. Tal é o exagero que é preciso esgravatar muito para encontrar nestes vikings alguma coisa que nos lembre que são seres humanos e não um qualquer povo ficcional de uma obra de Fantasia (eu diria Orcs, só que mais bonitos). E é por isso que não consigo “ir à bola” com a série. Demasiadas coisas em que a bota não bate com a perdigota.
Comecei a investigar, e descobri que o criador desta série, Michael Hirst, é um meu “conhecido”. Este foi o mesmo que tornou Os Tudors em tal porno-tortura que me estragou todo o prazer em ver a série. Muito antes de Guerra dos Tronos, muito antes de Spartacus, Os Tudors foram a primeira série de televisão em que vi porno-tortura descarada. Desconfio que este senhor tenha alguma coisa a ver com as tendências televisivas que se seguiram e que me têm estragado o prazer como espectadora. (Pode não ter sido só ele, mas *também foi ele*, motivo suficiente de rancor.) Mesmo assim, Vikings ainda não conseguiu ser tão psicologicamente doloroso como Os Tudors, o que é dizer qualquer coisa. E se calhar não conseguiu precisamente porque, ao contrário d'Os Tudors, baseado em pessoas reais, estes personagens quase nem parecem humanos. É como ver Orcs a chacinar outros Orcs. Ou seja, a série não me consegue afectar tanto emocionalmente porque os personagens estão tão mal concebidos que me custa interessar por eles. A juntar à porno-tortura, é basicamente porno-tv.
Apesar da pornografia sangrenta, a série consegue ver-se porque o enredo é minimamente interessante e baseado em acontecimentos reais.
Mas passo a explicar melhor porque é que a bota não bate com a perdigota.


Athelsthan
Oh, Athelstan, que grande desilusão me saíste! Athelstan podia ter sido o meu personagem preferido (o único por quem torcer). Monge raptado num saque viking e levado para casa de Ragnar como escravo, Athelstan foi os “nossos” olhos na sociedade pagã para que foi transportado, em que todos os valores são diferentes, alguns até opostos, à civilização cristã que é a dele (e a nossa, salvo os séculos que nos separam). Na estupefacção de Athelstan, no horror e repulsa que lhe causa o que observa, reconhecemos o nosso horror e repulsa. Sabemos que a vida de Athelstan pode estar por um fio e temos de torcer por ele. Mesmo quando, desenvolvendo um gigantesco caso de Síndrome de Estocolmo [se eu quisesse fazer uma chalaça chamar-lhe-ia Síndrome de Kattegat], Athelstan começa a “tornar-se” viking também. Inclusivamente participa numa batalha em que o pacato ex-monge se atira à chacina como antes se dedicava aos pergaminhos do mosteiro. Incoerente? Se Athelstan tivesse alguma inclinação pelas armas não teria escolhido uma ordem monástica de monges guerreiros? Talvez não, porque este seu novo “papel” na sociedade viking lhe garante a sobrevivência e, por último, a liberdade. Até aqui tudo consistente.
Mais tarde, Athelstan acompanha Ragnar a um saque na Inglaterra e por lá permanece, onde conhece o rei Ecbert. Começa logo aqui a inverosimilhança histórica. Acusado de ser um herege (devido à sua “conversão” ao modo de vida viking) a igreja decide crucificá-lo. Crucificá-lo, a um herege, como a Cristo, quando segundo a lenda até São Pedro pediu que o crucificassem de cabeça para baixo porque não merecia morrer como Ele?! Os criadores da história juram que encontraram pelo menos um relato de crucificação de um herege, e tendo em conta que era o século VIII e a informação não circulava muito bem, até acredito que um bando de energúmenos nunca tenha ouvido falar do caso de São Pedro (cuja morte não é contada na Bíblia) e tenha achado boa ideia crucificar um herege com a morte de Cristo. É possível. Improvável, mas possível.
Em Wessex, o rei Ecbert novamente coloca uma espécie de Síndrome de Estocolmo sobre a cabeça de Athelstan: salva-lhe a vida em troca de este traduzir pergaminhos romanos enquanto Athelstan mantiver o trabalho em segredo, uma vez que a igreja não aprovaria este interesse por literatura pagã. (Nem me parece que a ameaça fosse necessária porque o próprio Athelstan sabe os riscos que corre, mas vamos considerar que assim a série mantém o conflito aceso.) Athelstan está, portanto, nas suas sete quintas, a traduzir palavras dos filósofos e imperadores romanos.
Eis quando Ragnar aparece outra vez e lhe diz: “Quero que voltes”. E Athelstan volta só porque Ragnar pediu.
Oh Athelstan, que parvoíce foi essa?! Ragnar queria sacrificar-te aos deuses nórdicos, Athelstan! E tu trocas o trabalho histórico com os pergaminhos romanos por uma cultura de analfabetos?! Por uma vez na vida faço minhas as palavras do Floki, quando viu Athelstan de regresso a Kattegat: “Porque voltaste? Ninguém te quer aqui!” Nem mais! Athelstan, sei que não estavas muito bem em Wessex, e que vivias num mundo medieval e brutal, mas entre Wessex e Kattegat foi como saltar da frigideira para o lume. Não percebo e perdi todo o respeito por ti. Um homem como tu, aberto a novas culturas e não completamente avesso a pegar em armas, devia era ter fugido para a Península Ibérica sem olhar para trás. Foge, Athelstan, foge para a Moirama! Converte-te ao Islão (pelo menos têm o mesmo Deus), arranja um harém de odaliscas, treina o sabre, e verás o manancial de conhecimento que os Árabes guardavam nesse tempo e como apreciariam um monge que sabia falar latim, possivelmente grego, inglês (da época), francês (da época), e a língua viking. Athelstan, até te chamavam um figo! Em vez de fugires para onde te apreciem, vais de cavalo para burro de volta para a barbárie. Enfim, que dizer? És uma desilusão e não posso torcer por quem não torce por si próprio.
Até tenho a teoria de que secretamente o que Athelstan mais procurava era tornar-se mártir, o que explica também a sua fascinação pelo bilhete directo para o Valhalla oferecido pela cultura viking. Athelstan, como bom monge cristão, também quer um bilhete directo para o Céu.
Apesar de tudo, Athelstan continua a ser o personagem que mais me interessa. Foi extremamente divertido vê-lo alucinar, especialmente o diabo debaixo da cama. (Há muitos espectadores que detestam visões e alucinações, mas não me conto entre esses. Quanto mais visões e alucinações melhor.)


Floki
A minha antipatia por este personagem foi imediata, instintiva e visceral. Chamem-lhe elitismo, mas ver um gajo sanguinário apresentado com um visual de gótico drogado do início dos anos 80 não me caiu bem. Nem sequer foi a questão de que Floki me pareceu, desde a sua primeira aparição, como estando sempre em alta trip de cogumelos. Nem sequer a de parecer completamente alucinado mesmo sem cogumelos, isto é, maluquinho da cabeça. É mesmo a questão de ser sanguinário. Isto se calhar não me incomodava tanto se os outros vikings usassem maquilhagem semelhante, mas não usam (excepto os sacerdotes, mas Floki não é um sacerdote), e não percebo o que é que os criadores da série queriam com aquilo. Conquistar uma audiência gótica? A esta gótica conseguiram foi criar repulsa.
Por alguma razão que me ultrapassa, Floki tornou-se imediatamente um favorito do público (do público que se calhar nunca viu e delirou com o artigo original). Eu não gostei de ver imagética gótica misturada com violência (nada existe menos gótico do que a violência) e nada me tira daqui.
Considerações pessoais à parte, também neste personagem a bota não bate com a perdigota. Floki é apresentado como um pagão fanático e anti-cristão, o que soa estranhíssimo. Nunca foram os pagãos que tiveram problemas com os cristãos. Os pagãos adoravam vários deuses e conseguiam sempre admitir mais um. (Os Romanos, por exemplo, tinham uma estátua ao Deus Desconhecido.) Foram sempre os cristão a ter problemas com o panteão de deuses pagãos e a tentar impor o Único. Acredito que com o passar do tempo, e ao conhecer o fanatismo cristão, os pagãos tenham ganhado ódio aos cristãos (e com razão). Mas aqui bate o ponto. No início da série Floki não tinha tido contacto suficiente com a cultura cristã (e muito menos com o seu pior) para a odiar como a odeia. Este ódio fanático é inexplicável (o que é que ele tem contra o deus dos cristãos, afinal?), anacrónico (antes do tempo) e inversamente reflectido (são os cristãos que querem converter todos os pagãos, não ao contrário). O ódio religioso de Floki aparece sobretudo como motivo de conflito para a série, mas peca pela inexactidão histórica. Afinal a série era histórica ou nem por isso?


Lagertha
Quem é que não gosta de Lagertha? Lagertha é a boa mãe, a boa esposa, a boa soberana, a boa guerreira, a boa viking, e, não bastando, ainda é boa como o milho. Só é pena ser hipócrita.
Nota-se, principalmente na primeira temporada, uma tentativa dos criadores da série de tornarem mais simpática ao público moderno esta cultura bárbara de gente que matava, pilhava e violava. Lagertha é um grande exemplo desta tentativa, a personagem feminina forte,  independente e “sexualmente liberada” que forçosamente agrada às espectadoras do séc. XXI. Infelizmente, ao fazê-lo, os criadores criaram-lhe uma inevitável incoerência. Durante um saque, Lagertha chega a matar um dos seus próprios companheiros quando o apanha a tentar violar uma mulher saxã. O que só lhe fica bem. Mas qual é a verosimilhança de que Lagertha se importasse, se de facto participasse frequentemente em pilhagens e ataques? Ou Lagertha só se importa quando acontece à frente do seu nariz? Muito improvável, tudo isto. Ou Lagertha é hipócrita ou fecha os olhos quando não lhe convém ver. Mesmo admitindo que haveria entre os vikings mulheres guerreiras (facto não consensual na comunidade histórica) estas deveriam ser tão impiedosas como os homens (ou tal não seria a discussão no acampamento viking!). A existirem, estas mulheres deveriam estar habituadas a ver as vítimas como um “outro” não-humano, como presa (um pouco como se faz militarmente em que se usam os termos “alvo” e “danos colaterais” para não falar de pessoas). A posição de Lagertha contra a violação de outras mulheres, que a torna apelativa ao público, é ao mesmo tempo o que a torna hipócrita. A série bem quer, mas não consegue fazer milagres. E novamente não bate a bota com a perdigota.


Ragnar
Ragnar sofre das mesmas incoerências que apontei a Lagertha. Na tentativa de estabelecer um mínimo de empatia entre o protagonista e a audiência, Ragnar nunca é visto a cometer os actos piores a que os vikings se entregam. Quer sejam pilhagens, violações, torturas aos saxões indefesos, Ragnar mantém-se sempre à parte e bem longe dos pormenores mais sádicos e mesquinhos. No mundo real, os próprios companheiros o acusariam de se achar superior, mas na série tal afastamento nunca é colocado em questão. Por vezes, até parece bondade a mais. Lembro-me da cena em que se vê o bonzinho Ragnar a tentar esconder uma criancinha do barbarismo dos seus companheiros. Aqui, Ragnar está infectado da mesma hipocrisia que cega Lagertha. Enquanto salva a criancinha, não se preocupa que muito perto os pais da criancinha estão a ser chacinados e não se sabe se haverá mais alguém que tome conta dela num mundo em que ser órfão era dos piores destinos possíveis. Mas a cena funciona e até pensamos “que homem tão bom, tão ternurento!”. Só é pena ser um carniceiro.
Se durante os saques Ragnar é higienizado para consumo moderno, entre vikings não há qualquer escrúpulo em mostrá-lo como é de facto.
Qualquer vestígio de simpatia que o personagem me tivesse conseguido conquistar foi-se com o enredo envolvendo o seu inimigo Jarl Borg. Nem sequer foi a execução pornograficamente brutal, foi a falta de palavra. Ragnar convida o seu inimigo a sua casa prometendo-lhe tréguas. De boa fé, Borg aceita. Na calada da noite, Ragnar vai buscá-lo à cama, na presença da sua mulher grávida, e prende-o até ao dia em que decide executá-lo. Ora, Borg não é nenhum santinho, mas a má-fé e a desonestidade de assassinar um convidado debaixo do tecto do anfitrião não me podia cair pior. Pode ser a minha matriz ocidental judaico-cristã e pós-Romântica, mas tudo isto me pareceu desonestidade, cobardia e estupidez.
Mesmo esquecendo a minha cultura e tentando compreender a deles, continua a não fazer sentido. Se os golpes baixos eram tão comuns e tão socialmente aceites, Jarl Borg teria sabido disto e não teria aceitado o convite-armadilha de tão boa-fé. O facto de que aceitou (não sendo um anjinho nem um idiota) prova que este tipo de armadilhas não era comum. Ou era, e foi mostrado como se não fosse, o que em termos narrativos ainda é pior. (Novamente, a bota não bate com a perdigota.)
Mas voltando a Ragnar. Ao fazer isto, o personagem mostra não ter palavra (mau, muito mau!), e mostra cobardia (péssimo num líder viking, e ainda por cima injusto para o personagem, porque Ragnar consegue o seu título de Jarl precisamente num duelo corpo-a-corpo com o Jarl da altura e basta olhar para o físico dele para termos a certeza de que também dava cabo do Borg da mesma maneira), e mostra estupidez (vamos admitir que Ragnar quer ser maquiavélico: melhor do que assassinar um inimigo dentro de casa é mandá-lo matar na viagem, sem dar aspecto de mau anfitrião e de homem sem palavra, e sem sujar as mãos). Mas acho que era mesmo isto que os criadores da série queriam: mãos sujas, sangue a jorros, choque e porno-tortura. Não importa que o personagem pareça incoerente, mentiroso, desleal, cobarde e não muito inteligente. Na minha opinião, Ragnar até não merecia isto. Carniceiro sim, mas tudo o resto não.
Outra das falhas da série, na minha perspectiva, foi nunca terem explicado para que é que os vikings querem o ouro roubado. Ragnar diz, logo no primeiro episódio, que não adianta continuar a pilhar as terras a leste porque “são tão pobres como nós”. É esta a motivação que o impele a dirigir-se para oeste, de onde se ouve falar de tesouros fabulosos. Numa altura em que o dinheiro é praticamente inexistente, isto leva-nos a pensar que o saque tem de ser comerciado com alguém. Infelizmente, nunca vemos este comércio. Na minha opinião, seria mais interessante e educativo do que mais uma cena de porno-tortura.

Concluindo, esta é uma série que vejo por interesse mórbido, e para poder vir para aqui dizer mal. Não há uma única personagem com quem me consiga identificar minimamente (até o Bjorn, enquanto puto, se mostrava tão sanguinário como o pai) e por mim podiam bem morrer todos que o mundo até ficava melhor. Como não tenho por quem torcer, estou a torcer contra todos. Se calhar também sou uma grande sádica.

Uma última nota para os penteados: com aquelas rastas e aquelas tranças, a maioria dos personagens parece preparado para ir ao Festival Sudoeste. Excepto o Floki, que está sempre pronto para o Entremuralhas. Visualmente muito giro; historiamente delirante.

Mas falando de música, a música é boa. Adoro a canção “If I had a heart” dos Fever Ray e os temas folk dos Wardruna. Aconselho toda a gente a dar-lhes um ouvidela mesmo que não vejam a série.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Medici, Masters of Florence

 

Tudo o que disse aqui sobre o rigor histórico de “Victoria”, não poderei dizer sobre “Medici, Masters of Florence”. Desta vez, e para meu desgosto, em vez de uma representação verídica dos Medici, e se há bastante a dizer sobre os Medici!, novamente enveredaram por uma versão fantasiada e falseada sobre uma das famílias mais importantes do Renascimento. É pena. É sempre pena.
Pelo menos não deliraram a figura de Cosme de Medici como o fez “Da Vinci’s Demons” (série que eu via por masoquismo e na esperança de que o Da Vinci da série conseguisse chegar a Marte metido num barril de madeira movido a vapor de água, que foi só o que faltou) mas mesmo assim transformaram de tal maneira personagens, inclusive matando um deles que não morreu assim na vida real e cuja descendência se sentou no trono de França, o que não é coisa pouca, que mais valia terem feito uma série ficcional sobre uma família de nome parecido, os Mellinis ou algo que o valha, inspirada na vida dos Medicis.  Era mais honesto e menos irritante.
Para começar, Giovanni de Medici, pai de Cosme, nunca é assassinado, o que deita por terra todo o drama “policial” de descobrir quem o matou. E isto foi só o início. Desgosta-me assistir a séries históricas que não respeitam a História, e desgosta-me ainda mais quando o objectivo é criar um enredo mais violento, supostamente mais interessante, para ver se capta a audiência da Guerra dos Tronos.
Não bastou que o actor de Cosme seja Richard Madden, o Robb Stark King in the North da Guerra dos Tronos, como ainda foram buscar David Bradley, o Walder Frey da mesma Guerra dos Tronos, para fazer o papel do pai da sua noiva, Contessina, e combinar o casamento entre ambos numa cena fria e desagradável, levando toda a gente a pensar, inevitavelmente, no Red Wedding.

[Por falar em Guerra dos Tronos, quem tem saudades da Lady Olenna pode ver a actriz Diana Rigg na segunda temporada de “Victoria” como Duquesa of Buccleuch, num papel quase igual ao da Lady Ollena embora menos dramático e mais humorístico.]

Eu tinha muito interesse nesta série devido à importância que banqueiros como os Medici tiveram no despontar do Renascimento. Vi algo disto, mas queria ver mais. E havia mais para ver. Não havia necessidade de assassinatos que nunca aconteceram e de drama fantasioso. A realidade foi suficientemente interessante, e ainda nem chegámos ao Maquiavel!
Encontrei este artigo sobre todas as imprecisões da série, para quem quiser comparar: Medici Masters of Florence. Truth and Fiction in the TV series

Se nos conseguirmos esquecer disto tudo, é uma série que entretém. Mas não educa.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Game of Thrones / A Guerra dos Tronos (segunda parte)

(continuação da primeira parte)


*** CONTÉM SPOILERS, REVELA O FIM DA TEMPORADA***

As irmãs Stark
No primeiro episódio da série, Ned Stark encontra uma ninhada de lobos deixados órfãos por uma loba morta por um veado. O símbolo da casa Stark é o lobo, e existem seis crias, como os seis filhos de Stark. É uma ideia interessante que cada uma das crias venha a ficar interligada ao destino de cada um dos seus donos. O próprio encontro é um presságio da destruição da casa Stark pela casa Baratheon, cujo símbolo é o veado. Ao sacrificar o lobo de Sansa a pedido da família real, Stark prenuncia que Sansa será “sacrificada”, embora não em sentido literal (ou ainda não, a ver vamos). Arya, a filha rebelde, consegue fazer com que o seu lobo fuja à morte para nunca mais ser encontrado, como ela própria desaparece sem deixar rasto.
Sansa, muito diferente da irmã aguerrida, é uma jovem doce e ingénua que se vê prisioneira de gente sem escrúpulos enquanto assiste à morte do pai, à derrota do irmão e ao assassinato da mãe. Sozinha e sem ajuda, é, nas palavras de Lord Baelish, uma vítima, uma mera “espectadora” dos acontecimentos. Uma personagem assim passiva podia não cativar a simpatia dos espectadores, mas tem-lhe conquistado fãs a dignidade e a inteligência com que tenta sobreviver e aprender a jogar um jogo para que nunca foi preparada e para o qual não tem nenhum jeito. Sansa poderá ser a mais inteligente dos Stark e não é difícil que uma pessoa normal se identifique com ela.
Duvido que os autores tenham feito de propósito mas Sansa é um bom exemplo das leis do karma. Se acontecesse na vida real, não seria por acaso que conseguisse escapar a um tirano psicopata só para cair nas mãos de outro. Na vida real, seria expiação. Na história talvez seja apenas um grande azar, e ninguém queria ver mais desgraças acontecerem à pobre Sansa. Espera-se ansiosamente que esteja viva.


Arya Stark nem parece irmã de Sansa. Tem sido uma das minhas personagens preferidas desde que era apenas uma maria-rapaz que não gostava de bordar. Nem toda a gente aprecia ver uma menina inocente transformar-se numa verdadeira assassina movida a ódio e stress pós-traumático, mas não perdeu a minha simpatia. Parte de mim desejava (e ainda deseja) que o seu treinamento em artes mágicas, ou marciais, ou seja lá o que for que é aquele culto dos mortos onde ela foi admitida, a transforme numa ninja implacável. Infelizmente, muitos dos alvos na lista de Arya já morreram, mas haverá sempre mais.
Não gostei da morte de The Hound, que achei francamente descabida. The Hound e Brienne de Tarth discutem sobre qual deles tem mais direito de proteger Arya, que não quer a protecção de ninguém, e enquanto esta se afasta, sem intervir (o que não é nada característico da personagem, esconder-se enquanto outros decidem o seu destino), os dois preferem partir para a estupidez em vez de conversar (os personagens da Guerra dos Tronos preferem sempre partir para a estupidez) e The Hound fica ferido de morte, aparentemente. Grande pequena cabra que é, Arya rouba-lhe o dinheiro e vai-se embora. Mas compreendo a Arya. Depois de tudo o que viu, percebendo que só pode contar consigo própria, não é de lhe estranhar o egoísmo. Até porque Arya ainda não tem idade para reagir de outra maneira. Não é por nada que se diz daquela idade que é a idade do fanatismo, e sempre pensei que a história ia evoluir no sentido em que ela amadureceria naquela espécie de mosteiro onde aprenderia a ter paciência.
Não percebi o que aconteceu a Arya na casa do Faceless God. Ninguém percebeu! Se transgrediu alguma regra, ela não sabia dessa regra, nem ela nem nós! Espero bem que Arya não esteja morta e que os autores arranjem uma boa explicação para o que lhe aconteceu. Para estúpido e absurdo já nos basta “Under the Dome”! Até agora Guerra dos Tronos não caiu na tentação de escavar buracos em que se enterrar. Espero bem que não seja a primeira vez porque aquilo não fez sentido nenhum.


Uma aventura... Na Terra dos Mortos
Não gosto desta aventura infanto-juvenil em que o Bran se meteu com os outros dois adolescentes ainda em idade púbere, mais o Hodor, e mais o lobo. Parece uma aventura dos Cinco. Bran e o outro miúdo vidente decidem que têm de ir procurar uma árvore mágica, e lá vão eles, mesmo sem saberem porquê. Nada me irrita mais do que quando personagens fazem coisas sem saberem porquê. No fim da aventura, Bran encontra um homem muito velho que vive num subterrâneo debaixo das raízes de uma árvore e que promete ensinar-lhe muitas coisas. Aventura infanto-juvenil.
Ficámos a saber, contudo, que Bran tem o poder de possuir um animal com o poder da mente, e de possuir o próprio Hodor (cujo intelecto também não é superior a um animal), o que nos dá uma pista muito importante para o futuro. Se Bran consegue possuir um animal, não conseguirá também controlar dragões? (Os tais dragões de quem já nem a mãe deles dá conta?...)
Por outro lado, adoro o Hodor! Não é um personagem muito original, já vi semelhante não sei onde, mas às vezes invejo os Hodors e gostava de passar um ano sem dizer outra palavra senão “hodor”. A toda a gente, responder “hodor”, e um grande “hodor” para eles todos.
Espero que não matem o Hodor porque não sou a única fã. Da maneira que as coisas vão de mal a pior em Westeros até já há quem pense nisto:

Hodor ao Trono de Ferro!


Renly Baratheon e a rainha Margaery
Tinha muita pinta, o Rei Gay, mas infelizmente não há muito para dizer sobre ele tão depressa morreu vítima de magia negra da Red Witch. Já quanto à rainha Margaery, assim que a vi, e que a ouvi dizer “Eu quero ser a rainha!” tive logo o negro pressentimento de que vamos assistir outra vez à execução de Ana Bolena!


(Nathalie Dormer interpretou Ana Bolena nos “Tudors”, e até parece que o tempo não passou por ela. Pelo contrário, até parece mais nova e ainda mais linda! A actriz deve ser muito corajosa para se meter em duas destas seguidas!) Danadinhos para a maldade como são os autores, não vão repetir uma decapitação. Vão arranjar muito pior e mais chocante. No fim da quinta temporada, a rainha Margaery e o irmão Loras já foram parar aos calabouços da Inquisição lá da terra. O prognóstico é arrepiante.

Stannis, a Red Witch e o Senhor da Luz
Não apenas está Westeros cheio de psicopatas sádicos, como ainda há fanáticos religiosos por todo o lado. Nunca se pense que os autores se inspiram noutra coisa senão na realidade. Obviamente, estes fanáticos do Senhor da Luz, que adoram um só deus e queimam na fogueira os hereges, são inspirados sabemos muito bem em quem. Não é muito de estranhar que os tenham feito os mais odiosos. A série pode ter falhado em alguns desenvolvimentos, mas não falhou neste, e retrata muito bem o crescimento e implantação deste fanatismo levado a tal extremo que se até se pode ver nele a face do Mal. Melisandre, a sacerdotisa, usa uma mistura de religião e magia negra para meter na cabeça de Stannis que é o destino dele ser rei, o escolhido do Senhor da Luz.


Tudo termina de forma horrífica, quando Stannis queima viva a sua única filha, uma criança, na fogueira, em sacrifício ao Senhor da Luz, com a complacência da mãe da menina que só se arrepende tarde demais. Foi a cena mais chocante da Guerra dos Tronos, e uma das cenas mais chocantes que alguma vez se viu em televisão. Eu não gosto muito de ir comparar com os livros, mas tendo em conta a natureza da cena fui investigar e parece que isto não acontece no original. O que nos diz que os autores da série não olharão a meios para produzir efeitos chocantes. Desta vez, parece-me, foram longe demais. O que não significa que o personagem Stannis não tenha sido bem estruturado. Já se sabia que era um homem duro, capaz de tudo para atingir os seus fins, e que já tinha assassinado o irmão Renly, e que já tinha tentado sacrificar na fogueira um filho bastardo do Rei Robert (sobrinho de Stannis) que nem tinha nada a ver com a história, e que já tinha queimado na fogueira alguns parentes. Não é descabido que sacrifique a própria filha, a quem declarava amar, mas é mesmo por amar a sua filha que o sacrifício é valioso. Este vai ser o personagem mais odiado de todos os personagens odiados. Tentei imaginar que castigo merecia um homem que queima na fogueira a sua própria filha pela ambição de conquistar um trono, mas não consigo imaginar castigo suficiente que possa ser infligido por mãos humanas. Este é um castigo para Deus.
O sacrifício não resulta. Metade do exército deserta e Stannis é vergonhosamente derrotado. Sobrevive ao campo de batalha, apenas para ser encurralado por Briene de Tarth que jurou vingar a morte de Renly. No último segundo, não vemos que Stannis morreu. Há a teoria que Brienne não o matou porque o seu código de honra não lhe permitiria matar um homem ferido e indefeso (Brienne é a nobreza em pessoa). Por mim, espero que a Brienne tenha mandado a honra às urtigas e que apague a cara deste sujeito da Guerra dos Tronos.
Quanto à puta da Red Witch, Melisandre, pode morrer depois de ressuscitar o Jon Snow. Vai-me dar ainda mais gozo do que ver o Joffrey morrer, e só espero que não morra tão depressa como o Joffrey morreu.

Os Lannister
Tyrion matou o Lannister errado. Tywin, o patriarca, era um pai duríssimo, e pior ainda para o filho anão, que não considerava digno do nome de família, mas era um homem rijo que inspirava respeito. Os próprios inimigos o admitiam. Épica cena em que Tywin dá um sermão ao filho Jaime sobre o legado da família ao mesmo tempo que esfola um veado. É esse o seu legado, o homem que faz coisas, o homem que consegue coisas. (Grande interpretação de Charles Dance!)


Novamente o simbolismo do veado: Tywin Lannister consegue “eviscerar” a casa Baratheon e colocar os seus netos no trono. Com o desaparecimento de Tywin, um homem que sabia governar, o trono caiu nas mãos da víbora Cersei.
Cersei é uma sociopata funcional. (Para quem não sabe, e estas coisas deviam ser mais divulgadas, não existe diferença nenhuma entre os termos sociopata e psicopata. Os psiquiatras preferem usar ‘sociopata’ para não se confundir com psicótico, que, isso sim, é uma coisa completamente diferente. Também existe a tendência de chamar sociopata aos psicopatas menos óbvios, isto é, funcionais.) A maior parte dos sociopatas que nos rodeiam não são serial killers nem andam por aí a esfolar pessoas. São os sociopatas funcionais. Muitas vezes nem sabemos que são sociopatas se não lidarmos com eles intimamente. Outro mito é o de que os sociopatas/psicopatas são sempre muito inteligentes. Nem sempre, especialmente quando o narcisismo é tão grande que se sentem invencíveis. Cersei é uma víbora, mas uma víbora que serpenteia sem outro rumo excepto as vinganças mesquinhas que lhe ocorrem no momento. O que é que passou pela cabeça daquela cabra estúpida, só porque não gostava muito da nora, para dar poder à Inquisição lá do sítio sem pensar nas consequências? Às vezes os sociopatas lixam-se assim, excesso de confiança. O narcisismo pode provocar-lhes delírios de grandeza e invencibilidade. Com tantos telhados de vidro, a imbecil não pensou que ao dar poder a fanáticos religiosos estes se voltariam contra ela também! O que nos deu imenso gozo! Infelizmente, deixaram-na escapar! Os estúpidos dos fanáticos tiveram-na na mão e deixaram-na escapar! Ou felizmente, porque assim vamos assistir à vingança terrível com que Cersei vai atrás deles, e talvez Margaery e Loras se safem no processo?...


Joffrey, o tirano adolescente, é o psicopata sádico e disfuncional. Ao contrário do psicopata funcional, que aprendeu a passar despercebido em sociedade, o psicopata disfuncional dá logo nas vistas. Na vida real, sádicos descontrolados como Joffrey e Ramsey estariam na prisão. Joffrey não é apenas “mau” e “cruel”. Joffrey é mau e cruel sem razão e por prazer (os psicopatas não sentem empatia). Recordou-me sempre de Calígula, e de outros imperadores romanos loucos e fruto da consanguinidade. Nenhuma cena da Guerra dos Tronos me deu mais prazer do que a morte deste monstro que há muito tempo precisava de ser degolado. É sempre lindo quando os maus se matam uns aos outros. Fiquei um pouco desapontada com Cersei, porque tive esperança de que tivesse sido ela a envenená-lo ao reconhecer o monstro que tinha parido (ela própria admite a desilusão), mas, definitivamente, Cersei é incapaz de fazer algo de bom. Ou de inteligente.
Quanto a Jaime, o irmão-amante, demorei algumas temporadas a chegar a uma conclusão quanto a ele. Afinal, foi ele quem empurrou Bran da janela abaixo logo no primeiro episódio. Se lhe faltava compaixão, antes do cativeiro, e se regressou modificado, não deu para perceber. Mas Jaime revelou-se um homem intrinsecamente bom, apenas péssimo a escolher a quem amar. Alguma vez abrirá os olhos e conseguirá ver a irmã como ela realmente é? Será cego até ao fim?


Chegamos, finalmente, ao melhor.
Tyrion Lannister é uma das melhores personagens que tivemos tido o prazer de conhecer nos tempos recentes. Tyrion é tudo o que as outras personagens não são: profundo, complexo, interessante, imprevisível. Naquele vazio que são as personagens de Westeros e arredores, matar Tyrion seria uma perda irreparável. Não sei se mais alguém reparou, mas sendo inteligente, sem dúvida que é, Tyrion não precisa de ser um génio. Basta-lhe ser mais inteligente do que os outros todos, o que não é difícil. Não há ali nenhuma outra personagem que tenha o mesmo número de neurónios. (Deve ser solitário!) Tyrion impôs-se sem ser um sex  symbol, sem ser particularmente bonitinho, sem ser completamente bonzinho, sem aceitar nenhuma moral senão a sua.


Mas ainda não é, e não sei alguma vez será, a personagem que transcende os motivos mesquinhos de todas as personagens nesta história: inveja, sexo, ambição, cobardia, vingança. Todas as personagens são muito limitadas. Em tantas (porque são imensas!) nenhuma consegue transcender o mais básico da condição humana. Isto diz muito dos autores, não das personagens. Ninguém cria o que não consegue conceber.

O Rei dos Anões conhece a Mãe dos Dragões!
Já aqui me queixei muito da primeira temporada, mas vou queixar-me mais um bocadinho. Durante os três primeiros episódios, sempre que a Daenerys e o irmão dela apareciam eu não tinha ideia de quem eles eram! Só aí a meio da temporada percebi que tinham alguma relação com o Rei Louco, mas só na quinta temporada é que ficou claro que eram filhos do Rei Louco (até aí, permaneci na dúvida se seriam sobrinhos ou filhos e como é que tinham escapado). E durante duas temporadas, não consegui chegar a uma conclusão quanto ao que pensar de Daenerys. Que obsessão é aquela em reconquistar o trono de Westeros onde já não vive desde infância? De onde lhe vem a vontade de libertar os escravos? Será bondade, ou estratégia, visto que não tem mais ninguém a apoiá-la? Será um complexo de Spartacus? As motivações não estão explicadas.


Quando Robb Stark foi assassinado não tive alternativa senão começar a torcer por ela, mas Daenerys, como governante, é muito impreparada. Ela própria admite, o que prova que não é idiota: “Como é que eu quero reconquistar Westeros se nem consigo manter a ordem em Slaver’s Bay?”. É então que decide ficar por Mereen e governar. Mas Daenerys comete erros de quem não sabe nada de História. Ao retirar aos senhores de Slaver’s Bay o negócio dos escravos, esquece que está a arruinar a economia se esta não for substituída por comércio e outros sectores. Um bom governante sabe distinguir os amigos dos inimigos. Daenerys não faz a mais pequena ideia de quem são os seus aliados, culminando em atirar um dos “suspeitos” aos dragões, o que não podia ser mais contraproducente porque podia estar a vitimar um aliado. Além disso, ninguém gosta de tiranos. Em desespero de causa, Daenerys até pede conselhos à pobre Missandei, uma ex-escrava, que tem de lhe dizer, muito encavacada, que não é competente para a aconselhar (esta sim, tem neurónios!).
Adorei o episódio em que Tyrion chega a Mereen e dá a Daenerys uma tareia de inteligência tão grande que ela fica com o cérebro todo negro.


Diz ele, o que já me tinha passado pela cabeça tantas vezes: “Daenerys, mulher, porque é que tu queres voltar para Westeros? As coisas estão tão más, em Westeros, que até eu e o Varys, os dois homens mais inteligentes dos sete reinos, já nos pirámos de lá para vir aqui para o deserto no meio de nenhures. A sério, mulher, arranja uma vida! Já és rainha de Mereen, já moras no topo desta pirâmide toda fixe, vais voltar para quê? Olha que até os espectadores já estão tão desiludidos com Westeros que metade deles já está a torcer pelo exército dos mortos-vivos, e a outra metade pelo Hodor, e em Westeros ninguém te apoia!” Foi um êxtase! Felizmente, Daenerys não é burra nem louca como o pai dela, e aceita Tyrion como conselheiro.
No fim da temporada, um momento de loucura mirabolante. Encurralada pelos Filhos da Hárpia nos grandes jogos de Mereen, e sem o Spartacus e companhia para lhe safar o pêlo (mas tudo aquilo cheirava a Spartacus, outra série de sucesso, porque não aproveitar?), Daenerys salta para cima do dragão e vai com ele, pelos ares, sem saber para onde.

 Never Ending Story meets Jurassic Park

Agora ela já pode pôr no Facebook: “lol! nem sabem o que aconteceu a mimzinha! Tipo, eu não sei montar dragões nem nada, lol!, mas deu-me na cabeça e montei, e agora estou aqui no meio do nada e o meu fofinho não quer voltar para casa! LOL, estou tão perdida! Assim que voltar, vou comprar-lhe uma coleira com GPS! ;-) E vejam lá, nem sequer bebi nada! Nem um shot! Isto sou eu sóbria, nem queiram saber quando estou bêbeda, lol!”. Mas ela safa-se. Pode muito bem ser a única personagem a chegar viva ao fim disto tudo.
Até porque Daenerys não pode ser humana! Os seres humanos não são imunes ao fogo. Não me admirava nada que fosse um híbrido de extraterrestre, e que um dia destes mude de pele e a gente lhe veja o corpo de lagarto por baixo daquela aparência humana, como em “V”. Continuo sem saber muito bem o que pensar sobre ela. Ainda não estou convencida.
Os dragões são medonhos, parecem uma coisa saída do Parque Jurássico! Mas a mamã deles acha-os amorosos, o que é que se há-de-fazer?

Previsões para o futuro
Jon Snow vai ser ressuscitado!
Todos os maus vão morrer e vão ser substituídos por outra remessa de maus, ainda piores do que os primeiros.
O grande final vai ser o confronto entre o exército dos mortos e os dragões, controlados por Bran, a quem o velho do subterrâneo vai ensinar muitas coisas.
Jon Snow vai conquistar o Trono de Ferro e casar com a Daenerys, vão ter filhos lindos e vão viver felizes para sempre. (Esta teoria não é minha.)
Tyrion, Bronn e Jaime vão fugir para uma terra quente no fim do mundo e passar o resto da vida na borga! Era bom que levassem a Sansa com eles, que afinal é a esposa de Tyrion e as coisas entre eles até estavam a correr bem, e já era tempo de a desgraçada se divertir um bocadinho também! (Esta teoria é minha.)