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domingo, 28 de setembro de 2025

The Walking Dead: Daryl Dixon - The Book of Carol [segunda temporada]

[não contém spoilers relevantes]

Em França, Daryl e Isabelle continuam a proteger Laurent de uma dupla ameaça. Carol descobre o paradeiro de Daryl e atravessa o Atlântico de avioneta para ir ter com ele.
Vou ser muito honesta, nunca pensei que Daryl Dixon em França resultasse. A primeira temporada foi surpreendente e, na minha opinião, melhor do que o original estava a ser há muitos anos. Esta segunda temporada não foi tão boa como a primeira (especialmente por causa do enredo de Carol) mas aconteceram muitas coisas interessantes.
Os dois primeiros episódios são mauzinhos. O primeiro episódio é tão mauzinho que me lembrou o pior de "Fear The Walking Dead", que nas últimas temporadas eu só via para rir. O problema era pôr Carol em França, uma vez que era suposto que Carol estivesse nesta spin-off desde o início, mas não foi possível. E a maneira como isto é feito é risível. Carol anda à procura de Daryl. Em questão de dias, encontra quem lhe diga que Daryl foi levado para França e logo de seguida descobre um homem que tem um avião. Este tipo, Ash, não só tem um avião como tem combustível com tanta fartura que se dá ao luxo de dar uma volta de avião de vez em quando, em lazer. Sabemos mais tarde que já passaram 12 anos desde o apocalipse e que Ash tem andado de avião este tempo todo sem que apareça ninguém para o incomodar, num mundo em que as pessoas se matam por meia dúzia de rabanetes...

Mau começo
Carol tem de persuadir Ash a dar-lhe boleia para França, e para isso faz uma coisa terrível. Quando sabe que Ash ainda está a fazer o luto de um filho que perdeu, diz-lhe que a sua filha Sofia estava em França quando o apocalipse aconteceu e que poderá ainda estar viva. Nós já sabemos que Carol mente que se farta, mas uma mãe usar a memória de uma filha morta para manipular alguém, sem ser por razões de vida ou morte, é de uma mãe que não sofre com a memória. Mais tarde, Carol diz que usou a mentira para ser "convincente", mas acho que nem a própria actriz Melissa McBride ficou convencida porque não conseguiu convencer-nos. Isto foi muito mal feito. Por outro lado, e isto já foi mais bem feito, durante esta temporada Carol tem de confrontar-se com o trauma de perder Sofia. Pode parecer tarde, tantos anos passados, mas faz sentido. Carol é o tipo de pessoa que enfia a cabeça na areia em vez de lidar com os problemas e que, de certa forma, mente também a si própria. É natural que o trauma aparecesse para a assombrar mais tarde ou mais cedo. Eu admito que isto me trouxe lágrimas aos olhos. A morte de Sofia foi um dos momentos mais chocantes de "The Walking Dead" e nunca houve oportunidade de lhe fazer o luto como devia ser. Gostei muito que esta temporada tivesse dedicado tempo dramático ao assunto. Carol está a tornar-se uma personagem muito antipática, era altura de lhe devolver a humanidade que foi perdendo.
Mas de volta à acção, Carol e Ash preparam-se para partir. A minha questão foi: como é que aquele chaço velho vai atravessar o Atlântico? Não fui a única a questionar-se e alguém até foi perguntar ao ChatGPT se a viagem seria possível. O ChatGPT é mais optimista do que nós humanos e responde "possível, mas improvável". Nós humanos sabemos o que o ChatGPT não sabe, que tudo o que pode correr mal tende a correr mal. Ash e Carol só fazem uma paragem na Gronelândia (onde acontecem outras coisas interessantes, se bem que um bocadinho absurdas) quando deviam ter parado mais vezes para reabastecer, e isto sem contar com o pormenor de que não fazem ideia de onde reabastecer nem do que os espera. Esta viagem de avião podia ter sido uma aventura épica para ser credível, mas aqui até estou disposta a dar um grande desconto: não era essa a história, era preciso levar Carol para França o mais depressa possível, foram tomadas liberdades. A questão é mais: trazer Carol para a história desta maneira valeu a pena?
Lamento muito dizer isto mas acho que a história estava a correr melhor sem a Carol. Não sei se o problema foi o enredo ter sido planeado para Daryl sozinho (porque Melissa McBride não pôde estar no início) e tiveram de meter a Carol às três pancadas. Pareceu-me tudo muito forçado, começando no momento em que Carol decide ir para França só porque um marmanjo qualquer lhe disse que Daryl estava lá. Tudo o que acontece a partir daí foi "martelado" e conveniente. Basta dizer que Carol encontra Daryl em questão de dias, num continente diferente, durante o apocalipse zombie. Isto foi mauzinho, mas a série melhora bastante passando estes dois primeiros episódios.

Horrores do mundo real
Em França, o exército Pouvoir des Vivants continua a perseguir Laurent, um rapaz considerado por um movimento religioso, a Union de l’Espoir, como um novo messias. Nesta temporada descobrimos que os dirigentes da Union de l’Espoir também não são bons. Laurent é considerado um milagre porque nasceu de uma mãe zombie e é julgado imune ao vírus zombie, não por qualquer motivo científico mas apenas pela fé cega. Na temporada anterior assistimos ao nascimento. A mãe morreu no parto, transformou-se, e o bebé foi-lhe retirado, nada mais que isto. Os líderes da Union de l’Espoir querem submeter Laurent a uma cerimónia onde é mordido por um zombie para provar que é imune e "enviado por Deus". 
(Esta ideia já tinha sido abordada em "Fear The Walking Dead", em que o líder de uma comunidade era reverenciado por ter sobrevivido à dentada de um zombie, mas afinal não era uma dentada de zombie e era tudo uma falácia alimentada pelo próprio para "manter a ordem" no caos.)
Ou seja, Daryl e Isabelle passaram a primeira temporada a levar Laurent para uma armadilha. Agora estão todos dentro da armadilha e o Pouvoir des Vivants também anda atrás deles. Nesta temporada compreendemos melhor as razões do Pouvoir des Vivants, mas se uns são fanáticos religiosos os outros são fascistas. São todos maus e todos querem, no fundo, manter o poder sobre os seguidores. Até há algumas "bocas" políticas sobre a realidade actual que não costumavam aparecer em "The Walking Dead". Gostei, não estava à espera.
Também gostei dos paralelismos entre o Pouvoir des Vivants e os nazis, totalmente explícitos nesta temporada. Há uma cena arrepiante em que os prisioneiros são separados e transportados em camiões diferentes consoante o seu "valor" e o seu "fim". O cenário de França ajuda a invocar estes fantasmas.

Dépaysant
Por falar em cenário de França, uma das palavras de que Daryl gosta muito é "dépaysant", que significa algo como mudança de ares que faz uma pessoa ver as coisas de maneira diferente. Este spin-off teve esse efeito positivo no universo The Walking Dead. Continuo a dizer que "Daryl Dixon" nem precisava de enredo, a gente via só pelos zombies e pelos cenários. Os cenários são tão bons, mas tão bons, que somos levados a perdoar os problemas de realismo como a viagem de Carol. Nesta temporada destaco as cenas no Louvre, que foram mesmo filmadas no Louvre (fui confirmar), e as cenas no Mont Saint Michel e nas catacumbas. Não é todos os dias que vemos zombies no Louvre. Genet, a líder do Pouvoir des Vivants, e sua braço-direito Sabine (que aqui, coitada, tem cara de Estaline, e não inocentemente) eram empregadas de limpeza no museu quando aconteceu o apocalipse. Isto permite-nos ver mais cenas do início do apocalipse, e adorei! Os primeiros zombies, o primeiro pânico, a sociedade a colapsar. O início foi sempre a minha parte preferida e, de certa forma, tenho apreciado ver poucas cenas polvilhadas pelos diferentes spin-offs para não perder o impacto. A Mona Lisa também se torna, de certa maneira, uma personagem, um símbolo de poder. O interesse deste spin-off em França (ou na Europa em geral) sempre foi abordar como diferentes culturas se adaptavam ao apocalipse zombie. Tenho a certeza de que esta interpretação está cheia de clichés e de que nada disto aconteceria assim na vida real, mas admito que está bem pensado da perspectiva de alguém de fora. Eu fiquei muito nervosa com o perigo de acontecer alguma coisa à Mona Lisa. 
Como já disse na análise à primeira temporada, a opção de colocar Daryl em França parecia descabida mas funcionou pelo contraste. Daryl caiu de pára-quedas no ambiente cultural mais sofisticado que ele já tinha visto fora da televisão, sem falar uma palavra de francês, e tem-se aguentado com muito estilo e sem deixar de ser ele próprio. Isto revela características de Daryl que não lhe conhecíamos porque nunca tinha sido preciso mostrá-las: abertura de espírito, adaptabilidade, e um à-vontade que era muitas vezes ofuscado por outros protagonistas mais espalhafatosos. Esta spin-off está a fazer justiça a Daryl Dixon.
Por outro lado, ter Daryl e Carol em França deu azo a momentos de humor muito bem conseguidos e até patuscos, como Daryl a ensinar-lhe francês ou a cara de Carol quando entrou no Demimonde em Paris. O Demimonde é um bar que podia existir nos nossos dias, com dançarinos exóticos, travestis e temas bondage (e que se imagina muito mais excessivo depois do apocalipse zombie, mas para manter a série acessível ao público mais jovem não há verdadeira nudez nem nada do que poderia haver). Carol e Daryl vêm de um meio culturalmente limitado e puritano. Nenhum deles fala no assunto, mas a cara de Carol diz tudo.


Os melhores zombies de Hollywood...
"Daryl Dixon" não desilude neste campo. Os zombies continuam a ser do melhor que há. Destaco os zombies da Gronelândia e do Túnel da Mancha, onde vemos zombies bioluminescentes, fantásticos, devido a um tipo de fungo.
Os super-zombies do Pouvoir des Vivants também estão mais aperfeiçoados. Afinal sempre andavam a tentar criar soldados zombies. Ainda não conseguiram controlá-los (e aposto que nunca irão), mas o soro das experiências está a torná-los mais estáveis e perigosos. Nesta segunda temporada os super-zombies já não explodem, como acontecia na primeira, embora continuem a matar-se uns aos outros, o que não dá grande exército. 
Agora que já vi "The Walking Dead: The Ones Who Live" e "The Walking Dead: World Beyond", a minha teoria de que a CRM (República Cívica) e os cientistas franceses estavam a trabalhar em conjunto ainda faz mais sentido. O universo The Walking Dead tem alimentado este enredo às pinguinhas e, devo admitir, até ficaria muito surpreendida se tudo batesse certo ao longo das diferentes spin-offs, mas a verdade é que pelo menos não se têm contradito.
Se há uma coisa que tem sido topo de gama e consistente na franchise toda, desde o primeiro episódio, é a qualidade dos zombies. Se há outra coisa consistente é a estupidez selectiva dos personagens, que os coloca em maior perigo do que deviam correr.

... e a estupidez selectiva
"The Walking Dead: Daryl Dixon - The Book of Carol" volta a ter um momento de extrema estupidez como já não víamos há muito tempo. Ash fica preso num carro cercado de zombies. Nestes casos, o que Daryl e Carol costumam fazer é atrair os zombies para outro sítio para resgatarem a pessoa. Aqui, estupidamente, enfiam-se no carro também. Ficam os três presos dentro do carro, cercados por zombies. Isto é um erro de iniciantes do apocalipse que Carol e Daryl já não cometeriam. Mas a série quis mostrar um ambiente claustrofóbico e tenso de dentro do carro e achou boa ideia sacrificar a inteligência de Daryl e Carol. Nem era preciso. Ash é um bocadinho iniciante, servia para fazer a cena, e ninguém acredita que aconteça alguma coisa a Daryl e Carol devido ao plot armour. Então para que é que aquilo serviu? Porque é que esta série gosta tanto de se auto-sabotar? Não percebo. Este era o tipo de disparate totalmente evitável e desnecessário.

Linha temporal
Em "The Walking Dead: Daryl Dixon - The Book of Carol", Carol diz que Sofia morreu há 12 anos. Isto deixou-me um pouco perplexa porque tinha a ideia de que já tinham passado pelo menos uns 15 anos desde o apocalipse. Em "The Walking Dead: Dead City", o filho de Maggie já tem 15 ou 16 anos, pelo menos, e Hershel já nasceu pelo menos um ano depois do apocalipse. Isto pode significar que "The Walking Dead: Dead City" se passa mais à frente do que "Daryl Dixon", mas vou deixar esta nota aqui para o caso de ser preciso confirmar.

Geralmente os últimos episódios não são brilhantes, mas neste caso destaco o último episódio como um dos melhores. O começo de "Daryl Dixon - The Book of Carol" foi atabalhoado, sim, e a série foi caindo em alguns maus hábitos que a primeira temporada conseguiu disfarçar melhor (como a chegada de Daryl a França, que também não é de recomendar), mas foi melhorando ao longo dos episódios e o final conseguiu resolver o enredo de modo muito satisfatório e abrir espaço para novas aventuras na terceira temporada. Continuo a dizer que o ponto forte desta spin-off foi a mudança para um cenário completamente diferente (o tal dépaysant) e que ia ser muito divertido ver o apocalipse zombie noutros países da Europa e do mundo.
Nem é preciso mais nada. "Daryl Dixon" já é a minha spin-off preferida.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies

domingo, 22 de dezembro de 2024

The Walking Dead: The Ones Who Live (2024)

 

De todas as spin-offs que saíram de “The Walking Dead”, esta era sem dúvida a mais aguardada: o que aconteceu a Rick quando A Senhora da Lixeira/Jadis/Anne o levou de helicóptero, e a reunião com Michonne, que deixou tudo para o ir procurar. De certa forma, estes seis episódios são o verdadeiro final da série original, a conclusão da história daquele que foi o protagonista desde o primeiro momento, Rick Grimes.
Os fãs já desconfiavam, pelo que nem é um spoiler. Rick foi levado por Jadis para a CRM, que alguém traduziu melhor do que eu como Exército da República Cívica, o que não significa nada porque não é uma república e muito menos cívica.
Comecemos já por aí. Não é preciso ver “The Walking Dead: World Beyond” (a spin-off “adolescente” de “The Walking Dead”) para compreendermos a CRM, mas quem viu já ficou perfeitamente elucidado quando a CRM destruiu toda a cidade de Omaha, uma cidade aliada, e o seu Campus Universitário cheio de jovens. Em “The Ones Who Live” ficamos a perceber a ideologia subjacente a esta chacina: em primeiro lugar, este exército tem a sua base em Filadélfia, cidade que sobreviveu ao apocalipse e que é supostamente a tal República Cívica mas na verdade é a ditadura militar da CRM (Civic Republic Military). Segundo a CRM, a sobrevivência e segurança da cidade dependem do maior segredo em torno dela, pelo que quem lá entra já não é autorizado a sair e quem tenta fugir é abatido. Isto explica, finalmente, porque é que Rick nunca conseguiu regressar a Alexandria apesar das muitas tentativas de fuga. Rick não foi apenas levado, mas raptado e mantido em cativeiro, forçado a tornar-se um cidadão e, posteriormente, soldado da CRM. Jadis conseguiu que a CRM o aceitasse classificando-o como um “B”, isto é, um seguidor. Os “As”, os líderes, os que pensam pela própria cabeça, são abatidos, à semelhança da ideologia dos Khmer Rouge.
Mas a CMR é capaz de atrocidades piores, como já se viu em “World Beyond”. A princípio aliados de Omaha e Detroit, sem que estas duas cidades conhecessem a base da CRM, o exército decide pura e simplesmente bombardear Omaha, e Detroit está na calha a seguir. Porque é que a CRM bombardeia os seus aliados? Porque tem uma ideologia, a que só posso chamar nazi, de terra queimada: destruir o mundo velho para criar o novo, com pessoas submissas, que não se insurjam, que não questionem, dispostas a abdicar da liberdade em troca de segurança. A missão da CRM é, efectivamente, destruir todas as comunidades do país, e, a acreditar no que vimos em “The Walking Dead: Daryl Dixon”, em que tudo indica que a CRM tem ligações à Europa, talvez até do mundo (o que é confirmado aqui em “The Ones Who Live”). O mais grave é que a CRM, organização que herdou o poderio militar do exército dos Estados Unidos, tem à sua disposição os meios para o fazer. Nunca “The Walking Dead” conheceu um adversário tão temível e perigoso. Disto tudo, conseguimos perceber que “The Ones Who Live” faz a ligação com outras spin-offs e a série original.

A “escrita Gimple”…
Infelizmente, tenho de confessar que de entre os spin-offs do pós-Walking Dead, “The Walking Dead: Daryl Dixon”, “The Walking Dead: Dead City” e até “Tales of the Walking Dead”, “The Ones Who Live” foi do que gostei menos, e, lamento dizê-lo, porque foi o que me recordou mais dos problemas narrativos de “Fear The Walking Dead”. “Fear The Walking Dead” tornou-se uma coisa tão absurda que eu já só via para me rir e para ler as críticas a gozar com a série e rir mais. Em comum a “The Ones Who Live” e “Fear The Walking Dead” está a escrita de Scott Gimple, o mesmo que conseguiu arruinar a série original antes que Angela Kang tomasse as rédeas em modo de “controlo de danos” e tentasse endireitar o enredo e as personagens na medida do possível.
Em “The Ones Who Live” nota-se perfeitamente a “escrita Gimple”. Por exemplo, no segundo episódio, que eu detestei completamente, Michonne está à procura de Rick e encontra uma comunidade. Uma dúzia de pessoas preferem acompanhá-la. Michonne torna-se próxima de alguns destes personagens, e é suposto que os achemos simpáticos, mas 10 minutos depois estão todos mortos e nem conseguimos decorar-lhes os nomes quanto mais simpatizar com eles. Antes disso, porém, avisam Michonne de que existe uma horda de zombies de 5km de largura entre ela e o seu destino, e que ela devia antes esperar que a horda se deslocasse. Mas Michonne tem pressa e decide romper por entre esta horda descomunal sozinha, a cavalo, no que seria o seu suicídio e o “suicídio” do cavalo. Nunca perdoarei que tivessem posto Michonne a fazer esta estupidez. Mais tarde, à medida que se aproximam da CRM, Michonne e os viajantes são bombardeados com gás de cloro. Morrem todos, menos Michonne e um único sobrevivente, e ambos passam um ano inteiro num centro comercial a recuperar das queimaduras nos pulmões e na garganta, apenas com um tanque de oxigénio. Nem sei se isto é possível, mas na “escrita Gimple” tudo é possível, até uma espécie de radioactividade selectiva que só afecta os personagens quando dá jeito ao enredo (não estou a inventar, é só ver “Fear The Walking Dead”). Mais tarde ainda, no mesmo episódio, que já vai atribulado, Michonne chega ao fim das pistas que seguia em busca de Rick, fica desanimada, chora, decide voltar para casa. Já no caminho para casa, por coincidência, dá de caras com ele. É mesmo assim, Michone não encontra Rick, encontram-se por acaso. Ora, eu acho que se podia ter arranjado uma histórinha qualquer com os personagens desta comunidade, em que eles ajudassem Michonne a combater os zombies e a descobrir pistas que a levassem a Rick, sem que ela passasse um ano enfiada num centro comercial e sem que os dois se encontrassem só porque o enredo assim ditava. Péssimo, péssimo episódio.
Mas passemos à frente. Sem cometer muitos spoilers, direi apenas que Rick não quer regressar com Michonne porque isso faria com que a CRM o seguisse e destruísse Alexandria, e Rick acredita que tem de ficar para trás para o impedir. Na verdade, Rick está a ser chantageado por Jadis, que pertence à polícia militar como sabemos de “World Beyond”, e que tem as suas razões para que ele fique. Se Rick fugir, Jadis revelará a localização de Alexandria. Por outro lado, depois de anos de cativeiro traumático, Rick acaba por ser convencido por Okafor, um oficial da CRM, de que conseguirão mudar a ideologia da CRM por dentro. É isto que Rick pretende fazer: ficar, proteger Alexandria e trabalhar para mudar a CRM. Obviamente, Michonne não anda à procura dele há uns dois anos para o deixar ficar, e atira-se com ele de um helicóptero abaixo, sem pára-quedas, em mais um “momento Gimple”. Foi uma sorte terem caído na água porque não se notou que Michonne estivesse a prestar atenção a esse “pormenor”.

… e a boa escrita…
Chegamos ao meu episódio preferido da série, escrito pela própria Danai Gurira (Michonne). Não fazia ideia de que Danai Gurira escrevesse para teatro e televisão, mas depois disto teria sido melhor que ela tivesse escrito a série toda. Esquecendo a coisa do helicóptero, que é melhor não lembrar, Rick e Michonne encontram refúgio num edifício que parece ter escapado às pilhagens do apocalipse e que ainda tem electricidade e água corrente (mais um momento improvável), e aqui, sozinhos, desatam numa discussão das antigas, com acusações, recriminações e gritaria, e foi tão tenso, tão realista, que eu cheguei a temer que houvesse porrada, e na verdade até houve um empurrão. Michonne revela que Rick tem um filho que não conhece, e que RJ tem quase 8 anos. Isto indica-nos que Rick esteve desaparecido durante uns 9 anos. Depois de quase uma década de separação, Michonne não reconhece o homem à sua frente nem reconhece as suas razões. A briga torna-se tão feia, mas tão feia, que ela o deixa. Ela deixa-o! Adorei este episódio em que pela primeira vez vimos a mulher de carne e osso, vulnerável e magoada, por trás da heroína da catana. Confesso que nunca acreditei muito na relação entre Rick e Michonne, sempre pensei que tinha sido uma coisa de conveniência (eu estou sozinho, tu estás sozinha, é o fim do mundo, não há muito por onde escolher, e nós até nos damos bem, porque não juntamos os trapinhos?) mas uma coisa que “The Ones Who Live” conseguiu foi vender-me este romance, e isto graças a este episódio escrito por Gurira. Sei que muitos fãs se vão queixar e dizer que é “telenovela”, mas sobre eles falo depois.
O que acontece a seguir já não me agrada tanto. Rick e Michonne fazem as pazes e decidem ir destruir a CMR, sozinhos contra o mundo. Aqui aproveito para falar na representação de Terry O'Quinn, o John Locke de “Lost”. (Aliás, as representações são todas muito boas, e saliento igualmente Pollyanna McIntosh como Jadis. Se esta série vale alguma coisa é graças aos actores, não ao enredo.) Terry O'Quinn, como dizia, lembra-me um pouco Bryan Cranston de “Breaking Bad”, ambos com aquele arzinho sonso de quem nem sabe que é actor e que está num filme. Terry O'Quinn não tem muitas cenas mas quando aparece causa impacto no papel do Major General Beale, o topo da hierarquia da CRM, que num briefing a Rick expõe todos os planos secretos da organização: a CRM tenciona destruir os aliados e comunidades pelos recursos e superioridade numérica, tem espiões em todo o mundo para influenciar as políticas e sabotar os aliados (como vimos em “Daryl Dixon”), e é possivelmente a maior força militar do continente ou até do mundo. Só assim a CRM acredita que é possível salvar a raça humana da extinção.

… e o regresso à “escrita Gimple”
Rick e Michonne têm um plano: expor a CRM perante o Conselho da cidade de Filadélfia e as pessoas da cidade revoltar-se-ão. Afinal existe mesmo uma República Cívica e um Conselho, mas, admitamos, este plano é infantil. Este Conselho não manda nada, quem manda é a CRM, o que o torna um governo fantoche. A CRM tem oficialmente 17.000 efectivos, fora a polícia militar e as forças especiais e secretas, tem uma hierarquia militar com muitas chefias espalhadas pelo país, tem helicópteros, veículos, combustível, provavelmente até tem acesso a satélites ainda em funcionamento e talvez até ao arsenal nuclear pré-existente. Para derrotar Negan e duas ou três centenas de capangas e associados, uns bandidos de beira de estrada, foram precisas duas temporadas e dezenas de pessoas. Sobrepondo estes cenários, onde é que alguma vez Rick e Michonne, sozinhos, poderiam derrotar um exército com ramificações mundiais? Em “Daryl Dixon” ninguém pôs Daryl a superar o exército Pouvoir des Vivants sozinho; ele ajudou, mas não tinha conseguido nada sem a Resistência e numerosos aliados. E isto faz logo de “Daryl Dixon” um enredo de maior qualidade do que temos em “The Ones Who Live”, infelizmente, porque este spin-off é mesmo o verdadeiro final de “The Walking Dead”.
Quando a série acabou eu pensei: “Ok, isto não pode ficar assim. Quando é que começa a nova temporada?” Não há nova temporada planeada. É mesmo para acabar assim. Não vou dizer como termina, apenas que a levar a sério é ridículo e infantil. Prefiro considerar que não é um “felizes para sempre” mas um “felizes por agora”, e tirei da cabeça qualquer vontade de uma segunda temporada.
Acho a CRM maléfica uma história fascinante mas, sinceramente, não acredito que a série tenha o orçamento e a criatividade para se meter numa saga em que é travada uma guerra mundial, muito embora “Daryl Dixon” já tenha deixado algumas pistas de como fazer isso. Desde que não entre a “escrita Gimple”, talvez eu me engane.

O grande problema de The Walking Dead não são os zombies
“The Ones Who Live” ajudou-me a tecer algumas reflexões sobre o universo Walking Dead em geral. Desde a segunda temporada da série original que tem havido uma cisão entre os fãs que gostam do realismo e do drama (como o episódio da discussão entre Rick e Michonne) e os fãs que só querem sangue e miolos (como o episódio de Michonne a cavalo contra uma horda de zombies) e que acham que o drama é uma “telenovela”. Penso que a série sofreu devido a esta cisão, tentando agradar a uns e outros e não agradando a ninguém. Quando “The Walking Dead” estreou, quase há 15 anos, havia uma distinção muito clara entre séries dramáticas e séries de acção, distinção que já não faz sentido hoje em dia e que, ironicamente, “The Walking Dead” ajudou a destruir. No entanto, em todo o universo Walking Dead, nota-se claramente que há duas linhas de escrita: a irrealista e estapafúrdia que faz uma mulher inteligente atirar-se de um helicóptero sem pára-quedas, e a dramática e realista que aborda o aspecto emocional dos personagens. Tenho para mim que quem escreve os episódios delirantes, como a radioactividade selectiva, preferia estar a escrever sobre super-heróis para um público infantil ou pouco exigente que só quer ver bonecos de acção. Como a série se destina a adultos e os personagens são de carne e osso, acontecem coisas absurdas como “Fear The Walking Dead”. E desta forma “The Ones Who Live”, com o protagonista principal da saga inteira, conseguiu ter um enredo mais fraco do que “Dead City”, uma série que aliava Maggie e Negan e pela qual eu não dava mesmo nada, mas que funcionou porque o enredo não era completamente estrambólico e as motivações das personagens eram sólidas. Sim, é possível ter drama e acção sem cair no ridículo, mas não com desvarios de super-heróis sozinhos contra o mundo.
De “The Ones Who Live” salva-se o episódio escrito por Danai Gurira, um dos melhores da saga toda, um final para a história de Rick, a integração dos enredos de várias spin-offs, e o grande potencial que existe na ameaça planetária que é a CRM (oxalá houvesse meios para o desenvolver). Mas, pelo menos, não morreu nenhum cavalo.
Peço desculpa pelo testamento, tive de referir várias sub-séries para explicar onde queria chegar e mesmo assim acho que me esqueci de qualquer coisa.

PS: Descobri que Pollyanna McIntosh cresceu, em parte, em Portugal, o que é sempre interessante saber.


ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, Fear The Walking Dead, The Walking Dead: World Beyond, The Walking Dead: Daryl Dixon, The Walking Dead: Dead City, Lost, zombies, pós-apocalíptico


terça-feira, 24 de outubro de 2023

The Book of Eli / O Livro de Eli (2010)

Contém MUITOS spoilers. Quem gosta de filmes pós-apocalípticos e ainda não viu este deve parar de ler imediatamente e voltar depois. O aviso está feito.

O filme até começa bem. No género “pós-apocalíptico”, um viajante solitário é obrigado a sobreviver como puder. Trinta anos depois de uma guerra nuclear que destruiu o planeta (a palavra “nuclear” nunca é dita mas aquelas crateras e os fumos radioactivos não terão outra explicação…?) a água potável é rara e valiosa e já se acabaram os produtos de higiene como champô e sabonete. A cinematografia é espantosa e coloca-nos imediatamente neste mundo devastado, o que teria muito mais impacto se o género “pós-apocalíptico” não se tivesse tornado uma moda que vimos todos os dias…
Logo nos primeiros minutos do filme percebemos que este Eli é um durão. (Na verdade não temos a certeza se ele se chama Eli, apenas que tem um crachá na mochila a dizer “Olá, eu sou o Eli”, por isso vamos chamar-lhe assim.) Neste mundo há canibais e salteadores, e Eli é atacado por um gangue de 5 ou 6 que o querem roubar e possivelmente comer. Eli, armado apenas com uma catana, dá cabo deles todos, mesmo tendo um deles uma serra eléctrica a funcionar! (Vai ser importante mais à frente.)
Como acontece neste tipo de história, Eli sobrevive do que caça e do que encontra em locais abandonados. À noite, depois de procurar abrigo, gosta de ler um livro “misterioso” e de ouvir música num dispositivo electrónico. É este último “vício”, quando a bateria descarrega, que leva o solitário Eli a procurar uma povoação do tipo faroeste onde a recarregar. (Nota curiosa: o dono da loja de engenhocas é Tom Waits, o músico!)
É aqui também que aparece o vilão, o chefão lá do sítio, que tem todos os capangas à procura de um livro “misterioso”. Obviamente, este é o livro raro que Eli traz na mochila.

Último aviso: SPOILERS!!!
O chefão diz que este não é apenas um livro mas uma arma. Que com as palavras deste livro, que ele recorda de antes do apocalipse mas não lembra de cor, vai conseguir controlar toda a gente desesperada que ainda resta no mundo.
É aqui que está o “spoiler”. O filme quer fazer disto uma grande revelação. Que livro “misterioso” é este? Vou dar umas pistas. Logo nos primeiros minutos do filme, Eli faz citações bíblicas. O livro é grosso. Tem uma capa preta. Na capa tem uma cruz dourada. Qual livro será, qual será? Eu, sinceramente, tive esperança de que fosse o Necromicon de H. P. Lovecraft ou algo ainda mais obscuro. Mas não, é apenas a Bíblia. Acontece que após a guerra apocalíptica os sobreviventes queimaram todas as Bíblias por acharem que esta tinha contribuído para a guerra, ou que tinha sido mesmo a sua causa (e não podemos dizer que estivessem muito enganados…). As poucas Bíblias que escaparam são raras, e Eli tem uma. Assim que se apercebe disto, o chefão decide fazer tudo para lhe deitar as mãos, a bem ou a mal.
Cá está a metáfora, senhores e senhoras: a Bíblia é uma arma porque a religião é uma arma. Nem sequer é uma metáfora implícita porque o chefão verbaliza estas palavras aos capangas: este livro não é só um livro; é uma arma.
Aqui, comecei a ficar apreensiva. Estávamos num filme apocalíptico que de repente começa a virar no sentido evangélico. Mas vamos lá ver no que vai dar.
Bem, vai de mal a pior. Eli recusa entregar o livro, e diz mesmo a uma aliada que faz pelo caminho que ouviu “uma voz”, uma voz que o mandou ir para Oeste e proteger o livro até encontrar um lugar onde o possa deixar em segurança. Voz de Deus, alucinação? Preferi acreditar na alucinação porque já não estava a gostar nada da direcção em que o filme teimava em ir.
Perseguido pelo chefão e os capangas, mas auxiliado pela nova aliada, Eli continua a dirigir-se para Oeste. Entretanto temos umas cenas de porrada e tiroteio na estrada, à Mad Max, e Eli acaba por perder o livro. Mas, aleluia!, o final é tipo “Farenheit 451” e Eli, afinal, não precisava da Bíblia porque a tinha decorado toda! Assim, quando encontra novamente a civilização, exactamente onde a Voz lhe disse para ir, consegue recitar todas as palavras, versículo a versículo, qual Moisés apocalíptico.
Sim, leram bem, o objectivo deste filme é salvar a Bíblia, dê por onde der.
Mas há pior!



O pior
Ainda bem que não me apercebi disto. Quando li as críticas até me caiu o queixo. Então não é que Eli é supostamente cego? E não é que eu não dei por nada? E não dei por nada porque o filme quer fazer disto uma outra “revelação” chocante, e tenta por todos os meios enganar-nos para não o percebermos até à “grande revelação” de que a Bíblia de Eli sobreviveu à queima porque… está em Braille! Logo, Eli é cego.
Este é o gajo que dá conta de 5 ou 6 marmanjos, um deles com uma serra eléctrica. Este é o gajo que anda a direito numa estrada sem precisar de bengala. (Como é que ele sabe se não há um buraco no asfalto?) Sim, reparei que Eli dá muita importância à audição e ao cheiro, mas também o fazem todas as personagens de “The Walking Dead”. Certas vezes Eli segue algo com o olhar, e até espreita por uma janela, algo que nenhum cego precisa de fazer. E quanto à Bíblia em Braille, há pessoas não cegas que sabem ler Braille. Por exemplo, professores ou pessoas que têm invisuais na família. A Bíblia em Braille não quer dizer nada.
Até encontrei comentários sobre isto mais papistas do que o Papa (indo para além do filme), especulando que Deus teria dado visão a Eli enquanto este cumpria a sua missão e retirando-lha quando já não era necessária. Tudo isto para explicar porque é que Eli, sendo cego, era tão durão e eficiente. Sim, bem seria preciso intervenção divina porque não há maneira nenhuma de que alguém cego conseguisse fazer o que Eli faz. Ainda bem que não percebi que o homem era supostamente invisual (o filme não me convenceu da cegueira) ou teria achado isto tudo uma palhaçada descomunal.
Só faltou pregarem o Evangelho abertamente, mas implicitamente até o fazem à mesma. Eu pensava que estava a ver uma história sobre um sobrevivente pós-apocalíptico e saiu-me um super-Moisés da ala Republicana americana e religiosa, um filme cheio de armas e Bíblia como eles gostam. Oh, que desperdício de efeitos especiais e cinematografia! Que desperdício de actores! Que desperdício de ideias e cenários pós-apocalípticos!
Volta Mad Max, estás perdoado!
(Mas pelo menos percebi onde foram buscar a ideia do super-Morgan e das bombas nucleares em “Fear the Walking Dead”. Ah! Aquilo sempre me pareceu que caiu do céu aos trambolhões. Agora já sei.)

12 em 20

 

domingo, 8 de janeiro de 2023

The Walking Dead (2010–2022)

[contém spoilers]

Ao fim de 12 anos nos nossos écrans, “The Walking Dead” acabou. Alguém deu por isso? Lembro-me de momentos em que o fim de uma temporada significava o terror de que alguém nos contasse um spoiler, por acidente ou de propósito. Desta vez não ouvi uma única palavra sobre o fim da série de zombies mais icónica da última década. E isto é triste.
“The Walking Dead”, no seu auge, foi a melhor série de zombies jamais feita, e ainda não vi nada que a superasse ou que não se alimentasse (directa ou indirectamente) das ideias do universo Walking Dead.
Muitos fãs começaram logo a chamar-lhe telenovela a partir da segunda temporada, mas eu não sou dessas. Acho mesmo que a série atingiu o seu melhor algures entre a fuga de Terminus (os canibais) e a chegada a Alexandria. Depois apareceu Negan e tudo descambou. As personagens tornaram-se caricaturas, bonecos de acção, os diálogos degradaram-se, cada vez mais rebuscados e irrealistas. Chegou a ser doloroso assistir a alguns episódios, tal como actualmente é doloroso assistir a “Fear The Walking Dead”, o que uma pessoa continua a fazer por ter investido tanto nesta série, e um pouco por masoquismo, e porque os zombies de Greg Nicotero são mesmo muito bons!
Bastantes fãs abandonaram “The Walking Dead” nessa altura e não posso censurá-los. As temporadas de Negan, principalmente, foram muito mazinhas, em todos os sentidos e até em termos de world building. Às vezes era difícil perceber o que estava a acontecer, o que implica não apenas má escrita mas má realização em geral.
Em retrospectiva, a morte de Karl, a saída de Rick e de Michone foram de facto golpes demasiado profundos de que a série nunca se conseguiu recuperar, por muito que Daryl e Carol a tenham tentado levar às costas até ao fim.

O fim (?)
Chegamos então à última temporada em que a show runner Angela Kang tentou pegar no que tinha e salvar o que podia. Nesta altura a qualidade melhorou bastante, mas era tarde demais. Esta devia ser a história da família Grimes e seus amigos. Não é de estranhar que nos últimos 8 episódios os escritores se tenham voltado para a única sobrevivente original do clã Grimes: Judith, a única Grimes que vem da primeira temporada. Sim, na barriga da mãe, mas Judith foi importante desde o momento em que Lori se apercebeu da gravidez. (Não posso incluir o filho de Rick e Michonne porque só no último episódio é que lhe deram qualquer coisa para dizer. O que me lembra novamente que Michonne jamais se iria embora atrás do fantasma de um homem e deixaria um filho tão pequeno no meio do apocalipse zombie, outra das perplexidades que ninguém percebeu.)
Nos últimos 8 episódios, a série regressa a Judith, resumindo, através de monólogo interior e montagens do passado, o que foi o caminho até aqui e recordando as personagens que ficaram para trás. Muito disto bateu directamente na nostalgia e acertou o alvo. Mas não resolve a questão premente: a série não acabou. “The Walking Dead” continua nas muitas sequelas já feitas (como a mais recente, “Tales of the Walking Dead”) e por fazer. O facto de a AMC ter anunciado sequelas com Rick, Michonne, Maggie, Negan, Daryl e Carol também despejou a série de tensão. Sabíamos que aqueles personagens não iam morrer e que a história deles não acabava aqui. (A minha maior surpresa foi saber que afinal a actriz Melissa McBride –Carol– recusou continuar e não vai participar no spin off com Daryl Dixon. Acho que ela só faz é bem.)
Resta quem? Os personagens secundários, e Judith. Ainda nos pregaram um susto do caraças com Judith, mas acho que Angela Kang percebeu a tempo que os espectadores se revoltavam se acontecesse alguma coisa à miúda que estava onde não devia estar. (Resumindo, os adultos deixam-na ir com eles para um conflito armado, apesar de a miúda não ter mais que 10 anos, porque ela lhes pede, quando lhe deviam ter dito: Vê lá se não queres levar uma lambada! Vai mas é acabar os trabalhos de casa! Até nos dois últimos episódios, “The Walking Dead” persiste em fazer coisas estúpidas, tipo “imagem de marca”.)
Mesmo assim, gostei da conversa sincera e emocional entre Maggie e Negan, em que este finalmente pediu uma desculpa sentida pelo que fez a Glenn e Maggie lhe respondeu também do coração. Mas não consigo esquecer que este novo Negan, como personagem, é um embuste. O Negan original era uma caricatura de desenhos-animados; este Negan é John Winchester. E está tudo dito acerca de Negan.
Ezekiel também confronta Negan, tal como Aaron já tinha feito. (Mesmo assim, é impressionante como estes personagens tardios se tornaram importantes, muito graças aos seus actores.) Ezekiel não esquece o que ele fez. A certa altura pensei que Ezekiel ia falar de Shiva, mas a tigresa não foi mencionada, embora igualmente vítima indirecta dos Salvadores. Sempre gostei de Ezekiel, mesmo quando ele andava a brincar ao Senhor dos Anéis nos tempos do Reino. Compreendo a ideia dele. Num mundo sem esperança, as pessoas precisam de fantasia para se distraírem. Escapismo. Não é por isso que vemos o nosso tipo preferido de Fantasia, seja com dragões seja com zombies, ou ambos? Não foi por isso que assistimos a “The Walking Dead”, e que nos irritámos quando a série não era tão boa a ponto de nos fazer esquecer a realidade?
Por falar em realidade, sou das poucas que gostou dos episódios na Commonwealth, apesar dos muitos, muitos erros. A Commonwealth mostra-nos o que seria o mundo actual, como o conhecemos, mas com zombies. De certa forma, os zombies vieram impor a lei do mais forte em todo o lado, mas na Commonwealth continuava tudo igual: os pobres, os ricos, os importantes, a carne para canhão. Foi interessante.
Tenho escrito bastante sobre esta série e não há muito mais a dizer que não tenha dito já. Podemos mesmo considerar que “The Walking Dead” acabou quando já há spin offs a filmar com os seus personagens principais? A avaliar pela qualidade dos spin offs já existentes, se calhar eu preferia mesmo que a série acabasse de facto aqui.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes até Negan aparecer; a partir daí é com cada qual

 

domingo, 9 de outubro de 2022

Black Summer (2019 - ?)

Finalmente percebi porque é que não gosto de super-zombies. Não gosto de zombies que correm mais do que eu. Não gosto de zombies que correm mais depois de mortos. Abomino zombies de idade avançada que correm mais do que gente nova. "Black Summer” foi baseado em “Z Nation” (a série, depreendo, que eu não vi) mas são os mesmos zombies de “World War Z”, de que já falei aqui. Se todo o conceito de zombismo é ridículo, uma idosa zombie de 70 anos a correr que nem uma atleta olímpica exige uma completa anulação da nossa incredulidade.
Mas nem sequer é por isso. Todo o horror do zombie é o cadáver putrefacto, morto e bem morto, cheio de vermes e musgo e lapas (se esteve no mar), a cair aos pedaços, que se arrasta lentamente na direcção dos vivos. O problema não é apenas um zombie (a não ser que esteja “muito fresco”), é uma horda deles a cercar os vivos sem deixar escapatória. Todo esse horror original do melhor filme do género , “A Noite dos Mortos Vivos”, se perde quando temos super-zombies a correr mais do que os vivos.
“Black Summer” sofre disto, mas sofre de mais coisas. Sabemos por uma personagem que passaram pelo menos seis semanas desde que o apocalipse zombie começou e os sobreviventes ainda não descobriram como se mata um zombie. Errado. Sobreviventes que não descobrem logo nos primeiros dias não são de certeza sobreviventes seis semanas depois. E cometem mais erros que já não são desculpáveis por esta altura. Fazem muito barulho, gritam sem motivo, usam armas de fogo a torto e a direito (chamando a atenção), entram em lugares que parecem seguros e deixam a porta escancarada atrás deles mesmo a pedir que os zombies entrem.
O que permite que ainda existam tantos sobreviventes é que há poucos mortos. Mesmo muito poucos mortos. Super-zombies deste tipo, em números semelhantes aos de “The Walking Dead”, já teriam exterminado tudo. É-nos dito que no princípio os militares bombardearam as cidades mais populosas. Também se tentou fazer isso no universo de “The Walking Dead” (a sinistra operação Cobalto) mas o número inexorável de novas transformações não permitiu que tal fosse muito efectivo. Em “Black Summer”, então, em que o zombie se transforma no segundo em que solta o último fôlego, muito menos seria viável. O uso de armas e os tiroteios às cegas, neste caso, sem o precioso tiro na cabeça, só faz com que se transformem mais zombies imediatamente e vindos de todos os lados. Seria impossível sobreviver a um apocalipse zombie assim. A maneira que os criadores usaram para contornar isto, lá está, foi a existência de poucos mortos. Assim, temos uma média de dois zombies para cada três vivos. Comparado com o mais realista “The Walking Dead”, é risível.
Aliás, “Black Summer” é uma boa série, não digo que não, mas jamais seria possível sem as bases que (o universo de) “The Walking Dead” estabeleceu. Por exemplo, aqui não é preciso explicar que toda a gente está infectada e se transforma quando morre. Não é preciso ser mordido nem arranhado, como nos filmes/séries anteriores. Esta foi uma originalidade de “The Walking Dead”, para o bem e para o mal a melhor série de zombies das últimas décadas. Da mesma forma, “Black Summer” não tem de explicar quase nada. Já vimos quase tudo o que se passa aqui em “The Walking Dead”, desde os poucos sobreviventes dos alvores do apocalipse até aos grupos armados em busca de recursos e pilhagens. Por exemplo, a mansão. Há um motivo pelo qual os personagens de “The Walking Dead” procuram abrigo em cabanas e celeiros abandonados, ou mesmo no meio da floresta. A mansão para onde estes sobreviventes foram era um chamariz de salteadores. Obviamente, dois grupos armados em luta para a ocuparem acabam por destruí-la de cima a baixo. Agora não há nada para ninguém. Também já vimos isto.
Queria falar da história, mas receio que a história seja praticamente a mesma com outros personagens. Se calhar mais acelerada e sem tempo para os desenvolver, porque mal temos tempo de lhes saber o nome. Os protagonistas vão morrendo em catadupas porque a série é curta.
Mas vamos então tentar começar pelo princípio, embora o post já vá longo. A série começa com uma família (os pais e uma miúda) a fugir de um bairro suburbano na direcção de camiões militares que estão a evacuar as pessoas para um estádio. Mas o soldado nota algo de estranho no marido e descobre que este está ferido, aparentemente com gravidade. Imediatamente o camião se vai embora com a miúda deixando os pais (e o resto das pessoas à espera de vez) apeados. Mesmo ao lado, uma mulher asiática é igualmente rejeitada pelos militares, quase sem notarmos. Trata-se apenas da “protagonista”, mas para perceber isto é preciso ver a série duas vezes. Já explico melhor. Entretanto, o casal foge para uma das casas evacuadas, onde o marido sucumbe ao ferimento e se transforma. É o primeiro zombie que nós vemos e é de meter medo. Mas ao mesmo tempo perguntamo-nos, seis semanas de apocalipse e Rose (a mulher) ainda não sabia que o mais provável era isto acontecer?
Durante a maior parte da série acompanhamos a viagem de Rose e Anna (a filha), bem como a de Sun (a protagonista coreana de que falei acima e que só sabe dizer duas ou três palavras em inglês, o que foi inteligente porque nos obriga a compreendê-la de outra maneira). Como dizia, é preciso ver a série duas vezes para apanharmos todos os pormenores. Muitos acontecimentos que vemos ao longe, quase a sair do écran, são outros sobreviventes importantes que se vão cruzar com os protagonistas. A série não nos dá tempo de respirar na sua rapidez alucinante. Raramente temos um momento parado ou de diálogo para ficarmos a conhecer as personagens. Quando isto acontece quase podemos encher os pulmões de ar. Mas sabemos que não vai durar muito tempo. “Black Summer” não nos quer deixar adormecer. Talvez até exagere na sua avidez de nos manter agarrados ao écran.
Esta é outra série de zombies que começa quando a sociedade já se desagregou. Até à data, apenas “Fear The Walking Dead” se atreveu a mostrar-nos o início, e muito de raspão antes de passarmos para o caos completo. (Deve ficar caro filmar ruas cheias de gente em pânico, deduzo eu.) Difere do universo Walking Dead pelos zombies e pelo passo acelerado com que se move, sem medo de nos deixar para trás. Talvez por isso nos envolva a outro nível com os personagens. Ou estamos alerta e os acompanhamos, ou ficamos pelo caminho. Quem fica pelo caminho não se safa.
Uma última nota sobre o título. Este Black Summer deve ser no Canadá, onde a maioria das séries são filmadas hoje em dia, porque os personagens queixam-se de muito calor ao mesmo tempo que trazem vestidas três ou quatro camisas, t-shirts e uma parka. Fez-me rir. Eles que viessem para cá que os zombies até derretiam.
Deixo os factos, recomendo aos apreciadores do género. Não vamos ver nada de original mas não é uma série que se deixe escapar.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes (neste caso, é melhor mesmo ser vista duas vezes ou perdemos pormenores importantes)


domingo, 17 de abril de 2022

Day of the Dead (2021 - ?)

Admito que sou doidinha por ver o início de um apocalipse zombie. As primeiras suspeitas, nunca levadas a sério quando são relatadas. O primeiro zombie, em “Fear the Walking Dead”, a avançar direito a uma bonita casa suburbana pelo caminho entre os relvados impecáveis. Rick Grimes a sair do hospital e a encontrar uma menina zombie com uma boneca ainda na mão. A confusão das autoridades, sem saberem o que fazer. Por fim, o desagregar da sociedade que “Fear the Walking Dead” nos prometeu mas não cumpriu o suficiente.
Depois desta fase inicial os sobreviventes aprendem a viver com os zombies, aprendem a evitá-los e matá-los, e cai tudo numa rotina que raramente passa do mesmo. “Day of the Dead” é uma série despretensiosa do canal SyFy que retrata o primeiro dia da invasão zombie. Infelizmente, as críticas arrasaram a série, no meu entender injustamente. Em grande parte porque usa o título homónimo do filme de George A. Romero, o que, concordo, não era necessário.
Toda a acção se passa no mesmo dia, numa pequena cidade americana em que há eleições para decidir quem será o novo Mayor e em que se prepara um casamento. Um dia normal como todos os outros. Mas, entretanto, uma companhia de extracção de gás faz uma determinada perfuração que encontra algo estranho: um homem (zombie) atado no fundo de uma gruta que nunca devia ter sido aberta. Alguém chama um detective incauto, que é mordido. Começa a infestação.
Mas estes zombies não são os mesmos de “The Walking Dead”. Não morrem com uma bala na cabeça, não morrem com coisa nenhuma. Só se pode rebentá-los com explosivos, prendê-los ou atrasá-los com tiros nos joelhos. Outra coisa interessante: alguns dos zombies mais “frescos” retêm algo das memórias de quem são/foram, o que não se vê muitas vezes. E os zombies mais frescos não se arrastam; correm. Os habitantes da pequena cidade oscilam entre a incredulidade e o terror.
Este não é um dramalhão como “The Walking Dead”, mas tem drama que baste. Os dez episódios permitem explorar e desenvolver as personagens, inclusive os vilões, que se movem naquela área cinzenta em que lhes conseguimos compreender as razões. Os momentos de humor são mesmo engraçados e inesperados, mas sem abusar. Há mortes com fartura, algumas bastante violentas, mas a série não quis entrar demasiado por aí. Esta é uma série em que, mais do que mortos a comer os vivos, os vivos se tentam organizar para derrotar os mortos, o que não vai ser fácil, porque para conseguirem unir-se nessa causa comum têm de esquecer os conflitos que a pequena cidade foi acumulando ao longo dos anos.
“Day of the Dead” entretém bastante e tem momentos de verdadeiro terror, especialmente no princípio, quando ainda ninguém acredita nos zombies. Quanto a estes, não são, de longe, tão bons como os de Nicotero, mas também estão bem caracterizados e são convincentes.
Não posso concordar com as críticas negativas e aconselho a toda a gente que gosta de zombies, com um drama à mistura que não pretende traumatizar-nos para toda a vida. Mesmo assim, é duvidoso que a série seja renovada, apesar de lançar as bases para isso a uma escala maior. De certa forma, tenho pena. Gostava de ver mais. Mas se era para pior (e nestes casos quase sempre é) mais vale ficar por aqui.


domingo, 25 de julho de 2021

The Walking Dead (décima temporada, 3ª parte)

Este Covid é tão mau que até os zombies foram afectados. Nada de ajuntamentos, nada de hordas, distanciamento social de 2 metros. Chiça, até depois de morto um zombie tem de levar com o Covid!
Estou a brincar, mas é sabido que as gravações desta azarada temporada foram interrompidas e prejudicadas pela pandemia. A esta parte da terceira temporada de que falo agora até se chama 3C. Tratam-se de 6 episódios “extra”, filmados durante a pandemia, com o menor número de actores e figurantes possível. E não é que os episódios são bons?

"Home Sweet Home"
Neste episódio Maggie regressa (saída de “Whiskey Cavalier”) depois de a comunidade onde ela estava com a Georgie (lembram-se dela, dos 15 minutos que esteve em cena?) ir para o brejo. Não sei o que se passa com estas comunidades na Virginia, sempre famintas e miseráveis. Ali ao lado, no Texas, em “Fear The Walking Dead”, há comida à fartazana, balas que nunca mais acabam e walkie talkies a dar com um pau. Os nossos sobreviventes de Atlanta é que nunca mais saem da cepa torta.
Maggie traz com ela o filho de Glenn, chamado Hershel em homenagem ao avô (finalmente vimos o miúdo, já não era sem tempo!) e depara-se, em Alexandria, com um Negan à solta! Negan, o homem que esmigalhou o crânio de Glenn à cacetada! Não admira que Maggie lhe deite olhos assassinos. Negan, que até gosta de crianças, tinha aqui uma hipótese de se envergonhar do que fez, olhando o filho de Glenn que é a cara do pai (na altura até Maggie, ainda grávida, esteve na mira de Lucille). Mas Negan é irredimível, por estas e por outras, e o melhor que ele fazia era ir recomeçar junto de outra comunidade onde não o conhecessem.
Alexandria está arrasada depois do ataque dos Whisperers e todos os elementos da comunidade são necessários. Se calhar é por isso que Maggie não o mata imediatamente (Maggie, a mesma que enforcou um homem em Hilltop por muito menos), porque desta vez ela pretende ficar.
Gostei de como finalmente este episódio lidou com as consequências das acções de Negan e o confrontou com Maggie, algo que já tardava.

"Find Me"
Neste episódio, ficamos a saber que entretanto Daryl teve um romance com outra solitária dos bosques como ele, enquanto ele andava à procura do corpo de Rick. Até que enfim! Eles são mesmo feitos um para outro. Leah, é o nome dela, era a dona do cão e foi ela quem lhe chamou Dog. Quando, subitamente, Leah desaparece sem sabermos o que lhe aconteceu, Daryl fica com Dog. E é tudo o que sabemos da relação entre os dois. Simplesmente achei este romance muito apressado. Daryl é um personagem principal, merecia um tratamento mais aprofundado. Mas enfim, talvez ela reapareça.

"One More"
Este é possivelmente o melhor episódio desta série de extras. Basta dizer que envolve Robert Patrick (ex-Terminator) e uma roleta-russa. É preciso mais? O curioso é que os personagens principais são os improváveis Aaron e o padre Gabriel, e que papelão fazem ambos (e Patrick)! Andam ambos à busca de comida (Alexandria está cada vez mais miserável) quando encontram um javali selvagem preso dentro de um escritório. Grande erro, não lhes passa pela cabeça que o javali não se fechou lá sozinho e que tem dono. E quando o dono aparece, armado, a perguntar que tal estava o jantar… estão lixados.
Antes disso, confraternizando, Araon e o padre Gabriel (que aqui adquire uma profundidade que explica a mudança que temos vindo a ver na personagem e que há muito precisava de consistência) têm uma profunda e significativa discussão filosófica como já não se via em “The Walking Dead” há muito tempo. Uma discussão que faz sentido e que vem a propósito!
O episódio podia bem ser um filme, de tão bom é o script e tão independente do resto da série. O final é surpreendente, se não mesmo chocante. Aconselho vivamente.

"Splinter"
Este é o episódio em que descobrimos porque é que a primeira coisa que Princess pergunta aos sobreviventes recém-chegados quando os conhece é: “Vocês são reais?” A pergunta não era retórica. Princess é (ou o estado de coisas tornou-a) uma psicótica que fala com pessoas que não existem para lidar com a solidão. Este é um bom episódio, mas o que mais sofre com os condicionamentos pandémicos. Princess é praticamente a única personagem em cena. Mas a actriz está à altura do desafio e em questão de meia hora conseguimos empatizar com ela como não conseguimos nos episódios anteriores. Assim sim, vale a pena.

"Diverged"
"Diverged" foi de todos estes extras o episódio mais criticado porque aparentemente não acontece nada. Daryl e Carol estão zangados e vai cada um para seu lado. Dog, estupidamente, vai atrás da Carol, que não merece a companhia. Eu gostei deste episódio, próximo da comédia, que mais parece um daqueles filmes europeus de estudo de personagem. Daryl tem de arranjar a mota; Carol tem de fazer uma sopa com o pouco que existe na cozinha. Mas na cozinha anda também uma ratazana. O episódio vale a pena nem que seja pelo grito de Carol a fugir do rato, a grande Carol, a durona Carol. Eu receei que entretanto o Daryl chegasse e a ratazana acabasse na panela da sopa. Mas felizmente a ratazana fugiu antes. Final feliz.

"Here's Negan"
E chegamos finalmente ao episódio da backstory de Negan, antes do apocalipse, quando ele era um homem normal. Com defeitos, mas normal. O que ele fez de bom antes não chega para redimir o mal que fez depois. Sim, eu sei que esteve muito tempo na prisão e isso tudo, e que se calhar até mudou um pouco para melhor, mas a mim nada me convence. Toda a gente sofreu e perdeu gente, toda a gente passou por merdas e humilhações, só poucos se tornaram em sociopatas assassinos. E a mim Negan não convence e nunca convencerá.
No fim do episódio, Carol decide mudar Negan para uma cabana fora de Alexandria, porque “se ficas, a Maggie mata-te”. Mas Negan decide voltar para Alexandria e enfrentar a sua sorte. Maggie continua a deitar-lhe olhos assassinos. “Assim, o teu sangue não está nas minhas mãos”, diz ainda Carol, que lava as mãos como Pilatos, e faz ela muito bem.

Esta colecção de episódios extra foi melhor do que muitas das últimas temporadas e promete grandes confrontos para a décima primeira, que vai ser a última e terá 24 episódios. Venha de lá o final, com a qualidade que esta série já não tinha há anos!
Isto sim, seria um fim digno para uma série que já foi tão grande.

 

domingo, 23 de maio de 2021

The Walking Dead: World Beyond

Dizia eu que só acreditaria em spin offs de “The Walking Dead” quando as visse, mal sabendo que já estavam a ser filmadas. E parece mesmo que vêm aí mais. A qualidade é que não é nada por aí além, tirando os próprios zombies, e é por causa dos excelentes zombies de Nicotero que ainda se conseguem ver estas séries. Esta é outra igual.
“World Beyond” é a versão adolescente de “The Walking Dead”. Enquanto que, na Virginia, Carl andava a comer comida de gato e a enfrentar famílias canibais, noutros lados do país as coisas parecem ter-se aguentado melhor depois do apocalipse zombie. É o caso da cidade de Omaha, de Portland, e do campus da Universidade do Nebraska, onde vamos encontrar os protagonistas de “World Beyond”. Isto causa alguma estranheza para quem viu a sociedade desaparecer e a anarquia reinar em “The Walking Dead” e “Fear the Walking Dead”, mas aparentemente ainda há comunidades onde sobreviveu o mundo como o conhecemos. O que coloca desde logo a questão: como é que os sobreviventes ainda não sabem uns dos outros, 10 anos passados desde o apocalipse, uma vez que em “Fear the Walking Dead”, e mais ultimamente em “The Walking Dead” também, toda a gente usa o rádio para comunicar? Estas comunidades sobreviventes não saberiam já da existência umas das outras? Mas no universo “Walking Dead” é melhor não fazer muitas perguntas.
Hope e Iris são duas irmãs (adoptadas) que frequentam a universidade, junto com outros jovens como elas que eu não sei de onde apareceram nem onde vivem os seus pais. Omaha, Portland? Mas lá estou eu a fazer muitas perguntas. O importante é que estes jovens do campus passaram pelo apocalipse num ambiente seguro e resguardado onde sabem que fora dos seus muros existem zombies mas nunca tiveram de se confrontar com eles. O início da série é quase o nosso mundo, e estes jovens do campus estão a ser educados para trazer de volta a civilização.
O pai de Hope e Iris é um cientista que dá aulas nesta universidade pós-apocalíptica até ser recrutado pela sinistra Civic Republic Military. (Como chamar a isto em português, Milícias da República Cívica? República Cívica Miliciana? Parece-me mais a segunda opção. Mas uma República não contém já o conceito de “cívica”, e “militar” não é um dos ramos de poder em que assenta uma república?) A princípio nada nos diz que esta República Cívica seja sinistra, mas há sempre esse suspense de algo pesado no ar quando os helicópteros aparecem. A localização das bases da República Cívica é secreta (o que faz sentido num mundo dominado pela anarquia e o saque) e o tal cientista não está autorizado a comunicar para fora delas, mas antes de partir ele arranja uma maneira de estabelecer contacto com as filhas. Hope e Iris recebem uma mensagem do pai em que este as informa de que corre perigo, e decidem ir salvá-lo (sozinhas contra um exército, porque acham que conseguem). Com elas vão outros dois jovens da mesma idade, Elton e Silas. Nenhum deles alguma vez teve de sobreviver sozinho fora dos muros e não sabem sequer matar um zombie.
Dois dos seguranças do campus, Felix e Huck, vão à procura dos miúdos e conseguem encontrá-los, mas, cada um pelas suas razões, estes recusam regressar. Foi a sorte deles, porque, por algum motivo que ainda não faz sentido, a República Cívica destruiu o campus universitário.
Esta série é sobre os primeiros adolescentes a crescer num apocalipse zombie, mas a República Cívica acaba por ser o enredo (neste caso, sub-enredo) mais interessante. É que foram estes misteriosos helicópteros que levaram Rick Grimes e Anne/Jadis (personagem também conhecida por “senhora da lixeira”, que afinal era uma agente infiltrada). É por isso principalmente, e por outros encontros com a República Cívica em “Fear the Walking Dead”, que os espectadores do universo “Walking Dead” sabem que esta gente não é boa e recorre a métodos chocantes. Por muito que estes digam que o objectivo é o “futuro”, o “bem maior”, reestabelecer a civilização, ficamos perplexos quando destroem um campus universitário onde estava a ser preparada a próxima geração com esse mesmo objectivo em mente. Eu, por exemplo, a princípio nem percebi o que tinha acontecido, de tão contraditório que isto é. E na verdade não se viu acontecer, mas foi dado a entender e toda a gente percebeu assim. Afinal, quem é esta República Cívica e qual é o seu verdadeiro desígnio? Mas a série só nos deu migalhas porque não vai ser aqui que se vai descobrir.
Hope e Iris, e os companheiros Elton e Silas, partem numa daquelas viagens de auto-descoberta e de descoberta dos outros típicas da adolescência. Não digo isto como crítica mas como constatação, é um drama adolescente com temáticas adolescentes, em que os quatro miúdos têm de aprender coisas como conduzir ou matar o primeiro zombie. (Experiências que Carl, na série-mãe, começou a ter na infância.) Há muita conversa e o ritmo pode ser considerado demasiado lento para a grande parte dos espectadores. Cada episódio parece uma aventura separada e os miúdos nunca se encontram em grande perigo como acontece na série original. Só nos últimos dois episódios é que acontece algo minimamente empolgante.
“World Beyond” não é série que se compare às melhores temporadas de “The Walking Dead”, mas pelo menos a história não é o caos sem nexo em que se tornou “Fear the Walking Dead” (já não percebo o que se passa por lá). Vê-se bem, sem grandes expectativas, e só estão anunciadas duas temporadas, o que nos promete um enredo com princípio, meio e fim. Quem esperar mais do que isto vai ficar desiludido.



domingo, 4 de outubro de 2020

The Walking Dead [décima temporada]


[contém spoilers; não revela o final;
nem podia revelar porque, no momento em que escrevo, o último episódio ainda nem foi filmado]


E assim aconteceu que o apocalipse zombie durou tanto tempo que foi atropelado pelo apocalipse Covid. Mas não percamos a esperança. Já aí está o Covid. Talvez ainda venham os zombies.
Comecei a ver esta temporada sem saber que não tinham conseguido filmar o último episódio devido à pandemia. Curiosamente, quando acabou o penúltimo episódio também não me preocupei muito que não existisse o próximo. A qualidade da série melhorou, sim senhor, a olhos vistos, depois da saída de Scott M. Gimple (que foi estragar “Fear the Walking Dead”). Mas já tenho muita dificuldade em acompanhar o que se passa e, principalmente, em importar-me com as caras novas que só conheço há meia dúzia de episódios. Para fazer esta crítica estou a usar a cábula dos resumos dos episódios do IMDB, porque assim de repente nem me lembro de nada. Quando uma série atinge este ponto (e uma série que já foi inesquecível) é doloroso falar dela.
Pois a Michonne lá se foi embora também, o que não é um spoiler para quem acompanha as notícias em torno da série. Michonne não morreu. Simplesmente abandonou os filhos (Judith e o pequeno Rick Jr.) em Alexandria e foi atrás de uma ténue pista de que Rick possa estar vivo. Alguma vez a Michonne que eu conheço agiria assim, abandonar dois filhos no meio do apocalipse zombie? Mas nem pensar. A Michonne que eu conheço ficou enlouquecida quando o filho dela morreu. Não ia abandonar os filhos por uma pista obscura.
As personagens vão tendo flutuações de personalidade conforme o enredo (e os contratos) obrigam, e a certa altura até as personagens que já conhecemos há muito tempo começam a agir “out of character”. Isto cria um fosso, uma dissonância entre o espectador e as personagens, como se subitamente elas fossem possuídas por extraterrestres (mas menos interessante), em que já nem as reconhecemos. Este novo “Walking Dead” é uma série diferente, e até compreendo a necessidade de evolução, mas transformar as personagens numa coisa que elas não são arranca-nos a última âncora que nos agarrava à história. Hoje em dia vejo “The Walking Dead” e já não sei muito bem o que estou a ver.
Muitos problemas foram resolvidos com a direcção de Angela Kang, mas alguns dos mais irritantes persistem. O mais irritante de todos, julgo que é opinião unânime, é a mania de pôr os personagens a fazer coisas estúpidas para avançar o enredo.
Sim, as pessoas cometem erros e os personagens ficcionais não são diferentes, mas os acessos de estupidez momentânea dos personagens de “The Walking Dead” já são lendários. Desta vez calhou a sorte a Carol (uma das personagens mais respeitadas exactamente por estar sempre um passo à frente dos outros) de se comportar como uma imbecil. Isto porque perdeu o outro miúdo, Henry, a quem deviam dar um prémio qualquer por ter conseguido ser o personagem mais estúpido de todo o cast de “The Walking Dead”, e não apenas momentaneamente (o miúdo era constantemente imbecil). Mas Carol é uma personagem que já perdeu muito, que já perdeu tudo, e aguentou-se. Que não ia perder a cabeça agora, a esta altura do campeonato. Foi doloroso de assistir.
E depois temos Negan, uma batota completa. O Negan que nós conhecemos era um sociopata sem remorsos. Este Negan está cada vez mais bonzinho. Querem à força que a gente esqueça como ele esmagou à cacetada os crânios de Abraham e de Glenn com a Lucille. Aliás, já nem se fala da Lucille, para as pessoas não se lembrarem. E como se não bastassem os homicídios e a megalomania, ainda houve aquela vez em que ele queimou vivo um médico só porque desconfiou que este se andava a fazer a uma das suas “esposas”, “esposas” estas todas obrigadas a serem esposas de Negan, mercê de ameaças às famílias delas. E é este o personagem que querem reabilitar. Negan não tem redenção possível. A única vez que concordei com Carol nesta temporada foi quando ela disse: “O Negan também podia desaparecer”. Ah, se podia. Esta é que é a Carol que eu gosto. Admito que o Negan tenha uma qualidade redentora. Sempre foi bom com miúdos e adolescentes, o que se manifestou logo quando ele interagiu com Carl. Isto faz parte da personagem como ela nos foi apresentada. O resto é fabricação para ver se conseguimos começar a suportá-lo. (Ó Rick, para onde te levou a senhora da lixeira, que não vens enfiar um balázio na cabeça deste gajo?)
Pelo menos não sou a única que não esquece. Aaron e alguns outros habitantes de Alexandria também não esquecem. Negan só está vivo porque eles estão a honrar a “última vontade” de Rick, a quem julgam morto, de que Negan deve ser preso e não executado sumariamente, porque eles são “melhores do que isso”.
Estranhamente, Negan e Alpha foram protagonistas da cena de sexo mais explícita que já se viu na série toda. Uma cena pervertida como só podia acontecer entre Alpha e Negan, mas aconteceu. Até os vimos aparentemente nus, ao longe. “The Walking Dead” nunca quis perder tempo com isso, mas nesta última temporada temos algumas cenas de sexo, incluindo entre duas lésbicas. Definitivamente, a série está mesmo a mudar com uma mulher ao leme.
Por falar em sexo. Outra batota, o padre Gabriel. Onde é que este personagem é o mesmo que a gente conheceu na temporada cinco? Andar com a Rosita deve ter-lhe feito muito bem à auto-estima. O homem agora parece um autêntico Rick Grimes. Até manda e fala grosso.
E por falar em Rosita, que tem uma filha com Siddiq. O que aconteceu a Siddiq foi uma manobra bem orquestrada como eu já não via há muito tempo em “The Walking Dead”. Não estava mesmo à espera daquilo, se bem que o espião dos Whisperers me tenha parecido uma pessoa implausível de sofrer uma lavagem cerebral por parte da Alpha. Mas os Whisperers, percebemos nesta temporada, já não eram simplesmente um grupo de sobreviventes, eram acima de tudo um culto. E nós sabemos o que os cultos fazem à cabeça das pessoas, e aquela Alpha era sinistramente carismática, portanto até vou admitir que deu a volta à cabeça ao médico Dante.
A nível de choques, penso que o Siddiq foi mesmo o choque da temporada. Conseguiram que a gente gostasse dele (não havia muito para não gostar, tirando o facto de que foi praticamente responsável pela morte de Carl por causa de um disparate de matar walkers para respeitar uma crença da mãe de Siddiq de que matar zombies era libertar-lhes as almas). Conseguiram que tivesse impacto. Isto acontece cada vez menos em “The Walking Dead”.
Do mal o menos, o nosso Daryl continua o mesmo de sempre. O disparate de adulterar a personalidade das personagens consoante convém ao enredo ainda não o atingiu. (Mas temo que venha a atingir.) Algumas das melhores cenas são entre Daryl e Carol, os veteranos da série, a conversar e a fumar um cigarro e a mandar bocas um ao outro como nos velhos tempos. O que só nos lembra de como esta série era boa quando o núcleo de protagonistas era sólido e coeso, mas já não é nada disso.
Houve alturas em que tive de fazer um esforço para me lembrar de quem era aquela cara que ali aparecia, de tal maneira já nem sei quem é que está na série e quem é que já morreu ou se foi embora. Por exemplo, não me lembrava nada que a Enid e a Tara tinham morrido na última “leva”, na temporada anterior, de tão insignificantes se tornaram os seus papéis. (Ou se calhar foram as actrizes que pediram para sair.)
O penúltimo episódio podia chamar-se “O gato que traiu Alexandria”. Sim, houve um gato, e ficou muito mal explicado como é que o Beta percebeu que o gato significava onde estavam os sobreviventes. Boo! Má escrita! Devíamos ter visto que havia um espião exclusivamente designado para espiar o gato, e aquele gato, pela sua importância, devia ter sido um personagem mais desenvolvido. Por exemplo, qual é a relação do gato com a Carol, com o Daryl, com o cão do Daryl, Dog? Como é que o Beta sabe que o gato é amigo de Lydia? Ou será que não é? A Lydia falou do gato de forma tão ambígua que eu fiquei na dúvida. E o Negan, a quem a Lydia falou do gato, o que é que ele sente pelo felino? Despertar-lhe-á pesadelos com Shiva, a tigra, que em tempos lhe comeu bastantes Salvadores? Tudo mal explicado. Aquele gato nunca se tornou um personagem tridimensional. Mal o deixaram dizer um mio. Nem sabemos se o vamos ver outra vez. Oportunidade desperdiçada de mergulhar na mente do cão do Daryl e de aprofundar o conflito com o gato, cujo nome deve ser Cat.
E assim acabamos mais uma temporada de “The Walking Dead”, que não chegou a terminar, na paródia. Já não dá para ver de outra maneira. É aceitar ou procurar outra série. Mas os zombies de Nicotero continuam tão bons, é difícil parar de ver.

§


Já depois de escrever este artigo li a notícia de que ”The Walking Dead” tem finalmente uma data marcada para acabar, lá para 2022 se a pandemia não atrapalhar. Talvez isto seja bom. Talvez a série desenvolva, agora que há um fim à vista. 
Também li por alto que estão planeadas mais spin offs, mas já houve tantos anúncios neste sentido, sem que se concretizassem, que nessas só acreditarei quando as vir.


segunda-feira, 17 de junho de 2019

The Walking Dead (9ª temporada)


[crítica à nona temporada; contém spoilers]

O maior spoiler desta temporada é que não foi tão deplorável como se previa. Apesar da perda do protagonista, a nova showrunner Angela Kang conseguiu melhorar a qualidade: as personagens começaram a tomar decisões racionais (na maior parte, pelo menos), a história voltou a fazer sentido, a série tornou a ser uma coisa que se consegue ver sem que nos apeteça atirar o comando à televisão.
Não gosto de ser maldizente, mas neste caso é completamente óbvio. Assim que Scott Gimple entrou, a qualidade foi por água abaixo. Angela Kang pegou na série e fez um trabalho hercúleo tendo em conta o estado em que a herdou. Scott Gimple foi para “Fear The Walking Dead“ e este último programa deixou de ter pés e cabeça. Factos.

Agora sim, uma telenovela
Até que ponto é que são spoilers quando já se sabia no fim da temporada anterior? Rick foi-se embora para fazer um filme televisivo (ou vários, já ouvi as duas versões) no universo Walking Dead. Maggie bateu com a porta porque não lhe deram o aumento que ela exigiu e foi fazer outro programa, mas pode muito bem regressar se essa tal série não for renovada (chama-se “Whiskey Cavalier” e eu não vejo). Outra baixa de peso foi já anunciada para a temporada seguinte. Não vou dizer quem, porque nem toda a gente acompanha este tipo de notícias, mas esta vai ser mesmo muito difícil de gerir. Sempre quero ver como é que vão descalçar esta bota. Pobre Angela Kang, se calhar não merecia herdar uma série a desfazer-se aos bocados.
O grande momento da temporada, não há como dar volta a isto, foi a “morte” de Rick Grimes. Esta foi mesmo uma morte anunciada, oficialmente e tudo, com todos os fãs à espera do episódio “fatídico”. E considerando os litros de sangue que Rick perdeu, noutra série qualquer teria morrido mesmo. Mas isto é “The Walking Dead” e fizeram batota.

[Spoiler: e pela primeira vez o cavalo safou-se! Finalmente! Até os cavalos já começam a tomar decisões racionais!]

Mas Rick foi-se mesmo embora. A grande questão era, e ainda é, pode a série continuar a agarrar os fãs se dos primeiros episódios só restam Daryl e Carol, e (mais ou menos do princípio) Michonne? Têm sido introduzidos novos personagens e a série tem feito um grande esforço para nos interessar por eles, mas a verdade é que aqueles que nos interessam são o grupo de Atlanta, aqueles que vimos sobreviver aos primeiros dias do apocalipse, aqueles com quem partilhámos todos os horrores e alegrias desde então até agora, os que ainda vivem quando tantos outros ficaram pelo caminho. Uma série bem feita ter-nos-ia conduzido até ao fim da história dos personagens relevantes, aqueles em que nós investimos desde o início. Mas “The “Walking Dead” prolongou-se demais, muitos actores foram para outros projectos, e agora está efectivamente a funcionar como telenovela. Entram uns, saem outros, sem que consigamos ter tempo de nos ligarmos a eles. Pelo menos podiam aprender com as telenovelas brasileiras: é comprido, comprido, mas um dia acaba antes que sature. Ora, “The Walking Dead” não quer acabar. Quer ser abatido pela falta de audiências. Por este andar, vai conseguir o que deseja.

Vilões sem pés nem cabeça
Mas é preciso dar o devido valor à nona temporada e à nova showrunner. Desde os primeiros instantes, num episódio chamado “A New Beginning”, em que até o genérico é diferente, percebemos que a série vai tomar outro rumo. Confesso que a princípio não gostei muito do novo genérico. Parece uma coisa saída de “outro filme”, um mundo futurista de Fantasia com cavalos e natureza verdejante, muito longe dos subúrbios urbanos e desertos que eram imagem de marca da série. Custou, mas acabei por me habituar. Este já não é o mesmo mundo. Este é um mundo em que a sociedade que conhecemos desapareceu, em que tudo tem de ser reinventado, em que as pessoas têm de voltar às carroças e à agricultura. Tudo isto foi um bocadinho um choque, porque já nem parece a mesma série. Eu, pessoalmente, preferia o ambiente urbano e os prédios desertos.


Mas nenhum choque foi maior, para mim, como o momento em que Negan apareceu. Inconscientemente, eu já tinha “apagado” Negan. A série começa com um salto temporal depois da guerra com os Salvadores e de alguma forma irracional eu tive esperança de que se tivessem “esquecido” dele. (Não seria a primeira coisa incoerente que a série fazia, mas seria de certeza a mais perdoável.) Sim, eu sei que nos comics Negan está preso, porque Rick quer mostrar que apesar de tudo as pessoas ainda podem recuperar algo da civilização perdida e não é preciso andarem a matar-se uns aos outros, e que Negan na prisão significa um regresso à lei e à ordem, sim. Mas Negan é uma personagem tão mal concebida, tão antipática, tão desinteressante, e agora completamente irrelevante atrás das grades, que o melhor era libertarem Jeffrey Dean Morgan para ir para o “Sobrenatural” onde faz mais falta.

[Spoiler: sim, Jeffrey Dean Morgan vai regressar ao “Sobrenatural”, já há imagens!]

Houve uma passagem em que Negan conseguiu fugir da prisão e eu rejubilei, sem ironia: “Sim, faz-nos esse favor, desaparece e não voltes! Adeus!” Desgraçadamente, ele voltou. Enfim, foi um momento de esperança.
O mais preocupante é que “The Walking Dead” continua a tentar redimir Negan, talvez até a ponto de o tornar um personagem importante na nova sociedade, e isso é um erro. Negan é um monstro e ninguém o quer ver dar-se bem. É verdade que tem jeito para miúdos e que as cenas com Judith, agora crescida, têm tentado convencer-nos de que ele é um homem mudado. Mas não é. O que a série estará a tentar fazer é transformá-lo noutro personagem completamente diferente, o que nunca é bom do ponto de vista da coerência. Isto não é bom drama e não ajuda à recuperação da série.
Mas mal tínhamos recuperado do primeiro salto temporal, em questão de poucos episódios, e ainda na primeira parte da temporada, há outro salto de alguns anos. Não me perguntem quantos. Só sei que agora a Judith tem aspecto de andar algures na terceira ou quarta classe, mas posso estar enganada. Entretanto [grande spoiler] Judith tem um irmãozinho mais novo cuja idade também não percebemos muito bem porque ainda mal o vimos. (Qual é o interesse em arranjar mais um descendente ao Rick Grimes se acabamos por não o conhecer?...)
Maggie já se foi embora, nem a vimos ir. Carol está a viver com o “rei” Ezekiel e estão ambos a criar o adolescente mais burro que já apareceu em “The Walking Dead”: Henry. Sinceramente, acho que aqui a série estava a gozar consigo própria e com a famosa estupidez dos seus personagens. Henry foi um puto criado com os melhores sobreviventes do seu mundo. Era impossível ser tão idiota. Carol merecia melhor. (E aqui lembrei-me da filha dela, Sophia, a que apareceu no celeiro com os zombies, na quinta. É curioso como ainda me lembro do nome dela. Mas tenho a certeza de que vou esquecer Henry assim que acabar de escrever este artigo. O que aconteceu a Sophia, todo o grupo a arriscar a vida para a encontrar, teve impacto. Fez crescer Carol e Daryl na nossa simpatia. Henry não teve importância nenhuma.)
O que nos leva aos novos vilões desta temporada, que Henry consegue atrair até às comunidades. Os Whisperers são a coisa mais irrealista que “The Walking Dead” já fez. Ainda mais irrealista do que a malta da lixeira. É preciso querermos acreditar muito para aceitarmos que algumas pessoas consigam viver disfarçadas de zombies durante anos e anos desde o apocalipse, e, ainda mais estranho, que nunca se tenham cruzado nem com Rick nem com nenhum outro grupo de sobreviventes. Como vilões, têm os seus momentos, mas é preciso desligarmos grande parte do cérebro para os aceitar.

Mas os zombies são imperdíveis...
Em suma, “The Walking Dead” já foi uma grande série mas talvez seja mesmo impossível recuperá-la das temporadas catastróficas da guerra com os Salvadores. Angela Kang fez um excelente trabalho e a qualidade melhorou a olhos vistos, mas à medida que os personagens importantes vão saindo os escritores vão tendo de improvisar o melhor que podem para acomodar essas perdas que nada têm a ver com o enredo. E é isso que a história parece agora: um improviso em cima do joelho. Tudo se ressente da longevidade, ou melhor, da velhice da série. Se de repente “The Walking Dead” fosse cancelado e não houvesse uma décima temporada eu não me importaria quase nada. E este “quase” significa Daryl, Carol e Michonne. Gostaria de os ver ter um fim coerente. Mas as esperanças de isso acontecer são quase nulas também.
E, no entanto, eu sei que continuarei a ver esta série (tal como “Fear The Walking Dead”) enquanto ela passar. É que os zombies de Greg Nicotero são muito bons, imperdíveis. Mas actualmente já não espero qualquer desenvolvimento dramático/emocional que me afecte, como acontecia no princípio, e é pena ver uma das minhas séries preferidas chegar a este estado.


segunda-feira, 4 de março de 2019

Risen / Ressureição (2016)

 

Clavius é um tribuno do exército romano incumbido por Pôncio Pilatos de provar que o corpo de Jesus foi roubado pelos discípulos.
Ao contrário de outros “filmes pascais” do mesmo género, este filme surpreendeu-me e penso que é capaz de agradar até ao ateu que nunca vê este tipo de coisas.
O filme começa com a legenda “Deserto da Judeia, 33 DC”, não nos revelando em que parte dos acontecimentos é que estamos. Logo de seguida, num flashback, Clavius e os soldados romanos lutam contra um grupo de insurgentes liderados por Barrabás. Aqui podemos pensar que foi Clavius quem prendeu Barrabás para o levar à cena bíblica em que Pilatos lava as mãos, mas em vez disso Barrabás morre na escaramuça. É Clavius quem o mata. E esta é uma maneira muito inteligente de o filme nos informar de que Cristo já foi crucificado.
Clavius é imediatamente chamado por Pilatos devido à situação em Jerusalém. Pilatos é um homem com o cargo em perigo. O imperador Tibério está para chegar em questão de dias e Pilatos não pode dar-se ao luxo de deixar transparecer que as rebeliões judaicas não estão completamente controladas. Os seguidores de Jesus, na perspectiva dos romanos, são uma facção de insurgentes e é fulcral que o corpo do seu líder não desapareça do túmulo, alimentado a profecia de que Jesus ressuscitaria. Quando o corpo desaparece mesmo, apesar das medidas de segurança reforçadas, Clavius começa a investigar quem o roubou.
Clavius investiga com a competência e o método de um verdadeiro detective dos nossos dias. Examinando cadáveres, seguindo pistas, pagando a informadores. Toda esta parte parece tanto um policial que quase nos esquecemos de que é um filme de inspiração bíblica. Mas num bom sentido, original e cheio de suspense. Clavius é tão bom detective que não só consegue descobrir a sala onde os onze apóstolos estão todos reunidos, como até encontra o que nunca lhe passou pela cabeça encontrar: o próprio Jesus ressuscitado. Tal como o apóstolo Tomé, que entra na sala e diz a Jesus que não acreditava se não visse, Clavius viu e agora tem de acreditar.
Este aspecto da ressurreição de Jesus, em que ele é visto pelos apóstolos em carne e osso, não é controverso por acaso. O filme trata-o com a maior naturalidade, sem grande misticismo para lá do implícito. Clavius é convidado a acreditar mas o filme acaba sem que se tenha decidido. O que fará depois fica em aberto. Não é costume um filme tipicamente pascal ser tão moderno sem deixar de respeitar a narração bíblica.

Nota pessoal: foi uma surpresa reconhecer a cara de Cliff Curtis (o Travis Manawa de ”Fear the Walking Dead”) no Cristo crucificado e ressuscitado. Agora vou ficar com umas associações estranhas na cabeça.

Dentro do género de filme de inspiração bíblica,

16 em 20


sábado, 3 de novembro de 2018

World War Z / WWZ: Guerra Mundial (2013)


O grande problema deste filme de zombies é que não tem zombies. Há um vírus tipo “28 Dias Depois”. Assim que alguém é mordido por um infectado, transforma-se em “zombie” em 12 segundos. 12 segundos! Nos casos mais demorados, 10 minutos. Não, isto não são zombies. Um zombie é um cadáver que come vivos. Estas pessoas não são cadáveres porque nunca chegaram a morrer.
Pior um pouco, em vez de ficarem mais lentos, os supostos cadáveres adquirem tanta força e velocidade que se nota perfeitamente que algumas imagens foram aceleradas por computador. Estes “zombies” são mais Incríveis Hulks ou algo do género.
E depois temos o enredo. Um ex-agente das Nações Unidas (nunca sabemos o que ele fez ao certo, excepto que era um durão), Brad Pitt (isto é, “Gerry Lane” interpretado por Brad Pitt, mas quem é que se interessa do nome do personagem quando Brad Pitt está no écran e não se chama “Louis”?), retirado da vida activa para se dedicar à mulher e duas filhas, uma destas com asma (mas isto nunca tem importância nenhuma), é o típico ex-militar dos filmes de acção que decide merecer o repouso do guerreiro. O personagem não passa disso, um Action Man a fazer de bom marido e pai extremoso. Como acontece nos filmes de acção, por razões e acasos ele acaba por ser chamado de volta ao seu trabalho quando há uma crise. E resolve-a. E aqui temos o enredo de filme de acção que já vimos ad nauseam.
World War Z até tem umas cenas interessantes no princípio, a lembrar o melhor de "The Walking Dead" e "Fear the Walking Dead". (Faço um parêntesis para realçar como "The Walking Dead" se tornou o mais alto patamar de comparação em tudo o que toca a zombies. Tirando o primeiro filme de George Romero, “A noite dos Mortos Vivos” de 1968, realmente não vi melhor e há que admitir.) São as cenas em que se percebe que algo está mal mas ainda não se sabe o que é. Como aquele engarrafamento em que a família está dentro do carro e começa a ver motos da polícia a avançar por entre o tráfego e transeuntes aterrorizados a fugir na direcção inversa.
Infelizmente, toda esta tensão se perde quando o protagonista observa um “mordido” a transformar-se em “algo” (recuso dizer zombie) em apenas 12 segundos. Catrapás, já estás! A partir daqui o filme torna-se num daqueles enredos em que um herói é enviado a várias partes do mundo à procura do paciente zero, de uma vacina ou de uma cura. Torna-se definitivamente um filme de acção. Como bom filme de acção, não morre ninguém importante. Afinal, o herói tem de salvar a família para que tudo acabe bem.
Entretanto, vi supostos zombies a correr mais depressa do que os vivos, a escalarem muros e arranha-céus (!) tipo formigas umas atrás das outras, e a morderem tudo e todos sem nunca pararem para comer alguém. Mas que?!... Será que as pessoas que fizeram o filme alguma vez viram um filme de zombies? Sim, viram. Na verdade, sendo um filme de 2013, em que "The Walking Dead" já liderava audiências, se calhar até nem queriam fazer um filme de zombies, mas os zombies já estavam na moda e aqui está isto. Um filme que eu vi no engodo de ter zombies. Se me dissessem que era um filme de acção com pessoas infectadas por um vírus raivoso talvez não visse, pois não?
A este filme falta tudo o que é preciso para meter medo. É verdade, as últimas cenas são tensas, mas como já sabemos que ali está um típico herói de acção ninguém acredita que lhe aconteça alguma coisa. Afinal, ele tem de salvar o mundo!
O que nos mete medo, no zombie, é o horror de um cadáver humano que se reanima, podre e malcheiroso, para comer os vivos. (Simboliza, a bem ver, o horror da própria morte. Todos somos cadáveres a prazo). O que temos em World War Z são pessoas infectadas com um vírus raivoso. Sendo assim, preferi “28 Dias Depois”. Pelo menos é mais original. Os apreciadores de zombies não perdem nada se ignorarem World War Z.



12 em 20