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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Alien: Covenant (2017) / Prometheus (2012)


Alien: Covenant (2017)

Como faço muitas vezes, comecei a ver este filme sem saber quase nada sobre ele. Nem que era de Ridley Scott, nem que era um filme da série Aliens, nem que era a sequela de “Prometheus”. (Da sinopse e título pensei que era a história de colonos espaciais que encontram uma civilização alienígena hostil.) Não saber nada de um filme (ou livro) permite-me absorver a obra sem expectativas ou ideias preconcebidas. E admito que fiquei agradavelmente surpreendida quando percebi que ia ser um filme da série Aliens. Até cerca de metade do filme gostei bastante. E de repente o filme tornou-se confuso. Comecei a ter a sensação de que tinha perdido um episódio. Efectivamente, perdi, porque ainda não tinha visto “Prometheus”.
Então a história é esta. A nave espacial Covenant dirige-se a um sistema solar distante na intenção de o colonizar. Mas, durante o caminho, recebe uma transmissão humana, vinda de um planeta tão propício à vida que é completamente compreensível que a missão decida investigar e, talvez, estabelecer-se mesmo ali.
Mas a transmissão é uma armadilha. E de quem? Ora, é esta a parte em que seria preciso conhecer o que aconteceu em “Prometheus” e em que comecei a ficar confusa.
“Alien: Covenant” começa muito ao estilo de “Odisseia no Espaço” (ou filmes semelhantes da altura, até nas roupas que parecem ter saído dos anos 70) com o criador de um andróide muito evoluído, e este próprio andróide, David, a terem uma discussão altamente filosófica sobre quem devia servir quem uma vez que o andróide é eterno e o criador é mortal.
Muda a cena, estamos na nave Covenant. Esta nave tem um andróide, que eu julguei que era o tal David (são iguais) mas afinal não era. Instala-se a confusão na minha cabeça.
A tripulação da nave desce ao tal planeta, onde começam a ser infectados pelo nosso alien do costume (afinal não fui assim tão enganada pela sinopse, simplesmente o alienígena hostil não é um desconhecido) através de esporos que entram pelo nariz, boca, ouvidos e outras reentrâncias do corpo humano. Mas a maneira como sai é a mesma: buraco entre as costelas e lá vai ele.
Entretanto, já andam pelo menos dois aliens adultos à solta ainda antes que a pobre tripulação perceba muito bem o que lhe está a acontecer. Quando estão a ser atacados, eis que entra em cena o primeiro andróide, David, o tal da primeira cena, com armamento que afugenta os aliens.
E aqui parece que o filme deixou o universo Aliens e entrou no universo O Senhor dos Anéis. David vem coberto com uma manta encapuzada à elfo, de longos cabelos loiros, no papel do estranho misterioso e cheio de poderes sobre-humanos que oferece ajuda.
Só percebi que era um andróide quando ele se volta para o andróide da nave e lhe chama “irmão”, e só aí percebi que o andróide da nave não era o mesmo do princípio.
Ok, avançamos. A tripulação é levada para as ruínas de uma cidadela completamente rodeada de cadáveres carbonizados (a lembrar Pompeia) e ninguém se lembrou de perguntar ao tal David o que raio se tinha passado ali. Entretanto, este explicava que era o único sobrevivente da nave Prometheus, dada como perdida, e a fonte da transmissão que leva ali a tripulação da Covenant.
O filme continua dividido em dois a partir daqui: por um lado, os recém-chegados da Covenant protagonizam um filme Aliens como estamos habituados, eles a fugir, os aliens a comê-los, enquanto que os dois andróides se retiram para mais uma conversa filosófica como se nada se passasse lá fora.
E aconteceu-me outro momento de grande confusão. O novo andróide, o tal David, subitamente aparece de cabelo preto e cortado, e quase igual ao outro, e durante toda a cena eu não percebi que era o mesmo actor a contracenar consigo próprio! Aqui tenho de dar os parabéns ao actor Michael Fassbender que me convenceu completamente de que era duas personagens diferentes a ponto de enganar os meus olhos. (Mas deixem-me explicar o motivo principal da minha confusão, que foi o cabelo loiro. Isto é explicado no filme anterior, “Prometheus”. Quem conhece os andróides de Aliens não lhes nota qualquer vestígio de vaidade ou vontade de ser diferente. Mas David, aparentemente, foi o primeiro andróide a ser criado e é muito mais humanizado do que os outros, o que se revela um problema. Sim, David decidiu mudar de visual. E isto baralhou-me tanto que passei o filme a tentar perceber quem era quem. Mas lá consegui apanhar o fio à meada e até adivinhei a reviravolta final.)
Fazendo justiça a Ridley Scott, se eu tivesse visto “Prometheus” primeiro esta confusão não se punha porque David é completamente inesquecível. O que só vem reforçar a ideia de que os filmes são episódios e precisam um do outro, e não aconselho ninguém a ver “Alien: Covenant” antes de “Prometheus”. A sensação de “episódio perdido” persiste até ao fim do filme. Comecei a ficar com a impressão de que “Alien: Covenant” se tinha passado antes mesmo do primeiro Alien, que este tal David é que tinha manipulado geneticamente a raça de aliens até estes se transformarem nos aliens que viemos a conhecer nas aventuras da Ripley, mas tudo isto apenas como hipótese e sem lhe conhecermos as motivações. Este David, neste filme, aparece como um Dr. Frankenstein apaixonado pelo seu monstro, um filme dentro de outro filme. Mas um filme que termina no Aliens “habitual”, com todas as reviravoltas que esperamos desta saga. Se alguém tem o direito de inovar é mesmo Ridley Scott, realizador do “Alien” original, mas parece-me que ele tentou fazer a sua “Odisseia no Espaço” ao mesmo tempo que dava à audiência a dose de aliens de que esta estava à espera. Se resultou? Bem, é uma boa dose de aliens com todos os condimentos habituais, mas “Alien: Covenant” continua a parecer dois filmes que só por coincidência se interceptam e no meu caso com um “episódio perdido” pelo meio. Por este motivo, culpa minha que não vi “Prometheus” antes, abstenho-me de dar nota por agora.



Prometheus (2012)

“Prometheus” não é a dose habitual de Aliens. É um filme filosófico e ambicioso sobre a origem da vida, especialmente sobre os motivos do criador e a sua relação com as criaturas que concebeu.
O filme começa quando uns arqueólogos, na Terra, descobrem gravuras rupestres que apontam para uma raça estelar semelhante à humana e para um sistema solar longínquo que, segundo estes acreditam, é o lar dos nossos Criadores, a quem chamam os Engenheiros. Esta descoberta leva-os a uma viagem ao tal planeta dos Engenheiros, na esperança de conhecerem a espécie que deu origem à raça humana.
Enquanto a tripulação dorme na nave que a transporta até lá, voltamos a encontrar o andróide David (o mesmo de “Alien: Covenant”) e percebemos porque é que ele pinta o cabelo. David pinta o cabelo de louro depois de ver “Lawrence da Arábia”, o seu herói. E um andróide com um herói é um andróide com personalidade. David é, indubitavelmente, o personagem principal, um andróide com um complexo de superioridade em relação aos seres humanos que o criaram e que o tratam como a um robô sem sentimentos nem intelectualidade. David está chateado e tem motivos para estar chateado.
Ao chegarem ao planeta dos supostos Engenheiros, hominídeos gigantes que nos teriam criado à sua imagem, mas agora aparentemente extintos, David encontra, primeiro que todos, uma outra criação dos Engenheiros, uns estranhos micróbios cuja finalidade desconhece. Mas começa imediatamente a testá-los nos humanos, especialmente nos humanos que o tratam pior.
Há muitas cenas arrepiantes neste filme, mas na minha opinião a pior de todas é a operação à barriga. Não faltam outras, igualmente de arrepiar os cabelos. Ninguém vai sair deste filme insatisfeito nesse departamento. Os efeitos especiais são particularmente convincentes.
Mas como este não é um filme de aliens qualquer, a nossa curiosidade é conduzida para esta raça de gigantes que supostamente nos criou. Após pesquisarem as instalações que os Engenheiros deixaram no planeta, a tripulação da Prometheus percebe que este não é um lar mas uma base militar, e carregadinha de armas de destruição maciça (o micróbio alien). Visualizando gravações de imagens, percebem que os Engenheiros se preparavam para voltar à Terra com o objectivo de destruir a humanidade que eles próprios criaram.
Mas se dúvidas houvesse, David o andróide descobre que um dos Engenheiros ainda está no complexo, vivo, numa câmara de hipersono. A tripulação acorda-o e tenta estabelecer comunicação com ele, mas o gigante não quer conversas e desata a matar toda a gente que apanha. Não bastando fugir dos aliens, agora têm de fugir dele também.
Voltemos ao princípio. Filme filosófico e ambicioso em que a humanidade se confronta com o seu criador. Este criador, aparentemente, mudou de ideias e resolveu destruir a sua criação. Que moral, ensinamento, conclusão tiramos daqui?
“Porque é que queres saber porque é que eles mudaram de ideias? É irrelevante. Não compreendo.”, pergunta David à arqueóloga.
“Não compreendes porque tu és um robô e eu sou um ser humano”, responde ela.
Ainda bem que eu também sou um ser humano porque eu também queria muito saber porque é que os Engenheiros se deram ao trabalho de criar a humanidade para depois a destruir. Isto é, posso tecer milhentas conjecturas sozinha, mas o filme não oferece nenhuma. Temos de ficar com esta ideia “interessa-nos porque somos seres humanos”. Fraquinho, muito fraquinho. Eu esperava, no mínimo, uma teoria. Um motivo. Afinal ficamos na mesma.
De igual forma, não percebi o Engenheiro suicida que se mata com uma dose de micróbios alien no princípio do filme enquanto vê a nave do seu povo afastar-se. Dá ideia de que foi o único que ficou no planeta, mas afinal não, porque havia outro em hipersono. A única pista sobre este suicida é uma menção no genérico final como aquele que se “sacrifica”, o que ainda é mais confuso. Do que vimos nas tais imagens deixadas por eles, tiveram de fugir à pressa porque as experiências com aliens não correram bem. (A única parte que se percebe perfeitamente, conhecendo nós os aliens como os conhecemos.) Então quando é que isto (o suicídio/sacrifício) aconteceu? Terá sido neste planeta, como parece dar a entender, ou no deles, ou na Terra, ou noutro lado qualquer? Mais uma vez podia pôr-me aqui a tecer conjecturas, mas o filme não dá respostas. “Alien: Covenant”, a sequela, também não nos explica mais sobre esta raça de gigantes excepto o massacre que se vê na tal cidadela de que falei acima. E que mais uma vez nos deixa sem saber nada.
As únicas respostas que temos, tanto em “Prometheus” como em “Alien: Covenant”, são sobre a origem dos aliens. Afinal começaram como micróbios (ou esporos, não percebi bem) e foram sendo geneticamente manipulados (e evoluindo por eles próprios, igualmente, com a ajuda dessa manipulação), primeiro pelos Engenheiros e depois pelo próprio David, antes de serem o alien que conhecemos da nave Nostromo. Uma coisa é certa, no entanto: até como micróbios os aliens eram extremamente mortíferos, se não mais, porque não se viam a olho nu e mesmo assim entravam no corpo do hospedeiro e faziam aquilo que se sabe.

Gostei mais de “Prometheus” do que de “Alien: Covenant”, e gostei mais ao segundo visionamento. A primeira vez que vi fiquei confusa, a perguntar-me o que me tinha escapado. Afinal não me escapou nada, mas estes dois filmes têm ar de trilogia incompleta. As intenções são claras, fazer um paralelo entre a nossa criação, ou mitologia dessa criação, com a criação dos aliens, e de como acabamos todos por ser espécies a competir pela vida num universo indiferente, abandonados por um Criador que não se importa. Muito existencialista. Mas parece-me que Ridley Scott queria dizer mais e ainda não foi desta que conseguiu. A existência e motivação dos Engenheiros é interessante e misteriosa e merecia um filme só para eles. Até sem aliens.
Também gostei muito de toda a imagética criada em “Prometheus”, a começar pela primeira cena. Só é pena deixar tantas perguntas a que a sequela também não responde.
Fiquei interessada e fui investigar. Parece que Scott prevê realizar outro filme ainda só denominado “Untitled Alien Prequel". Por mim, que venham mais. Que venham todos.


Alien: Covenant
14 em 20

Prometheus
15 em 20


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Event Horizon / O Enigma do Horizonte (1997)


Este é daqueles que se vi não me lembro. Personagens genéricas e uma ameaça que fica sempre inexplicada parecem ser os ingredientes perfeitos para causar amnésia cinematográfica.
Até o enredo é mais ou menos igual a tantos outros do género: uma equipa de socorro é enviada em busca da nave de exploração espacial Event Horizon, seguindo um sinal que esta envia de algures em órbita de Saturno. Assim que vemos o aspecto da nave Event Horizon percebemos logo que isto vai ser um filme de terror inspirado no “Alien”. Meu dito meu feito, o filme não é exactamente subtil. Até a equipa de socorro nos recorda as tripulações dos vários “Aliens”, o tipo de pessoas que está ali porque é um emprego como outro qualquer e no fundo o que queriam era uma reforma antecipada. Gostei das cenas em que quase todos os membros da equipa fumam uma cigarrada antes de entrarem nos tanques de stasis (?). É datado, mas é giro. Também gostei de terem explicado o conceito de FTL (velocidade Faster Than Light) que implica causar uma “dobra” no contínuo espaço-tempo. Tudo ficção científica, bem entendido, mas como era 1997 ainda se deram ao trabalho de explicar. Actualmente a ficção científica usa o termo FTL a torto e a direito e pessoas como eu, que não conhecem estes termos nem sabem o que significam, ficam ali à nora a tentar perceber a acção, ou desistem. O que me leva a esta reflexão: uma ficção científica que não se dirija a um nicho muito específico de conhecedores devia ter em conta uma audiência mais interessada na história e personagens e menos nos aspectos científicos. Quanto mais a ficção científica se dirige a um nicho, mais aliena o público leigo.
Mas voltando ao filme. As coisas começam a acontecer como é previsível neste género horror sci-fi. A Event Horizon é uma nave fantasma, toda a sua tripulação está morta, alguns corpos andam mesmo ali a vogar nos corredores devido à ausência de gravidade. Enquanto exploram a nave, os membros da equipa da socorro começam a ter alucinações estranhas com pessoas que lhe são caras, algumas já falecidas. Resolvendo que se passa algo de anormal e perigoso, decidem ir-se embora, mas aqui entra em cena o cientista louco/malvado (Sam Neill). Acontece que foi ele quem desenhou a nave, dotando-a de um mecanismo capaz de criar o seu próprio buraco negro de modo a viajar no espaço mais depressa. Mas aparentemente a Event Horizon visitou outra dimensão e não regressou sozinha. Trouxe consigo forças maléficas que querem apossar-se dos recém-chegados. Que forças maléficas são estas e para onde querem levar a nave de volta? Para o inferno. Não, não é uma forma de dizer. O filme quer-nos convencer de que a nave foi ao inferno e voltou. (É tranquilizador saber que algures na infinitude do espaço, até do outro lado de um buraco negro, ainda se aplicam as regras da nossa civilização judaico-cristã.)
As tais forças maléficas apoderam-se da mente do cientista (ou será que ele já era assim?) e a partir daqui este faz o papel de sabotar a fuga dos outros. O resto do filme é a tripulação da nave de socorro a lutar pela vida.
“Event Horizon” não prima pela originalidade mas enche o olho em termos de efeitos especiais e cenários. É o tipo de filme que se via no grande écran (quando ainda havia grande écran, mas já em extinção) a comer pipocas. Uma crítica que li chamou-lhe uma espécie de “Shining via Aliens”, e é de facto uma descrição muito apta. Durante quase todo o filme me recordei de “The Shining”, especialmente na cena em que um dos tanques de stasis se enche de sangue, explode, e jorra sangue por todo o lado, como o célebre elevador do hotel Overlook. Fiquei foi sem perceber se o tanque aconteceu mesmo ou se foi outra alucinação. Na verdade, fiquei sem perceber grande coisa excepto que o inferno é muito mau e pode estar do outro lado de um buraco negro, e que o Génesis bíblico tinha razão: o homem não deve querer saber tanto como Deus ou será castigado. Mas acho que até já estou a tirar conclusões a mais por mim própria e a tornar o filme mais interessante do que é. “Event Horizon” aposta principalmente no espectáculo, com muitos cenários, muitas explosões, muito sangue e afins, mas na verdade é um filme vazio que não deixa lembranças.


14 em 20


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror II

The Whisperer in Darkness
«(A Buzzing Imitation of Human Speech)

Ia! Shub-Niggurath! The Black Goat of the Woods with a Thousand Young!»

Onde é que eu ouvi algo semelhante?

Let it spill from my mouth
Sweet nectar for a thousand young


Fields of the Nephilim, "Psychonaut Lib"

[É oficial. As letras do sr. McCoy são ainda menos compreensíveis do que o universo alienígena do autor em que se inspiram.]



Esta é outra das histórias mais arrepiantes de H. P. Lovecraft, muito devido à habilidade como o enredo vai sendo exposto através de cartas entre os protagonistas, à semelhança do clássico "Drácula" de Bram Stocker. Depois de uma inundação em Vermont, populares relatam o avistamento entre os destroços de corpos não-humanos que o folclore local associa a criaturas monstruosas (segundo os Índios, extraterrestres), que habitam as altas montanhas para extrair minério. Em sequência destes acontecimentos, Albert Wilmarth, um professor da universidade de Miskatonic versado em mitologia e lendas é interpelado pelos seus colegas que desenvolvem teorias no sentido de revelar alguma base de verdade nos relatos dos populares. Muito céptico, este professor rejeita completamente estas teses e depressa a polémica chega aos jornais. É então que recebe a primeira carta de um cavalheiro erudito e distinto, habitante do sopé das montanhas de Vermont, que não apenas afirma que as criaturas são reais e de facto extraterrestres como fornece provas tangíveis (fotografias e gravações) da sua existência. Mais ainda, afirma que estes seres têm vindo a cercar a sua casa, tentando matá-lo ou capturá-lo para o levarem para outro planeta, por saber demais sobre eles. Um dos destinos prováveis é o posto avançado que teriam no planeta Yuggoth, o recém descoberto Plutão. [Plutão foi descoberto em Fevereiro de 1930. O conto data de Setembro do mesmo ano.]
Se a princípio o céptico professor tem dificuldade em acreditar nas cartas e provas que recebe, à medida que a correspondência se torna mais intensa apercebe-se que de facto o cavalheiro está plenamente convencido de que está em perigo, seja a ameaça real ou imaginária, uma vez que este já fala em abandonar tudo e ir morar com o filho na Califórnia. Quando as cartas revelam que a situação em torno da casa do distinto eremita se torna deveras preocupante, o professor decide deslocar-se pessoalmente a Vermont para ajudar o amigo seja qual for a natureza do apuro que o ameaça. Quando chega, é demasiado tarde. Este já tem o cérebro metido num cilindro e pronto para ser despachado para Plutão, e o ser com quem chega a ter uma conversa, apercebe-se depois, não passa de um extraterrestre com uma máscara de cera copiada do original. O cenário que encontra é tão chocante que só lhe resta fugir para bem longe e destruir todas as provas.
Outra leitura altamente recomendável.



Dreams in the Witch-House
Um jovem estudante, hóspede de uma casa em Arkham onde habitou em tempos uma feiticeira fugida de Salem, começa a ter pesadelos com a velha bruxa e o seu espírito familiar: uma criatura do tamanho de um grande rato com feições humanas chamado Brown Jenkins. Se não fosse mesmo por este Brown Jenkins, por quem nutro uma especial simpatia, teria achado este conto uma imensa seca. Não sei se devido à minha cultura europeia, especialmente peninsular, em que bruxas não faltam a cada esquina, se pelo meu cepticismo em relação ao caso de Salem em geral, não tenho medo de bruxas que papam criancinhas. Se calhar por isso é que acho que a história não tem pés nem cabeça e a única parte boa é quando a pequena criatura come o estudante. Pode ser mais assustador para um americano, mas terão de perguntar a um americano. Porque aqui não se acredita em bruxas mas que as há, há. Brown Jenkins, no entanto, é um nome engraçado para um gato de família.

The Haunter of the Dark
Um escritor começa a interessar-se por uma igreja abandonada cujo pináculo consegue avistar da janela do seu quarto. A sua curiosidade é despertada ao reparar que os pássaros não se chegam perto dela. Finalmente, decide dar um passeio pela parte mais longínqua da cidade em busca do que pensava ser apenas um monumento arquitectónico de grande interesse. É com perplexidade que percebe que os habitantes locais têm um medo supersticioso do local que se manteve fechado e impenetrável durante dezenas de anos. Destemido, consegue maneira de entrar e no interior do templo descobre livros e vestígios de uma estranha seita que invocava deuses sanguinários. Nos livros lá deixados consegue ler que uma criatura terrível habita o local (mais um dos Antigos, ou uma sua criação) e apenas a luz, até a artificial luz eléctrica, a mantém prisioneira dentro das quatro paredes. E o escritor não duvida disso porque desde a visita à igreja os seus sonhos começam a ser assombrados por visões de outros tempos e mundos, e ele sabe que é a o ser da escuridão quem lhos manda. A partir daí, vive em terror que uma noite falte a luz na cidade e o ser consiga libertar-se na escuridão. Numa noite de verão, mas de tempestade, chuva e relâmpagos, a electricidade falha. O terror da escuridão já pode sair do seu cativeiro.



The Shadow Over Innsmouth
Este é outro clássico imprescindível para conhecer o universo de Lovecraft e toda a sua galeria de monstros. É na fictícia Innsmouth que se desenvolve mais um capítulo aterrador do domínio dos que estão nas profundezas do mar. Durante séculos, Innsmouth foi uma pacata vila piscatória e portuária de onde saíam barcos que velejavam pelo Pacífico Sul. De uma dessas viagens, o armador mais rico da vila trouxe ideias de começar uma nova religião, a Ordem de Dagon, a que todos os habitantes aderiram seduzidos por promessas de prosperidade ("estes Deuses do mar respondem às nossas orações"). Em troca de prosperidade, os Deuses exigiam sacrifícios humanos e... na curiosa expressão utilizada por Lovecraft noutro conto: "tráfico com as coisas do mar". Isto é, acasalamento entre as criaturas marinhas e os seres humanos. Nem todos os habitantes de Innsmouth aceitaram as novas leis... mas estes acabaram por servir os sacrifícios. O certo é que em poucas dezenas de anos Innsmouth se tornou um amontoado de casas abandonadas e entaipadas, onde não se via vivalma, e os habitantes começaram por exibir deformidades repugnantes: membros achatados, pupilas dilatadas cujos olhos nunca piscam, queda de cabelo, pele semelhante a escamas, andar esquisito, cabeça careca, e, o pior de tudo, um intenso cheiro a peixe. Os habitantes de Arkham evitavam deslocar-se à cidade, não só por ser considerada um antro de criminalidade mas por se ter generalizado a ideia de que estes infelizes sofriam de uma doença genética e endémica, repulsiva para as pessoas normais, que se agravava à medida que envelheciam a ponto de os casos mais graves serem mantidos em segredo dentro de portas, em sótãos onde as janelas foram também forradas a madeira.
Não obstante, um jovem estudante em turismo pela região, especialmente atraído pelas peças de joalharia típicas dos habitantes de Innsmouth e por arquitectura em geral, decide tirar um dia para visitar a vila. Mal tinha chegado já se tinha arrependido, porque os habitantes eram esquivos e repugnantes, e aquilo que lhe conta um dos poucos habitantes da vila que só lá estava devido ao seu posto no armazém geral o convence de que seria muito perigoso pernoitar ali. Mas a curiosidade acaba por vencê-lo, e perde tempo precioso a falar com um velho bêbedo, mas de aspecto normal, que lhe conta toda a história de como a vila adora os Deuses do Mar ("the Deep Ones") e os seus habitantes nascidos da união entre seres humanos e híbridos se transformam com a idade por sua vez em híbridos, e acabam por ir viver para as profundezas como os seus antecessores, tendo aí uma vida imortal.
O jovem turista não acredita em nada destas lendas mas por incidente imprevisto é obrigado a passar a noite no único hotel da cidade. É aqui que apanha um dos maiores sustos da sua vida, quando percebe que o *incidente* não foi acidental e que está a ser perseguido por uma horda de homens-peixe que acaba finalmente por conseguir ver com os seus próprios olhos. Consegue a custo fugir de Insmouth, a pé, despistando os seus perseguidores, mas só muitos anos mais tarde chega a perceber que afinal eles não o queriam aprisionar mas antes, devido ao seu parentesco com o povo de Innsmouth, devolvê-lo à família. É que com a idade, ele também começa a transformar-se. É um deles. E agora tem duas opções: suicidar-se, como o fez um seu tio ao descobrir a verdade sobre a sua ascendência, ou mergulhar para sempre na companhia dos Deuses do Mar.



The Shadow Out of Time
Um pacato professor de Economia Política está a dar uma aula quando desfalece e parece sofrer de amnésia durante anos a fio, uma amnésia tão profunda que nem os seus amigos ou a própria mulher o reconhecem. Quem escreve é o próprio, saído desse torpor, para explicar como voltou a ser ele próprio e todas as viagens e investigações que fez durante a amnésia lhe parecem feitas por um outro que não ele. De facto, começa desde logo a ser atormentado por sonhos estranhos, que contava apenas ao seu filho e médicos pessoais, em que se via aprisionado num outro corpo, no planeta Terra mas muito antes de toda a vida conhecida, por uma tal Grande Raça ("the Great Race") de origem extraterrestre que tinha o poder de trocar de mente com criaturas de outros locais e até de outros períodos temporais, de modo que a mente do professor foi transportada para o passado enquanto o extraterrestre usurpador do seu corpo, no presente, obtinha conhecimentos sobre o a humanidade do século XX. Esta Grande Raça, por sua vez, tinha sido forçada a fugir para a Terra em consequência da iminente destruição do seu próprio planeta -- ideia da invasão extraterrestre motivada pela necessidade dos nossos recursos tão explorada na ficção científica desde "A Guerra dos Mundos" ao simpático Super-Homem.
Mais do que terror, este é de facto um conto de ficção científica que se baseia no fascínio de Lovecraft pelas ideias de Einstein sobre o espaço e o tempo, mas que para um leitor actual tem partes verdadeiramente cómicas. Por exemplo, as outras mentes prisioneiras da Grande Raça, que o professor descreve assim:

I knew, too, that I had been snatched from my age while another used my body in that age, and that a few of the other strange forms housed similarly captured minds. I seemed to talk, in some odd language of claw clickings, with exiled intellects from every corner of the solar system.
There was a mind from the planet we know as Venus, which would live incalculable epochs to come, and one from an outer moon of Jupiter six million years in the past. Of earthly minds there were some from the winged, starheaded, half-vegetable race of palaeogean Antarctica; one from the reptile people of fabled Valusia; three from the furry pre-human Hyperborean worshippers of Tsathoggua; one from the wholly abominable Tcho-Tchos; two from the arachnid denizens of earth's last age; five from the hardy coleopterous species immediately following mankind, to which the Great Race was some day to transfer its keenest minds en masse in the face of horrible peril; and several from different branches of humanity.
I talked with the mind of Yiang-Li, a philosopher from the cruel empire of Tsan-Chan, which is to come in 5,000 A.D.; with that of a general of the greatheaded brown people who held South Africa in 50,000 B.C.; with that of a twelfth-century Florentine monk named Bartolomeo Corsi; with that of a king of Lomar who had ruled that terrible polar land one hundred thousand years before the squat, yellow Inutos came from the west to engulf it.
I talked with the mind of Nug-Soth, a magician of the dark conquerors of 16,000 A.D.; with that of a Roman named Titus Sempronius Blaesus, who had been a quaestor in Sulla's time; with that of Khephnes, an Egyptian of the 14th Dynasty, who told me the hideous secret of Nyarlathotep, with that of a priest of Atlantis' middle kingdom; with that of a Suffolk gentleman of Cromwell's day, James Woodville; with that of a court astronomer of pre-Inca Peru; with that of the Australian physicist Nevil Kingston-Brown, who will die in 2,518 A.D.; with that of an archimage of vanished Yhe in the Pacific; with that of Theodotides, a Greco-Bactrian official Of 200 B.C.; with that of an aged Frenchman of Louis XIII's time named Pierre-Louis Montagny; with that of Crom-Ya, a Cimmerian chieftain of 15,000 B.C.; and with so many others that my brain cannot hold the shocking secrets and dizzying marvels I learned from them.

A própria Grande Raça é cómica: os seus corpos físicos são gigantescos cones movediços de onde saem múltiplos tentáculos ou sensores. Acho que "Os Simpsons" aproveitaram isto para um episódio em que estes extraterrestres pareciam ameaçadores mas acabavam por ser simpáticos apesar do seu estranho aspecto. Também me lembro de algo semelhante no lendário "Star Trek" ("O Caminho das Estrelas"), em que não eram tão amigáveis.
A moralidade da Grande Raça, porém, não é tema da história. Até porque muitos antes de toda a vida terrestre a Grande Raça sabia que teria de fugir de novo para outro planeta pois seria ameaçada por uma espécie ainda mais antiga de extraterrestres cujas mentes não conseguiam controlar e que apenas podiam conter em subterrâneos debaixo do esplendor das suas grandes cidades.
É aqui que Lovecraft abandona a ficção científica para deixar a sua pincelada de terror. Certo é que a Grande Raça já não habita entre nós, pois migrou há milhões de anos para outras paragens, mas o professor interroga-se sobre a sobrevivência da outra raça, a mais antiga e temida até pelas mentes superiores dos seus captores.
Para perceber a origem da sua ilusão, o protagonista embrenha-se no estudo da psicologia e acaba por convencer-se de que os seus sonhos são pseudo-memórias criadas pelos estranho interesse em mitologia que o possuiu durante os anos de amnésia e decide até publicar os seus sonhos para fins científicos em jornais da especialidade. É devido a estas publicações que é contactado por um arqueólogo que efectuava escavações na Austrália, pois os vestígios que tinha encontrado eram em tudo semelhantes às descrições do ex-paciente. Convidado para integrar a expedição, mas muito céptico em relação às alegações do colega, o professor parte para o deserto australiano, onde vem a deparar-se com as ruínas da grande cidade com que tinha sonhado. Encontra até, nessas escavações nunca antes tocadas por um ser humano, um livro escrito pelo seu próprio punho, em inglês. E encontra outra coisa mais monstruosa: pegadas. É que todos os alçapões onde a Grande Raça aprisionava os mais antigos se tinham aberto com as convulsões da Terra, e sim, esses seres monstruosos andavam à solta.

Uma última nota sobre um facto que é recorrente em toda a obra de Lovecraft e que me causa desgosto particular: Lovecraft não gosta da Lua. Arrisco uma explicação astrológica. Talvez por ser de signo Leão, cujo astro é o Sol, Lovecraft descreve sempre a Lua como silenciosa cúmplice dos monstros e o luar como mancha doentia sobre as ruínas, ruas ou personagens sobre quem cai na escuridão da noite, mas nesta história Lovecraft faz um dos seus ataques mais violentos, descrevendo como inchada e fungóide a musa inspiradora de tantos poetas, assim:

The daemon wind died down, and the bloated, fungoid moon sank reddeningly in the west.


At the Mountains of Madness
Esta é um dos meus contos preferidos por ser fonte de tantos mitos que povoam o nosso inconsciente colectivo moderno e que eram novidades aterradoras à altura. A história? Uma equipa de cientistas descobre uma nova espécie e decide dissecá-la. A nova espécie não está tão morta como parece e papa os cientistas.

I am forced into speech because men of science have refused to follow my advice without knowing why. It is altogether against my will that I tell my reasons for opposing this contemplated invasion of the antarctic--with its vast fossil hunt and its wholesale boring and melting of the ancient ice caps. And I am the more reluctant because my warning may be in vain.

Começa assim o narrador a tentar dissuadir uma expedição ao Pólo Sul, lembrando uma Ripley a tentar impedir que alguma nave regresse ao planeta onde encontrou os Aliens. Não, o cientista não está preocupado com o aquecimento global. Esses são terrores mais actuais. Na altura ainda havia margem para especular sobre a desconhecida Antárctida.
Equipada com os meios mais sofisticados da época, uma equipa com fins geológicos, biológicos e geográficos parte para o Pólo Sul com grandes ambições:

We planned to cover as great an area as one antarctic season--or longer, if absolutely necessary--would permit, operating mostly in the mountain ranges and on the plateau south of Ross Sea; regions explored in varying degree by Shackleton, Amundsen, Scott, and Byrd. With frequent changes of camp, made by aeroplane and involving distances great enough to be of geological significance, we expected to unearth a quite unprecedented amount of material--especially in the pre-Cambrian strata of which so narrow a range of antarctic specimens had previously been secured. We wished also to obtain as great as possible a variety of the upper fossiliferous rocks, since the primal life history of this bleak realm of ice and death is of the highest importance to our knowledge of the earth's past. That the antarctic continent was once temperate and even tropical, with a teeming vegetable and animal life of which the lichens, marine fauna, arachnida, and penguins of the northern edge are the only survivals, is a matter of common information; and we hoped to expand that information in variety, accuracy, and detail. When a simple boring revealed fossiliferous signs, we would enlarge the aperture by blasting, in order to get specimens of suitable size and condition.

O narrador começa então a descrever a aventura, sem esconder um certo desdém pela arrogância humana de querer conhecer sempre mais do que lhe é revelado independentemente dos riscos. É a grande fábula do jardim do Éden revisitada. Mais do que "Cthulhu", que foi recentemente adaptado ao cinema, acho que "The Mountains of Madness", apesar das suas sucessivas influências na posteridade, merecia um filme mais honesto na origem e fiel ao original. Esta é provavelmente a obra de H. P. Lovecraft mais pilhada de sempre.
Senão, reparem. Que grande erro começam os cientistas por cometer? Como qualquer amante de filmes de terror sabe de cor: separam-se. Um deles decide arriscar a previsão de mau tempo ao descobrir ao longe uma nova cordilheira, "mais alta que os Himalaias", e leva com ele a maior parte dos recursos da expedição contra a vontade do narrador, que fica para trás. Estas grandes montanhas vão revelar-se então as guardiãs de um terror há muito adormecido.
Eufóricos com a grande descoberta das suas vidas, uma nova parte do mundo, os cientistas afoitos começam a escavar, e ignoram até os latidos insistentes dos seus cães de trenó que se mostram muito agitados à medida que vao sendo desenterrados primeiro estranhas pedras que parecem artefactos, e, de seguida, uma vastidão de caves subterrâneas. É aqui que os cientistas encontram vários espécimes, presumivelmente mortos e congelados, que levam para autópsia no acampamento.
Novo aviso a não ser ignorado, também sobejamente conhecido dos filmes de terror: quando os cães ladram, foge!
Mas estes cientistas não tinham aparentemente visto muitos filmes de terror, embora conhecessem os mitos de Cthulhu do livro maldito Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred.

[O narrador faz muitas vezes referência à influência de um certo professor Wilmarth do departamento de Inglês da universidade de Miskatonic e dos seus conhecimentos de folclore, e, pela frequência com que Lovecraft mistura os personagens em histórias diferentes, tudo leva a crer que este Wilmarth é exactamente o mesmo que protagoniza "The Whisperer in Darkness", logo, um verdadeiro perito.]

Por esta razão, e um pouco em jeito de troça, os cientistas chamaram provisoriamente aos espécimes recém descobertos Os Antigos ("the Old Ones").
E eis que o Homem conheceu o Alien. Descreve-o assim:

Objects are eight feet long all over. Six-foot, five-ridged barrel torso three and five-tenths feet central diameter, one foot end diameters. Dark gray, flexible, and infinitely tough. Seven-foot membranous wings of same color, found folded, spread out of furrows between ridges. Wing framework tubular or glandular, of lighter gray, with orifices at wing tips. Spread wings have serrated edge. Around equator, one at central apex of each of the five vertical, stave-like ridges are five systems of light gray flexible arms or tentacles found tightly folded to torso but expansible to maximum length of over three feet. Like arms of primitive crinoid. Single stalks three inches diameter branch after six inches into five substalks, each of which branches after eight inches into small, tapering tentacles or tendrils, giving each stalk a total of twenty-five tentacles.

At top of torso blunt, bulbous neck of lighter gray, with gill-like suggestions, holds yellowish five-pointed starfish-shaped apparent head covered with three-inch wiry cilia of various prismatic colors.

Perante a descoberta, os cientistas passaram imediatamente a fazer autópsias. E outras dissecações também aconteceram, mas não as que os cientistas estavam à espera. Quando o resto da expedição se junta ao acampamento avançado encontra um massacre. Homens e cães de trenó, todos feitos em pedaços. Alguns dos espécimes, que aparentemente estavam mortos e congelados, tinham desaparecido, tal como um dos homens e um cão. A única explicação que encontram é que os colegas foram acometidos por uma loucura assassina devido ao isolamento e influência das sinistras montanhas, pelo que o incidente é abafado. Apesar do choque, dois dos restantes elementos, um piloto e o geólogo que narra a história, decidem fazer um voo de reconhecimento para lá das altas montanhas. Assim que as ultrapassam, descobrem uma gigantesca e fantástica cidade construída, supõem, há 50 milhões de anos e abandonada há milénios. Apesar de perceberem imediatamente que tanto a cidade como os espécimes encontrados antes, pela sua idade geológica, só podiam pertencer a uma civilização extraterrestre, arriscam a entrada na cidade que julgam desabitada.

 
"The Dead City", por Nicholas Roerich, pintor que Lovecraft cita neste conto para descrever as fantásticas visões no Pólo Sul


É durante este périplo que Lovrecraft, através do narrador, faz a melhor e mais exaustiva exposição do apogeu e declínio dos Antigos ("the Old Ones"), desde a sua chegada à Terra, a colonização e a criação de todas as outras formas de vida [Lovecraft não tem medo de cair na blasfémia: foram os Antigos que nos criaram], e as suas guerras com invasores posteriores: seres como Cthulhu e outros extraterrestres que também fazem parte dos mitos do Necronomicon.

[Por este motivo, aconselho o leitor que se queira familiarizar com a obra de Lovecfrat a começar por "The Mountains of Madness", de modo a compreender melhor os outros contos em que não se explica tão exaustivamente a História dos Antigos e a sua relação com outros seres como Cthulhu, os curiosos crustáceos de Vermont que protagonizam "The Whisperer in Darkness", os homens-peixe de "The Shadow Over Innsmouth", e muitas outras manifestações do universo de Lovecraft nas mais diversas partes do mundo.]

A exploração da cidade trouxe ainda outra surpresa desagradável para os cientistas. Os espécimes que provocaram caos no acampamento estavam afinal vivos e tentaram voltar a casa... mas algo os decapitou. Na cidade deserta permaneciam os Shogoths, criaturas de matéria indefinível criadas pelos Antigos para trabalharem na construção dos edifícios gigantescos, que na ausência dos donos destruíam tudo o que encontravam pela frente. Quem se lembra da famosa cena de Indiana Jones a fugir à frente de um pedregulho em "Os Salteadores da Arca Perdida" terá mais facilidade em perceber de que maneira os cientistas tiveram de correr para salvar a vida à frente de um Shogoth que os perseguiu, na analogia de Lovecraft, como o metro avança implacavelmente no seu túnel. [Pois é, Spielberg não inventou nada.]

 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)

Por todas estas razões, "The Mountains of Madness", adaptando o argumento não ao Pólo Sul, por impossibilidade científica, mas a um planeta inexplorado, daria um grande filme em que se restabeleceria a verdade sobre as origens de "Aliens", "A Esfera", "O Abismo", e uma miríade de filmes de monstros extraterrestres e submarinos que não passam da adaptação deste precioso conto.


Continua.