domingo, 15 de fevereiro de 2026

Us / Nós (2019)

Duas famílias estão de férias na praia quando se tornam alvo de ataque por seres misteriosos e assassinos que são iguais a eles.
Spoiler necessário: o filme nunca explica em detalhe, mas estes seres foram criados num laboratório subterrâneo como réplicas (vou chamar-lhes clones) das pessoas originais, numa experiência (tudo indica governamental) para tentar controlar a mente dos cidadãos. Falhada a experiência, os clones foram abandonados à sua sorte, e finalmente subiram à superfície para se vingarem dos originais.
O filme é arrepiante. Estes clones são em tudo idênticos aos originais mas são defeituosos: na fala, nos movimentos, na falta de consciência moral. Na verdade, parecem mais uns "zombies vivos" do que outra coisa. Por alguma razão, estão mentalmente ligados aos originais no exterior e a única forma de se "desligarem" é matando as pessoas de quem são réplicas.
"Us" tem sido agraciado com elogios retumbantes de originalidade que, no meu entender, não merece. Se isto é uma metáfora dos excluídos contra os privilegiados, George Romero já o fez antes, com zombies. A sensação com que fiquei deste filme é de que lhe falta qualquer coisa, uma base minimamente credível. Por exemplo, quando a experiência é cancelada, e sendo uma experiência ilegal e bastante sinistra, porque é que os investigadores deixaram os clones vivos? Também nunca é explicado quantos clones existem, se são apenas milhares naquela cidade costeira ou milhões deles para toda a população americana. Desta forma, não sabemos o que acontece quando o filme acaba: os clones tomaram conta de tudo ou não?
Para quem não fizer perguntas difíceis, "Us" é um slasher quase igual aos outros, mas com clones.

12 em 20

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Servant (2019 - 2023)


[contém alguns spoilers]

"Servant" é uma série excepcional que combina terror, thriller psicológico, mistério, comentário social e humor. Porque o enredo vive do suspense não vou poder aprofundá-lo como merece, mas aconselho a toda a gente que gosta do género que veja a série sem spoilers absolutamente nenhuns para maior impacto.

Spoilers
Dorothy e Sean Turner são um casal de classe alta que perdeu um bebé de poucos meses. Dorothy ficou em tal depressão que Sean e o irmão dela, Julian, por sugestão de uma terapeuta, substituem o bebé por um boneco Reborn (um boneco bastante realista). Só que Dorothy não recupera do choque e, em estado de negação, começa mesmo a acreditar que o boneco é o seu filho. Sean e Julian não querem contrariá-la e agem como se o boneco fosse um bebé de verdade. Isto cria um ambiente de casa de doidos, especialmente quando Dorothy, sem que Sean se oponha, contrata uma ama de 18 anos. Leanne, a ama, é daquelas raparigas religiosas de província que não conhecem nada do mundo e cheiram a sabão azul e branco porque até o sabonete seria considerado demasiada vaidade (ou assim imagino que ela cheire). Mas quando Leanne chega, o boneco transforma-se num bebé a sério. Mais do que isso, quando ela está presente o bebé existe, quando ela se afasta o bebé volta a ser um boneco.
Dorothy não se apercebe disto porque sempre acreditou que o boneco fosse o bebé, mas Sean e Julian partem do princípio de que Leanne trouxe uma criança com ela, possivelmente sua. Quando vêm a saber que Leanne cresceu num culto, a Igreja dos Santos Menores, e um tio misterioso vem à procura dela, ainda mais se convencem de que isto tudo é um esquema para fazer chantagem e extorquir dinheiro. O pior é quando Sean, primeiro, e Julian, depois, se apegam também ao novo bebé e já não o querem deixar ir embora.
Mas não é um esquema. Leanne é aquilo a que eu chamo uma bruxa genuína. Não falo de senhoras que lêem o Tarot, percebem de astrologia e têm um gato. Falo de uma bruxa de verdade com poderes de verdade, como se percebe depressa em poucos episódios. O culto é cristão, mas os membros do culto têm muito boas razões para serem crentes. Gostei muito deste "cruzamento" entre os poderes sobrenaturais que geralmente são associados com bruxaria e o zelo cristão de um outro tipo de sobrenaturalidade que não vou revelar.
Agora o comentário social. Dorothy, jornalista televisiva, Sean, Chef de renome, e Julian, com dinheiro de família, vivem num mundo de luxo e privilégio em que tudo pode ser comprado. Neste mundo artificialmente perfeito, trocar um bebé por um boneco parece-lhes aceitável para que a perda não lhes afecte o conforto absoluto. Lidar com a dor não é uma opção. Até pode parecer que os Turner nem sequer estão de luto, que são tão superficiais que vivem numa bolha de ilusão, mas é mais do que isso. Eles não vivem apenas numa ilusão, eles transformaram a ilusão em realidade e a realidade é que se tornou uma ilusão, como um pesadelo que se dissipa à luz do dia. Se existe drama, todas as personagens fingem que não o vivem, e é isto que mais nos choca em "Servant". Será Leanne uma força do bem que os vem obrigar a ser humanos, ou uma força do mal que os vem castigar?
"Servant" é uma produção de M. Night Shyamalan, mas não foi escrito por ele. M. Night Shyamalan tem sido um realizador com grandes sucessos e grandes flops, mas voltou a cair nas minhas boas graças com "The Visit" (20 em 20), que me deixou de cabelos em pé de tão arrepiada. Mesmo assim, não quis pronunciar-me antes de ver a série toda e posso assegurar: "Servant" não desilude.
Agora o humor. No meio desta situação de pesadelo, Julian e Sean, principalmente, protagonizam momentos tão absurdos que quase nos fazem rir. Quase. Julian tem sempre disposição para provar os vinhos vintage na colecção de Sean. Sean é um Chef tão meticuloso que passa o dia a cozinhar e até o pequeno-almoço é gourmet. Na segunda temporada, por exemplo, quando julgam que o bebé foi raptado, decidem distribuir pizzas para que os suspeitos lhes abram a porta. É tudo a fingir, mas nem mesmo assim Sean consegue entregar uma pizza menos do que perfeita. Aliás, aviso já, ver Sean cozinhar abre o apetite. Excepto quando nos repugna, como daquela vez em que faz doce de grilo. Mas que é gourmet, sim é.
"Servant" também é uma série gourmet, daquelas que só se vêem raramente na vida. 
Certas semelhanças recordam-me "Shining Vale", série posterior, mas "Shining Vale" era claramente mais voltado para a comédia.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: terror, thriller, mistério, sobrenatural, Shining Vale


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Fim dos blogs no Sapo


É com tristeza que tomo conhecimento do fim do alojamento dos blogs no Sapo. Foi lá que comecei, em 2003, porque na altura era tudo muito novo (até a própria broadband na internet era uma coisa recente) e o Sapo fazia menos confusão do que o Blogger. Todavia, não fiquei muito tempo. Devido às frequentes sucessões de dias e dias em que a plataforma estava pura e simplesmente em baixo, e aos bugs recorrentes que ninguém se dava ao trabalho de resolver, mudei-me logo para o Blogger em 2004.
Deixo aqui os motivos invocados pelo Sapo, antes que também este texto seja apagado para todo o sempre:

Porque vai ser encerrado o SAPO Blogs?
Tal como o lema que adotámos, acreditamos que os blogs só fazem sentido "com gente dentro". Com cada vez menos pessoas a virarem-se para os blogs como forma de expressão, a blogosfera foi aos poucos cedendo terreno para as redes sociais, que se tornaram o principal ponto de encontro virtual de ideias e pessoas, com impacto em plataformas como a nossa.
Temos orgulho no lugar que o SAPO Blogs ocupa na história da blogosfera portuguesa e agradecemos a todos os que, em algum ponto destes 23 anos, utilizaram o nosso serviço e contribuíram para o seu desenvolvimento.


Mas o Sapo não vai apenas encerrar (ou "descontinuar", esse neologismo tão fofinho), vai apagar os blogs às pessoas.
Se é verdade que a esmagadora maioria dos bloggers iniciais se mudou para as redes, por outro lado aqueles que ficaram mereciam mais respeito. O que também suscita a questão: se cada vez menos gente escreve, custava-lhes assim tanto deixar os conteúdos online, ou pelo menos dar a opção de que os utilizadores pagassem o alojamento?
É curioso, mas não me surpreende. Algum tempo depois de parar de escrever no Sapo, recebi um email a avisar que o meu blog ia ser apagado por inactividade. Como não queria mesmo ficar lá, deixei que apagassem. Verifico que fiz bem em permitir que apagassem na altura, ou seria apagada AGORA, mas esta experiência demonstrou-me desde logo o pouco respeito do Sapo pelos conteúdos que eram lá publicados.
E também me parece que esta desculpa de que "as pessoas foram para as redes" é conversa da tanga. O conteúdo das redes é para consumo de 30 segundos no máximo, textos curtos, imagens e reels. O conteúdo dos blogs é para quem gosta de artigos e opiniões fundamentados, para ler com tempo. São duas coisas completamente diferentes e até podem ser complementares. (Pessoalmente, até fiquei agradecida quando os trolls que andavam sempre aqui nas caixas de comentários se mudaram todos para as redes.) Os conteúdos produzidos nos blogs, por bloggers dedicados que gostam mesmo do que fazem, diminuíram em quantidade mas aumentaram grandemente em qualidade. Mais uma razão para serem respeitados, se o Sapo soubesse dar valor a quem permaneceu por lá.
Não estou a dizer que o Blogger é perfeito. Nota-se que esta plataforma também não está propriamente a investir em desenvolver novas funcionalidades, e as poucas que introduziu muito recentemente não têm qualquer aplicação útil para mim, mas pelo menos existe e é gratuita. Por enquanto.
Desde a minha experiência com o Sapo, ou talvez ainda antes, comecei a manter um back up manual e regular do blog, não me fiando nos ficheiros de exportação automática. Até cheguei a experimentá-los com blogs de teste e não funcionaram.
Perder 20 anos de posts, e 20 anos é uma vida, custa e dói. Por vezes passa-me pela cabeça que o Blogger pode acabar de um momento para o outro, e só o pensamento magoa. Tenho o back up, sim, mas voltar a publicar 20 anos de blog noutra plataforma é inimaginável.

Deixo aqui a minha solidariedade para com todos os bloggers afectados e os meus votos de boa sorte e de que não desistam por causa disto.
Eu também por cá vou andando, enquanto Blogger quiser, amém. 


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Indochine / Indochina (1992)

Conheço este filme desde que saiu mas penso que nunca tinha visto.
"Indochine" é a história da dona de uma plantação de borracha nos últimos anos da ocupação francesa da Indochina, e também é uma história de amor. Éliane adoptou a pequena Camille, nativa de família rica, a quem acaba por perder para uma paixão condenada.
Segundo a sua cultura, Camille está prometida em casamento desde criança, mas Éliane não pretende obrigá-la à tradição. Uma mulher da família de Camille diz mais ou menos isto, quase de forma premonitória: "Nunca vamos perceber os franceses com os seus amores cheios de paixão, loucura, emoção. Aqui casam-se os jovens e acabou-se." Educada como francesa, Camille atira-se de cabeça para um amor de perdição com um oficial francês. Numa situação de conflito entre os comunistas e os colonos, Camille comete um homicídio e torna-se foragida, mas Éliane nunca deixa de a procurar. É esta a história de amor. É claro que "Indochine" é toda uma metáfora sobre a colonização francesa.
Gostei da maneira como o filme nos mostra as atrocidades do conflito de forma distante, como pano de fundo, sem cair na tentação fácil de chocar. O enredo centra-se sempre nos personagens e, admito, o final surpreendeu-me.
"Indochine" é um grande filme, talvez um bocadinho datado, que recomendo vivamente.

17 em 20