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sábado, 20 de janeiro de 2018

"A Relíquia", de Eça de Queirós


Li “Os Maias” duas vezes. A primeira, por curiosidade, aos dez anos. A segunda, já no liceu, para tentar perceber o que me tinha escapado em tão tenra idade. No meu percurso académico devo ter estudado “Os Maias” umas três vezes.
Perguntem-me pela história? Dois irmãos que não sabem que são irmãos têm uma relação incestuosa. Isto é o primeiro e o último capítulo, mais coisa menos coisa. O resto? Uma estopada insuportável que me fez renegar Eça de Queirós para todo o sempre. 
Até que me deram este livro. Foi efectivamente uma oferta e a sinopse conseguiu interessar-me: Teodorico Raposo, órfão e pobre, vê na fortuna da Titi o futuro de uma vida de luxo e gozo. Mas a Titi é ultra-beata e Teodorico tem de fingir sê-lo também para que a herança não lhe escape. Tanta falsa beatice leva-o a uma peregrinação na Terra Santa com a incumbência de trazer de lá à Titi a sagrada relíquia que a cure das suas enfermidades. E Teodorico encontra de facto a mais santa das “relíquias”, mas as coisas correm-lhe mal…
Ler esta “relíquia” foi para mim uma surpresa e conseguiu divertir-me do princípio ao fim. Quase me perguntava, ao começar o livro, mas porque é que não dão “A Relíquia” na escola em vez dos bocejantes “Maias”? Respondi a mim própria. Porque apresentar este livro cheio do sexo mais sórdido (“onde Vénus mercenária arrasta as chinelas”) diante de uma turma de adolescentes imberbes seria missão impossível.
Mais à frente, outra questão me assaltou e ainda me intriga: como é que este livro passou durante o Estado Novo? Não deve ter passado bem. Digamos apenas que só agora compreendo a estátua do Eça de Queirós na Rua do Alecrim, no familiar caminho do Cais do Sodré para o Bairro Alto. E este tempo todo a pensar que a mulher nua representava a Musa literária… Também sou muito inocente, sou.


Pior do que a Vénus mercenária, queridos leitores, este livro ainda hoje é susceptível de provocar ataques cardíacos a muito boa gente. Este livro, escrito nos idos 1887, diz que Cristo não ressuscitou. Diz que a morte na cruz foi uma farsa (e explica como) e que foram os apóstolos quem tirou o corpo do Mestre do túmulo que viria a aparecer vazio. Isto, na América de hoje, século vinte e um, era caso para queima do livro em cultos evangélicos. E tenho de me perguntar que reacção teriam as senhoras e senhores beatos do Estado Novo perante “A Relíquia”. Se calhar não era assim tanta porque só muito poucos sabiam ler, e “seleccionados” de “famílias certas”.
Mas a sensação que tenho ao ler este livro é de que as mentalidades estão a regredir à medida que o tempo avança, o que é preocupante. Não significa isto que concorde ou deixe de concordar com o furto do corpo de Cristo, nem vem ao caso. O que vem ao caso é escrever isto em 1887 e chegarmos a 2018 e ainda ser polémico que alguém escreva isto!

Teodorico é um tarado sexual
Devia ser fácil simpatizarmos com o pobre órfão Teodorico Raposo, obrigado pela necessidade de se fazer à vida a fingir-se um extremoso beato para agradar à Titi. A Titi, tão amiga da virtude que prefere deixar à Igreja a sua herança sem que lhe passe pela cabeça que a caridade e a virtude começam em casa, a isso obriga. Teodorico faz-se e desfaz-se em rezas e missas e águas bentas para provar à senhora que é suficientemente santo para merecer a fortuna.
Mas não é possível simpatizar com este Raposo, de tão falso, de tão ignorante, de tão tarado sexual. Homem feito e experiente, chega mesmo a ser apanhado a espreitar uma mulher nua por um buraco de fechadura. Mais tarde, durante uma viagem de barco, até uma monja lhe atiça o apetite. Já para não falar no putedo. Putedo chique e putedo baixo nível, Raposo nem sequer quer vinho verde, só quer mesmo as putas.
Como se não bastasse, nunca passa pelo miolo desta alminha trabalhar para ganhar a vida. Perfeito sociopata, quando lhe falha o grande golpe da relíquia falsa, torna-se em Lisboa vendilhão de relíquias acabadinhas de trazer da Terra Santa. Quando estas se esgotam, impinge frasquinhos de água da torneira como sendo do Jordão. Um cúmplice bem lhe diz: “Indecente!” Além da água do “Jordão”, Teodorico vende cacos do cântaro que Nossa Senhora levava à fonte, palhinhas do presépio, tabuinhas aplainadas por São José, ferraduras do burrinho que transportou a Sagrada Família para o Egipto. Catorze ferraduras, nem mais nem menos, do mesmo burrinho!
Eça de Queirós devia ter um profundo ódio à Igreja e à religião. A mim causa-me mais nojo tarados sexuais que vão ao Egipto e à Palestina (quando ainda não havia bombas e entifadas) e em vez de respirar o pó da História se metem num hotel com a primeira puta que encontram. São nojos, e o meu é este.
Escusam de me vir cá com “mas é uma personagem de sátira, não precisa de ser simpático, tem de ser é engraçado e interessante”. Teodorico não é simpático, nem engraçado, nem interessante. É uma besta. O gozo que me deu o livro foi torcer para que o Teodorico se desse mal, e de facto dá-se mal, e ainda se devia dar pior. Mas já lá vou.
Agora vamos ao que realmente me empolgou n’”A Relíquia” e me fez desejar que Eça tivesse escrito antes Fantasia.

A relíquia n’A Relíquia
Na Palestina, Teodorico tem um sonho. Não se percebe logo que é um sonho, truque usada por Eça para nos introduzir subitamente num relato surrealista que transporta os dois personagens, Raposo e o historiador alemão Topsius, seu companheiro de viagem, à fatídica Páscoa em que Jesus é crucificado.
E de repente é épico, é grandioso, é bíblico! É um narrador omnisciente disfarçado por trás do Raposo a contar-nos coisas que o ignorante bacharel de Coimbra jamais poderia saber, são personagens maiores do que a vida que parecem saídos d’O Senhor dos Anéis, é todo um mundo que nos é revelado como se fosse novo (de tão antigo) e que nos é estranho e intrigante como a mais moderna Fantasia. E que o Eça era capaz disto, não, eu não sabia. Durante páginas e páginas li, boquiaberta, e reconheci as influências de semelhantes obras estrangeiras do século dezanove com que aprendi a ler o que gosto.
Não é inocente que para a grandiosidade brilhar Raposo teve de se calar. E mesmo assim, em pleno Templo de Salomão na celebração da Páscoa, ainda consegue abrir a boca e dizer porcaria, que nada mais sai do meio daquelas barbas. Foi aqui que eu desejei que Eça tivesse antes escrito Fantasia, e abandonasse definitivamente o Portugalzinho dos diminutivozinhos, e as camisinhas da Mary, e as Adélias desta vida. Que desperdício!
O que me leva à célebre epígrafe com que o próprio Eça, em jeito de subtítulo, se achou obrigado a justificar esta obra: “Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diáfano da Fantasia”. Não é a coberto de nenhum manto nem é diáfano, nem devia haver necessidade de justificar o surrealismo e o fantástico desta obra. O que me dói, porque prova que vem de longe esta mania da literatura portuguesa de que só o que é realista é que é bom, quando por outras paragens Horace Walpole já tinha publicado “O Castelo do Otranto” um século antes (1764).
É a este público de leitores de Fantasia e Fantástico que dedico esta crítica. A sátira do Eça já toda a gente conhece, tivemos de a estudar na escola, mas só por causa desta sequência na Terra Santa no tempo de Cristo vale a pena ler “A Relíquia”, é uma pena não ler a “A Relíquia”! Subitamente é outro escritor que se nos revela, é outro nível, é outra literatura. É a literatura que nos falta por todas as razões que aqui e aqui já debatemos. E por tudo isto foi uma agradável surpresa.

Terminado o sonho, lá voltamos ao Portugalzinho, à Lisboazinha, aos diminutivozinhos, aos jantarinhos da Titi, à reliquiazinha. À vidinha triste deste Raposo que arranja emprego na firma de um amigo de escola. (Lá está a cunhazinha.) Raposo não conseguiu a fortuna da Titi e por algum tempo parece emendar-se. Mas não se emenda. No fim do livro, ainda e sempre congemina as mentiras que devia ter dito mas não se lembrou de dizer quando as coisas deram para o torto. Raposo é incorrigível. Acabei com pena da Jesuína, a coitada com quem casou por interesse. Tirando esta, ninguém fica bem neste retrato excepto o tal douto Topsius, historiador alemão. Todas as personagens portuguesas são arrasadas. Excepto a Jesuína, poupada ao sarcasmo, talvez pela sua inocência.
Posto tudo isto, apesar do brilhantismo e do génio, começa-me a parecer que a sátira do Eça já denota a idade. É o destino de toda a boa sátira, trágico como a vida. Tem piada na altura, mas o tempo é implacável. Este já não é o mesmo Portugal, muitas ironias subtis já nos escapam, já não reconhecemos as personagens no nosso dia-a-dia. Ainda é divertido, mas cada vez menos. Vai chegar o dia em que a sátira precisará de ser explicada (como Gil Vicente tem de ser explicado para ser percebido), e esse será o dia em que a sátira morre. Triste fim mas bom sinal. Restará sempre deste livro, como de todo o realismo, um documento histórico que nos conta as verdades secretas de um Portugal extinto.
Mas por seu turno, o Fantástico não morre. Não importa que a sequência se passe na Páscoa de Cristo ou num qualquer mundo fantasioso sem tempo nem lugar. Fora do tempo e do espaço, a Fantasia vive na imaginação de quem se embrenha nela.
A cena em que Raposo encontra a árvore anuncia já que algo mágico vai acontecer muito em breve:

Rondando então em torno á Arvore d'Espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: «Anda, monstro, dize! És tu uma reliquia divina com poderes sobrenaturaes? ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classificações de Linneu? Falla! Tens tu, como aquelle cuja cabeça coroaste por escarneo, o dom de sarar? Vê lá… Se te levo commigo para um lindo Oratorio portuguez, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chamma louvadora das velas, o respeito das mãos postas, todas as caricias da oração—não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existencia estorvadora, me prives da rapida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéas pueris de Caridade e Misericordia, e vaes com tenção de curar a titi—então fica-te ahi, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silencio eterno!… Mas se promettes permanecer surdo ás preces da titi, comportar-te como um pobre galho secco e sem influencia, e não interromperes a appetecida decomposição dos seus tecidos—então vaes ter em Lisboa o macio agasalho d'uma capella afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um idolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não has de invejar o Deus que os teus espinhos feriram… Falla, monstro!»

O monstro não fallou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de brisa d'estio, o presentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A Arvore d'Espinhos mandava, pela communicação esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquelle palpite suave da morte da snr.^a D. Patrocinio—como uma promessa sufficiente de que, transportado para o oratorio, nenhum dos seus galhos impediria que o figado d'essa hedionda senhora inchasse e se desfizesse… E isto foi, entre nós, n'esse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Isto não vai morrer nunca. É aqui que está a relíquia.






[Li a versão pós-Aborto porque o livro foi oferecido e a cavalo dado não se olha o dente. Publico a capa da blasfémia como advertência.]


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

(falta de) Literatura gótica em Portugal - 1ª parte



"A Literatura 'Negra' ou de Terror em Portugal (séculos XVIII e XIX)" de Maria Leonor Machado de Sousa (1978, Editora Novaera) visa, citando a nota introdutória da obra completa, "dar uma melhor compreensão do género e a integração do caso português nas correntes da literatura europeia. Quanto à bibliografia do 'terror' português pré-romântico e romântico, foi possível, entretanto, acrescentar-lhe mais alguns títulos".
Li este livro, da autoria desta professora da Universidade Nova de Lisboa, na confessa expectativa de encontrar nomes e obras, portugueses, na categoria do gótico e/ou sobrenatural algures enterrados no que a (des)intelectualidade do século XX considera inferior e indigno de ser mencionado nas escolas. Infelizmente, nem enterrados existem, ou se existiram, de tão enterrados, desapareceram.
Como tudo nestas coisas do sobrenatural, não é por falta de provas que deixo de acreditar que existiram (porque é impossível não terem existido em Portugal quando existiram na Europa toda) mas essa discussão fica para mais à frente.
Descobri, mesmo assim, com a leitura deste livro (que li duas vezes e podia ter lido três por tantos e tão interessantes excertos que apresenta), vestígios de um outro país literário que não se ensina na escola dos Eças e dos Camões (e, temo bem, mais recentemente, dos Saramagos, de que felizmente consegui escapar-me a tempo). Descobri, por exemplo, os pormenores tétricos da cabeça mumificada na obra de Camilo Castelo Branco. E pensar que fui obrigada a estudar Camilo (não desgostei, mas não é isso que interessa agora) e passou-me ao lado exactamente o que me interessaria mais!
Mas não nos excitemos. Este pormenor tétrico de Camilo (a que, por outro lado, e bem, a recente série "Mistérios de Lisboa" soube dar o devido destaque) perde-se na moda maciça do romance social da época e em termos do sobrenatural/terror não chega a ser um ponto distante no horizonte que só nos espanta porque é de Camilo (onde não o esperávamos daquilo que dele se aprende na escola), e tão só.
O resto é um deserto. Fica a pergunta: é um deserto porque não havia nada, ou porque o que havia foi coberto de pó? Inclino-me para esta segunda hipótese.

Mas temos de começar pelo início. Não é possível compreender a literatura sobrenatural (ou gótica, ou de terror, ou 'negra', nas palavras da autora, e reservo-me o direito de, por agora, meter tudo no mesmo saco) sem perceber a época em que Horace Walpole decidiu escrever "O Castelo de Otranto" , em 1764 (ver este post e este), sob pseudónimo e recorrendo ao estratagema de o apresentar como a tradução de um manuscrito medieval. O que poderia levar um escritor a fazer tal coisa, perguntam os leitores do século XX e XXI? Não nos entra na cabeça porque a época passou. Em "A Literatura 'Negra' ou de Terror..." a autora exprime com maestria o ambiente que rodeou esta obra inicial e o encadeamento que surgiu dela. A todos os interessados na cultura (e literatura) gótica recomendo, por isso, e vivamente, a leitura de "A Literatura 'Negra' ou de Terror...", se lhe conseguirem pôr os olhos em cima (o meu exemplar foi emprestado e ao dono regressará). Mas se lhe conseguirem pôr os olhos em cima nunca mais verão o sobrenatural com os mesmos olhos. ;)
Curto e grosso e nas minhas palavras: era o século dezoito. O século das Luzes. O século da ciência "positiva" (como lhe chamavam, porque era moda). O século em que era moda não acreditar em nada, nem em Deus. Foi o século dos iluminados.
[É curioso como a palavra "iluminado" deu uma volta de 180 graus e é agora usada no sentido pejorativo excepto no seu conceito de iluminação mística se bem que de proveniência oriental. Os "iluminados" foram derrotados.]
No século iluminado da ciência e da máquina a vapor qualquer homem de intelecto que confessasse acreditar, ou ter simpatia, ou sequer interessar-se pela superstição e pelo sobrenatural era visto como... bem, um parolo. Toda a sua reputação de homem das luzes, de homem moderno, "positivo", arruinada. Horace Walpole, por não ser parolo, não quis ser parolo.
Claro que este extremismo não podia durar para sempre. A contra corrente de literatura de terror que se popularizou a partir do século seguinte bem o comprova. Digo "popularizou" porque o preconceito da elite intelectual manteve-se.
Manteve-se tanto, mas tanto, que ainda hoje a literatura e o cinema de terror são considerados pelas elites, as ditas cultas, produtos inferiores para consumo das massas.
Já começava a ser altura de se encarar a literatura de terror pelo que é, muitas vezes uma representação da realidade mais verídica, porque velada, do que qualquer romance "baseado em factos reais" que a elite cultural gosta de glorificar como supra sumo da obra cultural. Neste aspecto, estamos ainda culturalmente, em termos de literatura e cinema, ao nível da pintura realista: é bonito porque é natural. A nível literário, e cinematográfico, ainda não se dá o devido valor ao fantástico e ao surrealista. A elite cultural continua, como os iluminados do século dezoito, ao nível das naturezas mortas. Darei um bom exemplo na segunda parte.
Os espíritos fortes e científicos deste século das Luzes chegaram ao ponto de considerar que as obras de Shakespeare deviam ser amputadas das suas cenas sobrenaturais. Fantasmas e bruxas, tudo isso passaria de moda! Era desnecessário. Tivesse prevalecido esta moda e hoje teríamos "Hamlet" sem o fantasma e, mais provável igualmente, sem a célebre caveira.
A esta corrente reagiu com todo o vigor que lhe conhecemos a explosão emocional do Romantismo.
Mas não nos interessa aqui o Romantismo como um todo mas apenas a parte que nos toca.



Manifestações pré-românticas

Não começou, todavia, com Walpole. São tão importantes, estas manifestações pré-românticas, que tentarei resumir aqui (demasiado apressadamente, porém, porque a obra é tão rica como vasta) as frases fundamentais com que a autora estabelece os primórdios e a evolução da "poesia da noite e dos túmulos".
O Romantismo foi fundamentalmente uma atitude, uma atitude de reacção contra o convencionalismo que imperava em todas as esferas da vida; conhecia aquilo a que reagia, mas não tinha um rumo a seguir, lançou-se com entusiasmo nos vários e por vezes antagónicos caminhos (...) a título de manifestações pré-românticas. (...)
Esse interesse pelo povo, que levou o Romantismo à compreensão da Idade Média a sua descoberta fundamental , teve realmente consequências que os coleccionadores de baladas não podiam prever (...)
A reacção fez-se no sentido de uma maior sinceridade, buscando-se uma aproximação da natureza: da natureza humana, revelando as manifestações artísticas do povo, não limitado pela civilização; da natureza ambiente, substituindo o bucolismo convencional por descrições fiéis, revelando-a como é na verdade, bela ou árida, alegre ou lúgubre, calma ou aterradora. (...)
A poesia nocturna é ainda um regresso à natureza; a  uma natureza especial, propícia à melancolia, é um desenvolvimento dos quadros outonais e principalmente de Inverno da poesia puramente descritiva.

A "fusão desta corrente melancólica e nocturna" deu-se com a outra, "de inspiração sepulcral, cultivada por poetas pregadores, que apontam aos homens a visão do túmulo, onde tudo acaba". O encontro destas duas correntes vai dar início à chamada "poesia da noite e dos túmulos",

que durante quase um século apresentou a uma Europa melancólica os quadros lúgubres de cemitérios, cadáveres e esqueletos. Mas o elemento macabro não é uma novidade pré-romântica. O Cristianismo, lembrando ao homem "que é pó, e em pó se há-de tornar", guia-lhe o pensamento para a contemplação principalmente da caveira, que os eremitas levavam para as suas grutas, para que lhes lembrasse como são fugazes os dons humanos. (...) O século XV é o século das danças macabras na arte e dos temas macabros na poesia. É à mesma inspiração que se ligam as cenas do cemitério, no quinto acto de Hamlet, onde este assunto toma a forma duradoira que o levaria aos tempos modernos.
Com o advento da Renascença, a literatura sepulcral desapareceu, conservando todavia o Cristianismo o espírito que a ela levara. (...)
Passado o deslumbramento da Renascença, a meditação sobre a morte vai ressurgindo. (...)
Sendo esta meditação sobre a morte um fenómeno europeu, porque é em Inglaterra que surge e principalmente se desenvolve a poesia tumular? Parece que se deve procurar a razão no Puritanismo do século XVII, que foi realmente uma força em Inglaterra e sobretudo na Escócia, levando os homens a uma concepção lúgubre da vida e a uma meditação constante sobre a morte, meditação que, nesta poesia (geralmente escrita por padres, em contacto directo com a doença e a morte), é muitas vezes acompanhada de descrições muito realistas, que degeneram no macabro.
 
Agora a parte que nos interessa:

Ao fugir para os lugares abandonados pelos homens, o poeta melancólico encontrou o cenário conveniente à sua meditação (...) Dos poetas tumulares, é Gray o primeiro que dá atenção às ruínas, notando a "torre coberta de hera", de onde "o mocho triste dirige à lua os seus lamentos"

Chamo a atenção para que nós também tivemos isto, com Bocage e os seus mochos piadores!

Oh retrato da morte, oh noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto! 

(...)
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores. 


Escusado será dizer que não foi este o poema que celebrizou Bocage.

Surge agora, pela primeira vez, o termo "gótico", tão empregado durante o século XVIII em Inglaterra.

Não, não foi o manager dos Joy Division que inventou o termo "gótico".

"Poetas a quem falta o poder do génio para dar à natureza aquela simplicidade magestosa, que nós tanto admiramos nas obras dos antigos, são obrigados a procurar ornatos estranhos e a não deixar que lhes escape qualquer fragmento de engenho, de toda a espécie. Considero Godos em poesia estes escritores, que, como os arquitectos, não sendo capazes de se elevar à bela simplicidade dos antigos Gregos e Romanos, procuraram substituí-la por todas as extravagâncias de uma fantasia desregrada.
Tenho procurado, em várias das minhas dissertações, banir este gosto Gótico que se instalou entre nós". [Addison, Essays, grafia original apresentada em "A Literatura 'Negra' ou de Terror..."]

O maldito gosto Gótico, que o autor considera sinónimo de bárbaro Godo (dos Godos, os verdadeiros goths), por cá permanece.
O "Castelo de Otranto" provocou, como se sabe, uma legião de seguidores ávidos por se libertarem do espartilho imposto por um racionalismo ignorante dos mecanismos psicológicos do terror como projecção da realidade.
Não deixo de salientar, porém, uma outra moda que começou quase de imediato e que só muito recentemente deixou de fazer efeito: os escritores que, no género de Arthur Conan Doyle, cozinhavam um ambiente aparentemente sobrenatural para depois o explicarem por causas naturais: não era sangue, era apenas ferrugem; não era um vampiro, era veneno; não era um fantasma, era uma senhora envolta num lençol. O próprio Bram Stoker caiu neste disparate com "The Lady of the Shroud". Como todos os amantes de sobrenatural muito bem sabem, e os autores de sobrenatural melhor ainda, o sobrenatural só se explica com mais sobrenatural (ou não se explica de todo). Infelizmente, alguns autores de respeito ainda se aventuram levianamente a enveredar pelo sobrenatural para depois o tentarem explicar com ficção científica (versão moderna da "ferrugem"). Não sei o que é pior. O resultado é sempre mau. E bastantes vezes mais ridículo do que a senhora envolta no lençol, que até tem uma certa piada. Não compreendo o apelo. Antes a inexplicável e tresloucada aparição do gigante fantasmagórico de Otranto.


A escola gótica

Orientada ainda pelo ideal trágico do classicismo, a escola gótica procurava excitar terror pelo manobrar do misterioso e do sobrenatural e pela alimentação constante da expectativa (suspense) e compaixão

Inspirar terror e compaixão eram os objectivos da tragédia grega clássica.

O romance gótico é essencialmente um romance sentimental, em cuja intriga de amor intervém o sobrenatural e o misterioso, ou ao lado das potências maléficas, contra as quais lutam as virtudes dos heróis, ou servindo-se de poderes ocultos para fortalecer e defender essas mesmas virtudes. (...)
Qualquer história, de qualquer época, pode tornar-se assunto de um romance gótico, principalmente se lhe forem adicionados certos elementos cénicos, a criar ambiente.

Não foi inocentemente que me referi, acima, à corrente literária que estamos a analisar como literatura sobrenatural, ou gótica, ou de terror, ou 'negra', tudo no mesmo saco. Durante os primórdios, os temas dos romances andavam mesmo todos no mesmo saco. Fantasmas, crimes, demónios, salteadores, lendas... tudo metido no grande saco "gótico". Não existia a separação clara que temos hoje do que é o policial, o terror, o romance histórico... Era mesmo tudo no mesmo saco. Talvez tenha sido esse ambiente de peripécias várias e pouco especializadas que levou, na altura, ao afastamento de um público mais intelectual e menos receptivo à teatralidade de sangue e trovões na noite escura com que se horrorizavam as damas de então. Atingiu-se o absurdo.



Continua.




terça-feira, 4 de maio de 2010

"O Castelo de Otranto", por Horace Walpole

Não sei se esta foi a primeira vez que li "O Castelo de Otranto". Lembro-me de ter estado várias vezes na Feira do Livro, com este nas mãos, folheando e questionando se deveria ou não comprar. Se comprei, e se li, não me lembrava absolutamente nada da história. Algo me diz que não cheguei a ler, por duas razões. A primeira, porque me parecia um conto demasiado pequeno em que gastar o meu dinheiro (sempre preferi histórias longas). A segunda, porque folheando não me pareceu suficientemente sobrenatural numa altura em que eu procurava sobretudo os clássicos mais marcantes.
Isto, de procurar o mais gritante, em si também é curioso, porque a um leitor é necessário conhecer os extremos antes de conseguir apreciar a subtileza do intermédio.
Só agora, finalmente, me debrucei sobre "O Castelo de Otranto", considerada a primeira novela gótica, e a li com outros olhos, e uma uma outra percepção tão vasta e profunda que milhentas ideias me surgiram de seguida. Não sei se conseguirei expor sequer algumas. Foi uma espécie de turbilhão que ainda tem de ser melhor estudado. (Quando digo "estudado", refiro-me à análise mais cuidada desta minha tese embrionária.)
"O Castelo de Otranto" conta uma história interessante sobre um tirano que tudo faz para manter a descendência masculina do seu principado de modo a que este não se extinga por falta de legítimos herdeiros. E é isto, não há nada mais. A maldição, os "efeitos sobrenaturais", são secundários. Por alguma razão lhes chamo "efeitos", como se aplica o termo nos filmes. O que é realmente interessante na história é a forma como Manfred tenta manipular todos os que entram em contacto com ele, e a profundidade psicológica desta personagem escrita no século XVIII (1764). Por isto, sim, fiquei maravilhada.
E decidi procurar mais sobre a "novela gótica". Diz a wikipedia: a novela gótica é um género literário que combina elementos de horror e romance.
Foi aqui que a minha mente se pôs a trabalhar a 1000 à hora. Não a respeito da novela gótica clássica, mas de tudo aquilo que actualmente caracteriza o movimento gótico como o conhecemos. Haverá, actualmente, uma literatura gótica, isto é, moderna? E terá já alguma coisa a ver com o clássico?
Afinal, quanta música gótica trata de fantasmas? Vejam-se os clássicos. As referências são muitas, mas os fantasmas já não estão no exterior. Os fantasmas, actualmente, são projecções dos medos inconscientes. (Freud fazia mesmo muita falta à literatura). E se é a profundidade psicológica de uma personagem como Manfred que me toca, não o é menos o drama existencial dos vampiros de Anne Rice, que já não são personagens de terror, são seres humanos que por acaso são vampiros e que por essa razão conseguem analisar a condição humana por uma lente privilegiada. Na minha opinião, há muito que a literatura que é lida pelo movimento gótico se afastou do "terror" clássico, mais ou menos da mesma maneira que alguém disse dos Joy Division que os seus temas eram góticos, e não consta que falassem de fantasmas. Pelo menos dos fantasmas de fora. E há muito tempo que o verdadeiro terror vem das profundidades da alma, sem sequer a necessidade de o projectar num monstro algures na noite lá fora. A banda que melhor conseguiu fazer esta ligação, escrevendo canções de amor que algumas pessoas interpretaram como a possessão por um íncubo, foram os Fields of the Nephilim. Quando alguém comentou isto, mais ou menos na brincadeira, eu lembro-me de ter perguntado: não é isso que é o sexo, qualquer e todo o sexo? Qual é a diferença? E se é assustador? E desde quando sentir que a felicidade depende de um ser que nos é alheio e incontrolável não é assustador? Para quê mais monstros, se já há tantos onde eles realmente existem e sempre existiram?
Eram muito ingénuos, estes primeiros escritores góticos, mas enfim... Freud fazia falta.