sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Gotika: arquivos Fevereiro 2004

fevereiro 15, 2004

Mês de Nick Cave - Song of Joy
Bem, já que não posso ir ao Nick Cave que venha ele aqui.
Como todas as canções no álbum "Murder Ballads" (tirando a última), esta é uma canção sobre um crime. Neste caso, uma série de homicídios. E eu tenho uma teoria sobre esta canção que é mais ambígua do que parece:


Have mercy on me, Sir
Allow me to impose on you
I have no place to stay
And my bones are cold right through

I will tell you a story
Of a man and his family
And I swear that it is true

Ten years ago I met a girl named Joy
She was a sweet and happy thing
Her eyes were bright blue jewels
And we were married in the spring
I had no idea what happiness a little love could bring
Or what life had in store

But all things move toward their end
All things move toward their end
On that you can be sure

Then one morning I awoke to find her weeping
And for many days to follow
She grew so sad and lonely
Became Joy in name only
Within her breast there launched an unnamed sorrow
And a dark and grim force set sail

Farewell happy fields
Where joy forever dwells
Hail horrors hail

Was it an act of contrition or some awful premonition
As if she saw into the heart of her final blood-soaked night
Those lunatic eyes, the hungry kitchen knife
Ah, I see, sir, that I have your attention!
Well, could it be?
How often I've asked that question

Well, Then in quick succession
We had babies, one, two, three.
We called them Hilda, Hattie and Holly
They were their mother's children
Their eyes were bright blue jewels
And they were quiet as a mouse
There was no laughter in the house
No, not from Hilda, Hattie or Holly
"No wonder", people said, "poor mother Joy's so melancholy"

Well, one night there came a visitor to our little home
I was visiting a sick friend
I was a doctor then
Joy and the girls were on their own

Joy Had been bound with electrical tape
In her mouth a gag
She'd been stabbed repeatedly
And stuffed into a sleeping bag
In their very cots my girls were robbed of their lives
Method of murder much the same as my wife's
Method of murder much the same as my wife's

It was midnight when I arrived home
Said to police on the telephone
Someone's taken four innocent lives

They never caught the man
He's still on the loose
It seems he has done many many more
Quotes John Milton on the walls in the victim's blood
The police are investigating at tremendous cost
In my house he wrote, "red right hand"
That, I'm told is from Paradise Lost

The wind round here gets wicked cold
But my story is nearly told
I fear the morning will bring quite a frost

And so I've left my home
I drift from land to land
I am upon your step and you are a family man
Outside the vultures wheel
The wolves howl, the serpents hiss
And to extend this small favour, friend
Would be the sum of earthly bliss
Do you reckon me a friend?

The sun to me is dark
And silent as the moon

Do you, sir, have a room?
Are you beckoning me in?

Song Of Joy
Nick Cave, "Murder Ballads" (1996)


O que a canção parece à primeira vista: um pai de família, desgostoso, que vai pedir abrigo a casa de um outro pai de família, e que conta a história do homicídio brutal que lhe roubou a mulher e as três filhas. Talvez. Talvez não.
Segunda análise: é o próprio assassino que está a bater à porta - "Well, one night there came a visitor to our little home" - e a contar a história das suas vítimas como se fosse a dele para apelar à piedade do dono da casa: “I will tell you a story - Of a man and his family”. Se ouvirem a interpretação do Nick Cave, a última frase “Are you beckoning me in?” é rosnada baixinho, dando a entender que o assassino está excitado e triunfante por lhe ser permitida a entrada, e a hipótese de matar de novo.
A minha teoria é bastante mais sinistra. Se calhar porque nós projectamos na poesia a nossa própria visão do mundo.
Para mim, este homem que conta a sua história de pai destroçado é de facto o pai de família e o assassino.
Porquê? Primeiro, a quantidade de pormenores: “Ten years ago I met a girl named Joy - She was a sweet and happy thing - Her eyes were bright blue jewels - And we were married in the spring”.
A tendência natural para a melancolia e para a contemplação da morte quando ainda não havia razão para isso, o que mostra que já era uma pessoa perturbada: “I had no idea what happiness a little love could bring - Or what life had in store - But all things move toward their end - All things move toward their end - On that you can be sure”.
E depois, após o casamento, Joy torna-se triste. “She grew so sad and lonely - Became Joy in name only”. Porquê? Se calhar porque o marido era bera como as cobras?... “Was it an act of contrition or some awful premonition” De novo, porque é que ela tinha de fazer algum acto de contrição? Talvez na mente do seu marido sim, ela fosse culpada de tudo e mais alguma coisa. E as crianças? “And they were quiet as a mouse - There was no laughter in the house - No, not from Hilda, Hattie or Holly - "No wonder", people said, "poor mother Joy's so melancholy" Melhor retrato de violência familiar? As crianças que calam, a mãe que cala, os vizinhos que mal se apercebem ou não se querem aperceber? Porque é que não havia alegria naquela casa desde o casamento? O que podia fazer infeliz a mãe e as três filhas?...
Chegamos portanto ao dia do homicídio. Convenientemente, o marido era médico e estava a visitar um amigo doente. Um amigo que podia corroborar o alibi. E quem é que descobriu os corpos e chamou a polícia? O próprio. E quem percebe mais de anatomia do que um médico, evocando Jack the Ripper?
E porque é que este médico ficou louco, largando a profissão, a casa, o resto da família, e se pôs a vaguear, dizendo que o assassino ainda está à solta... Não duvido. “They never caught the man - He's still on the loose - It seems he has done many many more”. E explicando na terceira pessoa as ideias obssessivas do assassino: “Quotes John Milton on the walls in the victim's blood - The police are investigating at tremendous cost - In my house he wrote, "red right hand" - That, I'm told is from Paradise Lost”
E se esta for a confissão desesperada do psicopata que quer ser apanhado, que quer que o façam parar, e não consegue parar sozinho? “Someone's taken four innocent lives” “Alguém”, diz ele. Alguém.
Na minha interpretação, o médico sempre foi violento mas naquela noite passou-se. Sem provas, a polícia não o prendeu (ou talvez tenha fugido, é irrelevante) e continua a fazer “many many more” inspirando piedade naqueles com quem fala. Possivelmente sem querer acreditar no que ele próprio fez.
Outros indícios poéticos desta interpretação sinistra: “Method of murder much the same as my wife's - Method of murder much the same as my wife's”, a repetição obssessiva; “The wind round here gets wicked cold”, à medida que vai conquistando a simpatia do dono da casa o vento torna-se mais frio, aumenta a atmosfera de maldade; “But my story is nearly told - I fear the morning will bring quite a frost”, assim que completar a sua história (novo homicídio) a manhã ficará gelada; “Outside the vultures wheel - The wolves howl, the serpents hiss”, as alusões aos animais malignos (abutres, lobos, serpentes) que estão fora da casa como maneira de convencer a ser deixado entrar, quando ele pode ser também um dos assassinos que (ainda) está fora da casa, e um assassino muito pior que os animais que invoca; “And to extend this small favour, friend - Would be the sum of earthly bliss - Do you reckon me a friend? - The sun to me is dark - And silent as the moon - Do you, sir, have a room? - Are you beckoning me in?”, a confiança conquistada, o inconsciente do assassino tenta ainda demonstrar-se com “The sun to me is dark - And silent as the moon” mas tarde demais, o dono da casa, condoído, já o estava a mandar entrar. Incrédulo, e numa última tentativa de evitar o crime, o assassino ainda pergunta: “Are you beckoning me in?”

Se não fosse a interpretação ambígua de Nick Cave, ter-me-ia ficado pela hipótese do pai choroso.

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Devido a alguém que assina com o meu nick, a partir de 15 de Fevereiro as respostas aos comentários aparecerão no blog. Qualquer comentário assinado por "mim" é falso e não deve ser considerado. Obrigada e peço desculpa pelo incómodo.

Publicado por _gotika_ em 06:40 AM | Comentários: (0)


Comentários 15.02.04 +/- 5h30

Um breve elogio! ;) o que interessa é o conteudo da tua escrita e não a qualidade ou a beleza das palavras (embora isso tenha alguma influência) Enviado por RIP em fevereiro 14, 2004 01:14 PM

Mais ou menos. A forma também ajuda à expressão do conteúdo. Acabar uma frase com um ponto final ou com reticências é completamente diferente. Mas em geral concordo, o conteúdo é de facto mais importante.

Tenho gostado de por aqui passar, pois para além do prazer de te ler, também tenho aprendido sobre variados assuntos, nomeadamente acerca do conceito de "gótico", de que já tinha ouvido falar, ainda que superficialmente. parabéns! Enviado por Miss Kafka em fevereiro 15, 2004 02:55 AM

Falarei mais sobre o movimento gótico. Confesso que gostava de escrever um livro sobre o assunto. Mesmo sem saber se há editores interessados. :) Um coisa é certa, só um gótico pode escrever um livro sobre o gótico que seja minimamente "reconhecido" por outras pessoas, não vou dizer góticas, mas ligadas ao movimento. Há demasiados sinais imperceptíveis que uma pessoa de fora simplesmente não apanha. É como escrever sobre uma sociedade secreta. Uma coisa é fazer investigação e entrevistas, outra é conhecer a sociedade a fundo. Talvez destes pequenos apontamentos que aqui vou deixando sobre o gótico ainda nasça um livro. Tenho muito tempo.

Minha amiga Gotika, qual das gotikas acima é que é mesmo você, estou ficando confusa. Eu adorei o que você falou, achei tão interessante e sutil que vou ficar decepcionada de saber que não foi você mesmo. Mas você você diz que é você e que não é você. Em qual? Enviado por Drika em fevereiro 15, 2004 01:32 AM

Pois. Por causa destas coisas, vou passar a comentar AQUI. Por isso, os comentários assinados por "mim", a partir de hoje, são FALSOS. Assim não há dúvidas. Vou colocar também uma assinatura permanente a explicar a situação para que nenhum distraído caia no conto do vigário.

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Devido a alguém que assina com o meu nick, a partir de 15 de Fevereiro as respostas aos comentários aparecerão no blog. Qualquer comentário assinado por "mim" é falso e não deve ser considerado. Obrigada e peço desculpa pelo incómodo.

Publicado por _gotika_ em 05:43 AM | Comentários: (1)


5000 visitas!

Muito obrigado a todos que se deram ao trabalho de clicar para este blog.

Aproveito para fazer um anúncio. Anda aí um brincalhão (ou brincalhões) a pôr comentários com o meu nick e link para o email ou para o blog, confundindo e fazendo perder tempo às pessoas que de facto gostam de uma discussão saudável. Congratulo-me com a inteligência deste brincalhão (ou brincalhões) - é bom saber que temos leitores geniais - mas não quero que haja a mais pequena dúvida de que as minhas palavras são de facto minhas.
Culpada de SOBERBA, como dizia ao Mangas, não posso conceber que outrém use meu nick, Gotika, nome que não deve ser pronunciado em vão sob pena de fortes escaldões no azeite fervente do inferno.
Deste modo... a partir de agora vou responder AQUI e apenas AQUI, no blog, aos vossos comentários. Por mim tanto faz. Como diria uma amiga espanhola de quem gosto muito, ao cão dela, "a mi me da igual". Ou coisa semelhante.
Por isso, qualquer comentário assinado por Gotika não será meu. Chamarei a atenção para isso, AQUI, as vezes que forem necessárias, para terem a certeza de que as minhas palavras são mesmo minhas. É que nós, os taurinos, somos muito possessivos em relação às nossas coisinhas.

Quanto ao brincalhão (ou brincalhões), peço imensa desculpa por te (vos) estragar a brincadeira. Podem sempre continuar. Querem ideias? Façam uma cópia deste blog e publiquem merdas como se fosse eu a dizê-las. Querem mais ideias? Ah, mas também já estão a pedir demais, não vos parece? Amiguinhos, há tantas maneiras de matar pulgas!!! O chico-espertismo é uma selva de desafios! Puxem pela cabeça, vá, vocês conseguem!

Eu também gosto de brincar.

Publicado por _gotika_ em 04:14 AM | Comentários: (1)


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Comentário:
É é por este motivo (porque alguém se divertia a assinar com o meu nick) que ainda hoje não permito comentários anónimos no blog, e não por ter alguma coisa contra o anonimato. Nesse aspecto, as funcionalidades dos blogs em geral melhoraram. Naquela altura, para se comentar sem ser sob anonimato era preciso estar registado na plataforma onde o blog estava alojado e muito pouca gente estava registada, isto é, as pessoas não tinham qualquer espécie de perfil online. Era tudo muito novo. (Para terem uma perspectiva, não havia Facebook, ou se havia ninguém conhecia, o que vai dar ao mesmo.) Eu preferi permitir os comentários anónimos durante mais algum tempo, para dar oportunidade às pessoas de comentar, mas eventualmente acabei por me fartar. Houve protestos, porque as pessoas não queriam registar-se. Actualmente o anonimato é possível, e a usurpação de identidade também, mas dá trabalho. Um bom sociopata gosta de causar o caos sem ter muito trabalho. Claro que houve protestos.

Sem comentários: