domingo, novembro 28, 2004

The Village (2004) e a América

(Para fotografias, vão ao blog do Goldmundo, que ele tem por lá uma carrada delas)

É difícil não falar deste filme sem descrever a história, por isso se não querem saber o melhor é não lerem o resto.
MAS TÊM A CERTEZA QUE NÃO QUEREM SABER?
E se alguém vos privasse do direito de escolher se querem saber ou não? É sobre isso que este filme trata.
Um grupo de iluminados decide criar uma comunidade à parte - nos nossos dias - em que se diaboliza a sociedade como a conhecemos hoje. A fuga perfeita da escravidão do dinheiro e da ameaça do crime. Uma espécie de comunidade Amish como podemos ver em "A Testemunha". Só que, para forçar os jovens nascidos nessa comunidade a permanecerem lá, os anciãos da aldeia vão muito mais longe do que ameaçar os paroquianos com as penas do inferno. Inventam monstros, vestem-se de monstros, tornam-se monstros. Estes "monstros" vivem na floresta e esfolam pequenos animais. As "provas" aparecem. As pessoas têm medo. As pessoas acreditam que os monstros existem, até porque já os viram.
Tudo isto mascarado das "boas intenções" de proteger os inocentes nascidos na aldeia da terrível tentação de procurar o mundo exterior, nem que seja por mera curiosidade. O medo paralisa-os e não conseguem passar pela floresta.
No entanto, os jovens sabem que existe um mundo lá fora onde a tecnologia está mais desenvolvida. Tal como numa típica sociedade Amish, rejeitam a inovação pelo bem estar geral da sua pequena comunidade.
Até ao dia em que alguém morre por falta de medicamentos. E até ao dia em que alguém pode de facto salvar uma vida se apenas vencer o medo de atravessar a floresta recheada de monstros - que não existem. (Note-se a semelhança com o filme "A Praia", só que com uma decisão diferente, a de salvar uma vida mesmo pondo em risco a comunidade.)
Os verdadeiros "monstros", os anciãos da aldeia, permitem que uma rapariga cega conheça a verdade sobre a farsa e que seja ela a atravessar a floresta. Aqui ela tem culpa pois, a certa altura, ela sabe a verdade e cala-se. Podia ter partilhado a verdade com os jovens que se atreveram a acompanhá-la no princípio da jornada mas, duplamente cega (e tão monstruosa como os seus "criadores"), cala-se e permite que os outros continuem na ignorância. Este pequeno momento de verdade poderia ter evitado uma tragédia, e outra, e outra, e todas as tragédias que se seguem a uma mentira. Não há ninguém neste filme mais culpado do que ela.
O que me preocupa é que, sendo criada numa mentira, ela idolatre de tal modo os seus modelos que não é capaz de os desmascarar. Prefere alimentar a farsa. Não sente a desilusão. Não consegue encarar a desilusão? Quão cego se pode ser, é a pergunta?
Na sequência de filmes como este, e "A Testemunha" e "A Praia" e toda a série "Ficheiros Secretos", começo a chegar à conclusão que algo de grave se passa na América, algo de grave de que estes produtos cinematográficos são um espelho.
(Bem, confesso, falar com as pessoas também me abriu os olhos. Porque alguns de nós não estão cegos.)
O tema é recorrente. The truth is out there. Nós nem temos tradução que lhe chegue, o que significa qualquer coisa. "A verdade está lá fora", ou "a verdade anda por aí" não chegam para descrever o sentimento de terror que é o facto de a verdade estar "lá fora" mas ninguém saber qual é a verdade. O terror de viver numa sociedade baseada em monstros imaginários que a sustentam. O terror de algumas pessoas conhecerem a verdade e não a quererem revelar para o "bem comum". A teoria da conspiração sem um Agent Mulder.
O verdadeiro terror. Ou apenas o estado das coisas antes da escuridão total que é o correr da cortina e o instaurar da tirania do "bem comum". Sabemos bem onde vai dar. O muro só caiu há 15 anos.

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