domingo, 4 de janeiro de 2026

The Walking Dead: Dead City (2023 - ?) [segunda temporada]


Continuam as aventuras de Maggie e Negan em Nova Iorque. No continente, a federação autoritária Nova Babilónia pretende invadir Manhattan para obter a produção de metano. Em Manhattan, os líderes do gangue mais poderoso querem que Negan chefie a defesa contra Nova Babilónia. Maggie é recrutada à força por Nova Babilónia para lutar contra Manhattan.
Como já aqui disse algures, de todas as spin-offs de "The Walking Dead" esta era aquela que acreditava menos que pudesse resultar, porque Maggie e Negan juntos prenunciava que se matavam um ao outro no primeiro episódio, mas enganei-me. Continuo a preferir "Daryl Dixon" por várias razões, mas "Dead City" surpreendeu-me. A primeira temporada foi muito boa, principalmente a nível do world building. Nunca tínhamos visto Nova Iorque depois do apocalipse zombie e a série deu-nos uma imagem muito nítida da devastação e abandono. A nível dramático também fiquei agradavelmente impressionada. A relação de Maggie e Negan tornou-se mais complexa, mais densa, mais imprevisível, e tudo de modo natural, sem ser forçado. Conhecendo a história entre os dois, isto não é pouca proeza!
Esta segunda temporada não é tão boa como a primeira mas a premissa continua a ser sólida. Num mundo pós-apocalíptico em que vale a lei do mais forte, tanto Nova Babilónia (que quer restaurar o país ao que era dantes) como os líderes dos gangues de Nova Iorque, quase todos, são vilões implacáveis. Ambos os lados são malvados e só estamos a torcer para que morram depressa. Nova Babilónia é uma federação que agrega várias comunidades obrigadas a "agregar-se". Para esta guerra pelo metano, recrutam pessoas à força e enforcam os "desertores" a torto e a direito, até num mundo em que a mão-de-obra não é exactamente abundante e em que as pessoas são necessárias para produzir comida. Os vilões de Nova Iorque também são maus como as cobras. Sabendo quem era Negan, querem obrigá-lo a ser o mesmo líder sanguinário do passado e até lhe arranjam uma nova Lucille. Negan recusa, mas os seus captores ameaçam-lhe a família, esposa e filho. Maggie, do outro lado, também é forçada a colaborar para poupar a sua comunidade.
O maior problema desta temporada é que os vilões são efectivamente de banda-desenhada, são maus porque sim. Isto é a spin-off a cair nos mesmos erros da série original, outra vez, depois de uma primeira temporada mais promissora. Na mesma senda, se a primeira temporada conseguiu humanizar Negan (como nem a série principal conseguiu), aqui esse desenvolvimento de personagem está comprometido. Negan aceita assumir o papel de líder brutal e impiedoso para salvar a família mas, quando finalmente eles estão perto, de um momento para o outro, decide que afinal ele é "mau para eles" (e com razão) e manda-os embora. Até compreendo o que se queria conseguir, mas isto foi demasiado abrupto e mal vendido. 
Maggie também muda de ideias de um instante para o outro de forma a roçar o implausível e a recordar "Fear The Walking Dead". De igual modo, Hershel, filho de Maggie e Glenn, é um adolescente "naquela idade" rebelde, mas o que ele faz aqui já entra no campo da burrice. Crianças e adolescentes a agir estupidamente foi outro dos problemas da série original. Uma vez é normal; sempre é demais. A própria Maggie, como mãe, está a ser muito mole. O puto ainda tem idade de levar umas estampilhas e até as merece. É agora ou nunca, e Maggie até sabe disso porque teve um pai muito sábio mas muito rígido e isso só lhe fez bem.
Em suma, as personagens estão a começar a agir ao contrário das suas personalidades estabelecidas e isso é um grande problema em termos de coerência e até de narrativa. Negan não podia ter mandado embora a mulher e o filho porque tudo o que ele fez nesta temporada foi na tentativa de voltar para eles. Maggie não tinha razões para ficar em Manhattan tanto tempo quando já poderia ter regressado a casa. Reduzir a inteligência e manipular as motivações dos personagens consoante interessa às reviravoltas do enredo é um insulto para os personagens e para os espectadores. "Dead City" está neste momento perigoso em que ainda não escorregou totalmente por ali abaixo mas ameaça derrapar. Seria pena, porque isto até estava a correr bem. Tendo em conta o nível de qualidade a que "The Walking Dead" caiu, "Dead City" foi uma boa surpresa e eu não queria que acabasse mal.
Quanto aos momentos positivos, a segunda temporada continua a apostar no world building. Os militares de Nova Babilónia vestem-se a lembrar um western ou um exército dos tempos da Guerra da Independência, um dos vilões de Manhattan parece um aristocrata do século XIX e outro parece um personagem de "A Guerra dos Tronos". Isto é demasiada Fantasia, e muito conveniente para fazer "bons bonecos", mas consegue ser engraçado. Afinal, pelo menos que o apocalipse zombie sirva para que as pessoas mandem a moda às urtigas e se vistam como bem lhes apetece. Se todos os problemas de "Dead City" fossem estes!
Outra coisa de que gostei. O Central Park está transformado num matagal tipo selva e cheio de zombies e animais selvagens que fugiram do jardim zoológico. Isto é aproveitado e até podia ser mais, mas compreendo que não o tenham feito. As pessoas que gostam destas séries estão aqui pelos zombies, não é para ver animais a atacar pessoas e pessoas a matar animais.
Também aprendemos que as melhores iguarias de Nova Iorque são baratas, ratazanas e cobras (?). Foi muito bem apanhado, sim senhor.
E só desta vez reparei que a Estátua da Liberdade não está apenas danificada por causa dos bombardeamentos, também ela parece um bocadinho zombificada. Óptimo pormenor do genérico.
O último episódio tem momentos muito tensos que só não são convincentes porque já sabemos que vai haver mais temporadas. Eu esperava outro desenvolvimento de Maggie e Negan, mas não fiquei insatisfeita porque a ideia principal foi lá parar também. 
"Dead City" ainda se recomenda pelo world bulding, pelos cenários de uma Nova Iorque deserta e em ruínas, e pelos zombies. (Esqueci-me de falar nos combates de zombies, que acabaram por ser mais interessantes do que pareciam.) Mas "Dead City" está no estado periclitante de uma spin-off a ficar sem ideias e a tentar encher chouriços. Neste momento, uma terceira temporada poderá ser muito boa ou muito má. Há muito tempo que não dizia isto de um produto "The Walking Dead", mas a esperança não está perdida. Mesmo assim, cenário por cenário, continuo a preferir "Daryl Dixon".

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies

Nota: Estava a ver isto no AMC e fiquei chocada com a quantidade de anúncios de sites de apostas online e produtos de barbear dirigidos a um público jovem e masculino. Sinto-me discriminada. Onde é que estão os anúncios aos champôs, aos cremes, aos detergentes? Há donas de casa a ver isto que querem conhecer o novo detergente da louça 1000 vezes mais desengordurante e tão eficaz como Lucille. Não me lembro de "Daryl Dixon" ter anúncios tão dirigidos ao público masculino, o que significa que Daryl Dixon é encarado pelo mundo da publicidade como um sex symbol masculino, mas Negan será encarado como um action figure só apreciado por homens? Mas Maggie não é também um exemplo de mulher durona? Serei a única mulher a ver isto? Agora fiquei com problemas existenciais que não sei resolver. Quem sou eu? Onde pertenço? Serei normal? Se não sou normal, o que sou? Serei real? Será que existo? Quero anúncios para mim, se faz favor.


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