Se são daquelas pessoas que se choram porque não podem ir comer a um daqueles restaurantes de super-luxo, este filme é para vocês. Depois de verem isto, nunca mais desejarão pôr lá os pés. Eu sempre disse que a comida de ricos é sinistra: um cubo de carne, uma ervilha, uma pincelada de ketchup no prato a lembrar uma mancha de sangue: sinistro!
Mas falando do filme propriamente dito, uma dúzia de comensais dirige-se a um restaurante exclusivo, situado numa ilha, onde se pretendem deleitar com uma refeição ultra-fina de 1250 dólares por pessoa servida por um Chef (Ralph Fiennes) do mais prestigiado que existe. Mas depressa esta experiência de sonho se transforma num pesadelo.
"The Menu" não é um filme de terror de vão de escada. Pelo contrário, é um filme de qualidade, com actores reputados, um possível candidato aos Óscares e tudo. Tal como o menu apresentado no restaurante, também o filme é ambicioso e conceptual e quer ter um significado. É este significado que o filme não consegue cozinhar até ao fim, ficando muito "mal cozido".
De seguida vou discorrer sobre esse significado, sem spoilers, mas advirto os verdadeiros amantes de terror que o filme tem mais impacto se o virem sem saberem nada sobre ele. Fica à vossa consideração como preferem degustar esta delícia.
Então, o significado. À primeira vista, esta é história de um Chef (enlouquecido) que quer castigar os ricos que não conseguem apreciar a sua arte culinária mas que acham que o dinheiro lhes dá direito a ela. Deste modo, o Chef organizou esta refeição para os punir.
Até aqui tudo bem, mas não é assim tão linear e pôs-me a pensar quando o filme acabou (o que é sempre bom). Alguns dos presentes são ricos, de facto, e clientes regulares deste restaurante astronomicamente caro, mas muitos deles não são. A questão aqui é: porque é que merecem ser castigados? As personagens nunca são muito desenvolvidas. Não sabemos ao certo porque é que foram "escolhidos". De alguns temos "pistas" que nos informam que são de facto criaturas vis, por diferentes razões, mas depois temos os outros. Por exemplo:
A esposa do cliente rico que costuma ir ao restaurante. O que é que ela fez? Daquilo que nos é dado a ver, não fez nada. Porque é que merece ser castigada?
A crítica de culinária, a quem o Chef acusa de ter escrito artigos que arruinaram alguns restaurantes, é de facto uma snob, mas só estava a fazer o seu trabalho e percebe-se que a senhora sabe do que fala. Aliás, foi esta colunista quem descobriu e promoveu o Chef deste mesmo restaurante, prova de que não faz sempre críticas negativas. E os restaurantes que critica são topo de gama, não é o restaurante da esquina que ao fechar portas coloca uma família inteira no desemprego. E nada nos diz que a colunista é rica. Ela está ali, tal como o seu editor, a convite do Chef. Então, porque é que ela merece ser castigada?
O editor. Coitado, o editor não faz nada senão concordar em tudo com a colunista e percebe-se de caras que é um banana. Merece ser castigado por ser banana?
Os três colegas. Estes não são ricos de certeza, embora declarem que ganham muito bem. Estão ali porque trabalham na firma do investidor do restaurante como forma de usufruírem de um bónus qualquer. É possivelmente a primeira vez que têm oportunidade de visitar um restaurante destes. Vem-se a saber que a firma para onde trabalham pratica falcatruas (facturas falsas, offshores, o costume) e que eles conhecem as ilegalidades. Mas eles são empregados. Todos os empregados devem ser castigados pelas vigarices dos patrões? Haveria sequer prisões onde os meter a todos se assim fosse?
Penso que é aqui que o filme não consegue estrelar o ovo sem o desmanchar, o que é pena porque a premissa ia muito bem. Se nos dessem motivos válidos para odiarmos estas personagens poderíamos aplaudir que fossem "grelhadas" como mereciam, mas o problema é que não merecem. Sendo assim, muito do significado perde-se no "são ricos e pensam que têm o mundo na barriga" (o que nem é verdade para todos), e as culpas retornam à procedência: ao Chef louco com um facalhão de cozinha.
Não estou a dizer que um Chef louco com um facalhão de cozinha dê um mau filme, estou apenas a reclamar da qualidade da ementa que nos é servida. Com todos estes ingredientes, este podia ter sido um banquete inesquecível mas ficou-se por um repasto que não me encheu completamente as medidas.
E, acima de tudo, a minha maior crítica ao filme, porque é que os presentes permanecem tão calmos e serenos numa fase dos acontecimentos em que já deviam estar desesperados e em pânico e dispostos a tudo? A mim parece-me que os realizadores se esqueceram de que estes personagens são humanos, não são vegetais como batatas e cenouras a enfeitar o prato. Nesta altura já deviam ser carnívoros a fazer correr sangue. Nem sequer vou implicar com o fim de determinada protagonista, que me pareceu inverosímil no total da situação.
Ainda assim, muito bom. Servia-me duas vezes sem pensar na dieta.
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domingo, 11 de janeiro de 2026
The Menu (2022)
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