quinta-feira, outubro 15, 2015

Drácula (série TV)

*** contém spoilers, mas não revela o final ***

Primeiro que tudo, estou muito agradecida a esta série! Tão agradecida, para que conste, que a minha apreciação é assumidamente parcial. Antes desta série, sempre que pensava no Jonathan Rhys Meyers só me vinha à cabeça, como se gravada por um ferro em brasa, a imagem de Henrique VIII (“The Tudors”). Obviamente, Jonathan Rhys Meyers foi escolhido para o papel para facilitar a vida aos espectadores que de outro modo não apenas teriam de assistir aos caprichos de um monarca abjecto com uma predilecção por cortar cabeças (especialmente cabeças de rainhas), como também teriam de olhar para a carantonha de um monarca abjecto e feio (como era a criatura na realidade), o que seria duplamente penoso. O casting de Jonathan Rhys Meyers tornou a experiência menos dolorosa. (Mas um monarca abjecto e feio não merecia que Jonathan Rhys Meyers lhe vestisse a pele!)
Desde os “Tudors”, portanto, não conseguia pensar em Jonathan Rhys Meyers sem horror e asco, o que era a todos os níveis uma pena!
Nem tenho palavras para agradecer que essa imagem tenha sido substituída, e com o tempo, oxalá, completamente desvanecida, e me lembre antes desta:


Embora, para dizer a verdade, Jonathan Rhys Meyers interprete os dois papéis da mesma maneira, resultando de modo elogioso para Henrique VIII que não podia ter metade do charme deste Drácula. Meyers lá tem a sua razão, um monstro é um monstro, a diferença é apenas ficcional. Mas basta de reminiscências dos “Tudors”, série que já bastou ver uma vez e não é agradável de recordar. Falemos de “Drácula”, 2013-14, série de TV.



Conde de Monte-Drácula
A minha reacção ao saber deste “Drácula” não foi famosa: “Oh não! Mais uma adaptação de Bram Stoker e ‘atravessei oceanos de tempo para te encontrar!’...”
(Por falar em *ainda* mais uma adaptação. Parece que existe um novo Drácula, filme, do qual vi algumas cenas pavorosas em que o nosso Vlad lutava usando artes marciais! Sim! Artes marciais! Drácula Kung Fu! Este arrisca-se a ser o único filme de Drácula que eu não vou ver jamais. Nem a minha compulsão obsessiva de ver tudo o que é vampiros resiste na presença de artes marciais. Não, obrigada, não.)
A série surpreendeu-me. Trata-se, sim, de uma adaptação do clássico de Bram Stoker, passada na Inglaterra vitoriana e elencando todas as personagens que já conhecemos (Drácula, Mina, Jonathan, Lucy, Renfield e Van Helsing). Mas o espectador vai ser confrontado com alguns choques, e alguns espectadores, creio, não vão conseguir ultrapassar o primeiro episódio. O que seria uma pena, na minha opinião, porque a série começa de forma esquisita mas torna-se bastante interessante.
O primeiro grande choque... Bem, antes terei de explicar porque é que Drácula está em Londres. (Não é um spoiler “grave” porque tudo o que vou dizer é esclarecido nos dois primeiros episódios.) Drácula, o verdadeiro, o único, o Impalador, Vlad Drakul, princípe da Valáquia, está em Londres sob a identidade de Alexander Grayson, empreendedor americano de grande mas recente fortuna de origem obscura (como não seria de estranhar de um americano arrivista), para se vingar da Ordem do Dragão. No seu tempo, a Ordem do Dragão queimou na fogueira a esposa adorada de Vlad (a série nunca explica exactamente porquê) e foi também a Ordem do Dragão que como castigo por heresia, e usando rituais ocultos, transformou Vlad no primeiro caminhante das Trevas, para sempre amaldiçoado. (O que foi uma péssima ideia que a Ordem do Dragão teve, mas avançando.) A Ordem do Dragão existe ainda na Inglaterra vitoriana, na forma de uma sociedade oculta, corrupta e fanática, composta apenas dos mais ricos e poderosos que não olham a meios para atingir os fins. Drácula também não olha a meios para atingir os fins. E começa a vingança. Drácula não pretende simplesmente matar os líderes; quer destruir, para sempre e de uma vez por todas, a Ordem do Dragão, e vai usar tudo ao seu dispor para o conseguir: compra, suborno, chantagem, embuste, difamação, homicídio. Tirando a parte do homicídio, a vingança de Alexander Grayson recorda o maravilhoso enredo do Conde de Monte Cristo e vai deliciar quem gosta de uma boa história de vingança.
Os ricos e poderosos da Ordem do Dragão acabam de descobrir a importância que o petróleo vai ter na economia mundial do futuro. (Como nós tão bem sabemos.) Estão dispostos a começar uma guerra com o Império Otomano para ter acesso ao petróleo do Médio Oriente. (Nós também sabemos que sim, e como!, e ainda!) Drácula pretende cortar o mal pela raiz. E aqui vem o grande choque: Drácula apresenta-se como um empresário que quer implementar uma fonte de electricidade limpa, sem fios, barata, não poluente, não dependente do petróleo!!! Electricidade gerada a partir do campo magnético da Terra!!! (Era bom, não era?) E com isto pretende destruir as grandes fortunas dos membros da Ordem da Dragão, impossibilitando a dependência petrolífera, e acabar com esta para sempre!
Quanto à Ordem do Dragão, bastará mencionar que são uma cambada de capitalistas ricos, exploradores, poluidores, os donos do mundo, os donos dos mercados, os donos dos homens, e também a mim me apetecia arrancar-lhes à dentada algumas cabeças, mesmo não sendo vampira, e daqui exorto, inequivocamente:
Drácula, amigo, o povo está contigo!


É o grande choque do primeiro episódio. Drácula, empresário?! Electricidade verde e sem fios?! No século XIX?! E internet também, não? E já agora, televisão a cores, para vermos estas séries de ficção científica?
Aconselho todos os espectadores a fecharem os olhos a esta tolice, uma tamanha tolice que pode afastar muita gente da série logo no primeiro episódio. É daquelas coisas que podem ofender irreparavelmente os intelectos mais apegados às ciências, o que compreendo, mas, como em tantas outras séries do género, às vezes temos mesmo de fingir que acreditamos se queremos apreciar o que interessa. Na minha opinião, vale a pena fechar os olhos porque há muito a apreciar. Até porque todo este ambiente laboratorial de experimentação com electricidade nos vai proporcionar cenas que evocam outro grande clássico da época, Frankenstein! E agora vou falar do segundo choque:

Van Helsing está a trabalhar com Drácula!!!
Sim, o caçador de vampiros mais famoso do mundo está de conluio com aquele que é o seu arqui-rival, o seu arqui-inimigo, o seu nemesis! E porquê? Porque a Ordem do Dragão também lhe matou a família. (Com quem eles se foram meter!) Isto não quer dizer que Drácula e Van Helsing sejam amigos. Longe disso. Mas Van Helsing é um homem racional e frio, e sabe a quem recorrer. Logo na primeira cena do primeiro episódio, vemos dois exploradores a penetrar no túmulo onde Drácula repousa há séculos. (Muito Indiana Jones.) Algo me fez logo adivinhar que um deles era Van Helsing (quem mais poderia ser?), mas pensei, mais logicamente, que Van Helsing procurava o túmulo para matar Drácula, como é costume, no que podia ser a última cena de uma história contada a partir do fim. Foi um choque perceber o quanto estava enganada. Mas um choque refrescante, admito.

Tão amigos que eles não são.

A verdade é que o personagem Van Helsing se tornou um herói por mérito próprio na cultura popular mais recente. O velho professor, fanático e algo excêntrico, do livro de Stoker, já não cai bem como caía na época. Entretanto, tivemos Van Helsing, o sex symbol, e penso que tudo mudou desde aí. Este Van Helsing (Thomas Kretschmann, que por sua vez já encarnou Drácula em “Dracula 3D”, que eu ainda não vi) é um professor de meia idade, entre o génio científico e o homem de acção. É dele a ideia da electricidade magnética, é dele a invenção do soro que permite a Alexander Grayson caminhar ao Sol durante o dia. Van Helsing também se quer vingar e também não olha a meios para atingir os fins. Enquanto Van Helsing fornece a inteligência, Drácula fornece o músculo. O maniqueísmo na ficção é algo do passado. Neste novo universo de personagens “cinzentos” já não existem muitas personagens completamente boas ou completamente más. Gosto desta adaptação que apresenta os personagens à luz da modernidade. Quem contava com outra adaptação de Stoker “à letra” pode esperar ainda outros choques:

Renfield. Adorei o que fizeram com este personagem! Não é o louco babado do hospício que come moscas e clama “Mestre! Mestre!”. Este Renfield (Nonso Anozie) é um ex-escravo norte-americano que conseguiu tirar um curso de Direito graças a um mecenas abolicionista, mas viu fechadas todas as portas de emprego devido à sua cor. Também Renfield tem muitas razões para estar zangado com os donos do mundo. Renfield, à sua maneira, também se quer vingar.

Imaginam o meu choque ao perceber que Renfield é o senhor grande e negro e, acima de tudo, são da cabeça?!

Lucy Westenra (Katie McGrath). Esta não é a Lucy namoradeira e vitoriana que só pensa em arranjar um marido. Esta é a Lucy inexperiente que ainda não sabe em que equipa joga, mas acaba por descobrir, e é na equipa da Mina. Infelizmente, não é correspondida. Infelizmente, tendo em conta as alternativas, muitos espectadores torceram para que ficassem juntas. Faziam um par bonito. Mas o que não tem de ser não tem de ser.

Como é que se podia não torcer por isto?

Jonathan Harker (Oliver Jackson-Cohen). Este também não é o Jonathan virtuoso e debilitado e merecedor de simpatia que Stoker nos apresenta. Este Jonathan é um homem frio e ambicioso, ávido de subir na vida, que chega a sugerir deixar para trás os amigos antigos (e pobres) quando começa a relacionar-se com a alta sociedade. Tem que ser Mina a intervir para que Jonathan “veja o seu erro”. No fundo, percebe-se disto que Jonathan não muda de ideias nem vê erro nenhum, só quer agradar à futura mulher (nesta versão, Mina e Jonathan ainda não são casados). Jonathan é o tipo de homem que descarta quem já não lhe é útil, e também não olha a meios para atingir os fins. Sem Mina, onde estaria a sua consciência? Aparentemente, em lado nenhum.

Não é o Jonathan Harker querido e fofinho da história de Stoker.

Por fim, Mina Murray (Jessica De Gouw), ainda o nome de solteira. Talvez seja um dos maiores choques que a Mina “doméstica” e bem comportada, do livro, se transforme, nesta série, numa mulher independente e progressista e estudante de medicina. Jonathan revela que não a merece quando é apanhado em flagrante a dizer que depois do casamento Mina se vai deixar dessas “coisas”. Mina ouve, mas perdoa-o, porque o amor é cego. E porque o amor é cego, Mina acaba por ser magneticamente atraída pelo americano recém-chegado que a adora e admira, na mesma medida em que o carácter de Jonathan progressivamente a repele. É científico. Grayson nem precisa de sex appeal sobrenatural, e não o usa. Mas esta Mina é mais racional do que emotiva e luta contra a paixão... enquanto consegue.
Afinal, Drácula sempre cruzou oceanos de tempo para a encontrar, porque (aproveitando a mitologia já existente em torno dos dois, que vem dos filmes e não do livro original de Stoker) Mina é, de facto, a reencarnação de Ilona, mulher de Vlad. Este encontro do amor, inesperado, perturba Grayson e quase o distrai da sua missão de vingança. Drácula tem aqui uma crise de consciência como também já faz parte da mitologia do vampiro moderno (o que temos de agradecer aos vampiros da senhora Rice) e por causa de Mina sente a ânsia de viver novamente, como homem, à luz do Sol. O soro, contudo, não é suficiente...

Sempre cruzaram oceanos de tempo para se encontrarem...

Todos estes novos elementos se tornam bastante interessantes à medida que a história se desenrola e são motivo para levar a sério a adaptação que recomendo vivamente.
O final é muito bom e surpreendente e abre portas para uma segunda temporada que não vai existir (a série foi mesmo cancelada). Sendo assim, a série merecia pelo menos mais um ou dois episódios para fechar a história. Talvez os autores tenham planeado uma segunda temporada mas as audiências não foram suficientes para a justificar? É uma pena. Como digo, o fim prometia, no mínimo, um último episódio para o grande e épico confronto que já ninguém esperava. E mais não posso revelar.
Posso apenas recomendar, e quando a série for repetida tenciono ver de novo. Não imagino porque é que esta adaptação tenha passado tão despercebida. Desconfio que foi a tal energia magnética, limpa e sem fios que estragou a série para muitos espectadores do primeiro episódio que não lhe deram a hipótese de um segundo. Manias de meter ficção científica em tudo às vezes dão nisto. Afinal, a tal energia magnética até não era importante para a história e podiam ter arranjado um esquema que envolvesse bancos, especulação, escândalos e política. Atingia os mesmos fins, e talvez a série tivesse mais hipóteses. Se é verdade que os fins justificam os meios, também há meios tão incompetentes que nem os fins servem. Acho que este foi um desses casos.



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2 Comentários:

Blogger Vívien - Camaleon disse...

Que pena a série não ter desenvolvido mais...Parece linda.
Vai entrar na minha lista para ver futuramente.
Abraços!

18/10/15 22:26  
Blogger katrina a gotika disse...

Olá! Eu vou mesmo ver outra vez, assim que repetirem, para me deliciar com os pormenores. A nível visual e estético também é uma excelente série de época. Embora com toques mais modernistas do que uma série de época mais formal, como por exemplo os vestidos das heroínas (demasiado ousados para aquele tempo) ou o carro de Grayson (não cheguei a perceber como é que o carro funcionava e que energia o movia). Se virmos estes pormenores como elementos surrealistas, até enriquecem a série.
Deviam ter feito mais um episódio, pelo menos. Até houve uma petição online para continuar a série, mas foi definitivamente cancelada.

20/10/15 03:36  

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