terça-feira, outubro 26, 2004

Acorrentada

A primeira vez que tive contacto com a ideia de que quando as coisas se repetem na nossa vida é porque o nosso destino se está a revelar foi ao ler "As brumas de Avalon". Era qualquer coisa assim: "Quando as coisas se repetem, a vida está a dizer-te que é esse o teu destino".
Atenção às repetições.

A minha vida está intimamente ligada à Rua dos Plátanos (o nome é fantasiado por razões óbvias), onde tudo começou e continua a passar-se. Que karma, digo eu.
Às vezes penso se na minha última reencarnação não matei alguém ali, à facada.
Não me consigo livrar daquela rua.

Agora ia começar a contar a minha história mas seria incrivelmente aborrecido. Para mim, isto é. Recentemente vi-me na necessidade de fazer um esforço mental para me recordar da série de eventos, porque tudo se desfocou e perdeu. Não me lembro! Se calhar não me quero lembrar. Há certas coisas que é de facto melhor esquecer. Finalmente a perda de neurónios derivada dos charros, bebedeiras e comprimidos começa a ter efeitos positivos. Finalmente, esqueço! Contar a história? Esqueçam. Foi um momento de insanidade galopante, já me passou.

Ademais, o passado está enterrado. As repetições persistem, mas em novas situações. O que ainda é mais irónico. Cada vez que alguém me diz que a morada é na Rua dos Plátanos eu percebo que estou acorrentada à minha prisão. Talvez um dia desate às gargalhadas.

Bem, desde há dois anos que estou a tentar resignar-me ao facto de que não há empregos nas áreas que estudei. Entretanto, já estudei em várias áreas. Já podia escolher várias carreiras.

Carreiras? Espera, pausa para risos. Já não há carreiras. Há trabalhos temporários permanentes.

Nestes dois anos tenho frequentado empresas de trabalho temporário onde a nossa ficha é perdida de um dia para o outro. Da última vez, estive numa fila aflitiva que me recordou aqueles filmes americanos da Grande Depressão dos anos 30. Homens em fila, em filas intermináveis, de fato e chapéu na cidade, em mangas de camisa nos campos, à espera de um dia de trabalho remunerado.
Desta vez vejo filas de criaturas jovens vestidas à Matrix, homens e mulheres, alguns já não tão jovens (os que ainda tentam a sorte embora sejam preteridos por estarem "usados" pela vida), em fila à espera de um lugar de escravo num sítio qualquer, licenciados em Línguas, em História, em Matemática, em Engenharia Informática, em Psicologia, em Gestão...
Reparem, os lugares são poucos e são para os amigos dos donos das empresas. As universidades, particularmente as privadas, nada mais fizeram que extorquir o dinheiro dos pobres trabalhadores com a 4ª classe que sonharam um futuro melhor para os seus filhos através da Educação. Foram enganados, e nós, os filhos, também.

Voltando ao aspecto pessoal da coisa. Tendo uma necessidade urgente de sair de casa, e não me apetecendo ser puta e juntar-me com um gajo para pagar uma prestação astronómica de crédito à habitação, resta-me sofrer o que me saiu na rifa. (Sofrer por sofrer, sofro a família!)
Sim, sei que a minha mãe também gostava de me ver pelas costas, porra, é mútuo, mas... alas... Pensávamos que éramos livres? Pensávamos que tínhamos escolha? Somos servos da gleba.

Ora, é esta sentença de prisão com execução sumária a que eu tento resignar-me há dois anos.
Penso que passei o ano de 2003 em estado de embriaguez. Este ano tenho-me portado melhor. Não pela virtude mas pela fartura. Já não suporto o sabor do sumo de laranja no vodka!
Saber que é para sempre, saber que vou morrer aqui, saber que nunca tive hipóteses... Primeiro, admito, custou esquecer os sonhos. Eu podia ter sido tudo. E no fundo, nunca poderia ter sido nada. O destino estava traçado. Algures na Rua dos Plátanos.

"A minha vida é um pesadelo e não consigo acordar" (Gabriel o Pensador, descrevendo um sem abrigo)
A minha segurança social é uma anedota. Duvido até que muitos dos sítios em que trabalhei tenham feito descontos... Tenho medo de acabar na rua. Um dia serei muito velha para esta jigajoga de empregos temporários.
O que vai ser de mim? O que vai ser de nós?

Tem-me custado perceber que nunca serei livre. Os amigos estranham que eu não ceda a mais concessões. Já me bastam os grilhões que tenho. Eu sonho com a liberdade, como é que podem conceber pedir-me mais prisões? Pelo menos, na minha solidão eu sou livre. Livre das pessoas, livre dos afectos, até livre das restrições do amor, mas é a única liberdade que me é permitida. Não abdicarei dela.

Vejo o futuro negro e assustador. Deve ser muito frio, dormir na rua. Por outro lado, deve-se morrer mais depressa.
Não irei lutar mais. Até porque não há campo de batalha. Nasci no sítio errado, no local errado, no tempo errado.

Ou, por outra perspectiva, no sítio certo, no local certo, no tempo certo para deixar de gostar da vida. Estou pronta a deixá-la. Agora vi o lado negro da existência. Bebi da taça da injustiça. Percebi a inutilidade de todas as paixões humanas. Compreendi a beleza da morte. Talvez todo este sacrifício fosse necessário. Sabe-se lá a menina mimada que eu seria de outra forma. Agora vi. Agora compreendo.

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1 Comentários:

Blogger zaida disse...

Ver é um privilégio, embora às vezes mais se assemelhe a um martírio. Chama-se karma, sim. Nietzsche dizia que o tempo é um ciclo que se repete. E assim nos parece.

24/4/06 23:03  

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