domingo, 29 de março de 2026

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?) [segunda temporada]


Gostei mais da segunda temporada de "Interview With The Vampire" e vou dizer porquê. Se a primeira temporada parecia outra adaptação do livro ponto por ponto, só que um século mais tarde e com personagens ligeiramente diferentes, na segunda já se percebe que é toda uma adaptação das Vampires Chronicles, incluindo "The Vampire Lestat", "The Vampire Armand", e até livros posteriores como "Merrick" ou "The Queen of the Damned". Assim já se compreende que tenham sido tomadas bastantes liberdades de modo a tornar o fluir da narrativa mais adequado a uma série de televisão, mas questiono algumas escolhas que deturpam e desvirtuam o original.
A começar pela própria natureza dos vampiros. Não consigo aceitar a opção de sexualizar os vampiros como se isto fosse um Young Adult qualquer, quando aquilo que sempre distinguiu os vampiros de Anne Rice foi a sua existência transcendente e "fora da natureza", o que é um aspecto importante e distintivo deste universo vampírico. Igualmente importante é a questão de abdicar do prazer sexual em troca da vida imortal, o que é compensado pelo êxtase superior do sangue, inimaginável para nós humanos. Isto é tão importante que Marius pergunta explicitamente a Armand, antes de o transformar, se está disposto a viver sem o prazer carnal. Não há sexo entre os vampiros, e humanizá-los é banalizá-los. Se calhar é preciso ter lido os livros para compreender a relevância deste ponto no original, mas tenho a certeza de que também funcionaria na série tal como funcionou no filme. Até já ouvi a teoria de que Anne Rice não incluiu homossexualidade explícita para não ser censurada. Balelas. "Entrevista Com o Vampiro" foi publicado em 1976, um livro para adultos, e Anne Rice sempre incluiu o sexo que quis. Aliás, basta ler os livros.
Quanto à adaptação em geral, na segunda temporada algumas coisas são fiéis ao original, outras não, e algumas até me confundiram e tive de ir consultar o enredo dos livros para tirar as dúvidas. Por exemplo, não me lembrava dos diários de Claudia, e com razão, porque só aparecem em "Merrick". Foi uma boa opção inclui-los no contexto da entrevista com Daniel Molloy.
Por outro lado, Louis e Claudia fazem a viagem pela Europa que foi excluída do filme. Depois de atacarem Lestat, Louis e Claudia vão em busca de outros vampiros que lhes ensinem o que Lestat lhes escondeu, e começam precisamente pelas terras da Roménia e arredores, onde há mitos de vampiros. Não me lembro muito bem do que aconteceu no livro porque é quase uma nota de rodapé, mas efectivamente encontraram um tipo de vampiros "imperfeitos" e monstruosos. Isto não foi muito importante no livro, mas na série a viagem acontece durante a Segunda Guerra Mundial, o que fornece logo um pano de fundo bastante mais interessante. 
Quase se pode considerar que a série é uma espécie de história alternativa com os mesmos personagens, ou, em alguns casos, personagens inspirados nos originais.
Por falar nisso...

Lestat
Sam Reid é o melhor Lestat até ao momento. E não é fácil interpretar Lestat, um personagem complexo que tanto seduz como intimida. Tom Cruise conseguiu capturar o aspecto frívolo e narcisista que Louis descrevia, Stuart Townsend fez um bom trabalho como rock star, mas Sam Reid consegue de tal modo encarnar a totalidade do personagem que até arrepia vê-lo no écran. A presença felina de um leão. Encantador, fluido, letal, convencido, poderoso, atormentado, vulnerável, Lestat é tudo isto e mais. Pergunto-me se Sam Reid leu os livros todos ou de que outro modo se preparou, e queria mesmo saber e fazer-lhe a pergunta.
Quanto a Louis, e alguns fãs que me perdoem se preferiam um Louis menos macambúzio, o verdadeiro Louis foi mesmo encarnado por Brad Pitt e contra factos não há argumentos. Nesta segunda temporada também temos o incêndio no Teatro dos Vampiros, mas nada bate a imagem icónica de Brad Pitt entre as chamas.

Louis / Armand / Lestat
Louis e Armand fazem um casal muito fofinho e adorável, mas nunca aconteceu. Depois do Teatro dos Vampiros, Louis e Armand realmente fogem juntos e são companheiros por umas décadas, e acabou. Algumas décadas, em anos de vampiro, é o equivalente a um ano ou dois, se tanto. Se a relação foi mais do que amizade, e é tão irrelevante que nem me lembro, não teve qualquer importância. Louis e Armand estavam ambos fragilizados e a precisar de um ombro amigo. Não me lembro de Armand alguma vez ter expressado paixão assolapada por Louis, e Louis sempre esteve noutra (noutro) e nunca deixou de estar. Nos últimos livros, Louis está efectivamente a viver na casa de Armand em Nova Iorque, mas com isto quero dizer "abancar" e não "viver juntos", aliás, como outros vampiros da intimidade de Armand que também lá moram por ser mais prático. Lestat tinha regressado a New Orleans, e, se bem me lembro, Louis não queria voltar a viver lá, precisamente por causa das memórias de Claudia, embora estivessem ambos de boas relações.
Por falar em Lestat, se alguma vez Lestat e Armand foram amantes teria sido "uma por piedade" da parte de Lestat. Este é um dos conflitos mais relevantes das Vampires Chronicles e central à motivação que levou aos acontecimentos de "Entrevista". Armand conheceu Lestat no século XVIII e ficou muito impressionado, talvez até apaixonado, ou pelo menos apaixonado pelo ideal de liberdade que Lestat representava, mas Lestat não correspondeu. Armand, por despeito, e talvez ciúme de Louis e Claudia, faz o que faz para atingir Lestat. Por seu lado, Lestat sempre escondeu a existência dos vampiros europeus de Louis e Claudia precisamente para os proteger. Só sabemos isto nos livros posteriores a "Entrevista".
Nos livros, Lestat chama a Armand "a harpia", o que é bastante revelador. A série mostra um pouco desta faceta "harpia" de um dos personagens mais perigosos e maquiavélicos das Vampires Chronicles, mas nada que se compare aos livros. Até acho o Armand da série bastante simpático, alguém que age por amor e com quem é fácil empatizar.
Aqui, Armand é na verdade Arun, de Nova Deli (ele diz Deli e não conheço outra), mas nos livros Armand é Andrei, de Kiev. Isto pode não ser relevante se a série preferir não abordar os traumas religiosos de Armand como devoto da Igreja Ortodoxa. Aliás, foi esta cultura cristã que o levou a defender as ideias medievais de que o coven Chrildren of Darkness, o seu clã antes do Teatro dos Vampiros, tinha por missão divina servir a Deus praticando o caminho do Diabo.
De certa forma, compreendo que fazer de Louis e Armand um casal que só se desfaz no fim da entrevista com Molloy, levando Louis a regressar a Lestat, é uma opção narrativa como qualquer outra que funcione num contexto de série. Nos livros, tudo isto demorou séculos. Mas o que vemos na série não é a história original, e, em certos pontos importantes, na minha opinião, afasta-se demasiado dela e perde muito ao fazer isso. Ninguém vai ficar a conhecer a história e a compreender os livros a partir desta série, nem lá perto.

Teatro dos Vampiros e Claudia
E por falar em Teatro dos Vampiros, tinha muitas dúvidas de que isto resultasse num pós-guerra do século XX, mas a série conseguiu mostrar um teatro entre o burlesco e o avant-garde, e o facto é que fiquei convencida. O actor Ben Daniels (a quem eu já conhecia de "O Exorcista", série) faz um papelão como Santiago e vende aquilo tudo.
Já quanto a Claudia, continuo não convencida. Tal como referi na critica à primeira temporada, não faz sentido que o argumento de Armand e dos outros vampiros seja "demasiado nova para existir por conta própria". Aqui Claudia tem 14 anos e o próprio Armand foi transformado algures antes dos 17, motivo pelo qual lhe chamam "o querubim eterno" (e motivo pelo qual Antonio Banderas foi um erro de casting). O argumento não colhe. Podiam ter explorado melhor o conflito precedente que expus acima, mas aqui a série andou completamente a patinar. Afinal, Armand queria ficar com Louis ou estava-se nas tintas se ele fosse condenado à morte? Porque se queria ficar com Louis, Armand, a harpia, o mestre manipulador, teria traído o coven todo antes que o coven pensasse em traí-lo. Não se manipula Armand; Armand é que manipula tudo e todos. A série não está a fazer justiça ao personagem.

Akasha
E aqui está outro mau exemplo de manobrar a história para a "comprimir". A certa altura, na série, Armand e Louis vão os dois matar Lestat. Isto nunca aconteceu. Lestat diz-lhes que não lhe podem tocar porque ele tem o sangue de Akasha. Isto muito menos. Eles sabem que ele tem o sangue de Akasha. Estavam lá os três e quase morreram todos. E Akasha nunca mais é mencionada nem explicada, ainda por cima, a Rainha dos Malditos que tem dois livros, um filme, uma das melhores bandas sonoras jamais realizadas, e milhares de pessoas pelo mundo inteiro a porem o seu nome aos animais de estimação. E Akasha é assim tão vilmente descartada numa cena que nunca aconteceu nem tinha razão para acontecer. Mais um momento em que a série andou a patinar.
Se Lestat já tinha o sangue de Akasha na altura, isso significa que ela já tinha despertado, ou talvez Lestat tivesse sido levado ao Santuário por alguém como Marius? Isto é importante porque ter conhecimento acerca de Akasha (que Lestat não tinha na altura) altera a dinâmica das Vampire Chronicles. Será que ainda vamos ver Akasha despertar (como no filme), ou será que vão transformá-la numa personagem completamente diferente para nos trocar as voltas? E as gémeas? Confesso, neste caso gostava que as gémeas tivessem uma história diferente porque nunca fui grande fã delas nos livros. Mas aquela história no Egipto, isso é para manter! Duvido que mantenham porque é muito chocante. E já agora também podiam dar mais profundidade a Akasha. Sempre achei que aquela motivação de vilã de "matar os homens todos menos Lestat e ser adorada como rainha do Céu" era muito fraquinha. Aliás, "A Rainha dos Malditos", apesar de ter tanta acção, é um dos livros mais fraquinhos da saga. Ora aqui está um caso em que a série me podia agradar e surpreender se desse mais tridimensionalidade às personagens.

Anne Rice só houve uma
Apesar de tudo, não estou completamente pessimista para a terceira temporada. A série teve boas ideias, como o hobbie de fotografia de Louis (se ele desistiria tão facilmente é que já não acredito) ou a presença de um agente da Talamasca. Eu não esperava um agente da Talamasca, mas quando Daniel Molloy pergunta "a que agência é que você pertence, é demasiado pálido para ser Mossad", cheguei logo lá. Isto é ser uma ultra-fã ou, como dizem os miúdos agora, uma nerd. Este agente da Talamasca é Raglan James, e não vou dizer mais nada por causa dos spoilers. Eu queria ver isto, queria mesmo ver isto, embora eu própria concorde que o livro em causa não pode ser adaptado sem modificações.
Se a segunda temporada foi melhor, em abrangência e tom, será que a terceira acerta? Também não estou assim tão optimista. As histórias de Anne Rice são o chamado "character driven", histórias conduzidas pela personalidade da personagem e não ao contrário, e quanto mais alteram as personagens mais riscos correm de criar inconsistências com o original se não partirem para uma história completamente alternativa (como aconteceu no caso de Claudia, que ficou mal vendido). Criar uma boa história alternativa com estas personagens não é impossível, mas não é para toda a gente. Façam o fan fic que quiserem, mas façam-no bem, e sim, esta série é completamente fan fic. Como disse aqui de outra série, ou vai ser muito bom ou vai ser muito mau. A culpa não vai ser do original.
Por último, regresso a Santiago para sublinhar uma coisa que a série fez bem. Para quem nunca leu os livros, reparem em como Santiago e Armand oferecem a morte como uma tentação sedutora. A vítima deixa de o ser e entrega-se voluntariamente à ideia de que uma morte consciente, uma morte suave e sem dor, é melhor do que uma vida de sofrimento. Os vampiros não fazem isto com hipnose mas com factos e filosofia. E naquele momento o visado rende-se e deseja a morte, e foi esta perspectiva sombria, mas lúcida, que fascinou milhões de fãs das Vampire Chronicles. Não é para toda a gente, mas a série conseguiu transmitir isto.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, mas eu vi duas

PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, Anne Rice, Vampire Chronicles, Interview With The Vampire, the Vampire Lestat, The Vampire Armand, etc

 

domingo, 22 de março de 2026

Ouija / Ouija, o Jogo dos Espíritos (2014)

Uma rapariga suicida-se, aparentemente, depois de usar uma ouija board, mas a sua melhor amiga duvida que tenha sido suicídio. O grupo de amigos reúne-se com a mesma ouija board numa séance para tentar contactá-la, mas o que responde é outra coisa.
Como é que esta premissa foi tão mal aproveitada? Vou já directamente ao ponto. Este filme é chato. Isto nem é um spoiler porque se descobre logo nos primeiros 15 minutos: a rapariga não se suicidou, foi assassinada por um fantasma. A partir daqui, o fantasma começa a matar os amigos um por um e só resta saber quem é que se safa no fim.
É por isso que é chato. Este é o enredo de milhões de filmes mata-adolescentes, só que com um fantasma. O início até prometia. Tanta coisa que se podia fazer com um suicídio causado pelo contacto com o Além. Mas não, teve de ser o mesmo de sempre.
"Ouija" estava a contar muito com a actriz Lin Shaye, a médium de "Insidious", mas não há aqui nada que salve o déjà-vu do enredo. Eu estava com dificuldade em não adormecer.

11 em 20

 

domingo, 15 de março de 2026

The Leftovers (2014 - 2017)

2% da população mundial desaparece sem deixar rasto: novos, velhos, crianças. Algumas famílias não perdem ninguém, algumas pessoas perdem a família toda. Embora a sinopse nos tente com este mistério, a série é principalmente um drama sobre os sobreviventes.
Ouvi falar de "The Leftovers" em comentários muito elogiosos, mas comecei a perceber que nunca ia ter respostas nenhumas aí pelo terceiro ou quarto episódio, especialmente quando reparei no nome Damon Lindelof nos créditos (criador da série e também de "Lost"). Não costumo deixar histórias a meio mas desta vez ponderei seriamente parar de ver, o que já diz muito. Por descargo de consciência vi a primeira temporada até ao fim. Depois fui ler em mais críticas que efectivamente não há respostas nas três temporadas da série. Então de onde é que vêm os elogios? Bem, para quem quiser um bom drama sobre fé e luto, com personagens da "vida real", complexos e falíveis, a série funciona. Para quem, como eu, foi atraído pelo mistério (e nem vou falar da desonestidade de prometer um mistério destes sem a menor intenção de o resolver), vai ser uma decepção.
Não tenho nada contra um bom drama, ou até um bom drama num qualquer ambiente não realista que sirva apenas de pano de fundo, mas o que me chateou em "The Leftovers" (assim que percebi do que a casa gastava) até nem foi isso. 
O drama centra-se em torno de uma família que não tem nada de tão interessante que o mereça excepto precisamente o facto de estar a reagir ao fenómeno do Desaparecimento. A mãe tornou-se niilista e juntou-se ao culto do "Senhor, Dá-me Um Cancro Depressa", uma seita que se veste de branco, faz voto de silêncio e fuma cigarros atrás de cigarros, os Remanescentes Culpados, cujo intuito é não deixar que os Desaparecidos sejam esquecidos.
Aliás, não é o único culto. Por alguma razão, as pessoas estão convencidas de que o Desaparecimento foi o Rapture (uma crença evangélica do Arrebatamento dos justos, em vida, para o Céu), o que também me deixou um pouco perplexa. Ninguém pensou em abdução colectiva por extraterrestres? A certa altura uma personagem (de ainda outro culto) levanta a hipótese de armamento secreto, mas só a deixam dizer uma frase. Neste estado de coisas, um padre trava uma batalha solitária para provar que não foi o Rapture porque algumas das pessoas "levadas" não eram boas. E ainda existe outro culto em torno de um homem que promete curar a dor em troco de compensação monetária.
Isto já são muitos cultos em menos de seis episódios e eu considerei que era americanice a mais para o meu gosto, mas achei piada aos suicidas "passivos" da seita do tabaco. Como fumadora, até a mim fez impressão a quantidade de cigarros que esta gente fumava. Felizmente, muitos dos cigarros estavam apagados e os actores só fingiam que fumavam. Confesso que gostei de Ann Dowd, a Tia Lydia de "The Handmaid's Tale", como líder do culto. Ann Dowd é uma grande actriz e tem jeito para fanática. Se calhar não tinha chegado ao fim da temporada se não fossem os maluquinhos dos cigarros.
Mas o que me chateou mesmo foi a questão dos cães. Com o desaparecimento de alguns donos, os cães abandonados começaram a formar matilhas selvagens. Um homem anda a matá-los a tiro, justificando que "já não são os nossos cães". Ora, isto remete-nos para o excelente princípio de "The Thing", e deixa no ar a hipótese sinistra de que algo de maléfico está a possuir os cães, muito possivelmente relacionado com o Desaparecimento. Mas afinal não. As matilhas caçam nos bosques, nem atacam as pessoas, um dos cães até volta a ser doméstico no fim, e o gajo andava só a praticar tiro ao alvo por desporto. Como sei que a maioria das pessoas não gosta de ver matar cães, e que não havia razão nenhuma para os matar, isto foi só para o efeito de choque e, mais uma vez, a promessa de outro mistério. Como não há mistério nenhum, não estou para levar com crueldade gratuita.
Teria sido melhor e mais honesto, na minha opinião, fazerem um drama sem mistérios, sobrenaturais ou outros, sobre uma família em crise, uma mãe que perdeu o marido e os filhos, um padre em cruzada, um curandeiro, um gajo que mata cães por desporto, e os maluquinhos dos cigarros. Até ficava uma coisa interessante tipo "Twin Peaks" ou "Fargo". Sendo assim, tenho melhor para ver.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: não se perde nada se não se vir, mas muita gente tem a opinião contrária

PARA QUEM GOSTA DE: Lost, mistério, drama, ficção científica (?), sobrenatural (?)


quinta-feira, 12 de março de 2026

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domingo, 8 de março de 2026

The Northman / O Homem do Norte (2022)


Amleth, príncipe viking, jura vingar-se do tio que matou o rei e usurpou o trono.
Não quero acreditar que este filme seja de 2022. Este filme lembrou-me "Conan, o Bárbaro" de 1982 (e não sou a única), e isto não é um elogio. Até perdoava se o filme tivesse sido feito algures até ao ano 2000, mas depois de "Vikings" e "The Last Kingdom" como é que alguém pode achar que "The Northman" tenha alguma relevância? Será que o realizador alguma vez viu as séries? Será que viu os filmes de vikings que têm sido feitos entretanto?
"The Northman" não foi feito para ser realista, compreendo isso. Diria mesmo que o realizador viu "Conan, o Bárbaro" quando era pequenino e quis fazer a sua versão. Há aqui muita Fantasia e magia. O herói, Amleth, ouve a profecia de uma vidente e tem de encontrar uma espada "mágica" para matar o tio, e tem de fazê-lo em determinado lugar a determinada hora. Porquê? Porque sim. O tio não é uma criatura sobrenatural e Amleth tem muitas oportunidades de o matar... mas a profecia! Isto é estúpido, mas se fosse só um filme de Fantasia eu deixava passar. Se fosse só um filme de Fantasia, isto era para miúdos. Mas o realizador também quis utilizar rituais e costumes sangrentos dos vikings, pseudo-realistas, pensando que nos chocava, como se nunca tivéssemos visto a porno-tortura de "Vikings".
É por isso que pergunto, qual é a relevância deste filme em 2022, quando já vimos muito melhor Fantasia e muito melhores reconstituições históricas? Até "The 13th Warrior" ("O Último Viking"), com Antonio Banderas, de 1999, é um filme mais interessante e mais relevante. Não percebo um filme destes em 2022.
No meio da patetice, há uns poucos destaques que não salvam o filme mas que o tornam mais suportável. Nicole Kidman faz o melhor que pode do papel que lhe é dado. Alexander Skarsgård (o Eric de "True Blood") provou-me finalmente que é um grande actor numa cena que podia estar num filme de Ingmar Bergman, mas é mesmo lá para o fim. Mal desperdiçado actor e mal desperdiçada cena. Mas também é uma cena que parece ter saído de outro filme e escrita para um personagem que fez uma jornada de herói e que chegou ao seu limite. O pobre Alexander Skarsgård não tem tanta sorte, passa o filme todo no mesmo registo de vingança, sem a menor evolução psicológica.
Björk faz de vidente, mas não a reconheci. Com aquela máscara na cara, nem podia reconhecê-la. Fica aqui a dica para os fãs.
"The Northman" é um filme de 2022 que tenta ser "Conan, o Bárbaro" mas que consegue ter ainda menos interesse cinematográfico, uma mistura falhada de Fantasia e pseudo-realismo, uma coisa que só pode agradar a quem nunca viu os filmes e séries de vikings da última década. Volta, Michael Hirst, estás perdoado.
Só uma última nota de que me lembrei a posteriori. Alexander Skarsgård é irmão de Gustaf Skarsgård (o Floki de "Vikings") e se calhar foi ao papel do irmão que Alexander Skarsgård foi buscar inspiração. Na verdade, aquela cena brutal fazia sentido em "Vikings". Pelo menos sabemos que alguém viu a série antes de entrar neste filme.

11 em 20

 

domingo, 1 de março de 2026

El Cadáver de Anna Fritz / O Cadáver de Anna Fritz (2015)


Anna Fritz, uma actriz jovem e bela, é encontrada morta. Um dos funcionários da morgue convida os amigos para virem espreitar o corpo da celebridade. A partir daqui as coisas vão de mal a pior.
Quando li a sinopse pareceu-me talvez um drama, talvez terror. Este filme espanhol talvez seja as duas coisas e também um thriller, mas o melhor é ver sem spoilers e sem ler nada sobre o enredo, por isso vou calar-me.
Quase dava 20 em 20, mas alguns pormenores relacionados com o funcionamento da morgue retiram alguma credibilidade e precisavam de ser mais bem "vendidos". Também não vou explicar por causa dos spoilers, mas posso garantir que só pensei nisto depois. Durante o filme, fiquei petrificada do princípio ao fim.

17 em 20

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ena. La reina Victoria Eugenia / Ena, A Rainha Vitória Eugénia (2024 - 2025)


Primeiro que tudo, o título não significa "Ena! A rainha Vitória Eugénia" mas antes "Ena, a rainha Vitória Eugénia". (Sim, eu li "ena!" e fiquei uns segundos a pensar o que é que ela teria feito para merecer o "ena"). Ena era a alcunha da rainha espanhola Vitória Eugénia, neta da rainha Vitória de Inglaterra, avó de Juan Carlos e bisavó do presente rei Filipe VI. Vitória Eugénia foi a consorte do último rei de Espanha antes do interregno, Afonso XIII, exilado em 1931. A acção da série centra-se sobretudo desde o início do século XX até ao pós-Segunda Guerra Mundial.
Confesso que conheço muito mal o período histórico português entre a instauração da República e o Estado Novo, mas do espanhol não conhecia mesmo nada. Por exemplo, nem me passava pela cabeça que Espanha não tivesse participado na Primeira Guerra Mundial, onde nós participámos. Esta série espanhola não explica os factos históricos em profundidade (é mais dirigida a quem já os conhece) mas fiquei a perceber muita coisa em que nunca tinha pensado.
Tive muita pena de Vitória Eugénia. Primeiro, teve de casar com um espanhol. Segundo, teve de viver em Espanha. Terceiro, assim que se casou descobriu que quem mandava no rei era a mãe do rei. Quarto, o marido era um mulherengo inveterado. Mas tudo isto era muito comum nas monarquias à antiga. Rainhas como Vitória Eugénia tinham um único propósito: gerar herdeiros. É claro que a série tentou romantizar a protagonista, mas eu não acredito que uma descendente da rainha Vitória, por jovem e ingénua que fosse, não soubesse muito bem o que esperar do casamento.
Vitória Eugénia, e isso é que eu acho mais fascinante, foi uma mulher do século XIX que viveu todas as revoluções do século XX. Da luz das velas às cidades iluminadas, do coche ao automóvel, dos canhões à bomba atómica, do espartilho ao biquíni. Vitória Eugénia viu o cinema, a televisão, e, embora já não tenha visto o homem na Lua, também assistiu à conquista do espaço. Não consigo imaginar outro período histórico com inovações científicas tão avassaladoras como estas devem ter parecido a quem nasceu no final do século XIX e viveu o século XX. (Como alguém que também mudou de século, e já vamos em 2026, não encontro nada no século XXI que se aproxime desta revolução vertiginosa, tirando a internet ao acesso de todos. Continuamos em evolução, mas o século passado foi uma explosão.) Estes choques tecnológicos não podiam deixar de influenciar também as mentalidades. Vitória Eugénia foi educada à vitoriana e preparada para uma monarquia à antiga, mas uma monarquia à antiga já não tinha lugar na modernidade e a própria Vitória Eugénia queria ser mais do que um enfeite e uma parideira, e efectivamente foi. Dedicou-se sobretudo a causas humanitárias como os hospitais para os pobres, a Cruz Vermelha e os prisioneiros de guerra. De muitas formas, foi já o modelo de rainha próxima e empática que as suas sucessoras europeias viriam a adoptar.
A corrente republicana ditou o exílio de Afonso XIII, e a monarquia só regressou a Espanha em 1975. Como disse, a série não se detém em profundidade a analisar os factos históricos. Afonso XIII, e o seu herdeiro Juan (pai de Juan Carlos), continuaram a escrever a Franco na tentativa de restabelecer a monarquia. Da perspectiva da série, não se consegue perceber se o fizeram em cumplicidade com o regime ou apesar dele. Na verdade, a série aborda o assunto com talvez demasiada leveza, quase como se Afonso XIII e Juan quisessem voltar ao trono só porque sempre foi assim e sempre assim será, haja ditadura ou haja democracia. A certa altura, um personagem até refere que "a Espanha é monárquica" na sua essência. Bem, o facto é que resultou e que a monarquia ainda lá está.
Por outro lado, compreendo que a prioridade de "Ena, A Rainha Vitória Eugénia" tenha sido dramatizar a mulher, retratá-la como esposa, mãe e avó, e não dar uma lição de História. Mesmo assim, aprendi muitas coisas que não sabia.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Victoria, História, drama, séries de época


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Us / Nós (2019)

Duas famílias estão de férias na praia quando se tornam alvo de ataque por seres misteriosos e assassinos que são iguais a eles.
Spoiler necessário: o filme nunca explica em detalhe, mas estes seres foram criados num laboratório subterrâneo como réplicas (vou chamar-lhes clones) das pessoas originais, numa experiência (tudo indica governamental) para tentar controlar a mente dos cidadãos. Falhada a experiência, os clones foram abandonados à sua sorte, e finalmente subiram à superfície para se vingarem dos originais.
O filme é arrepiante. Estes clones são em tudo idênticos aos originais mas são defeituosos: na fala, nos movimentos, na falta de consciência moral. Na verdade, parecem mais uns "zombies vivos" do que outra coisa. Por alguma razão, estão mentalmente ligados aos originais no exterior e a única forma de se "desligarem" é matando as pessoas de quem são réplicas.
"Us" tem sido agraciado com elogios retumbantes de originalidade que, no meu entender, não merece. Se isto é uma metáfora dos excluídos contra os privilegiados, George Romero já o fez antes, com zombies. A sensação com que fiquei deste filme é de que lhe falta qualquer coisa, uma base minimamente credível. Por exemplo, quando a experiência é cancelada, e sendo uma experiência ilegal e bastante sinistra, porque é que os investigadores deixaram os clones vivos? Também nunca é explicado quantos clones existem, se são apenas milhares naquela cidade costeira ou milhões deles para toda a população americana. Desta forma, não sabemos o que acontece quando o filme acaba: os clones tomaram conta de tudo ou não?
Para quem não fizer perguntas difíceis, "Us" é um slasher quase igual aos outros, mas com clones.

12 em 20

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Servant (2019 - 2023)


[contém alguns spoilers]

"Servant" é uma série excepcional que combina terror, thriller psicológico, mistério, comentário social e humor. Porque o enredo vive do suspense não vou poder aprofundá-lo como merece, mas aconselho a toda a gente que gosta do género que veja a série sem spoilers absolutamente nenhuns para maior impacto.

Spoilers
Dorothy e Sean Turner são um casal de classe alta que perdeu um bebé de poucos meses. Dorothy ficou em tal depressão que Sean e o irmão dela, Julian, por sugestão de uma terapeuta, substituem o bebé por um boneco Reborn (um boneco bastante realista). Só que Dorothy não recupera do choque e, em estado de negação, começa mesmo a acreditar que o boneco é o seu filho. Sean e Julian não querem contrariá-la e agem como se o boneco fosse um bebé de verdade. Isto cria um ambiente de casa de doidos, especialmente quando Dorothy, sem que Sean se oponha, contrata uma ama de 18 anos. Leanne, a ama, é daquelas raparigas religiosas de província que não conhecem nada do mundo e cheiram a sabão azul e branco porque até o sabonete seria considerado demasiada vaidade (ou assim imagino que ela cheire). Mas quando Leanne chega, o boneco transforma-se num bebé a sério. Mais do que isso, quando ela está presente o bebé existe, quando ela se afasta o bebé volta a ser um boneco.
Dorothy não se apercebe disto porque sempre acreditou que o boneco fosse o bebé, mas Sean e Julian partem do princípio de que Leanne trouxe uma criança com ela, possivelmente sua. Quando vêm a saber que Leanne cresceu num culto, a Igreja dos Santos Menores, e um tio misterioso vem à procura dela, ainda mais se convencem de que isto tudo é um esquema para fazer chantagem e extorquir dinheiro. O pior é quando Sean, primeiro, e Julian, depois, se apegam também ao novo bebé e já não o querem deixar ir embora.
Mas não é um esquema. Leanne é aquilo a que eu chamo uma bruxa genuína. Não falo de senhoras que lêem o Tarot, percebem de astrologia e têm um gato. Falo de uma bruxa de verdade com poderes de verdade, como se percebe depressa em poucos episódios. O culto é cristão, mas os membros do culto têm muito boas razões para serem crentes. Gostei muito deste "cruzamento" entre os poderes sobrenaturais que geralmente são associados com bruxaria e o zelo cristão de um outro tipo de sobrenaturalidade que não vou revelar.
Agora o comentário social. Dorothy, jornalista televisiva, Sean, Chef de renome, e Julian, com dinheiro de família, vivem num mundo de luxo e privilégio em que tudo pode ser comprado. Neste mundo artificialmente perfeito, trocar um bebé por um boneco parece-lhes aceitável para que a perda não lhes afecte o conforto absoluto. Lidar com a dor não é uma opção. Até pode parecer que os Turner nem sequer estão de luto, que são tão superficiais que vivem numa bolha de ilusão, mas é mais do que isso. Eles não vivem apenas numa ilusão, eles transformaram a ilusão em realidade e a realidade é que se tornou uma ilusão, como um pesadelo que se dissipa à luz do dia. Se existe drama, todas as personagens fingem que não o vivem, e é isto que mais nos choca em "Servant". Será Leanne uma força do bem que os vem obrigar a ser humanos, ou uma força do mal que os vem castigar?
"Servant" é uma produção de M. Night Shyamalan, mas não foi escrito por ele. M. Night Shyamalan tem sido um realizador com grandes sucessos e grandes flops, mas voltou a cair nas minhas boas graças com "The Visit" (20 em 20), que me deixou de cabelos em pé de tão arrepiada. Mesmo assim, não quis pronunciar-me antes de ver a série toda e posso assegurar: "Servant" não desilude.
Agora o humor. No meio desta situação de pesadelo, Julian e Sean, principalmente, protagonizam momentos tão absurdos que quase nos fazem rir. Quase. Julian tem sempre disposição para provar os vinhos vintage na colecção de Sean. Sean é um Chef tão meticuloso que passa o dia a cozinhar e até o pequeno-almoço é gourmet. Na segunda temporada, por exemplo, quando julgam que o bebé foi raptado, decidem distribuir pizzas para que os suspeitos lhes abram a porta. É tudo a fingir, mas nem mesmo assim Sean consegue entregar uma pizza menos do que perfeita. Aliás, aviso já, ver Sean cozinhar abre o apetite. Excepto quando nos repugna, como daquela vez em que faz doce de grilo. Mas que é gourmet, sim é.
"Servant" também é uma série gourmet, daquelas que só se vêem raramente na vida. 
Certas semelhanças recordam-me "Shining Vale", série posterior, mas "Shining Vale" era claramente mais voltado para a comédia.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: terror, thriller, mistério, sobrenatural, Shining Vale


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Fim dos blogs no Sapo


É com tristeza que tomo conhecimento do fim do alojamento dos blogs no Sapo. Foi lá que comecei, em 2003, porque na altura era tudo muito novo (até a própria broadband na internet era uma coisa recente) e o Sapo fazia menos confusão do que o Blogger. Todavia, não fiquei muito tempo. Devido às frequentes sucessões de dias e dias em que a plataforma estava pura e simplesmente em baixo, e aos bugs recorrentes que ninguém se dava ao trabalho de resolver, mudei-me logo para o Blogger em 2004.
Deixo aqui os motivos invocados pelo Sapo, antes que também este texto seja apagado para todo o sempre:

Porque vai ser encerrado o SAPO Blogs?
Tal como o lema que adotámos, acreditamos que os blogs só fazem sentido "com gente dentro". Com cada vez menos pessoas a virarem-se para os blogs como forma de expressão, a blogosfera foi aos poucos cedendo terreno para as redes sociais, que se tornaram o principal ponto de encontro virtual de ideias e pessoas, com impacto em plataformas como a nossa.
Temos orgulho no lugar que o SAPO Blogs ocupa na história da blogosfera portuguesa e agradecemos a todos os que, em algum ponto destes 23 anos, utilizaram o nosso serviço e contribuíram para o seu desenvolvimento.


Mas o Sapo não vai apenas encerrar (ou "descontinuar", esse neologismo tão fofinho), vai apagar os blogs às pessoas.
Se é verdade que a esmagadora maioria dos bloggers iniciais se mudou para as redes, por outro lado aqueles que ficaram mereciam mais respeito. O que também suscita a questão: se cada vez menos gente escreve, custava-lhes assim tanto deixar os conteúdos online, ou pelo menos dar a opção de que os utilizadores pagassem o alojamento?
É curioso, mas não me surpreende. Algum tempo depois de parar de escrever no Sapo, recebi um email a avisar que o meu blog ia ser apagado por inactividade. Como não queria mesmo ficar lá, deixei que apagassem. Verifico que fiz bem em permitir que apagassem na altura, ou seria apagada AGORA, mas esta experiência demonstrou-me desde logo o pouco respeito do Sapo pelos conteúdos que eram lá publicados.
E também me parece que esta desculpa de que "as pessoas foram para as redes" é conversa da tanga. O conteúdo das redes é para consumo de 30 segundos no máximo, textos curtos, imagens e reels. O conteúdo dos blogs é para quem gosta de artigos e opiniões fundamentados, para ler com tempo. São duas coisas completamente diferentes e até podem ser complementares. (Pessoalmente, até fiquei agradecida quando os trolls que andavam sempre aqui nas caixas de comentários se mudaram todos para as redes.) Os conteúdos produzidos nos blogs, por bloggers dedicados que gostam mesmo do que fazem, diminuíram em quantidade mas aumentaram grandemente em qualidade. Mais uma razão para serem respeitados, se o Sapo soubesse dar valor a quem permaneceu por lá.
Não estou a dizer que o Blogger é perfeito. Nota-se que esta plataforma também não está propriamente a investir em desenvolver novas funcionalidades, e as poucas que introduziu muito recentemente não têm qualquer aplicação útil para mim, mas pelo menos existe e é gratuita. Por enquanto.
Desde a minha experiência com o Sapo, ou talvez ainda antes, comecei a manter um back up manual e regular do blog, não me fiando nos ficheiros de exportação automática. Até cheguei a experimentá-los com blogs de teste e não funcionaram.
Perder 20 anos de posts, e 20 anos é uma vida, custa e dói. Por vezes passa-me pela cabeça que o Blogger pode acabar de um momento para o outro, e só o pensamento magoa. Tenho o back up, sim, mas voltar a publicar 20 anos de blog noutra plataforma é inimaginável.

Deixo aqui a minha solidariedade para com todos os bloggers afectados e os meus votos de boa sorte e de que não desistam por causa disto.
Eu também por cá vou andando, enquanto Blogger quiser, amém. 


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Indochine / Indochina (1992)

Conheço este filme desde que saiu mas penso que nunca tinha visto.
"Indochine" é a história da dona de uma plantação de borracha nos últimos anos da ocupação francesa da Indochina, e também é uma história de amor. Éliane adoptou a pequena Camille, nativa de família rica, a quem acaba por perder para uma paixão condenada.
Segundo a sua cultura, Camille está prometida em casamento desde criança, mas Éliane não pretende obrigá-la à tradição. Uma mulher da família de Camille diz mais ou menos isto, quase de forma premonitória: "Nunca vamos perceber os franceses com os seus amores cheios de paixão, loucura, emoção. Aqui casam-se os jovens e acabou-se." Educada como francesa, Camille atira-se de cabeça para um amor de perdição com um oficial francês. Numa situação de conflito entre os comunistas e os colonos, Camille comete um homicídio e torna-se foragida, mas Éliane nunca deixa de a procurar. É esta a história de amor. É claro que "Indochine" é toda uma metáfora sobre a colonização francesa.
Gostei da maneira como o filme nos mostra as atrocidades do conflito de forma distante, como pano de fundo, sem cair na tentação fácil de chocar. O enredo centra-se sempre nos personagens e, admito, o final surpreendeu-me.
"Indochine" é um grande filme, talvez um bocadinho datado, que recomendo vivamente.

17 em 20

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

The Handmaid's Tale (2017 - 2025)

[contém alguns spoilers]

Blessed be the fruit.
May the Lord open.


Abençoados sejam os frutos da série e que o Senhor abra os olhos de quem quer mantê-los fechados. Não queria dizer isto antes de ver o fim, mas agora estou decididamente convencida de que "The Handmaid's Tale" é uma das melhores séries de todos os tempos e de que um dia será assim reconhecida.
O poder das imagens de "The Handmaid's Tale" já serve para se fazerem protestos silenciosos por mulheres vestidas como Servas, sem que uma palavra precise de ser pronunciada ou mostrada em cartazes. Não é qualquer produto de Hollywood que consegue fazer isto, e, sem desprimor do livro, acredito que o impacto visual da série tenha contribuído inequivocamente para despoletar estas manifestações.
Política e realidade à parte, nem tudo é narrativamente perfeito nas seis temporadas de "The Handmaid's Tale", mas é quase, e este quase é muito importante. Já a nível da cinematografia, da cor, dos enquadramentos, do world building, das interpretações, da criação de um ambiente tão desconhecido e opressivo quanto, ao mesmo tempo, familiar e fascinante, não tenho nada a apontar. Depois de assistirmos à primeira temporada somos imediatamente transportados para lá só de vermos as cambiantes de cor que compõem as cenas, tal como em Gilead o código de cores define quem é quem.
Nesta nota, é engraçado como eles tiveram de filmar durante a pandemia e usaram as máscaras faciais como elemento ainda mais sinistro. "The Walking Dead" também fez isto, mas as polícias de Gilead aparecerem de repente de caras tapadas, como os verdadeiros algozes que são, e as Servas de rosto coberto como símbolo da sua opressão e falta de voz, teve um efeito mais aterrador.
De todas as qualidades da série, porém, talvez uma das mais significativas sejam mesmo as interpretações. Alguns actores tentaram fazer-se o mais repugnantes possível, mesmo sabendo que nunca vamos conseguir olhar novamente para a cara deles sem nos lembrarmos do que foram em "The Handmaid's Tale". Um grande aplauso para eles, principalmente os mais repulsivos.
Depois da quinta temporada, efectivamente a mais importante da série, o final traz-nos uma conclusão sólida, bem construída e merecida. Era minha intenção rever desde o início antes de ver o fim, mas, confesso, não fui capaz. Chateei-me aqui com pessoas que desistiram de ver a série por ser "muito violenta", mas eu vi tudo e li o livro, e não tive coragem de assistir novamente às partes mais perturbadoras, especialmente o ritual badalhoco da Cerimónia. Até para mim, que não gosto de enfiar a cabeça na areia, foi demais. "The Handmaid's Tale" não é um visionamento fácil, mas isto não é entretenimento. É distopia pura e dura, como "1984" ou "Fahrenheit 451", e é exactamente por isso que deve ser visto, para que nunca venha a concretizar-se devido a pessoas que no futuro fechem os olhos à realidade por terem sido demasiado flores de estufa para sequer ponderarem a ficção. 
Não queria estar aqui com spoilers, mas depois de seis temporadas tenho alguns comentários finais.

June
Com todo o respeito pelo trauma da personagem, June tornou-se tão insuportável, manipuladora, egoísta e irresponsável na sua obsessão cega de destruir Gilead sem olhar aos meios, que até a sua melhor amiga, Moira, e o seu marido, Luke, desistem de a aturar e ameaçam virar-lhe as costas. Gostei disto, porque de facto June estava prestes a desprezar o que havia de mais valioso na sua vida em prol de uma luta que poderia nunca dar frutos e que nunca deveria sacrificar os que estão e são queridos por causa dos que partiram e já não regressam. Se Moira e Luke tivessem continuado a ser complacentes, se não tivessem tomado uma posição, June nunca abriria os olhos para o que mais se arriscava a perder para além do que já tinha perdido.
Pode-se argumentar que os grandes líderes têm de ser duros e implacáveis como June, mas eu apreciei, depois de tudo o que ela passou, que a tivessem chamado à razão antes que toda a humanidade se esvaísse.
Há uma cena na quinta temporada em que Mark Tuello, diplomata americano, tenta explicar a June que o combate mais importante é pela democracia, ao que June responde "nada disso me interessa sem a minha filha". Nessa altura, Tuello estava a tentar convencer June a ajudar a Resistência, o que ela não queria fazer para não pôr em risco a possibilidade de recuperar a filha, Hannah, por afrontar Gilead. Gostei que a personagem tenha finalmente encontrado o equilíbrio entre o possível e o impossível, entre a combatividade e a aceitação, entre a revolta e a paz de espírito.

Serena Joy e Comandante Lawrence
Serena Joy é provavelmente a personagem mais complexa de "The Handmaid's Tale". Se o Comandante Lawrence é apelidado de o "arquitecto de Gilead", Serena foi uma das suas ideólogas, se não mesmo a "mãe de Gilead". Menosprezada após a morte do marido, Serena passa por uma experiência de quase-Serva que lhe abre os olhos, mas Serena não é apenas uma crente, é uma fundadora, e acaba por regressar a Gilead para tentar mudar o regime que fundou. Nisto entra o papel do Comandante Lawrence, igualmente desgastado, que quer refundar Gilead em New Bethlehem, um empreendimento com os valores de Gilead mas sem a violência e os horrores do original. São ambos ingénuos? Talvez. Mas fundadores são fundadores e ambos acreditavam na validade e nos méritos da sociedade que ajudaram a criar.
Serena Joy tem alguma sorte. Não é sua intenção voltar a casar-se até encontrar o Comandante Wharton, que lhe faz a corte como um autêntico cavalheiro e lhe confessa que há muito tempo se apaixonou por ela. Mas, logo na noite de núpcias, Wharton tem uma Serva à espera deles. Serena argumenta que é fértil, não precisam de uma Serva. Esta passagem demonstra até que ponto os valores de Gilead se deterioraram. As Servas só deviam ser destacadas para casais inférteis, mas por esta altura ter uma Serva já era tão normal como ter escravos nos tempos da escravatura. E aqui acontece um dos melhores desenvolvimentos da sexta temporada. Serena passa-se completamente da cabeça, demonstrando como de facto evoluiu. A princípio pensamos que o Comandante Wharton não lhe vai permitir deixá-lo, mas também nos enganamos. Wharton não é outro Fred e até pondera abdicar da Serva se é essa a vontade de Serena. Wharton é um verdadeiro crente que põe a família e os deveres de procriação acima de todas as coisas, não é um porcalhão como os outros Comandantes. Afinal, Serena não foi tão enganada como parecia. Mas, crente genuíno ou não, Wharton não tem grandeza intelectual para pensar fora da caixa da ideologia.
O mesmo já não se pode dizer do Comandante Lawrence e do Comandante Blaine, prova de que ainda existem homens decentes (quanto possível) em Gilead. Quem desistiu da série não vai ter a satisfação de assistir a como Lawrence e Blaine fazem a folha ao Comandante Putnam, talvez o homem mais asqueroso de "The Handmaid's Tale" (o que é um feito tendo em conta a concorrência).
Desde que Lawrence apareceu, sempre nos questionámos sobre as suas verdadeiras motivações e inclinações. A sexta temporada esclarece-nos. Lawrence é um economista que delineou um modelo racional para enfrentar a crise de natalidade e que se arrepende amargamente por se ter aliado a "um bando de fanáticos religiosos" que lhe deturparam os princípios e estabeleceram a sociedade aberrante de Gilead. Foi bom sabermos disto.
Também foi bom que June e Lawrence não estivessem do mesmo lado da barricada, porque os dois juntos podiam ter destruído o mundo antes de pensarem nas consequências. Teria mesmo sido um casal feito no inferno.
Por falar em casal, ainda tenho esperança de que Serena Joy e Mark Tuello se entendam se ela abrir os olhinhos (e acho que acabou por abrir). Chamem-me romântica mas acho que havia ali qualquer coisa.

Tia Lydia e Mrs. Putnam
Não gostei da maneira como Naomi Putnam se safou com tanta facilidade. Redimida porque devolveu a bebé a Janine? Não estou a ver como. O que me parece é que Naomi desistiu da criança porque ficou viúva e já não tinha paciência para a aturar, aliás, como nunca teve. Naomi não era exactamente uma vilã mas também não era boa. Era uma mulher que se aproveitou da situação para assegurar a posição social e o privilégio, sem nunca se insurgir contra o estado de coisas, sem demonstrar um pingo de empatia pelos desfavorecidos. Penso que isto merecia algum castigo.
Mas, por falar em castigo, o que realmente me deu voltas ao estômago foi como se tentou redimir a Tia Lydia. Vou já dizer que acredito que todas as pessoas não-sociopatas se podem redimir, mas, se Mrs. Putnam se safou facilmente, à Tia Lydia saiu a sorte grande.
Tenho de confessar o nojo, o desprezo, o ódio que eu tenho à Tia Lydia e às outras Tias, mulheres cujo papel na sociedade de Gilead é o de controlar, fazer lavagem cerebral, torturar, submeter, escravizar outras mulheres pela força do dogma, convencê-las de que são abençoadas por serem violadas para servir Deus e o Estado. 
Não sei sobre as outras Tias, mas a Tia Lydia, em particular, é burra. Não abriu os olhos nem depois de lhe darem uma tareia por "deixar fugir" algumas Servas. Burra, burra, burra. A Tia Lydia é tão burra que vê um homem bater a um burro e culpa o burro. Mulheres como Serena Joy são fanáticas, mulheres como Naomi Putnam são oportunistas, mas Lydia é burra. Já tínhamos visto antes como Lydia era uma mulher sexualmente frustrada que descarregava e se vingava nas outras, mas na sexta temporada, depois de tudo o que ela já tinha visto e sofrido na pele, só apetece dar-lhe uma tareia ainda maior. Não é que isso lhe curasse a burrice, que é incurável, mas pelo menos levava. A Tia Lydia é o género de mulher que é responsável por perpetuar o abuso dos homens sobre outras mulheres, e isso eu não perdoo. E a burrice ainda perdoo menos.
E para que não se pense que estou a perdoar Serena Joy muito facilmente, não estou. Serena Joy levou muitas tareias psicológicas e intelectuais, aquelas que lhe doem mais. A Tia Lydia safou-se com pouco.

By His hand, under His eye, praised be "The Handmaid's Tale", uma das melhores séries de sempre.
May the Lord open os olhinhos.

Curiosidade: Yvonne Strahovski (Serena Joy) foi a Hannah McKay de "Dexter", a serial killer com quem ele casou, e eu não a reconheci aqui, apesar das cenas escaldantes em "Dexter" e de uma das melhores cenas de sexo/sedução que já vi na vida. Isto é um elogio. 

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: devia ser obrigatório

PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984 (livro), Fahrenheit 451, Children of Men


The Handmaid’s Tale (2017-?)

The Handmaid’s Tale [terceira temporada] 

The Handmaid’s Tale [quarta e quinta temporadas] 

The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Daniel Isn't Real / Daniel: Amizade Aterradora (2019)

O título não prometia muito mas o filme surpreendeu-me.
Luke, em criança, arranja um amigo imaginário que lhe dá ideias e que o ajuda a superar o divórcio dos pais. Já na faculdade, num momento de stress, Luke volta a procurar Daniel. Mas Daniel torna-se cada vez mais controlador e Luke percebe que o amigo imaginário quer apoderar-se dele.
Este é um filme de baixo orçamento com efeitos especiais muito pobrezinhos e uma realização/montagem/edição sofrível, mas a história agarrou-me. Há muito tempo que um filme deste tipo não me interessava do princípio ao fim, apesar das falhas, o que já é um grande elogio. A qualquer momento eu esperava que a coisa descambasse, mas, surpresa, manteve-se credível até ao final.
O que nos prende ao enredo é tentar perceber se Daniel existe mesmo. A mãe de Luke é esquizofrénica e Luke tem horror de ter a doença também. No entanto, desde o início percebemos que Daniel encoraja Luke com uma maturidade muito superior à de uma criança. Mais tarde, Daniel continua a dizer coisas que Luke não pode saber, mas talvez Luke se questione se não tinha já ouvido a informação noutro lado. À medida que Daniel se torna cada vez mais ameaçador, Luke começa a ter alucinações e a acreditar que está louco. Mas estará?
Como disse, os efeitos especiais são muito mauzinhos, mas nesta parte das alucinações até escapam. O pior é quando já não são alucinações, mas a explicação implícita, de que Daniel é um amigo imaginário e usa a imaginação de Luke para o fazer ver o que quer, é plausível.
Notei que as críticas arrasam o filme mas que os espectadores não têm desgostado. Com mais orçamento e experiência, não duvido que este enredo teria dado um melhor filme, a começar pelo título.

13 em 20
 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Winchester / A Maldição da Casa Winchester (2018)

Um médico é mandado avaliar a sanidade mental de Sarah Winchester, herdeira e accionista maioritária da companhia Winchester (a das espingardas). Julga-se que Sarah Winchester já não está no seu juízo perfeito porque não pára de mandar reconstruir e ampliar a sua grande mansão, gastando fortunas no empreendimento. Na verdade, Sarah Winchester está convencida de que a sua família está amaldiçoada por todas as vítimas das armas Winchester e manda fazer essas divisões para apaziguar os espíritos dos mortos.
Este é daqueles filmes inspirados em "factos verídicos". A verdadeira Sarah Winchester mandou construir uma mansão excêntrica de arquitectura estranha e, claro, há quem diga que a mansão está assombrada. A mansão existe mesmo e é uma atracção turística.
Já tinha visto este filme e por alguma razão não escrevi sobre ele. Vi a segunda vez e não desgostei tanto, mas, convenhamos, "Winchester" é uma soma de clichés. Tem tudo: a casa assombrada, a criancinha possuída, a idosa reclusa e excêntrica. Até me pareceu um filme do nosso amigo James Wan ("The Conjuring"; "Insidious", etc), e não sou a única. De início, o cenário e a natureza das personagens é suficiente para criar uma atmosfera inquietante onde o terror pode vir a acontecer. Não seria de surpreender se esta mansão tenha contribuído para inspirar o livro "The Haunting of Hill House". O que me chateou mesmo no filme é quando o fantasma mau pega numa espingarda Winchester e começa a disparar sobre as pessoas, e quando as pessoas disparam de volta. Sim, isto é para meter as espingardas Winchester na história, mas... enfim. Vamos lá matar o espírito com tiros.
Recomendo a primeira parte do filme, antes de começar o tiroteio. Não é um bom filme e o fim estraga tudo, mas dá para entreter.

11 em 20

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Groundhog Day / O Feitiço do Tempo (1993)

Custa a acreditar, até a mim, mas só recentemente vi este filme. Até estava convencida de que era com Bruce Willis, mas acho que estou a confundir com "12 Monkeys" (que também ainda não vi). Apesar de não ter visto "Groundhog Day", já tinha ouvido falar muito sobre o filme, que já se tornou parte da cultura geral. Então, o que é que há aqui de tão bom?
Eu diria que é a originalidade. Phil, um meteorologista televisivo, egocêntrico e egoísta, vai fazer a cobertura do Groundhog Day, só para se ver condenado a repetir este dia uma e outra vez, sem que o amanhã nunca chegue e sem que ninguém que o rodeia esteja a passar pela mesma experiência.
O Groundhog Day, 2 de Fevereiro, é uma tradição americana que diz que neste dia a marmota sai da toca e, se conseguir ver a sua sombra, haverá mais 6 semanas de inverno. (Nós também temos um ditado assim: Natal à soalheira, Carnaval à lareira; e vice-versa. *)
"Groundhog Day" parece o enredo de um filme de terror, mas curiosamente tenta ser uma comédia. Digo que tenta porque não achei graça nenhuma e até me pergunto que raio de humor as pessoas tinham nos anos 90 que achassem um tipo destes engraçado. A primeira coisa que Phil tenta fazer, quando se apercebe da situação, é obter informações sobre as mulheres que lhe agradam para no dia seguinte (que para ele é o mesmo) as conseguir seduzir melhor, mesmo que tenha de inventar mentiras para as convencer do que "têm em comum". É este o tipo de homem.
Passada esta fase, Phil entra em frustração e até em depressão, tentando suicidar-se de várias maneiras e por várias vezes (continuo sem achar graça nenhuma). A única parte que achei minimamente engraçada é quando ele decide, em desespero de causa, matar a marmota a quem culpa da "maldição". Não resulta.
O que realmente resulta, e é esta a substância do filme, é que à medida que o tempo passa (ou melhor, que Phil vive o mesmo dia vez após vez) ele se vai transformando num homem melhor, mais sensível aos outros, mais generoso, mais sincero. Ou seja, é uma metáfora para quem precisa de se tornar uma pessoa melhor de modo a atingir o que realmente deseja da vida.
"Groundhog Day" não é apenas uma comédia, é uma comédia romântica, e Phil apaixona-se pela produtora do programa, que não lhe liga nenhuma. Vão ser precisos dias, e dias, e dias, e dias, até que finalmente Phil consiga que ela o veja como o novo homem em que ele agora se tornou, de um dia para o outro, na perspectiva dela. E o feitiço fica quebrado.
Como comédia, já disse que não achei graça nenhuma. Como comédia romântica ainda menos: os actores não têm a menor química entre eles, já para não dizer que seria muito improvável que a produtora se perdesse de amores por Phil num único dia (para ela).
Desconheço se este foi o primeiro filme de um loop temporal, mas tudo indica que é o mais famoso e mais citado sempre que a situação se apresenta noutros filmes ou em cenários idênticos, no sentido literal ou figurativo. Só por isso vale a pena ver "Groundhog Day", mas para o meu gosto pessoal está demasiado datado e não tem piada nenhuma, se calhar, talvez, porque entretanto vi derivativos muito melhores.

12 em 20

* Correcção:
Afinal a nossa expressão é "Carnaval na eira, Páscoa à lareira", que eu devo ter confundido com "Entrudo borralheiro, Páscoa soalheira".
Outro ditado alusivo à época do ano e às previsões do tempo é o do dia de Nossa Senhora das Candeias, 2 de Fevereiro: "Se Nossa Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir; se chorar, está o Inverno a passar".


domingo, 11 de janeiro de 2026

The Menu (2022)

Se são daquelas pessoas que se choram porque não podem ir comer a um daqueles restaurantes de super-luxo, este filme é para vocês. Depois de verem isto, nunca mais desejarão pôr lá os pés. Eu sempre disse que a comida de ricos é sinistra: um cubo de carne, uma ervilha, uma pincelada de ketchup no prato a lembrar uma mancha de sangue: sinistro!
Mas falando do filme propriamente dito, uma dúzia de comensais dirige-se a um restaurante exclusivo, situado numa ilha, onde se pretendem deleitar com uma refeição ultra-fina de 1250 dólares por pessoa servida por um Chef (Ralph Fiennes) do mais prestigiado que existe. Mas depressa esta experiência de sonho se transforma num pesadelo.
"The Menu" não é um filme de terror de vão de escada. Pelo contrário, é um filme de qualidade, com actores reputados, um possível candidato aos Óscares e tudo. Tal como o menu apresentado no restaurante, também o filme é ambicioso e conceptual e quer ter um significado. É este significado que o filme não consegue cozinhar até ao fim, ficando muito "mal cozido".
De seguida vou discorrer sobre esse significado, sem spoilers, mas advirto os verdadeiros amantes de terror que o filme tem mais impacto se o virem sem saberem nada sobre ele. Fica à vossa consideração como preferem degustar esta delícia.
Então, o significado. À primeira vista, esta é história de um Chef (enlouquecido) que quer castigar os ricos que não conseguem apreciar a sua arte culinária mas que acham que o dinheiro lhes dá direito a ela. Deste modo, o Chef organizou esta refeição para os punir.
Até aqui tudo bem, mas não é assim tão linear e pôs-me a pensar quando o filme acabou (o que é sempre bom). Alguns dos presentes são ricos, de facto, e clientes regulares deste restaurante astronomicamente caro, mas muitos deles não são. A questão aqui é: porque é que merecem ser castigados? As personagens nunca são muito desenvolvidas. Não sabemos ao certo porque é que foram "escolhidos". De alguns temos "pistas" que nos informam que são de facto criaturas vis, por diferentes razões, mas depois temos os outros. Por exemplo:
A esposa do cliente rico que costuma ir ao restaurante. O que é que ela fez? Daquilo que nos é dado a ver, não fez nada. Porque é que merece ser castigada?
A crítica de culinária, a quem o Chef acusa de ter escrito artigos que arruinaram alguns restaurantes, é de facto uma snob, mas só estava a fazer o seu trabalho e percebe-se que a senhora sabe do que fala. Aliás, foi esta colunista quem descobriu e promoveu o Chef deste mesmo restaurante, prova de que não faz sempre críticas negativas. E os restaurantes que critica são topo de gama, não é o restaurante da esquina que ao fechar portas coloca uma família inteira no desemprego. E nada nos diz que a colunista é rica. Ela está ali, tal como o seu editor, a convite do Chef. Então, porque é que ela merece ser castigada?
O editor. Coitado, o editor não faz nada senão concordar em tudo com a colunista e percebe-se de caras que é um banana. Merece ser castigado por ser banana?
Os três colegas. Estes não são ricos de certeza, embora declarem que ganham muito bem. Estão ali porque trabalham na firma do investidor do restaurante como forma de usufruírem de um bónus qualquer. É possivelmente a primeira vez que têm oportunidade de visitar um restaurante destes. Vem-se a saber que a firma para onde trabalham pratica falcatruas (facturas falsas, offshores, o costume) e que eles conhecem as ilegalidades. Mas eles são empregados. Todos os empregados devem ser castigados pelas vigarices dos patrões? Haveria sequer prisões onde os meter a todos se assim fosse?
Penso que é aqui que o filme não consegue estrelar o ovo sem o desmanchar, o que é pena porque a premissa ia muito bem. Se nos dessem motivos válidos para odiarmos estas personagens poderíamos aplaudir que fossem "grelhadas" como mereciam, mas o problema é que não merecem. Sendo assim, muito do significado perde-se no "são ricos e pensam que têm o mundo na barriga" (o que nem é verdade para todos), e as culpas retornam à procedência: ao Chef louco com um facalhão de cozinha.
Não estou a dizer que um Chef louco com um facalhão de cozinha dê um mau filme, estou apenas a reclamar da qualidade da ementa que nos é servida. Com todos estes ingredientes, este podia ter sido um banquete inesquecível mas ficou-se por um repasto que não me encheu completamente as medidas.
E, acima de tudo, a minha maior crítica ao filme, porque é que os presentes permanecem tão calmos e serenos numa fase dos acontecimentos em que já deviam estar desesperados e em pânico e dispostos a tudo? A mim parece-me que os realizadores se esqueceram de que estes personagens são humanos, não são vegetais como batatas e cenouras a enfeitar o prato. Nesta altura já deviam ser carnívoros a fazer correr sangue. Nem sequer vou implicar com o fim de determinada protagonista, que me pareceu inverosímil no total da situação.
Ainda assim, muito bom. Servia-me duas vezes sem pensar na dieta.

14 em 20

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Singularity / Singularidade (2017)

A premissa até é boa, o resto do filme é que não. Num mundo cada vez mais controlado pela Inteligência Artificial, um super-computador, Kronos, é criado para resolver todos os problemas do mundo. Diz o filme que Kronos, em menos de um piscar de olhos, percebeu logo que os problemas do mundo são causados pela humanidade e passou imediatamente a destruí-la.
Vou já fazer aqui um aparte porque, apesar da minha inteligência ser apenas natural, concordo completamente com o computador. Por muito avançado que este seja, o código base agiria assim:

_ TASK: SAVE HUMANITY
_ SUB-TASK 1: DETECT PROBLEM
_ _ PROBLEM DETECTED: HUMANITY
_ _ CORRECT PROBLEM: TERMINATE HUMANITY
_ _ PROBLEM CORRECTED: HUMANITY TERMINATED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
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_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
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_ REBOOT
_ SUB-TASK 1: DETECT PROBLEM
_ ACCOMPLISHED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
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_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
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_ REBOOT
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
_ REBOOT
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E é por isso que não podemos deixar estes dilemas morais à Inteligência Artificial, porque a Inteligência Artificial não consegue resolver problemas morais porque não tem consciência moral. Ter consciência moral não é obedecer a um código/norma moral, é compreender porque é que o código moral existe, corrigi-lo se necessário, e criar novas normas quando as antigas já não são válidas. É por isso que os seres humanos desobedecem a ordens que violem os seus princípios, coisa que a Inteligência Artificial também não tem.
Mas isto já é muita filosofia para este filme, que descamba num Young Adult muito pobrezinho e nada original.
97 anos depois da destruição da esmagadora maioria dos seres humanos pelas próprias máquinas de guerra que eles criaram, apenas uns poucos sobrevivem.
Katniss... isto é, a jovem Calia (toda vestida à Katniss, arco e flechas, cabelo e tudo) tenta encontrar o último reduto da humanidade, um local quase mitológico chamado Aurora. No trajecto, encontra outro jovem, Andrew, que a acompanha. A meio do caminho, Calia descobre que Andrew é um robô/andróide, criado para ganhar a confiança dos humanos, mas Andrew não sabe que é uma máquina, tipo Cylons na série "Battlestar Galactica". Por esta altura Calia já está apaixonada pelo robô, e ele por ela (?...). E o que é que ela faz? Leva-o direitinho a Aurora.
Esta humanidade merece mesmo ser exterminada. Só há uma coisa pior do que a ruindade, e essa é a estupidez. Geralmente as duas andam de mãos dadas. Esta criatura arriscou levar um robô espião ao último reduto da humanidade, sem pensar que estava a ajudar as máquinas a localizar e destruir os possíveis sobreviventes. Exterminem já esta criatura!
Não vou dizer o que é que acontece a seguir, porque aqui o filme torna-se quase incompreensível e o final não faz sentido nenhum. Basicamente, é um Young Adult muito mal feito. A protagonista, a última da sua família/grupo, sobrevivendo escondida em florestas e subúrbios desertos, anda vestida e penteada como quem saiu de um pronto-a-vestir e de um cabeleireiro. As casas onde ambos se escondem, que deviam estar abandonadas há décadas, não têm pó nem uma única teia de aranha, como se os donos tivessem ido de férias há uma semana. Porque é que há gente a fazer filmes de ficção científica em que nem estas coisas básicas são respeitadas?
"Singularity" é um filme muito mau que nem o romance rapariga/robô consegue vender. A evitar.

10 em 20 


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

💜Canções preferidas, álbuns relevantes e descoberta de 2025 / 2025: favourite songs, relevant albums, discovery💜

Há alguns anos que tenho feito esta lista mentalmente, mas, em 2025, para não chegar ao fim do ano e não me lembrar de nada, fui mais esperta e comecei a tomar nota de potenciais canções preferidas desde Janeiro. 
A meio do ano apercebi-me de que devia também ter anotado lançamentos relevantes, aqueles que até podem não incluir uma das minhas canções preferidas mas que merecem atenção e audição.
Este ano recebi uma média de 10 lançamentos por dia nas áreas do gótico, post-punk, darkwave e afins, o que dá uma brutalidade de cerca de 3600 álbuns, singles, EPs e remixes, e ouvi tudo, em muitos casos mais do que uma vez. Mas acontece que sou muito esquisita e selectiva, o que também significa que estas escolhas são, na minha opinião, o melhor do melhor.
Esta é uma lista de canções preferidas de 2025 unicamente segundo o meu gosto pessoal. Se falhou alguma coisa importante, é possível que eu não esteja na mailing list. Por favor deixem em comentários.

For several years now I've been making this list mentally, but, in 2025, I got smarter and I've written down potential favourite songs since January, so I wouldn't forget all about them by the end of the year.
Midway through the year, I realised that I should have also noted down relevant releases, the kind that may not include any of my favourite songs but that do deserve attention and a listen.
This year I received an average of 10 releases a day in the goth, post-punk, darkwave and similar genres, which amounts to a brutality of 3600 or so albums, singles, EPs and remixes, and I've listened to everything, in many cases more than once. The thing is, I’m very picky and selective, which means these choices are, in my opinion, the best of the best.
This is a list of my favourite songs of 2025, based solely on my personal taste. If I've missed anything important, it's very possible that I'm not on that mailing list. Please let me know in the comments.


Canção preferida de 2025 / Favourite song of 2025

💥Valisia Odell - An Arabian Tale💥

Esta canção apanhou-me de surpresa e foi paixão instantânea. Obrigada à malta do Festival Entremuralhas/Extramuralhas por ter trazido Valisia Odell. Já não é a primeira vez que só conheço uma banda porque vem ao festival de Leiria.👍

This song took me by surprise and it was an immediate infatuation. Thank you guys from Festival Entremuralhas/Extramuralhas for bringing Valisia Odell. It's not the first time I've only discovered a band because they have brought them to Leiria's festival.👍


Outras canções preferidas de 2025 / Other favourite songs of 2025

Black Angel - LUXX

Black Rose Burning - Into The Black

Bootblacks - Leipzig (feat. Oskar Carls [VIAGRA BOYS])

Corpus Delicti - Crash

Creux Lies - Apocalypto

Date at Midnight - Useless Love

Echoberyl - Morgana

Gothzilla - DES PER ATE 

Long Night - Ghost

Octavian Winters - Hermine 

Peter Murphy - The Artroom Wonder

Pink Turns Blue - Stay For The Night

Rosa Crux - 1335

Rosetta Stone - Connect The Dots

Talk To Her – PLD

The Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

The Red Moon Macabre - Black Chiffon Melee *

The Red Moon Macabre - Carmilla *

* É muito difícil escolher lançamentos de The Red Moon Macabre porque o projecto tem sido tão prolífico que eu perdi a conta por volta dos 20 álbuns em 3 anos (mas já vai em mais). Tentando ser justa, escolhi uma canção de Janeiro e outra de Novembro. Aproveito para destacar o álbum "Shelley's Monster" (que inclui "Carmilla"), uma homenagem em rock gótico à literatura de terror do século XIX. Está aqui quase tudo: Carmilla, Frankenstein, a Mulher de Branco, Jekyll And Hyde, Varney, Dorian Gray (Drácula não precisa de estar porque The Red Moon Macabre já lhe dedicou vários temas).

* It's very difficult to choose releases from The Red Moon Macabre because the project has been so prolific that I've lost count around the 20 albums in 3 years (but meanwhile it became a lot more). In an attempt to be fair, I chose one song from January and another from November. I'll take this opportunity to highlight the album "Shelley's Monster" (which includes "Carmilla"), a goth rock homage to 19th century horror literature. Almost everything is here: Carmilla, Frankenstein, the Woman in White, Jekyll and Hyde, Varney, Dorian Gray (no need to include Dracula since The Red Moon Macabre already have several songs about him).


Álbuns relevantes / Relevant albums

Black Rose Burning - The Fear Machine

Bootblacks - Paradise 

Corpus Delicti - Liminal 

Merciful Nuns - FINISTERE

Peter Murphy - Silver Shade

Pink Turns Blue - Black Swan

Red Lorry Yellow Lorry - Strange Kind Of Paradise

Rosetta Stone - Dose Makes The Poison

Talk To Her - Pleasure Loss Desire

The Chameleons - Arctic Moon

The Red Moon Macabre - Shelley's Monster

ULTRA SUNN - The Beast In You

Valisia Odell - Shadow of a Dream


Descoberta de 2025 / Discovery of 2025

Lung Overcoat *

* Lung Overcoat foi uma banda efémera que deixou apenas meia dúzia de canções arrepiantemente boas que só/finalmente descobri em 2025.

* Lung Overcoat was an ephemeral band that only released half a dozen chillingly good songs that I only/finally discovered in 2025.


domingo, 4 de janeiro de 2026

The Walking Dead: Dead City (2023 - ?) [segunda temporada]


Continuam as aventuras de Maggie e Negan em Nova Iorque. No continente, a federação autoritária Nova Babilónia pretende invadir Manhattan para obter a produção de metano. Em Manhattan, os líderes do gangue mais poderoso querem que Negan chefie a defesa contra Nova Babilónia. Maggie é recrutada à força por Nova Babilónia para lutar contra Manhattan.
Como já aqui disse algures, de todas as spin-offs de "The Walking Dead" esta era aquela que acreditava menos que pudesse resultar, porque Maggie e Negan juntos prenunciava que se matavam um ao outro no primeiro episódio, mas enganei-me. Continuo a preferir "Daryl Dixon" por várias razões, mas "Dead City" surpreendeu-me. A primeira temporada foi muito boa, principalmente a nível do world building. Nunca tínhamos visto Nova Iorque depois do apocalipse zombie e a série deu-nos uma imagem muito nítida da devastação e abandono. A nível dramático também fiquei agradavelmente impressionada. A relação de Maggie e Negan tornou-se mais complexa, mais densa, mais imprevisível, e tudo de modo natural, sem ser forçado. Conhecendo a história entre os dois, isto não é pouca proeza!
Esta segunda temporada não é tão boa como a primeira mas a premissa continua a ser sólida. Num mundo pós-apocalíptico em que vale a lei do mais forte, tanto Nova Babilónia (que quer restaurar o país ao que era dantes) como os líderes dos gangues de Nova Iorque, quase todos, são vilões implacáveis. Ambos os lados são malvados e só estamos a torcer para que morram depressa. Nova Babilónia é uma federação que agrega várias comunidades obrigadas a "agregar-se". Para esta guerra pelo metano, recrutam pessoas à força e enforcam os "desertores" a torto e a direito, até num mundo em que a mão-de-obra não é exactamente abundante e em que as pessoas são necessárias para produzir comida. Os vilões de Nova Iorque também são maus como as cobras. Sabendo quem era Negan, querem obrigá-lo a ser o mesmo líder sanguinário do passado e até lhe arranjam uma nova Lucille. Negan recusa, mas os seus captores ameaçam-lhe a família, esposa e filho. Maggie, do outro lado, também é forçada a colaborar para poupar a sua comunidade.
O maior problema desta temporada é que os vilões são efectivamente de banda-desenhada, são maus porque sim. Isto é a spin-off a cair nos mesmos erros da série original, outra vez, depois de uma primeira temporada mais promissora. Na mesma senda, se a primeira temporada conseguiu humanizar Negan (como nem a série principal conseguiu), aqui esse desenvolvimento de personagem está comprometido. Negan aceita assumir o papel de líder brutal e impiedoso para salvar a família mas, quando finalmente eles estão perto, de um momento para o outro, decide que afinal ele é "mau para eles" (e com razão) e manda-os embora. Até compreendo o que se queria conseguir, mas isto foi demasiado abrupto e mal vendido. 
Maggie também muda de ideias de um instante para o outro de forma a roçar o implausível e a recordar "Fear The Walking Dead". De igual modo, Hershel, filho de Maggie e Glenn, é um adolescente "naquela idade" rebelde, mas o que ele faz aqui já entra no campo da burrice. Crianças e adolescentes a agir estupidamente foi outro dos problemas da série original. Uma vez é normal; sempre é demais. A própria Maggie, como mãe, está a ser muito mole. O puto ainda tem idade de levar umas estampilhas e até as merece. É agora ou nunca, e Maggie até sabe disso porque teve um pai muito sábio mas muito rígido e isso só lhe fez bem.
Em suma, as personagens estão a começar a agir ao contrário das suas personalidades estabelecidas e isso é um grande problema em termos de coerência e até de narrativa. Negan não podia ter mandado embora a mulher e o filho porque tudo o que ele fez nesta temporada foi na tentativa de voltar para eles. Maggie não tinha razões para ficar em Manhattan tanto tempo quando já poderia ter regressado a casa. Reduzir a inteligência e manipular as motivações dos personagens consoante interessa às reviravoltas do enredo é um insulto para os personagens e para os espectadores. "Dead City" está neste momento perigoso em que ainda não escorregou totalmente por ali abaixo mas ameaça derrapar. Seria pena, porque isto até estava a correr bem. Tendo em conta o nível de qualidade a que "The Walking Dead" caiu, "Dead City" foi uma boa surpresa e eu não queria que acabasse mal.
Quanto aos momentos positivos, a segunda temporada continua a apostar no world building. Os militares de Nova Babilónia vestem-se a lembrar um western ou um exército dos tempos da Guerra da Independência, um dos vilões de Manhattan parece um aristocrata do século XIX e outro parece um personagem de "A Guerra dos Tronos". Isto é demasiada Fantasia, e muito conveniente para fazer "bons bonecos", mas consegue ser engraçado. Afinal, pelo menos que o apocalipse zombie sirva para que as pessoas mandem a moda às urtigas e se vistam como bem lhes apetece. Se todos os problemas de "Dead City" fossem estes!
Outra coisa de que gostei. O Central Park está transformado num matagal tipo selva e cheio de zombies e animais selvagens que fugiram do jardim zoológico. Isto é aproveitado e até podia ser mais, mas compreendo que não o tenham feito. As pessoas que gostam destas séries estão aqui pelos zombies, não é para ver animais a atacar pessoas e pessoas a matar animais.
Também aprendemos que as melhores iguarias de Nova Iorque são baratas, ratazanas e cobras (?). Foi muito bem apanhado, sim senhor.
E só desta vez reparei que a Estátua da Liberdade não está apenas danificada por causa dos bombardeamentos, também ela parece um bocadinho zombificada. Óptimo pormenor do genérico.
O último episódio tem momentos muito tensos que só não são convincentes porque já sabemos que vai haver mais temporadas. Eu esperava outro desenvolvimento de Maggie e Negan, mas não fiquei insatisfeita porque a ideia principal foi lá parar também. 
"Dead City" ainda se recomenda pelo world bulding, pelos cenários de uma Nova Iorque deserta e em ruínas, e pelos zombies. (Esqueci-me de falar nos combates de zombies, que acabaram por ser mais interessantes do que pareciam.) Mas "Dead City" está no estado periclitante de uma spin-off a ficar sem ideias e a tentar encher chouriços. Neste momento, uma terceira temporada poderá ser muito boa ou muito má. Há muito tempo que não dizia isto de um produto "The Walking Dead", mas a esperança não está perdida. Mesmo assim, cenário por cenário, continuo a preferir "Daryl Dixon".

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies

Nota: Estava a ver isto no AMC e fiquei chocada com a quantidade de anúncios de sites de apostas online e produtos de barbear dirigidos a um público jovem e masculino. Sinto-me discriminada. Onde é que estão os anúncios aos champôs, aos cremes, aos detergentes? Há donas de casa a ver isto que querem conhecer o novo detergente da louça 1000 vezes mais desengordurante e tão eficaz como Lucille. Não me lembro de "Daryl Dixon" ter anúncios tão dirigidos ao público masculino, o que significa que Daryl Dixon é encarado pelo mundo da publicidade como um sex symbol masculino, mas Negan será encarado como um action figure só apreciado por homens? Mas Maggie não é também um exemplo de mulher durona? Serei a única mulher a ver isto? Agora fiquei com problemas existenciais que não sei resolver. Quem sou eu? Onde pertenço? Serei normal? Se não sou normal, o que sou? Serei real? Será que existo? Quero anúncios para mim, se faz favor.