Amleth, príncipe viking, jura vingar-se do tio que matou o rei e usurpou o trono. Não quero acreditar que este filme seja de 2022. Este filme lembrou-me "Conan, o Bárbaro" de 1982 (e não sou a única), e isto não é um elogio. Até perdoava se o filme tivesse sido feito algures até ao ano 2000, mas depois de "Vikings" e "The Last Kingdom" como é que alguém pode achar que "The Northman" tenha alguma relevância? Será que o realizador alguma vez viu as séries? Será que viu os filmes de vikings que têm sido feitos entretanto? "The Northman" não foi feito para ser realista, compreendo isso. Diria mesmo que o realizador viu "Conan, o Bárbaro" quando era pequenino e quis fazer a sua versão. Há aqui muita Fantasia e magia. O herói, Amleth, ouve a profecia de uma vidente e tem de encontrar uma espada "mágica" para matar o tio, e tem de fazê-lo em determinado lugar a determinada hora. Porquê? Porque sim. O tio não é uma criatura sobrenatural e Amleth tem muitas oportunidades de o matar... mas a profecia! Isto é estúpido, mas se fosse só um filme de Fantasia eu deixava passar. Se fosse só um filme de Fantasia, isto era para miúdos. Mas o realizador também quis utilizar rituais e costumes sangrentos dos vikings, pseudo-realistas, pensando que nos chocava, como se nunca tivéssemos visto a porno-tortura de "Vikings". É por isso que pergunto, qual é a relevância deste filme em 2022, quando já vimos muito melhor Fantasia e muito melhores reconstituições históricas? Até "The 13th Warrior" ("O Último Viking"), com Antonio Banderas, de 1999, é um filme mais interessante e mais relevante. Não percebo um filme destes em 2022. No meio da patetice, há uns poucos destaques que não salvam o filme mas que o tornam mais suportável. Nicole Kidman faz o melhor que pode do papel que lhe é dado. Alexander Skarsgård (o Eric de "True Blood") provou-me finalmente que é um grande actor numa cena que podia estar num filme de Ingmar Bergman, mas é mesmo lá para o fim. Mal desperdiçado actor e mal desperdiçada cena. Mas também é uma cena que parece ter saído de outro filme e escrita para um personagem que fez uma jornada de herói e que chegou ao seu limite. O pobre Alexander Skarsgård não tem tanta sorte, passa o filme todo no mesmo registo de vingança, sem a menor evolução psicológica. Björk faz de vidente, mas não a reconheci. Com aquela máscara na cara, nem podia reconhecê-la. Fica aqui a dica para os fãs. "The Northman" é um filme de 2022 que tenta ser "Conan, o Bárbaro" mas que consegue ter ainda menos interesse cinematográfico, uma mistura falhada de Fantasia e pseudo-realismo, uma coisa que só pode agradar a quem nunca viu os filmes e séries de vikings da última década. Volta, Michael Hirst, estás perdoado. Só uma última nota de que me lembrei a posteriori. Alexander Skarsgård é irmão de Gustaf Skarsgård (o Floki de "Vikings") e se calhar foi ao papel do irmão que Alexander Skarsgård foi buscar inspiração. Na verdade, aquela cena brutal fazia sentido em "Vikings". Pelo menos sabemos que alguém viu a série antes de entrar neste filme.
"Seven Kings Must Die" pretende ser um filme de epílogo para a série "The Last Kingdom", mas eu considero que isto é mais um último episódio de duas horas. Sem querer entrar em spoilers, Aethelstan torna-se rei após a morte de Edward e enfrenta a aliança de vários soberanos pagãos e cristãos incitada pelo viking Anlaf. Uhtred é obrigado a intervir, não apenas por uma questão de vassalagem mas por lealdade ao neto de Alfred e ao ideal de uma Inglaterra unificada. Devo dizer, fui ver "Seven Kings Must Die" com muito receio porque já tinha lido críticas alarmantes. "The Last Kingdom" acaba de modo muito satisfatório, não deixa pontas soltas, e "Seven Kings Must Die" começa logo por ser desnecessário. Quando uma série termina tão bem, com tudo resolvido, não queremos uma má sequela a estragar-nos essa recordação. Não foi exactamente o que aconteceu, mas agora compreendo as críticas. Ao ver o episódio, a minha maior questão foi: porque é que não fizeram mais uma temporada? É aqui que todas as críticas convergem e eu concordo. Este episódio tem enredo suficiente para uma temporada inteira. Como resultado, a acção é demasiado apressada, as viagens entre localidades acontecem à velocidade da luz (custa acompanhar onde eles estão quando vão de norte a sul e de leste a oeste em 30 segundos), e não há tempo para desenvolver as personagens. Por falar nisso, uma nova temporada permitiria incluir personagens como Stiorra, filha de Uhtred, a rainha Aelswith, a monja Hild e a Lady Eadith, que aqui nem aparecem. Tudo o que era excelente na série é sacrificado ao ritmo frenético da acção porque há muitas batalhas para travar e pouco tempo de filme. Há mortes chocantes mas ninguém tem tempo de fazer o luto, nem eles nem nós. O episódio é uma correria desenfreada para conseguir condensar a história que quer contar em menos de 120 minutos. E por isso pergunto: porquê? Uma das razões apontadas é a falta de orçamento, mas se houve dinheiro para uma batalha épica de 10 minutos não haveria dinheiro para momentos de desenvolvimento das personagens em cenários mais baratos? E, sendo uma série de sucesso e adorada pelos fãs (e muito mais bem escrita do primeiro ao último episódio do que "A Guerra dos Tronos" e "Vikings"), e se o filme foi aprovado, porque é que uma última temporada escrita pela mesma equipa não seria? Há aqui qualquer coisa que não bate certo em termos comerciais. Se mesmo assim vale a pena ver? Vale muito a pena ver, e as boas memórias da série não vão ficar beliscadas, mas deixa-nos com uma sensação de desperdício de enredo e de incompreensível qualidade inferior. A mim chateou principalmente a falta de desenvolvimento das personagens. Quem vir apenas este "filme" (que não é filme porque não é uma história autónoma) vai pensar que as personagens da série também eram bidimensionais como são aqui, a mudar radicalmente de ideias em questão de segundos sem que se perceba muito bem as suas motivações. Aethelstan é um vilão porque está a ser manipulado pelo amante, um monge secretamente ao serviço dos reis pagãos. Uhtred tenta abrir-lhe os olhos e Aethelstan quase o manda matar, mas uns minutos depois Aethelstan percebe o seu erro, tudo isto tão depressa que parece que só passou meia hora na vida dos personagens. Nem há tempo para respirar. Para quem não viu a série, asseguro que "The Last Kingdom" é uma história bem contada. Aliás, aconselho veementemente que não se veja este episódio sem ver a série, porque seria uma injustiça. O que aborrece mais é que ainda assim "Seven Kings Must Die" consegue incluir, na medida do possível e do tempo do filme, pitadinhas dos elementos que tornaram a série tão boa: romance, humor, drama, a dinâmica entre os personagens principais, e uma batalha espectacular a fechar. Uhtred já não está tão burrinho como no princípio. Aparecem presságios que só percebemos no fim. A certa altura pensamos que Uhtred está a ver valquírias e ficamos gelados, mas vamos ter ainda uma visão de Valhalla, como Uhtred o imagina, mais à frente. Os últimos segundos do episódio emocionaram-me e trouxeram-me lágrimas aos olhos, o que não acontece todos os dias, e que não acontece devido ao enredo mas ao significado da história em si. "Seven Kings Must Die", pelos defeitos, fez-me dar mais valor à qualidade e ao impacto de "The Last Kingdom". Aconselho aos apreciadores da série que desejem mais aventuras de Uhtred, Finan, Sihtric e Pyrlig, desde que se preparem para um episódio mal aproveitado.
ESTE EPISÓDIO MERECE SER VISTO: 1 vez, mas só depois de ver a série
PARA QUEM GOSTA DE: The Last Kingdom, Vikings, drama histórico
Então, afinal Athelstan existiu mesmo! Eu sempre pensei que fosse uma personagem ficcional de "Vikings", tal foi a falta de verosimilhança com que o retrataram. O mesmo se pode dizer de todas as personagens e até do enredo de "Vikings", algo que oscilava nas ondas da incoerência como um barco viking nas ondas do mar sem rota traçada. O mesmo não se pode dizer de "The Last Kingdom", uma história com cabeça, tronco e membros. "The Last Kingdom" é a odisseia de Uhtred de Bebbanburg, um nobre nascido saxão e criado por vikings, no objectivo de recuperar o título usurpado pelo seu tio. Apesar de todas as proezas militares ao serviço dos reis de Wessex, Alfred e Edward, isto não foi tarefa fácil porque Bebbanburg se situa no norte da (actual) Inglaterra e os reis de Wessex não arriscavam dar-lhe o apoio necessário numa época em que eram acossados por raides vikings nas suas próprias terras. Só tenho bem a dizer de "The Last Kingdom", uma história que me viciou desde o princípio. É verdade que o enredo foi "manobrado" para haver sempre uma grande batalha no início e no fim de cada temporada, mas numa série centrada à volta da conquista/invasão viking é natural que assim seja. No ínterim, temos drama, romance, humor, momentos filosóficos e passagens dignas de Shakespeare se Shakespeare tivesse escrito para televisão (só dois exemplos na última temporada: o discurso de Lord Aethelhelm e o pranto de Lady Aelswith). Acredito mesmo que seja esta a maior diferença entre "The Last Kingdom" e "Vikings", duas séries sobre o mesmo tema, a primeira da perspectiva dos saxões, a segunda da perspectiva dos vikings. "The Last Kingdom" é uma série muito mais convencional, com personagens e circunstâncias históricas e religiosas que nos são mais familiares. Se "Vikings" era mitológico, "The Last Kingdom" está bastante mais ancorado na História como esta chegou até nós e focado na construção da futura Inglaterra. Basta dizer, sem querer entrar em muitos spoilers, que a derradeira batalha é entre saxões, embora envolvendo nórdicos instalados há gerações em terras britânicas. Aproveito para falar já das batalhas propriamente ditas. Costumo queixar-me de batalhas em que não se percebe nada do que está a acontecer, em que não se distingue quem está a fazer o quê e onde. Só tenho a dizer o contrário de "The Last Kingdom". As batalhas estão excepcionalmente bem filmadas, com perspectivas aéreas que nos permitem ver a posição dos adversários, com destaques nos confrontos entre personagens principais sem fazer parecer que a guerra parou toda para se poder ver este ou aquele duelo (outra coisa que acontece muito nos filmes de acção), sem que a importância dada a estes confrontos nunca torne a batalha lenta ou irrealista. Vindo de mim, é um elogio: nunca me senti perdida, percebi sempre o que estavam a fazer, onde se situavam os exércitos, qual era a posição e a força numérica de cada um, qual era a estratégia de defesa e ataque, quem estava a ganhar ou a perder e porquê, e quem eram os protagonistas decisivos. Todos os filmes de acção deviam pôr os olhos nisto. É assim que se filmam batalhas. A última batalha, no último episódio da última temporada, é a mais épica de todas, uma das coisas mais arrepiantes que já vi numa batalha de espadas, e não pelos horrores habituais que se podem esperar deste tipo de conflito. Recomendo a todos os verdadeiros amantes de acção que não percam isto por motivo nenhum. Mas o que gostei mais em "The Last Kingdom" foram mesmo as personagens de carne e osso, tridimensionais, com as suas forças e fraquezas, virtudes e defeitos, e motivações bem estabelecidas mesmo quando a personagem muda completamente de ideias. Por exemplo, foi penoso assistir a como Brida, uma rapariga aguerrida mas pragmática, se foi transformando numa fanática religiosa e sanguinária para justificar o seu ódio a Uhtred, quando na verdade era evidente que permanecia em negação quanto aos seus próprios erros. Estas são personagens sólidas, complexas, humanas, que nos despertam a empatia. Quando alguma morria, conseguia mesmo afectar-me, até no caso de alguns vilões. Não quero dizer quem morre, mas vou dar o exemplo de Haesten, porque sei que desde o início toda a gente vai querer ver Haesten morrer, o mais brevemente possível e o mais lentamente possível. A melhor maneira de descrever Haesten é que é um merdas. Haesten é um guerreiro viking mais cobarde do que guerreiro, sempre mais disposto a fugir do que combater, sempre a pendurar-se nas vitórias dos outros e a gabarolar-se das suas "proezas" inexistentes, um intriguista capaz de trair tudo e todos para satisfazer a cobiça e a ambição, e, pior do que tudo, por várias vezes Haesten tenta tomar mulheres à força, especialmente as prisioneiras de guerra como a princesa Aethelflaed, por quem chega a desenvolver uma obsessão muito para além das práticas normais dos vikings a ponto de arruinar tudo o que já tinha conquistado para a perseguir. Haesten personifica tudo o que há de mais baixo, egoísta, fanfarrão, ganancioso e desleal. Para que a morte dele nos afectasse, uma série menor teria recorrido a um fim agonizante ou a uma redenção-instantânea de um só gesto de compaixão. Mas "The Last Kingdom" começa a preparar a coisa mais cedo. Anos mais velho, Haesten salva a Lady Eadith de uma situação periclitante sem ter nada a ganhar com isso (embora lhe dê a entender que a queria ter como amante, mas nada que garantisse que tal ia acontecer) e tenta mesmo salvar Aelfwynn, filha da própria Aethelflaed, numa circunstância em que podia antes ter-se salvado a si próprio, o que faz dele quase uma pessoa decente. Eu sabia que Haesten tinha os dias contados (melhor gente do que ele morreu por muito menos), mas nunca me passou pela cabeça ter pena deste merdas. Aliás, quem gostou de "A Guerra dos Tronos" vai apreciar as mortes abruptas, muitas delas no momento e da maneira que menos esperávamos. Mas, ao contrário de "A Guerra dos Tronos", muitas destas mortes não valem apenas pelo efeito de choque, algumas fazem-nos mesmo sentir falta do personagem (incluindo alguns vilões, como disse acima). Resta-me falar dos momentos de humor, alguns muito subtis, como o homem que leva o porco à taberna (quase nem se dá por ele), ou aquela cena em que uma viúva cinquentona, casta como uma monja, acompanhada da neta adolescente e bonita, recebe as atenções indesejadas de um bêbedo que prefere fazer-lhe olhinhos sem ligar nada à rapariga, deixando a senhora bastante incomodada. E por falar em viúva, foi impressionante como a rainha Aelswith, mulher de Alfred, se transformou de beata fanática em mulher engenhosa e pragmática, exactamente o contrário do percurso de Brida. Como já salientei antes, "The Last Kingdom" é também uma grande produção em termos de cenários, guarda-roupa, interiores e exteriores da época. Uma delícia para quem é apaixonado por História. Uhtred, o protagonista, acaba por ser o personagem menos tridimensional, curiosamente. Tornaram-no demasiado "herói de acção" que vence sempre no fim (ou quase sempre), por muito que tenha de passar para lá chegar. Uhtred também tem virtudes e fraquezas (o orgulho e a teimosia são as que o prejudicam mais) e uma mania embirrante de culpar o destino por tudo (o célebre "destiny is all"), afirmando mesmo que nunca teve escolha, para o bem e para o mal, quando nós vemos perfeitamente que teve e que efectivamente escolheu. No entanto, compreendo que tinham de o fazer heróico. Uthred é uma personagem inesquecível e ninguém queria seguir tamanha odisseia para o ver fracassar no fim. Resta saber se consegue recuperar Bebbanburg ou se o destino lhe reserva outras recompensas. Destiny is all!
Uma última palavra para a excelente banda sonora de Eivør e John Lunn, motivo mais do que suficiente para aguardarmos ansiosamente pelo princípio e fim de cada episódio:
Aos 11 anos, Uhtred, filho de um nobre da Northumbria, é raptado por vikings durante um raide e criado como dinamarquês. Earl Ragnar, o seu amo, reconhece-o mais tarde como filho adoptivo. No entanto, quando Ragnar é vítima de traição e toda a família é assassinada, Uhtred regressa ao mundo saxão na tentativa de reconquistar as suas terras e o seu título usurpado pelo tio. Para tal, tem de abandonar os costumes vikings e conquistar o favor do rei Alfred de Wessex. Por esta altura, os vikings (a quem os saxões chamam, indiscriminadamente, dinamarqueses) já tinham invadido toda a Bretanha excepto Wessex, o "último reino". Entrar no mundo de "The Last Kingdom" pode ser confuso para quem viu (sofreu) "Vikings" até ao fim. Acredito que quem viu "Vikings" primeiro, como eu, passe o primeiro episódio inteiro à procura de Ragnar Lothbrok. E de facto existe um Earl Ragnar, e o seu filho Ragnar Lothbrokson, e existe um Ubba irmão de Ivar (esse, sim, o mesmo Ivar o Sem Ossos de "Vikings" que historicamente morreu na Irlanda, se bem que aqui nem o cheguemos a ver), mas nenhuma destas personagens é o lendário Ragnar Lothbrock ou sequer parente dele (embora Ubba e Ivar fossem, mitologicamente, filhos de Ragnar e parte do Grande Exército Pagão que invadiu a Bretanha para vingar a morte dele num poço de víboras). E também existe um rei Egbert, e um rei Alfred, e um rei Athelred, mas nenhum deles se assemelha aos de "Vikings", apesar de Alfred ser efectivamente o mesmo, Alfredo o Grande. Ao ler críticas a "Vikings", muitas vezes encontrei comentários a dizer que "The Last Kingdom" é uma série melhor. Na minha opinião não é melhor nem pior, é apenas diferente. Embora ambas as séries se refiram ao mesmo período histórico, a invasão/conquista da Bretanha pelos vikings, "Vikings" centra-se na perspectiva viking enquanto que "The Last Kingdom" se centra na perspectiva saxã. Como tal, uma vez que estes acontecimentos foram registados por cronistas britânicos, The Last Kingdom" é também uma série mais histórica. "Vikings" é a história de Ragnar Lothbrok e seus filhos, todos eles envoltos em mitos e lendas, muitas vezes contraditórios entre si, não obstante serem também mencionados nos registos históricos (como no caso de Ivar na Irlanda, por exemplo). Em suma, o que realmente sabemos de Ragnar e seus filhos é o que se encontra nos registos saxões, pela pena dos seus inimigos, o que também não garante imparcialidade. Comparando as duas séries, no entanto, "The Last Kingdom" prova que é possível fazer uma série de vikings com cabeça, tronco e membros, com personagens fortes e carismáticas, com a brutalidade e a carnificina que o tema exige (cabeças cortadas, violações, inimigos mortos pregados a estacas, etc), com drama e humor, mas sem a porno-tortura de Michael Hirst que tornava "Vikings" intragável. Não digo que "Vikings" fosse uma série má, digo que a porno-tortura era dispensável. Depois do sadismo de "Vikings", "The Last Kingdom" até parece uma série "levezinha". Voltando pois a "The Last Kingdom", é significativo que o protagonista se chame Uhtred, um nome portentoso (Uhtred foi o pai do rei Artur). Criado como viking, Uhtred nunca se esqueceu das suas raízes saxãs, mas estará para sempre dividido entre os dois mundos, visto como viking pelos saxões e como saxão pelos vikings. Determinado, impulsivo, impaciente, Uhtred não é completamente simpático como protagonista e às vezes irrita-nos (e às mulheres dele) com as escolhas que toma e que não o beneficiam nada, pelo contrário, só o afastam mais dos seus objectivos, e tudo devido à sua teimosia e orgulho de viking. Por outro lado, Alfred, um rei inteligente, reconhece nele o trunfo de ter ao seu lado um guerreiro que compreende o inimigo, um conhecimento inestimável à altura. Gostei desta temporada principalmente porque se nota um grande cuidado na caracterização histórica, desde o guarda-roupa à comida e aos interiores. A grande batalha do último episódio é épica, está muito bem coreografada e percebe-se. Por falar nisso, muita gente comparou esta série, no início, a "Guerra dos Tronos", mas eu notei mais semelhanças com "O Senhor dos Anéis". Ou melhor, dando a volta toda até ao princípio, estes acontecimentos históricos é que inspiraram Tolkien, que por sua vez inspirou George R. R. Martin e todos os autores de Fantasia, assim é que está certo. "The Last Kingdom" vale mesmo a pena ver por todos os amantes de História e do período viking em particular. Voltarei a esta série quando terminar de vê-la, se se justificar.
Este foi um dos filmes mais aterradores que vi nos últimos tempos, se calhar porque podia mesmo acontecer. Um jovem casal, Dani e Christian, decidem visitar um festival de verão tradicional da Suécia na companhia de colegas de universidade de Christian, todos estudantes de antropologia. O convite vem de Pelle, um colega sueco que lhes promete uma experiência inesquecível numa comuna hippie e isolada da civilização onde o Solstício de Verão é celebrado à antiga. Quem conseguiu ver a porno-turtura de “Vikings” já está a adivinhar o que vai sair daqui. Quem não conseguiu, aconselho a que não veja este filme também. A princípio é tudo “rosas”, sol da meia noite e muitas drogas, muitas delas naturais, e trajes brancos com grinaldas de flores. No entanto, alguns “pormenores” ao canto do écran começam a dar-nos a sensação de que algo está muito errado. Por exemplo, um urso numa jaula minúscula. Quando os turistas perguntam a Pelle o que é aquilo, a resposta é um encolher de ombros: “É um urso”. E a mesma resposta é casualmente dispensada sempre que os recém-chegados fazem perguntas sobre aspectos inquietantes da festividade. Não quero estar aqui com spoilers, mas o que mais me aborreceu foi o facto de estes estudantes de antropologia serem tão ignorantes (até mesmo idiotas) quanto ao que se estava a passar. (Na Europa é proibido manter animais selvagens em cativeiro, muito menos numa jaula minúscula, por exemplo.) Outro jovem da comunidade também estava a estudar fora do país e traz com ele um casal de britânicos, igualmente estudantes. Assim que a festividade começa a envolver suicídios rituais, os britânicos, chocados, decidem ir-se embora, mas fazem tal escarcéu, em vez de fugirem sorrateiramente, que não vão longe. Já os americanos deixam-se convencer de que aquilo a que estão a assistir é uma forma de vida (e morte) alternativa e decidem mesmo basear a tese de curso na festividade. Tanta credulidade só tem uma explicação, a duplicidade de Pelle, membro da comuna hippie, que se fez passar durante anos por um estudante normal e evoluído quando o seu objectivo era recrutar convidados (vítimas) para o ritual. É natural confiarmos em alguém que nos parece igual a nós e que em nada nos faz pensar que pertence a um culto pagão radical. Sem mais spoilers, há alguns conselhos que podemos tirar disto tudo, alguns dos quais eu já aplico na minha vida há muitos anos e ainda aqui estou: 1) nunca se ponham numa situação em que vão para um local tão remoto que dependam de transportes alheios para sair de lá 2) nunca tomem drogas / álcool ou algo que vos faça perder a lucidez nessa situação remota onde não conhecem a maioria das pessoas 3) se as coisas começam a meter sacrifícios de sangue, fujam 4) fujam sorrateiramente 5) quando as coisas começam a cheirar mal é porque há merda da grossa
Para uma série que andou por aqui durante sete anos e que teve 90 e tal episódios, o que tenho a dizer é muito breve. Vi o final de “Vikings” com aquele alívio “acabou, acabou, acabou” de ser libertada de um vício prejudicial. Ou melhor, era incontrolável como olhar para um desastre rodoviário: sangrento e horroroso. Confesso que cheguei a pensar, no fim da quinta temporada e devido ao grande hiato que aconteceu entretanto (por alguma razão passaram meses, um ano inteiro, sem aparecer na televisão?), que a série tinha acabado por causa da pandemia, e ainda bem, porque eu não queria tornar a vê-la. A minha primeira opinião não mudou, pelo contrário, foi piorando ao longo das temporadas. “Vikings” queria ser a história de Ragnar Lothbrok e dos seus filhos, todos eles míticos e propícios a serem romanceados, mas a crítica é unânime quanto ao facto de que o enredo andou muito perdido após a morte de Ragnar, e nunca tornou a encontrar-se. Isto não era inevitável, foi simplesmente um caso de não se conseguir estabelecer os filhos de Ragnar como personagens sólidas. Tirando, talvez, Ubbe, aquele que consegue chegar mais longe, embora os seus feitos (na narrativa da série) tenham ficado em completa obscuridade. Ivar o Sem Ossos era demasiado sádico para que pudéssemos sentir empatia por ele; Hvitserk andou perdido num inferno de motivações contraditórias e dependências incapacitantes (pese embora a óptima interpretação de Marco Ilsø); Sigurd Snake in the Eye, coitado, desapareceu antes de aparecer. E Bjorn, filho mais velho de Ragnar e Lagertha, nunca conseguiu escapar à sombra do pai excepto no campo de batalha, tornando-o um personagem oco e fácil de esquecer. A certa altura a série sacrificou o enredo e as personagens pela sumptuosidade dos cenários e nunca mais saiu dali. Não é difícil de entender. As reconstruções históricas são fabulosas. Eu própria já só assistia por causa delas. Nem me importo que quase nada tenha acontecido em Paris, na Rússia, até na Arábia (?) onde me parece que Bjorn foi parar durante alguns episódios. Só faltou termos visto Bizâncio. Esta é uma série que não precisa de enredo: vê-se só pelo espectáculo. A porno-tortura continuou, ou não fosse uma série de Michael Hirst, até ao último episódio, em que ele próprio pôs o pé no travão. Talvez Michael Hirst receie não ter espectadores se não houver bastante porno-tortura. Mas agora, finalmente, após ver a sexta e última temporada, compreendi o que é que Michael Hirst deseja mesmo fazer. Michael Hirst quer criar as suas próprias cenas shakespearianas. E, devo admiti-lo, é nas cenas shakespearianas que ele brilha: nos monólogos e diálogos “to be or not to be”, nos momentos de surrealismo meditativo, no Vidente que volta do túmulo para fazer profecias, nas visões de Cristo no campo de batalha, no momento em que o drogado Hvitserk alucina uma serpente rastejante, monstruosa, e julga que é Ivar que veio para o matar. A sexta temporada foi cheia destes momentos e foi a melhor, na minha opinião, que adoro surrealismo. A porno-tortura continuou e, como sempre, foi escusada. A incursão na Rússia, por exemplo, que tinha por objectivo humanizar Ivar. Menos porno-tortura antes e as atrocidades a que ele assistiu teriam tido verdadeiro impacto. Assim? O que é que ele viu que ele próprio não tivesse feito? Sim, compreendo, o efeito de espelho. Mas, no fim de contas, parece que Ivar não mudou assim tanto, simplesmente se tornou mais contido. Nem teve tempo de mostrar o que tinha mudado, na verdade. Então, de que valeu? A viagem à Rússia valeu pela arquitectura, pelas paisagens, pelos trajes, pelas cerimónias. Se isto é um elogio a uma série que devia ter enredo? Não é. Mas vê-se mesmo sem ele. “Vikings” podia ter sido uma série grandiosa, mas auto-sabotou-se. Hirst esqueceu-se completamente do que dá vida a uma boa história: boas personagens, sólidas e consistentes. A partir daí foi tudo por água abaixo. Salvam-se os cenários. Também não gostei do último confronto: deus cristão contra os deuses nórdicos. Não me parece plausível nem histórico. “Vikings” devia passar-se no século VIII mas foi sempre uma amálgama dos séculos VIII e IX. Mesmo assim, ainda não era o tempo das Cruzadas, das Jihads, das guerras religiosas. Este ainda era o tempo em que a Igreja era perseguida, não perseguidora. Era o tempo em que toda uma nação se convertia porque o monarca se decidia converter. O povo não se importava desde que a sua religiosidade se mantivesse. E foi assim que a Igreja teve de transformar as celebrações pagãs em dias santos, e é por isso que celebramos o Sol Invictus junto ao Solstício. Para as gentes do século VIII e IX o deus cristão não era o bicho papão que é agora. Isto foi anacrónico (à frente do tempo, neste caso). Hirst conseguiu pelo menos uma coisa: Ivar, Ragnar, Bjorn, Lagertha, não serão esquecidos pela geração que assistiu a “Vikings”. Esse desejo de Ivar, no mínimo, foi atingido. Mas eu ainda queria ver esta história bem contada. Os filhos de Ragnar não se perderam assim tão facilmente na obscuridade do mito. Gostei de Ubbe e da sua chegada à terra misteriosa a Oeste. Historicamente não foi ele, mas é sempre empolgante.
Como diria Kurt Vonnegut, um elemento primordial de uma boa história é ter pelo menos um personagem por quem torcer. Não precisa de ser o protagonista. Até pode ser o vilão. Há casos em que os personagens são todos tão maus, moralmente falando, que uma pessoa torce pelo vilão que tem mais hipóteses de acabar com eles. Como na Guerra dos Tronos, em que estou a torcer pelos zombies desde a primeira temporada. E depois há casos em que o vilão é mais interessante e moralmente superior do que os protagonistas, como Battlestar Galactica, em que igualmente comecei torcer pelos Cylons desde a primeira temporada.
E depois há coisas como Vikings, em que não se consegue torcer por ninguém. Ninguém. Ninguém. Nem protagonistas nem vilões, ninguém merece nada de mim. São todos tão maus, moralmente falando, que dou por mim a ver a série como visita de estudo ao século VIII: as roupas, as casas, a tecnologia (ou falta dela). E pouco mais. Vikings, série original do canal História, foi promovida como reconstrução histórica mas já me causou dúvidas bastantes para não a considerar assim tão rigorosa que se deva levar muito a sério.
Não me refiro ao protagonista. Ragnar Lothbrok é uma figura tão histórica como mítica. Tudo indica que existiu um Ragnar, mas os pormenores são tão lendários (até contraditórios) que não se sabe onde acaba a realidade dos relatos e começa a ficção dos sucessivos cronistas. Um pouco como o nosso Viriato. Existiu (?...), mas não se sabe quase nada sobre ele. O tipo de personagem histórica e lendária completamente propícia a ser romanceada.
O que me causa perplexidade é a tentativa de fazer os vikings tão monstruosos que custa ver seres humanos naquela gente. Um pouco como noutros séculos se descreviam os selvagens canibais. Tenho encontrado críticas bizarras em que se dizem coisas do género “a sociedade viking é-nos completamente estranha, mas conseguimos reconhecer nas personagens traços humanos e comuns como a luxúria, a inveja, a ambição”. Estas coisas são ditas para sublinhar a humanidade dos personagens. Isto é que é bizarro. Parece que estamos a ver uma série sobre alienígenas que até têm algumas coisas em comum connosco, humanos. Mas a verdade é que as críticas são bizarras porque a série se presta a isso. Tal é o exagero que é preciso esgravatar muito para encontrar nestes vikings alguma coisa que nos lembre que são seres humanos e não um qualquer povo ficcional de uma obra de Fantasia (eu diria Orcs, só que mais bonitos). E é por isso que não consigo “ir à bola” com a série. Demasiadas coisas em que a bota não bate com a perdigota.
Comecei a investigar, e descobri que o criador desta série, Michael Hirst, é um meu “conhecido”. Este foi o mesmo que tornou Os Tudors em tal porno-tortura que me estragou todo o prazer em ver a série. Muito antes de Guerra dos Tronos, muito antes de Spartacus, Os Tudors foram a primeira série de televisão em que vi porno-tortura descarada. Desconfio que este senhor tenha alguma coisa a ver com as tendências televisivas que se seguiram e que me têm estragado o prazer como espectadora. (Pode não ter sido só ele, mas *também foi ele*, motivo suficiente de rancor.) Mesmo assim, Vikings ainda não conseguiu ser tão psicologicamente doloroso como Os Tudors, o que é dizer qualquer coisa. E se calhar não conseguiu precisamente porque, ao contrário d'Os Tudors, baseado em pessoas reais, estes personagens quase nem parecem humanos. É como ver Orcs a chacinar outros Orcs. Ou seja, a série não me consegue afectar tanto emocionalmente porque os personagens estão tão mal concebidos que me custa interessar por eles. A juntar à porno-tortura, é basicamente porno-tv.
Apesar da pornografia sangrenta, a série consegue ver-se porque o enredo é minimamente interessante e baseado em acontecimentos reais.
Mas passo a explicar melhor porque é que a bota não bate com a perdigota.
Athelsthan
Oh, Athelstan, que grande desilusão me saíste! Athelstan podia ter sido o meu personagem preferido (o único por quem torcer). Monge raptado num saque viking e levado para casa de Ragnar como escravo, Athelstan foi os “nossos” olhos na sociedade pagã para que foi transportado, em que todos os valores são diferentes, alguns até opostos, à civilização cristã que é a dele (e a nossa, salvo os séculos que nos separam). Na estupefacção de Athelstan, no horror e repulsa que lhe causa o que observa, reconhecemos o nosso horror e repulsa. Sabemos que a vida de Athelstan pode estar por um fio e temos de torcer por ele. Mesmo quando, desenvolvendo um gigantesco caso de Síndrome de Estocolmo [se eu quisesse fazer uma chalaça chamar-lhe-ia Síndrome de Kattegat], Athelstan começa a “tornar-se” viking também. Inclusivamente participa numa batalha em que o pacato ex-monge se atira à chacina como antes se dedicava aos pergaminhos do mosteiro. Incoerente? Se Athelstan tivesse alguma inclinação pelas armas não teria escolhido uma ordem monástica de monges guerreiros? Talvez não, porque este seu novo “papel” na sociedade viking lhe garante a sobrevivência e, por último, a liberdade. Até aqui tudo consistente.
Mais tarde, Athelstan acompanha Ragnar a um saque na Inglaterra e por lá permanece, onde conhece o rei Ecbert. Começa logo aqui a inverosimilhança histórica. Acusado de ser um herege (devido à sua “conversão” ao modo de vida viking) a igreja decide crucificá-lo. Crucificá-lo, a um herege, como a Cristo, quando segundo a lenda até São Pedro pediu que o crucificassem de cabeça para baixo porque não merecia morrer como Ele?! Os criadores da história juram que encontraram pelo menos um relato de crucificação de um herege, e tendo em conta que era o século VIII e a informação não circulava muito bem, até acredito que um bando de energúmenos nunca tenha ouvido falar do caso de São Pedro (cuja morte não é contada na Bíblia) e tenha achado boa ideia crucificar um herege com a morte de Cristo. É possível. Improvável, mas possível.
Em Wessex, o rei Ecbert novamente coloca uma espécie de Síndrome de Estocolmo sobre a cabeça de Athelstan: salva-lhe a vida em troca de este traduzir pergaminhos romanos enquanto Athelstan mantiver o trabalho em segredo, uma vez que a igreja não aprovaria este interesse por literatura pagã. (Nem me parece que a ameaça fosse necessária porque o próprio Athelstan sabe os riscos que corre, mas vamos considerar que assim a série mantém o conflito aceso.) Athelstan está, portanto, nas suas sete quintas, a traduzir palavras dos filósofos e imperadores romanos.
Eis quando Ragnar aparece outra vez e lhe diz: “Quero que voltes”. E Athelstan volta só porque Ragnar pediu.
Oh Athelstan, que parvoíce foi essa?! Ragnar queria sacrificar-te aos deuses nórdicos, Athelstan! E tu trocas o trabalho histórico com os pergaminhos romanos por uma cultura de analfabetos?! Por uma vez na vida faço minhas as palavras do Floki, quando viu Athelstan de regresso a Kattegat: “Porque voltaste? Ninguém te quer aqui!” Nem mais! Athelstan, sei que não estavas muito bem em Wessex, e que vivias num mundo medieval e brutal, mas entre Wessex e Kattegat foi como saltar da frigideira para o lume. Não percebo e perdi todo o respeito por ti. Um homem como tu, aberto a novas culturas e não completamente avesso a pegar em armas, devia era ter fugido para a Península Ibérica sem olhar para trás. Foge, Athelstan, foge para a Moirama! Converte-te ao Islão (pelo menos têm o mesmo Deus), arranja um harém de odaliscas, treina o sabre, e verás o manancial de conhecimento que os Árabes guardavam nesse tempo e como apreciariam um monge que sabia falar latim, possivelmente grego, inglês (da época), francês (da época), e a língua viking. Athelstan, até te chamavam um figo! Em vez de fugires para onde te apreciem, vais de cavalo para burro de volta para a barbárie. Enfim, que dizer? És uma desilusão e não posso torcer por quem não torce por si próprio.
Até tenho a teoria de que secretamente o que Athelstan mais procurava era tornar-se mártir, o que explica também a sua fascinação pelo bilhete directo para o Valhalla oferecido pela cultura viking. Athelstan, como bom monge cristão, também quer um bilhete directo para o Céu.
Apesar de tudo, Athelstan continua a ser o personagem que mais me interessa. Foi extremamente divertido vê-lo alucinar, especialmente o diabo debaixo da cama. (Há muitos espectadores que detestam visões e alucinações, mas não me conto entre esses. Quanto mais visões e alucinações melhor.)
Floki
A minha antipatia por este personagem foi imediata, instintiva e visceral. Chamem-lhe elitismo, mas ver um gajo sanguinário apresentado com um visual de gótico drogado do início dos anos 80 não me caiu bem. Nem sequer foi a questão de que Floki me pareceu, desde a sua primeira aparição, como estando sempre em alta trip de cogumelos. Nem sequer a de parecer completamente alucinado mesmo sem cogumelos, isto é, maluquinho da cabeça. É mesmo a questão de ser sanguinário. Isto se calhar não me incomodava tanto se os outros vikings usassem maquilhagem semelhante, mas não usam (excepto os sacerdotes, mas Floki não é um sacerdote), e não percebo o que é que os criadores da série queriam com aquilo. Conquistar uma audiência gótica? A esta gótica conseguiram foi criar repulsa.
Por alguma razão que me ultrapassa, Floki tornou-se imediatamente um favorito do público (do público que se calhar nunca viu e delirou com o artigo original). Eu não gostei de ver imagética gótica misturada com violência (nada existe menos gótico do que a violência) e nada me tira daqui.
Considerações pessoais à parte, também neste personagem a bota não bate com a perdigota. Floki é apresentado como um pagão fanático e anti-cristão, o que soa estranhíssimo. Nunca foram os pagãos que tiveram problemas com os cristãos. Os pagãos adoravam vários deuses e conseguiam sempre admitir mais um. (Os Romanos, por exemplo, tinham uma estátua ao Deus Desconhecido.) Foram sempre os cristão a ter problemas com o panteão de deuses pagãos e a tentar impor o Único. Acredito que com o passar do tempo, e ao conhecer o fanatismo cristão, os pagãos tenham ganhado ódio aos cristãos (e com razão). Mas aqui bate o ponto. No início da série Floki não tinha tido contacto suficiente com a cultura cristã (e muito menos com o seu pior) para a odiar como a odeia. Este ódio fanático é inexplicável (o que é que ele tem contra o deus dos cristãos, afinal?), anacrónico (antes do tempo) e inversamente reflectido (são os cristãos que querem converter todos os pagãos, não ao contrário). O ódio religioso de Floki aparece sobretudo como motivo de conflito para a série, mas peca pela inexactidão histórica. Afinal a série era histórica ou nem por isso?
Lagertha
Quem é que não gosta de Lagertha? Lagertha é a boa mãe, a boa esposa, a boa soberana, a boa guerreira, a boa viking, e, não bastando, ainda é boa como o milho. Só é pena ser hipócrita.
Nota-se, principalmente na primeira temporada, uma tentativa dos criadores da série de tornarem mais simpática ao público moderno esta cultura bárbara de gente que matava, pilhava e violava. Lagertha é um grande exemplo desta tentativa, a personagem feminina forte, independente e “sexualmente liberada” que forçosamente agrada às espectadoras do séc. XXI. Infelizmente, ao fazê-lo, os criadores criaram-lhe uma inevitável incoerência. Durante um saque, Lagertha chega a matar um dos seus próprios companheiros quando o apanha a tentar violar uma mulher saxã. O que só lhe fica bem. Mas qual é a verosimilhança de que Lagertha se importasse, se de facto participasse frequentemente em pilhagens e ataques? Ou Lagertha só se importa quando acontece à frente do seu nariz? Muito improvável, tudo isto. Ou Lagertha é hipócrita ou fecha os olhos quando não lhe convém ver. Mesmo admitindo que haveria entre os vikings mulheres guerreiras (facto não consensual na comunidade histórica) estas deveriam ser tão impiedosas como os homens (ou tal não seria a discussão no acampamento viking!). A existirem, estas mulheres deveriam estar habituadas a ver as vítimas como um “outro” não-humano, como presa (um pouco como se faz militarmente em que se usam os termos “alvo” e “danos colaterais” para não falar de pessoas). A posição de Lagertha contra a violação de outras mulheres, que a torna apelativa ao público, é ao mesmo tempo o que a torna hipócrita. A série bem quer, mas não consegue fazer milagres. E novamente não bate a bota com a perdigota.
Ragnar
Ragnar sofre das mesmas incoerências que apontei a Lagertha. Na tentativa de estabelecer um mínimo de empatia entre o protagonista e a audiência, Ragnar nunca é visto a cometer os actos piores a que os vikings se entregam. Quer sejam pilhagens, violações, torturas aos saxões indefesos, Ragnar mantém-se sempre à parte e bem longe dos pormenores mais sádicos e mesquinhos. No mundo real, os próprios companheiros o acusariam de se achar superior, mas na série tal afastamento nunca é colocado em questão. Por vezes, até parece bondade a mais. Lembro-me da cena em que se vê o bonzinho Ragnar a tentar esconder uma criancinha do barbarismo dos seus companheiros. Aqui, Ragnar está infectado da mesma hipocrisia que cega Lagertha. Enquanto salva a criancinha, não se preocupa que muito perto os pais da criancinha estão a ser chacinados e não se sabe se haverá mais alguém que tome conta dela num mundo em que ser órfão era dos piores destinos possíveis. Mas a cena funciona e até pensamos “que homem tão bom, tão ternurento!”. Só é pena ser um carniceiro.
Se durante os saques Ragnar é higienizado para consumo moderno, entre vikings não há qualquer escrúpulo em mostrá-lo como é de facto.
Qualquer vestígio de simpatia que o personagem me tivesse conseguido conquistar foi-se com o enredo envolvendo o seu inimigo Jarl Borg. Nem sequer foi a execução pornograficamente brutal, foi a falta de palavra. Ragnar convida o seu inimigo a sua casa prometendo-lhe tréguas. De boa fé, Borg aceita. Na calada da noite, Ragnar vai buscá-lo à cama, na presença da sua mulher grávida, e prende-o até ao dia em que decide executá-lo. Ora, Borg não é nenhum santinho, mas a má-fé e a desonestidade de assassinar um convidado debaixo do tecto do anfitrião não me podia cair pior. Pode ser a minha matriz ocidental judaico-cristã e pós-Romântica, mas tudo isto me pareceu desonestidade, cobardia e estupidez.
Mesmo esquecendo a minha cultura e tentando compreender a deles, continua a não fazer sentido. Se os golpes baixos eram tão comuns e tão socialmente aceites, Jarl Borg teria sabido disto e não teria aceitado o convite-armadilha de tão boa-fé. O facto de que aceitou (não sendo um anjinho nem um idiota) prova que este tipo de armadilhas não era comum. Ou era, e foi mostrado como se não fosse, o que em termos narrativos ainda é pior. (Novamente, a bota não bate com a perdigota.)
Mas voltando a Ragnar. Ao fazer isto, o personagem mostra não ter palavra (mau, muito mau!), e mostra cobardia (péssimo num líder viking, e ainda por cima injusto para o personagem, porque Ragnar consegue o seu título de Jarl precisamente num duelo corpo-a-corpo com o Jarl da altura e basta olhar para o físico dele para termos a certeza de que também dava cabo do Borg da mesma maneira), e mostra estupidez (vamos admitir que Ragnar quer ser maquiavélico: melhor do que assassinar um inimigo dentro de casa é mandá-lo matar na viagem, sem dar aspecto de mau anfitrião e de homem sem palavra, e sem sujar as mãos). Mas acho que era mesmo isto que os criadores da série queriam: mãos sujas, sangue a jorros, choque e porno-tortura. Não importa que o personagem pareça incoerente, mentiroso, desleal, cobarde e não muito inteligente. Na minha opinião, Ragnar até não merecia isto. Carniceiro sim, mas tudo o resto não.
Outra das falhas da série, na minha perspectiva, foi nunca terem explicado para que é que os vikings querem o ouro roubado. Ragnar diz, logo no primeiro episódio, que não adianta continuar a pilhar as terras a leste porque “são tão pobres como nós”. É esta a motivação que o impele a dirigir-se para oeste, de onde se ouve falar de tesouros fabulosos. Numa altura em que o dinheiro é praticamente inexistente, isto leva-nos a pensar que o saque tem de ser comerciado com alguém. Infelizmente, nunca vemos este comércio. Na minha opinião, seria mais interessante e educativo do que mais uma cena de porno-tortura.
Concluindo, esta é uma série que vejo por interesse mórbido, e para poder vir para aqui dizer mal. Não há uma única personagem com quem me consiga identificar minimamente (até o Bjorn, enquanto puto, se mostrava tão sanguinário como o pai) e por mim podiam bem morrer todos que o mundo até ficava melhor. Como não tenho por quem torcer, estou a torcer contra todos. Se calhar também sou uma grande sádica.
Uma última nota para os penteados: com aquelas rastas e aquelas tranças, a maioria dos personagens parece preparado para ir ao Festival Sudoeste. Excepto o Floki, que está sempre pronto para o Entremuralhas. Visualmente muito giro; historiamente delirante.
Mas falando de música, a música é boa. Adoro a canção “If I had a heart” dos Fever Ray e os temas folk dos Wardruna. Aconselho toda a gente a dar-lhes um ouvidela mesmo que não vejam a série.