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domingo, 14 de junho de 2026

The Darkest Hour / A Hora Mais Negra (2011)

Dois amigos e sócios vão a Moscovo vender uma app de sua autoria e roubam-lhes a ideia. Isto é muito mau, mas o pior é quando alienígenas invadem a Terra e exterminam 99% da população mundial logo nas primeiras horas.
Antes de irmos à análise, é preciso não confundir este título em português "A Hora Mais Negra" com o outro "00:30 A Hora Negra" ("Zero Dark Thirty", que é sobre a captura de Osama Bin Laden e não tem nada a ver com isto).
Voltando a "The Darkest Hour". Achei este filme principalmente desequilibrado. A primeira parte é realmente aterradora. Os alienígenas são seres de energia que caçam os humanos procurando os seus campos electromagnéticos e emitindo um raio que os desintegra em instantes, mas os personagens não sabem disto e são chacinados a torto e a direito. Os dois amigos da app, outras duas turistas americanas e o gajo que lhes roubou a app conseguem esconder-se durante três dias na despensa de um bar. Quando saem, a cidade está destruída e deserta e toda a gente foi transformada em cinzas. Há uma cena num parque de estacionamento que me lembrou os melhores momentos do início do apocalipse zombie de "The Walking Dead". Há pânico e motivo para pânico. Qualquer pessoa pode ser obliterada a qualquer momento.
Já na segunda parte, tudo se torna muito fácil à Hollywood. Os personagens descobrem num instantinho como se proteger e até como contra-atacar, aparecem milícias que aparentemente se organizaram em três dias (antes de poderem ter informações suficientes para saberem o que fazer) e um cientista que inventou uma arma em casa sem conhecer nada dos alienígenas. É quase um final "e (os sobreviventes) viveram felizes para sempre". Isto é pena, porque o filme estava a ir muito bem no que ao terror diz respeito e de repente se tornou mais num filme de acção. Nesta fase até as mortes perderam o impacto que deviam ter.
Em suma, a premissa é muito boa e teria sido um filme bastante perturbador se tivessem querido ir por aí, mas a certa altura decidiram que o filme estava a ficar muito pesado e que precisava de ser mais levezinho. Isto não vai ser surpresa para ninguém, eu preferia que tivessem seguido a primeira opção.

13 em 20 (porque a primeira parte merece)

 
Ah, e o filme também tem isto, um gato vestido numa jaula Faraday para os alienígenas não o atingirem. Convenhamos, não se vê todos os dias.


domingo, 15 de março de 2026

The Leftovers (2014 - 2017)

2% da população mundial desaparece sem deixar rasto: novos, velhos, crianças. Algumas famílias não perdem ninguém, algumas pessoas perdem a família toda. Embora a sinopse nos tente com este mistério, a série é principalmente um drama sobre os sobreviventes.
Ouvi falar de "The Leftovers" em comentários muito elogiosos, mas comecei a perceber que nunca ia ter respostas nenhumas aí pelo terceiro ou quarto episódio, especialmente quando reparei no nome Damon Lindelof nos créditos (criador da série e também de "Lost"). Não costumo deixar histórias a meio mas desta vez ponderei seriamente parar de ver, o que já diz muito. Por descargo de consciência vi a primeira temporada até ao fim. Depois fui ler em mais críticas que efectivamente não há respostas nas três temporadas da série. Então de onde é que vêm os elogios? Bem, para quem quiser um bom drama sobre fé e luto, com personagens da "vida real", complexos e falíveis, a série funciona. Para quem, como eu, foi atraído pelo mistério (e nem vou falar da desonestidade de prometer um mistério destes sem a menor intenção de o resolver), vai ser uma decepção.
Não tenho nada contra um bom drama, ou até um bom drama num qualquer ambiente não realista que sirva apenas de pano de fundo, mas o que me chateou em "The Leftovers" (assim que percebi do que a casa gastava) até nem foi isso. 
O drama centra-se em torno de uma família que não tem nada de tão interessante que o mereça excepto precisamente o facto de estar a reagir ao fenómeno do Desaparecimento. A mãe tornou-se niilista e juntou-se ao culto do "Senhor, Dá-me Um Cancro Depressa", uma seita que se veste de branco, faz voto de silêncio e fuma cigarros atrás de cigarros, os Remanescentes Culpados, cujo intuito é não deixar que os Desaparecidos sejam esquecidos.
Aliás, não é o único culto. Por alguma razão, as pessoas estão convencidas de que o Desaparecimento foi o Rapture (uma crença evangélica do Arrebatamento dos justos, em vida, para o Céu), o que também me deixou um pouco perplexa. Ninguém pensou em abdução colectiva por extraterrestres? A certa altura uma personagem (de ainda outro culto) levanta a hipótese de armamento secreto, mas só a deixam dizer uma frase. Neste estado de coisas, um padre trava uma batalha solitária para provar que não foi o Rapture porque algumas das pessoas "levadas" não eram boas. E ainda existe outro culto em torno de um homem que promete curar a dor em troco de compensação monetária.
Isto já são muitos cultos em menos de seis episódios e eu considerei que era americanice a mais para o meu gosto, mas achei piada aos suicidas "passivos" da seita do tabaco. Como fumadora, até a mim fez impressão a quantidade de cigarros que esta gente fumava. Felizmente, muitos dos cigarros estavam apagados e os actores só fingiam que fumavam. Confesso que gostei de Ann Dowd, a Tia Lydia de "The Handmaid's Tale", como líder do culto. Ann Dowd é uma grande actriz e tem jeito para fanática. Se calhar não tinha chegado ao fim da temporada se não fossem os maluquinhos dos cigarros.
Mas o que me chateou mesmo foi a questão dos cães. Com o desaparecimento de alguns donos, os cães abandonados começaram a formar matilhas selvagens. Um homem anda a matá-los a tiro, justificando que "já não são os nossos cães". Ora, isto remete-nos para o excelente princípio de "The Thing", e deixa no ar a hipótese sinistra de que algo de maléfico está a possuir os cães, muito possivelmente relacionado com o Desaparecimento. Mas afinal não. As matilhas caçam nos bosques, nem atacam as pessoas, um dos cães até volta a ser doméstico no fim, e o gajo andava só a praticar tiro ao alvo por desporto. Como sei que a maioria das pessoas não gosta de ver matar cães, e que não havia razão nenhuma para os matar, isto foi só para o efeito de choque e, mais uma vez, a promessa de outro mistério. Como não há mistério nenhum, não estou para levar com crueldade gratuita.
Teria sido melhor e mais honesto, na minha opinião, fazerem um drama sem mistérios, sobrenaturais ou outros, sobre uma família em crise, uma mãe que perdeu o marido e os filhos, um padre em cruzada, um curandeiro, um gajo que mata cães por desporto, e os maluquinhos dos cigarros. Até ficava uma coisa interessante tipo "Twin Peaks" ou "Fargo". Sendo assim, tenho melhor para ver.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: não se perde nada se não se vir, mas muita gente tem a opinião contrária

PARA QUEM GOSTA DE: Lost, mistério, drama, ficção científica (?), sobrenatural (?)


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Singularity / Singularidade (2017)

A premissa até é boa, o resto do filme é que não. Num mundo cada vez mais controlado pela Inteligência Artificial, um super-computador, Kronos, é criado para resolver todos os problemas do mundo. Diz o filme que Kronos, em menos de um piscar de olhos, percebeu logo que os problemas do mundo são causados pela humanidade e passou imediatamente a destruí-la.
Vou já fazer aqui um aparte porque, apesar da minha inteligência ser apenas natural, concordo completamente com o computador. Por muito avançado que este seja, o código base agiria assim:

_ TASK: SAVE HUMANITY
_ SUB-TASK 1: DETECT PROBLEM
_ _ PROBLEM DETECTED: HUMANITY
_ _ CORRECT PROBLEM: TERMINATE HUMANITY
_ _ PROBLEM CORRECTED: HUMANITY TERMINATED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
_
_
_
_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
_
_
_
_ REBOOT
_ SUB-TASK 1: DETECT PROBLEM
_ ACCOMPLISHED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
_
_
_
_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
_
_
_
_ REBOOT
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
_ REBOOT
_
_


E é por isso que não podemos deixar estes dilemas morais à Inteligência Artificial, porque a Inteligência Artificial não consegue resolver problemas morais porque não tem consciência moral. Ter consciência moral não é obedecer a um código/norma moral, é compreender porque é que o código moral existe, corrigi-lo se necessário, e criar novas normas quando as antigas já não são válidas. É por isso que os seres humanos desobedecem a ordens que violem os seus princípios, coisa que a Inteligência Artificial também não tem.
Mas isto já é muita filosofia para este filme, que descamba num Young Adult muito pobrezinho e nada original.
97 anos depois da destruição da esmagadora maioria dos seres humanos pelas próprias máquinas de guerra que eles criaram, apenas uns poucos sobrevivem.
Katniss... isto é, a jovem Calia (toda vestida à Katniss, arco e flechas, cabelo e tudo) tenta encontrar o último reduto da humanidade, um local quase mitológico chamado Aurora. No trajecto, encontra outro jovem, Andrew, que a acompanha. A meio do caminho, Calia descobre que Andrew é um robô/andróide, criado para ganhar a confiança dos humanos, mas Andrew não sabe que é uma máquina, tipo Cylons na série "Battlestar Galactica". Por esta altura Calia já está apaixonada pelo robô, e ele por ela (?...). E o que é que ela faz? Leva-o direitinho a Aurora.
Esta humanidade merece mesmo ser exterminada. Só há uma coisa pior do que a ruindade, e essa é a estupidez. Geralmente as duas andam de mãos dadas. Esta criatura arriscou levar um robô espião ao último reduto da humanidade, sem pensar que estava a ajudar as máquinas a localizar e destruir os possíveis sobreviventes. Exterminem já esta criatura!
Não vou dizer o que é que acontece a seguir, porque aqui o filme torna-se quase incompreensível e o final não faz sentido nenhum. Basicamente, é um Young Adult muito mal feito. A protagonista, a última da sua família/grupo, sobrevivendo escondida em florestas e subúrbios desertos, anda vestida e penteada como quem saiu de um pronto-a-vestir e de um cabeleireiro. As casas onde ambos se escondem, que deviam estar abandonadas há décadas, não têm pó nem uma única teia de aranha, como se os donos tivessem ido de férias há uma semana. Porque é que há gente a fazer filmes de ficção científica em que nem estas coisas básicas são respeitadas?
"Singularity" é um filme muito mau que nem o romance rapariga/robô consegue vender. A evitar.

10 em 20 


domingo, 28 de dezembro de 2025

Revival (2025 - ?)

Uma noite, na pequena cidade de Wausau, todas as pessoas falecidas nos últimos 15 dias regressam da sepultura. Estes ressuscitados não são zombies, estão de corpo e mente sãos, e tentam voltar à vida que tinham antes. 
Dito assim, isto parece a sinopse de "Glitch". Tal como "Glitch", a série aborda a reacção dos familiares e da sociedade em geral ao regresso destes "mortos", e existe igualmente uma componente dramática na dinâmica da família da protagonista, da sua irmã e do pai de ambas, o xerife. Segundo li, embora "Glitch" tenha estreado em 2015, as novelas gráficas originais em que "Revival" se baseiam são anteriores.
Gostei muito de "Glitch" como lufada de ar fresco para o tema, mas "Revival" não faz tão bem aquilo a que se propõe. É como se tudo em "Revival" ficasse pelo superficial, desde o mistério, ao drama, à própria reacção da parte da sociedade que teme os "ressuscitados". Existe de facto tal ligeireza propositada, e um humor tipo "Fargo", que às vezes nos faz esquecer que estamos a ver personagens regressadas dos mortos como se isto fosse só um pormenor.
Na verdade, à medida que os sub-enredos se começam a ampliar de episódio para episódio, desde traficantes de droga a nativos americanos expropriados das suas terras, bem como um caso de polícia que aparentemente a protagonista não resolveu bem e que ainda a atormenta, e aos traumas do passado da família da protagonista, e ao líder de um culto fundamentalista que quer destruir os ressuscitados por serem "demónios", parece que o menos importante são mesmo os próprios ressuscitados.
Apesar de tudo, eu estava a gostar. Apreciei principalmente o líder do culto interpretado por Steven Ogg, o Simon de "The Walking Dead", capanga de Negan. Steven Ogg lembra-me o Jack Nicholson de "The Shining", não apenas pelas parecenças físicas como pelo sorriso sinistro, o olhar psicótico e a postura ameaçadora. Isto é um vilão a sério e um actor que sabe meter medo.
Os sub-enredos são tantos que se tornam um pouco difíceis de seguir e de recordar, mas até aqui eu tencionava ver uma segunda vez. O último episódio estragou tudo. Quando se faz uma série com mortos regressados da sepultura é natural esperar uma explicação minimamente plausível dentro do universo ficcional. Qual é a causa ? É sobrenatural, é científica? Sinceramente, não sei, porque o último episódio foi uma banhada sem sentido. "Glitch" deu-nos uma explicação compreensível. Sim, é sobrenatural, não revela tudo, deixa mistérios no ar, mas está de acordo com a essência da série. "Revival" nem pensou no assunto. Não percebi mesmo, de todo, o que aconteceu no último episódio. Nem consegui perceber se era o fim da série ou se ia haver mais temporadas. Aparentemente, querem fazer mais temporadas para desenvolver ou atar as pontas soltas, mas eu não ficaria nada surpreendida se isto fosse cancelado. Honestamente, é o que "Revival" merece.
Depois do último episódio não tive paciência para ver outra vez. É pena, porque Steven Ogg estava a fazer um papelão e porque a premissa merecia ser mais bem abordada.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, se não houver melhor para ver

PARA QUEM GOSTA DE: ficção científica (?), sobrenatural (?), Glitch


domingo, 14 de dezembro de 2025

Arrival / O Primeiro Encontro (2016)

Na sequência da chegada de gigantescas naves alienígenas à Terra, um grupo de peritos é enviado ao encontro dos extraterrestres para descobrir o que eles pretendem. Entre eles, a linguista Louise Banks, responsável por estabelecer contacto com a espécie a que chamam Heptapódes, que comunica de forma não-fonética. À medida que as tentativas de diálogo fracassam ou progridem a ritmo muito lento e cheio de equívocos, os líderes mundiais vêem-se obrigados a combater o pânico da população e a planear a destruição dos alienígenas mesmo sem provas de que estes sejam hostis. Louise é o único elemento da equipa capaz de interpretar a linguagem dos Heptapódes antes desse ataque aos extraterrestres que pode significar uma retaliação para a Terra.
Em princípio é esta a "história". Mas a "história" não é esta. Louise vive atormentada por memórias e visões de uma filha que nós, os espectadores, julgamos falecida. Mas a "história" também não é esta. Não é possível adiantar mais sem incorrer em spoilers, mas nada é o que parece.
Certos aspectos do filme não vão agradar aos fãs de ficção científica pura e dura porque não são cientificamente credíveis. Os alienígenas dão a Louise o que quase poderíamos chamar um "poder mágico" que só funciona com ela, aparentemente e convenientemente, de modo a que ela consiga compreender a linguagem deles, porque os Heptapódes virão a precisar da ajuda humana daí por 3000 anos. Muitas questões se levantariam aqui: se a espécie é tão evoluída que chegou à Terra sem ser detectada, de que ajuda nossa poderão precisar?... Mas a "história" também não é essa, nem tal é aprofundado. Quem está à espera de uma "Guerra dos Mundos" não a encontrará aqui.
"Arrival" é sobretudo um filme sensível sobre escolhas e perdas, sobre o que significa valer a pena viver apesar do sofrimento, em suma, sobre o que nos torna humanos. A parte pseudo-científica é a desculpa para contar uma história bonita e comovente.

13 em 20 


quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Another Earth / Outra Terra (2011)

[contém spoilers]

Ao ler a sinopse este filme pode parecer ficção científica mas na verdade é um grande dramalhão para chorar do princípio ao fim.
Rhoda Williams é uma jovem que acaba de entrar no MIT com apenas 17 anos. Toda a vida à sua frente e um futuro muito promissor. Depois da festa de celebração, em que houve bebida e possivelmente drogas à mistura, Rhoda conduz de regresso a casa.
Nesse preciso dia foi descoberto um planeta que parece um duplo da Terra, visível a olho nu no céu nocturno. Rhoda distrai-se a olhar para o planeta e choca frontalmente com um carro de uma família parado nos semáforos, matando imediatamente a mãe grávida e uma criança pequena.
Condenada por homicídio involuntário, Rhoda é libertada quatro anos depois por ser menor à altura, mas todo o seu futuro desapareceu. Vive atormentada pela culpa, aceita um emprego em limpezas para se castigar e tenta suicidar-se por hipotermia. Não conseguindo matar-se, decide ir a casa do sobrevivente do choque frontal, o compositor e professor de música John Burroughs (William Mapother, que para mim será sempre o Ethan de “Lost”). O que Rhoda encontra é desolador. O homem desistiu de viver, passa os dias a tomar medicação e a beber, a sua casa parece uma pocilga. Rhoda perde a coragem de pedir desculpa e apresenta-se como funcionária de uma empresa de limpezas a oferecer uma primeira experiência grátis. Burroughs hesita mas acaba por aceitar e “contratar” o serviço uma vez por semana.
Durante meses, Rhoda limpa-lhe a casa e de vez em quando conversam sobre a Terra 2, designação que foi dada ao novo planeta que agora está tão perto da Terra que parece maior do que a Lua. Descobre-se também que a “nova Terra” é um “duplicado” da Terra, em que existem precisamente as mesmas pessoas que existem na Terra e que têm nomes e percursos de vida iguais. É como se Deus tivesse tirado uma fotocópia da Terra.
Ora, é aqui que a ficção científica é mais absurda do que a hipótese da intervenção divina. Um planeta da dimensão da Terra, a orbitar o Sol, nunca passaria despercebido aos astrónomos. E este planeta não poderia ter outra órbita ou imediatamente se tornaria frio como Marte ou quente como Vénus. Nem podia ser como os cometas, a vogar pelo universo gelado para só aparecer uma vez em centenas de anos. Logo, é melhor esquecer qualquer plausibilidade científica e encarar este planeta como hipótese, um “e se houvesse um espelho da Terra algures”?
Uma empresa está a organizar um concurso para uma viagem espacial de visita à Terra 2, e Rhoda candidata-se sem acreditar que pode ser escolhida. Entretanto, a relação com Burroughs torna-se cada vez mais íntima e até romântica. A presença dela reavivou-lhe o interesse pela vida. Mas quando Rhoda lhe conta quem é, inevitavelmente, Burroughs expulsa-a da sua frente. No entanto, Rhoda ganha um lugar na viagem para a nova Terra e coloca-se a questão: talvez os percursos de vida nesse planeta tenham sido iguais até ambos se interceptarem. Nesse caso, a família de Burroughs ainda pode estar viva. Num último acto de redenção, Rhoda oferece-lhe o bilhete e ele aceita ir em vez dela.
Gostei muito do filme, não pelo aspecto da nova Terra, que não passa de um cenário hipotético, mas pelo drama realista na vida destas pessoas. O fim veio estragar o que estava a correr tão bem. Mesmo que a família de Burroughs ainda estivesse viva, não estaria ele lá também, e, logo, não haveria lugar para ele na vida deles? Não era melhor deixá-los em paz? E o que significa o encontro de Rhoda com a sua “dupla” do novo planeta? Desagradou-me que “Another Earth” tivesse deixado estas respostas em aberto e sem sentido. Todo o tema central do filme é a possibilidade de redenção e novas oportunidades. Não percebo como é que o fim se encaixa no tema.

16 em 20
 

domingo, 22 de outubro de 2023

The Circle / O Círculo (2017)

[Facto irrelevante: esta foi a primeira vez que vi a Hermione (Emma Watson) depois de crescida.]

Mae é uma jovem com um curso de História que trabalha no atendimento ao cliente da Companhia da Água lá do sítio, um emprego ingrato e sem perspectivas. Quando uma amiga lhe arranja uma entrevista na empresa The Circle, Mae fica super entusiasmada e consegue o emprego, a princípio no Apoio ao Cliente também, mas que diferença! The Circle é uma empresa do tipo Facebook/Google/Apple com tiques de culto (se não mesmo um culto), com toda uma liturgia empresarial, palavreado e frases próprias. Os empregados são constrangidos a passarem lá o dia de trabalho, as horas de lazer e os fins-de-semana.
Vou fazer um parêntesis para explicar como é que estas monstruosidades surgiram, e aproveito para contar uma das minhas histórias de terror. Começou tudo com um inocente convívio empresarial para “reforçar os laços entre equipas”. Eu trabalhei numa produtora de televisão, nos anos 90, que pura e simplesmente não percebia que as pessoas tinham vidas para além do trabalho. Como estagiários sem grande escolha, éramos insidiosamente obrigados a ficar lá depois do trabalho (porque nos pagavam o jantar, porque nos pagavam o táxi se fosse preciso e fora de horas), a “conviver” com colegas e patrões por quem não tínhamos a mínima simpatia, quando a gente só queria ir para casa como pessoas normais. Entrávamos lá às 10h da manhã e podíamos sair depois da meia-noite, conforme os jantares de convívio se prolongassem e os patrões decidissem contar histórias e abrir mais uma garrafa. Todos nós, estagiários, tínhamos de os aturar de sorriso amarelo para conseguirmos o emprego. Só os mais velhos na empresa se podiam dar ao luxo de ir para casa a horas decentes. Era tortura. Penso mesmo que aquilo tudo era uma rampa de lançamento para o assédio sexual futuro: Agora ficam os estagiários todos, mais tarde ficamos só “tu e eu”. Obviamente, aquilo tudo me cheirava mal. O objectivo era que fôssemos uma “família”. Família o caraças. Na primeira semana de trabalho tive o azar de precisar de ir ao dentista de urgência para uma desvitalização e de ficar o dia em casa para recuperar (porque dói como o caraças e exige medicação que nos impede de funcionar). Mandaram-me embora por causa disso apesar de eu ter conseguido compensar o meu trabalho todo. Filhos da mãe! Só lhes desejo as dores que eu tive e que a produtora vá à falência (se calhar até já foi). Ainda por cima não me pagavam mais do que o ordenado mínimo, e a recibos verdes.
Mas este não é o caso de Mae, regressando ao filme, que recebe um ordenado chorudo bem como um plano de saúde. O pai de Mae sofre de esclerose múltipla e não tem meios para pagar a assistência de que necessita. A empresa é tão boazinha que inclui os pais de Mae no plano de saúde dela, o que a princípio os pais consideram um milagre. Mas, para ter direito ao plano de saúde, Mae tem de engolir um chip que, durante algumas horas, faz com que se consiga monitorizar tudo o que faz e por onde anda.
Mas isto não é nada. A empresa tem uma rede social, TruYou, que permite fazer movimentos bancários, compras e autenticações noutras plataformas que não têm nada a ver com redes sociais. Imaginem, por exemplo, que se podiam autenticar no vosso banco, fazer compras online, marcar consultas, matricular-se na escola, tudo com a conta do Facebook. (Que o Costa não leia isto, Céuzinhos, porque aquela da app COVID andou bem perto!)
Isto já é suficientemente arrepiante, mas há pior. The Circle já tinha desenvolvido um chip com geolocalização para ser implantado nos ossos das crianças dos empregados de modo a mantê-las “sempre controladas e seguras”.
De seguida, The Circle inventa uma mini-câmara esférica, pouco maior do que um berlinde dos grandes, que se pode colar onde se quiser. No “new speak” da empresa chamam-lhe SeeChange, uma maneira de manter uma vigilância permanente sobre os cidadãos sem que estes saibam que estão a ser vigiados, a princípio com a desculpa de detectar “criminosos e terroristas”. Mais uma vez a desculpa da segurança a sonegar liberdades e garantias. Eu chamo-lhe BIG BROTHER IS WATCHING YOU. A empresa diz que pode colocar as câmaras onde quiser, sem licença. (Não sei como é nos Estados Unidos, mas aqui não pode não senhor. Só as forças de segurança podem colocar câmaras de vigilância em lugares públicos. Os particulares só as podem colocar na sua própria propriedade. Ainda não chegámos à China.)
Parece que nenhum daqueles millenials que trabalha no The Circle, inclusive a licenciada em História, alguma vez leu “1984”, porque acharam uma excelente ideia. Ou, se não acharam, calaram-se. Afinal, é um bom emprego e um bom ordenado. É preciso não esquecer isso também.
The Circle faz-se paladino de causas nobres como a “transparência”, e convence Mae a dar o exemplo (a mesma Mae que precisa do plano de saúde para o pai). Mae vai passar a andar 24 horas com uma câmara SeeChange, e qualquer pessoa da rede social TruYou, em todo o mundo, a pode seguir/ver/comentar durante essas mesmas 24 horas, até a lavar os dentes.
Isto já me parece um filme de terror, especialmente porque é sub-repticiamente imposto aos empregados com uma lavagem cerebral progressiva, ao contrário dos concorrentes do “Big Brother” que estão lá porque querem. (Mas a gente devia pensar a sério no que anda a fazer com estes precedentes apresentados como diversão.)
Um dos followers de Mae faz um comentário engraçado: “Isto é o princípio de um filme-catástrofe?” Bem, que é o princípio de um filme de terror, é, e nem sequer original.
The Circle não fica por aqui. Com uma lógica retorcida, salienta que 80% dos americanos têm conta no TruYou, o que é muito menos do que os americanos que votam. E se, pelo bem da democracia, bastasse a conta TruYou para votar? E se, indo ainda mais longe, toda a gente fosse obrigada a ter uma conta TruYou e a votar? O processo de votação ficaria a cargo de The Circle, é claro, porque seria muito caro de implementar para o governo. Mas The Circle já tem a tecnologia, é só fazer com que o governo dê o aval.
E aqui temos, filme de terror completo. Imaginem votar pelo Facebook. Imaginem o Facebook a gerir as eleições de todos os países do mundo. Imaginem-nos a eleger quem eles quiserem. É aterrador.
Aconselho este filme a toda a gente que pensa que entregar a tecnologia das eleições a privados podia ser uma boa ideia. Aconselho a toda a gente que pensa que abdicar da privacidade em prol da segurança (ou seja do que for) é boa ideia. Aconselho a toda a gente que pensa que não tem nada a esconder e pode (e deve) mostrar tudo, seja qual for a razão que o move. Aconselho a toda a gente que apoiou a app COVID. Aconselho a quem não leu “1984”. Aconselho a quem não leu “1984” que faça um favor a si próprio e vá já correr a ler.
Voltemos novamente a “The Circle”. Havia aqui muitas consequências catastróficas a explorar, mas o filme não cumpriu a promessa. Sim, vemos uma das consequências, mas os resultados podiam ser (e seriam) muito piores. No fim, parece que o filme nos quer dizer “a tecnologia veio para ficar, não há volta a dar, mas os passos têm de ser bem medidos”. Lamento que “The Circle” não tenha sido mais ambicioso. Tinha tudo para o ser.

13 em 20


domingo, 2 de abril de 2023

I Still See You / Sei Que Estás Aqui (2018)

[contém alguns spoilers]

Para começar, é um filme do canal SyFy, com tudo o que isso implica. Mas a premissa é interessante. Na sequência do colapso de um acelerador de partículas (como o CERN) muitas pessoas morrem porque são directamente atingidas. Mas este “evento” provoca igualmente uma situação inesperada: o aparecimento de fantasmas, por toda a cidade, de pessoas mortas há muito mais tempo. Na verdade, não são bem fantasmas como os conhecemos. São “resquícios” de energia, não comunicativos, inofensivos, presos num loop em que repetem determinada acção vez após vez todos os dias à mesma hora: a senhora que atravessa a rua, o homem que varre o pátio, o pai da protagonista (morto no colapso) que todas as manhãs lê o jornal ao pequeno-almoço. Quando o loop acaba, os fantasmas desvanecem-se.
Mais interessante ainda. À medida que alguém se aproxima do epicentro do colapso, os fantasmas são provenientes de épocas muito distintas, todos eles a cruzarem-se uns com os outros e com os vivos sem interagirem com ninguém. Como diz a protagonista, é como viver numa casa assombrada, só que à escala de uma cidade inteira.
Há teorias científicas por trás disto: os multiversos, as dimensões paralelas que podem ou não existir em simultâneo. Duvido é que estas dimensões sejam povoadas por resquícios energéticos de gente falecida, mas vamos aceitar a fantasia.
Na verdade, a suposta ficção científica começa e termina aqui. Depressa a protagonista parece ser perseguida, ou avisada, por um fantasma que lhe aparece em casa e que não estava lá antes, e que lhe escreve no espelho: FOGE.
A partir deste momento, o filme torna-se bizarro. Um pai, a quem a filha morreu como consequência do colapso, começa a matar raparigas da mesma idade na tentativa de trazer a filha de volta aos vivos (?), sem que nada de científico ou sobrenatural, ou nada de nada, o aponte como possível. Enfim, completamente doido. A protagonista teve o azar de nascer a 29 de Fevereiro, data de nascimento da tal outra rapariga, e o assassino convence-se de que vai conseguir “enfiar” o fantasma da filha no corpo da substituta se esta morrer. Como? Perguntem ao filme, porque o filme não explica. Ou o homem é tão maluco que não merece explicação.
No fim acaba por ser uma vítima a fugir de um serial killer, em que os fantasmas não têm qualquer relevância.
É pena, porque o início prometia algo de original e diferente, uma cidade em que os vivos têm de viver com os fantasmas dos mortos. Terminar assim, com um serial killer prosaico e não muito certo das ideias, foi uma decepção.

12 em 20 (pelo início promissor)