2% da população mundial desaparece sem deixar rasto: novos, velhos, crianças. Algumas famílias não perdem ninguém, algumas pessoas perdem a família toda. Embora a sinopse nos tente com este mistério, a série é principalmente um drama sobre os sobreviventes.
Ouvi falar de "The Leftovers" em comentários muito elogiosos, mas comecei a perceber que nunca ia ter respostas nenhumas aí pelo terceiro ou quarto episódio, especialmente quando reparei no nome Damon Lindelof nos créditos (criador da série e também de "Lost"). Não costumo deixar histórias a meio mas desta vez ponderei seriamente parar de ver, o que já diz muito. Por descargo de consciência vi a primeira temporada até ao fim. Depois fui ler em mais críticas que efectivamente não há respostas nas três temporadas da série. Então de onde é que vêm os elogios? Bem, para quem quiser um bom drama sobre fé e luto, com personagens da "vida real", complexos e falíveis, a série funciona. Para quem, como eu, foi atraído pelo mistério (e nem vou falar da desonestidade de prometer um mistério destes sem a menor intenção de o resolver), vai ser uma decepção.
Não tenho nada contra um bom drama, ou até um bom drama num qualquer ambiente não realista que sirva apenas de pano de fundo, mas o que me chateou em "The Leftovers" (assim que percebi do que a casa gastava) até nem foi isso.
O drama centra-se em torno de uma família que não tem nada de tão interessante que o mereça excepto precisamente o facto de estar a reagir ao fenómeno do Desaparecimento. A mãe tornou-se niilista e juntou-se ao culto do "Senhor, Dá-me Um Cancro Depressa", uma seita que se veste de branco, faz voto de silêncio e fuma cigarros atrás de cigarros, os Remanescentes Culpados, cujo intuito é não deixar que os Desaparecidos sejam esquecidos.
Aliás, não é o único culto. Por alguma razão, as pessoas estão convencidas de que o Desaparecimento foi o Rapture (uma crença evangélica do Arrebatamento dos justos, em vida, para o Céu), o que também me deixou um pouco perplexa. Ninguém pensou em abdução colectiva por extraterrestres? A certa altura uma personagem (de ainda outro culto) levanta a hipótese de armamento secreto, mas só a deixam dizer uma frase. Neste estado de coisas, um padre trava uma batalha solitária para provar que não foi o Rapture porque algumas das pessoas "levadas" não eram boas. E ainda existe outro culto em torno de um homem que promete curar a dor em troco de compensação monetária.
Isto já são muitos cultos em menos de seis episódios e eu considerei que era americanice a mais para o meu gosto, mas achei piada aos suicidas "passivos" da seita do tabaco. Como fumadora, até a mim fez impressão a quantidade de cigarros, uns atrás dos outros, que esta gente fumava. Felizmente, muitos dos cigarros estavam apagados e os actores só fingiam que fumavam. Confesso que gostei de Ann Dowd, a Tia Lydia de "The Handmaid's Tale", como líder do culto. Ann Dowd é uma grande actriz e tem jeito para fanática. Se calhar não tinha chegado ao fim da temporada se não fossem os maluquinhos dos cigarros.
Mas o que me chateou mesmo foi a questão dos cães. Com o desaparecimento de alguns donos, os cães abandonados começaram a formar matilhas selvagens. Um homem anda a matá-los a tiro, justificando que "já não são os nossos cães". Ora, isto remete-nos para o excelente princípio de "The Thing", e deixa no ar a hipótese sinistra de que algo de maléfico está a possuir os cães, muito possivelmente relacionado com o Desaparecimento. Mas afinal não. As matilhas caçam nos bosques, nem atacam as pessoas, um dos cães até volta a ser doméstico no fim, e o gajo andava só a praticar tiro ao alvo por desporto. Como sei que a maioria das pessoas não gosta de ver matar cães, e que não havia razão nenhuma para os matar, isto foi só para o efeito de choque e, mais uma vez, a promessa de outro mistério. Como não há mistério nenhum, não estou para levar com crueldade gratuita.
Teria sido melhor e mais honesto, na minha opinião, fazerem um drama sem mistérios, sobrenaturais ou outros, sobre uma família em crise, uma mãe que perdeu o marido e os filhos, um padre em cruzada, um curandeiro, um gajo que mata cães por desporto, e os maluquinhos dos cigarros. Até ficava uma coisa interessante tipo "Twin Peaks" ou "Fargo". Sendo assim, tenho melhor para ver.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: não se perde nada se não se vir, mas muita gente tem a opinião contrária
PARA QUEM GOSTA DE: Lost, mistério, drama, ficção científica (?), sobrenatural (?)
domingo, 15 de março de 2026
The Leftovers (2014 - 2017)
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