domingo, 31 de maio de 2026

Automata (2014)

Tempestades solares transformam a Terra num deserto radioactivo. Devido à diminuição da população, a civilização depende de robôs para executar todas as tarefas. Um dia, os robôs ganham consciência de si. Mas terão desenvolvido também empatia, ou serão um perigo para os seres humanos? Para evitar este perigo, os robôs têm instalados dois protocolos: nunca fazer mal a um ser humano e nunca se alterarem a si próprios. Quando eles começam a fazer upgrades a si próprios, terão igualmente ultrapassado o primeiro protocolo?
Ou seja, estamos perante um filme "Terminator", ou outra coisa? Não vou responder porque seria estragar o filme todo. Isso é o que tem de descobrir o investigador Jacq Vaucan (Antonio Banderas), agente da corporação responsável pelo modelo de robôs que são apanhados em flagrante a proceder a reparações em si próprios e a modificarem peças. O perigo da Inteligência Artificial está aqui muito presente, e não de forma abstracta. Estes robôs, conscientes de si como "espécie", têm de facto a capacidade de dizimar a raça humana se entenderem que esta é uma ameaça para eles. E nós sabemos que somos uma ameaça para eles, ainda antes de eles o terem percebido. Será que os robôs têm o mesmo instinto de sobrevivência preemptivo que levou os seres humanos a controlar a Natureza, ou serão capazes de uma coexistência pacífica?
Nunca é muito bem explicado, mas a certa altura aparece um lugar tão radioactivo, devido à utilização de armas nucleares, que os seres humanos não poderão lá entrar durante milhões de anos. Jacq Vaucan, um homem a viver um limite existencial na sua vida privada, representa a espécie humana neste outro limite existencial colectivo. Até que ponto merecemos um habitat que já destruímos com a nossa arrogância de predador dominante? Será que o nosso tempo já passou, como diz um dos robôs, e que a espécie humana será substituída pelas máquinas que criou, o único legado humano que restará numa posteridade de que já não fará parte?
"Automata" não aborda exactamente temas originais nem pretende ser uma grande obra filosófica, mas é um filme sensível com uma mensagem de auto-reflexão que me impressionou. E impressionou-me sobretudo porque as máquinas não são capazes de empatia, mas algumas pessoas também não, então devíamos mesmo ponderar o que significa realmente ser humano. E não é ter uma inteligência superior. Isso as máquinas também têm e até nos ultrapassam. O que é que nós temos que as máquinas não têm? E quando as máquinas desenvolverem uma Empatia Artificial superior à nossa, que desculpa nos resta para justificar a nossa sobrevivência às custas do planeta e de outras espécies?
Numa das cenas fulcrais alguém pergunta ao protagonista "como é que pudeste atraiçoar a tua gente?", ao que ele responde "vocês não são a minha gente". "Automata" quer fazer-nos pensar que tipo de gente nós somos.

15 em 20

 

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