Mostrar mensagens com a etiqueta The Terror. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta The Terror. Mostrar todas as mensagens

domingo, 25 de fevereiro de 2024

The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?)

[contém spoilers]

Pensavam que “The Walking Dead” tinha acabado? “The Walking Dead” nunca vai acabar porque, como o próprio nome indica, vai andar por cá durante séculos… ou enquanto der dinheiro. Já estava na calha um spin-off protagonizado por Daryl Dixon, em que Carol, inicialmente, era suposto ter participado também.

França: mais uma personagem
Confesso, fiquei agradavelmente surpreendida com esta série filmada em França (fui confirmar) que nem precisava de enredo, bastava Daryl a matar zombies pelos fascinantes cenários franceses, mas por acaso até tem.
Comecemos pelo princípio. Daryl dá à costa em França e põe-se a deambular por lá como um peixe fora de água (passe o trocadilho). Como é que Daryl dá à costa em França? Isto pode parecer pateta mas o penúltimo episódio explica-nos o que aconteceu. (Voltarei a isto no fim.) *
Quanto mais vejo a série mais sentido faz o contraste entre o redneck (campónio) americano Daryl, um homem sem educação nem requinte que não percebe uma palavra de francês, e a cultura de milénios onde acaba de aterrar. Não estou com isto a menosprezar ou a subestimar Daryl. Pelo contrário, parece-me que a série original é que o menosprezou em favor de personagens menos interessantes, porque em “Daryl Dixon” percebemos que Daryl até pensa e diz umas coisas muito acertadas.
O que Daryl encontra ao chegar não é muito diferente do que se passa nos Estados Unidos: zombies mortos e vivos, cidades e estradas desertas, falta de recursos. O que muda é o cenário, e que cenário! A série leva-nos a muitos locais belos, mais do que eu consigo enumerar, como um convento, um castelo medieval, um palácio barroco, as Catacumbas, a paisagem campestre francesa, Paris, o cemitério de Père-Lachaise e o túmulo de Jim Morrison, o Mont Saint Michel, entre outros lugares icónicos. A Notre Dame deve ter sido inserida por computador porque, ironicamente, ardeu no nosso mundo mas não ardeu no apocalipse zombie. A Torre Eiffel, por outro lado, sofreu um choque com um helicóptero e tem o pináculo derrubado. É quase como se França fosse mais uma personagem da história. Inclusive descobrimos que o avô de Daryl morreu no desembarque na Normandia na Segunda Guerra Mundial, o que fez com que o pai de Daryl fosse ausente e negligente, no que Daryl chama “o repetir da história”. No fim temos uma cena muito emocional em torno disto.

Voltar a casa
Mas vamos ao enredo. Daryl quer encontrar uma maneira de voltar para casa, mas mete-se logo em sarilhos. Durante uma escaramuça com os novos senhores de França, os guerriers do Pouvoir des Vivants, uma força militarizada e comandada pela implacável Madame Genet, um destes homens é morto e o irmão dele jura perseguir Daryl até à morte.
Daryl é encontrado por uma freira, Isabelle, que o leva para um convento. Antes ainda da escaramuça com os homens de Genet, Daryl fica ferido por uma espécie de zombies que ele nunca tinha visto (nem nós) que têm sangue ácido e que queima. Não é explicado se isto tem a ver com as experiências com zombies que Genet anda a conduzir (já lá vamos) ou se é uma coisa completamente diferente e característica do apocalipse zombie em França. O convento de Isabelle pertence a uma nova doutrina, uma reunião de várias religiões na Union de l’Espoir (afinal o apocalipse sempre serviu para uma coisa boa), e Isabelle tenta convencer Daryl a ajudá-la a viajar para norte onde ela pretende levar o jovem Laurent, apontado como o futuro líder da Union. Laurent é um miúdo de 12 anos, muito inteligente e puro, mas igualmente ingénuo e inocente. Quando Daryl descobre que as freiras têm um zombie fechado no convento, o venerado padre Jean que morreu, decide logo ir-se embora como quem já viu esse filme (o celeiro da segunda temporada de “The Walking Dead”). Mas, na verdade, as freiras apenas estão a viver de acordo com o que acreditam, à espera que padre Jean se “erga” outra vez. Daryl vai-se mesmo embora, mas regressa quando o convento é atacado por homens do Pouvoir. Acaba por decidir ajudar Isabelle, não por acreditar que Laurent seja um Messias, mas, bem pelo contrário, por achá-lo completamente impreparado para sobreviver no mundo fora do convento. Aqui, Daryl está a tentar fazer com que a história não se repita. Esta informação sobre o avô que morreu na guerra explica-nos muita coisa sobre o personagem. Por outro lado, Daryl quer chegar ao porto de Le Havre, de onde há rumores de navios a funcionar, e parte do caminho é coincidente.

Os vilões
Entretanto, a Union chamou a atenção do Pouvoir, que os considera inimigos. Como diz Genet, a Union vende contos de fadas e cada pessoa que se junta a eles enfraquece o Pouvoir. O Pouvoir recorda-me os regimes fascizantes do século XX. Como estes, Genet chega mesmo a dizer que o impressionismo é uma arte degenerada. E, obviamente, Genet também quer “fazer a França grande outra vez”. Para isso, pretende aniquilar “movimentos de fracos” como a Union. Durante o caminho, Daryl, Isabelle e Laurent são perseguidos pelos guerriers. Laurent, porque as pessoas acreditam nele, torna-se um alvo a abater.
O Pouvoir anda a fazer experiências sinistras com zombies, injectando-lhes um líquido que os torna super-zombies (e que provoca o tal sangue ácido), sem dúvida para tentar transformá-los em armas. Geralmente não gosto de super-zombies, mas mais uma vez  “The Walking Dead” apresenta os melhores zombies de Hollywood. Estes super-zombies não funcionam perfeitamente: alguns não resistem ao soro, outros ficam fortes e rápidos mas têm espasmos e paragens, outros atacam outros zombies. As experiências não estão a correr nada de feição para o Pouvoir.
Um segundo vilão, Quinn, antigo amante de Isabelle, é o delicioso Adam Nagaitis que interpretou o infame Mr. Hickey em “The Terror”. Quinn não é tão maléfico como Mr. Hickey, nem nada que se pareça, mas Nagaitis é um excelente actor em papéis de vilão. O que ele consegue transmitir com um simples franzir de sobrancelhas ou um esgar dos lábios! Estou encantada com o actor e queria vê-lo em muitos outros papéis.
As lutas de zombies continuam a ser do melhor que há. A certa altura Daryl é obrigado a lutar com super-zombies, como num combate de gladiadores em Roma com armas medievais, e mata um deles com a bandeira de França. No contexto em que a cena se passa, é épico em todos os sentidos. Mais tarde, Daryl e Quinn são obrigados a enfrentar mais super-zombies, desta vez agrilhoados um ao outro. Uma das manobras que empregaram lembrou-me “Spartacus”, só que em “Spartacus” a pobre vítima estava muito viva. Toda a cena das correntes recordou-me também de “The Terror”. Afinal, foi por causa de Mr. Hickey e de uma corrente que o Tuunbaq conheceu a sua desgraça.

O fenómeno Dixon
Daquilo que tenho lido, Daryl Dixon é a única personagem de “The Walking Dead” que não estava na banda desenhada original. Tenho para mim que Daryl era daqueles personagens destinados a morrer logo na primeira temporada, mas, graças à performance carismática de Norman Reedus, e àquele primeiro feito heróico em que Daryl regressa ao telhado para salvar o irmão Merle (que devia ter sido heroísmo de Rick mas que granjeou mais pontos a Daryl), o personagem ganhou a simpatia do público para sempre. É um fenómeno que uma personagem não original tenha chegado até aqui, e ainda mais que tenha alcançado tal estatuto que merece um spin-off protagonizado por ele sozinho (isto é, sem mais personagens originais de “The Walking Dead”). A popularidade de Daryl Dixon é igualmente um fenómeno. Daryl tem milhões de fãs, não apenas “em casa” como da Europa à Ásia e em qualquer lugar onde haja um televisor e passe “The Walking Dead”. Como explicar que um redneck de um estado obscuro da América, um homem sem educação, sujo e de poucas falas, se tenha tornado tão amado pelos fãs? Talvez porque Daryl sempre tenha sido menosprezado pelo pai e subestimado pelo irmão, aprendendo a desenvencilhar-se sozinho desde infância, o que o preparou invulgarmente para o apocalipse. Talvez a sua vulnerabilidade escondida, que o faz isolar-se na floresta de forma anti-social porque ter amigos é sinónimo de os perder ou de ser traído por eles. Talvez o seu bom coração debaixo daquela carapaça durona. Talvez tudo isto tenha tocado os corações de todo o mundo e criado uma empatia com os fãs. É possível, nesta altura, que Daryl tenha mais fãs do que o protagonista, Rick, que já nem está na série.
Por todos estes motivos, Daryl mereceu o seu próprio spin-off num cenário deslumbrante onde ele melhor contrasta. Não sei se a série vai ser renovada, mas eu não me importava de ver Daryl numa perambulação pela Europa toda (por exemplo, aqui vemos os primeiros dias do apocalipse em França, e os primeiros dias é o que eu gosto mais de ver, confesso), mostrando-nos o apocalipse zombie no velho continente desde o Reino Unido à Noruega. E talvez, até, neste jardim à beira-mar plantado.
“The Walking Dead: Daryl Dixon” é um spin-off que se podia ver só pelos cenários mas que, ao invés disso, tem uma componente dramática que há muito tempo não se vislumbrava na série original.

* Spoiler / teoria
Daryl Dixon é levado para França num transatlântico que transporta zombies a bordo. Isto pode parecer estúpido porque os franceses não precisam de ir à América buscar zombies mas, se pensarmos que a CRM (República Civil Militar) também estava a fazer experiências com zombies em “The Walking Dead: World Beyond” para o mesmo objectivo e que a CRM tem capacidade de comunicar por rádio (e se calhar também por satélite?), será que o navio francês foi antes buscar equipamento, conhecimento, fórmulas, o tal soro? Afinal, os cientistas franceses começaram logo a fazer as experiências durante a travessia. É a minha teoria, pelo menos, porque gosto que as coisas façam sentido.


ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes (pelos cenários de França)

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies


domingo, 17 de dezembro de 2023

Nadie Quiere La Noche / Nobody Wants the Night / Ninguém Quer a Noite (2015)

Poucos filmes têm um título tão desastrado. Resultado de uma produção espanhola, belga e búlgara, o título original é “Nadie Quiere La Noche”, mas já vi traduzido para “Nobody Wants The Night” e até “Endless Night”. O título português segue o original: “Ninguém Quer a Noite”.
Isto é o perfeito exemplo de um título mal pensado, até porque não nos diz nada da história. Parece mais um filme sobre prostitutas e é o suficiente para afastar potenciais interessados. Mesmo no contexto do filme, em que a frase é efectivamente proferida, é um diálogo forçado e bizarro, algo que ninguém diria naquela situação. Começa mal.
Mas o filme é melhor do que o título e merece atenção. Esta é a história de duas mulheres sozinhas nos rigores do Árctico, a lembrar a série “The Terror”.
Josephine Peary, mulher do explorador americano Robert Peary, que alegou ter sido o primeiro a alcançar o Pólo Norte em termos geográficos, é também uma aventureira e acompanhou o marido em diversas expedições ao Árctico. Em 1908 não o acompanhou desde o início, facto que nunca é explicado. Josephine diz apenas que o seu casamento de vinte anos se baseia na busca pelo Pólo Norte (inclusivamente, ela deu à luz durante uma dessas expedições) e que, desta vez, porque tem a certeza de que ele vai conseguir o objectivo, tem de estar lá com ele.
Para tal, Josephine paga uma mini-expedição que a leve a um posto seguro muito longe da civilização, uma cabana de madeira, quando já é Julho (quase inverno em termos polares). Tal como em “The Terror”, Josephine manifesta toda a arrogância da classe alta da altura. Começa logo por matar a tiro um urso polar, com todo o orgulho e petulância, como se estivesse numa caçada na terra dela. Não quer ouvir os conselhos de que já é tarde para partir. Faz-se acompanhar de baús com roupas caras, talheres, pratos de porcelana e copos de vidro. Igualmente como em “The Terror”, o racismo e o antropocentrismo impregnam as mentalidades da época. A morte de um esquimó durante uma expedição era considerada irrelevante. Os cães não eram permitidos dentro de tendas ou cabanas, o que é um erro colossal porque os animais contribuem para o calor. Por outro lado, compreende-se esta última questão, uma vez que os cães eram vistos como fornecedores de outras comodidades…
Josephine, segundo o espírito dos tempos, força tudo e todos a atravessar um estreito de gelo movediço (onde perde o melhor guia que tem) até encontrar a pequena cabana. O seu objectivo é esperar pelo marido antes do inverno polar. Mas é demasiado tarde, como todos lhe disseram, e ele não vem. A única Inuíte que não a abandona é uma rapariga chamada Allaka, que, Josephine vem a descobrir depois, espera um filho precisamente do marido de Josephine.
Na falsa segurança da sua cabana de verão de paredes finas e janelas de vidro, embora os recursos estejam a escassear e já não haja caça, Josephine dá-se ao luxo de recusar a carne de morsa crua oferecida por Allaka. Faz mal, porque assim que chega o inverno polar, a tal noite sem fim, Josephine começa a sofrer de escorbuto. Uma tempestade de neve com fortes rajadas de vento destrói completamente a cabana e Josephine não tem outro remédio senão abrigar-se dentro do iglu de Allaka, a única estrutura que resiste.
A comida acabou-se e receei que se seguisse o canibalismo. Tal não chegou a acontecer, mas por muito pouco.
Esta é a história da amizade improvável entre duas mulheres em condições extremas, onde apenas importa a sobrevivência por todos os meios. Duas mulheres que se colocaram propositadamente naquela situação: uma por arrogância, outra por fatalismo. O Árctico não respeita motivações, nem berço ou dinheiro, nem os nativos da terra, nem sequer os animais. Como se diria em “O Terror”: este sítio quer ver-nos mortos.
Aconselho este filme a toda a gente, apesar de poder e dever ser chocante.

15 em 20

 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

In the Heart of the Sea / No Coração do Mar (2015)

O filme começa quando Herman Melville (futuro autor de “Moby Dick”) procura o último sobrevivente do estranho naufrágio de um baleeiro. O objectivo? Melville está obcecado pela baleia que terá afundado o navio, embora a versão oficial diga que o baleeiro encalhou. “Receio que se não escrever esta história nunca mais consiga escrever nada na vida, mas receio mais, se a escrever, não a conseguir escrever bem”, confessa o escritor ao antigo marinheiro, agora de idade avançada. Muito traumatizado, a princípio o sobrevivente recusa-se a falar do assunto. Só a pressão da esposa para que aceite as moedas que Melville oferece (e para que o marido finalmente desabafe) o faz finalmente contar.
“Não há nada de especial nesta história. É a história de dois homens”, relata o sobrevivente, que na altura da viagem malograda era ainda um rapaz de 14 anos.
A história que ele conta é a mais velha do mundo: um marinheiro experiente, mas de família humilde, julga que será desta vez que vai conseguir ser nomeado capitão, quando é ultrapassado por um novato de boas famílias. Uma história bastante conhecida, infelizmente, e que tem sempre os seus méritos quando é contada. Mas uma história vulgar quando de repente surge uma baleia branca de 30 metros que dá uma lição de humildade a quem se julgava amo e senhor da Natureza.
No século XIX, e o filme explica bem o contexto, o óleo de cachalote era necessário para tudo, desde a indústria à iluminação das ruas. Isto levou à caça excessiva que quase extinguiu o cachalote (e nós aqui fomos bem culpados).
Este filme lembra-me um pouco “The Terror” porque também é um conto de húbris, de arrogância e ganância perante a Natureza. Quando já não havia cachalotes nas águas conhecidas, o capitão do baleeiro aventurou-se pelas desconhecidas. Encontrou cachalotes, sim, e a baleia branca descomunal que atacou e afundou o barco. O filme não tentou dar à baleia sentimentos de “vingança” irrealistas, apenas reacção ao que já sabia ser um inimigo mortal. Toda ela foi arpoada muitas, muitas vezes, e escapou. É claro, eu estava a torcer pela baleia. Bem feita!
Os poucos sobreviventes têm de recorrer aos horrores dos náufragos, a “lei do mar”.
Gostei desta adaptação de “Moby Dick”, mais realista e ecológica. Esta vertente moderna acaba com ironia, quando um dos personagens diz que descobriram o petróleo, logo, já não era preciso matar e morrer no mar pelo óleo de baleia. Ou seja, da exploração de um recurso finito para outro. Recomendo vivamente.

15 em 20


domingo, 5 de setembro de 2021

Das Boot / O Submarino [2018 - 2020]

“Das Boot” é uma série de grande qualidade dramática passada na França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial. Ao contrário do habitual, a história é-nos apresentada principalmente através da perspectiva da tripulação dos submarinos alemães, não dos Nazis, porque muitos não o eram, mas do soldado comum que quer cumprir o seu dever para com a pátria tal como jurou fazer ao alistar-se.
“Das Boot” é uma série de guerra, sem dúvida, mas não se esgota por aí. A história assenta em três temas principais: os dilemas enfrentados pela tripulação do/s submarino/s, a opressão sobre os cidadãos da França ocupada, e a Resistência.
Frank Strasser é um operador de rádio recrutado à última hora para a viagem inaugural do submarino U-612. Strasser não pode recusar um comando directo, mas a verdade é que o jovem tinha outros planos, que incluíam a aquisição de passaportes falsos e a deserção. Pouco antes da partida, chega a La Rochelle a irmã de Frank, Simone Strasser, tradutora de ligação entre a polícia e o agente da Gestapo Hagen Forster. Frank confessa à irmã que tem uma filha com uma francesa judia e é absolutamente necessário retirá-las da França.
Na ausência do irmão, Simone envolve-se assim no submundo da ocupação, onde o inspector da polícia, Pierre Duval, oficialmente colaborador, colabora o menos possível, e a Resistência se movimenta em tentativas de sabotagem. Simone encontra-se numa situação precária quando o agente Forster se interessa por ela com intenções românticas, e esta tenta tirar partido dessa atracção de modo a fornecer informação à Resistência, um jogo perigoso que lhe pode custar a vida.
Pelo segundo episódio de “Das Boot” eu já estava completamente agarrada, a lamentar ter adiado tanto dar uma oportunidade a esta série no género Drama de Guerra. É que, geralmente, os dramas de guerra são insuportavelmente aborrecidos e não passam de momentos de acção uns atrás dos outros (tácticas, mapas, batalhas, sabotagens, explosões, tiroteios, bombardeamentos…) e de conversas entre hierarquias em que cada um puxa dos seus galões. “Das Boot” também é isso, mas é muito mais do que isso. Por exemplo, a primeira cena da série é de cortar à faca, quando vemos um submarino ser afundado e acompanhamos todo o terror da tripulação a perecer no fundo do mar. Não é nada levezinho.
Outra cena espectacular, mas realista, é o confronto de dois submarinos alemães, com ambos os capitães a tentarem infligir o máximo dano um ao outro sem se destruírem também. E mesmo assim...
Mas aqui o que importa são os dramas pessoais, o que leva as pessoas a escolherem de uma maneira e não de outra, muitas vezes em situações em que não existe uma boa escolha.
É preciso não esquecer que é uma série de guerra. A maior parte dos finais não são felizes. Mesmo tendo isto em conta, não gostei da maneira como descartaram Simone no primeiro episódio da segunda temporada, quase como se tivesse sido a actriz a pedir para sair (e se calhar até foi). Simone é uma heroína a sério, uma heroína de guerra, daquelas que recebem medalhas com honras militares. Se era para ser assim, mais valia ter tido um final épico à sua altura na primeira temporada. Sinto que fomos levados em erro, ou o argumento teve de mudar à última da hora.
Na segunda temporada, a enfermeira Margot Bostal junta-se oficialmente à Resistência e tenta salvar uma família judia passando a fronteira para Espanha. O inspector Duval, farto de colaborar, tenta ajudar também. O agente Forster não é nada parvo e desconfia de ambos. Recruta um meliante francês sem escrúpulos e coloca-o a fazer o trabalho sujo que Duval se recusa a fazer. Duval tenta avisar este anti-patriota de que os alemães o vão atirar aos lobos. Resposta: “Eu é que sou o lobo, auuu, auuu!” Sempre houve “espertalhões” (para não lhes chamar pior) que se aproveitam da situação junto do regime opressor pelo estatuto e pelo poder. Este é um destes. Nunca acabam bem.
Esta série foi patrocinada com fundos europeus. Por uma vez, os fundos europeus foram bem aplicados… Apesar de passar na AMC, “Das Boot” é falado em três línguas: alemão, francês e inglês, conforme os personagens, o que se torna muitíssimo realista e raro de encontrar (geralmente todos falam inglês).
Todas as personagens em “Das Boot” são interessantes e complexas, mas, na minha opinião, nenhuma é mais intrigante do que o agente Hagen Forster. Tudo o que ele deseja, como diz a Simone quando andava a tentar cortejá-la, é comprar uma quinta em França (até já a comprou), casar e ter filhos, enfim, levar uma vida pacata que não se coaduna com o facto de andar a perseguir judeus. Mas parece-me que ele ainda não se apercebeu disso. Depois da lavagem cerebral do nazismo, Forster está completamente convencido de que o regime Nazi é a sociedade ideal. Tão bom agente ele é que na segunda temporada um superior do Partido Nazi vem expressamente convidá-lo para comandar um campo de extermínio no Leste. Quando Forster olha para os planos de construção do campo e estranha o local onde vai ficar o crematório, o outro nazi comenta que foi uma solução genial, ou não foi? Aqui, pela primeira vez, pelo instante petrificado no olhar de Forster, compreendemos que ele não sabia ainda da “solução final”, e que fica chocado. Mas não deixa transparecer mais nada, porque o superior lhe diz que não é um convite que se possa recusar, uma vez que Forster está tão bem visto pelas chefias do Partido. Forster está demasiado envolvido na sua carreira ambiciosa para mudar de ideias, ou não estará? O final é ambíguo, pelo que não é um spoiler. O superior diz-lhe que Forster devia andar de uniforme em vez de roupa à civil. No último momento, depois de alguns acontecimentos marcantes, vimos Forster a dobrar e arrumar o uniforme dentro de uma mala bem fechada, indicando que vai partir para algum lado. Decidiu aceitar a posição no campo de extermínio, ou rompeu definitivamente com o Partido Nazi? Do que vimos nos últimos episódios, ambas as hipóteses são possíveis.
“Das Boot” é inspirado nos livros  de Lothar-Günther Buchheim, “Das Boot” e “Die Festung”.
Esta é uma série a não perder e tenciono ver de novo assim que voltar a passar na AMC.”Das Boot” é tão bom que quase compararia a série a “The Terror”, mas sem sobrenatural. Porque, afinal, quem é que precisa de monstros quando temos Nazis?


domingo, 12 de julho de 2020

The Terror: Infamy


“The Terror: Infamy” é a temporada seguinte na sequência do excepcional “The Terror”. Digo “seguinte” e não “segunda” porque a história não tem nada a ver com a da primeira. Nem a história nem a qualidade. Na minha opinião, e não sou a única a pensar assim, era bem melhor terem feito uma série diferente sem acartar o peso da temporada original. Comparar esta temporada à inicial (uma das melhores séries de terror que já vi na vida, senão a melhor) não faz nenhuns favores a “Infamy”, pelo contrário.
Não é que eu não estivesse preparada para a decepção. “Infamy” tinha uma tarefa quase impossível, estar à altura de uma série que é praticamente perfeita, a que eu só não daria 20 em 20 por ser picuinhas e pelo CGI do tuunbaq deixar muito a desejar. Dava-lhe 18 em 20, mesmo assim. A “Infamy” posso dar 14 em 20 pela parte histórica e pela cinematografia; não posso dar mais porque não merece.
“Infamy” passa-se nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, logo após o ataque a Pearl Harbor, quando os residentes japoneses foram declarados inimigos de guerra e presos em campos de concentração. Esta é uma passagem da História da América que só recentemente começou a ser discutida abertamente, e é actualmente considerada uma infâmia. Não foram aprisionados apenas os imigrantes japoneses como também a segunda geração, isto é, cidadãos plenamente americanos nascidos e criados nos Estados Unidos. Todos foram arrebanhados das suas casas e enfiados em barracas sem condições nem dignidade, em campos com arame farpado sob custódia do exército, a lembrar os judeus na Alemanha mas sem as câmaras de gás. Nesta série participaram muitas pessoas que estiveram nesses campos eles próprios, ou que são descendentes. O tema de ”Infamy” é muito bom e teria sido melhor fazerem um drama histórico em vez de uma série de terror porque, honestamente, foi a parte de terror que estragou tudo.
O que se salva em ”Infamy” são precisamente os pontos que tem em comum com a temporada original. Tal como no caso das tripulações do HMS Terror e do HMS Erebus no mar árctico, estas pessoas também já estão a viver um filme de terror sem ser preciso o sobrenatural a piorar a situação.
Tal como em “The Terror”, o sobrenatural é exótico e tem a ver com a cultura dos protagonistas. O tuunbaq, no primeiro caso, o yurei aqui, um espírito vingativo que consegue levantar o próprio cadáver da sepultura ou possuir pessoas conforme isso sirva o seu objectivo.
E, tal como em “The Terror”, existe o uso das fotografias distorcidas a indicar que algo de sobrenatural e ameaçador está prestes a acontecer. Temos até uma explicação para estas fotografias em ambas as temporadas. Chester Nakayama, o protagonista, pergunta ao seu professor de fotografia porque é que as fotos saíram assim e este diz-lhe que a máquina fotográfica é a maneira como o fotógrafo se relaciona com o mundo. Isto é, que as fotos saíram distorcidas porque o fotógrafo pressentia uma distorção na sua realidade. Gostei desta explicação, um pouco poética e um pouco psicológica, e não preciso de explicação melhor. Gostei que a explicação também se aplicasse às imagens distorcidas captadas pelo doutor Goodsir em “The Terror”. E gostei das cenas com os pescadores japoneses a pescar em águas geladas, tal como em “The Terror”, e tudo o que me lembrava da primeira temporada só me fazia saltar à vista que não estava a assistir a uma história com a mesma qualidade, e a comparação ainda prejudicava mais o que já não era bom.
O primeiro episódio até promete. A primeira morte é arrepiante, se calhar porque  ainda não sabemos o que se passa. O drama dos japoneses nos campos de concentração, a desconfiança e o ódio dos americanos para com aqueles que até há pouco tempo eram seus vizinhos, é cativante e vale a pena. O romance de Chester Nakayama com uma mulher de outra minoria, Luz Ojeda, filha de mexicanos, também ajuda a estimular o interesse. As primeiras aparições do yurei, o espírito vingativo, na forma de uma japonesa lindíssima e, por esse motivo, mais enganadora e perigosa, também são intrigantes. Onde é que tudo isto falha? É na continuação. Afinal o yurei queria a alma de Chester, mas depois já não queria e qualquer alma de criança lhe servia, mas depois já queria os filhos de Chester, e entretanto acho que já nem o yurei sabe o que quer. Não me perguntem, eu também percebi muito pouco. E uma história tem de fazer sentido. Aqui até parece que quem começou a escrever não sabia como acabar e desatou a improvisar às três pancadas. Não correu nada bem. A história tornou-se cada vez mais errática, tanto a nível do yurei como a nível das personagens humanas (num episódio Luz já não quer ver Chester à frente, mas 30 minutos depois já quer viver com ele, sem que nada tenha acontecido para a fazer mudar de ideias) e começou a ser um bocadinho doloroso de assistir.
Existem algumas partes que realmente espelham qualidade, como o Além onde o yurei está aprisionado, uma espécie de Céu e de Inferno ao mesmo tempo, e toda a envolvente histórica, e os episódios em Guadalcanal que nos mostram o horror real da guerra, mas depois parece que tudo isto foram cenas escritas separadamente umas das outras e que alguém teve de as coser numa manta de retalhos que saiu assimétrica e feia. As cenas de terror propriamente dito, que deviam ter sido arrepiantes como foi a primeira, simplesmente não tiveram o impacto que deviam porque a certa altura já não sabemos o que se passa, nem temos a certeza se nos interessa saber, e é como assistir a um desenho animado em que os personagens não são de carne e osso. Havia aqui bastante material para agarrar o espectador, mas foi desbaratado.
Alguém mais mauzinho do que eu disse que “infâmia” é chamar “The Terror” a esta temporada. Eu também acho que é melhor esquecer essa parte do título e ver isto como uma tentativa falhada de criar algo verdadeiramente pungente. Se calhar o problema foi esse, como no caso da expedição perdida do HMS Terror, ambição a mais.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Colony (2016-2018)


[crítica às três temporadas; contém spoilers]

É um erro pensar nesta série como mais uma invasão extraterrestre. “Colony” é a história de uma família que tenta sobreviver a uma colonização repressora e brutal onde a vida humana perdeu o valor. Nada do que acontece aqui não aconteceu já em várias ditaduras do século XX. Desde a Ocupação nazi e à Resistência francesa (onde a série se inspira predominantemente), às outras ditaduras fascistas e comunistas, das europeias às soviéticas, às asiáticas, às latino-americanas. A invasão extraterrestre é uma desculpa para revisitar episódios da História tão monstruosos que é mais fácil imaginá-los cometidos por criaturas de outro planeta.
Will Bowman (Josh Holloway, o Sawyer de “Lost”) era um agente do FBI antes de chegar a Ocupação, mas agora o mundo está muito diferente. Quando a série começa, a invasão já aconteceu. Em flashback, vemos como os alienígenas dividem a área de Los Angeles em várias colónias através de umas titânicas muralhas de metal que caem directamente do céu nocturno e destroem tudo onde aterram (mais uma boca política a um certo muro…). Ao mesmo tempo, todos as forças de segurança, policiais e militares, são estrategicamente eliminadas (assassinadas) como medida para prevenir uma rebelião inicial. Não que tal rebelião fosse muito longe, porque os meios militares dos invasores são de tal modo avançados que neutralizam qualquer tecnologia terrestre. Os seres humanos não têm capacidade para se defender e têm de se submeter por uma questão de sobrevivência. Will consegue escapar a esta onda de assassinatos assumindo o nome de um vizinho que estava fora de Los Angeles e começando a trabalhar como mecânico. Kate Bowman, esposa de Will, (Sarah Wayne Callies, a Lori de “The Walking dead” e a Sara Tancredi de “Prison Break”) tem um bar que é fechado pela Ocupação. Existe um recolher obrigatório e qualquer incauto apanhado na rua depois de soar a sirene tanto pode ser morto imediatamente pelos drones extraterrestres que vigiam as ruas como, pior, ser preso e enviado para um lugar sinistro chamado a Fábrica, de onde nunca ninguém volta.
O drama dos Bowman é que um dos seus três filhos (o miúdo do meio, Charlie) ficou preso noutra colónia e não o conseguem ir buscar. As deslocações são proibidas. A colónia é uma grande prisão. Automóveis, telemóveis, todos os meios de comunicação avançados, foram neutralizados ou proibidos pela Ocupação. Os residentes recorrem a chamadas em cabines telefónicas anónimas onde, como nos tempos das ditaduras do século XX, transmitem mensagens em código. Tudo está a ser vigiado pelas câmaras da Ocupação, todas as comunicações são ouvidas. Noutras das alusões à Segunda Guerra Mundial, é através de frequências secretas de rádio que a Resistência transmite informação codificada.
A comida é racionada. Algumas pessoas, como os diabéticos, que é o caso do sobrinho de Kate, não têm acesso a medicamentos porque os Anfitriões (nome dado aos extraterrestres pelos representantes humanos da Ocupação) não consideram as suas vidas relevantes. Para os Anfitriões, os seres humanos são apenas um recurso: mão-de-obra em campos de trabalho, de onde se mantém toda a logística da Ocupação. A alusão aos campos de concentração nazis é arrepiante quando vemos um grupo de pessoas chegar à tal Fábrica, onde homens e mulheres (todos juntos) são mandados despir completamente e submeter-se a um “banho” químico de descontaminação. Nunca nos é explicado, mas pressupõe-se que quaisquer bactérias que transportem poderão ser nocivas à tecnologia extraterrestre. Esta tecnologia, descobrimos mais tarde, também é radioactiva, o que faz adoecer os trabalhadores que entram em contacto com ela. Vemos um deles começar a tossir sangue e a ser prontamente levado para parte incerta. Já não sendo produtivo, adivinha-se-lhe o que lhe acontece. Outros trabalhadores (vítimas) o substituirão.
Mas isto é na Fábrica, um verdadeiro campo de extermínio de todos os que lá vão parar. Cá em baixo na Terra (a Fábrica não fica na Terra) os ocupados tentam por tudo sobreviver e evitar ir lá parar.


Nem eram precisas listagens
Porventura o mais chocante desta série (chocante para quem não conhece os perversos mecanismos dos sistemas ditatoriais como eles sempre se desenvolveram) é a quantidade de pessoas que colaboram voluntariamente com a Ocupação, que fazem do lema do inimigo o seu lema, que por instinto de sobrevivência ou sadismo nada se importam com a vida dos seus semelhantes desde que mantenham o seu poder dentro da Autoridade Global, a face humana da Ocupação. A série até aproveita para fazer um comentário à actualidade, explicando que estes colaboradores de topo foram seleccionados um a um antes de chegar a Ocupação através dos seus dados online. Alguém diz mesmo que as nossas vidas estavam todas na internet para eles escolherem. Existe verdade nisto. Actualmente a nossa vida está toda online. E nem me refiro apenas às redes sociais, onde só partilhamos o que queremos. Refiro-me mesmo aos serviços do Estado, especialmente dados médicos e financeiros, onde qualquer hacker pode descobrir que lojas frequentamos, que medicamentos tomamos, que produtos consumimos. Tanta informação nas mãos erradas é uma receita para nos desenharem o perfil: pobre, abastado, casado, solteiro, desportista, sedentário, feliz, infeliz. Nas mãos de um regime ditatorial, o perfil seria diferente: saudável (mão-de-obra capaz), doente (dispensável, a eliminar), pai ou mãe (mais susceptível a intimidação), e por aí fora. Na série, com a ajuda dos colaboradores humanos, os Anfitriões tiveram acesso a listas de possíveis colaboracionistas e de elementos indesejáveis a abater. Assustador, não é?
Mas na vida real nunca foram precisas estas listagens. Basta que qualquer grande facínora chegue ao poder que imediatamente se encontra rodeado de batalhões de pequenos facínoras à cata do seu quinhão de poder que numa sociedade democrática e regida pela ética dificilmente conseguiriam alcançar. (E mesmo assim conseguem, que os pequenos facínoras também sabem jogar pelas regras.) O que “Colony” mostra aqui é a realidade nua e crua que o vizinho do lado ou o amigo de longa data pode ser o primeiro a mandar-nos para a Fábrica, especialmente se for uma questão de “nós ou ele”.


Colaboras ou resistes?
“Colony” começa quando Will consegue esconder-se, clandestino, num camião de carga destinado à colónia onde se encontra o seu filho Charlie, na esperança de o encontrar. Para seu azar, a Resistência faz explodir o camião quando este cruzava a passagem entre as duas colónias, debaixo da muralha alienígena, para potenciar o número de vítimas entre os colaboradores. Will é preso, o seu verdadeiro nome é revelado, e é-lhe feita uma proposta que ele não pode recusar: trabalhar para a Autoridade Transicional e ajudar a capturar os terroristas responsáveis pela  explosão (na perspectiva da Ocupação, a Resistência é uma organização terrorista) ou… ganhar um “bilhete de ida” para a Fábrica, ele e toda a família. Por outro lado, se colaborar, prometem-lhe a possibilidade de lhe ser devolvido o seu filho.
O poster da série pergunta: Colaboras ou resistes? É fácil responder quando não se tem família, pais e filhos sujeitos a represálias, e até, neste caso de uma ditadura brutal, a correrem risco de vida. De repente, a resposta não é assim tão simples. Will aceita, por falta de opção.
Kate começa a envolver-se em actividades clandestinas para arranjar insulina para o sobrinho no mercado negro. Ao saber que o marido está a colaborar com a Ocupação, Kate decide, por sua vez, entrar em contacto com Eric Broussard, ex-militar e implacável membro da Resistência, para o ajudar na luta contra os ocupantes. Agora que Will tem acesso aos bastidores da Autoridade Transicional, Kate torna-se um elemento muito útil para a Resistência, obtendo informação privilegiada através do marido, que de nada suspeita.
“Colony” é, acima de tudo, e principalmente nas duas primeiras temporadas, um drama familiar e inteligente que coloca o casal um contra o outro, pelo menos até Will perceber que Kate trabalha com a Resistência e tem de tomar uma atitude. Adorei a cena, muito realista, em que finalmente se confrontam. Will nunca lhe pergunta ou diz “sei o que andas a fazer”. (E isso Kate também já tinha percebido.) O que ele lhe diz é “há semanas que ando a encobrir o que andas a fazer”.
Como colaborador, Will tem acesso a regalias que a restante população não tem, como sempre acontece nestes regimes. Mas uma das regalias é um presente envenenado. Tendo como desculpa as possíveis represálias que a família pode sofrer devido à colaboração de Will, os miúdos deixam de ir à escola e é-lhes atribuída uma tutora ao domicílio. Esta tutora é uma fanática da religião promovida pelos Anfitriões, a Igreja do Maior dos Dias, que promete vida eterna a todos os que forem fiéis ao novo regime. (Isto lembra-me os khmer rouge, no Cambodja, que endoutrinavam as criancinhas para denunciarem todos os que se opusessem ao regime.) Uma das melhores cenas da série é quando Kate se apercebe disto e mostra à filha, Grace, uma série de livros de várias religiões em que todas prometem o mesmo. Mas a miúda é muito jovem e susceptível (deve andar pelos 8/10 anos) e já lhe fizeram uma autêntica lavagem cerebral. De onde podemos tirar uma lição prática. Foi tão fácil endoutrinar Grace porque esta foi a primeira religião com que teve contacto. Se Grace tivesse tido alguma espécie de educação religiosa talvez tivesse resistido mais ao fanatismo da tutora, digo eu.
Agora que Will e Kate estão tão envolvidos na Ocupação e na Resistência, a sobrevivência torna-se cada vez mais periclitante para toda a família.


Era bom mas descambou
As duas primeiras temporadas de “Colony” são tão boas, mas mesmo tão boas, que quase cheguei a dizer aqui que é a melhor série que vi desde “Breaking Bad” e “Black Sails”. Só que:
1, entretanto vi “The Terror
2, a segunda parte da terceira (e última) temporada de “Colony” foi por água abaixo.
Perguntei-me muito, quando soube que a série tinha sido cancelada, porque é que tinham acabado com uma série tão boa, tão bem escrita, focada em personagens bem construídos e desempenhados (a princípio, confesso, só conseguia ver o Sawyer e a Lori, e preferia ter visto nela a outra Kate, a de “Lost”, a única Kate que conseguia imaginar ao lado de Sawyer. Mas Sarah Wayne Callies impôs-se e a química entre os dois actores é excelente). As duas primeiras temporadas são espectaculares (em todos os sentidos, até na grandiosidade dos cenários exteriores com as grandes muralhas extraterrestres, os lançamentos de naves para o espaço, as cenas na Fábrica). A terceira temporada começa bem, mudando a família para um esconderijo nas montanhas onde se introduzem num campo da Resistência liderado por um survivalista ditatorial que gere a comuna com mão de ferro, em que não é por acaso que um dos episódios se chama “Sierra Maestra” e quase são fuzilados como traidores. Mais uma referência a outros movimentos insurgentes de guerrilha.
Infelizmente, na segunda parte da terceira temporada, quando eles vão para Seattle, foi o descalabro. Nem sequer vou dizer que o pior foi terem de facto mostrado extraterrestres (como tantos fãs exigiam) o que tornou a série numa dessas coisas que começam por Stargate e Babylon que eu não vejo. O pior nem foi isso, mas o grande plot hole no enredo.
Parece que os extraterrestres invasores até não eram tão maus de todo (apesar dos milhões que mataram indiscriminadamente e mandaram para a Fábrica e outros campos de trabalho forçado), e que andavam a fugir de uns extraterrestres ainda piores (e copiados do Predador, o que não foi nada brilhante), e que afinal até precisavam de um super-exército para combater estes últimos. Onde a bota não bate com a perdigota foi o que mencionei logo no início desta crítica: todas as forças de segurança, policiais e militares, são estrategicamente eliminadas (assassinadas) como medida para prevenir uma rebelião inicial. Há até uma cena em que Broussard e outros militares de elite são convocados a um único ponto de encontro, logo no início da invasão, para serem massacrados de uma só vez. Broussard consegue escapar porque tem um mau pressentimento à última da hora. Na terceira temporada, de repente, tanto Broussard como Will aparecem numa lista de operacionais a NÃO-abater por serem importantes para o tal exército ao serviço dos Anfitriões. Então em que é que ficamos? Os militares de elite são valiosos para os extraterrestres ou são alvos a abater? Quem escreveu a terceira temporada, será que viu a primeira?
E se fosse só isto! De repente há um colaborador, que nunca tínhamos visto na vida, que anda a esconder estes militares dos Anfitriões no intuito de estabelecer uma aliança com os inimigos deles e assim recuperar o planeta. Mas se estamos a falar de espécies tão avançadas (os Anfitriões conseguiram dominar a Terra em questão de horas) alguém acredita que vai ser um exército de humanos a fazer a diferença? E já agora, quem é que disse aos Anfitriões que este inimigo ia simplesmente “aceitar” lutar contra o exército de humanos na Terra quando o que estes outros extraterrestres querem mesmo são os Anfitriões e podem atacá-los no espaço? “Exmo.s Inimigos, sabemos que vêm aí e tomámos a liberdade de preparar para V.Exas estes soldadinhos aqui neste lindo planeta para vosso entretenimento e lazer. Façam favor de aproveitar, matar os humanos e visitar as belas paisagens terrestres, enquanto nós assistimos do conforto da nossa nave. Felizes em servir V.Exas. Voltem sempre.”
Eu explico: nas primeiras temporadas viram-se pessoas serem transportadas em cápsulas de animação artificial para as naves extraterrestres sem que soubéssemos porquê. Era um mistério que tinha de ser explicado. A série meteu os pés pelas mãos e explicou-o assim, com estes enormes plot holes. Os escritores começaram a inventar, pura e simplesmente, com o único objectivo de fazer render o peixe e sem grande vontade de começar a dar respostas ou de conduzir a narrativa a um fim coerente (a lembrar "Lost", onde o showrunner Carlton Cuse também andou...).
Se calhar até tinham conseguido vender melhor esta intrujice se tivessem sido os protagonistas a descobri-la. Mas em vez disso começámos a acompanhar a história pela perspectiva de um personagem novo, de quem nem me vou dar ao trabalho de saber o nome, enquanto Will e Kate e Broussard quase tropeçam no enredo principal por acaso.
E só mais uma: quem é que disse aos Anfitriões que estes soldados humanos mantidos em cápsulas de vida suspensa quereriam ou aceitariam lutar pelos invasores e opressores, quando subitamente têm como aliado natural uma espécie que também quer destruir os Anfitriões? O inimigo do meu inimigo meu amigo é, e claro que toda a gente estaria a pensar numa aliança com este inimigo comum dos Anfitriões. Até parece que quem escreveu as duas primeiras temporadas da série se foi embora a meio da terceira, de tal modo a qualidade e a coerência foi por água abaixo.
Mas a verdade é que as audiências de “Colony” nunca foram boas. Na minha opinião, muito da culpa se deve a ter sido dirigida a um público-alvo errado, os apreciadores de ficção científica com extraterrestres (Stargate, Babylon, etc) sem grande profundidade, em vez de se salientar o drama humano. A série é extremamente brutal e pessimista, às vezes é bastante deprimente, e raramente temos um qualquer motivo de esperança. Direi mesmo que foi isso que faltou à Resistência durante toda a série: uma vantagem secreta que pudesse efectivamente ser usada para derrotar os Anfitriões. Episódio após episódio, tivemos de assistir enquanto inocentes eram massacrados e a Resistência se desfazia aos pedaços em vez de se tornar mais forte. Esta falta de esperança que permeia toda a série pode ter afastado muitos espectadores que apreciam uma ficção científica mais levezinha em que os Bons ganham e os Maus perdem e tudo acaba bem.
Marketing errado, enredo pesado e deprimente, brutalidade e violência (embora nunca gratuita) podem ter ajudado ao cancelamento da série, mas nada tão grave como o final da terceira temporada. Eu, sinceramente, fiquei contente quando acabou porque não queria ver a série afundar-se mais.
Mas aconselho vivamente as duas primeiras temporadas e o princípio da terceira. São excelentes. Faz de conta que acabou na temporada 3 episódio 5, bem intitulado “The End of the Road”.



segunda-feira, 3 de junho de 2019

The Terror


[spoilers mínimos; não revela o final]


Esta é a melhor série de terror que eu vi nos últimos tempos, se calhar mesmo na vida toda, e está a passar "abaixo do radar" sem ninguém lhe ligar nenhuma. Antes de mais, é preciso divulgá-la: passa na AMC. Se a virem, agarrem-na, gravem-na, devorem-na. Se não a virem, vão atrás dela. Esta série de extraordinária qualidade é imperdível.

"Em 1845, dois navios da Marinha Real zarparam de Inglaterra numa tentativa de encontrarem uma passagem navegável no Árctico. Eram os navios tecnologicamente mais avançados da sua era. Os últimos a vê-los foram baleeiros europeus na Baía de Baffin, aguardando o bom tempo para entrarem no labirinto do Árctico. Ambos os navios desapareceram."


    [preâmbulo de abertura de “The Terror”]

Por estranho que nos possa parecer agora, HMS Terror era mesmo o nome de um navio. O nome explica-se por ter sido um navio de guerra antes de ser remodelado para a exploração polar. O seu outro companheiro de viagem, o HMS Erebus, também foi baptizado a partir de uma das zonas do inferno clássico, o Hades. Com nomes agourentos como estes, quase nos perguntamos quem é que no seu perfeito juízo levaria estes navios para uma expedição perigosíssima de onde podiam muito bem não regressar?
Estes nomes são reais, tal como são reais os nomes dos tripulantes da expedição que tinha por objectivo descobrir uma passagem para a Ásia através Círculo Polar Árctico, a norte do Canadá: a passagem Noroeste, que seria muito rápida e prática em termos comerciais. Houve várias expedições anteriores para a encontrar, sem êxito, até à vez de Sir John Franklin (esta conhecida como "a expedição perdida de Franklin") com resultados desastrosos. Todos os 129 tripulantes foram dados como perdidos.
 "The Terror" faz excelente uso destes nomes verídicos, bons demais para desperdiçar, excepto esta ou aquela mudança de ocupação. Além dos próprios barcos, temos um Tenente Gore ("Gore" é o título apropriado do episódio em que este tenente tem um fim... que não conto), um Mr. Morfin (que, coitado, morre com tantas dores que implora que lhe dêem um tiro, mas não há morfina para Mr. Morfin), e um Mr. Goodsir (cirurgião assistente na série e na vida real), que os escritores aproveitaram logo para ser o homem mais decente naqueles dois navios.
A série é baseada no romance homónimo de Dan Simmons, publicado em 2007, antes de ambos os navios naufragados terem sido descobertos, o Erebus em 2014 e o Terror em 2016, muito longe do local onde se julgava terem sido abandonados. Novamente, bom demais para desperdiçar. Foram feitas algumas alterações à história para acomodar as novas informações que a descoberta trouxe à luz. E que informações! A história nem precisa de sobrenatural para ser um dos relatos mais horríficos das aventuras navais da época vitoriana, ou de todos os tempos.
Esta série não é para todos. É extremamente deprimente, e os últimos episódios, principalmente, têm cenas de um canibalismo tão realista que algumas pessoas talvez não consigam suportar. Não digo isto como spoiler mas como aviso: pode ser demais!


Um acto de húbris
No verão de 1846, os dois navios aventuram-se em águas do Árctico. O líder da expedição, Sir John Franklin, comanda o Erebus, mas é ao Terror que devemos prestar toda a atenção. O Capitão Francis Crozier, comandante do Terror e navegador com experiência em zonas polares, não gosta dos sinais preocupantes que vê no gelo. Imediatamente avisa Sir Franklin para não continuarem em frente, que fazê-lo será “um acto de húbris” de terríveis consequências. Franklin simplesmente o ignora. Em Setembro, do dia para noite, ambos os navios ficam encarcerados no gelo. Não um dia ou dois, ou sequer meses, mas por dois anos. Os navios eram tidos por capazes de suportar essas condições. Levavam provisões bastantes para durar três anos, enlatados e sumo de limão (contra o escorbuto), e tinham aquecimento central. Tal como o Titanic era “insubmersível”, também estes navios tinham tudo o que era preciso para resistir aos invernos polares. O que não tinham era um plano B. Em vão esperaram o degelo da primavera, mas uma série de anos mais frios do que o normal não derreteu o gelo.
O Capitão Francis Crozier volta a advertir Sir Franklin que deve enviar imediatamente uma equipa para pedir socorro, o que este volta a negar. Desta vez Franklin vai mais longe, acusando Crozier de ser um homem sem fé em Deus, um pessimista, um homem de vícios (Crozier, de facto, é alcoólico). Enviar tal equipa serviria apenas para desmoralizar a tripulação e admitir o fracasso, e Franklin nem quer ouvir falar disso.
Crozier leva uma rebocada tal que noutras circunstâncias era capaz de pedir a demissão e virar-lhe as costas, mas estes são oficiais da Royal Navy e estão isolados no Pólo Norte. O que Crozier faz é ignorar as ordens de Franklin e preparar a equipa em segredo, tencionando liderá-la ele próprio para que os homens que o acompanham possam dizer que apenas obedeceram às suas ordens e não sejam acusados de insubordinação. Caso tenham sucesso, isto é. Crozier já sabe que a expedição está perdida. Agora só importa salvar a tripulação. Antes que Crozier consiga realizar os seus planos, contudo, Sir Franklin morre. O capitão Crozier, segundo em comando, torna-se assim no líder da expedição e pode enviar a equipa sem incorrer em motim. O que não lhes vai servir de muito.
Crozier resume o tema da série na sua frase acima: um acto de húbris. É a arrogância que condena esta expedição. A arrogância de Sir Franklin, espelho da soberba do Império Britânico, que recusa admitir derrota quando já são as vidas dos tripulantes que estão em jogo. É a arrogância britânica que nem considera aprender com o povo Inuit como melhor sobreviver naquelas condições, encarando-os, pelo contrário, como selvagens que nada têm a oferecer ao poderio naval de Sua Majestade. É a arrogância civilizacional do Império Britânico que envia homens para condições extremas com equipamentos inadequados e uniformes impróprios para o clima, a quem falta o discernimento em assegurar o socorro caso algo corra mal. Nada pode correr mal nos planos científicos e metódicos do império. O único resultado só pode ser o sucesso. Outra coisa não se admite nem sequer se pondera.
O que acontece de seguida é uma lenta descida aos infernos. Os enlatados eram de má qualidade. Deficientemente soldados, os que não apodreceram continham níveis de chumbo que, segundo os cientistas que há décadas estudam a expedição, terão lentamente intoxicado os tripulantes. O que terá também explicado a loucura e os comportamentos irracionais que mais tarde foram depreendidos dos acampamentos abandonados. Esgotadas as outras provisões, os enlatados tornaram-se o único veneno que os homens tinham para comer. O frio, a fome, o escorbuto e a tuberculose também colheram o seu número de vítimas.
Isolados num deserto de gelo impiedoso e de terra pedregosa, não havia para onde fugir nem tinham meios adequados para tal. Os longos invernos de noite permanente, a crescente escassez de provisões, a continuada falta do degelo, levam os homens a cair no desespero e na loucura. Por fim abandonam os barcos e tentam escapar por terra, mas também não têm melhor sorte. É uma derradeira luta pela sobrevivência, mas a doença e a fome já os tinham enfraquecido ao ponto de não retorno. Segue-se o motim e a carnificina.
Como se tudo isto não bastasse, logo de início, ainda Sir John Franklin é vivo, um estranho animal, que julgam um urso polar mas de tamanho enorme e características estranhas, é avistado pelos homens. Tentam abatê-lo, mas, desgraçadamente, atingem acidentalmente um shaman Inuit (que, vimos a saber mais tarde, é quem mantém o monstro sob controlo). O shaman morre, e apesar das súplicas da sua filha, que o acompanha, os britânicos não cumprem os ritos fúnebres que ela exige. Em vez disso, o shaman é atirado sem cerimónia por um buraco de água no gelo. E aqui, na série, fizeram-na bonita. Este “urso” é um Espírito Guardião do Árctico e do povo Inuit, o Tuunbaq, um espírito em forma animal. Agora que profanaram o corpo do shaman, estão todos marcados. O Tuunbaq não distingue entre bons e maus. Mas diga-se de passagem, os “bons”, aqui, são muito poucos, como se verá no decorrer da história.


Personagens inesquecíveis
Poder-se-á pensar, erradamente, que a história perde o interesse logo nos primeiros minutos, quando se sabe que não sobrevive ninguém. Nada mais enganador. As tripulações do Erebus e do Terror tiveram várias hipóteses de escapar. Mesmo quando tudo já parecia negro, ainda havia esperança. Não para todos, os que já estavam demasiado doentes, mas para alguns houve sempre esperança até ao fim. O mais fascinante, a certa altura, não é perceber o como e o porquê de se terem perdido mas, pelo contrário, de não se terem salvo.
As personagens são excepcionais e é impossível não torcer por algumas. Um dos melhores trunfos desta série é como se pega nestes nomes de um manifesto e se criam personagens de carne e osso com quem conseguimos empatizar.
Vou começar pelo líder da expedição, Sir John Franklin (Ciarán Hinds, que os leitores mais novos conhecem de “Guerra dos Tronos” mas que eu lembro melhor ainda como Júlio César em “Rome”). Franklin parece um homem ambicioso, arrogante, até não muito competente (principalmente quando, em flashbacks, percebemos que é Lady Jane Franklin, sua mulher, quem o manipula), mas na duração de um ou dois episódios compreendemos que é afinal um homem sincero, profundamente religioso, que não é hipócrita e acredita no que diz. Um homem optimista, mais do que devia, que se preocupa acima de tudo com a moral da tripulação. Apesar da sua falta de discernimento, o objectivo nunca foi sacrificar homens por ambição, mas sim conduzi-los ao triunfo último da expedição. Franklin nada mais admite senão o triunfo, e acaba por ser essa a sua falha trágica. Até seria digno de pena se a sua cegueira não tivesse consequências tão horríveis. E Franklin não é o único culpado desta cegueira. Homem do seu tempo e do apogeu do Império Britânico, nele reflecte-se toda uma cultura que o criou. A mesma cultura que, ultimamente, também o vitimou.
Depois temos o Capitão James Fitzjames (Tobias Menzies, igualmente no elenco de “Guerra dos Tronos” e igualmente em “Rome” no papel de Brutus), que a princípio parece um daqueles homens balofos de vaidade que são “só garganta” e cobardia. Pois este foi uma surpresa! Em circunstâncias em que a maioria fugiria ou sujaria as calças, mostra uma coragem extraordinária a enfrentar o Tuunbaq. Prova de que nem tudo é o que parece à primeira vista, e Fitzjames não é de todo um cobarde.
Quem nunca me enganou foi o Capitão Crozier (Jared Harris, mais conhecido pelo seu papel em “Mad Men”), cínico, melancólico e pessimista, mesmo quando os longos meses no Árctico o mergulham no extremo do alcoolismo. Daqui eu sempre esperei grandes coisas, e elas vieram.
E depois temos o “talentoso” Mr. Hickey (Adam Nagaitis), sem dúvida a maior manipulação a que fomos submetidos em termos de personagens. Mr. Hickey é um tripulante simpático com quem empatizamos imediatamente, um homem do povo e um homossexual que é perseguido por sê-lo. Como não torcer por ele, a parte mais fraca? Jamais acreditaríamos, nos primeiros episódios, no que ele se vai tornar já a seguir. E eu também não vou contar, mas foram feitas comparações ao Coronel Kurt de “Apocalipse Now” e eu concordo que anda por aí. No fim, também a Mr. Hickey foi a arrogância que o perdeu. Ou melhor, que se perdeu a si próprio. Fantástico desempenho! Espero ver este actor muito mais vezes.
Chegamos então ao melhor personagem da história. Se não o grande herói (mas não parece que esta história tenha heróis), o coração de “The Terror”, Mr. Goodsir (Paul Ready). Ao contrário de Mr. Hickey, eu embirrei logo com este personagem. Muito bonzinho, demasiado bonzinho. E depois veio o golpe fatal que me fez mesmo detestá-lo. Ao desconfiar que os enlatados estão a envenenar os homens com chumbo, Mr. Goodsir começa a dá-los a comer ao macaquinho do falecido Sir Franklin. (Sim, havia um macaquinho de estimação a bordo, para se perceber até que ponto este comandante achava que a expedição era um passeio pelo gelo.) O macaco enlouquece e morre, e é aí que Mr. Goodsir percebe que não podem continuar a comer das latas. Episódio após episódio, este personagem conquistou-me, e da embirração e da antipatia tornou-se aquele pelo qual torci mais. (Porque, na verdade, mais tarde ou mais cedo o macaco tinha de começar a comer das latas também, tal como os homens, mesmo depois de saberem que estavam contaminadas. Dessa forma, não foi apenas uma experiência científica. Era só uma questão de tempo. Pelo menos o pobre macaco morreu de morte "natural", ao contrário do cão...) Mr. Goodsir, mais tarde tratado como Dr. Goodsir, tem um nome que lhe assenta como uma luva. A bondade não é falsa e acabou por comover o meu coração empedernido que me faz desconfiar deste tipo de pessoa.


Goodsir é bom autenticamente, porque sim, porque não pode ser de outra forma. A certa altura torna-se amigo da filha do shaman, a quem chamam apenas Lady Silence (não vou explicar porquê), e numa última escolha Goodsir tem a oportunidade de deixar tudo para trás e ir com ela. A mim só me apetecia gritar-lhe: Vai! Foge! Nem penses duas vezes! Foi tudo muito rápido e Mr. Goodsir talvez precisasse de mais tempo para tomar essa decisão, que o afastaria do dever para com os camaradas, da Inglaterra, da carreira científica. É muito a pesar a um homem que vive para a ciência encarar a ideia de viver como os Inuit, no gelo primitivo. Mas torcei por ele até ao fim, mesmo até ao fim, para que visse a luz.
Não me lembro de uma série que me tenha conseguido fazer mudar de ideias sobre os personagens sem que haja grandes revelações ou reviravoltas pelo meio. Não foram eles que mudaram. O que mudou foi a minha percepção deles, porque os observei desde o ponto de partida, porque aprendi a conhecê-los, porque “senti” com eles a longa e imparável descida ao desespero.


O Tuunbaq
É consenso geral entre a crítica que o Tuunbaq foi o aspecto menos bem conseguido desta série. Mas dizer isto é dizer que o Tuunbaq destoa porque é “apenas” bom no que é de resto uma obra-prima. (Mas verdade seja dita, o CGI do monstro não é muito bom. Li algures que é muito difícil reproduzir um mamífero em computador. Por exemplo, os tigres de “The Walking Dead” e de “A Vida de Pi”, em que até nos momentos mais realistas se nota que não são animais a sério. O Tuunbaq sofre do mesmo problema. Conscientes desta limitação, os realizadores da série evitam mostrá-lo muito perto e muitas vezes, o que foi mesmo a melhor opção.)
Não era necessário acrescentar o Tuunbaq a uma tragédia verídica, e muita gente não gostou da ideia, mas confesso que não vi o Tuunbaq como somente um monstro e se calhar por isso apreciei a sua inclusão. Muito cedo se percebe que não é um urso polar. Uma das primeiras coisas em que reparei na sua fisionomia, muita perturbadora, é que este “urso-espírito” tem cara de pessoa. Isso mesmo. Cara de pessoa. O Tuunbaq não foi completamente explicado e existem muitas interpretações, mas aqui vai a minha: o Tuunbaq é o espelho do mal da humanidade que é seu dever aniquilar. O verdadeiro Mal que rodeia os sobreviventes da expedição não está fora, está dentro, e o Tuunbaq tem a cara humana do Mal. Outra interpretação defende que o Tuunbaq consome a alma das suas vítimas, e que o Mal consumido nessas almas foi a sua perdição. Não desgosto desta teoria porque bate certo com o tema geral de “The Terror”. Até ao próprio Tuunbaq, é a arrogância que o perde. Mais olhos do que barriga e isso tudo. Talvez tenha levado a vingança longe demais sem dar ouvidos aos shamans. Talvez tenha comido arrogância a mais, a arrogância dos intrusos, e como eles, e pelo mesmo motivo, condenou-se a si próprio.


Para ver e rever
“The Terror” mistura o drama naval com o terror. Se alguém duvida que pode ser feito, é só assistir. Não tenho senão elogios a dizer, desde a magnífica cinematografia (tão depressa o gelo branco e o céu escuro como o solo de pedra solta e os horizontes cinzentos de um sol implacável, já para não falar do detalhe e realismo do interior dos barcos) às excelentes performances dos actores que conseguem diálogos de dez minutos sem que se note o passar do tempo.
Uma nota especial para o som, que adquire tal importância, como, por exemplo, no ruído incessante do gelo a esmagar lentamente os barcos, que aconselho que se ouça com auscultadores (na falta de surround). É uma experiência única por si só. Até o genérico é uma obra de arte. Não bastando a perícia dos efeitos sonoros, saliento ainda a música sombria e sinistra do compositor Marcus Fjellström (falecido em 2017 com a idade de 38 anos).
Se há apenas uma coisa de confuso na série é a grande semelhança entre todos os personagens. Todos homens, da mesma idade, todos de uniforme, todos Mr. Isto ou Mr. Aquilo, todos com cortes de barba e cabelo idênticos, como é de esperar neste ambiente naval. Demora um bocado a conseguir distingui-los. Pelo fim da série, à medida que o elenco diminui, começamos a ter uma melhor percepção de quem é quem. Vai ser uma satisfação ver de novo e associar, desde o princípio, as caras e os nomes dos que chegaram ao fim e captar todos os pormenores de personalidade que me escaparam quando a tripulação ainda estava mais ou menos intacta.
É uma série difícil de se ver, sem dúvida, deprimente e pessimista, mas com momentos de uma beleza tão imensa que quase compensa o horror quando ele acontece. É mesmo caso para recordar uma das características do gótico: a beleza do horrível.


Adenda
Depois de escrever este artigo já tive oportunidade de ver de novo o primeiro episódio. Confirmo: ainda é mais interessante à segunda vez. Quem diria, de uma ficção baseada em acontecimentos reais de que já sabemos o resultado? Fantástica série.