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domingo, 12 de novembro de 2023

The Wire (2002 - 2008)

Vi esta série policial por uma questão de arqueologia televisiva. Volta e meia, ao ler críticas a “The Shield”, a “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, lá me aparecia uma menção a “The Wire”: “The Wire” isto e “The Wire” aquilo. Acabei por ver por curiosidade. Três episódios depois ponderei seriamente desistir. É sobre uma equipa de polícias a tentar apanhar uma rede de traficantes de droga de rua que usam pagers (pagers!) e cabines telefónicas (cabines telefónicas!) para contactarem uns com os outros. A série começa por volta de 2002 ou 2003, após o 11 de Setembro, e a maioria dos recursos foram deslocados para o contraterrorismo. Os polícias vêem-se gregos e têm de preencher catadupas de papelada para requisitar uma escuta telefónica (the wire) e descobrir o código que os traficantes utilizam. O humor (?) é questionável e impregnado do que hoje chamamos “masculinidade tóxica”. A série é tão datada que parece algo dos anos 80 ou 90. Mesmo assim, porque sou paciente, continuei a ver para perceber de onde vinham tantos elogios. “The Wire” tem cinco temporadas, cada uma com um enredo mais ou menos independente, e a história só começa a “aquecer” lá pelo meio de cada uma delas. Cada uma das temporadas traz consigo uma catrefada de personagens novos e eu também me vi grega para os distinguir e entrar na nova história.
Aqui vou parar para fazer a minha distinção no que toca a séries policiais: as de entretenimento e as dramáticas. Chamo entretenimento a séries em que os polícias bons apanham um criminoso por episódio, e é só isso. Uma série policial dramática, por outro lado, segue os polícias “para casa”, mostra-nos os seus problemas e a sua intimidade, torna-os tridimensionais em vez de máquinas de apanhar meliantes. (“Mentes Criminosas” começou assim mas as últimas temporadas descambaram na fórmula psicopata-da-semana, e isto só para falar de uma série que eu via porque geralmente não vejo séries sem uma grande componente dramática).
Da minha experiência como espectadora, a avozinha das séries policiais dramáticas foi “Hill Street Blues” (“A Balada de Hill Street”, 1981 - 1987). Aqui os polícias eram mesmo de carne e osso, tinham amantes e problemas de alcoolismo, e os meliantes não eram necessariamente vilões.
“The Wire” segue esta nobre tradição, o que só lhe fica bem, mas na minha opinião perde-se demais a tentar contar histórias tão díspares como as dos traficantes e dos toxicodependentes, as dos estivadores do cais que estão a ficar sem empregos, as dos putos dos bairros pobres que se vêem sem alternativa senão ir vender droga para a esquina, a do declínio da imprensa escrita e, por último, um enredo sobre ambições políticas e corrupção que nunca me conseguiu interessar. Tudo muito dramático e realista, sem dúvida, mas demasiado fracturado para ser coeso.
Fiquei completamente chocada quando consultei as datas de “The Shield”, que eu julgava uns dez anos posterior, e percebi que “The Wire” e “The Shield” são contemporâneos (2002 - 2008). “The “Wire” é uma série de qualidade, não há dúvida, mas não chega aos calcanhares de “The Shield”, uma história mais chocante, mais escorreita, com princípio meio e fim (coisa que “The Wire” ameaçava nunca vir a ter). Vic Mackey não punha escutas. Vic Mackey entrava por ali dentro e partia cabeças roubava a droga e o dinheiro, e ainda arranjava maneira de prender os traficantes à mesma. Vic Mackey e a sua Strike Team já não eram só polícias: eram os vilões. (Um deles matou o companheiro com uma granada!)
Daqui a “Breaking Bad” (2008 - 2013) foi um passo. Em “Breaking Bad” já não acompanhamos a acção pela perspectiva dos polícias: passámos completamente para o outro lado e torcemos pelos “maus da fita” (se é que o são, porque é debatível).
Tudo isto para dizer que penso que os elogios a “The Wire” se devem mais aos temas abordados, principalmente os temas políticos fracturantes na sociedade americana, do que propriamente à narrativa, enredo e personagens (se bem que alguns personagens tenham conseguido espaço “para respirar” e crescer, como Stringer Bell, o traficante de rua que acabou a gerir o negócio como se fosse o CEO de uma multinacional: isto sim, é um vilão de carne e osso!).
Vale a pena ver “The Wire” para compreender o panorama que nos trouxe a “Breaking Bad” e ao que está para vir, mas aviso já que é preciso alguma paciência para chegar à parte boa da história. Por exemplo, quando um detective decide “inventar” um serial killer para arrancar recursos da Câmara Municipal para apanhar uma rede de traficantes. Grande trapalhada quando mete os jornais também, e um jornalista tão inescrupuloso como o detective decide inventar notícias sobre o mesmo serial killer (inexistente). Mas para chegar aqui, ó Céus, foi preciso paciência!

Uma última curiosidade: em "The Wire" temos a oportunidade de ver um jovem Seth Gilliam a contracenar com Chad Coleman (respectivamente Padre Gabriel e Tyreese Williams em "The Walking Dead"). Aqui Seth Gilliam faz o papel de Sargento Carver, um durão que lhe assentava como uma luva. Talvez isto explique porque é que "The Walking Dead" foi buscar o Sargento Carver quando já ninguém suportava o Padre Gabriel?... Sinceramente, não me recordo de os dois personagens se encontrarem em "The Walking Dead" mas parece que também contracenaram juntos.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Hill Street Blues (A Balada de Hill Street), The Shield, Breaking Bad, Better Call Saul, dramas policiais


domingo, 1 de outubro de 2023

Child 44 / A Criança nº 44 (2015)

“Child 44” é um filme ambicioso, uma mistura de “1984” com “Mentes Criminosas”, que nem sempre está à altura da ambição. Leo Demidov é um órfão e herói de guerra na União Soviética. Nos anos 50, trabalha para um ministério do regime que se dedica a prender dissidentes (uma pré-KGB, imagino). Na vertente “1984”, um dos subalternos da mesma equipa de Leo prepara-lhe uma armadilha: denuncia-lhe a esposa, Raisa, como traidora. Na União Soviética de Estaline ser acusado era já ser culpado, e Leo só tem uma solução para se salvar a si próprio: incriminar a mulher. Mas não o faz, mesmo sabendo que se condena a ser “culpado por associação”. Como consequência, é despromovido e enviado para uma terrinha do interior. A mulher, professora, também é despromovida a contínua e obrigada a executar trabalhos menores como lavar o chão.
Entretanto, a parte “Mentes Criminosas”. O filho de um dos outros caça-dissidentes, ainda rapazinho, aparece morto junto à linha de comboio com lacerações suspeitas no corpo. Mas na União Soviética de Estaline não pode haver homicídio (Estaline considera o homicídio um “pecado capitalista”), e por isso a morte do rapaz é considerada um acidente, para grande revolta do pai do miúdo que sabe de certeza que o filho foi assassinado. Mas, para não arranjar mais problemas à família, até o pai revoltado concorda em fingir que acredita na versão oficial.
Leo é transferido, mas não consegue parar de investigar. Descobre que não foi caso único e que já há mais de 40 rapazinhos mortos da mesma maneira ao longo da linha de comboio, todos atribuídos a causas acidentais e/ou com vários inocentes punidos por algo que não fizeram. Leo percebe que existe um assassino (serial killer, se eles usassem a palavra) que opera utilizando as linhas de comboio e faz tudo para o deter, mesmo tendo de lutar igualmente contra o regime que nega as evidências. É que o filho do amigo foi a criança nº 44.
Tudo isto parece muito interessante, um serial killer num regime distópico tipo “1984”, e ambas as histórias prendem a atenção. De tal maneira que acabam por se atrapalhar uma à outra. É caso para perguntar, o que achamos mais arrepiante? Um regime em que se podia ser abatido a tiro só por causa de uma denúncia falsa, ou um serial killer que mata rapazinhos?
Mas o filme não fica por aqui em termos de drama. Ao mesmo tempo, Leo descobre que a sua esposa, Raisa, não se casou com ele por amor mas porque tinha medo de represálias se o recusasse. Inclusive, fingiu-se grávida para que ele não a incriminasse quando a denunciaram injustamente. Ui, isto deve doer! Por outro lado ainda, Leo confronta-se com o que fez quando era ele o perseguidor e não o perseguido, e questiona-se se não será um monstro. Encontrar o assassino dos miúdos torna-se a sua missão de vida, a sua redenção. Conseguirá redimir-se? Conseguirá conquistar a esposa, desta vez pelo amor e não pelo medo?
O problema do filme é estar demasiado recheado de pontos de interesse que acabam por não ser desenvolvidos como mereciam. Mal nos começamos a interessar por um, aparece logo outro. O fim, infelizmente, não faz jus à premissa. Acredito que a ideia soava muito bem no “papel”, mas falhou na execução.

13 em 20 (porque a ideia era boa)