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domingo, 19 de abril de 2026

Ouija: Origin of Evil / Ouija: Origem do Mal (2016)

[contém alguns spoilers, não revela o final]

Tendo em consideração que achei o primeiro "Ouija" um filme chato, e bem chato, esta prequela deixou-me de boca aberta. Cá está uma das excepções que confirmam a regra.
Em 1967, uma falsa vidente, viúva e em dificuldades económicas, tenta ganhar a vida a fazer "sessões espíritas" com a ajuda das duas filhas menores. Lina, a filha adolescente, sugere que utilizem uma ouija board para compor o número, coisa que a mãe decide experimentar. Mas a filha mais nova, Doris, tem de facto dons mediúnicos. Com a utilização da ouija board, Doris entra em contacto com espíritos maléficos.
Para começar, só o ambiente de época já faz o filme valer a pena. O enredo centra-se no drama da viúva e das filhas órfãs, e eu fiquei tão interessada que estive sempre a torcer para que o filme resultasse. E resulta, em certa medida. E depois acontecem coisas que nos fazem torcer o nariz.
A certa altura isto parece que vai ser uma coisa tipo "O Exorcista". A miúda fica possuída, um padre quer fazer um exorcismo... Mas depois o filme dá uma reviravolta, como se nos provocasse: "pensavam, não pensavam?" Sim, pensávamos. Geralmente estes truques não funcionam muito bem sem ser pela mão de um mestre. Funciona aqui? Já lá vou.
Estava tudo a correr muito bem. Doris, a miúda, protagoniza algumas cenas que nos deixam realmente inquietos. Não digo que metam medo, mas perturbam. Acho que este filme também beneficia do anterior, uma seca tão grande que os espectadores da prequela não estão à espera de serem minimamente perturbados.
Mas depois a coisa complica-se. Afinal a mãe e as filhas estão a viver numa casa assombrada. Doris está a contactar o espírito de um polaco que sobreviveu aos campos de concentração onde havia um médico nazi que fazia experiências com os prisioneiros. Este polaco sobrevive e vai para a América, onde acaba num hospital psiquiátrico onde reconhece o mesmo médico nazi do campo de concentração que continua a fazer experiências nos pacientes. Coincidência do caraças e azar do caraças. Este tal médico nazi fazia as experiências na casa de Doris e os corpos estão enterrados na cave. São os fantasmas destas vítimas que estão a possuir Doris agora. Ok, aceito. Fantasmas injustiçados e vingativos e isso tudo.
Mas pensemos melhor. A família está a viver na casa estes anos todos, a fazer falsas sessões espíritas, e só agora é que os espíritos se manifestam à miúda, que realmente tem poderes psíquicos, por causa de uma ouija board? Não. Não bate certo.
Esta história também está mal contada. O tal médico nazi é mal aproveitado. Aparentemente, são as vítimas que se estão a manifestar, o médico deve ter morrido e foi enterrado noutro sítio. Desperdício de médico nazi. Ainda vi o filme duas vezes para perceber se me tinha escapado alguma coisa, mas não. Afinal, o médico até podia ter sido parente do pai das miúdas, mas também não.
Também não percebi o fantasma malvado. Este fantasma malvado tem olhos simpáticos. Eu até pensei, sinceramente, que se ia revelar um espírito bom que ia ajudar a família. Há aqui qualquer coisa que não bate certo porque qualquer pessoa de Hollywood (ou até eu) sabe fazer um monstro assustador, e este monstro parece um desenho animado para crianças. Deu-me a entender que metade do filme já estava feita para uma coisa e foi "remendada" para outra. Algo de estranho se passou com este filme, o que é de facto o maior mistério de todos.
Mas funciona? Aí é que está o mistério. Funciona. Até ao final, nem me passou pela cabeça que fosse uma prequela. Mas foi exactamente aqui, no final, quando tentaram estabelecer a ligação entre a prequela e o original, que o filme deixou de fazer sentido. Nem que quisesse explicar, não consigo. Vi duas vezes e não percebo o final. Até tentei fazer um esforço para me lembrar do original, mas mesmo assim não chego lá. Tendo em conta a qualidade surpreendente do todo, talvez isto tenha sido um truque mal conseguido.
Depois de ver o filme descobri que foi realizado por Mike Flanagan. Isso explica a qualidade inesperada desta continuação de um filme medíocre, mas não há aqui nada ao nível de um "The Haunting Of Hill House", nem nada que o valha. Mesmo assim, metade do mistério está explicada. O final desastroso é que não está.
Este ainda não foi o filme de terror com ouija boards que eu queria ver, e há muito que explorar com as ouija boards. "Ouija: Origin of Evil" remete o original para um canto obscuro, mas, conhecendo o realizador como conheço, eu diria que algo aqui correu muito mal e não tem a ver com espíritos do outro mundo. 

13 em 20 (que podia ter sido muito mais se não fosse o final desastroso)

PS: O "fantasma malvado" é o actor Doug Jones, que eu só fiquei a conhecer como Barão Afanas em "What We Do In The Shadows", mas já foi o Fauno em "Pan's Labyrinth", a criatura aquática em "The Shape of Water", Count Orlok em "Nosferatu" e o Bye Bye Man em "The Bye Bye Man", entre outros, só que estava sempre irreconhecível.


domingo, 19 de maio de 2024

The Haunting of Bly Manor (2020)

A certa altura, um dos personagens diz que esta não é uma história de fantasmas mas sim uma história de amor. Nesse caso, eu diria que não é apenas uma história de amor mas várias histórias de amores e desamores que assombram os vivos e atormentam os mortos.
A história passa-se na Inglaterra rural, nos anos 80, na imponente Bly Manor, uma mansão senhorial do século XVII ou anterior. Dani Clayton é uma jovem professora americana contratada para ser ama/preceptora (ou melhor, au pair, que é mais moderno e mais fino) de duas crianças órfãs em Bly Manor, Flora de 8 anos, e Miles, de 10, cujos pais morreram num acidente no estrangeiro. Pior um pouco, a preceptora que antecedeu Dani suicidou-se no lago da propriedade. Henry Wingrave, o tio de ambos, refugia-se no seu escritório de advogados e bebe dia e noite.
Os miúdos são estranhos. Já nem me refiro à linguagem que utilizam, que parece mais de crianças do século XIX, porque ambos tiveram a educação da mais elevada classe alta britânica, com colégios internos e tudo. Flora parece falar com alguém invisível. Miles tem momentos de conduta completamente inapropriada para a sua idade. Apesar da sua juventude, Dani é uma professora experiente e atribui estes comportamentos aos traumas sofridos pelos dois órfãos, com toda a paciência. Dani, ela própria, traz atrás de si o “fantasma” da culpa pela morte do noivo, que a atormenta a cada instante.
Não estou a cometer nenhum spoiler ao dizer que Bly Manor é completamente assombrada por vários fantasmas que, a princípio, só as crianças conseguem ver. Mas alguns fantasmas, que nem sequer sabem que estão mortos, continuam a interagir com o pessoal da casa como se estivessem vivos sem que ninguém desconfie. Uma das partes mais interessantes da série, confesso, foi tentar adivinhar quem era fantasma ou não, e as próprias crianças fazem bons candidatos. Um dos meus episódios preferidos foi mesmo visto pela perspectiva de um fantasma que não sabe que está morto. O episódio é confuso, misturando o presente, as recordações, as conversas do passado, a estranheza de não se saber onde se está, o que reflecte a confusão (e o estado de negação) que o espírito sente em relação à sua situação.
No entanto, em retrospectiva, podemos perguntar-nos como é que apenas as crianças, e não os adultos, têm conhecimento da assombração mais perigosa de Bly Manor, o espírito vingativo e assassino da antiga proprietária do palacete, uma dama do século XVII que se recusou a morrer e muito menos a abandonar a sua casa de família. Mas isto é facilmente explicado. As crianças são receptivas, os adultos não. Talvez, em 400 anos em que Bly Manor mudou de proprietários, a lenda se tenha esquecido, ou os rumores tenham sido interpretados por mentalidades mais científicas como superstições campestres. Só quando os adultos, em virtude das circunstâncias, se tornam mais receptivos, começam eles também a aperceber-se e até a ver os fantasmas.
“The Haunting of Bly Manor” é uma série baseada em obras de Henry James. Admito que não estou familiarizada com o autor. Dele só li “O Altar dos Mortos” e, apesar do título, o livro nada tem de sobrenatural. É um romance denso e psicológico sobre um homem e uma mulher que se encontram regularmente quando vão acender velas aos mortos e que acabam por travar conhecimento. Um deles descobre que o outro acende velas a um indivíduo que cometeu actos execráveis e fica completamente decepcionado com a pessoa a quem já considerava uma alma-gémea. E é isto, nada de fantasmas excepto as assombrações do passado. “The Haunting of Bly Manor” também tem um episódio chamado “O Altar dos Mortos” vagamente inspirado no romance, mas repleto de elementos sobrenaturais.
Esta não é uma série cheia de horror por todos os cantos, embora baste o ambiente da mansão para ser inquietante o suficiente, mas algumas cenas são bastante assustadoras e podem permanecer connosco. Eu sei que nunca mais vou atravessar um jardim à noite sem olhar para todos os lados.
Ficou um enorme mistério por resolver, contudo: em Bly Manor só existe um cozinheiro, uma jardineira e uma governanta. Quem é que limpa aquelas divisões todas que nem se vê um grão de pó? Nem que a governanta trabalhasse dia e noite (o que não é o caso) conseguiria manter os chãos impecáveis, o pó limpo, as madeiras, os reposteiros, os sofás, os quartos, a cozinha, etc etc, já para não falar das grandes limpezas em profundidade algumas vezes por ano. Acredito menos nisto do que em fantasmas. Foi logo a primeira perplexidade que me veio à cabeça ao ver aquele casarão. Talvez os fantasmas ajudem a limpar? Os vivos não limpam de certeza.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: The Haunting of Hill House, The Haunting, Henry James, Mike Flanagan, fantasmas, casas assombradas


domingo, 5 de maio de 2024

Midnight Mass (2021)

Recentemente tenho tido a sorte de assistir a algumas séries fantásticas, mas esta deve ser a melhor de todas. O mais frustrante é que não posso dizer porquê sem cometer spoilers. “Midnight Mass” é daquelas histórias que têm de se ir descobrindo à medida que acontecem para que o espectador possa ir tirando as suas próprias conclusões. No entanto, tenho de incluir um spoiler para que a série não passe despercebida aos amantes de uma coisa de que eu também gosto muito.
“Midnight Mass” foi o projecto mais acarinhado do realizador Mike Flanagan que tentou promovê-lo como filme, série e, na última das hipóteses, depois de muitas rejeições, tencionava publicá-lo em livro. O que só demonstra como a indústria falha em perceber o que nós queremos ver.
A história é muito ao estilo de Stephen King. Numa ilha isolada, uma vila piscatória empobrecida já perdeu a maior parte dos habitantes e está reduzida a 127 residentes. Muitos destes, mas não todos, são católicos fervorosos, mas só ao domingo. As missas diárias em St. Patrick, a igreja da vila, estão praticamente vazias. É assim que encontra a congregação o ainda jovem padre Paul, enviado para substituir o idoso e venerado Monsenhor Pruitt que sofria de demência. O padre Paul está decidido a mudar a situação e dentro em breve começam a acontecer milagres por toda a ilha: uma jovem paralítica volta a andar, os fiéis começam a rejuvenescer e a melhorar de doenças, alguns deixam de precisar dos óculos, uma idosa com Alzheimer tem uma recuperação inexplicável. A missa em St. Patrick enche diariamente. O padre Paul atribui os milagres ao Espírito Santo, mas será mesmo Deus quem está a fazê-los? Não passado muito tempo, o xerife da vila começa a receber participações de pessoas desaparecidas.
O início da série é lento e nos dois primeiros episódios parece que não está a acontecer nada de relevante, mas nos bastidores já está tudo em marcha. Aos espectadores mais impacientes garanto que a carnificina virá, e ainda mais significante porque tivemos tempo de conhecer os personagens e os seus dramas. “Midnight Mass” tem uma forte componente dramática e filosófica e alguns personagens menos crentes fazem discursos brilhantes do ponto de vista não religioso sobre o que acontece depois da morte. O que é, aliás, o tema fundamental da série: um estudo sobre o que a morte significa para nós, para Deus, para os religiosos e os ateus; de que forma encontrar consolação quando não se acredita num Além? Estas conversas e monólogos são sempre interessantes e dão peso ao que se vai seguir.
A congregação de St. Patrick não se debate com estas dúvidas existenciais. Mesmo quando as coisas se tornam estranhas, até do ponto de vista litúrgico, os fiéis acreditam no que querem acreditar. Ofuscados pelo carisma do padre Paul e pelos milagres que vêem acontecer à sua frente, já não são a Igreja Católica: são um autêntico culto. O que acontece depois é fortemente inspirado no massacre de Jim Jones e igualmente chocante. Por esta altura até o padre Paul já tinha perdido o controlo da situação, quando a sacristã (?) Bev toma as rédeas do culto, com capangas e tudo.
Ao contrário do que possa parecer, “Midnight Mass” não é uma história anti-religião. Por muito ingénuo, inocente ou movido por uma fé cega (não obstante tocar o fanatismo), o padre Paul acreditou sempre no que dizia e na origem divina dos dons distribuídos por Deus aos fiéis. (Um trabalho fantástico do actor Hamish Linklater, a quem eu não conhecia.) Acreditou demais e com demasiado optimismo, na verdade, pois até a Bíblia adverte contra os “milagres operados por meio de demónios”, assunto em que a Igreja Católica é bastante versada. Mais uma vez, os fiéis acreditam no que querem acreditar.
A conclusão última de “Midnight Mass” é de que há pessoas religiosas boas e más como em todo o lado. Alguns, crentes ou não, mesmo depois de transformados em demónios ou à beira da morte, preferiram pôr termo à vida em vez de se tornarem monstros. Nesse aspecto o padre Paul tinha razão: nunca é tarde para a redenção.
Acabo numa nota menos séria. Quando nasceu o sol, a sacristã Bev teve a ideia certa… mas não foi a tempo. Devia ter lido mais Anne Rice.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: muitas vezes

PARA QUEM GOSTA DE: Stephen King, Mike Flanagan, cultos, vampiros, drama, filosofia