domingo, 26 de julho de 2026

The Sheltering Sky / Um Chá No Deserto (1990)


Um casal americano vai viajar algures no norte de África em lazer, mas a aventura torna-se pesadelo.
"The Sheltering Sky" é um filme complexo com variadíssimas camadas de leitura, por isso vou apenas analisar aquilo que subjectivamente me saltou mais à vista.
Primeiro que tudo, acho que Bernardo Bertolucci não poderia ter realizado este filme nos dias que correm sem lhe chamarem tudo de racista para baixo, mesmo sem razão, mas a nova censura, tal como a velha censura, não tem capacidade crítica para interpretar para além do óbvio. É preocupante que um artista tenha de se questionar se o que está a criar é, antes de mais, politicamente correcto. Gosto muito da expressão "toda a gente tem o dever de chocar e o direito de ser chocado", que emana de filosofias e movimentos artísticos provocadores, e não podia concordar mais no que toca ao papel da arte.
Segundo, da maneira que escrevi a sinopse até parece um filme de terror, e fi-lo de propósito. "The Sheltering Sky" é antes aquilo a que gostamos de chamar um "filme intelectual" com diversas interpretações, mas uma delas, o tal "pesadelo" em que os protagonistas embarcam voluntariamente, podia ser muito bem a estrutura de um filme de terror, ou, pelo menos, de um terror da vida real. 
O filme é baseado no romance homónimo de Paul Bowles. É este "narrador" que nos diz logo de início que Kit e Port, o casal, nunca precisaram de ter noção do tempo porque sempre tiveram tempo para tudo. Aproveito esta deixa para salientar o que mais me impressionou neste casal de americanos ricos, boémios, artistas, privilegiados, e até um pouco hippies antes dos hippies. O que mais me impressionou nem sequer foi a ausência de um pensamento ou comentário perante a pobreza extrema dos nativos que os rodeiam, como se estes nem fossem pessoas mas parte da paisagem pitoresca, porque eram outros tempos, tempos de euforia logo após a Segunda Guerra Mundial, muito antes da era das revoluções sociais. Nem sequer foi a arrogância de classe que leva Kit e Port a pensarem que o dinheiro na mão resolve tudo e compra tudo, até chegarem a uma civilização onde o dinheiro não tem valor. Isso também era típico de um tempo em que um casal privilegiado ainda vivia segundo o legado de uma aristocracia do século anterior e numa mentalidade de colonialismo em que o rico e educado era considerado "superior" e o nativo inculto "inferior". 
O que realmente me impressionou em Kit e Port foi aquilo a que vou chamar a arrogância existencial de quem se julga imortal, rico para sempre, jovem para sempre, belo para sempre. O próprio Port diz isso a um amigo que os acompanha, que eles não são turistas mas viajantes e que os viajantes podem nunca regressar a casa. O seu único plano é não fazer planos, e este plano de não fazer planos não é temporário mas para sempre, como se algum mortal pudesse arrogar-se ao "para sempre".
Para começar, nunca é abordado porque é que o casal escolheu o norte de África para viajar. Porque sim podia ser uma resposta tão boa como qualquer outra. O casamento de Kit e Port está nitidamente periclitante, ambos são infiéis, mas nunca conseguem conversar sobre o assunto por muito que tentem. É como se nada se passasse de errado nesta felicidade matrimonial fingida, ambos a enterrar a cabeça na areia e a caminhar para a frente, cegamente e sem rumo, para não terem de parar e encarar a realidade. O deserto, cada vez mais perto e imponente, é uma boa metáfora para esta relação e atitude perante a vida: árido, estéril, enganador no seu encanto, perigoso na sua promessa de vastidão e liberdade. É para esta vastidão desértica que Kit e Port se encaminham, à deriva e sem destino, apenas para não estarem quietos. 
Quanto mais eles se embrenhavam no interior de África e do Saara, cada vez mais longe da civilização, mais dava por mim a pensar em "Wolf Creek", e daí a relação que estabeleci com um filme de terror, se bem que até os personagens de "Wolf Creek", com muito menos ingenuidade e mais experiência, tivessem os olhos mais abertos para o que os rodeava. Kit e Port, privilegiados de uma geração muito anterior, não têm os olhos abertos porque os querem manter fechados. Não são turistas, julgam-se aventureiros destemidos que, afinal, andam a fugir de si próprios.
Referi "longe da civilização" mas está incorrecto. Kit e Port embrenham-se no deserto e afastam-se da civilização ocidental ao encontro de uma civilização local e primitiva onde se espalha a malária, onde não há médicos nem medicamentos nem água potável. Kit e Port avançam voluntariamente para o pesadelo que destrua por eles o que não conseguem destruir sozinhos. Talvez, inconscientemente, fosse esse o rumo desde o início.

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