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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Alien: Covenant (2017) / Prometheus (2012)


Alien: Covenant (2017)

Como faço muitas vezes, comecei a ver este filme sem saber quase nada sobre ele. Nem que era de Ridley Scott, nem que era um filme da série Aliens, nem que era a sequela de “Prometheus”. (Da sinopse e título pensei que era a história de colonos espaciais que encontram uma civilização alienígena hostil.) Não saber nada de um filme (ou livro) permite-me absorver a obra sem expectativas ou ideias preconcebidas. E admito que fiquei agradavelmente surpreendida quando percebi que ia ser um filme da série Aliens. Até cerca de metade do filme gostei bastante. E de repente o filme tornou-se confuso. Comecei a ter a sensação de que tinha perdido um episódio. Efectivamente, perdi, porque ainda não tinha visto “Prometheus”.
Então a história é esta. A nave espacial Covenant dirige-se a um sistema solar distante na intenção de o colonizar. Mas, durante o caminho, recebe uma transmissão humana, vinda de um planeta tão propício à vida que é completamente compreensível que a missão decida investigar e, talvez, estabelecer-se mesmo ali.
Mas a transmissão é uma armadilha. E de quem? Ora, é esta a parte em que seria preciso conhecer o que aconteceu em “Prometheus” e em que comecei a ficar confusa.
“Alien: Covenant” começa muito ao estilo de “Odisseia no Espaço” (ou filmes semelhantes da altura, até nas roupas que parecem ter saído dos anos 70) com o criador de um andróide muito evoluído, e este próprio andróide, David, a terem uma discussão altamente filosófica sobre quem devia servir quem uma vez que o andróide é eterno e o criador é mortal.
Muda a cena, estamos na nave Covenant. Esta nave tem um andróide, que eu julguei que era o tal David (são iguais) mas afinal não era. Instala-se a confusão na minha cabeça.
A tripulação da nave desce ao tal planeta, onde começam a ser infectados pelo nosso alien do costume (afinal não fui assim tão enganada pela sinopse, simplesmente o alienígena hostil não é um desconhecido) através de esporos que entram pelo nariz, boca, ouvidos e outras reentrâncias do corpo humano. Mas a maneira como sai é a mesma: buraco entre as costelas e lá vai ele.
Entretanto, já andam pelo menos dois aliens adultos à solta ainda antes que a pobre tripulação perceba muito bem o que lhe está a acontecer. Quando estão a ser atacados, eis que entra em cena o primeiro andróide, David, o tal da primeira cena, com armamento que afugenta os aliens.
E aqui parece que o filme deixou o universo Aliens e entrou no universo O Senhor dos Anéis. David vem coberto com uma manta encapuzada à elfo, de longos cabelos loiros, no papel do estranho misterioso e cheio de poderes sobre-humanos que oferece ajuda.
Só percebi que era um andróide quando ele se volta para o andróide da nave e lhe chama “irmão”, e só aí percebi que o andróide da nave não era o mesmo do princípio.
Ok, avançamos. A tripulação é levada para as ruínas de uma cidadela completamente rodeada de cadáveres carbonizados (a lembrar Pompeia) e ninguém se lembrou de perguntar ao tal David o que raio se tinha passado ali. Entretanto, este explicava que era o único sobrevivente da nave Prometheus, dada como perdida, e a fonte da transmissão que leva ali a tripulação da Covenant.
O filme continua dividido em dois a partir daqui: por um lado, os recém-chegados da Covenant protagonizam um filme Aliens como estamos habituados, eles a fugir, os aliens a comê-los, enquanto que os dois andróides se retiram para mais uma conversa filosófica como se nada se passasse lá fora.
E aconteceu-me outro momento de grande confusão. O novo andróide, o tal David, subitamente aparece de cabelo preto e cortado, e quase igual ao outro, e durante toda a cena eu não percebi que era o mesmo actor a contracenar consigo próprio! Aqui tenho de dar os parabéns ao actor Michael Fassbender que me convenceu completamente de que era duas personagens diferentes a ponto de enganar os meus olhos. (Mas deixem-me explicar o motivo principal da minha confusão, que foi o cabelo loiro. Isto é explicado no filme anterior, “Prometheus”. Quem conhece os andróides de Aliens não lhes nota qualquer vestígio de vaidade ou vontade de ser diferente. Mas David, aparentemente, foi o primeiro andróide a ser criado e é muito mais humanizado do que os outros, o que se revela um problema. Sim, David decidiu mudar de visual. E isto baralhou-me tanto que passei o filme a tentar perceber quem era quem. Mas lá consegui apanhar o fio à meada e até adivinhei a reviravolta final.)
Fazendo justiça a Ridley Scott, se eu tivesse visto “Prometheus” primeiro esta confusão não se punha porque David é completamente inesquecível. O que só vem reforçar a ideia de que os filmes são episódios e precisam um do outro, e não aconselho ninguém a ver “Alien: Covenant” antes de “Prometheus”. A sensação de “episódio perdido” persiste até ao fim do filme. Comecei a ficar com a impressão de que “Alien: Covenant” se tinha passado antes mesmo do primeiro Alien, que este tal David é que tinha manipulado geneticamente a raça de aliens até estes se transformarem nos aliens que viemos a conhecer nas aventuras da Ripley, mas tudo isto apenas como hipótese e sem lhe conhecermos as motivações. Este David, neste filme, aparece como um Dr. Frankenstein apaixonado pelo seu monstro, um filme dentro de outro filme. Mas um filme que termina no Aliens “habitual”, com todas as reviravoltas que esperamos desta saga. Se alguém tem o direito de inovar é mesmo Ridley Scott, realizador do “Alien” original, mas parece-me que ele tentou fazer a sua “Odisseia no Espaço” ao mesmo tempo que dava à audiência a dose de aliens de que esta estava à espera. Se resultou? Bem, é uma boa dose de aliens com todos os condimentos habituais, mas “Alien: Covenant” continua a parecer dois filmes que só por coincidência se interceptam e no meu caso com um “episódio perdido” pelo meio. Por este motivo, culpa minha que não vi “Prometheus” antes, abstenho-me de dar nota por agora.



Prometheus (2012)

“Prometheus” não é a dose habitual de Aliens. É um filme filosófico e ambicioso sobre a origem da vida, especialmente sobre os motivos do criador e a sua relação com as criaturas que concebeu.
O filme começa quando uns arqueólogos, na Terra, descobrem gravuras rupestres que apontam para uma raça estelar semelhante à humana e para um sistema solar longínquo que, segundo estes acreditam, é o lar dos nossos Criadores, a quem chamam os Engenheiros. Esta descoberta leva-os a uma viagem ao tal planeta dos Engenheiros, na esperança de conhecerem a espécie que deu origem à raça humana.
Enquanto a tripulação dorme na nave que a transporta até lá, voltamos a encontrar o andróide David (o mesmo de “Alien: Covenant”) e percebemos porque é que ele pinta o cabelo. David pinta o cabelo de louro depois de ver “Lawrence da Arábia”, o seu herói. E um andróide com um herói é um andróide com personalidade. David é, indubitavelmente, o personagem principal, um andróide com um complexo de superioridade em relação aos seres humanos que o criaram e que o tratam como a um robô sem sentimentos nem intelectualidade. David está chateado e tem motivos para estar chateado.
Ao chegarem ao planeta dos supostos Engenheiros, hominídeos gigantes que nos teriam criado à sua imagem, mas agora aparentemente extintos, David encontra, primeiro que todos, uma outra criação dos Engenheiros, uns estranhos micróbios cuja finalidade desconhece. Mas começa imediatamente a testá-los nos humanos, especialmente nos humanos que o tratam pior.
Há muitas cenas arrepiantes neste filme, mas na minha opinião a pior de todas é a operação à barriga. Não faltam outras, igualmente de arrepiar os cabelos. Ninguém vai sair deste filme insatisfeito nesse departamento. Os efeitos especiais são particularmente convincentes.
Mas como este não é um filme de aliens qualquer, a nossa curiosidade é conduzida para esta raça de gigantes que supostamente nos criou. Após pesquisarem as instalações que os Engenheiros deixaram no planeta, a tripulação da Prometheus percebe que este não é um lar mas uma base militar, e carregadinha de armas de destruição maciça (o micróbio alien). Visualizando gravações de imagens, percebem que os Engenheiros se preparavam para voltar à Terra com o objectivo de destruir a humanidade que eles próprios criaram.
Mas se dúvidas houvesse, David o andróide descobre que um dos Engenheiros ainda está no complexo, vivo, numa câmara de hipersono. A tripulação acorda-o e tenta estabelecer comunicação com ele, mas o gigante não quer conversas e desata a matar toda a gente que apanha. Não bastando fugir dos aliens, agora têm de fugir dele também.
Voltemos ao princípio. Filme filosófico e ambicioso em que a humanidade se confronta com o seu criador. Este criador, aparentemente, mudou de ideias e resolveu destruir a sua criação. Que moral, ensinamento, conclusão tiramos daqui?
“Porque é que queres saber porque é que eles mudaram de ideias? É irrelevante. Não compreendo.”, pergunta David à arqueóloga.
“Não compreendes porque tu és um robô e eu sou um ser humano”, responde ela.
Ainda bem que eu também sou um ser humano porque eu também queria muito saber porque é que os Engenheiros se deram ao trabalho de criar a humanidade para depois a destruir. Isto é, posso tecer milhentas conjecturas sozinha, mas o filme não oferece nenhuma. Temos de ficar com esta ideia “interessa-nos porque somos seres humanos”. Fraquinho, muito fraquinho. Eu esperava, no mínimo, uma teoria. Um motivo. Afinal ficamos na mesma.
De igual forma, não percebi o Engenheiro suicida que se mata com uma dose de micróbios alien no princípio do filme enquanto vê a nave do seu povo afastar-se. Dá ideia de que foi o único que ficou no planeta, mas afinal não, porque havia outro em hipersono. A única pista sobre este suicida é uma menção no genérico final como aquele que se “sacrifica”, o que ainda é mais confuso. Do que vimos nas tais imagens deixadas por eles, tiveram de fugir à pressa porque as experiências com aliens não correram bem. (A única parte que se percebe perfeitamente, conhecendo nós os aliens como os conhecemos.) Então quando é que isto (o suicídio/sacrifício) aconteceu? Terá sido neste planeta, como parece dar a entender, ou no deles, ou na Terra, ou noutro lado qualquer? Mais uma vez podia pôr-me aqui a tecer conjecturas, mas o filme não dá respostas. “Alien: Covenant”, a sequela, também não nos explica mais sobre esta raça de gigantes excepto o massacre que se vê na tal cidadela de que falei acima. E que mais uma vez nos deixa sem saber nada.
As únicas respostas que temos, tanto em “Prometheus” como em “Alien: Covenant”, são sobre a origem dos aliens. Afinal começaram como micróbios (ou esporos, não percebi bem) e foram sendo geneticamente manipulados (e evoluindo por eles próprios, igualmente, com a ajuda dessa manipulação), primeiro pelos Engenheiros e depois pelo próprio David, antes de serem o alien que conhecemos da nave Nostromo. Uma coisa é certa, no entanto: até como micróbios os aliens eram extremamente mortíferos, se não mais, porque não se viam a olho nu e mesmo assim entravam no corpo do hospedeiro e faziam aquilo que se sabe.

Gostei mais de “Prometheus” do que de “Alien: Covenant”, e gostei mais ao segundo visionamento. A primeira vez que vi fiquei confusa, a perguntar-me o que me tinha escapado. Afinal não me escapou nada, mas estes dois filmes têm ar de trilogia incompleta. As intenções são claras, fazer um paralelo entre a nossa criação, ou mitologia dessa criação, com a criação dos aliens, e de como acabamos todos por ser espécies a competir pela vida num universo indiferente, abandonados por um Criador que não se importa. Muito existencialista. Mas parece-me que Ridley Scott queria dizer mais e ainda não foi desta que conseguiu. A existência e motivação dos Engenheiros é interessante e misteriosa e merecia um filme só para eles. Até sem aliens.
Também gostei muito de toda a imagética criada em “Prometheus”, a começar pela primeira cena. Só é pena deixar tantas perguntas a que a sequela também não responde.
Fiquei interessada e fui investigar. Parece que Scott prevê realizar outro filme ainda só denominado “Untitled Alien Prequel". Por mim, que venham mais. Que venham todos.


Alien: Covenant
14 em 20

Prometheus
15 em 20


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Event Horizon / O Enigma do Horizonte (1997)


Este é daqueles que se vi não me lembro. Personagens genéricas e uma ameaça que fica sempre inexplicada parecem ser os ingredientes perfeitos para causar amnésia cinematográfica.
Até o enredo é mais ou menos igual a tantos outros do género: uma equipa de socorro é enviada em busca da nave de exploração espacial Event Horizon, seguindo um sinal que esta envia de algures em órbita de Saturno. Assim que vemos o aspecto da nave Event Horizon percebemos logo que isto vai ser um filme de terror inspirado no “Alien”. Meu dito meu feito, o filme não é exactamente subtil. Até a equipa de socorro nos recorda as tripulações dos vários “Aliens”, o tipo de pessoas que está ali porque é um emprego como outro qualquer e no fundo o que queriam era uma reforma antecipada. Gostei das cenas em que quase todos os membros da equipa fumam uma cigarrada antes de entrarem nos tanques de stasis (?). É datado, mas é giro. Também gostei de terem explicado o conceito de FTL (velocidade Faster Than Light) que implica causar uma “dobra” no contínuo espaço-tempo. Tudo ficção científica, bem entendido, mas como era 1997 ainda se deram ao trabalho de explicar. Actualmente a ficção científica usa o termo FTL a torto e a direito e pessoas como eu, que não conhecem estes termos nem sabem o que significam, ficam ali à nora a tentar perceber a acção, ou desistem. O que me leva a esta reflexão: uma ficção científica que não se dirija a um nicho muito específico de conhecedores devia ter em conta uma audiência mais interessada na história e personagens e menos nos aspectos científicos. Quanto mais a ficção científica se dirige a um nicho, mais aliena o público leigo.
Mas voltando ao filme. As coisas começam a acontecer como é previsível neste género horror sci-fi. A Event Horizon é uma nave fantasma, toda a sua tripulação está morta, alguns corpos andam mesmo ali a vogar nos corredores devido à ausência de gravidade. Enquanto exploram a nave, os membros da equipa da socorro começam a ter alucinações estranhas com pessoas que lhe são caras, algumas já falecidas. Resolvendo que se passa algo de anormal e perigoso, decidem ir-se embora, mas aqui entra em cena o cientista louco/malvado (Sam Neill). Acontece que foi ele quem desenhou a nave, dotando-a de um mecanismo capaz de criar o seu próprio buraco negro de modo a viajar no espaço mais depressa. Mas aparentemente a Event Horizon visitou outra dimensão e não regressou sozinha. Trouxe consigo forças maléficas que querem apossar-se dos recém-chegados. Que forças maléficas são estas e para onde querem levar a nave de volta? Para o inferno. Não, não é uma forma de dizer. O filme quer-nos convencer de que a nave foi ao inferno e voltou. (É tranquilizador saber que algures na infinitude do espaço, até do outro lado de um buraco negro, ainda se aplicam as regras da nossa civilização judaico-cristã.)
As tais forças maléficas apoderam-se da mente do cientista (ou será que ele já era assim?) e a partir daqui este faz o papel de sabotar a fuga dos outros. O resto do filme é a tripulação da nave de socorro a lutar pela vida.
“Event Horizon” não prima pela originalidade mas enche o olho em termos de efeitos especiais e cenários. É o tipo de filme que se via no grande écran (quando ainda havia grande écran, mas já em extinção) a comer pipocas. Uma crítica que li chamou-lhe uma espécie de “Shining via Aliens”, e é de facto uma descrição muito apta. Durante quase todo o filme me recordei de “The Shining”, especialmente na cena em que um dos tanques de stasis se enche de sangue, explode, e jorra sangue por todo o lado, como o célebre elevador do hotel Overlook. Fiquei foi sem perceber se o tanque aconteceu mesmo ou se foi outra alucinação. Na verdade, fiquei sem perceber grande coisa excepto que o inferno é muito mau e pode estar do outro lado de um buraco negro, e que o Génesis bíblico tinha razão: o homem não deve querer saber tanto como Deus ou será castigado. Mas acho que até já estou a tirar conclusões a mais por mim própria e a tornar o filme mais interessante do que é. “Event Horizon” aposta principalmente no espectáculo, com muitos cenários, muitas explosões, muito sangue e afins, mas na verdade é um filme vazio que não deixa lembranças.


14 em 20


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Stranger Things

 

(crítica à primeira temporada)

!! CONTÉM ALGUNS SPOILERS, NÃO REVELA O FINAL !!

Às vezes temos surpresas. Quando uma série nos chega muito bem recomendada como uma das melhores da década, senão de sempre, criamos expectativas que por vezes nos desiludem. Ou não. Breaking Bad foi-me apresentada como uma série extraordinária e imperdível, e confesso que não fiquei entusiasmada. Drogados a vender speed? Achei que não era para mim. E no entanto adorei. Também Stranger Things me chegou altamente recomendada e despertou-me logo o interesse. Ambiente e música dos anos 80, um monstro, uma miúda com poderes especiais, experiências ultra-secretas em instalações militares. Isto é mesmo para mim. Ou assim pensei. Infelizmente, a série não me encheu as medidas.

Fiquei desiludida, mas a culpa não é da série. Pensei que era uma história sobre um monstro que por acaso envolvia miúdos. Afinal, é uma história sobre miúdos que por acaso envolve um monstro. Fica o alerta. Isto não é puro terror. Podia ter sido, mas tirando algumas cenas perturbadoras (e muito breves) pode perfeitamente passar como série para ver em família. Seriam mais problemáticas, neste aspecto, algumas passagens de “quase-sexo” entre adolescentes do que o aparecimento do próprio monstro.
Percebe-se melhor quando se sabe que Stranger Things é feita de homenagens. Nem falo de influências, são mesmo homenagens descaradas. A mais evidente de todas é o grupo de miúdos com bicicletas que escondem a miúda com poderes especiais. (E.T.) Muitas das referências são a Spielberg, incluindo “Tubarão” por estranho que pareça. Não sou grande apreciadora de Spielberg, o que explica perfeitamente a minha reacção de enfado. Aliás, é bastante interessante que uma série com tantos momentos de enfado consiga mesmo assim ser viciante. Não vou negar, viciou-me. É um produto feito para binge watching e resulta. É preciso muito auto-controlo para não ver os oito episódios de enfiada.
Mas é curioso, porque achei os dois primeiros episódios aborrecidos e o facto de serem longos (50 minutos ou mais) também não ajuda. Mas depois de ver o segundo episódio só consegui parar ao sexto.

É difícil escrever sobre uma série que vive do suspense para agarrar o espectador sem revelar spoilers, e tentarei não o fazer. Logo no primeiro episódio, um monstro escapa do que parece ser um laboratório militar. Nesse mesmo dia, do mesmo laboratório, escapa também a miúda com poderes especiais. Nesse mesmo dia, um dos miúdos do grupo das bicicletas desaparece misteriosamente. A partir daqui tudo é spoiler.

Os colegas que toda a gente teve
Como não quero revelar spoilers, vou falar antes das personagens. O maior problema para mim, nesta série, é mesmo a incapacidade de me interessar por elas. O que torna a maior parte do primeiro episódio numa seca só entrecortada pelas breves cenas do laboratório e de Eleven (a miúda com poderes). Os miúdos são normais. Sim, são um bocadinho geeks, mas são completamente normais. Vidas normais, pais normais, bicicletas normais, jogos de Dungeons&Dragons normais. Ver estes miúdos 15 minutos seguidos é demais para mim.
Depois temos uma sub-história de adolescentes igualmente normais. Nancy (irmã mais velha do protagonista Mike) namora com um miúdo popular, Steve, que quer ir para a cama com ela. Nancy não quer, mas depois já quer, e depois convida uma amiga (Barbara) para fazer de pau-de-cabeleira numa festa na casa de Steve, mas a meio da festa manda Barbara embora para poder ir para a cama com Steve. Oh Céus, poupem-me! Sei que isto que vou dizer não vai ser consensual porque Nancy se tornou numa das personagens preferidas de muitos fãs, mas eu DETESTO esta sonsa! Nem três dias depois de perder a virgindade com o tal Steve já estava mais interessada no Jonathan (irmão mais velho do miúdo que desapareceu). Ninguém diria ao olhar para ela, com aquela roupinha foleira de menina queque, muito certinha, que não parte um prato. Toda a gente teve uma colega assim naquele tempo, e irra, detesto sonsas. Mas há algo também na actriz. Se calhar até a cara dela me irrita.
A personagem Barbara foi muito maltratada pela série. Talvez nem os próprios criadores tivessem noção do impacto que ela ia ter. Barbara era a típica adolescente dos anos 80 que ainda não se sabia valorizar. Óculos grossos, peso a mais, vestida como se tivesse o dobro da idade. Mas a aparência física é irrelevante fora do mundo juvenil do liceu. Barbara é responsável, sensata, e acima de tudo é uma boa amiga. Uma amiga que não merecia ser tratada como Nancy a tratou. Tudo nela a torna uma personagem simpática de quem conseguimos gostar. Sem querer desvendar muito, Barbara mal apareceu na série e deixou uma impressão inesquecível. Se calhar porque toda a gente também teve uma colega assim e o efeito nostálgico é mais forte.
Mas Jonathan é o adolescente mais interessante. Habituado a uma vida complicada, é o único que transcende a vulgaridade da terrinha em que vive. Jonathan é o tal que ouve Joy Division e que traz a música alternativa para a série. Pena que goste da sonsa da Nancy. Mas é preciso dar tempo ao tempo. O puto só deve ter 18 anos e horizontes ainda muito limitados àquilo que conhece. Merece melhor, mas vai ter de procurar fora daquele buraco de banalidade. Também tive colegas assim. A maioria saiu do buraco.
Os adultos, felizmente, não são aborrecidos. Quando já me estava a passar com tanto drama (e marmelada) adolescente, as cenas com os adultos salvaram-me do tédio total. Os dois protagonistas, a mãe do miúdo desaparecido e o xerife da terra, são personagens profundas e cativantes, com muito passado e bagagem emocional. Por mim, podiam desaparecer todos os adolescentes (menos o Jonathan, para ouvirmos Joy Division) e os miúdos, e a série podia ficar só com adultos. E mais dramática e com terror a sério.
Por esta altura devem estar a perguntar: mas e o monstro? Porque é que estamos a falar desta gente quando há um monstro? Era isto exactamente que eu dizia no início. A série é sobre esta gente e por acaso há um monstro. E como também já estou a bocejar outra vez só de falar nesta gente, vamos mas é falar do monstro.


O monstro
O monstro não me convenceu. Não é um grande spoiler revelar que é uma criatura de outra dimensão. Também fica imediatamente estabelecido, logo no primeiro episódio, que existe uma ligação entre o monstro e Eleven. Não pode ser por acaso que escaparam os dois no mesmo dia. (Eu tenho as minhas teorias quanto a isso, mas este é um mistério que continua na segunda temporada e não me cheira que a série siga pelos caminhos que estou a imaginar. Pode ser que me surpreendam.) A cena inicial, no laboratório, é bastante explícita quanto à natureza predatória da criatura. Mas há uma falha de lógica ainda não explicada que rouba credibilidade a este monstro. Aparentemente, na outra dimensão não existe nada para comer. Absolutamente nada. Se este é um monstro animalesco que precisa de comer, como é que sobrevivia no “outro lado”? E estava lá sozinho? Não havia mais monstros? Pensei, a princípio, que seria antes um “monstro de energia” fabricado pelos militares. Descobrir que era só um monstro “animal” desapontou-me. E como é que descobriu, assim que chegou a este lado, que as criancinhas são saborosas? E como é que aprendeu a farejar sangue à distância, como um tubarão (por causa da tal homenagem, só pode)? Há mais inconsistências destas que nunca são explicadas. Para uma espectadora como eu, que não está a ver a série por causa da nostalgia dos anos 80, as inconsistências foram-se avolumando a ponto de me desiludir. A primeira regra do terror é que tem de nos convencer para meter medo. Se algo mina a credibilidade começamos a desligar as emoções e o efeito perde-se. Não é por acaso que a única cena que me arrepiou foi aquela em que a homenagem é a Alien. Fiquei tensa na cadeira, abri mais os olhos, cheguei-me para a frente. Parei de respirar. Porque o extraterrestre de Alien, o filme original de Ridley Scott, é completamente credível e aterrador. À menor alusão gela-se-nos a espinha. Era este terror que eu esperava de Stranger Things e que de certa forma nos foi “prometido” na cena inicial da série. Pelo sexto episódio percebi que a história ia mesmo ser sobre os miúdos que querem matar o monstro com pedras e fisgas. Pior, comecei a temer que os miúdos o conseguissem. Felizmente, a série não enveredou assim tanto pela fantasia infanto-juvenil que me teria retirado imediatamente do público alvo. As promessas dos primeiros episódios são cumpridas.

Mais negro para a próxima?
Stranger Things podia ter ido mais fundo e mergulhado em águas mais negras. Por opção, não o quis fazer. Isto prejudicou sobretudo a melhor personagem da série, sobre quem mal falei por causa dos spoilers. Eleven é a verdadeira estrela da história. Vítima de condicionamento psicológico, Eleven só quer ser normal num mundo que para ela é alienígena. É por ela que sofremos, é por ela que torcemos, é sobre ela que tecemos teorias. O final da primeira temporada deixa-nos com um sabor amargo que só pode ser remediado na segunda.


Porque, é claro, há uma segunda temporada. E é claro que vou ver porque a série é excelente. Não é o que eu esperava mas é completamente irresistível. Li algures que os criadores prometem que a continuação vai ser mais negra. Será mesmo, ou é só publicidade enganosa? As promessas foram cumpridas mas as minhas expectativas não foram satisfeitas. A única maneira de tornar a série mais negra, como prometem, é sair do conforto family friendly da fantasia infanto-juvenil que tornou a série acessível a um público mais alargado. Pode ser que me engane mas duvido que se atrevam.