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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Morta, de Florbela Espanca

http://projectoadamastor.org/antologia-dentro-da-noute-contos-goticos

Ou não fosse Florbela Espanca, este é um conto em prosa poética. Os temas são os do costume nesta poetisa, o amor e a morte, e mais uma dose de morte.
Tal como em toda a prosa poética, apenas se pode interpretar o significado, e do que eu conheço da autora interpreto assim: a Morta morreu nova; durante uns tempos, o noivo foi visitá-la ao jazigo; por fim, o noivo deixou de visitá-la. Sentindo-se esquecida, a Morta levanta-se e vai-se “afogar”/”diluir” no rio, onde acabam todas as memórias. (Florbela conheceria o rio Lethes?... Na sua obra poética, Florbela menciona várias vezes a transmigração das almas/metempsicose/reencarnação, pelo que não é descabido interpretar este conto como mais uma referência a essa “morte” do eu antigo/renascimento pós-morte).
Florbela Espanca foi a autora mais gótica do nosso país antes de haver o movimento gótico. Lamento muito por ela não ter encontrado a sua gente. Talvez o suicídio tivesse sido evitado. Trágico destino de nascer antes do seu tempo. Como é que se conseguia ser gótico e viver naquele tempo de Avé-Marias e procissões, e de gente normal a martelar-lhe aos ouvidos que o problema estava nela? A solidão intelectual devia ser absoluta.
Isto é suspeito da minha parte porque eu adoro a autora, mas este foi um dos meus contos preferidos desta colectânea.


-§-

Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.




terça-feira, 28 de novembro de 2017

Requiem

Mais uma madrugada nasce só para ti
Um novo dia e ainda estás aqui

Vem ver, oh vem ver, o sol brilha para ti
Vem ver, amanhã, um novo dia contigo
Fica só mais um dia, mais um dia comigo

Agora partiste e já não estás aqui.
O sol nasce mas já não nasce para mim.

Ó linda, minha linda, levou-te a noite sem fim.





sábado, 28 de setembro de 2013

sem título

O bruxo veio ler-me a mão
viu viagens, viu amantes
mas disse-me, sem compaixão:
“Filhos, não terás não!”

Na linha da minha vida
já não há muito tempo a perder
Pelo caminho fingi-me esquecida
dos sonhos que sonhei ter.

Não me chores quando eu for,
porque agora vou feliz.
Conheci por fim o amor
antes de ir, quando te quis…

Se tu não és último,
próximo deves estar do final.
Na tua mão sou um passarinho doente
à espera da morte invernal.



6/10/1995



terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mais silêncio


Mais silêncio


Um segredo é…
Uma promessa calada.
Os dias passam por mim
mas não falo, não direi nada.

Os dias passam e passam
e os loucos enlouquecem
O silêncio mata tudo
e as mentiras permanecem.

Dizem-me que estou viva,
que tenho o futuro na mão.
Dizem-me que o passado morreu
mas nunca lhe vi o caixão.


26/9/1995



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

sem título


Pedir paixão aos mortos
é uma loucura desmedida
não há calor no que está frio
não há vida depois da vida.



6/10/1995



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

sem título


Há passos estranhos fora dos sentidos
o campo dorme na escura paz da alma
na seara dourada que a noite acalma
pássaros negros esvoaçam sem voos definidos.

Dias longos sem memória esquecidos e quebrados
Mais longos que a morte para trás repousam
Só interessa o momento em que os olhos ousam
Perder-se na escuridão dos terrores achados.

Parece que os passos se aproximam da porta
chamam calados sofrendo o sono cerrado
voam asas chorando a clamar ao céu alado
desesperando que a noite não dorme – está morta!



10-11-1988



Comentário: Este é daqueles que quase tinham ido para o lixo. Ainda bem que não foi. Pode parecer "tipo Florbela Espanca" mas não é bem. Eu também tenho experiência de searas.



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

sem título

Sinto-me como bocados de neve
caindo aos poucos, lentamente,
e derretendo delicadamente
debaixo do meu sangue que ferve.

Sinto-me uma asa leve
que voa em círculos fechados
os olhos doloridos, pesados
fecham-se sobre a neve.

Sinto um pulsar aflito
tremendo as luzes das velas
que se apagam no escuro lá fora.

Estou algures no infinito
sem morada debaixo das estrelas
e sem rumo a seguir agora.



26-5-89



Comentário: A última estrofe, aquela que realmente conta, continua a fazer todo o sentido. É curioso, porque tinha 17 anos quando a escrevi.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Sem título


Apaguem o frio, ainda não inventaram um botão que apague o frio?!
Existe Sol e aquela noção química que se chama calor, mas então porque ainda está frio?!
Não me chamem para o verde da aventura!
Apaguem o Sol, pois aqui as paredes são brancas e os corações são negros.
Não me deixem ver o vermelho vencedor de uma guerra. Não quero vencer na sua vitória!
Prefiro viver nas horas azuis dum cheiro sintético e industrial.
Apaguem o vermelho sanguíneo do Sol que me entra pela casa de manhã!
Apaguem-me esta madrugada que me apaga a noite. Apaguem quem quer apagar a noite que é a morte na qual vivo!
Apaguem as noites meladas de sono e beleza sem sexo.
Apaguem a beleza que me tortura.
Deixem-me ficar no quarto quente onde os morcegos negros esvoaçam, e onde os vampiros se vêm aninhar.
Deixem entrar os fantasmas que tilintam nos meus cristais de luz.
Apaguem o amor! Cortem dele tudo o que for feliz e efémero e que aconchegue corações.
Deixem que a vida morra hoje! E por favor…
Apaguem este verde que me leva para a aventura e deixem-me sonhar azul na morte negra que eu própria sou!

28-5-1987
alterado a 24-2-1988





Comentário: Este esteve quase para entrar em "Máquina Herética" mas deixei-o de fora.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 22


O espírito do Éden


o espírito do Éden chama-me, promete-me as delícias da terra, conta-me histórias de liberdade. leva-me a mergulhar profundamente nas suas águas onde o azul tão quente dilui as ondas… e o sol acima das nuvens não é mais do que uma estrela, quando o sol mergulha ao meu lado entre as algas e conchas.
os filhos anjos não são felizes. todos atacados pela doença implacável. o espírito do éden ergue a mão… promete a paz mas não a glória, só promete os sonhos… sei que aqui é o paraíso, vivemos dentro de conchas. à volta só vemos azul, as crianças caem como chuva…pela doença implacável todos eles. caem como chuva. o espírito do éden move-se, como o mar, move-se, e espera. a paz, só há paz, lá no fundo, no fundo, no fundo…

3 outubro 1988



("Spirit of Eden", por James Marsh, para a capa do álbum de Talk Talk com o mesmo título.)






Comentário: Termina aqui "Máquina Herética: poesia e prosa poética". A todos os que acompanharam e comentaram o meu muito obrigada.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 21


Song of the Fog

Came from the fog
free from the fog
Still in the fog with me

Born in the fog
dance on the fog
Came from the fog to be free

Dance on the fog
Scream from the fog
Caught in the fog with me

Far from the fog
Deep in the fog
Out of the fog to be free


15–6–1992





Comentário: "Song of the Fog" é mesmo uma canção. A melodia apareceu-me na cabeça ao mesmo tempo que as palavras. O que é muito estranho, porque eu nunca tinha feito uma canção nem tornei a fazer. Eu não faço música. Durante muito tempo estive convencida de que só podia ter ouvido a melodia em qualquer lado. Até hoje, não a encontrei. E nunca a esqueci. Escrevi-a numa pauta musical. A duração das notas pode estar incorrecta mas as notas estão certas.

domingo, 18 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 20


SILÊNCIO

Nas almas dos mortos e dos corações ardentes
as chamas revolvem-se nas montanhas geladas
As palavras indizíveis
As vidas cortadas rente, dizimadas
As incisões indescritíveis
As palavras insuportáveis
as dores, as dores abandonadas
as outras descobertas e mais tarde exumadas
no bater calmo dos corações
das palavras insuportáveis
das torturas implacáveis, implacáveis
do sangue nas montanhas geladas
Pelo irromper calmo dos vulcões
Pelo bater mortal dos corações
as dores das palavras torturadas
o gelo sangrento das montanhas caladas
As torturas jamais acabadas
Os mortos com almas exumadas
O eterno descanso das montanhas geladas
O sangue das palavras caladas
O sangue dos mortos implacáveis
nas torturas criminosas infindáveis
o gelo das chamas torturadas
pela morte das almas trespassadas.

30–9–1990

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 19


AS ARMAS DA INTELIGÊNCIA

Há momentos na solidão
momentos de grande silêncio
momentos em que falam pedras
gravadas de reflexão
Porque as palavras ferem
Sem que os olhos as imitem
Porque os artifícios da eloquência
obrigam que exagerem
As palavras, essas palavras punhais,
as armas da inteligência
enterram-me por vezes
na estupidez da eloquência
Mais vale que o silêncio encha
os meus olhos cansados
do que voem palavras ocas
destes lábios despedaçados.

10–8–1990

sábado, 10 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 18


ABANDONO

As pequenas estrelas cintilam, receosas
dominam sobre o tempo
tornam-se corajosas
brilham no firmamento.
As minhas velas caem, ansiosas,
nos braços do mar e do vento.
Existem dias como este
em que as noites são longas e frias
as pessoas são tardias
Não existe paz neste mar
Nem nos desertos em redor
e nas ilhas de vulcões fumegantes
perdem-se rastos de náufragos viajantes
que afundaram os navios nas ondas da tarde
em troca de muitos oceanos
em busca da liberdade.

22–1–1990

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 17




Os fantasmas do passado
perseguiram-me neste dia
Oh, como os odeio!
Os espectros do futuro
assolaram-me a mente
Oh, como odeio os do presente!

5–9–1989

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 16


Ondas Altas, Grande Amor

Ah, se eu pudesse com o amor que te tenho
Contar as estrelas todas do mar
faria de ti sereia a navegar
nas ondas lentas do meu lenho.

Serias tu para mim a estrela do Norte
que guia as milhas dos navegantes
Seriam meus olhos perdidos infantes
mãozinhas erguidas nas ondas da morte.

E seriam meus olhos infantes perdidos
no mar de sargaços para sempre escondidos
entre as tábuas de amor do meu lenho

Seriam pequenas conchas do mar
Que eu mandaria a ti te contar
Todas as estrelas que por ti tenho.

19–8–1989








Comentário: Se eu alguma vez escrevi um poema, foi este.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 15


Senhor dos infernos

Meu Deus! Como te amo!
Que blasfémia por ti proferi
Meu Deus! Como te adoro!
E só agora me apercebi…
que só esta loucura me guia
que o meu pensamento explode
e de ti preciso noite e dia
e nem o teu sorriso me acode
Pois és tu Senhor dos Infernos
Dono da perfídia e da maldade
Personificação dos Extremos
Máquina de Iniquidade
Dentro de ti, as correntes pretas
voltejam, como metal,
e minhas feridas são violetas
como os teus olhos,
Príncipe do Mal.

16–6–1989

domingo, 28 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 14


Parabéns hoje aos mortos
na calada da vida
muitas desigualdades
e esperança perdida
Hoje é dia de abortos
vomitamos as almas
para os meninos mortos
uma salva de traumas.




17–5–1989




Comentário: Versão do "Parabéns a Você". Dá para cantar e tudo. Experimentem.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 13


O ÚLTIMO DIA

O dia em que te tiraram de mim
Foi só o princípio do fim
Foi a derrocada louca
Foi o último beijo fatal
Foi Satanás trazendo o mal
E foi também a ventania
Foi o grito ensurdecedor
Foi a minha alma ficar fria
E foi perder-te a ti, amor.


17–5–1989

sábado, 20 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 12


O doce cheiro da morte

O dia em que bebi o teu sangue
soube-me à morte que me corre nas veias
o dia em que pendurei o pássaro na parede
Cristo alado redentor colado pelas asas
O pássaro que o meu gato matou
Ali está o Pássaro frio ensanguentado
o bico fechado, enfim descansado
as garras furiosas e tão frágeis
que não lhe serviram para nada
penduradas imóveis
O cheio a morte empesta na sala
o cheiro do sangue dos passarinhos mortos
empesta a minha vida
persegue-me, este cheiro insuportável
os passarinhos inocentes e humilhados
pelos gatos pretos
O dia em que bebi o teu sangue
Suguei-o da tua boca instável
arranhei-o das veias do teu peito
e cheirava tão bem, o teu sangue,
como cravos de pétalas rubras.
Os cravos do cemitério
que cobrem os passarinhos mortos que cantam
nos ciprestes
entre as campas
cobertas de cravos vermelhos como o teu sangue,
o teu sangue que eu bebi com prazer.


5–5–1989
sexta feira à noite

terça-feira, 16 de julho de 2013

Máquina Herética: poesia e prosa poética, 11


Quietude

Na minha alma existe o vírus da calma
Existe um eterno estado de insatisfação
Existe ainda um vulcão em repouso
e mais alguns corais e conchas raros
cujas pérolas abrir não ouso.

Existe também a guerra nuclear
E a Inquisição da Idade Média
Existe um Hitler sequioso de matar
Está um mundo preso na minha mão
às ordens da Santa Inquisição.

O Inferno é meu, eu o controlo
O Céu não sei que é, que Deus Existe
E existe também uma Irlanda dividida
em que o Santo Catolicismo resiste
São estas as noções da minha vida.

O Irão é meu, sou Ayatola
Sou Gorbachev Bush Komeni
faço o que quero com as mãos ensanguentadas
presas em relógios de Dali
que batem minhas horas devastadas.

E existe Freud inconsciente
Na psicose louca de demente
que manobra meu Lenin às 5ªs feiras
dia mais longo das semanas inteiras
E dos restos da sanidade do presente.



25–3–1989