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domingo, 28 de março de 2021

Um Olhar do Paraíso, de Sérgio B. Andrade

Filha de uma família nobre e muito rica Isolda perde os pais assassinados pelo seu tio Azim. Ao saber da existência de um homem chamado Jesus que cura doentes e ressuscita mortos ela parte em busca do mesmo com a esperança de ver seus pais vivos novamente. Quando olhar de Isolda se cruza com o do jovem Noah tudo muda em suas vidas. O olhar sobre a vida nunca mais será o mesmo para os dois.


Comprei este livro por causa da sinopse acima. Infelizmente, esta não diz nada sobre o facto de este ser um “romance cristão” ou eu teria pensado duas vezes. Também não reparei nessa informação ao abrir o miolo (preview) do livro. Preferi prestar mais atenção às páginas iniciais (como faço sempre, nem sequer compro sem as ver primeiro) e a escrita pareceu-me decente. Por isso comprei. E apesar de o Romance Cristão não ser dos meus géneros favoritos, também não sou alérgica.
Infelizmente, a escrita decente foi sol de pouca dura. Por muito que me doa, tive de dar apenas duas estrelas no Goodreads devido, sobretudo, ao livro estar tão mal escrito.
Hesitei muito se devia escrever esta crítica. Escrever uma crítica dá trabalho e demora tempo, ambas coisas que este livro não teve. Pergunto-me quantas revisões o autor lhe fez, para deixar passar tantos erros ortográficos e gramaticais e gralhas várias, e se alguma vez pediu a alguém (fora do grupo de amigos e familiares, que nunca são de confiar nestas coisas) que lhe fizesse beta reading. Quanto à segunda pergunta, tenho a certeza de que não. Este livro nunca teve um beta reader exigente e imparcial que dissesse ao autor aquilo que eu vou dizer agora, quando já é tarde porque o livro já se encontra à venda. E eu fui uma leitora muito desiludida, tão desiludida que ponderei largar o livro e só não o fiz porque como escritora e beta reader se aprende muito (bastante) de livros maus. E “Um Olhar do Paraíso” é um livro mau, daqueles que só servem para aprender a não escrever assim.
Fui tirando algumas notas enquanto lia para não me esquecer dos pontos mais graves. Fiz propositadamente vista grossa a algumas utilizações de vocábulos da oralidade do brasileiro, bem como a algumas construções que me pareceram francamente agramaticais, embora recorrentes do princípio ao fim do livro, por não saber se em brasileiro já são aceites como norma “informal”. O autor é brasileiro e a língua é um processo dinâmico. Os beta readers e críticos brasileiros que avaliem. Vou focar-me apenas no que me saltou à vista como notoriamente problemático e ignorar estas diferenças de linguagem de cá e de lá.
Comecemos com as frases agramaticais que não deixam qualquer dúvida, nem na norma brasileira nem na europeia. Um exemplo:
“Kirsten é a primeira a sair da água, ela nos guiou até à estrada para dentro da caverna.
Falta aqui qualquer elemento de ligação que torne a frase gramatical. Mas aproveito este exemplo dois-em-um para falar noutro problema constante e incomodativo:
Mudança de tempo verbal do presente para o pretérito perfeito ou imperfeito, ou vice-versa, no mesmo parágrafo sem motivo ou efeito justificado. Ver exemplo acima. Presente, pretérito perfeito, e por aí fora, sempre a saltar entre tempos verbais sem rei nem roque.
Anacronismos de linguagem: “meninos”, “pessoal”, utilização da expressão “déjà vu” (ainda por cima mal empregue porque o que se queria dizer era “Fulano reconheceu um lugar por onde já tinha passado no que parecia um labirinto de corredores”, o que não tem nada a ver com a sensação de déjà vu); anacronismos históricos que precisavam do beta reading de alguém com cultura geral sobre a Palestina dos tempos de Jesus: batatas, coqueiros, vidraças. (Não, meu amigo, não mesmo. Isto são coisas do Renascimento, pós-Descobrimentos.)
Palavras mal escolhidas em geral (como o tal “déjà vu” que nem sequer o era). Repetições desnecessárias e frequentes da mesma ideia e/ou factos que bem cortadas podiam tirar um bom terço ao livro sem se perder nada.
Descrição deficiente do espaço em que ocorre a acção, especialmente em cenas de perseguição e fuga em que o leitor precisa de saber exactamente onde é que os personagens e os perseguidores estão para compreender o perigo que os protagonistas correm nesse momento, sem o qual não se consegue criar um efeito de suspense.
Opção de usar pontuação extravagante nos diálogos (propositada para ser diferente?) que apenas serve para confundir: “_Não se preocupem, meninos, o Homem dos Milagres também estará comigo! Desabafa Kristen com uma voz segura e firme.” (Estes “meninos” são homens, só para explicar aos leitores deste lado do Atlântico.) Como vêem, em vez de travessão (ou mesmo aspas) o autor usa um underscore e o leitor que perceba sozinho onde é que o diálogo acaba e a narração continua. Originalidades destas são engraçadas quando o livro está muito bem escrito. Neste caso, mais valia ter seguido a norma e era menos uma fonte de estranheza a juntar às demais e a distrair-nos da leitura.
Por último, qual terá sido o critério que o autor usou para escolher os nomes dos personagens? (Cá para mim, não houve qualquer critério.) Temos nomes bíblicos, o que só fica aqui bem, temos nomes anglo-germânicos como Noah e Emily e Kristen, temos nomes portugueses como Maria Eduarda (não perguntem), o vilão chama-se Azim (o que nos remete para paragens mais arábicas, mas nesse caso a sua sobrinha Isolda não deveria ter igualmente um nome da etnia do tio, como, por exemplo, Samira?) e nomes brasileiríssimos como Silvaír e Ademar. Tudo isto até "passava" se o livro fosse Fantasia, mas é ficção histórica na Judeia do tempo de Cristo. (Ser um “romance cristão” não iliba desta responsabilidade nem significa que o autor possa escrever o que lhe der na cabeça.) Juro que no princípio ainda me questionei se estes personagens de nomes anglófonos não eram de facto originários de tribos germânicas que estavam na Palestina por qualquer motivo, como o comércio, por exemplo. Não seria impossível, na grande Roma. E nenhum deles (mesmo nenhum deles) alguma vez é visto ou ouvido a falar ou a praticar qualquer ritual hebraico, o que me leva a perguntar se seriam judeus. O livro também não diz, muito menos explica esta salada de nomes. E Kristen? Até em hebraico, Kristen significa “seguidora de Cristo”. Não podia haver uma menina chamada Kristen antes de Cristo. Plot hole, anacronismo, falta de atenção. Nem sei o que diga. Porque não usar apenas nomes bíblicos e em português, já que há tantos? João, Noé (em vez de Noah), Bartolomeu, Mateus, Lucas, Sara, Raquel, Rebeca, Dinah, Ester, Eva. Nomes não faltam.
Vamos lá então à história. E a história é uma confusão de tal ordem que eu teria dificuldade em contá-la a alguém. Noah apaixona-se por Isolda, mas entretanto conhece Emily, amiga de Isolda, que lhe diz que os pais de Isolda foram assassinados pelo malvado tio de Isolda, Azim. Emily foi raptada por Azim por saber demais e Noah tem de a ajudar a escapar de um ritual em que Azim a queria sacrificar aos deuses dele. Resgate feito, decidem ir salvar Isolda. Mas entretanto Isolda já se salvou a si própria e já partiu em busca do Homem dos Milagres. Segue-se um corre-corre para a frente e para trás, daqui para ali, sempre em viagem, em que o movimento dá a entender que está a acontecer muita coisa mas na verdade não acontece nada. Todos os personagens acabam por se encontrar por acaso e não porque se procurassem uns aos outros. Fiquei perplexa porque Emily quer tanto salvar Isolda, com quem vive no palácio desta, mas nunca passa pela cabeça de Isolda que Emily desapareceu e que devia igualmente procurar por ela. Só pensa em pedir a Jesus que lhe ressuscite os pais, a amiga que se desenrasque. Grande amiga, sim senhor.
Sempre que há apuros, um milagre de Jesus, à distância, acaba por salvá-los no último momento. Teria sido melhor que os personagens se tivessem conseguido salvar a si próprios mais vezes sem tanta intervenção divina. Compreendo que isto faça parte de um “romance cristão”, mas quanto mais milagres (e ressurreições) mais os embaratece.
De milagre em milagre, conseguem finalmente encontrar Jesus, já quando este é preso e crucificado. Admito que foi a parte mais empolgante do livro, mas convenhamos que não foi por mérito do autor. Esta é a história mais lida no mundo e já foi escrita há 2000 anos. O autor apenas a transcreve.
Se o autor me está a ler, como escritora também sei o que isto custa ouvir. A minha intenção não é apenas criticar mas antes aconselhar. Este livro podia ser muito melhorado se o autor não for daqueles que responde às críticas com um encolher de ombros e um “eu nem levo a escrita a sério” (como já vários me disseram assim que perceberam o trabalho que implica e o tempo que demora escrever um bom livro).
Primeiro que tudo, este livro devia ser retirado da venda ao público e dado a beta readers. A comunidade brasileira de beta readers funciona e é muito mais vibrante do que a nossa (a portuguesa). Consegue-se arranjar beta readers em brasileiro para qualquer género, é só procurar. Depois, é preciso aplicar o que lhe disserem e trabalhar muito este manuscrito. Uma boa investigação sobre o tempo histórico da Palestina de Jesus também faz aqui falta como pão para a boca. Só então o autor pode pensar em voltar a pôr o livro à venda.
Em suma, se o autor quer continuar a escrever, e a escrever bem (ninguém nasce ensinado), devia pôr mais fé no trabalho e menos fé em que a boa escrita lhe caia do Céu. Não é assim que acontece, nem por milagre divino.



sexta-feira, 5 de março de 2021

BETA READERS para “Elysion”: Low Fantasy, Drama, Romântico, Filosófico

Chegámos ao momento trepidante em que “Elysion” está pronto para beta reading.
“Elysion” é o novo livro de D. D. Maio. A história passa-se a seguir a “Nepenthos”, “Miasma” e “Solstício”. Não é necessário ter lido estes títulos para acompanhar “Elysion”, embora o contacto prévio com a série iniciada em “Nepentos” torne a leitura mais satisfatória.


SINOPSE (provisória, por agora, bem como a capa que ilustra o post)

Quanto tempo pode durar a felicidade? Ainda é verão, paraíso breve. Reena e o imperador encontram-se no jardim do novo palácio para debaterem filosofia. Depressa a conversa se volta para o passado. Eric, o imperador, sempre pensou que tinha travado uma guerra para sobreviver. Na verdade, o que queria era despeitar o seu pai.
Reena só queria ser uma rapariga como as outras.
Axel só queria ser alguém.
Camilla e Alexander queriam o que não podiam ter.
Gherrard e Sunya já tinham tudo o que queriam.
Hildegaard, sem nada querer, conseguiu esvaziar a sua vida.
Rosa só desejava um lar onde pertencer.
Rurik queria de volta o lar que perdera.
Kelma queria escapar para lá do seu horizonte.
Selma queria poder.
Elena queria vingança.

§


O original tem 203 mil palavras. Para beta reading, sugiro começar pelas primeiras 13.500, e logo se vê como decorre o processo. Aceito todas as opiniões, críticas e comentários, e, sabem os que já me conhecem, não protesto.
Como autora, estou disponível para reciprocar o beta reading com outros autores.
Não costumo apontar deadlines, mas ainda tenho esperança de publicar esta história em Junho. Muito vai depender da disponibilidade e rapidez dos queridos beta readers que aceitarem o desafio.
Os beta readers mais dedicados serão mencionados nos agradecimentos do livro, se assim o desejarem.

O que faz um beta reader?
O beta reading ainda é pouco conhecido entre nós. Muitas pessoas me têm perguntado o que faz exactamente um beta reader. De modo muito simples, um beta reader lê o manuscrito antes de este ser publicado e aponta tudo aquilo que escapou ao autor: desde gralhas insignificantes a plot holes do tamanho de crateras. Das opiniões, comentários e elogios dos beta readers, o autor fica com uma percepção exterior de como o seu trabalho está a ser recebido que o vai ajudar a melhorar o manuscrito e a escrita futura. Quanto maior a honestidade dos comentários, mais estes ajudam.
O autor tem de ter a maturidade de aceitar e agradecer as opiniões (concorde ou não com elas), mas por outro lado os comentários devem ser construtivos. São estes os mais úteis. Pessoalmente, todos os comentários me têm sido úteis, até aqueles mais difíceis de “decifrar”. Um bom beta reader vale o seu peso em ouro.
Para um autor, o beta reading é simplesmente a melhor maneira de evoluir. E não me refiro apenas aos “iniciantes”. Todos os escritores consagrados (mas mesmo todos) têm beta readers e/ou editores que fazem esse papel. Fazer beta reading a outro autor tem a grande vantagem de permitir comparar a escrita que se está a analisar com o próprio trabalho e reconhecer os erros naquilo que não funciona (ou, melhor ainda, descobrir como evitá-los).
Para um leitor, e aqui falo como beta reader que sou também, os proveitos são óbvios. Graças ao beta reading já li vários livros excelentes que não teria conhecido de outra maneira (e de borla, não considerando o “pagamento” em trabalho da minha parte, porque o beta reading dá trabalho e leva tempo). Sempre que tenho disponibilidade e o género me é agradável, ofereço-me.
 
Os interessados podem contactar-me directamente através do email d.d.maio.email@gmail.com, ou deixar o vosso email em comentários para receberem as páginas iniciais do manuscrito.
Até breve!

terça-feira, 10 de novembro de 2020

O método resulta! – como nasceu “Nepenthos”

“The method works!” é uma faixa da banda sonora do filme “O Perfume, história de um assassino”. Aconselho vivamente, tanto a banda sonora como o filme como o livro homónimo de Patrick Süskind. “The method works!” é um tema ao mesmo tempo sinistro e empolgante, o tema em que o protagonista descobre como preservar o perfume das suas vítimas.
Mas este post não é sobre nada disto, excepto que também fala sobre o momento eureka que um criador sente quando descobre o método que funciona.
Começou com uma troca de ideias sobre métodos de escrita com a autora Patrícia Morais, que usa o método do planning. E depois a conversa foi por ali fora.


O conceber de um livro
Vou também revelar o meu método, ou pelo menos tentar. Já conhecia o método de planning, mas, honestamente, só de olhar para ele me dá arrepios. Isto não quer dizer que eu seja desorganizada, embora a alguém de fora pareça irracional e caótico. Mas até não. Eu gosto de chamar ao meu método de escrita “apaixonado”. Pode não parecer mas sou uma pessoa muito apaixonada. Sem paixão não consigo fazer grande coisa, em todas as áreas da minha vida.
Como é que isto se aplica à minha escrita? Também só consigo escrever uma história que me apaixone. Às vezes tenho ideias que nunca chego a desenvolver porque falta ali o “clic”, a química, a necessidade de escrever para contar a história.
Começo por ver a história na minha cabeça como se fosse um filme. Ou melhor, uma série de episódios. Começa com uma pequena cena, depois vou vendo mais cenas, como quem está a ver uma série, e deixo que a história toda chegue até mim. Nunca escrevo nada sem saber o fim. Acho que nem sequer um post do blog eu escrevo sem saber o fim. Se calhar é este o meu grande “segredo”.
Por falar em segredo, enquanto estou a conceber a história esta é um segredo só meu. Acho que é isto a que alguns escritores chamam “dar à luz” um livro. Quando chega a um certo ponto de maturação, a história tem de nascer. Pode ser um parto fácil ou pode demorar dez anos. Algumas cenas até podem ser concebidas, como embriões, mas perdem-se pelo caminho sem que se tornem histórias. Prefiro que fiquem em segredo.
Só falo nas histórias quando elas já estão escritas. Até lá, são o meu prazer secreto, o visionamento do “filme” em exclusivo só para mim, em que começo a conhecer os personagens, a ver os cenários, a sentir o ambiente, a ouvi-los falar. Escrever é pôr tudo isto no papel, quando já vi o filme todo e gostei. Às vezes tenho a sensação de que as histórias me são transmitidas e me aparecem na cabeça. Charles Dickens também dizia isto.
Pode demorar meses ou anos. “Nepenthos”, ou melhor, a história de Reena, na suas versões mais antigas, foi algo que eu comecei a inventar (ou a “ver”, prefiro assim) desde os doze anos. À medida que eu ia crescendo as primeiras versões do filme já não me agradavam, mas a ideia continuava lá, em semente, à espera de ter terreno fértil onde se desenvolver. Esse “terreno fértil” só chegou com a maturidade.
Mesmo assim, apesar deste método demorado, escrevi o primeiro draft em três meses. Trezentas mil palavras, o que dá uma média de cem mil palavras por mês. E já lá estava tudinho, até estavam coisas a mais que tive de cortar…
Na altura eu não sabia nada de técnicas de escrita. Ia pelo instinto. A história estava muito mais contada do que mostrada. Passei nove anos a corrigir, e a ler sobre escrita (em inglês) e a aprender com as dicas que encontrava. Fiz o percurso ao contrário: primeiro escrevi, depois é que fui aprender porque não estava satisfeita com o draft e não sabia como resolver. Andei doida à procura de beta readers. Encontrei alguns, poucos mas bons.
Agora já consigo escrever um primeiro draft muito mais limpo e apresentável, mas também demora mais tempo. Mas o método de escrita, quando me sento para escrever, não se alterou. Quando começo, nada me faz parar. Desapareço durante meses, ponho tudo em stand by, não falo com ninguém. É como viver uma paixão, tal e qual, entre mim e a história. Só nós duas, em segredo. Desta paixão resulta o tal nascimento, que é o livro.
Só depois é que partilho o meu “bebé” com os outros. Com os beta readers, primeiro, e só muito mais tarde, depois de muitas revisões, quando o meu trabalho está completo e não consigo melhorar mais, com o público. Não chega ao público sem um trabalho que demora sempre anos. Mas não espero que um leitor entenda isto.
O que eu tenho em comum com o planning, embora eu nunca pense nisto racionalmente quando estou a ver o “filme”, é o personagem começar num ponto A e acabar num ponto B. É como se eu visse a primeira cena, e me contassem como vai ser o fim, e eu fizesse a pergunta: o que é que lhe acontece para ele chegar do ponto A ao ponto B? E então começam-me a ser transmitidos mais “episódios” que eu vou vendo, como numa série de televisão, como se eu não tivesse influência no enredo e fosse apenas uma espectadora. Quando gosto muito do “filme” tenho de o escrever e partilhar, porque o filme não se encontra em mais lado nenhum senão na minha cabeça. Posso demorar muito tempo a começar a escrever (ou não), mas quando começo é para escrever tudo de uma vez e até ao fim.
Sem ser uma planner, também não estou a improvisar. Está tudo organizado, no tal filme que vi na minha cabeça. O complicado é escrever o filme em palavras. Imagina o teu filme preferido. Imagina que o viste numa realidade paralela. Imagina que gostaste tanto do filme que tens de o partilhar com a nossa realidade nem que seja a última coisa que fazes na vida, mesmo que não saibas se alguém mais vai gostar tanto como tu. É assim que funciona para mim.
Eu “culpo” por este método duas coisas:
1, sou filha única. Não sei o que é a experiência de ter irmãos, mas todos os filhos únicos sabem que tinham de arranjar coisas com que se entreter sozinhos. Se calhar foi assim que comecei a ver os “filmes”, para me entreter. Ainda hoje arranjo desculpas para ficar sozinha e abstraída e ligar a minha “televisão mental” para ver os filmes “exclusivos”, feitos de propósito para o meu gosto pessoal. Dito assim, até pode parecer que eu tinha vontade era de fazer filmes em vez de escrever livros, mas não. Ao contrário dos filmes, os livros permitem entrar dentro da mente dos personagens e contar as coisas que os filmes não conseguem mostrar.
2, sou da geração em que a televisão era a nossa baby sitter. Punham-nos em frente à televisão e nós ficávamos ali entretidos o dia todo, a ver tudo, a absorver tudo, até coisas que não eram para a nossa idade mas que naquela altura passavam sem preocupações a qualquer hora do dia. Há quem diga que a televisão estupidifica mas para mim a televisão é como uma mãe. Quando não a tenho, sinto tanta falta dela. Por televisão, aqui, estou a dizer écran. Écran onde ver coisas. Se calhar esta educação “televisiva” teve influência na forma como a minha imaginação se manifesta em filmes e cenas e episódios, com uma narrativa mais visual do que escrita. É bem possível. Mas agora já é uma questão para a psicologia. Como cobaia criada à frente da televisão, acho que não me prejudicou nada.
Gostei tanto de escrever este email que acho que o vou aproveitar para um post. Há muito tempo que eu queria contar isto a alguém para ter “desculpa” de escrever isto tudo.

E contei, e aqui está.

 

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

“Correntes”, um conto de Patrícia Morais

Ada já tem problemas de sobra ainda antes de se cruzar com o sobrenatural. Vítima de violência doméstica, o seu grande objectivo é conseguir a custódia dos dois irmãos mais novos para os livrar dos maus-tratos de um pai desempregado e alcoólico que descarrega nos filhos as suas frustrações. Mas se a situação de Ada é má, as coisas ainda vão ficar piores. Crianças têm vindo a desaparecer na vizinhança e ninguém sabe o que lhes acontece.

O que gostei mais nesta história foi o lado humano. Todo aquele ambiente de violência doméstica é muito realista e eu já estava tão interessada no drama familiar que, por mim, não me importava que o conto nem envolvesse o sobrenatural.

Mas “Correntes” é um conto curto no género Fantasia Urbana / Sobrenatural / Young Adult, e é desta forma que deve ser lido. A acção é relativamente rápida e privilegiada em detrimento de um maior desenvolvimento dos personagens secundários (que me agradaria mais), mas a protagonista é bastante tridimensional. É muito fácil empatizar com esta personagem.
“Correntes” é uma história no universo da série começada por Patrícia Morais com “Sombras” e revela os acontecimentos que levaram Ada a ter contacto com a organização Diabolus Venator.

O conto encontra-se disponível a partir da página da autora: patricia-morais.com/livros



terça-feira, 4 de agosto de 2020

Patrícia Morais divulga método para escrever um livro em dois meses

Tenho um segredo. Sei que uma certa escritora está a trabalhar na terceira parte da série iniciada em “Sombras” e “Chamas”.
Mas já tive oportunidade de ler um conto de Patrícia Morais, “The Roommate”, e fiquei muito curiosa. Embora o género principal seja o Young Adult, que como sabem não é o meu preferido, a história tem bastante de Sobrenatural/Terror light para me agarrar do princípio ao fim. Do que percebi de “The Roommate” e das outras sinopses, mas também não quero saber mais para não estragar a surpresa, existe uma organização de caçadores de demónios e bruxas (maléficas). Pareceu-me, no bom sentido, sentir influências de “Sobrenatural” e “Harry Potter”, com um ambiente a lembrar “Os Diários do Vampiro”. O conto que eu li promete, e estou à espera do “terceiro capítulo” da série principal para começar a puxar o fio à meada.

Como escrever um livro em dois meses
Para celebrar os 2000 seguidores no Instagram, Patrícia Morais está a fazer um live a revelar o método que utiliza para escrever o primeiro rascunho de livros de ficção. O live já começou, mas basta perguntar à autora e há maneira de acompanhar do princípio.
Parafraseando a Patrícia, eis aqui uma ideia para quem sempre quis escrever uma história e não sabe como começar. Já conheço o método (versões dele) e é utilizado por muitos escritores prolíferos.

Sociedade Autores Portugueses
A Patrícia Morais também andou a fazer uma coisa que eu acho imensamente meritória, traduzir dicas de escrita para português, algo que faz tanta falta por cá. Antes de encontrar as dicas dela, eu tive de as ler em inglês.
Recomendo a todos os interessados nestas coisas da escrita que subscrevam a newsletter da Sociedade Escritores Portugueses para irem recebendo as dicas, as publicações de novos autores em português, e outras informações interessantes. A newsletter é muito fácil de subscrever, basta adicionar o nosso email no formulário no fim desta página: Recursos para escritores
Aproveito para divulgar a Sociedade Autores Portugueses em geral, que tem muito para explorar. Destaco uma série de bloggers interessados em fazer beta reading e/ou críticas.

Livros
Para além destas coisas todas a Patrícia Morais ainda arranja tempo de escrever histórias! A lista completa está na página da autora, mas destaco os dois primeiros livros da série iniciada com “Sombras”, a tal de que falei no início do post:

“Sombras”

Lilly Ashton não podia imaginar vida mais perfeita que a sua, até à terrível noite em que tudo mudou.
A única maneira que encontra para sobreviver à tragédia é fazer o que sempre desejou: ser impulsiva.
Afasta-se de tudo e todos quando se muda para Jillian e decide estudar Folclore e Mitologia, mas depressa se encontra numa corrida para salvar a própria vida, ao descobrir que os monstros que se escondem debaixo da cama existem mesmo.
Para garantir a sua sobrevivência, junta-se a Diabolus Venator, a organização de caçadores de demónios daquela pequena cidade, onde conhece Liam, o misterioso jovem que a enfurece e surpreende todos os dias. Mas nem todos os que lutam com ela têm o mesmo objetivo, e o perigo que enfrenta pode ser maior junto dos que a rodeiam do que na batalha contra os demónios. Num mundo onde as lendas são reais, em quem poderá Lilly confiar?

“Chamas”

Diabolus Venator acaba de vencer uma importante batalha – a guerra está, porém, longe de ter terminado. Lilly e Liam são agora perseguidos por Claudius, sedento de vingança após a morte da mulher.
Louis tenta manter Lilly a salvo do irmão, mas um acidente faz com que reencontre alguns dos seus demónios, ao mesmo tempo que os sentimentos por Lilly se tornam mais intensos.
Enquanto é confrontada com monstros do seu passado e descobertas sobre quem verdadeiramente é, Lilly vê-se obrigada a escolher entre a amizade e o amor. Conseguirá ela salvar quem realmente importa?


sábado, 21 de dezembro de 2019

"Solstício" com envio grátis

Para todos os interessados em adquirir Solstício em papel: a Bubok está a oferecer os portes de envio até 6 de Janeiro.

www.bubok.pt/livros/12040/Solsticio

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

“Nepenthos”, novo livro de D. D. Maio

Sinopse
Num gesto de encoberta bondade, o jovem imperador salva uma rapariga da ignomínia na taberna da vila. Devia ter sido inconsequente, mas o encontro muda para sempre as suas vidas.


Acaso, escolha ou destino?

Reena deseja morrer. Serva órfã, presa de abuso em menina e forçada à prostituição desde jovem, há muito que o desespero lhe sussurra ao ouvido. A súbita oferta de uma vida melhor no castelo do imperador não é o trabalho digno que teria almejado, mas dá-lhe esperança de vir a conquistar uma humilde posição de criada. No castelo, Reena experimenta uma liberdade que nunca lhe tinha sido permitida e recorda sonhos de rapariguinha, de um amor e de uma família. Mas sucessivos envolvimentos românticos, fracassados, tornam a lançá-la na escuridão da derradeira escolha. Por muito que tudo ainda melhore, conseguirá alguma vez resgatar-se a si mesma desse inimigo oculto no âmago da sua alma?
Eric, o imperador, já desceu demasiado baixo. Enraivecido por uma infância de abandono, endurecido por um passado de guerra, envereda voluntariamente pelos nefastos caminhos de que talvez não haja regresso. Um último passo na direcção errada desmorona o homem de pedra que já não o quer continuar a ser. Mas não será demasiado tarde para mudar?
Tão afastados nos extremos do destino, Eric e Reena partilham difíceis veredas na busca da longínqua felicidade que não lhes parece reservada. Para ambos, nenhuma felicidade poderá ser vulgar.


“Nepenthos” é um drama em Low Fantasy, pesado e realista, por vezes desconfortável, mas com bastantes tons de romântico.


Disponível brevemente. 


Mais informações e excertos:
https://ddmaio.blogspot.com



segunda-feira, 11 de novembro de 2019

“Solstício”, conto de D. D. Maio, disponível em papel



Para os leitores à antiga, que gostam de tomar um livro nas mãos e afagar-lhe as páginas, “Solstício” já está disponível também em papel, na Bubok:
www.bubok.pt/livros/12040/Solsticio

O site Bubok permite o preview da capa e das páginas iniciais.

Para os amantes do e-reader, “Solstício” continua disponível para download gratuito em formato epub, aqui:
www.bubok.pt/livros/11942/Solsticio

“Solstício” é um drama romântico no género Low Fantasy. A acção centra-se em torno das celebrações do solstício de inverno em terras pagãs.

Sinopse
A noite mais longa do ano. Eric, o imperador, visita a sua prima Hildegaard nas Terras Verdes em busca da família que nunca teve e da esposa que quer vir a ter. Em terra de bruxas, sem acreditar nelas, espera-o confrontar-se com as suas próprias raízes num mundo isolado e proscrito que nunca conheceu, que nunca será o seu, e de que sempre fará parte.

sábado, 22 de junho de 2019

“Solstício”, um conto de D. D. Maio, disponível para download gratuito



O conto “Solstício” já se encontra disponível para download gratuito no site da Bubok.
Link aqui:
www.bubok.pt/livros/11942/Solsticio


“Solstício” é um conto de D. D. Maio.
Sinopse
A noite mais longa do ano. Eric, o imperador, visita a sua prima Hildegaard nas Terras Verdes em busca da família que nunca teve e da esposa que quer vir a ter. Em terra de bruxas, sem acreditar nelas, espera-o confrontar-se com as suas próprias raízes num mundo isolado e proscrito que nunca conheceu, que nunca será o seu, e de que sempre fará parte.

“Solstício” é um drama romântico no género Low Fantasy.

Como autora, agradeço a todos os beta readers e demais leitores que ao longo destes anos contribuíram com comentários construtivos. Sem vocês a minha escrita não seria o que era hoje. Muito obrigada.
d. d. maio (pseudónimo)


sábado, 13 de janeiro de 2018

Fórum Beta Readers Portugal


O Fórum Beta Readers Portugal, ainda praticamente recém-criado, tem como objectivo ser uma plataforma de contacto entre escritores e beta readers.
Mas o que é um beta reader? Algo de quase desconhecido em Portugal, um beta reader é um primeiro leitor que lê e opina sobre um manuscrito no intuito de ajudar a melhorá-lo. O beta reading é muito praticado nos países anglo-saxónicos, e não apenas em regime de reciprocidade!, e até os nossos co-falantes brasileiros já lhe descobriram os benefícios. Aqui entre nós, quando procurei, não havia nada. Não existe o hábito, não se conhece a utilidade, não se consegue encontrar. O Fórum Beta Readers Portugal foi criado para preencher essa lacuna.
Nas palavras do fórum, "beta-readers são leitores e criticam o conteúdo da obra. Avaliam personagens e descrições, cenários e diálogos. Apreciam a criatividade, os pontos de vista e o encadeamento de ideias. Procuram buracos na intriga, coisas que não façam sentido e mostram que emoções sentem durante a leitura".
E não, "o melhor amigo, a mãe e o namorado não são bons beta-readers, porque gostam demasiado do autor e não lhe vão criticar a obra de forma objetiva". Ponto muito importante!
Outro ponto importantíssimo que é preciso desmistificar é que um beta reader não é um corrector gramatical e ortográfico. Muitas pessoas têm receio de que o escritor esteja à espera de um revisor! Não é esse o papel de um beta reader. Citando novamente o fórum, "não é suposto um beta-reader corrigir gramática e ortografia e reescrever passagens do texto. Isso é o trabalho de um revisor de texto".
Precisamente. Um bom beta reader critica, no sentido neutro da palavra crítica (que pode ser positiva ou negativa mas sempre fundamentada). Deve ser alguém que gosta de ler e de opinar e de explicar porque é que opina. Dizer "gosto" ou não gosto" ou, pior, não dizer nada, não ajuda o autor. O que ajuda é a opinião honesta e fundamentada. Neste caso, preferencialmente, e se possível, a opinião deve sempre ser construtiva. Um beta reader não lê para “dizer mal”.
Mas também não é preciso ter um curso em Literaturas e Linguísticas para comentar um texto. Esse é outro mito. Um bom beta reader reage e explica porque é que determinada história (ou passagem ou parágrafo ou frase) não funcionam para ele. Porque é que as acções de uma personagem lhe parecem incoerentes. Porque é que o enredo lhe parece confuso ou pouco credível. E porque tudo isto é subjectivo, é bom que o beta reader tenha um mínimo de simpatia pelo género que se propõe ler. De outra forma, é um sacrifício para o beta reader e de pouca valia para o autor, senão mesmo contraproducente.
Por exemplo, o que é que importa ao George Lucas que eu ache o Star Wars insuportável e infantil? Nada. Eu não sou o público alvo do Star Wars. A minha opinião é irrelevante. Como beta reader, jamais me ofereceria para ler um manuscrito do Star Wars. Embora pudesse opinar e explicar porque é que não gosto, de certeza que as minhas opiniões e explicações são exactamente o contrário do que os fãs pensam da saga.
Daí a importância de diferentes beta readers para diferentes géneros, e de uma plataforma onde os encontrar. A maioria dos beta readers são outros autores, e um regime de reciprocidade tem grandes vantagens em termos de disponibilidade, empenho e dedicação. Mas um bom leitor pode ser um excelente beta reader.
Para quem ouve isto tudo e pensa "trabalho", bem, não digo que não dê, mas também existem os benefícios:
Do ponto de vista do escritor, não há melhor maneira de melhorar o próprio trabalho do que analisar o trabalho de outros. Não sou eu que o digo, são pessoas com décadas de experiência em beta reading. Mas confirmo inteiramente.
Do ponto de vista do leitor também é muito gratificante. Ler (e até influenciar) uma obra por publicar num género de que se goste, não é trabalho: é prazer.
Para as pessoas que se interessam pela escrita e pela leitura, fica o link. Para visitar e divulgar. E talvez, quem sabe, participar? Só se perde o que fica por experimentar.

Fórum Beta Readers Portugal




quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO


Sempre quis escrever uma história de Natal.
Isto pode surpreender os leitores que me têm acompanhado por aqui porque já não é a primeira vez que eu digo, e repito, ODEIO O NATAL. Odeio o Natal com uma paixão que nem o Mr Scrooge do Dickens conseguiria igualar!
Deve ser por isso, porque tudo o que se odeia com paixão é uma paixão também, que sempre quis escrever uma história de Natal.

Mas já lá vamos, porque entretanto lembrei-me de que me esqueci de vos contar, ou não encontrei uma boa oportunidade de o fazer antes, que tenho andado a escrever. Sim, todo este tempo em que tenho andado  "desaparecida" aqui do blog, tenho andado a escrever. Histórias. Romances. Narrativa. Chegou a um ponto em que tive de arranjar um pseudónimo para a minha outra escrita, como poderão ver na capa que alguém sugeriu que eu fizesse para este conto de que vos vou falar.
E como não me apetece falar da minha escrita toda agora (isso será, talvez, ou talvez não, matéria para outro post), vamos lá ao conto.

Sempre quis escrever sobre o Natal. Escrever ficção sobre o Natal, para dessa forma "transformada", "segura", "distanciada", expressar a minha ambivalência sobre esta altura do ano que paira no horizonte imediato.
Porque é assim, e toda minha vida me custou a compreender, até ao dia em que se fez luz: odeio o Natal mas celebro o fim de ano, e agora sei porquê. Já não tento explicar, agora que sei porquê, mas consegui fazer melhor. Consegui criar a partir do que era para mim uma época do ano temível e temida. Não mudei de ideias, mas integrei-as.

Solstício é um conto em que personagens do meu universo celebram a noite mais longa do ano, esta noite que propositadamente escolhi para vos oferecer esta história.
Ainda pensei publicá-la aqui, capítulo a capítulo, mas não acho que este seja o lugar mais indicado para ela e criei-lhe outro lar. (E com fundo branco e letras pretas, para ajudar à leitura.)

Solstício pode ser lido, integralmente, aqui.

Quem preferir, e tiver conta, pode ler no Wattpad, uma plataforma que permite ler no telemóvel, também offline.


Deixo-vos com uma citação, melhor compreendida no contexto:

E Eric voltou a baixar os olhos, uma sombra de amarga inveja a endurecê-los. Era sempre assim, por aquela altura do ano. Todos tinham uma família, todos tinham quem os esperasse. Todos, excepto uma outra, a sua antiga serva, tão infeliz, a que só no seu abrigo encontrara o primeiro lar que tinha conhecido. Reena, pobre Reena, como estaria ela, tão longe? Sim, ela agora tinha uma família. Sim, ele agora tinha uma família. Por quanto tempo, não sabiam. Não era essa a família que lhes faltava, que sempre lhes faltaria. A primeira família. Aquela que nem sabiam o que era. Reena também não sabia, como ele não sabia. Mas dois órfãos não são dois irmãos.

in "Solstício", por d. d. maio


Dedico esta história a todos os que compreendem esta citação, a todos os que conhecem intimamente esta primeira família que lhes falta, pela sua ausência. Dois órfãos não são dois irmãos, mas não precisamos de andar sempre a fingir que somos como os outros.

Um bom Solstício para todos!





sábado, 16 de abril de 2016

Ajuda e partilha

Preciso de ajuda com um projecto literário. Nem sei porque é que não me lembrei disto mais cedo, dizê-lo aqui, neste blog que já me deu tantas alegrias. Talvez só agora tenha chegado a esse ponto de cansaço (ou desespero).
Há alguns anos que ando a escrever uma história e sinto que perco demasiado tempo a fazer tudo sozinha. A escrita, a revisão, a espera até conseguir o suficiente distanciamento para nova leitura e nova revisão. Seria tão útil ter um par de olhos, isentos e frescos, que me apontassem o que muitas vezes me demora anos a ver. Desde gralhas a sobressaltos na transição de um parágrafo para outro, a proximidade do autor cega-o ao que salta à vista a um leitor experiente.
Então, a minha tentativa de não ter de fazer tudo sozinha. O meu pedido de ajuda.
Procuro pessoa, ou pessoas, que queiram ajudar. Pessoas que gostem de ler, que sejam leitores ávidos e de mente aberta, que saibam oferecer uma opinião fundamentada e uma crítica construtiva. Até preferia, não sendo essencial, que fosse pessoa ou pessoas que também escrevam, que saibam do que falo, que levem a escrita a sério, que queiram ajudar e ser ajudadas, que gostem de opiniões fundamentadas e críticas construtivas. Alguém a quem perguntar o que acha desta ou daquela frase, deste ou daquele parágrafo, deste ou daquele adjectivo. Uma partilha que ajudasse mutuamente em projectos presentes e futuros. Ou uma troca de ideias entre autor e leitor, frutífera e positiva.
Quem tiver essa disponibilidade e interesse, escreva-me para blog.gotika@gmail.com .
E tu aí, que estás a ler a isto, e que conheces alguém que te está sempre a azucrinar e a pedir que lhe dês opiniões sobre o que escreve, e tu que não gostas de dar opiniões, mostra-lhe este post.
Agora fica nas mãos do destino.

Deixo-vos com um excerto do que ando a escrever. Não uma das partes de que gosto mais, pelo contrário. É precisamente um excerto que me tem dado problemas. Um daqueles excertos para os quais preciso de olhos isentos e frescos que me digam de sua justiça. Este fica já aqui, aberto a considerações.




Eric tencionava um dia ir visitar a sua prima, mas não o fizera ainda porque os seus domínios eram de difícil acesso, numa região montanhosa e rodeada de cerrada floresta, longe de tudo, e o conflito não o levara nessa direcção. Ademais, nunca as gentes das Terras Verdes tinham levantado armas contra ele, apesar de serem, oficialmente, inimigos, pelo menos desde que os seus tios tinham conspirado para matar o rei. Aquela era uma situação que, de tão nebulosa, o próprio Eric fazia questão de adiar para depois da guerra, quando vencesse e se vencesse.
Um pouco antes de raiar a madrugada da grande batalha em que se percebeu que desta vez o exército do jovem rei ia enfrentar uma aliança de inimigos, tão numerosos que o próprio Ian se mostrava apreensivo, não obstante por essa altura já ter granjeado a alcunha de o Valente, os sentinelas trouxeram a notícia de um grupo de duas centenas de homens armados que se encaminhavam do norte naquele sentido, empunhando o estandarte do Unicórnio e declarando ter vindo combater nas suas fileiras.
Eric não os viu chegar, porque era ainda noite escura, mas quando alguns cavaleiros se aproximaram da luz das tochas reconheceu a bandeira que traziam, e impressionou-o a soberba com que apresentavam, direitos e orgulhosos nas suas montadas como se desprezassem o perigo para onde se dirigiam. E irritou-o, o imaculado fulgor daquelas armaduras brilhantes, quando o seu exército espelhava o desgaste enlameado e exausto de muitas batalhas.
– Não sabia que restava ainda um homem nobre capaz de montar a cavalo nas Terras Verdes! – exclamou, incapaz de conter-se nessa hostilidade, como se perguntasse ao líder quem era e porque tinha demorado tanto se tencionava lutar do seu lado. Mas os homens permaneceram em silêncio, e um cavaleiro mais pequeno, que todos julgaram um jovem rapaz, avançou enfim por entre a barreira de guardiões que pareciam assim colocados de propósito para o proteger.
– Tens razão. Não resta um homem nobre capaz de montar a cavalo. O meu pai sofre de paralisia. Quem aqui está sou eu, Hildegaard, a tua prima. – disse ela, e levantou a viseira do seu elmo, descobrindo os olhos verdes. Eric deixou cair o queixo. Um silêncio abismado calou as bocas de todos os presentes, e não era para menos. Hildegaard vinha pronta para lutar, de armadura e espada e arco e flechas a tiracolo. – Fomos atacados. Os nossos inimigos estão naquele exército. É por isso que lutaremos neste.
– Bruxa! É uma bruxa! – gritou um padre, um daqueles que acompanhavam sempre os exércitos para confessar os homens antes de cada batalha e dar-lhes a extrema unção em caso disso, erguendo um grande crucifixo perante ela. Hildegaard não pareceu estranhar a recepção mas não escondeu a raiva que tais palavras lhe causavam. – Ide de volta para os infernos! Não queremos aqui bruxas e demónios a lançar sobre as nossas cabeças a ira de Deus!
– Cala-te, desgraçado! – exclamou então Malkom, furioso, e com os seus cabelos cor de palha a esvoaçar cavalgou até ele e arrancou-lhe o crucifixo da mão. Por momentos pareceu a todos que ponderava seriamente bater com ele na careca do padre, mas em vez disso atirou-o para longe, como se temesse ceder a essa forte tentação. – A minha ira é que vai cair sobre a tua cabeça! Estamos em menor número e todos os que quiserem lutar são bem vindos, venha até o próprio Satã e todos os demónios do inferno! Mulheres, bruxas, padres! E se não vais lutar não fazes cá falta nenhuma! Aconselho-te a fugir porque isto não vai ser bonito assim que o sol raiar e essa batina não me parece grande armadura!
A partir daí, Malkom ficou definitivamente apelidado de o Cínico. Quem o conhecia imaginava-o perfeitamente capaz de cumprir a promessa e dar as boas vindas ao diabo se este estivesse do seu lado… ou corrê-lo a pontapé se não estivesse. E naquele momento era aquele padre que ameaçava ofender os recém-chegados, bruxos ou não, que traziam cavalos e armaduras e espadas, e em tudo aparentavam ser guerreiros de valor, e tendo em conta o exército que os esperava do outro lado da colina não era tempo de ser esquisito.
O padre levantou as mãos ao céu, horrorizado, e fugiu daquele blasfemo. Ninguém o tornou a ver até à manhã seguinte. Hildegaard ficou bem impressionada, e os homens que a ladeavam, e que por momentos tinham parecido dispostos a começar a batalha logo ali, tiraram as mãos do punho das suas espadas.
Eric reparou nisso, e que a sua prima era a senhora incontestada daqueles súbditos, e tentou disfarçar a perplexidade. Aquela não era a menina simpática de que se recordava! Se calhar essa menina não tinha mesmo passado de um sonho… Reconheceu-a, mesmo assim, pelos olhos verdes e pelos cabelos louros que lhe escapavam, presos num rabo de cavalo, da parte de trás do seu elmo. De tão atordoado, mal conseguiu pronunciar uma palavra enquanto aquela rapariga de bizarros costumes e aparência arrapazada lhe explicava rapidamente o que sucedera nas suas terras. Eric quase não a ouvia. Pensava apenas que afinal sempre lhe restava uma familiar, e que não sabia sequer como agir perante ela. Pois se até o facto de se declarar sua aliada era uma tão grande surpresa!... Tinha uma imensidão de perguntas a pôr-lhe, mas não houve tempo.
Aos primeiros clarões da aurora um temível exército inimigo avançou pelo vale. Eram tão numerosos os adversários, a pé e a cavalo, que um silêncio ansioso se instalou entre os homens. Dizia-se que o exército do jovem rei, cujos guerreiros lutavam por convicção, não obstante menor em proporção valia três vezes o seu número. Era agora que se provaria se mereciam a fama que tinham conquistado. As perspectivas eram sombrias, mas não havia ali ninguém que não estivesse preparado para o perigo que defrontavam e valentemente todos tomaram as suas posições. Só então Eric percebeu que a sua prima lançava mão das suas armas para se colocar entre os arqueiros.
– Não pensas mesmo ir combater, pois não?... – interpelou-a, com tal aflição que naquele momento, se houvesse tempo para tal, a teria amarrado de pés e mãos se preciso fosse. Hildegaard, contudo, não era mulher que se amarrasse.
– São aqueles os homens que atacaram o meu castelo? – perguntou apenas, apontando com o queixo os nobres que ao longe se alinhavam atrás das suas tropas, e Eric compreendeu que nada se interporia entre ela e a vingança. – Não deviam tê-lo feito.
Isto dito, Hildegaard juntou-se aos arqueiros e ergueu o arco ao lado deles. A partir daí, no iminente início da batalha, Eric não teve outro remédio senão aceitar que estavam todos entregues à sua sorte e a única coisa que podia fazer para proteger a sua prima era vencer.
Não era só ele a pensar assim, pois ao ser dado o sinal para que a cavalaria avançasse foram os homens de Hildegaard os primeiros a investir, e tão destemidamente o fizeram, apesar do seu pequeno número, que abriram uma clareira entre o exército inimigo. Eric meditou, ao vê-los irromper daquela maneira, que devia ter sido com tal ímpeto que a mão divina partira o mar em dois. Cavalos e cavaleiros pareciam imunes, envoltos na nuvem de poeira que levantavam atrás de si, e inspiravam todos os outros que os seguiam. Ninguém ali presente jamais esqueceria a coragem dos guerreiros das Terras Verdes.
Tinha começado uma batalha longa e sangrenta. Muito mais longa do que esperavam os adversários, que se odiavam entre si, aliados somente no propósito de reunir o número bastante que abatesse de vez o jovem rei e o seu exército. E o número teve o seu peso, e as suas consequências. Naquele dia o exército do rei provou que nenhum dos seus homens se deixaria cair sem levar consigo o triplo da sua vida. Teria sido uma batalha ainda mais sangrenta não fossem as incontáveis deserções do outro lado assim que se percebeu qual era a parte mais inabalável. Mas demorou tempo, e sangue e sacrifício. No pior caos do combate, Eric perdeu de vista a sua prima, e os seus amigos, e os capitães das suas tropas. Muitos que lhe eram próximos pereceram, entre eles o nobre que tinha sido inimigo e se tornara aliado. Mas ninguém parava de lutar, e cada morte era repetidamente vingada, e os grandes números vacilaram. Confundidos pela inesperada reviravolta, quando contavam com um triunfo esmagador, os oponentes decidiram bater em retirada.
Alguns capitães queriam persegui-los mas Eric impediu-os. Ainda eram em maior número e os homens estavam demasiado cansados, e a vitória final já não lhes escapava se apenas se poupassem até ao momento certo. Aquela tinha sido uma vitória decisiva, uma vitória que instalara medo no coração dos inimigos e que os quebraria da próxima vez que se confrontassem. Por agora deviam parar, e tomar fôlego e preparar-se para ganhar a guerra. Tinha-lhe parecido tão longe, e agora estava tão perto! Tão perto que quase se podia estender a mão e agarrá-lo!

in "Elysion"


As opiniões são bem vindas.




sexta-feira, 2 de novembro de 2012

comentários a lápis na contracapa

Em 1994 deixei os seguintes comentários, escritos a lápis, nas contracapas de algumas histórias que tinha escrito antes. Foi curioso descobri-los porque já não me lembrava de tê-los apontado.

Li e gostei, mas: o fim "cai" subitamente. Falta qualquer espécie de moral, de explicação moralizadora: o sentido da vida é apenas viver (não importa em que condições).
10.9.94

Falta ainda mais “ambiente”: tem que ser mais sinistro e opressivo; aproveitar a velha mitologia do lobo com uma abordagem diferente. Será que T. deixou de ser pessoa para se tornar “mais animal”? Afinal, vivia numa sociedade de lobos. Começar os capítulos e os parágrafos ao estilo do 1º parágrafo da história. Subtileza e ironia em relação à crueldade têm que ser mais carregadas. 
1994

Pág. 26 -> Situação mal explicada, susceptível de não ser imediatamente e claramente compreendida.
Li e gostei. Chorei com a morte de M. Achei o fim feliz. Penso que as personalidades de D. e de N. deviam ser um pouco mais aprofundadas. Algumas frases precisam de ser aperfeiçoadas estruturalmente e algumas palavras substituídas.
2.11.1994

Falta maior síntese e mais intensidade. A escrita tem que ser mais atractiva. Uma história tão boa não pode ficar tão mal escrita.
10.9.94

Ficou. Porque entretanto foi "substituída".
As histórias eram boas, e fortes, mas tantos anos depois não as poderia escrever da mesma maneira. A técnica evoluiu, a abordagem deslocou-se. Em termos mais simples, tal como já não escrevo assim, também já não vejo as coisas como via. Não seria bastante corrigir mas escrever de novo. Entretanto, perdi o interesse nessas histórias iniciais, que eram comparativamente curtas em número de páginas, como se tivessem cumprido o seu papel como ensaio do que havia de vir.
Mas de vez em quando gosto de ler estas primeiras histórias, literariamente imperfeitas como estão, e recheá-las do que falta e senti-las como se estivessem perfeitas. Foram-me "mostradas" como um filme, um filme que falhei em transcrever em palavras, mas o filme continua o mesmo.
O hiato entre a última história e a seguinte durou dez anos. Por variados motivos, acabei uma tentativa de romance em 1996 e só consegui voltar a escrever (o mesmo romance, curiosamente) em 2006. Ao fazê-lo, foi quando compreendi que tinha de virar a história do avesso e contá-la de outra maneira. Mas, nesse momento, as Musas bisparam que os canais estavam abertos e inundaram-me. Como marioneta nas mãos delas fui compelida a não pegar naquilo mas a pegar noutra coisa. No que as Musas mandam. As Musas não se importam muito com o estilo.
Fiquei impressionada com as palavras destes comentários, não pela sua dureza, porque não há crítica mais dura do que eu própria (e isso eu já sabia), mas porque continuo, ainda e sempre, a lutar com estes mesmos conceitos: ambiente, abordagem, subtileza, intensidade, clareza, estrutura, frase, palavra, estética.
Ultimamente, passa-me mesmo pela cabeça a pretensão de tentar "escrever isto como nunca foi escrito antes". Mas não é para mim, ainda, e não sei se alguma vez será ou se a idade e a prática terão significativa influência. Contento-me em "escrever isto como eu nunca consegui antes" e já não é mau.