Jordan, uma operadora do 911 (linha de emergência como o 112) recebe uma chamada de uma adolescente que tem um intruso em casa, e comete um erro. Em resultado disso, a adolescente é raptada e encontrada morta.
Durante muito tempo, traumatizada com a experiência, Jordan deixa de atender chamadas e passa a ser formadora de novos operadores. Até ao dia em que uma novata recebe uma chamada semelhante. Em pânico, a principiante passa a chamada a Jordan, que por alguns indícios percebe que está a falar com o mesmo serial killer. Jordan tem de ultrapassar a insegurança e a culpa para salvar esta outra adolescente que o homem já transporta na mala do carro. A cada momento do filme, principalmente quando o raptor se apercebe do telefonema, adivinha-se outra tragédia.
“The Call” é um thriller que recordará a muitos de “Psycho” e, principalmente, de “O Silêncio dos Inocentes”. Mas o que gostei mais, admito, é como se mostra os bastidores de um call centre de elevado stress, em que cada decisão pode significar vida ou morte. Neste aspecto, o filme faz tudo o que tem de fazer. Recomendo vivamente.
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terça-feira, 16 de abril de 2024
The Call / A Chamada (2013)
domingo, 14 de maio de 2023
Split / Fragmentado (2016)
O transtorno dissociativo de identidade, mais conhecido como transtorno de múltiplas personalidades, tem sido um manancial para o cinema desde os tempos de “Psycho”. Na verdade, é um distúrbio muito raro, raríssimo, mas permite histórias inesquecíveis e geralmente thrillers fantásticos.
É o caso deste “Split”, do realizador M. Night Shyamalan, onde notei influências de “O Silêncio dos Inocentes”, ou, mais precisamente, de “Dragão Vermelho”.
“Dennis” é a última personalidade a emergir num total de 23 que co-existem no corpo de Kevin. Só que “Dennis” é um psicopata que, aliado a uma outra personalidade, Patricia, acredita numa Besta que virá a ser a 24ª personalidade.
Para alimentar esta Besta (que considera sobre-humana) Dennis rapta três adolescentes, consideradas por ele “impuras” porque nunca sofreram, sem outra utilidade senão a de serem sacrificadas ao deus-Besta. Imediatamente as outras “personalidades” começam a enviar emails à psiquiatra de Kevin, pedindo ajuda, mas Dennis aparece sempre em vez delas, para as calar e dissipar qualquer suspeita, fingindo que está tudo bem. No entanto, prestando atenção a pormenores muito subtis, a psiquiatra desconfia de que a “personalidade” que lhe aparece na consulta não é nenhuma que ela conheça, e que é perigosa.
Conseguirá a psiquiatra salvar as raparigas? Conseguirão elas salvar-se sozinhas?
É um filme que dá para roer as unhas. Aconselho vivamente.
16 em 20
domingo, 31 de outubro de 2021
Bates Motel (2013–2017)
[contém alguns spoilers]
Quando vemos as duas primeiras temporadas de ”Bates Motel” podemos ter a sensação errada de que servem para encher chouriços. Afinal, toda a gente conhece a história e sabe como vai acabar. Só resta saber como é que se vai chegar lá. Como é que aquele rapazinho amoroso se vai transformar no louco assassino Norman Bates.
No entanto, ao rever estas mesmas temporadas compreendemos a sua importância, e que nos mostram como era a vida “normal” da família Bates antes de tudo descambar numa espiral trágica de destruição. E até percebemos outra coisa, que o jovem actor Freddie Highmore já mostra em Norman um distanciamento dos outros, um pouco à-vontade, uma série de tiques que pareciam normais num rapaz de 17 anos mas que prenunciavam algo de muito mais grave.
Quem diria que seria Dylan, o meio-irmão de Norman e igualmente filho de Norma, que nem sequer existe no filme, a resolver tudo no fim?
Estas primeiras temporadas, com os seus enredos de traficantes de droga (e não só) mostram-nos que por muito disfuncional que seja o submundo do crime, não existe nada mais disfuncional em White Pine Bay do que o que se passa em casa dos Bates. É entre aquelas quatro paredes da casa icónica sobranceira ao motel que o drama ferve, todos os episódios.
Chegamos à terceira temporada e a família disfuncional começa a desagregar-se de maneiras que nunca poderíamos ter adivinhado. De “apagão” em ”apagão”, Norman transforma-se num assassino. Continuamos a empatizar com ele porque Norman também não sabe quem é quando perde a consciência. Foi arrepiante observar como Freddie Highmore se transforma de Norman em Norma em frente ao psiquiatra. Foi arrepiante descobrir que alguns destes encontros com o psiquiatra só aconteceram na cabeça de Norman. Foi arrepiante sabermos que a certa altura Norman saía de casa e comportava-se como Norma, sem que de tal tivesse consciência.
Chegamos à quarta temporada e é altura de a série nos partir o coração. Longe da influência de Norman (que está institucionalizado), Norma e Romero apaixonam-se, e por uma vez na vida Norma experimenta uma relação normal. Se isto não fosse uma tragédia, até poderíamos sonhar com um final feliz. Norma e Romero estão felizes. Romero está tão apaixonado e empenhado na relação que casa com Norma de um dia para o outro, para ela ter seguro para poder internar Norman numa instituição de luxo. Mas é claro que Norman não fica nada feliz quando descobre que a mãe casou com “outro” homem. Como ele próprio diz à mãe: “Nada disto é normal. Éramos só nós dois, lembras-te? O cordão que nos unia para sempre? E agora pões-me de parte como se eu não fosse importante para ti?” Ele tem razão. Muita da culpa da relação disfuncional mãe/filho é efectivamente de Norma. Quando ela se quis afastar, Norman não abriu mão dela. Há muito tempo que aquela relação era tudo menos normal. Por exemplo, foi tudo tão rápido que Norma não quer contar a Norman que se casou, e que se casou principalmente por causa dele, para ter direito ao seguro de Romero, e manda o marido embora por umas noites até ter tempo de explicar o casamento ao filho. Logo nessa noite, Norman está a dormir na cama dela.
Nunca há incesto, de forma alguma. A possessividade de Norman em relação à mãe é de outra natureza, uma natureza que um rapaz mentalmente equilibrado conseguiria ultrapassar, mas Norman não é um rapaz equilibrado. Pela primeira vez, vira a sua fúria contra a mãe. Norma foi avisada, tanto pelo filho Dylan como pelo marido Romero, e chegam a encontrar-se os dois para decidirem um plano de acção. Mas, como eles dizem, Norma é cega em relação a Norman e prefere rejeitá-los a aceitar ajuda contra o filho. O único resultado é a tragédia.
Na quinta temporada, Romero quer vingança. Por sorte de Norman, Romero não a consegue de imediato, deixando o novo assassino em série liberto para continuar o seu reino de terror durante mais algum tempo. Este sim, é o Norman Bates que nós já conhecemos do filme “Psycho” (embora mais novo), com a cena do chuveiro e tudo.
Mas não se pense que Norma (Vera Farmiga) sai de cena. Norma está sempre presente, um alter ego de Norman que “toma controlo da situação” quando Norman se sente assoberbado. Norma, personalidade secreta de Norman, mata para o proteger. Por esta altura, Norman está completamente descontrolado, vivendo num mundo de fantasia na sua cabeça em que Norma está viva, em que até põe comida, todos os dias, à sua cadela que ele próprio empalhou depois de atropelada. É a personalidade completamente desagregada.
Valeu a pena ver as primeiras temporadas, como eu dizia, para percebermos como é que se chegou aqui. Não de um momento para o outro mas passo a passo, observando o miúdo adorável de 17 anos transformar-se num serial killer confuso e desorganizado que mal consegue esconder o que está a fazer.
E depois temos Vera Farmiga, uma força da natureza, tão boa no papel de morta como o era no papel de viva. Porque às vezes o que nos perturba mais são os pormenores: a cozinha de pantanas, a tigela de cão a transbordar, os jantares em que Norman insiste em pôr dois pratos, as conversas em que Norma é incluída embora lá não esteja. Verdadeiramente arrepiante. Conseguimos sentir e partilhar o terror ou desconforto, conforme, de quem se apercebe da situação em que caiu.
Quem diria que o que começou tão normalmente, mãe e filho a chegarem a uma casa nova para gerir o negócio do hotel, ia acabar em tal insanidade? Uma insanidade que nós vamos acompanhando e compreendendo, como se Norman, ele próprio, fosse um edifício que vai ruindo aos poucos até já nem restarem alicerces onde se apoiar.
Recomendo esta grande série e direi mesmo que as três últimas temporadas são imperdíveis para os amantes do género. Se já antes conhecíamos Norman Bates, nunca o olharemos da mesma maneira.
domingo, 22 de novembro de 2020
Bates Motel [segunda temporada]
Quando fiz aqui a crítica à primeira temporada, questionei-me até que ponto a série ia conseguir convencer-nos de que este puto adorável, Norman, se ia transformar num serial killer. Nesta segunda temporada começamos a chegar lá. A mente de Norman está cada vez mais fragmentada, os episódios dissociativos são cada vez mais frequentes e graves. E continuamos a sentir simpatia por ele porque, afinal de contas, Norman não sabe o que faz. No seu estado normal, Norman não era capaz de fazer mal a uma mosca. Mesmo assim, quando Norman está zangado, o actor Freddie Highmore transfigura-se e mete medo. Ele semicerra os olhos, as pestanas escuras a encobri-los, de uma maneira que os próprios olhos parecem ficar totalmente negros, tudo isto sem efeitos especiais, ao mesmo tempo que contorce os lábios num esgar de raiva que pode rebentar a qualquer momento. Não admira que o jovem actor tenha conseguido este papel. Quando ele faz isto vimos o verdadeiro Norman Bates, aquele que é capaz de matar. Nesta segunda temporada somos levados a crer que ele já matou durante um dos seus apagões dissociativos, e não vou revelar quem, ou pelo menos ele está convencido disso devido a memórias que recordou. A questão é que também não podemos confiar nas memórias de alguém que frequentemente tem alucinações. Continuo sem saber se de facto ele já matou alguém ou se apenas fantasiou essa “memória”. Na série ainda não o vimos cometer o acto propriamente dito, excepto em legítima defesa ou para defender a mãe.
Mas começa a ser óbvio que Norman está a piorar. Se ainda não matou, pouco falta.
Norma
Esta série podia chamar-se “The Vera Farmiga’s” show. Norma continua a mesma de sempre, quando mais esbraceja mais se afoga. Não conhecia esta actriz e fico boquiaberta com a versatilidade com que ela faz tudo, dos apontamentos cómicos às cenas dramáticas mais pesadas. Graças a Vera Farmiga e Freddie Highmore, conseguimos ver a relação cada vez mais imprópria desenrolar-se entre mãe e filho e perceber como é que eles chegaram até ali. O que mesmo assim não se torna menos desconfortável quando os vemos discutir como um casal de namorados, ou deitarem-se lado a lado na cama e dormirem abraçadinhos, ou quando dançam juntos, ou aquele beijo nos lábios com que Norma beija o filho. Para eles é tudo tão puro e platónico que nem se apercebem de como aquela relação já ultrapassou todos os limites do que é saudável, pouco a pouco, um gesto e uma palavra de cada vez.
Dylan, o xerife Romero, e os outros bandidos
Nesta segunda temporada a série já não comete erros como os das escravas sexuais chinesas. Finalmente encontrou o seu espaço e sabe onde pisa. O sub-plot do tráfico de droga e da cidade em que toda a economia vive de actividades ilegais está lá apenas como pano de fundo, mas graças a Dylan, irmão mais velho de Norman, acaba por se integrar nos problemas da família, magnificando-os.
A primeira temporada enganou-me quanto ao xerife Romero. Podia ter jurado que era ele próprio o grande chefão da droga, acima de todos os chefões. E de certa forma não me enganei assim tanto. Romero não é um criminoso, mas é ele quem manda em todas as actividades ilegais de White Pine Bay para que elas não passem de certos limites. E quando é preciso o xerife não olha a meios para atingir os fins, mesmo que não sejam os meios mais legais. De outra forma, como ele diz, toda a cidade estava atrás das grades. Romero quer impedir isso. Dylan está em White Pine Bay há pouco tempo, mas até ele percebe que com Romero não se brinca. O xerife é mesmo o chefão lá do sítio.
Mas isto é cenário. Tudo o que interessa e empolga nesta série acontece entre quatro paredes, na casa dos Bates, onde a família continua a aprofundar uma dinâmica disfuncional que psicólogo nenhum já poderia resolver.
Apesar de a primeira temporada ter andado ali um bocado aos tropeções, “Bates Motel” está cada vez melhor e recomendo vivamente.
Tenciono voltar a comentar aqui a série inteira depois de ver as cinco temporadas.
domingo, 8 de março de 2020
Bates Motel
[crítica à primeira temporada]
Quando ouvi falar de uma série chamada “Bates Motel” e baseada no filme “Psycho”, pensei que o enredo seria: um episódio, um hóspede, um homicídio. Tipo “Dexter”.
A série tenta ser muito mais ambiciosa do que isso. O problema é se consegue atingir o que se propôs. Acabei de ver a primeira temporada e ainda não estou convencida.
“Bates Motel” pretende ser uma prequela de “Pshyco”, anacronicamente passada nos nossos dias, com um Norman Bates adolescente antes de ser o serial killer que conhecemos de Hitchcock. E qual é a figura chave na vida dele que o tornou assim? A mãe, claro está. Esta história é tanto sobre Norma Bates (a mãe), se não mais, como sobre Norman. Os próprios nomes, óbvios, dizem-nos como Norma é possessiva para com o filho. Norman é dela, Norma, e de mais ninguém. Mas esta Norma da série não é a bruxa má que se adivinha do filme (já explicarei porque digo isto).
Na primeira cena da série, o pai de Norman está morto na garagem num acidente muito suspeito. Como consequência desta morte, Norma e Norman mudam-se para a pequena vila costeira de White Pine Bay, onde ela pretende reconstruir a sua vida explorando o motel que comprou com o dinheiro do seguro de vida. Este é logo o primeiro mistério da série. A morte do pai de Norman parece tudo menos um acidente e o dinheiro do seguro dá muito jeito. Como sabemos quem é Norman Bates a nossa tendência é pensar que foi ele… até conhecermos a mãe. E Norma começa a matar, embora em legítima defesa, logo no primeiro episódio.
Não há volta a dar, Norma torna-se uma personagem ainda mais fulcral do que Norman. A interpretação de Vera Farmiga é uma força da natureza. Norma é manipuladora, emotiva, dramática e algo destrambelhada. É o próprio Norman quem a descreve melhor, numa cena em que exasperado lhe grita: “Tu és maluca!” E ela é maluca. Sabem aquelas pessoas que quanto mais se querem desenvencilhar de uma má situação, mais se embrulham? É o caso.
Mas se Norma é maluca, quem sai aos seus não degenera: Norman é mais maluco do que ela. Norman é tão “maluco” que nem sabe que é maluco. Tal como no filme, o adolescente Norman já sofre de episódios dissociativos com “apagões” em que não se lembra do que fez, à mistura com alucinações que muitas vezes nos fazem questionar se aquilo que estamos a ver está mesmo a acontecer ou se se passa apenas na cabeça dele. (Se calhar a intenção da série não era criar esta ambiguidade, mas a partir do momento em que o protagonista alucina conversas e situações a nossa dúvida é inevitável.) O domínio de Norma sobre ele é tanto manipulativo como impróprio. Norma não se parece aperceber (ou não quer admitir) que o filho já tem 17 anos. Prestes a perder o controlo sobre tudo na sua vida, Norma usa Norman como o seu ponto de apoio, quando devia ser ao contrário, ao mesmo tempo que este Norman quase adulto quer fazer tudo para ajudar a mãe, criando entre ambos uma relação de co-dependência com que muitos espectadores se vão identificar de certeza (excepto, espero eu, a parte em que Norma se vai deitar na cama com o filho como se este tivesse 3 anos).
Como se não bastasse todo este drama (direi mesmo patologia) que mãe e filho trazem com eles, White Pine Bay também não é um lugar muito seguro onde se viver. Aparentemente uma vila pacata à beira-mar, toda a economia de White Pine Bay gira em torno de criminalidade em vários graus, desde o cultivo de marijuana ao tráfico de escravas sexuais. E tudo, parece, com o conhecimento do xerife Romero (Nestor Carbonell, o Richard Alpert de “Lost”), que sabe muito mais do que dá a entender. Há até teorias de que é ele o grande Chefão do crime todo, o que nunca é confirmado na primeira temporada mas não me admiraria mesmo nada. Esta “vila pacata cheia de segredos” tem feito com que “Bates Motel” seja comparado a “Twin Peaks” e até a “Breaking Bad” (por causa das actividades criminais em cada canto), mas na minha opinião as semelhanças começam e acabam aí.
Várias séries dentro da mesma série, mas no mau sentido
Um dos grandes problemas da primeira temporada, embora com certeza tenha sido feito de propósito não fossem os espectadores aborrecerem-se, é que às vezes parece que estamos a ver séries diferentes na mesma série.
Se não, vejamos. Nesta versão, Norman tem um meio-irmão mais velho, Dylan, filho de Norma e de um relacionamento anterior ao pai de Norman (este relacionamento também é um mistério). Dylan, no meio desta maluquice toda, é um gajo normal. E por ser normal, saiu de casa o mais cedo possível e tem uma relação distante e conflituosa com a mãe. Mas, ao perder o emprego, vê-se obrigado a ir morar com ela em White Pine Bay. Nota-se que Dylan é um jovem desenrascado, mas talvez por pobreza (ele próprio se queixa que nunca tinham dinheiro para nada) não parece ter estudos. Ao chegar a White Pine Bay arranja um trabalho justamente com o gangue da marijuana, e é tão bom no que faz que é logo promovido. Mas apesar da sua ocupação criminal, Dylan acaba por revelar-se um jovem sensível e amigo do irmão, talvez a única influência normal na vida dele, que quer afastá-lo da influência tóxica de Norma. É impossível não gostar de Dylan. O próprio Norman começa por não gostar muito dele (especialmente porque Dylan odeia Norma) mas Dylan acaba mesmo por conquistá-lo com amizade, conselhos e companheirismo. Acompanhar Dylan é como ver outra série, uma série de drama e crime em que um jovem tenta desenrascar-se como pode.
Depois, temos um sub-enredo Young Adult à volta da escola nova de Norman. As miúdas populares da escola, por alguma razão, engraçam com ele, e uma delas, Bradley, até dorme com ele num momento vulnerável da vida dela. Norman julga que é o início de uma relação séria, mas afinal o sexo não significou nada para Bradley. (Alerta Norman Bates: aos 17 anos já foi seduzido, usado e descartado por uma rapariga bonita e inacessível… o que obviamente o deixa magoado. Mas magoado a ponto de querer matar todas as mulheres bonitas? Ainda não.) Ao mesmo tempo, Norman conhece Emma, uma rapariga com uma doença pulmonar grave, que, esta sim, tem um grande fraquinho por Norman, embora não seja correspondida. É através dela que Norman se envolve na descoberta das escravas sexuais chinesas que são traficadas em White Pine Bay, sendo que o motel era uma base de operações para os traficantes. Todo este sub-enredo é típico de Young Adult, em que os adolescentes se metem em aventuras que são areia a mais para a camioneta deles.
E depois temos toda a maluquice de Norma, que contagia quem contracena com ela e que muitas vezes transforma a série numa comédia negra (ou apenas comédia?). O problema é que não se percebe se o objectivo destas cenas era mesmo serem cómicas, ou se ficaram tão disparatadas que nos deixam a pensar se é para rir ou não.
Todos estes sub-enredos podiam funcionar perfeitamente, mas em “Bates Motel” simplesmente não encaixam muito bem, criando a tal sensação de que foi tudo ali pespegado com fita-cola e que estamos a ver “filmes” diferentes no mesmo filme.
Um sub-enredo muito falhado
Mas ainda sobre as escravas sexuais, foi onde a série meteu mesmo a pata na poça. Um assunto grave como este devia ser tratado com a maior seriedade, mas “Bates Motel” tratou-o com uma leviandade quase cómica. Quando deixou de interessar ao enredo principal, o sub-enredo das escravas sexuais desapareceu num instante. A escrava sexual foi, aparentemente, abatida a tiro nos bosques por um dos vilões, sem que víssemos a morte, sem que nunca mais ninguém se importasse com ela nem em descobrir o seu corpo. Pobre escrava sexual, não passou de um filler para encher episódios. Muito mau, muito mau.
O actor que faz de Deputy Shelby, o traficante de escravas, também não podia ter sido mais mal escolhido. É nada menos do que Mike Vogel (que eu conheço principalmente como protagonista de outra péssima série, “Under the Dome”; quando é que dão um papel como deve ser a este actor, que merecia muito melhor do que isto?).
Ora, basta olhar para Mike Vogel. Isto não é um homem que precise de manter uma escrava chinesa presa na cave. Isto é um homem que deve ter uma fila de mulheres à porta daqui até à China. [Sim, também estou a ser leviana, mas não resisti à piada.] Na vida real, a procura de escravas sexuais não tem nada a ver com necessidades e/ou atractivos físicos dos abusadores, mas com factores muito mais desviantes, entre eles o desejo de domínio absoluto sobre a vítima e o sadismo. Este Deputy Shelby devia ser um tipo asqueroso e sádico, mas não é nada do que vemos aqui (ou não tivemos tempo de ver porque a personagem nunca chegou a ser desenvolvida como devia ser.) O pobre actor bem tenta, o melhor que pode, transmitir este factor asqueroso à sua personagem, mas nunca teve muito com que trabalhar. Em vez de um traficante de pessoas, os seus diálogos eram mais adequados a um criminoso vulgar, um traficante de droga, por exemplo. O Deputy Shelby foi a personagem mais mal conseguida num cast que, pelo contrário, nos apresenta personagens bastante sólidas e credíveis. Mais valia terem arranjado antes uma rede de exploração de trabalho de imigrantes ilegais, o que é igualmente mau, mas não tão mau como o rapto e violação de mulheres.
Este sub-enredo das escravas sexuais foi tão mal feito, e as críticas foram tantas, que se calhar os autores da série nem o quiseram corrigir e acabaram com ele abruptamente.
Os bons momentos superam os maus
O que funciona muito bem é a dinâmica entre Norma e Norman, e até mesmo Dylan, quando a família disfuncional se encontra dentro de portas.
Aqui nota-se que “Bates Motel” foi pensado a partir de “Psycho”, com o infame cenário exterior e interior da casa e do motel, e os personagens vestidos num guarda-roupa tão retro que podia bem passar pelos anos 60, e principalmente aquelas televisões antiquíssimas onde Norman gosta de ver filmes a preto e branco. [O maior mistério da série, na minha opinião, é como é que eles conseguem manter aquelas televisões a funcionar quando há muito tempo que a minha pifou e mandar arranjar uma televisão daquelas fica mais caro do que comprar um plasma, já para não falar que essas televisões não tinham entrada para cabo nem gravador de vídeo, só para antena analógica, então como é que Norman consegue ver os filmes a preto e branco se não tem um canal “Memória”?] O pai de Emma é também um taxidermista que ensina Norman a embalsamar animais, o que faz sentido com o filme. E algumas vezes os realizadores da série filmam certas cenas com um toquezinho de Hitchcock que resulta muito bem, como daquela vez em que Norma encontra um cadáver autopsiado na sua cama e desata a gritar histericamente, algo que podia ter feito parte do filme original ou de filmes da mesma época, ou a cena em que Bradley rejeita Norman, sozinhos, rodeados de nevoeiro, e não deve ter havido um espectador que não tenha pensado que era ali, que era já, que Norman a estrangulava de raiva.
Mas Norman é um miúdo adorável, por quem torcemos, com quem não é difícil empatizar porque sabemos que durante os episódios dissociativos ele não tem consciência do que faz. Por exemplo, Norman encontra uma cadelinha abandonada e quer logo ficar com ela, mesmo quando Norma não aprova. Quando a cadela morre atropelada (isto foi para manipular os nossos sentimentos) Norman fica devastado e leva-a ao pai de Emma para a embalsamar. Como é que não se gosta de um miúdo assim?
E depois existe ainda um outro sub-enredo, em que uma professora de Literatura de Norman, de trinta anos no máximo, bonita e sexy, se interessa demasiado por ele. Em todas as cenas em que estão juntos sempre me pareceu que aquilo era ainda mais impróprio do que a relação super imprópria de Norman com a mãe. Abraços e festinhas na cara? Isto, comigo, e esse professor/professora era logo denunciado ao Conselho Directivo. Não admira que o pobre Norman fique traumatizado com as mulheres. É preciso ter azar com tantas malucas na vida dele. No fim da temporada, esta professora aparece degolada depois de uma cena em que Norman a vê mudar de roupa (talvez de propósito à frente dele), expondo uma lingerie super sexy. Mas se pensam que isto é um spoiler, pois não é! Porque antes disto a vemos ter uma violenta discussão ao telefone com um ex-namorado que parece estar a ameaçá-la (e que, segundo outras pistas, também deve estar ligado às actividades criminais da terra). Norman estava em casa da professora antes de ela morrer e volta para casa muito perturbado, com um dos seus “apagões”, mas nada nos garante que tenha sido o seu primeiro homicídio. Conhecendo a série e as suas voltas e reviravoltas, não me admirava nada que tivesse sido antes o tal ex. Mas esse é um mistério para a segunda temporada.
A verdade é que “Bates Motel” devia ser a prequela de como Norman Bates se transforma num assassino e estamos todos à espera do momento inevitável em que ele comece a matar. O maior problema da série é que não se está a ver como é que vão transformar aquele miúdo adorável num serial killer. Não é preciso ser um grande psicólogo para perceber que o problema do Norman Bates do “Psycho” era a repressão sexual e a educação puritana que recebeu. Aquela cena do duche, a faca e a mulher nua, tudo aquilo é sexualidade reprimida. E não é difícil de imaginar a Norma Bates do filme como uma daquelas mulheres para quem o sexo é algo de sujo e pecaminoso, sempre a dizer ao filho “aquelas ordinárias, olha como se comportam agora, sem decência nenhuma, isto não é de boas raparigas, não dês o desgosto à tua mãe de andar com essas galdérias, etc”. Ora, a Norma da série não é nada disto e repressão sexual é coisa que não existe naquela casa. Pelo contrário, eu diria mesmo que existe descontracção sexual a mais. Tanto da parte de Norma, sexualmente muito activa sem o esconder dos filhos, como da miúda da escola que dormiu com Norman e não significou nada, como da parte da professora que anda sempre vestida como uma mulher fatal. A temática sexual paira sempre sobre o enredo nas suas formas mais extremas (desde a parte das tais escravas sexuais até às alusões ora subtis ora explícitas de incesto, passando pela violação mostrada logo no primeiro episódio e muito realista), às vezes de forma dramática e bem feita, outras vezes não tão bem conseguida. Será por aí que a psique frágil de Norman vai ser afectada? É que uma mãe destrambelhada não chega para fazer um serial killer. A própria série o prova com o caso de Dylan, filho da mesma mãe e criado na mesma maluquice.
“Bates Motel” é uma série com muitos desequilíbrios e altos e baixos, mas estranhamente viciante, talvez devido à solidez dos personagens. Os momentos bons superam os maus e conseguimos seguir a história com interesse por muitos desvios mal pensados que nos surjam ao caminho. Além disso, a série vale a pena nem que seja só pela performance fantástica de Vera Farmiga, que eu não conhecia (embora o nome não me fosse estranho uma vez que conheço a irmã mais nova, Taissa Farmiga, de “American Horror Story”). Fiquei fã.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
NOS4A2 / Nosferatu
Ao contrário do que o título indica, não é uma série de vampiros. Também não é um anúncio à NOS [eheh, não resisti]. O título é um trocadilho como se usa nas matrículas americanas. Lendo as letras em inglês temos algo como NOS-four-A-two, que soa quase a “nosferatu”. Não é um trocadilho muito bom e na minha opinião é um daqueles títulos que parecem giros em teoria mas que na prática nos levam a pensar em tudo menos no tema da história. Eu pensei, sinceramente, das primeiras vezes que vi o título, que ia ser uma série de espionagem e que NOS4A2 era um código qualquer. ("NOS4A2" é um livro original de Joe Hill.) Felizmente tive curiosidade em perceber que raio significava aquilo porque a série é interessante. Mas na minha opinião é um título francamente mau, e daqui não saio.
Também é um título mau pela razão óbvia que já referi: não é uma história de vampiros, pelo menos no sentido tradicional. É uma história sobre pessoas com poderes psíquicos (a que a série chama “criativos fortes” e que eu também acho uma designação péssima, por isso aqui vou só chamar-lhes “criativos”) que podem ser usados para o bem ou para o mal. Charlie Manx, o vilão, usa os seus dons para fazer muito mal. Este “criativo” descobriu uma maneira de usar os seus poderes para viver para sempre: alimentando-se de almas de crianças, que, uma vez “sugadas”, se tornam uns monstros pálidos de longos dentes. Mas não vampiros, porque comem a carne das suas vítimas. Manx é que chama nosferatu a si próprio (a petulância!) ao usar o tal NOS4A2 na matrícula do carro. Manx é velho, muito velho. Nunca é dito ao certo mas dá a entender que tem pelo menos 100 anos, se não mais. E é um “criativo” mais poderoso do que todos os outros que já o tentaram travar até ao momento. Para começar, Manx criou um espaço ficcional, mas real (é preciso ver para compreender), chamado Natalândia (Christmas Land), que usa para atrair as crianças. Esta Natalândia, baseada em temas natalícios e fofinhos, é um local sinistro a lembrar o filme “Nightmare Before Christmas”. Ora, eu odeio o Natal e deu-me gozo. Aconselho vivamente a toda a gente que também odeia o Natal.
Charlie Manx tem outra ajuda sobrenatural, um carro com vida própria, tipo “Christine”, que aprisiona pessoas no banco de trás e se conduz sozinho. Este carro deve ser o elemento mais sinistro de toda a série. Penso mesmo que o “nosferatu” é o carro porque é dentro e através do carro que as almas são sugadas e o espírito vital é transferido para Manx. Por motivos que não são explicados, a vida de Manx está “ligada” ao carro e quando o carro é atingido Manx fica às portas da morte. Chatices de viver para sempre a qualquer custo.
Este vilão anda a raptar crianças há quase um século (isto é, tendo em conta a data de lançamento do carro, mas ninguém nos diz que ele não começou antes) quando desta vez leva uma miúda ligada a outra “criativa”, Vic McQueen, que decide fazer-lhe frente.
Por vezes esta série toca perigosamente na treta dos super-heróis, Super-Fulano que tem o poder de fazer X, Super-Fulana que tem o poder de fazer Y, mas felizmente não cai completamente nisto. A série mantém sempre um bom nível de cenas perturbadoras, algumas bastante inesperadas como aquelas que incluem Bing, o ajudante de Manx, e que me surpreenderam pela perversidade sexual digna de um “Pshyco” numa série que é praticamente Young Adult de terror e em que a maioria dos protagonistas é adolescente.
Para além do terror e do sobrenatural, a história segue o drama bem mais prosaico da jovem Vic McQueen, que por si só valia uma série de outro tipo. Vic é filha de pais pobres e separados, ele mecânico de motas, a mãe empregada de limpeza. O género de pais que casaram muito jovens por causa da gravidez acidental e que nunca ultrapassaram esse ressentimento de abdicarem dos seus sonhos. Vic quer ir para a faculdade mas é difícil libertar-se desse ciclo de pobreza. Por exemplo, quer pedir um empréstimo para estudar mas nem sequer tem declarações de rendimentos dos pais porque ambos são pagos em dinheiro para se esquivarem aos impostos. Desta forma, Vic não consegue provar a sua necessidade de apoio. Para se candidatar ao empréstimo tem de falsificar documentos. Identifiquei-me com os problemas dela e o final deixou-me com um sabor amargo. Afinal, Vic não teve de desistir dos seus sonhos por causa do sinistro Charlie Manx ou devido a motivos sobrenaturais, mas por sua própria culpa. E tive pena. Queria mesmo vê-la entrar na faculdade e quebrar o ciclo, mas no meio disto tudo ela perdeu de vista os objectivos.
“NOS4A2” nunca é uma série tão arrepiante como podia ter sido e nunca me conseguiu arrebatar, mas vê-se com prazer (ou inquietação, neste caso). O terror nunca nos assusta mas a história vale mais pela dimensão humana do que por qualquer pseudo-nosferatu.
Deixo uma última nota à maquilhagem e aos efeitos especiais, esses sim verdadeiramente excepcionais, que conseguem convencer-nos de que Zachary Quinto é mesmo um velho centenário. Também gostei do truque em que a rapariga enfia o braço no saco das peças de scrabble e o braço parece mesmo desaparecer lá dentro. Até chega a fazer alguma impressão. E gostei de todas as cenas em que Vic atravessa a ponte, de mota, com os morcegos a esvoaçar e a imagem a inverter-se no écran. O tipo de cena que nunca mais se esquece. Nem que seja só por estes pormenores, é uma série que merece ser vista. Mas sem demasiadas expectativas.










